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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Um Novo Paradigma para a Educação nas Artes Liberais?

Randall Smith
Tenho um amigo que acha que a maioria dos alunos contemporâneos estão de tal forma afastado da natureza que teriam de ser reintroduzidos a ela antes de se poder pensar sequer em ensinar-lhes sobre o direito natural e as virtudes.

A Wyoming Catholic College resolve este problema obrigando os alunos a montar a cavalo. Montar não é uma capacidade virtual em que nos possamos desenrascar. Os cavalos têm uma mente própria e para os conseguir montar é preciso ter a capacidade e a sensibilidade para as disposições do cavalo naquele dia. Montar um cavalo não é como brincar com números numa folha de cálculo e por isso é exatamente o género de coisa que os alunos deviam aprender a fazer.

Agora, talvez nem toda a gente possa ou deva aprender a montar a cavalo, nem que seja para poupar os cavalos à tortura de serem sujeitos a cavaleiros incompetentes. Os cavalos precisam de muitos cuidados e de espaço para poderem andar, e nem todas as universidades têm esses recursos. Mas podemos ensinar outras competências que requerem ingenuidade e atenção à realidade do mundo, e não apenas às vontades e aos desejos?

Tenho uma proposta radical. Todos os alunos deviam aprender um ofício com um mestre. Podia ser na área da canalização, electricidade, construção, agricultura, mecânica, carpintaria, mobília, ou outros. O objectivo principal seria ensinar os alunos uma prática que requer disciplina e excelência e onde os resultados são concretos e evidentes.  

Se não ligar correctamente os cabos eléctricos, a luz não acende. Se não colocar correctamente os tijolos, o muro cai. Se a canalização não for bem feita, aparecem fugas. Não há muito espaço para “individualismo criativo” e “voluntariedade autocentrada” quando se está a aprender tais ofícios. Se não o fizermos bem, a coisa não funciona.

E torna-se claro para toda a gente porque é que o mestre é “mestre” e porque o novato não é. Isto, como eu disse, seria o objectivo principal. Aprender um ofício para compreender que existem padrões de exigência e para poder depois aplicar isso ao desenvolvimento das virtudes.

Claro que a proposta é absurda, uma daquelas fantasias que os professores universitários inventam nos seus tempos livres.

Mas será assim tão absurdo? Não é propriamente uma coisa impossível de se fazer. Contratamos electricistas e canalizadores nas universidades a toda a hora. Será mais complicado contratar um mestre electricista que possa ensinar do que um académico de história que possa ensinar?

E pensem no que poderíamos dizer aos pais. Vamos treinar o seu filho segundo as melhores tradições das artes liberais. Mas está preocupado que não consigam arranjar um emprego para se sustentarem? (E sim, muitos temem isso mesmo), pois bem, mesmo que tudo o resto falhe, terá sempre uma forma de ganhar dinheiro como canalizador, electricista, mecânico ou alfaiate. Terá sempre um plano B.

Wyoming Catholic College
E, já que estamos nessa, todos sabemos que um bom canalizador ou electricista ganha mais do que a maioria dos miúdos que metemos a fazer trabalhos de seca num escritório. E se decidirem prosseguir os estudos podem sempre exercer esse ofício em part-time, de forma a conseguir pagar as contas.

Poderão esquecer-se do que aprenderam sobre história ou sobre química orgânica, e os conhecimentos sobre Shakespeare e Freud hão de mudar ao longo dos anos, mas tudo indica que, tal como andar de bicicleta, jamais se esqueçam de como ligar os cabos de um interruptor ou como construir uma cadeira. A tecnologia disponível pode mudar, mas com um bocadinho de tempo e formação hão de conseguir voltar aos eixos.

Como vêem, é uma proposta prática com potencial para aumentar as candidaturas ao ensino superior. Então porque é que não deve gerar grande interesse? Porque requer uma mudança de paradigma na forma como entendemos o ensino universitário. De acordo com a nossa forma de pensar, desenvolvida ao longo dos últimos oitenta e tal anos, as universidades são para trabalhadores administrativos. Os canalizadores não vão para a universidade – pelo menos não para aprender canalização – porque são operários.

Quero que fique bem claro que hoje, como sempre, de uma perspetiva cristã isto é uma valente treta. Os gregos antigos podem ter olhado com desdém para o trabalho manual, mas os cristãos não o podem fazer. Cristo trabalhou como carpinteiro durante a maior parte da sua vida. Todos os beneditinos, franciscanos e dominicanos que fundaram a educação cristã e as primeiras universidades trabalhavam, não eram aristocratas de Oxbridge.

Para além disso, os canalizadores têm tanto direito a uma educação nas artes liberais como qualquer outro. Algumas das melhores conversas que já tive sobre fé e filosofia foram com canalizadores, electricistas e muitos outros que passaram pela minha casa para arranjar coisas. São pessoas interessantes. Tentem discutir o problema do mal com uma mulher polícia que já foi baleada por traficantes. Tem uma perspectiva que falta à maior parte dos licenciados.

E para ser sincero, a maioria dos trabalhos de escritório requerem tanto uma educação universitária como a canalização. Eu rejeito a ideia de que um trabalhador não consiga subir na vida se não tiver acabado o curso. Quem é que fez das universidades os porteiros do sucesso empresarial? Não é essa a nossa função nem o nosso objectivo. É, isso sim, o que dizemos às pessoas, para nos mantermos em funções, mas mais tarde ou mais cedo o mundo vai perceber.

Não é preciso uma educação universitária para conseguir um emprego ou avançar para o próximo grau de liderança numa empresa. Devia querer uma educação nas artes liberais porque ela expande a mente e a alma. Se o ajudar a ganhar dinheiro também, então força!

Só não se esqueça de doar um bocadinho desse dinheiros aos seus pobres e esforçados professores, na universidade onde tirou o curso, está bem?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Caminhando com D. Francisco, rezando por Antónia Guerra

RIP Antónia Guerra
O Papa Francisco apelou esta quinta-feira a um “pacto educativo” e convocou um encontro para Roma em 2020 com esse objetivo, aberto a todos os que estão envolvidos nesta área.

O Papa reza pelo diálogo e insiste que “o caminho do cisma não é cristão”.

Surgiu esta semana uma notícia trágica sobre a morte de uma freira, brutalmente assassinada em condições terríveis. A Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal condenou o assassinato.


Conheça aqui o livro “Caminhando com D. António Francisco dos Santos”, do meu querido amigo Bernardo Corrêa d’Almeida. Por falar no saudoso bispo, o prémio com o seu nome foi entregue à APAV.

Estamos em tempo de campanha e, se repararem, nenhum dos partidos parece muito interessado em falar de eutanásia, um assunto que depois de anunciados os resultados será certamente apresentado como “fundamental” e “civilizacional” pelos do costume. Nada como ir vendo como é que a lei funciona na prática, nos países onde é legal,como faz este artigo do The Catholic Thing. Leiam e partilhem.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Suecos contra escolas religiosas e boas férias!

Ameaça perigosíssima ao bem-estar sueco
Ontem e hoje publiquei os últimos dois artigos sobre liberdade religiosa. Ontem vimos como um pastor baptista foi perseguido e expulso da Rússia, com a aparente conivência da Igreja Ortodoxa Russa e hoje vemos como o partido do Governo na Suécia quer acabar com todas as escolas religiosas no país.

Para a reportagem de hoje falei com Daniel Szirányi, da administração de uma das únicas três escolas católicas na Suécia, e a transcrição integral pode ser lida aqui.

Publiquei também as transcrições das conversas com o padre Jakob Rolland, sobre tentativas de proibir a circuncisão na Islândia, e com o Lorde David Alton, sobre a liberdade religiosa em geral, e no Reino Unido.

Já ouviu falar do Pálio de Cidadelhe? Não vai querer perder este tesouro escondido da Igreja portuguesa!


O Actualidade Religiosa vai de férias e volta apenas em Setembro. Claro que, se houver alguma notícia urgente, podem continuar a contar comigo e estarei também pelo Facebook e pelo Twitter.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Liberdade Religiosa nos quartéis e dia Mundial dos Pobres

Existe liberdade religiosa nas Forças Armadas? Os militares evangélicos têm dúvidas e o assunto foi discutido ontem numa conferência na Academia Militar. Leia e conheça o capelão do hospital das Forças Armadas que só pode trabalhar como voluntário.


Hoje é o primeiro Dia Mundial dos Pobres, mas em muitos sítios a data será assinalada no Domingo. Em Lisboa a Cáritas organiza uma caminhada, em Roma o Papa almoça com 1.500 pobres.

O Papa publicou esta sexta-feira uma mensagem a dizer que visita a Birmânia com uma “mensagem de reconciliação, de perdão e de paz”.

Terminou ontem a reunião plenária dos bispos portugueses. Na conferência de imprensa final D. Manuel Clemente falou sobre a (não) admissão de homossexuais no seminário e do padre madeirense que assumiu ter tido um filho. No campo da educação os bispos têm recados para o Governo.

Decorre no Vaticano um encontro sobre os cuidados no final da vida. O Papa enviou uma mensagem aos participantes, criticando tanto a eutanásia – que é sempre errada – como a distanásia.

quarta-feira, 29 de março de 2017

A Importância da Educação Católica

Randall Smith
“Toma, pois, cuidado contigo! Guarda-te bem de esquecer os factos que os teus olhos viram; que eles nunca se afastem do teu coração em todos os dias da tua vida. Ensina-os aos teus filhos e aos filhos dos teus filhos.” (Deuteronómio 5,9)

Há dois erros contrários, mas de igual gravidade, que são cometidos em relação à educação secundária católica. Ambos são bem-intencionados, mas são fatais para o futuro da Igreja.

O primeiro erro é tratar o colégio católico como se fosse uma escola pública mas com missa e depois começara a pensar nela como a maior parte das pessoas pensam sobre as escolas secundárias, como um meio para entrar numa “boa universidade”. Importa manter as notas altas, mas frequentemente essas notas estão dissociadas de qualquer capacidade real de fazer coisas como ler livros complexos, escrever prosa literária ou conseguir edificar um argumento consistente. “Manter as notas altas”, para quem pensa assim, tem mais a ver com pais e directores a dar na cabeça dos professores para aumentarem as notas e baixarem as expectativas do que com a aprendizagem real de matéria por parte dos alunos.

Algumas pessoas parecem acreditar que na universidade se dá uma espécie de transformação mágica. Que alunos aborrecidos por anos de educação de segunda categoria vão desabrochar miraculosamente no espaço de quatro anos. Eu sou professor universitário… Não vou dizer que isso nunca acontece, mas é um pouco como enviar o seu filho para a universidade na esperança de que aprenda a ser um jogador profissional de basquete. A maior parte dos jogadores, mesmo os que são mesmo muito bons, nunca passam das camadas universitárias e se não são verdadeiramente bons quando entram, é pouco provável que consigam melhorar num ambiente de mata ou morre. Os alunos que conseguem 12 no liceu raramente conseguem 20 na universidade.

Embora os defensores deste ponto de vista tendam a pensar que é bom os alunos irem à missa e confessar-se, raramente acreditam que as cadeiras de estudos religiosos valham muito tempo ou esforço. A substância da teologia, séculos de esforço intelectual de alto nível e profunda reflexão, conta para pouco, ao que parece. O que é mesmo importante é que o professor dessas matérias vá aos jogos e aos teatros, que apoie e que mostre que a teologia (Deus, a Igreja) se interessam.

Mas Deus livre esse mesmo professor de dar uma nota baixa que ameace as perspectivas de um filho ou de uma filha entrar numa “universidade de topo”. Não há fúria como a de um progenitor cujas esperanças de uma bolsa são prejudicadas por uma nota baixa em… teologia. É como não entrar em Harvard por causa de uma nota baixa em tricot. A indignidade! O absurdo!

Um erro menos comum (e contrário ao primeiro, mas de uma forma que o reforça) é cometido pelas pessoas que não querem saber da formação intelectual dos alunos, desde que a escola os “conduza ao Céu”. Desde que haja missa e confissões e o padre lhes pareça ortodoxo, tudo está bem. Raramente perguntam se os alunos estão de facto a aprender alguma coisa, se alguém está a conseguir ultrapassar as barreiras de cinismo adolescente e o barulho ensurdecedor da cultura, se estão a aprender a viver como cristãos católicos por desejo e desígnio, e não apenas por defeito. Se a escola se anuncia como “ortodoxa”, então está tudo bem.

Nem uns nem outros parecem interessar-se particularmente por uma educação distintivamente católica: a busca sistemática e profunda por uma compreensão da fé que inspirou séculos de grandes mentes, desde Justino Mártir a Agostinho, João Crisóstomo, Tomás de Aquino, Boaventura, Dante, Teresa de Ávila, Newman, Pieper, Chesterton e o Papa São João Paulo Magno. Foi a fé na unidade última da verdade que levou à criação, na Idade Média, dessa venerável instituição, a universidade. Séculos das mais profundas reflexões sobre a condição humana, na maior parte relegadas a prateleiras empoeiradas em troca de abraços, equipas desportivas, ciência, tecnologia, engenharia e matemática e mais uma assembleia sobre a ética sexual.

Claro que nenhuma destas coisas tem mal em si, mas quando levamos com miúdos na universidade que lêem e escrevem ao nível de miúdos do sexto ou do sétimo ano (não mais do que cinco páginas de leitura para trabalhos de casa e não mais do que duas ou três frases interligadas numa redacção); que sabem pouco mais sobre a sua religião do que o facto de que a Igreja Católica é contra o aborto e o sexo antes do casamento; que não sabem o que é o Pentecostes ou quem foram Abraão, Isaac e Jacob (isto é frequente); e que não só nunca leram Dante, Chesterton ou Newman como não fazem a menor ideia quem eles são, então desconfiamos que talvez alguém tenha as prioridades erradas.

O arcebispo Fulton Sheen foi uma das grandes luzes da última geração. Ele tentou partilhar com os leigos fiéis a riqueza da tradição intelectual católica, com discussões frequentes sobre Descartes, Pascal, Agostinho, Tomás de Aquino e muitos outros, para poder instruir os simples operários católicos e donas de casa que viam o seu programa de televisão. Acreditava claramente que esta era a melhor forma de ajudar os católicos a tornar a sua fé uma realidade viva por entre as complexidades do mundo moderno.

As pessoas que beneficiam de altos níveis de educação secular e enfrentam os desafios de uma cultura social e política complexa precisam de ter uma boa compreensão da sua fé. Caso contrário essa fé vai parecer-lhes infantil e tornar-se letra morta, uma casca vazia. Catolicismo sem convicção.

Quando é que as escolas católicas voltam a confiar, como o arcebispo Fulton Sheen, na inteligência dos fiéis leigos, ao ponto de poder deitar fora o lixo aborrecedor que actualmente traficam e dar aos jovens uma formação a sério? Nem cem páginas de um manual de teologia moderno valerão alguma vez uma única página das “Confissões” de Agostinho, da “Noite Escura da Alma” de São João da Cruz ou do Evangelho de João.

Esta educação é a herança dos nossos filhos. Só um tolo a trocaria por um prato de lentilhas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 29 de Março de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Um muçulmano, um cristão e um judeu entram numa escola... Quem fica mais tempo?

No mundo os cristãos tendem a ter mais anos de estudo formal do que os muçulmanos, embora ambos fiquem bem atrás dos judeus. Já em Portugal são os muçulmanos que estudam mais que os cristãos, mas sempre atrás dos judeus… São os resultados de um novo estudo feito pela Pew Research Forum, que tem outros dados interessantes sobre este assunto.

O terrível atentado do passado domingo, contra a comunidade copta no Egipto, foi reivindicado pelo Estado Islâmico. Quem estiver surpreendido que ponha a mão no ar…

Terminou definitivamente a batalha por Alepo. Depois de anos de divisão, a cidade está agora inteiramente controlada pelo regime. Agora temem-se eventuais atrocidades cometidas pelas milícias pró-regime. Entretanto em Beja saiu-se à rua em manifestação pela paz nesta e noutras partes do mundo.

Os padres de Bragança-Miranda vão aprender a “comunicar Deus”.

Devido à minha ausência poderão não ter dado pelo artigo do The Catholic Thing de há duas semanas, em que David Warren pergunta o que seria se a Igreja fosse dirigida apenas por homens do calibre do Leão de Münster. Saiba porquê aqui…

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Em Busca do Maravilhoso (e Porque isso Interessa)

Regis Martin
Há dias comecei uma aula com uma referência a algo escrito por Aldous Huxley há muitos anos. É uma observação que me parece tanto certeira como profética e que certamente valeria a pena transmitir aos quarenta e tal caloiros que se inscreveram em “Fundamentos do Catolicismo”, a cadeira que lecciono no primeiro semestre. Eis o que escreveu o autor de “Admirável Mundo Novo”, a famosa distopia do início dos anos 30:

“Outrora observava as estrelas com maravilha e deslumbramento. Agora, no crepúsculo da vida, olho para os céus da mesma forma como olho para o papel de parede desvanecido na sala de espera de uma estação ferroviária.”

Claro que nenhum dos meus alunos tinha ouvido falar de Huxley; nem tinham estado no interior de uma estação de comboios. Quanto a estrelas, imagino que tenham visto algumas, mas a experiência não os deve ter deslumbrado. Talvez se deva à poluição luminosa. Seja como for, aqui estava eu com menos de três minutos de palestra e já os tinha perdido.

O que é que se pode fazer para despertar nos jovens este sentido de maravilha e deslumbramento? Quando eu e a minha mulher vivíamos em Roma, depois de termos tido a nossa primeira filha, fui convidado para falar a um grupo de jovens que frequentavam um colégio interno de elite. Estávamos a falar sobre o casamento, e nenhuma palavra que eu disse causou a menor impressão.

Se não fosse a pequena Margaret, que estava a mamar silenciosamente ao fundo da sala, toda a experiência teria sido um desastre. Mas de repente ela começou a palrar insistentemente e chamou a atenção de toda a sala. Ficaram completamente hipnotizados.

Era como se um discurso maçador sobre a iniquidade da contracepção tivesse ganho vida com o surgimento desta prova inteiramente inesperada sobre as origens da vida. “Então o sexo afinal é sobre bebés? Cruzes! Porque é que eu não tinha ouvido falar disto antes? Agora percebo”.

Acabou por ser um desenrolar muito salutar. Nunca mais estas crianças imaginariam o nascimento de uma criança como sendo algo menos do que incrivelmente – aliás, milagrosamente – belo. Nem teriam grande facilidade em separar sexo de amor e – sim, isso mesmo – de vida. O nascimento de uma criança é mesmo, como escreveu o poeta americano Carl Sandburg, a opinião de Deus de que a vida devia continuar.

E não será esse o grande problema do mundo moderno? Simplesmente não aceitar a opinião de Deus sobre a vida? E por isso avança por aí fora, a esmagar tudo como um gigantesco rolo compressor. Ou, nas palavras daquela grande fraude Karl Marx, avaliando a modernidade, “tudo o que é sólido desvanece no ar”.

A vida moderna tem esse efeito sobre as pessoas, de esmagar o que apanha pela frente, reduzindo tudo a um estado de uniformidade saturante. Ou seja, uma igualdade perfeitamente previsível, como os Happy Meals que se compram no McDonalds. Que diferença faz se os compramos no Kansas, Califórnia ou Vermont? Saberá sempre ao mesmo.

O reducionismo está de tal forma instalado que hoje em dia não damos por muito espanto ou deslumbramento. Faz-me lembrar o meu velho amigo e mentor Fritz Wilhelmsen, que falava frequentemente daquilo a que chamava “a poesia do transcendente”, cujo desaparecimento do mundo moderno ele nunca deixou de lamentar, ao mesmo tempo que a mantinha brilhantemente viva para gerações inteiras de jovens que tiveram a sorte de frequentar as suas aulas na universidade de Dallas onde, por mais de 40 anos, sondou as profundezas do ser.

Porque é que existe algo em vez de nada? Esta é a questão mais escura da filosofia, segundo William James, e para nós, herdeiros da tradição metafísica do Cristianismo, a única resposta que finalmente nos satisfaz é Deus, cujo ser-amor transbordante não só dá existência ao mundo como o impede, a cada momento, de regressar de novo ao nada.

No seu “Comentário à Metafísica de Aristóteles” São Tomás de Aquino diz-nos que entre o poeta e filósofo existe um filamento de puro deslumbramento diante da realidade, diante daquilo que nos faz maravilhar e deleitar. A função do professor é mantê-lo vivo. Não o matem nem o negligenciem, porque quando se perder essa capacidade, quando o deslumbramento abandona a sala, o teatro acaba. Era esta capacidade de deleite que distinguia a mente medieval, enquanto que a moderna é caracterizada pela dúvida. E a consequência da dúvida, se for deixada à sua conta, é o desespero.  

Bem vistas as coisas o que torna o mundo misterioso não a sua forma nem o seu conteúdo, é o simples facto de ser. É esta visão que temos de recuperar para os nossos alunos. E para os seus pais também, já agora.


Regis Martin é professor de Teologia e membro docente da Veritas Center for Ethics in Public Life na Universidade Franciscana de Steubenville. É autor de meia dúzia de livros, incluindo mais recentemente “The Beggar’s Banquet”(Emmaus Road Publishing) e vive em Wintersville, Ohio, com a sua mulher e dez filhos.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 8 de Outubro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Guterres alegra pró-vidas, desporto e fé no Vaticano

Novo SG da ONU. A long, long time ago...
António Guterres vai ser o próximo secretário-geral da ONU. A nomeação do português, que é católico e pró-vida, já foi saudada por pelo menos um grupo de lobbying pelos valores da família na ONU e os bispos portugueses também elogiaram Guterres, nomeadamente o seu sentido de fé e de humanismo.

Está a decorrer no Vaticano um encontro dedicado ao tema da fé e do desporto. A esse propósito falámos com o autor de uma história da selecção de 66 e também com o nosso já conhecido IronPriest, o padre Ismael Teixeira, que em Agosto se tornou o primeiro a fazer um Ironman, uma das provas mais duras do desporto.

Já está a decorrer a peregrinação dos educadores de infância, que anunciámos aqui há alguns dias, saibam mais sobre o que move estes peregrinos, aqui.

O caso da paquistanesa condenada á morte por blasfémia, Asia Bibi, está a entrar numa fase decisiva. A questão vai ser debatida pelos deputados portugueses.

O Papa fez uma visita surpresa às vítimas do terramoto em Amatrice e ontem e hoje, menos surpreendentemente, encontrou-se com líderes anglicanos que estão em Roma para assinalar os 50 anos do encontro histórico entre o Arcebispo de Cantuária e o Papa Paulo VI.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Ecumenismo, "Lisbon Style"

Amanhã é Dia Internacional da Criança. Aproveite o dia, brinque com os seus filhos, mime-os, mas pare, nem que seja por uns instantes, para rezar por todas aquelas que não têm possibilidade de ser criança. Em particular, rezemos pelas crianças da Síria, juntamente com a Ajuda à Igreja que Sofre.

Começou esta terça-feira em Lisboa um encontro ecuménico que se realiza pela primeira vez em Portugal. Trata-se da reunião dos Conselhos Nacionais das Igrejas da Europa. Falei com D. José Jorge de Pina Cabral, bispo da Igreja Lusitana, sobre este encontro em que D. Manuel Clemente participará como conferencista.

Estamos em pleno debate sobre as 35 horas. O que é que isto tem a ver com a religião? Bom, tudo o que mexe com a vida familiar interessa á Igreja, como explica Pedro Vaz Patto, que considera que mais importante que 35 horas ou 40 é dar-se prioridade à família.

Volto a chamar a vossa atenção para o meu artigo sobre a polémica das escolas e dos contratos de associação, que publiquei ontem no blog e que está a gerar grande discussão, muito interessante e informativa, aliás, no Facebook. Aproveito também para partilhar este artigo do meu amigo José Maria Seabra Duque, bastante em linha com o meu, mas mais bem sistematizado e que vale a pena ler.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Contratos de Associação e outras guerras

Bob Dylan: Não é um padre da Igreja, mas quase...
Este fim-de-semana decorreu a grande manifestação dos defensores dos colégios afectados pelos cortes nos contratos de associação. A Conferência Episcopal deu o seu apoio à manifestação, embora, que eu saiba, nenhum bispo tenha marcado presença.

Há semanas que ando a evitar entrar nesta guerra, mas hoje acabei mesmo por escrever um texto de opinião. Julgo, sem me querer armar em especialista, que esta será a batalha errada e no meu texto defendo uma alternativa, que é o cheque ensino, e que me parece mais justa.

No sábado foi publicado mais um artigo da série que tenho feito sobre o jubileu da Misericórdia. Desta vez, com a ajuda do especialista padre Isidro Lamelas, olhamos para a misericórdia segundo os padres da Igreja. Uma conversa fascinante, com visões surpreendentes, onde até cabe o Bob Dylan e cinema italiano! Não deixem de ler, que vale a pena.

O Papa Francisco pede que haja mais disponibilidade nas paróquias e diz que até lhe apetece chorar quando vê os horários das paróquias.

Contratos de Associação – A batalha errada?

Yellow? Is it me you're looking for?
Dois pontos prévios… 1) Toda a vida andei em colégios particulares, nenhum dos quais com contrato de associação, mas tirei o curso numa universidade pública. Não é que isso seja particularmente importante, mas é para não me virem acusar de nada.
2) Os meus filhos andam num colégio privado, sem contrato de associação, pela simples razão de que a minha mulher trabalha na instituição e por isso é-nos simultaneamente mais prático e ao mesmo tempo economicamente viável por causa do desconto de que beneficiamos.

Dito isto, quero deixar claro que sou simultaneamente um ignorante em matéria de política educativa e também o maior especialista do país em política educativa. Não percebo nada da legislação nem dos programas escolares, ignoro as guerras dos professores e da Fenprof bem como o que se passa no Ministério. Mas enquanto pai de quatro alunos, com um quinto a caminho, sou o maior especialista que existe sobre aquilo que quero da sua educação e aquilo que espero para eles na escola.

Com estes preliminares esclarecidos, vamos á questão do momento… Os contratos de associação.

Pelas redes sociais e também pelas caixas de comentários das notícias da Renascença, que por vezes preciso de moderar, vejo que reina uma ideia muito simplista sobre esta disputa.

A ideia que se espalhou é que o Governo anda a sugar o tutano das escolas públicas para ajudar os donos dos privados a construir piscinas olímpicas para meninos ricos. Mas não… Na verdade o que está em causa, tanto quanto consigo perceber, é o entendimento que privados e Ministério fazem de um contrato assinado há um ano sobre o financiamento de turmas. É uma disputa jurídica e que provavelmente será decidida em tribunal.

Pelo meio há várias coisas que me parecem evidentes:
1)      Que os mais directamente afectados pelo corte do financiamento nos colégios serão os alunos com menos recursos.
2)      Que provavelmente existem mesmo casos de abusos, tendo sido assinados contratos de associação com colégios que não deveriam ter direito a isso.
3)      Que isto não pode ser uma simples guerra esquerda-direita, porque se fosse os autarcas do PS não estariam do lado dos colégios dos seus concelhos.
4)      Que em muitos casos os colégios que estão a ser ameaçados, longe de serem ninhos para as classes privilegiadas são espaços onde se aceitam os alunos mais difíceis, ou com necessidades especiais, e com jovens de todos os extractos sociais, onde o ensino é excelente.
5)      Que me cheira muito a esturro o facto de o Governo (os sucessivos governos) se recusarem a dizer exactamente quanto dinheiro custa ao Estado um aluno no público, já que sabemos já quanto custa nos colégios privados.

Mas claro que esta questão jurídica dos contratos de associação entronca numa disputa muito maior e é essa que me parece grave. Que visão é que temos do ensino em Portugal?

Nem isto...
A extrema-direita e a esquerda mais radical (que tem vários ganchos no PS) encara a educação como um instrumento para promover a igualdade. Para eles haveria apenas um programa, um sistema escolar, um pensamento. E o responsável por tudo isto deve ser, claro está, o Estado, todo-poderoso e omnisciente. Espanta-me como as mesmas pessoas que se queixam do Estado por tudo e por nada aceitam sem pestanejar que os burocratas que pelos vistos não pensam em mais nada se não roubá-los diariamente são os que se encontram mais bem colocados para educar os seus filhos.

Quer isto dizer que sou contra o ensino público? Claro que não! O ensino público e tendencialmente gratuito tem sido uma enorme benesse social. O que contesto é a monopolização do ensino por parte do Estado e a ideia de que devemos confiar cegamente não só neste Governo mas em todos os Governos, para toda a eternidade, como se fosse impossível voltar a ver um Estado totalitário e mau, no sentido mais puro da palavra.

Contra esta posição está a minha (que não me parece especialmente de esquerda ou de direita) que considera que o primeiro e último responsável pela educação dos meus filhos sou eu e a minha mulher. E que o Estado faz muito bem em querer educar as crianças do país, mas deve fazê-lo sempre em conjunto com os pais, e nunca contra eles.

É por isso que a Igreja, para espanto de muitos, está nesta luta. Porque esta é a visão da doutrina social da Igreja sobre a educação, como o Papa deixou muito claro na sua última exortação apostólica. Não se trata apenas de defender privilégios (até porque a maioria das escolas com contrato de associação não são católicas e a maioria das escolas católicas não tem contrato de associação), trata-se de combater aquilo que na sua perspectiva – e na minha – está na verdade por detrás desta tomada de posição do Governo, um ataque à subsidiariedade na educação.

Dito isto, o que acho em particular desta batalha dos contratos de associação? Acho, acima de tudo, que esta é a batalha errada…

Compreendo a luta dos colégios, estão em muitos casos a lutar pela sua sobrevivência, mas para mim isto resolvia-se de forma mais justa com a implementação simples do cheque escolar.

...nem aquilo.
Para quem não sabe, já vários países usam este método e este, sim, dá verdadeira liberdade de escolha às famílias, e não apenas às que vivem perto de uma escola com contrato de associação.

A ideia é simples. Eu pago (números inventados, obviamente) 400 euros por ano de impostos para a educação. Cada aluno custa ao Estado, no ensino público, 300 euros por ano. O Estado dá a cada família um cheque ensino por filho, no valor de 200 euros por ano. Se eu quiser inscrever os meus filhos num colégio, o cheque ensino serve para abater no custo das propinas. Se quiser mantê-los no ensino público, o cheque fica na gaveta, uma vez que unicamente pode ser usado para ensino. Mesmo que use o cheque, continuo a contribuir para o sistema público, e bem.

Se eu quiser colocar os meus filhos num colégio católico, posso. Se os quiser mandar para o colégio islâmico de Palmela, posso. Se os quiser meter na Escola Karl Marx Lenin, força! Desde que aprendam um conjunto de matéria básica essencial e moralmente neutra, o resto é comigo e com os pais de cada criança.

Não me parece complicado… Estarei enganado? Aceito de bom grado sugestões e correcções.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Chegou a Hora de Agir

Hadley Arkes
Na Era de Obama aquilo que em tempos era inimaginável na nossa política e no direito tem-se tornado gradualmente “normal”, de tal forma integrado nas nossas vidas que mal se dá por ele. Em Setembro, como já fiz questão de dizer, 177 democratas no Congresso votaram contra uma lei que puniria “cirurgiões” que matam bebés que sobrevivem ao aborto. Até católicos notáveis na imprensa não acham que o assunto seja suficientemente importante para referir quando entrevistam Hillary Clinton, Donald Trump ou outros candidatos.

E caso não tenham estado a prestar atenção às notícias das últimas semanas, houve outra questão recente que tornou o bizarro não só plausível mas mesmo obrigatório nas nossas leis. Um tribunal anulou a decisão da Comissão de Educação do Estado da Virgínia, que obrigava as crianças a usar as casas de banho nas suas escolas de acordo com o seu sexo biológico.

O juiz Henry Floyd, nomeado por Obama, decidiu a dar crédito à ideia de que a Lei dos Direitos Civis [Civil Rights Act], que proíbe a discriminação sexual, pode agora ser lida de forma a abranger a discriminação de “género”. Ou seja, que a lei pode ser usada para obrigar a respeitar a visão que um jovem tem da sua própria “identidade” sexual, independentemente da sua anatomia.

O artigo IX das Emendas da Educação de 1972 torna claro que ao proibir a discriminação sexual a lei não puniria as instituições de ensino por manterem “residências separadas, com base no sexo”. O sentido de sexo, aqui, era claramente de “homens e mulheres”, rapazes e raparigas, e seria muito pouco plausível por parte da administração promulgar uma lei tão claramente distante dos estatutos e do senso comum.

O juiz Floyd decidiu impor essa leitura da lei com base apenas num parecer escrito pela Divisão dos Direitos Civis do Departamento de Educação. Na mesma altura, a Procuradora-geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, acusou o congresso estadual da Carolina do Norte de violar a Lei dos Direitos Civis, fazendo uma leitura idêntica do estatuto.

O congresso estadual tinha anulado a política adoptada em Charlotte, consagrando o direito de pessoas “transgénero” a usar a casa de banho que quiserem, independentemente dos sentimentos de terceiros. A procuradora-geral fez acompanhar a sua decisão de uma ameaça de cortar os fundos federais que o sistema educativo da Carolina do Norte recebe, em todos os níveis de ensino.

Vou deixar de lado, por hoje, a questão da implausibilidade da fantasia do “transgénero”. O Dr. Paul McHugh, da Escola de Medicina da John Hopkins, deixou de fazer operações de mudança de órgãos sexuais. Segundo ele, os estudos revelam um triste encadeamento de depressão, bem como um desejo de “voltar atrás” quando se torna claro que a operação não consegue alterar os factos profundos da natureza sobre aquilo que nos constitui. Estes jovens confusos precisam de aconselhamento sério e não de cirurgia.

Neste momento o meu enfoque é outro. Aquilo a que estamos a assistir é, em primeiro lugar, a esquerda libertada de qualquer respeito pelo lugar da “natureza” e das restrições morais em matéria de sexualidade.

Estamos ainda a assistir a uma vontade por parte da esquerda de utilizar os poderes do Estado administrativo, separados de qualquer ligação plausível aos estatutos que, por si só, constituem as bases de autoridade das ordens administrativas.

E vemos ainda a disposição de alargar os poderes do governo federal de tal forma que tornam nulas as barreiras e as restrições do federalismo.

Entre 2001 e 2011, o financiamento federal das escolas na Carolina do Norte aumentaram em cerca de 400 milhões de dólares. Quando eu era mais novo, nos dias de Eisenhower, o financiamento federal da educação era uma questão séria. À medida que esses subsídios foram sendo alargados, tanto aqui como noutras áreas, temos visto crescer o poder do governo federal para manipular os Estados, chegando ao ponto de impor uma política perversa.

Já escrevi antes neste espaço, registando o meu desconforto, partilhado por muitos, sobre o facto de ter de escolher entre Clinton e Trump e, por enquanto, decidi-me pelo “joker” em vez da “Coisa Certa e Brutal”. Tenho amigos, porém, que dizem que mais vale esperar quatro anos, deixar a Hillary nomear o sucessor de Scalia [juiz do Supremo Tribunal que morreu este ano] e absorver o mal que for feito, em vez de arriscar ver o Trump transformar o partido conservador.

Mas temo que os meus amigos sejam demasiado optimistas. Subestimem seriamente a profundidade dos danos que podem ser infligidos se uma administração de esquerda encher os tribunais federais menores de juízes como Floyd. Esses juízes estarão mais que dispostos a defender as teorias dos intelectuais de esquerda sobre sexualidade e a extensão dos poderes executivos bem para lá dos limites da Constituição.

Estamos a subestimar seriamente o facto de que se estas novidades e corrupções continuarem durante mais quatro ou oito anos, poderão tornar-se de tal forma entranhados que serão impossíveis de desenraizar. Chegou a hora de homens e mulheres prudentes morderem o lábio e fazerem o que é preciso fazer.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 17 de Maio de 2016 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um Tempo Para Destruir, Um Tempo Para Edificar

Anthony Esolen
Literalmente no centro das atenções, marchando pelas principais avenidas de Toronto, homens e mulheres homossexuais voltam a exibir os seus corpos e a simular os seus comportamentos favoritos, isto apesar de uma lei municipal que proíbe a nudez pública. Estas exibições de pseudo felicidade num mundo decaído são cansativas. Algumas pessoas estão preocupadas com o assunto. Temem a violação das augustas leis canadianas, e isso é algo a que as crianças não devem ser expostas. Pessoas envergonhadas que se preocupam com a etiqueta da legalidade quando as leis de Deus, o bem comum, o bem-estar da família e a decência humana foram postas de lado!

De acordo com um artigo publicado na Life Site News, os defensores da nudez admitem perfeitamente que o propósito da parada é mesmo de poderem expressar a sua “sexualidade lasciva e hedonismo”. “A sexualidade ‘na sua cara’ é o propósito da parada”, diz um dos promotores. Outro acrescenta: “Quem não gosta pode ficar em casa com os filhos e ver ‘padres a violar crianças’ na televisão”.

Entretanto os dirigentes da Associação de Professores Católicos de Ontário (OECTA) decidiram juntar-se às festividades. Dizem que querem mostrar-se solidários com o grupo mais – lá vem a palavra inevitável – “marginalizado” de pessoas na Igreja Católica. Para quem está nas margens, fartam-se de aparecer. Não se consegue abrir um jornal canadiano sem se ouvir falar deles, dia após dia. Não se pode ver televisão durante um dia no Canadá sem uma chamada de atenção para os homossexuais. Pelos vistos, não se pode frequentar uma escola católica em Ontário sem levar uma ensaboadela sobre o assunto.

Mas há muitos católicos que não são marginalizados. Não são, porque nem sequer chegam às margens da página. Não chegam sequer a uma nota de rodapé. São perfeitamente invisíveis. É como se não existissem.

São rapazes que – bom, são apenas rapazes. Ninguém no Canadá se preocupa com o seu bem-estar desde os dias em que a polícia montada andava a cavalo e os canadianos tinham uma cultura. São jovens que procuram seguir a lei moral, que são ostracizados daquilo que passa por vida social nas suas escolas e colégios. São filhos de pais divorciados. São esposos abandonados, os seus casamentos dissolvidos contra a sua vontade.

São católicos que anseiam por missas solenes. São lutadores pelos direitos dos nascituros, que ficam satisfeitos se pelo menos não forem tratados com nada pior do que indiferença pelos burocratas de carreira no cartório. São pais que querem que os seus filhos vivam num mundo são e saudável.

Ninguém lhes liga nenhuma. Ninguém faz paradas para esta gente. Nunca verão Ontário a homenagear os jovens homens e mulheres que mantiveram os seus corpos puros, que escolhem casar virgens. Nunca verão a OECTA a marchar ao lado de idosos que criaram os seus filhos e se mantêm fiéis aos seus votos. Não, estes católicos, lutando para ser fiéis num mundo sub-pagão, adorariam chegar sequer às margens.
Pensem bem no poder que os membros da OECTA detêm. São eles, não os bispos, os párocos ou os pais, que controlam as escolas “católicas” no Ontário. Mas como disse o Papa Leão XIII em Sapientiae Christianae (1890), cabe aos pais católicos “a autoridade exclusiva para dirigir a educação dos seus filhos, como for conveniente, de um modo cristão; e acima de tudo mantê-los afastados de escolas onde haja um risco” note-se, um “risco” e não uma certeza – “de que lhes seja dado a beber o veneno da impiedade”.

Participantes da marcha de
orgulho gay em Toronto

Mas as nossas escolas estão organizadas para a impiedade. Dão a beber veneno não por acidente, mas por princípio. Não lidam com liberdade, que apenas pode ser conquistada pela virtude e o ordenamento das paixões, mas desordem. “O prazer”, diz Leão XIII em Libertas praestantissimum (1888), torna-se “a medida do que é certo; e, dado um código de moralidade que tem pouco ou nenhum poder para controlar ou apaziguar as inclinações desregradas do homem, abre-se naturalmente caminho à corrupção universal”.

Por outras palavras, podemos confiar nos membros do OECTA, mas para corromper. Quem estiver interessado em rebolar no lodo da estupidez tem apenas que visitar o site de algumas das empresas que impingem manuais aos professores das nossas escolas, tanto públicas como privadas. Isso não deve surpreender ninguém. Quem está disposto a marchar orgulhosamente pelas ruas de Sodoma não hesitará em continuar a parada, sob a capa dos livros que indica aos seus alunos.

Não há maneira de reformar um grupo como a OECTA. É evidente que temos o dever de tentar livrar indivíduos da estrada que leva ao fogo que não se apaga. Mas quando uma organização como esta começa a endossar cheques a belzebu – com os olhos bem abertos e orgulhoso do facto – não há outra solução que não destruir o edifício e queimar o entulho.

Dito de outra forma, chegou a hora de edificar de novo. Precisamos urgentemente de escolas católicas. Mas apenas se podem assemelhar superficialmente às actuais escolas públicas e pseudo-católicas. Isto é, haverá aulas de inglês e matemática e tudo isso, mas o melhor que temos a fazer é largar o resto. Não podemos contratar professores dos mesmos lotes. Não podemos usar os mesmos manuais. Não podemos imitar os mesmos hábitos loucos de instrução.

Não podemos aceitar a mesma visão de uma vida “boa”. Não podemos tentar disfarçar um tumor maligno com maquilhagem religiosa. Temos de regressar a uma educação católica: uma educação verdadeiramente humana.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 26 de Março de 2014 em The Catholic Thing)

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