quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Para estar atento em 2020 - Cardeal Pell

Manifestantes certos da culpa de Pell.
O caso pode não ser tão simples
Um dos momentos que se aguarda com maior expectativa neste próximo ano é a decisão do recurso ao Supremo Tribunal australiano do cardeal George Pell.

Todo o caso do cardeal Pell é muito estranho.

Contestado por muitos na Austrália pelo seu jeito franco e sem cerimónias, e elogiado por muitos outros pela mesma razão, ele é ainda uma das principais figuras do Catolicismo conservador naquele país.

Há vários anos foi acusado de ter abusado sexualmente de alguns jovens. Ao contrário de outros casos de suspeita de abusos, porém, as acusações contra Pell nunca pareceram muito convincentes. A crença na sua inocência não era uma reação irracional de católicos fervorosos incapazes de ver os pecados da Igreja, pois muitas das pessoas que o defendem estão na linha da frente nas críticas a outros clérigos acusados de abusos. Simplesmente as acusações nunca pareceram coerentes nem sólidas.

Mais, pareciam nalguns casos impossíveis e era fácil perceber que enquanto figura polémica e um dos principais clérigos da Austrália, era um alvo fácil de calúnias.

Por exemplo, uma das acusações era de que, enquanto padre, brincava com rapazes numa piscina local e, quando os metia aos ombros para os atirar à água aproveitava para inserir as mãos nos seus fatos de banho e apalpar-lhes os órgãos genitais.

Eu tenho filhos e tenho sobrinhos. A ideia de que seja possível ter uma criança aos ombros, lançá-la ao ar e, no meio de tudo isso, ainda aproveitar para meter a mão onde não é chamada, tudo isto numa piscina pública cheia de gente, é mais do que absurda.

O que finalmente levou Pell a ir a tribunal, contudo, foi outra acusação. Aqui ele era acusado de ter abusado de dois rapazes na sacristia da catedral, depois de uma missa. A acusação implicava que o cardeal teria abusado dos dois rapazes com a porta da sacristia aberta, numa altura em que passam dezenas de pessoas. Tudo isto apesar de o seu assistente ter garantido que nessas celebrações o arcebispo estava sempre acompanhado. Tudo isto apesar de um dos rapazes alegadamente abusados ter garantido à sua mãe, antes de morrer, que nada daquilo aconteceu.

Incrivelmente, Pell foi condenado. Não sou só eu que acho incrível. Este pivot da Sky News demonstra, claramente, que o episódio descrito pela vítima era absolutamente impossível de ter acontecido da forma como descreveu.



Um primeiro julgamento acabou com o júri dividido. O segundo terminou com uma condenação. No recurso dois dos juízes mantiveram a decisão, o terceiro, o único com experiência em processos criminais, disse que o relato era no mínimo inverosímil.

Temos de ter em conta que este processo não aconteceu num vazio. Aconteceu precisamente na altura em que o escândalo dos abusos sexuais na Austrália estava no seu auge e a opinião pública condicionada por isso. De tal forma que pelo menos dois estados já passaram leis que supostamente obrigam os padres a violar o segredo de confissão no caso de abusos sexuais.

É neste contexto que Pell é condenado e é por isso que toda esta história cheira a esturro.

O último recurso de Pell deve ser anunciado brevemente e será, quase sem dúvida, uma das principais histórias sobre a crise de abusos em 2020. Veremos o que acontece.

ADENDA: No dia 7 de abril de 2020 o Supremo Tribunal australiano decidiu, por unanimidade, absolver o cardeal de todas as acusações. Mais do que uma vitória para o cardeal, foi o sistema judicial australiano que foi absolvido. Foi uma longa Sexta-feira Santa para George Pell.


5 comentários:

  1. «Expetativa»? Vá lá, Filipe: nem você nem seja quem for em Portugal é - ou deve ser - obrigado a usar, a submeter-se, (a)o dito «acordo ortográfico»: este é ilegal, além de ridículo e prejudicial ao efectivo desenvolvimento cultural e educativo. Além de que entre os seus mais fanáticos «defensores» se encontram aqueles que também preconizam «mudanças progressistas» como o aborto generalizado, a eutanásia, o «casamento» homossexual e a «identidade de género». Se você não é esquerdista porque «escreve» como um?

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    1. Olá de novo Octávio.
      Acontece que se ler os textos que publico aqui, verá que não uso o acordo.
      Mas no trabalho sou obrigado a usar, porque a Renascença o adoptou.
      Assim, infelizmente, estou naquele ponto em que de vez em quando entra uma palavra ou outra, por força de hábito. Mas não é de propósito.
      Dito isso, não deixo de considerar a sua ligação entre o acordo ortográfico e a esquerda progressista absurda. Um dos maiores defensores do acordo que conheço é o linguista e historiador Prof. Luis Filipe Tomaz, que de progressista nada tem e conheço muita gente de esquerda que é contra o acordo.
      Abraço!

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    2. Filipe,

      absurda é a aceitação, a sujeição de indivíduos e de instituições fora do âmbito estatal - como, por exemplo, e precisamente, a Rádio Renascença - aos ditames totalitarizantes do AO90 - e, aliás, nem mesmo os que trabalham na Administração Pública são (deveriam ser) obrigados a usar o «acordês» porque o dito cujo é ilegal, é inconstitucional. O conformismo, e até a cobardia, de muitas pessoas neste país perante aldrabices inúteis e injustificáveis continua a espantar-me.

      E quanto à ligação entre o AO e a EP, que disse eu de errado? Acaso há dúvidas de que «entre os seus mais fanáticos "defensores" se encontram aqueles que também preconizam "mudanças progressistas"»? Afinal, foram Lula da Silva e José Sócrates que «desenterraram» o «cadáver». Não neguei, nem nego, que há excepções, como a pessoa que indicou, e outras, por(des)ventura algo ingénuas para perceberem todo o contexto.

      Este problema teve início com a instauração da república, quando uma das primeiras e principais medidas de Afonso Costa e dos seus capangas para reescrever e História e construir o «Portugal novo» e... progressista foi, logo em 1911, implementar unilateralmente a primeira «reforma ortográfica» - a «caixa de Pandora» original de que resultaram, nesta área, os problemas que ainda hoje temos. Que bom que seria, por isto e não só, podermos dizer que «A República Nunca Existiu!» ;-)

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    3. Uma das grandes penas que tenho é que não nos tenhamos conhecido a tempo de eu ter podido participar nessa obra! Se fizeres um segundo volume avisa-me.

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    4. Na verdade, cheguei a iniciar a preparação d'«A República Nunca Existiu! - Parte 2», com o objectivo de a publicar em 2010 - isto é, em plena «celebração» do centenário da república, e deliberadamente. Porém, e infelizmente, a editora (a mesma do primeiro), que havia assumido o compromisso de publicar o livro, consagrado inclusivamente num contrato assinado, decidiu desrespeitar, não cumprir, aquele, e num momento em que já tinha recebido alguns contos (e estava ainda num processo de convidar outros autores). Aqueles viriam a ser incluídos numa outra antologia por mim concebida e organizada, intitulada «Mensageiros das Estrelas»:

      https://fronteiradocaos.pt/loja/ficcao-contemporanea/mensageiros-das-estrelas/

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