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Thursday, 8 September 2022

Sinodalidades

O processo sinodal em Portugal tem gerado muito debate e controvérsia. Não estamos sós. Penso que em todo o mundo este processo tem gerado alguma confusão e diferenças de opinião. As pessoas de tendência mais conservadora tendem a ver o processo sinodal como um cavalo de Tróia para provocar mudanças nos ensinamentos da Igreja e as pessoas de tendência progressista esperam ver atendidas muitas das suas reivindicações. No meio de tudo isto, prepara-se um cenário perfeito para que todos se desiludam, uns porque o Sínodo não vai suficientemente longe, outros porque não vai longe de mais.

Tenho evitado escrever sobre este assunto, por uma série de razões, mas achei que nesta altura faria sentido escrever um curto texto a dar conta do estado actual do debate em Portugal, e apontando para os diferentes recursos que já existem.

Em primeiro lugar, temos o relatório do processo sinodal em Portugal, que pode ser lido aqui. O relatório é suposto ser um resumo dos diferentes relatórios diocesanos e foi elaborado por uma equipa de trabalho composta por sete pessoas, entre leigos e religiosos, nomeadamente Carmo Rodeia, Diretora do Departamento de Comunicação do Santuário de Fátima; Anabela Sousa, Diretora do Departamento de Comunicação da Diocese de Setúbal; Isabel Figueiredo, Diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja; Paulo Rocha, Diretor da Agência Ecclesia; Pedro Gil, Diretor do Departamento de Comunicação do Opus Dei; Padre Eduardo Duque, Diretor Nacional da Pastoral do Ensino Superior e Padre Manuel Barbosa, Secretário da CEP.

Diga-se o que se disser sobre o relatório, penso que dificilmente se pode fazer a acusação de este ser um elenco demasiado progressista ou demasiado conservador, muito menos de as pessoas envolvidas não serem sérias.

Há uma nota importante sobre este relatório que deve ser tido em conta. Ele não é o resumo apenas dos relatórios das 21 dioceses portuguesas, mas inclui ainda vários outros documentos que foram enviados por grupos de leigos e religiosos que pelas mais variadas razões não se enquadravam, ou não se sentiram enquadradas nos processos diocesanos. [Esta informação foi-me simpaticamente transmitida no dia 12/9 por um membro da equipa, e acrescentada ao texto no mesmo dia.]

Mal saiu o relatório surgiram críticas de que este não era verdadeiramente representativo da Igreja em Portugal. A primeira reacção foi na forma de uma carta aberta, que pode ser lida aqui. Seguem-se os nomes dos primeiros signatários desta carta, que pode ser assinada por outros através do link acima. Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, cronista do Observador e da Voz da Verdade; Mafalda Miranda Barbosa, Professora da Faculdade de Direito de Coimbra; Bernardo Trindade Barros, Advogado e Professor universitário; Gonçalo Figueiredo de Barros, Jurista e Empresário; Luís do Casal Ribeiro Cabral, Médico; Cónego Armando Duarte, Pároco dos Mártires, Lisboa; António Bagão Félix, Economista e Professor universitário; Pedro Borges de Lemos, Advogado; João Paulo Malta, Médico; Aida Franco Nogueira, Advogada; Paulo Otero, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa; Padre Mário Rui Leal Pedras, Pároco de São Nicolau, Lisboa.

Pouco depois de ter sido publicada esta carta, o Padre Peter Stilwell, ex-diretor da Faculdade de Teologia da Católica, e ex-vice-reitor da mesma universidade, escreveu um artigo publicado no Sete Margens em que revela que também ficou com dúvidas e frustrações em relação ao relatório, mas depois explica porque razão acha a Carta Aberta premeditada e desnecessária. É um artigo interessante que também vale a pena ler. (Full disclosure: o Padre Peter é meu tio e padrinho).

Entretanto surgiu uma outra carta, desta vez assinada por jovens, que também contesta o relatório, nomeadamente o seu “pendor negativista”. Pode ser lida e assinada aqui.

E, finalmente, temos uma outra proposta que me pareceu interessante por ser uma abordagem crítica, mas ao mesmo tempo construtiva. O Padre Duarte da Cunha e o Padre Ricardo Figueiredo juntaram-se, leram todos os relatórios diocesanos e elaboraram um relatório alternativo que consideram ser mais fiel aos textos das diferentes dioceses. Pode ser lido aqui. Contudo, deve ser tido em conta que este relatório alternativo não contempla os muitos outros documentos extra-diocesanos a que a equipa da CEP teve acesso, pelo que naturalmente existirão diferenças significativas.

Penso que estes são recursos suficientes para que os interessados se possam inteirar do tema.

Gostaria aqui de fazer apenas um comentário geral, evitando pronunciar-me sobre os conteúdos dos diferentes documentos.

Em primeiro lugar, devo dizer que apesar de estes documentos representarem alguma divisão na Igreja, o facto de existirem, e de as pessoas se sentirem motivadas para se pronunciar e contribuir, é um sinal positivo. Estamos perante pessoas que não concordam umas com as outras, mas penso que todos os textos são respeitosos e motivados pela vontade de contribuir para o bem da Igreja Portuguesa, no seio da Igreja Universal. O que é isso se não sinodalidade?

Outra coisa que noto, contudo, é um certo centralismo dos textos, que radicam todos da realidade de grandes centros urbanos, nomeadamente Lisboa. Obviamente não conheço todos os subscritores das duas cartas abertas, mas na primeira sei que todos são de Lisboa, ou vivem em Lisboa, excepto uma que vive e trabalha em Coimbra. Obviamente isto em nada invalida os seus argumentos, mas é preciso ter em conta que o relatório é um resumo de todos os relatórios diocesanos, e reflecte por isso a vivência de pessoas desde o Funchal até Bragança, e dificilmente essas vivências, preocupações e propostas se encaixam na realidade conhecida por pessoas que fazem a sua vida eclesial na capital e numa das maiores cidades de Portugal.

O mesmo se aplica, em menor dimensão, à carta aberta dos jovens. Aí temos subscritores de várias dioceses, nomeadamente: Aveiro, Coimbra, Lisboa, Porto, Portalegre-Castelo Branco, Évora, Leiria-Fátima, Funchal, Braga e Viana do Castelo. Nota-se um esforço louvável de inclusividade e maior representatividade, mas ainda assim são apenas metade das dioceses territoriais de Portugal.

Tudo isto torna ainda mais interessante o “relatório alternativo” apresentado pelos padres Duarte e Ricardo, pois esse parte directamente dos textos dos relatórios diocesanos.

Por fim, é possível que neste resumo me tenha esquecido de algum outro recurso que ajude a contribuir para esta discussão/processo sinodal. Se sim, agradeço que me informem, que terei todo o gosto em acrescentar.


Actualização: No dia 7 de Novembro acrescentei o texto de Leopoldina Reis Simões

Actualização: No dia 13 a CEP respondeu a críticas sobre o relatório.

Actualização: No dia 12 de Setembro acrescentei mais informação aos pontos sobre o relatório da CEP e o relatório alternativo do Pe Duarte da Cunha. 

Outros textos: 

Aqui outro texto de opinião que vale a pena ler, de José Maria Seabra Duque

Relatório sinodal: desafio a discernir e praticar juntosa renovação eclesial - Pe. Jorge Guarda

O que faremos deste texto? - Jorge Wemans

Conservadores e progressistas na fronteira do diálogo - Sofia Távora

O Relatório de Portugal, o caminho da sinodalidade - Maria Carlos Ramos

Ainda o Sínodo - Pe. Alexandre Palma

Sínodo sobre sinodalidade: Ninguém disse que seria fácil - Leopoldina Reis Simões



Monday, 26 October 2020

Covid no Lar e Pizzaballa na Terra Santa

Há um surto de Covid-19 na Casa Sacerdotal de Lisboa, o lar para padres idosos e reformados do Patriarcado de Lisboa. Por enquanto só um padre idoso tem sintomas. Saiba tudo aqui.

O Papa nomeou mais 13 cardeais. Entre eles o primeiro cardeal negro dos EUA, um do Ruanda e um do Brunei, de ascendência chinesa.

Francisco nomeou também o novo Patriarca Latino de Jerusalém. Trata-se do franciscano italiano que já servia como administrador há quatro anos, pelo que não foi uma surpresa total, mas os fiéis e o clero, de vasta maioria árabe, esperavam que fosse novamente um árabe a ser escolhido.

Nos dias em que estive de folga o Parlamento chumbou o referendo à eutanásia. Os bispos não se coibiram de criticar os deputados.  

Depois de ter publicado duas notícias com base numa entrevista ao padre Peter Stilwell, a semana passada, hoje deixo-vos com a transcrição integral da conversa, para quem quiser ler mais a fundo.

Não deixem de ler o artigo do The Catholic Thing dasemana passada, sobre como a candidata a juíza no Supremo Tribunal dos Estados Unidos é “intolerável”, como nós também devíamos ser.

Peter Stilwell sobre a Universidade de São José, em Macau e o cristianismo na China

Esta é a transcrição integral da entrevista que fiz ao Pe. Peter Stilwell. A entrevista resultou em dois artigos que podem ser lidos aqui e aqui.

Foi chamado para a Universidade de São José numa missão de "bombeiro", para apagar fogos. Sente que a deixou melhor do que a encontrou?

Acho que no conjunto dos oito anos, e graças ao trabalho de todos os que estão dentro da Universidade, e aos apoios que recebemos dos que estão fora, muitos dos projetos do professor Ruben Cabral que tinham sido desenhados, do novo campus e de ter uma universidade que pudesse ter critérios internacionais, foi possível realizá-los ao longo dos meus dois mandatos. Por isso, sem dúvida que os oito anos foram de crescimento e de estabilização e hoje a universidade é vista com respeito pelas outras universidades locais. 

Quando saiu de Portugal levava uma grande experiência académica, mas sempre em Portugal e na Europa. Foi fácil adaptar-se à realidade asiática?

Macau tinha um sistema de ensino superior muito nos primórdios. A primeira universidade propriamente de Macau, a Universidade de Macau, foi criada em 1992, exatamente 20 anos antes de eu ir para lá. Tinha havido uma outra universidade antes, que era uma universidade particular, mas foi criada por gente de Hong Kong, para Hong Kong, como Universidade da Ásia Oriental porque não puderam criá-la em Hong Kong. Foi essa que foi comprada pelo Governo de Macau e foi desdobrada num politécnico, na Universidade de Macau e numa universidade aberta que mais tarde seria comprada por uma entidade particular e se tornou a Universidade Cidade de Macau. 

Portanto quando eu cheguei a Macau as universidades estavam a pensar reorganizar os seus estatutos, ter uma nova lei do ensino superior que pudesse corresponder às exigências que o ensino superior tem hoje em dia a nível mundial, todo o processo de Bolonha tinha sido introduzido na Europa e depois com impacto mundial no princípio deste milénio, por isso tudo era bastante recente. Eu tinha a vantagem de ter assistido aqui e ter sido responsável na Faculdade de Teologia pela adaptação da Universidade Católica ao sistema de Bolonha, portanto conhecia por dentro as exigências desse sistema e que nos tinha levado a repensar o que era o ensino superior e como se podia desenvolver. 

Portanto eu levava muitas vantagens e coincidiu ser num momento em que a própria região autónoma de Macau estava a desenvolver o seu ensino superior para uma nova etapa.

E a nível da relação com as autoridades chinesas?

Quando pensamos em Macau temos de pensar em duas autoridades. Temos a autoridade regional e depois temos o Governo central que está presente no território com duas grandes entidades, os Negócios Estrangeiros e Segurança, porque isso está a cargo de Beijing e a região autónoma é depois supervisionada por um gabinete de ligação e esse gabinete de ligação tem um setor responsável pela educação e que acompanhou o que nós íamos fazendo. De vez em quando a nossa equipa ia sentar-se à mesa para explicar o que é que estávamos a fazer e eles acompanharam-nos sempre com muita simpatia e muita boa-vontade, dando-nos algumas orientações. Perguntámos como é que viam a Universidade de São José e diziam que a viam como uma entidade que mantinha a ligação com a Europa, enquanto que as outras universidades locais estavam a tender, sobretudo na área do Business, para se articularem com os Estados Unidos e com o Canadá e eles achavam que a ligação com a Europa e a maneira de gerir negócios na Europa era muito importante e que não se perdesse esse ponto de vista. 

Também a ligação aos países lusófonos, achavam que nós tínhamos uma posição privilegiada pela nossa ligação com a Universidade Católica, porque um número significativo dos professores da Universidade de São José é oriundo da Universidade Católica Portuguesa, portanto havia várias possibilidades de nós enriquecermos as ligações com os países lusófonos. E gradualmente ao longo dos oito anos foi-se sentindo que a Universidade de São José era cada vez mais solicitada para fazer coisas que interessavam localmente, mesmo ao Governo central. 

Um dos seus objetivos quando foi para lá era conseguir que alunos da China continental fossem estudar para a Universidade. Não conseguiu. Foi um fracasso?

A Igreja Católica está em Macau há mais de 400 anos a tentar posicionar-se na China de maneira a tornar presente a mensagem do Evangelho e tem, ao longo desses 400 anos, tido avanços e sofrido recuos. E, portanto, não me surpreendeu que fosse uma coisa lenta conseguir a autorização para que os alunos da China viessem estudar para a Universidade de São José. 

Um pouco como o Vaticano, também a China pensa em décadas e séculos mais do que em anos e eu percebia nas entrelinhas que lhes fazia alguma confusão que a Igreja dedicasse tanto esforço à construção e implantação de uma Universidade e que isso não fosse para criar adeptos da Igreja Católica. Um dos altos funcionários do Estado perguntou-nos se obrigávamos os alunos a rezar no início da aulas, se os obrigávamos a ir à missa, se os obrigávamos a estudar catequese e nós explicámos que não, que não perguntávamos a religião das pessoas ao inscreverem-se, nem ao sair da Universidade, que os princípios cristãos eram os que estavam presentes na gestão da vida comum da Universidade e na maneira como geríamos a vida universitária, o que não é difícil, já que as universidades nasceram no seio da Igreja Católica, na Idade Média europeia. Havia esse receio, portanto acho que há um compasso de espera enquanto as autoridades esperam para ver se a Universidade é perigosa. 

Há que acrescentar aqui um elemento que se torna circunstancialmente importante, que é a questão de Hong Kong. Porque certos grupos dos jovens que animaram estas manifestações que tem havido em Hong Kong vieram dos quadros de escolas cristãs – não só católicas – portanto aos olhos das autoridades estão marcados como sendo de proveniência cristã. Não fazem imediatamente confusão, mas andam um bocadinho de pé atrás. 

Mas voltando à questão inicial, porque é que a Igreja investe tanto na educação, se não quer criar mais adeptos? E fomos explicando que é uma das obras de misericórdia, ensinar. Um dos altos funcionários dos Negócios Estrangeiros, perguntei-lhe onde tinha estado antes e disse que tinha estado na Índia, e eu perguntei se tinha visitado a casa da Madre Teresa de Calcutá, e ele disse que sim, que ficou muito sensibilizado com o trabalho delas. E eu disse que ela tinha esse princípio que acolhia pessoas indiferentemente da religião e não as procurava converter à força. E isso é porque a nossa experiência cristã, uma das vertentes da nossa experiência espiritual, é encontrar Deus nessas obras de misericórdia, seja no cuidado pelos pobres, no ensino aos ignorantes, isso faz parte da experiência tipicamente cristã. Não sei se ficou convencido, mas era a minha justificação repetida às autoridades. 

Houve protestos muito graves em Hong Kong, mas Macau também teve leis semelhantes e não houve protestos significativos. Como é que se explica esta diferença?

Quando houve os acordos para Hong Kong e depois Macau voltarem à soberania chinesa, ou à administração chinesa – porque no caso de Macau a soberania chinesa existiu sempre – foi acordado que os negócios estrangeiros e a segurança nacional pertenciam a Beijing, como acontece connosco com os Açores e a Madeira, são regiões autónomas, mas debaixo da soberania nacional. Ficou acordado também que cada uma das regiões iria elaborar a sua lei de segurança nacional. Foi uma concessão por parte de Beijing que fossem os parlamentos locais a decidir sobre uma lei que, claro, levaria o placet de Beijing. Macau avançou e fez a sua lei, que foi aprovada e a lei de Macau mantém tudo dentro de Macau. Se há casos considerados de perigo para a segurança nacional são julgados pelos tribunais de Macau e ficam dentro de Macau. No caso de Hong Kong tem havido esta longa sessão de protestos que remonta já há uns tempos e Hong Kong avançou com uma proposta de lei de segurança que foi chumbada, por assim dizer, nas ruas, pelas manifestações e a recusa da oposição no Parlamento em discutir e votar a lei.

Passados anos, e tendo aumentado os protestos em Hong Kong, o Governo central disse então fazemos nós e aplicaram uma lei de segurança nacional que é pior do que aquela que estava prevista pelas autoridades de Hong Kong, porque estabelece que conforme a gravidade dos crimes, segundo as autoridades locais e as centrais, as pessoas podem eventualmente ser extraditadas de Hong Kong para serem julgadas por um tribunal na China continental. Isso é bem pior – na perspetiva dos manifestantes de Hong Kong – do que aquilo que aconteceu em Macau e do que aquilo que eles chumbaram. 

Universidade de São José

Há uma diferença na forma como macaenses e Hong Kong vivem a relação com o Governo central da China?

Macau é muito pequeno, são 700 mil habitantes. Hong Kong são sete milhões. É quase o tamanho de Portugal, em termos demográficos. Portanto há aí uma diferença substancial. Hong Kong tem o estatuto de um grande centro financeiro mundial que ombreava com Nova Iorque, Londres e os grandes centros mundiais da Finança. Era um lugar onde as empresas que queriam negociar com a China vinham estabelecer as suas bases e, portanto, tinha um estatuto económico e cultural, sentia-se seguro de si próprio. 

Hong Kong também é composto em grande parte – se as minhas informações estão corretas – por gente que se refugiou da invasão dos japoneses, das guerras civis na China, enfim, gente que saiu da China e que eventualmente nunca esteve de acordo com o que aconteceu no final da Guerra Civil. Um pouco como aconteceu em Taiwan.

Já Macau existe há 450 anos, tem uma população luso-asiática, a comunidade macaense, que está lá há gerações, à volta da qual se constituíam mais duas comunidades ou três, uma de chineses vindos para trabalhar ou em fuga, mas que eram menos; filipinos de língua inglesa que vinham trabalhar e com portugueses que vinham agora mais recentemente por causa das crises económicas na Europa e em Portugal que iam lá trabalhar.

No centro está esta comunidade que faz a ponte entre a cultura chinesa e a ocidental há séculos e que conhece e sempre soube gerir estas relações com a China continental ao longo de mudanças de regime, de imperadores, de dinastias, sabendo que às vezes é preciso recuar, outras avançar nestas negociações, é preciso ter calma, não ser confrontacional e isso explica um pouco a diferença. Eu notei, nas pessoas com quem lidava e contactava, que havia algum receio de um "spillover" de Hong Kong para Macau. 

Houve uma ou outra pequena manifestação a certa altura, há uns anos, mas depois as pessoas viram que em Hong Kong aquilo estava a levar a uma situação que ninguém queria para Macau, de instabilidade e insegurança nas ruas, e, portanto, não notei que houvesse grande tentação. 

As autoridades estavam preocupadas com as universidades e perguntavam-nos que medidas é que tínhamos. Nós respondemos que tínhamos as medidas que eram habituais em todo o mundo, que o campus universitário não era espaço para debates politico-partidários, esse género de coisas, mas nunca sentimos que da parte dos nossos alunos houvesse movimentação que notássemos. 

Sei que houve um momento mais difícil com um docente que criticava abertamente o regime de Beijing e por isso foi afastado. Foi criticado por isso. Acha que tomou a decisão certa?

Fui o responsável. Não posso deixar de pensar que agi bem. O processo está em curso, nos tribunais, sei que haverá uma audição agora no dia 17 de novembro. Espero que seja a última e que seja possível ver como uma autoridade independente, como são os tribunais, ajuíza uma decisão sem dúvida difícil na altura.

Durante os seus mandatos celebrou-se o acordo entre o Governo da China e o Vaticano. Como é que recebeu esta notícia?

Foi com surpresa. Eu sabia que as negociações estavam em curso, mas depois na última fase não sabia que tinham chegado ao ponto de assinar o acordo. Depois ninguém o viu, portanto não sabemos exatamente o que lá está escrito. E não foi assinado pelos tops, não foi assinado pelo Papa e pelo Secretário de Estado do Vaticano e um ministro do Governo chinês, foram figuras de segunda linha que terão assinado esse documento. 

Ele terminou em setembro e estão em curso negociações para saber se se prolonga através de um novo acerto [NOTA: O acordo já foi renovado por dois anos]. Abrangia, pelo que conseguíamos perceber, a nomeação dos bispos, que é sempre uma questão delicada, e não se sabe muito bem o procedimento, mas parece que Beijing avança com dois ou três nomes e o Vaticano tem a última escolha. Pode dizer que sim ou que não. E se disser que não haverá outra seleção a seguir. Havia um acordo semelhante com Espanha no tempo de Franco, portanto não é uma coisa que seja estranha à tradição da Igreja. No Século XIX houve entendimentos desse género com vários países. O que faz mais confusão às pessoas é que seja um regime comunista, que se diz aberta e publicamente ateu, a escolher os dirigentes da Igreja Católica. Mas isso faz parte da própria visão que o regime tem de si próprio. 

A China não se entende como um Estado acima dos partidos, mas como um partido acima do Estado. É uma visão diferente. É um pouco o prolongamento da visão que tinham os imperadores, portanto havia toda a administração burocrática, que no Ocidente dizemos que são os mandarins, que eram supostamente um regime meritocrático, ou seja, as pessoas entravam na função pública através dos seus méritos, através de exames públicos. O próprio Matteo Ricci e os jesuítas entraram para a China e entraram em diálogo com as autoridades chinesas através desse processo, fazendo o exame e tornando-se funcionários públicos. Mas acima dessa função pública, semelhante à nossa ideia de Estado, havia o imperador e o imperador não era governado por nenhuma outra lei a não ser o que era considerado o mandato celeste.

Desde que ele, ou ela, contribuísse para que o Povo se desenvolvesse harmonicamente, e havia esta ideia da harmonia com a natureza e com o Céu, então o mandato do Céu ia-se prolongando. E há um pouco essa continuação, um pouco parecido com o absolutismo régio que tínhamos no ocidente, em que os reis consideravam que eram reis por direito divino, que estavam acima dos parlamentos. O partido considera-se sucedâneo disso e enquanto o partido contribuir para que o povo se desenvolva, que viva em harmonia, que possa ganhar projeção mundial – e olhando para os últimos 30 anos da China ela posicionou-se como não se tinha posicionado há mais de mil anos, é a segunda potência mundial em termos económicos, e há muitos chineses que ainda se lembram dos tempos da fome e de comer grilos porque não havia outra carne para comer. 

Portanto este desenvolvimento como que garante que o Partido tem legitimidade para governar, está acima dos tribunais, dos parlamentos, etc., e há essa perspetiva, mesmo em relação às igrejas é o partido que tem a última tutela para dizer o que contribui ou não para o desenvolvimento da sociedade e é isso que faz confusão quando vemos estas negociações. 


Aquilo que se chama a Associação Patriótica tem diversos ramos, tem um ramo para cada uma das religiões reconhecidas na China e aí cabem o Budismo, naturalmente, o Islão e dentro do Cristianismo as autoridades chinesas vêem duas religiões, o Catolicismo e o Protestantismo. E cada uma delas tem os seus responsáveis centrais, uma espécie de tutela do Partido Comunista e supostamente as autoridades dentro de cada uma delas tem de assinar, para ser reconhecido publicamente, um reconhecimento da soberania do Partido. Portanto os bispos têm de fazer isso, é o que se quer dizer quando se diz que é exigido aos bispos tornarem-se membros da Associação Patriótica, ou o padre assinar a dizer que reconhece a autoridade do partido. É uma coisa que causa algum conflito de consciência para os padres que tenham estado fora desse sistema, portanto na chamada Igreja Clandestina, ao entrarem agora para uma China em que as duas comunidades supostamente devem estar a harmonizar-se porque o Vaticano assinou com o Governo chinês, ao saírem da clandestinidade têm de assinar um acordo de reconhecimento do partido. 

Houve muitos críticos em relação ao acordo – o cardeal Zen é um dos exemplos – mas a maior parte dos críticos apontam para o facto de a perseguição aos cristãos estar a aumentar com a atual administração da China. É justo misturar as duas coisas?

Eu não isolaria a Igreja Católica disso. Um dos discursos nos primeiros anos do Xi Jinping foi para os membros do partido. É preciso lembrar que o PCC tem 100 milhões de militantes, portanto é dez vezes o tamanho de Portugal em militantes, e ele fez um discurso muito contundente, falando da questão da corrupção e recordando que o partido é ateu e não se pode ser membro de uma religião e do partido. 

O facto de ele ter identificado essa questão da religião dá-nos a entender que provavelmente havia membros do partido que se sentiam sensibilizados pelo Taoismo, ou pelo Confucionismo e eventualmente por outras religiões. Portanto o apelo ao ateísmo surgiu daquele que é hoje em dia o homem com mais poder na China desde Mao Tsé Tung, que é Xi Jinping e é compreensível que num país da dimensão da China haja quem queira avançar com os seus projetos, com a sua carreira, e se queira mostrar mais papista que o Papa e portanto quando se deitam abaixo igrejas, ou se retiram cruzes, é bem possível que haja gente a ultrapassar o que se faria em Beijing. Em Beijing não se vê isso, não se vêem igrejas a serem fechadas forçosamente, longe disso. 

Portanto é preciso matizar e perceber que talvez não seja a mesma imagem em todo o lado. É evidente que não há amizade para com as religiões, foi implementada uma lei que, segundo me dizem já existia mas que caiu em desuso, que proíbe a entrada nas Igrejas de jovens entre os seis e os 18 anos, portanto eles não se vêem nas igrejas. Isso é supostamente para que os jovens não sejam desencaminhados pelas "falsas doutrinas" das religiões.

A meu ver é uma faca de dois gumes. Atinge as comunidades, eu participei em missas em vários lugares da China e notava-se que havia bebés nos braços das mães e depois havia gente a partir dos 20 e tal anos, mas não havia ninguém de idade intermédia, nem entre os acólitos. 

Isso levou-me a pensar que às vezes o fruto proibido torna-se apetecível e portanto pode ser que isto acabe por sair o tiro pela culatra e os jovens poderão querer saber o que é isso que lhes estava proibido e quem sabe se não vai levar a que haja mais fiéis. 

Encontrei vários jovens nas minas viagens pela China, que não foram muitas, mas encontrei vários que se tinham aproximado do Cristianismo, uma do catolicismo e outra do protestantismo, outro que fez a viagem entre ambos, tornou-se católico mas depois por razões de trabalho deslocou-se para outra zona do país onde só havia comunidades protestantes e portanto ia às comunidades protestantes e depois ficou com problemas de consciência, de que talvez tivesse passado de uma religião para a outra. Mas em termos capilares o que está a surgir é uma inquietação religiosa entre as pessoas, uma procura e as pessoas estão a bater à porta das igrejas. 


Que futuro é que vê para o catolicismo na Ásia?

Como se sabe, excetuando as Filipinas e Timor-Leste, o Catolicismo e o Cristianismo em geral na Ásia é ultraminoritário, não tem nada a ver com a nossa visão na Europa, Estados Unidos, América Latina ou mesmo na África, onde o Cristianismo acaba por ser a religião marcante. Depois no Médio Oriente temos o Islão, na Indonésia temos o Islão e naquelas zonas da Ásia é o budismo ou, no caso da China, os restos de religiosidade popular que renascem. 

Quanto ao futuro da Igreja, e é essa a preocupação do Papa, estou convencido, é de que na China o crescimento do Cristianismo é muito grande. 

Diz-se que no ano 2030 a China ultrapassa o Brasil como maior país cristão do mundo. Apesar de isso continuar a ser uma minoria da população. 

Há um outro fator interessante presente, que as autoridades chinesas eventualmente têm consciência ou não, não sei, mas ao introduzirem o comunismo e o capitalismo na China como grandes fatores para o desenvolvimento económico e a articulação social do país, introduziram dois sistemas que têm raízes judaico-cristãs. e portanto que têmm uma antropologia que é estranha à antropologia confuciona e budista. Portanto está na matriz económica e do desenvolvimento económico e social, um gérmen cristão que faz com que quando as pessoas se inquietam com o sentido das suas vidas as religiões que mais correspondem ao tipo de desenvolvimento em curso são as religiões ou protestante ou católica, e portanto o crescimento dessas religiões dentro da China. 

Essa é a minha impressão neste momento. O que pode acontecer a médio prazo só Deus sabe. 

Falámos de perseguição às igrejas. Enquanto estava em Macau chegavam-lhe ecos daquilo que se passa com a comunidade muçulmana na China, que está a ser muito duramente perseguida? 

Chegavam, a maior parte delas através dos meios de comunicação ocidental. 

Tínhamos acompanhado com alguma preocupação notícias do interior da China de atentados à faca em Beijing e noutros pontos do país, que eram depois atribuídos a gente inquieta da zona de Xinjiang, portanto os uigures e muçulmanos, e agora chega-nos esta notícia de grandes campos de reeducação. Vamos ver o que é que dá. É um sinal do tipo de regime, mas também do medo que o regime tem ao criar esta dinâmica da rota da sede, de retomar a rota da seda, que todos aqueles estados que ficam a ocidente do norte da China, são todos países de maioria muçulmana e portanto há medo de que aquela luta interna que o Islão vive neste momento pelo seu coração, que tem dado origem a vários grupos extremistas, possa vir a ter influência na China, e a estabilidade social é uma coisa fundamental para o Governo. 

A identidade portuguesa de Macau está para ficar?

Acho que sim, no sentido de que estão lá essas famílias luso-asiáticas e com passaporte português, porque na altura da transição foi dada a oportunidade aos macaenses de obterem passaporte português e muitos têm. Muitos não falavam português, mas fizeram o passaporte para o que desse e viesse. E depois descobriram que isso lhes dá acesso à União Europeia, dá acesso aos seus filhos às universidades na Europa, pelo preço dos europeus, e portanto isso, acompanhado da ideia de que o Governo central abençoou a relação com países lusófonos e que tem muita preocupação com isso, porque tem consciência de que a sul do equador a língua mais falada é o português, no Brasil, Angola, Moçambique e o pequeno Timor, levou a que o prestígio de Portugal tem vindo a subir na China. 

Houve um impacto, um reflexo em Macau. O Governo central também disse a Macau que Macau devia ser a plataforma de encontro entre a China e os países lusófonos e quando Macau não tem feito o suficiente nessa área o Governo tem espicaçado e tem substituído pessoas e mostrado que isso não foi simplesmente uma coisa escrita num papel, é um interesse que se desenvolveu. Portanto neste momento estuda-se mais português, fala-se mais português em Macau, na comunidade chinesa, do que no tempo da administração portuguesa. 

O seu sucessor é um diácono galês, mas é da diocese de Southampton. Que conselhos é que lhe deixou?

Ele teve dois ou três anos na Universidade. Por sugestão minha, quando o bispo mostrou interesse em ter esta pessoa como futuro reitor sugeri que ele se adaptasse conhecendo a partir da base o que era a universidade, portanto ele foi diretor da Faculdade de Estudos Religiosos, ou seja, de Teologia, conheceu a Universidade Católica, participou em atividades da Federação Internacional de Universidades Católicas e portanto conhece a universidade por dentro. Eu pude-lhe dar alguns conselhos, mas grande parte daquilo que tinha acontecido na Universidade estava no papel, nos procedimentos instituídos. Ele teve a sorte, por assim dizer, de que para o ajudar agora nas relações com as autoridades chinesas o reitor da Universidade Cidade de Macau, que era a nossa rival, quis vir para vice-reitor dele, portanto eu sinto isso como um elogio ao trabalho feito, porque a Universidade ganhou prestígio suficiente para uma pessoa sair de reitor de uma universidade e querer vir para vice-reitor de outra. Ele é um chinês, com experiência também fora da China, nas altas esferas do ensino superior na China e espero que consiga ajudar a fazer pontes com a China. 

E agora?

Acho que o merecido descanso, para mim, para os alunos e para os colegas. Falaram-me de no próximo ano poder eventualmente dar uma cadeira a nível dos doutoramentos; estou a ajudar a Faculdade de Teologia a constituir o seu Conselho Estratégico e pediram-me para retomar o projeto Cinatti na Universidade. O Patriarca pediu-me para retomar o departamento do diálogo inter-religioso e das relações ecuménicas, e por isso já tenho coisas mais que suficientes, e estou ainda a arrumar a casa! Tenho muita coisa para arrumar. 

Tuesday, 20 October 2020

Líderes pela paz e gérmenes de Cristianismo na China

O Papa Francisco presidiu esta terça-feira a um encontro internacional pela paz, juntamente com outros líderes religiosos mundiais. Francisco disse que o “evangelho do salva-te a ti mesmo” não é o Evangelho da Salvação e responsabilizou os políticos do mundo pela construção da paz.

No final do encontro todos os lideres presentes assinaram uma declaração conjunta pela paz, dizendo que a guerra é um “falhanço da política e da humanidade”.

Hoje olhamos para Macau, de onde regressou recentemente o padre Peter Stilwell, que foi durante oito anos reitor da Universidade de São José. O padre Peter faz uma análise muito interessante sobre o Cristianismo na China, concluindo que o facto de o país ter apostado no comunismo e no capitalismo como motores sociais e económicos facilita a evangelização da população.

Noutra nota, o padre Peter fala da identidade portuguesa de Macau e de como esta não só não está em perigo, como está mais forte desde que o território passou para administração chinesa.

Permitam-me ainda partilhar o Postal de Quarentena de hoje. Não é um assunto religioso, mas é uma iniciativa que me dá imenso gozo fazer. Esta terça-feira recebemos um postal da Suíça, com banda sonora dos The Doors.

Wednesday, 26 September 2018

China - Longa marcha rumo à unidade

O acordo entre a China e a Santa Sé continua a dar que falar. Hoje o Papa escreveu uma longa mensagem ao povo chinês, apelando à reconciliação e pedindo aos chineses que sejam bons cidadãos.

O padre Peter Stilwell, que conhece bem a realidade chinesa, diz que será muito difícil unir a Igreja chinesa. É um projecto para longos anos, considera.

Já o Governo chinês diz que quer “sinceramente” avançar no diálogo com Roma.

Ontem, no avião de regresso dos bálticos, o Papa falou sobre a questão dos abusos e garantiu que nunca assinou qualquer indulto após uma condenação.

O que é que sonha para os seus filhos? Preocupa-se que tenham uma educação que abra portas para uma vida de sucesso, ou que tenham uma educação de valores sólidos cristãos? Randall Smith escreve sobre o trabalho, no artigo desta semana do The Catholic Thing.

Friday, 22 January 2016

Não confundir família com outro tipo de união

O Papa Francisco discursou esta manhã à Rota Romana e disse que o mundo não pode confundir a família natural com outras formas e união. Disse também que a falta de fé não chega para justificar a nulidade de um casamento, esclarecendo assim uma dúvida que deu bastante que falar há uns meses.

Hoje foi dia de publicar muita coisa no blog. Começo com as transcrições integrais das entrevistas do padre Peter Stilwell e de Esther Mucznik, a propósito da reportagem que fiz de antecipação à visita do Papa Francisco à sinagoga de Roma.

Essa visita, se bem se lembram, deu origem a uma polémica nas redes sociais sobre se os cristãos têm obrigação de evangelizar os judeus, ou não, para a qual contribuí aqui, respondendo a Tiago Cavaco, pastor evangélico. Entretanto dei-me conta da preocupação de alguns protestantes, que temiam que eu estava a dizer que a posição do Tiago é a de todo o protestantismo. A Rute Salvador, que é pastora na Igreja Presbiteriana, mandou-me a sua opinião, que publiquei, com a sua autorização.

E porque o assunto dá pano para mangas, isolei noutro post a resposta do padre Peter sobre esta questão à qual juntei aposição de um bispo jordano, que entrevistei noutro âmbito, e que vai no sentido contrário.

Há, como vêem, muito para ler.

Mas mesmo que não tenham tempo para nada disto, por amor de Deus não deixem de ler o artigo de Randall Smith do The Catholic Thing que critica o facto de a nossa sociedade conviver, aparentemente sem grande preocupação, com o facto de 92% dos bebés com trissomia XXI serem abortados. Bem a propósito no dia da Caminhada pela Vida, nos EUA.

"Holocausto foi choque espiritual e psicológico para a Igreja"

Transcrição completa da curta entrevista que fiz ao padre Peter Stilwell, reitor da Universidade de São José, em Macau e especialista em diálogo inter-religioso e ecuménico, a propósito da visita do Papa Francisco à Sinagoga de Roma. A reportagem pode ser lida aqui.

O Papa Francisco visita no domingo a sinagoga de Roma. Que significância é que pode ter este gesto?
É o terceiro Papa a visitar a Sinagoga de Roma e é preciso lembrar que a Sinagoga de Roma é simbolicamente muito significativa, porque a grande carta de São Paulo aos Romanos, que foi logo nos primeiros anos do Cristianismo, foi escrita precisamente para a comunidade judaica em Roma, da qual fazia parte também um grupo de judeus que eram cristãos, que eram discípulos de Jesus Cristo. Essa comunidade, provavelmente foi visitada pelo próprio São Paulo e depois por São Pedro e infelizmente ao longo dos séculos sabemos que a relação entre a Igreja Católica e a comunidade judaica resfriou e tornou-se distante. A certa altura os Papas obrigaram os judeus a viver num gueto e é sobre as colinas desse gueto que se construiu a actual sinagoga de Roma. 

Portanto a visita que o Papa faz, na sequência dos seus antecessores, vem na linha de uma perspectiva aberta pelo Concílio Vaticano II de diálogo com a comunidade judaica, compreendendo a comunidade judaica como nossos irmãos na fé. Temos uma grande parte da Bíblia em comum, temos uma longa tradição em comum e infelizmente ao longo dos séculos houve momentos de tensão, de incompreensão, de falta de espírito, de compreensão, por parte, nomeadamente das comunidades maioritárias cristãs, que acabaram por desaguar naquilo que foi a violência da Segunda Guerra Mundial, a chamada Shoah [termo que os judeus usam para designar aquilo a que ficou conhecido como o holocausto].

É à luz dessa experiência que o Concílio faz a sua reflexão e que vários documentos emanados posteriormente pela Santa Sé chamam a nossa atenção para a necessidade de não mais repetir esses erros do passado em que não reconhecemos a nossa fraternidade na fé. 

Considera que foi o holocausto que determinou esta mudança de paradigma?
É muito claramente isso. Basta ler documentos saídos da Igreja um pouco antes da II Guerra Mundial e outros depois da II Guerra Mundial e nota-se a diferença de tom. 

A diferença de tom é resultado de um choque espiritual e psicológico que a Igreja viveu ao dar-se conta do vírus que tinha alimentado no seu seio, que evoluiu para o Nazismo, que não tem nada a ver com Cristianismo nem com a Igreja Católica, mas que nasce neste contexto de uma cultura ocidental em que a tradição de perseguir e mal-tratar os judeus e das comunidades judaicas, desde a literatura até ao quotidiano das cidades, era o habitual. Portanto isso muda radicalmente e nos anos 60 aqueles que são incumbidos de redigir os documentos do Vaticano II, o Cardeal Bea, nomeadamente, é incumbido dessa função por um Papa, João XXIII, que foi delegado apostólico na Turquia durante a II Guerra Mundial, onde ajudou os judeus que fugiam do Nazismo e que passavam por Constantinopla, ou Istambul, a caminho de Israel, portanto é o Papa que tem muito claro na sua consciência que esta tragédia terrível que foi a Segunda Guerra Mundial para a comunidade judaica, que o Cristianismo tem de dar uma volta, tem de perceber o que se passou em termos de desafio espiritual. 

Depois, o Papa João Paulo II é o primeiro que visita Auschwitz. É preciso lembrar que João Paulo II teve contacto com judeus na Polónia, de quem era amigo, e percebeu a violência da Segunda Guerra Mundial contra a população judaica quase em primeira mão, ou pelo menos muito de perto, e portanto faz questão, quando visita a Polónia, de ir para Auschwitz rezar pelas vítimas. Portanto João Paulo II é o primeiro que visita a Sinagoga de Roma, Bento XVI visita a sinagoga e, segundo consta, mantém ainda uma correspondência directa e pessoal com o rabino da Sinagoga, e agora temos o Papa Francisco que, na Argentina, tinha amigos na comunidade judaica e que protagonizou o diálogo com a comunidade judaica na Argentina, que vai retomar esta tradição de o Papa visitar a sinagoga. 

São duas grandes comunidades em termos da tradição espiritual, que se encontram na mesma cidade, e que é bom que se encontrem, como dizia o rabino há dias, numa entrevista, é bom que numa época em que tantas vezes a religião é usada para justificação para violências que são blasfemas, como diz o Papa Francisco, é bom que estas duas comunidades que tantas vezes tiveram dificuldades no passado dêem testemunho que é possível, apesar dessa história, apesar dessa memória, ser-se possível sentar à mesa e dialogar, e encontrarem-se como amigos.

Recentemente causou bastante discussão, e mesmo alguma polémica, um novo documento da Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus. Surgiram logo órgãos de comunicação social a dizer que a Igreja estava a dizer que não é preciso converter os judeus. É assim?
Conheço o documento e essa expressão, dita dessa forma ou de outra, é correcta.

A posição é que não se deve fazer proselitismo em relação aos judeus, e que deve haver diálogo, como é evidente, mas que deve haver respeito no sentido em que eles têm uma tradição que nós usamos quotidianamente na nossa liturgia para reflectir sobre a nossa tradição religiosa e temos muito que partilhar uns com os outros. 

Mas fazer uma evangelização dos judeus no sentido do proselitismo, de tentar transformar os judeus em cristãos, de uma forma de "pesca à linha", por assim dizer, é realmente uma posição que a Igreja não considera apropriada. [Sobre este assunto, ver aqui]

Para esta reportagem também foi entrevistada Esther Mucznik, da Comunidade Israelita de Lisboa.

Ainda os judeus: Nem todos os católicos pensam o mesmo

Na sequência do que tenho colocado neste blog sobre o problema teológico de saber se os cristãos devem ou não tentar evangelizar os judeus, coloco agora mais dois contributos para aprofundar a discussão. São contraditórios, o que apenas vem dar força ao título que escolhi para o post...

A primeira é um excerto da entrevista que fiz na semana passada ao padre Peter Stilwell, especialista em diálogo inter-religioso e ecuménico, a propósito da visita do Papa à Sinagoga de Roma.

Recentemente causou bastante discussão, e mesmo alguma polémica, um novo documento da Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus. Surgiram logo órgãos de comunicação social a dizer que a Igreja estava a dizer que não é preciso converter os judeus. É assim?

Conheço o documento e essa expressão, dita dessa forma ou de outra, é correcta. 

A posição é que não se deve fazer proselitismo em relação aos judeus, e que deve haver diálogo, como é evidente, mas que deve haver respeito no sentido em que eles têm uma tradição que nós usamos quotidianamente na nossa liturgia para reflectir sobre a nossa tradição religiosa e temos muito que partilhar uns com os outros. 

Mas fazer uma evangelização dos judeus no sentido do proselitismo, de tentar transformar os judeus em cristãos, de uma forma de "pesca à linha", por assim dizer, é realmente uma posição que a Igreja não considera apropriada. 

Entretanto ontem entrevistei, a propósito de outro assunto, o vigário-patriarcal da Jordânia, o bispo Maroun Lahham. Coloco aqui a pergunta que lhe fiz sobre este assunto, no inglês original.

The Pope’s recent visit to the Synagogue in Rome raised once more the issue of whether Christians should try to convert Jews or whether they already have a salvific covenant with God, and therefore there should not be specific missions to the Jews. What is your opinion, and what is the standard practice of the Latin Patriarchate in Jerusalem?
Firstly, we do not try to evangelize the Jews in Israel, it is very hard. Jesus himself tried, and he failed. Unless we evangelize by our witness, by our life.

Secondly, this famous document which was published on the 50th anniversary of Nostra Aetate... Yes, they repeat more than 100 times that the covenant of God is irrevocable. The mere fact that they repeat it over 100 times means that they don't believe it. When you have to insist on something so many times, there is something wrong. 

I understand that the west wants to repair the bad history with the Jews, but you cannot use the Bible as an instrument for political or historical issues.

If you go to the Bible, sure there is this sentence, but there are others which say the opposite.

It is a kind of Western theology, based on historical events and political events and psychological complexes, while theology, to be a true theology must be free, like the Holy Spirit, from any pressure here and there. So for me this is not really theology.

Ver também: 

Wednesday, 20 January 2016

Judeus precisam de Jesus?

O Papa na Sinagoga de Roma
No domingo o Papa visitou a sinagoga de Roma. É uma visita que cumpre uma tradição recente, mas é significativa, como explicam aqui a Esther Mucznik e o padre Peter Stilwell que concordam, ambos, que o ponto de viragem nas relações entre as duas fés foi o holocausto.

Da visita, destaca-se o facto de o Papa ter falado da irrevogabilidade da Antiga Aliança entre Deus e Israel. Podem parecer palavras de circunstância, mas não são, de todo. Trata-se de uma questão premente na teologia católica e, sobretudo, nas relações com os judeus. Será que os católicos têm a obrigação de evangelizar os judeus? Neste artigo explico um bocado melhor que questão é esta, de onde vem e quais as implicações.

Morreu no Quénia um muçulmano que se recusou a abandonar os cristãos durante um ataque terrorista, dizendo que se iam matar os cristãos teriam de matar todos. Salvou a vida a muitas pessoas num gesto de enorme coragem. Que Deus lhe dê eterno descanso.

O Papa Francisco escreveu esta manhã uma mensagem para o Fórum Económico Mundial de Davos a pedir que os reunidos não se esqueçam dos mais pobres.

E no artigo do The Catholic Thing de hoje temos Randall Smith a falar do paradoxo de sermos uma cultura que compra e vende arte por milhões de euros, enquanto extermina crianças por terem trissomia XXI. Nem sempre concordo a 100% com os textos que apresento nesta rubrica, mas este assino por baixo.

Friday, 16 March 2012

Anglicanos, Lefebvrianos e jornais diocesanos

Mais velho que Rowan Williams e sem vontade de resignar
Hoje, nem sei bem por onde começar!

O Arcebispo de Cantuária anunciou que vai renunciar ao cargo em Dezembro deste ano. Falámos com o bispo anglicano de Portugal e com o padre Peter Stilwell sobre o assunto.

Os interessados podem ler no blogue a transcrição completa das entrevistas a D. Fernando e ao Pe. Peter.

Novidades nas negociações entre a Igreja Católica e os “lefebvrianos”. A bola volta para o campo da Sociedade de São Pio X.

Confirmou-se hoje que Bento XVI vai mesmo ao Líbano, como já se suspeitava. A viagem decorrerá em Setembro.

A Congregação para a Doutrina da Fé criou um site para facilitar a consulta dos seus documentos. Já os assistentes espirituais e religiosos dos hospitais portugueses, de diversas confissões, ficaram-se por um livro de bolso.

Este fim-de-semana é lançado um CD sobre Fátima e a Eucaristia, que contém orações nunca antes musicadas.

E terminamos em Évora, onde o jornal diocesano está prestes a completar 89 anos, apesar dos tempos difíceis, querem continuar!

“Não sei se haverá quem o possa manter a Comunhão Anglicana unida”

Transcrição completa da entrevista ao padre Peter Stilwell*, sobre a anunciada renúncia do Arcebispo de Cantuária. Veja a notícia aqui.

Esta renúncia é o assumir de uma derrota por não ter conseguido conciliar liberais e conservadores no seio da Igreja Anglicana?
Não, os arcebispos de Cantuária tradicionalmente renunciam ao cargo, penso que aos 65 anos. Não sei bem que idade é que ele tem, mas está dentro do tempo considerado normal para os arcebispos de Cantuária renunciarem. O que acontece é que essa divisão que atravessa a Comunhão Anglicana tem sido uma preocupação para os vários sectores e há conversas de bastidores na comunhão anglicana de que de facto ele não tem sido capaz de fazer a ponte entre os diversos sectores.

O seu sucessor terá dificuldades também nesse aspecto…
A função do Arcebispo de Cantuária é ser mais um primus inter pares, ele tem igualdade de estatuto com os outros bispos anglicanos, mas tem a função de tentar conciliar as partes, de falar com elas e criar pontes entre os diversos sectores. Não sei se haverá quem o possa fazer neste momento, porque as posições estão extremadas sobre assuntos que parecem tocar mesmo o coração das questões doutrinais e morais.

Portanto não é fácil ver como é que se consegue criar uma abrangência tal para posições aparentemente antagónicas que se possam dizer ainda em comunhão e como é que se vai evitar que a comunhão se fragmente entre sectores que aceitam uma forma de doutrina ou uma forma de aplicar o entendimento do ministério sacerdotal e episcopal.

Vamos ter de esperar para ver qual é o homem providencial que a Igreja Anglicana vai escolher.

Qual é o Estado actual do diálogo ecuménico entre anglicanos e católicos, e que papel teve Rowan Williams nesse campo?
O diálogo ecuménico processa-se em diversos níveis. Um dos níveis é através da amizade e fraternidade entre diversas comunhões. A esse nível o Arcebispo Rowan Williams mostrou grande dignidade e mestria, inclusivamente quando o Vaticano anunciou a criação de um ordinariato para acolher anglicanos que quisessem entrar na Igreja Católica. Isso foi anunciado de uma forma pouco cuidada, poderíamos dizer, visto de fora, porque o Arcebispo de Cantuária nem sequer tinha sido devidamente avisado do anúncio, embora soubesse que havia algo a ser preparado. No entanto reagiu com grande dignidade e sem criar maiores atritos por causa dessa falta de cuidado.

Outro nível é doutrinal, nesse nível as igrejas Anglicana e Católica mais ou menos esgotaram os grandes temas doutrinais sobre os quais se debruçaram. Encontraram sintonia em todos eles, mas ficaram em suspenso novos problemas que surgiram entretanto, como a ordenação de mulheres e a questão de aceitar ou não os ministros que estivessem numa relação homossexual. Isso são questões que ferem a própria comunhão anglicana e sobre as quais não me parece haver qualquer possibilidade de diálogo com a Igreja Católica.

* O padre Peter Stilwell é responsável pelo diálogo ecuménico no Patriarcado de Lisboa. Como o nome indica, é filho de ingleses (católicos), mas nascido em Portugal. Por uma questão de transparência, acrescento que o padre Peter é meu tio.
Filipe d'Avillez

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