terça-feira, 4 de dezembro de 2012

9 – Novos líderes dos coptas e dos anglicanos

Por regra a eleição de um líder de uma grande confissão cristã acontece com pouca frequência. Não é comum, por isso, que no mesmo ano se dê a eleição de líderes de duas das mais importantes comunidades cristãs do mundo.

Estas duas eleições foram em tudo diferentes. Comecemos pelo Papa dos Coptas, porque foi o primeiro cronologicamente.

A 17 de Março morreu o Papa Shenouda III. Shenouda estava para a Igreja copta um pouco como João Paulo II para os católicos. Teve um papado de décadas e para gerações inteiras de coptas era o único líder que conheciam. Ainda por cima teve um papel muito importante em modernizar aquela que é a maior comunidade cristã do Médio Oriente e uma das mais antigas do mundo e, numa região conturbada, era um pilar de estabilidade.

Shenouda morreu precisamente numa altura de grande mudança regional e por isso o sentimento de orfandade foi realçado para os coptas. Como o processo de selecção para um novo Papa é tão complexo, foi preciso esperar meses até ter um novo líder e, durante esses meses, o Egipto passava por mudanças radicais sem que os coptas tivessem uma voz forte que intercedesse por eles.

Tudo isso mudou no dia 18 de Novembro com a eleição de Tawadros II. O futuro dirá, mas Tawadros já falou firmemente contra, por exemplo, a inclusão da Sharia na constituição do país, que está a ser preparada. A nível ecuménico a escolha parece ter sido feliz porque ele era apontado como o mais aberto em termos de diálogo com outras confissões cristãs e tem ampla experiência internacional. Isto é tanto mais importante quanto a Igreja Copta não tem grande tradição a nível do diálogo ecuménico e a investir nele seria sem dúvida um parceiro bem-vindo para católicos e ortodoxos.

De todo este processo ficam duas imagens muito fortes. Primeiro as cerimónias após a morte de Shenouda, sobretudo a do seu cadáver, paramentado e coroado, colocado no trono patriarcal para veneração e, radicalmente diferente, a imagem de uma criança vendada a retirar o nome do novo Papa do lote de três candidatos, assegurando assim a intervenção do Espírito Santo na escolha do líder de milhões de coptas no Egipto e no exterior.

Mudamos então completamente de ares e vamos para o Reino Unido, para uma Igreja que se afasta cada vez mais do Cristianismo tradicional que os coptas representam, a Igreja Anglicana.

O Arcebispo de Cantuária é uma espécie de “primus inter pares” na Comunhão Anglicana e acumula a tarefa de supervisionar a Igreja de Inglaterra e também de zelar pela unidade de toda a Comunhão Anglicana, o que tem provado ser um trabalho absolutamente impossível.

Rowan Williams é um homem afável, bom teólogo, se bem que bastante liberal, com quem é fácil simpatizar. O Papa, diz-se, gosta imenso dele. Mas era claramente o homem errado no lugar errado. Não tinha maneira de evitar a ruptura crescente da Comunhão Anglicana, entre liberais radicais nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e até certo ponto no próprio Reino Unido, e conservadores, sobretudo dos países africanos.

Durante a sua vigência diferentes primazes excomungaram-se uns aos outros, os americanos ignoraram todos os apelos no sentido da moderação e consagraram mais que um bispo a viver em relação homossexual e até aprovaram ritos de bênção de uniões homossexuais, tudo para horror não só dos anglicanos africanos mas também da Igreja Católica que deu a entender que o diálogo ecuménico já não iria a lado nenhum.

É neste contexto que Rowan Williams resigna e é eleito Justin Welby. Welby, um homem relativamente novo e com experiência no mundo empresarial será, espera-se, o homem certo para tentar garantir a unidade. Ainda por cima, vem de um espectro conservador do ponto de vista teológico mas relativamente liberal do ponto de vista litúrgico e por isso poderá eventualmente construir pontes.

Mas os primeiros tempos de Welby, que só será entronizado em Março, mas que para muitos fiéis e sobretudo para a imprensa já é “o” Arcebispo de Cantuária, não correm da melhor maneira.

Justin Welby
Questionado sobre um dos temas do momento, a introdução do “casamento” homossexual no Reino Unido, a que sempre se opôs, Welby admite repensar o assunto e no seu primeiro grande teste, a votação em sínodo para permitir a ordenação de mulheres bispo na Igreja de Inglaterra, é aplaudido longamente no seu discurso a defender a medida mas depois tem de vir a público lamentar o facto de o sínodo ter rejeitado a decisão e procurar meios para contornar as próprias regras anglicanas para ver se conseguem fazê-la passar para o ano em vez de esperar outros cinco.

A nível da Comunhão Welby ainda não foi devidamente testado mas dificilmente conseguirá melhor do que Williams durante os anos em que ocupou a sé de Cantuária, ou seja pouco mais que capitanear um navio claramenteà deriva e com pessoas a remar em direcções opostas.

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