terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os novos herodes e as suas "entrevistas"

Pe. Van der Lugt, martirizado em 2014
Durante o ano de 2014 morreram 26 agentes pastorais da Igreja Católica. Vítimas de intolerância religiosa no Médio Oriente? Não. A maioria morreu no decurso de roubos violentos e o continente americano foi o mais mortífero.

O Estado Islâmico publicou mais uma edição da sua revista on-line, que inclui uma “entrevista” com o piloto jordano cujo avião foi abatido por cima da Síria.

O centro Simon Wiesenthal fez uma lista dos dez piores casos de anti-semitismo este ano. Em primeiro lugar o caso do médico belga que recusou tratar uma judia de 90 anos, dizendo: “Ela que vá passar duas horas em Gaza, passam-lhe logo as dores”.

O Vaticano publicou a mensagem do Papa para o dia Mundial do Doente, falando de como o apoio e cuidado aos doentes é um grande caminho de santificação.

Porque amanhã não sei ainda se vai haver Actualidade Religiosa, publiquei hoje o artigo desta semana do The Catholic Thing. Anthony Esolen fala da matança dos inocentes decretada por Herodes e recorda que herodes há muitos, ao longo dos tempos. É um excelente texto, a ler com atenção.

Uma Criança que Dorme

Anthony Esolen
Herodes ouviu falar do Menino Jesus e ele e todos os seus conselheiros ficaram preocupados. Pediu aos reis magos que encontrassem o rapaz e que lhe trouxessem a informação, para que ele pudesse ir louvá-lo. A homenagem que Herodes queria prestar era matá-lo. Quando os magos, avisados em sonhos, se desviaram de Jerusalém no seu caminho de volta para o Oriente, Herodes fez aquilo que fazia melhor: eliminou a oposição – ou pelo menos tentou.

Os meninos das proximidades de Belém não passavam de coisas para Herodes, obstáculos aos seus planos dinásticos. Se há uma árvore no caminho da estrada que queres construir, corta-se e tira-se as raízes. Para ti ela não tem vida. É apenas uma negação da tua vontade.

Todas as representações deste massacre que tenho visto são de uma acção dramática e terrível. Soldados brutos e exageradamente musculados dão à espada, às vezes matando as mães e os filhos em conjunto. Mas nunca vi uma pintura que corresponda melhor à nossa situação actual.

Imagino a cena da seguinte maneira. O quarto pouco iluminado e quieto. Nem o pai nem a mãe estão presentes. Talvez estejam nos campos, a trabalhar. A luz de uma janela ilumina o rosto de um homem, um soldado. Está com a testa franzida. Tem uma espada ao seu lado. Diante de si, numa cama, dorme um rapazinho.

Peço-vos que imaginem esse bebé. Gabriel Marcel diz que a visão de qualquer pessoa a dormir coloca-nos na presença de um mistério: A sensação de uma presença que não pode ser reduzida a proposições ou a utilidade. Isto é especialmente verdade em relação a crianças: “Do ponto de vista da actividade física… a criança que dorme está completamente desprotegida e parece estar inteiramente à nossa mercê; desse ponto de vista é possível fazermos o que quisermos dela. Mas do ponto de vista do mistério, podemos dizer que é precisamente por estar totalmente desprotegida, totalmente à nossa mercê, que é também invulnerável e sagrada.” (em “The Mystery of Being: Presence as a Mystery”).

Vemos os caracóis soltos na sua testa. Vemos os seus olhos fechados – o que é que observam? Vemos os seus lábios cerrados, o ritmo lento da respiração.

As pessoas que se mantêm seguramente no armazém das coisas não sentem esta presença. Não sentimos um mistério no transmissor 2451, nem na prateleira 32B. Quando substituímos um nome por um número a maior parte do nosso trabalho destruidor está feito. Se apenas vemos instrumentos, não teremos escrúpulos em usá-los como quisermos. A característica importante de uma peça numa máquina é o facto de não ter individualidade. Pode ser substituída por outra qualquer. É suposto ser substituída por outra qualquer.

Mas se o soldado pausar o tempo suficiente para contemplar o rapaz a dormir, terá de se endurecer contra o sentido natural e humano de santidade e mistério. Para tratar o rapaz como uma coisa, deve primeiro tornar-se uma coisa, uma ferramenta de Herodes, uma peça na maquinaria herodiana.



Para tratar a criança que dorme como uma irritação de que se deve livrar, deve reconhecer a ausência de valor de todas as coisas pequenas; a semente na terra, o pintainho no seu ninho, a batida do coração, o soldado num exército, a Judeia no Império Romano, esse pequeno império à escala da história do mundo, o mundo enquanto grão de areia no universo. Deve negar o valor da própria criação.

Imaginem outra criança a dormir. Está a chuchar no dedo. Está enrolado, os joelhos encaixados debaixo do queixo. O rabo inocentemente à mostra. A imagem está desfocada, porque ele está seguro no seio quente da sua mãe. A enfermeira na clínica vê, mas ao mesmo tempo não vê, o menino.

Imaginem outra cena. O rapaz é vivaço e meio tresloucado. Tem o cabelo colado à testa. Esteve a nadar no lago. Emerge, a escorrer água e a rir. O “amigo”, mais velho, observa, calculando e planeando.

Outra cena. Os rapazes e as raparigas estão nos seus lugares, na sala de aulas. Estão a pensar em todo o género de coisas. Um deles está a pensar no jogo que vai ter logo à noite. Uma das raparigas pensa em visitar a prima, a caminho de casa. Duas delas falam sobre as aulas de equitação. Outro limita-se a sonhar acordado, enquanto olha pela janela.

A professora está diante deles. Tem a testa franzida, o olhar carregado. Tem nas mãos um livro. Quando os rapazes e as raparigas saírem da escola, nessa tarde, já saberão o que é – preencha o espaço.

“Passa-se alguma coisa filho?” O rapaz tem-se comportado de modo estranho toda a tarde. Ele olha-a com um olhar estranho, depois vira a cara. “Não, nada”.

Marcel diz: “Não pode haver a menor dúvida de que a mais forte e irrefutável marca de pura barbárie que podemos imaginar seria a recusa em reconhecer esta misteriosa invulnerabilidade”.

Herodes e Herodíade aparecem-nos sob muitas formas. São hedonistas, para quem as crianças são obstáculos irritantes na busca de prazer. São utilitários, ferramentas que avaliam a utilidade de outras ferramentas. São estatistas, cuja ambição não é governar homens, mas gerir formigas. São médicos e enfermeiras que se recusam a ver a criança. São todos os assassinos da inocência. São os soldados à entrada da casa.

Doce Jesus, salva-nos de nós mesmos.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira,30 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

As duas escolhas dos yazidis

Yazidis durante o cerco ao monte Sinjar, em Agosto
Espero que todos (pelo menos os cristãos) tenham tido um Santo Natal!

Foi com agrado que vi que os cristãos e demais refugiados no Iraque e na Síria foram recordados este Natal por muita gente, desde clérigos a artistas.

Mas os cristãos não são os únicos a serem perseguidos no Iraque. Neste tipo de tragédias é difícil comparar sofrimentos, mas a verdade é que os yazidi foram perseguidos com particular dureza. Nesta entrevista Mirza Dinnayi explica porquê. Podem ver a transcrição completa, no inglês original, aqui.

Um jovem muçulmano foi condenado à morte por apostasia, na Mauritânia, expondo a deriva fundamentalista daquele país.

O turco que tentou matar o Papa João Paulo II foi depositar flores no seu túmulo, esta semana, tendo sido deportado logo de seguida…


Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre o valordas histórias e testemunhos pessoais na transmissão da fé! Vale bem a pena.

"Christians were given three choices, Yazidis only two: 'Convert or die'"

This is a full transcript of my interview with Mirza Dinnayi, advisor for the Kurdish Regional Government and Yazidi activist, who spends his time between Iraq and Germany. The news report, in Portuguese, is here.

Transcrição integral da minha entrevista a Mirza Dinnayi, conselheiro do Governo Regional Curdo e activista pela causa dos yazidi, que passa o seu tempo entre o Iraque e a Alemanha. A reportagem pode ser lida aqui.

Who are the yazidis?
The Yazidis are an ancient religion, about 5000 years old, they are about 500,000 in Iraq and outside of Iraq there are communities in Turkey, Syria, Armenia, Georgia and also a big community in Germany and other countries. Altogether there are about 1 million, half of them are in Iraq. The biggest community is from the Sinjar region – where there are about 320.000 – which was attacked by ISIS.

Because the Yazidi religion is one of the oldest monotheistic religions, believing in one God, although different from Islam and Christianity, they were attacked by Islamic State, which killed more than 3000, kidnapped more than 5000 and raped and enslaved thousands of girls and women. They they say the Yazidis are infidels, in the eyes of the Islamic State, because they are not mentioned in the Koran, which is why they kill them. Now we have more than 400,000 who escaped from their houses from Sinjar and the other areas of the Ninevah plains which are now under the control of ISIS.

What has happened to the communities which had to flee, did they all find refuge with the Kurds?
Yes, we have 400,000 Yazidi refugees in Kurdistan.

What conditions are they living in?
The conditions are very bad, because most of the tents in these camps are very simple tents, which are not prepared for the Winter or the cold. Also the tents which were distributed by UNHCR are not fireproof, they burn in 45 seconds, they are made of nylon so with a simple fire they are gone in 45 seconds.

Every week there are fire accidents in the tents, there are health problems. They are living in a very bad situation, there are no economic perspectives for the people, the people have no resources, no houses, and the local and Iraqi government cannot help them because they are too many. The international organizations are not enough because the situation is very bad and they cannot fill all the needs.

We are talking in general about refugees, but of course many of these people are your friends and family…
Yes, of course. My own town of 35 thousand people, all of them escaped and all of them are living in these tents.

Yazidis being evacuated from Sinjar
Did the fact that they were persecuted bring the Christians and the Yazidis closer together?
The Yazidi and Christian communities are still friends. In this situation they have the same problem with ISIS, with one difference; the Christians were not immediately attacked. During the occupation of Mosul they were given three choices, to convert, flee or pay a tax, the Yazidis were only given two choices: convert or be killed.

Also, ISIS did not take hostages from the Christian population, because they say the Christian religion is mentioned in the Koran, so they can be treated a little bit better than the Yazidis. But both Christians and Yazidis are suffering very much at the hands of ISIS.

What solution do you think is possible for minorities in Iraq? Do you defend the creation of a safe haven, as some defend, or do you believe that these minorities should have their own defence forces?
I think the international community is now responsible for finding a solution for these minorities in Iraq and there are two solutions which should be done, one of them at least. The first is to establish an autonomous region with international support and international peacekeeping forces support in this area of Sinjar and Nineveh plains, or otherwise to help these people leave Islamic countries, because we don't know what will happen in the coming years. We don't know if a new Islamic group will be established. ISIS had roots in Al-Qaeda and Al-Qaeda had roots in Iraq...

Every day there is another radical Islamist group and if there is no solution for this area, to protect these people and to establish peace in this country, it will be impossible to remain.

It is very difficult, most of the people there are helpless and the international community has unfortunately been silent and has not supported these minorities in Iraq.

We know that some Yazidis have chosen to remain in Sinjar mountain and some have taken up arms to defend themselves. Why have they decided to remain in this mountain, where they are more exposed to the Islamic State?*
In the mountain we have some religious heritage, some Yazidi temples. We have some fighters, because they are sure that nobody will help them, the situation of the IDPs in Kurdistan is already very bad so they decided to stay.

We have about 8000 people, some of them are fighters. We have 1250 families, or more, there. They decided to stay because they have no perspectives in Kurdistan or outside. They think it is better to die there than to be refugees in a camp, in a tent, without perspectives, without anything.

Every Yazidi is now waiting to know what the international community ca do for them. Will they support us politically? But until now it has not happened, unfortunately.

Do you believe the Islamic State can be defeated, and how?
What has been done against the Islamic State until now has been very week. We cannot win the war against the Islamic State with only airstrikes. We need forces on the ground, not only from the international community, we need them also from the Sunni world, they should fight ISIS, they should stand against the Islamic State because it was established with a background of Islamic Religion. Now it is the responsibility of the Islamic world, especially the Sunnis, to define themselves, they work against ISIS and the fundamentalist Islam. This is their responsibility, to fight, not only through air raids, but on the ground. We need forces on the ground, otherwise it is not possible to fight ISIS.

ISIS was able to flourish because of widespread discontent among the Sunni population. Do you foresee a future in which Sunnis and Shia can live in peace in Iraq?
I am pessimistic. I don't think that the Sunni and Shia will be together in a closed centralized country. I think the best solution is for them to establish a federal system, governed by moderate people, not radicals, who can serve their population and represent them.

The problem now in Iraq is that most of the Sunni politicians are not representing their communities, the ones in Baghdad, most of them are corrupt, they are working in the Government for their own profits, for their own benefits, and therefore they cannot represent their community.

The people don't know who represents the Sunni community in Iraq, we don't know. Is it ISIS? A radical group? The Ba’ath party remnants? Or the politicians sitting in parliament? We don't know.

Most of the Sunni regions are outside of the control of the Iraqi government, outside of the control of Sunni politicians, and therefore they cannot represent their communities. They should choose Sunni politicians who are not criminals, who are not ISIS supporters, who are not Al-Qaeda supporters, who can serve their citizens and serve the country. This is the problem we have now in Iraq.

Yazidis no monte Sinjar, cercados pelo Estado Islâmico
They have also taken in thousands of refugees, do the minorities feel gratitude towards the Kurds? How are relations between them?
The Kurdish government are doing what they can to support these IDPs and refugees. I think the situation now is that there is no conflict between the Yazidis, or the Christians, and the Kurds.

You can imagine if you have a country with a population of 5 million people and you send them two million refugees, it is a catastrophe. They cannot manage the problem. We know this. But as I said the best solution for these minorities, the Yazidis, the Christians and the Shabak is to establish a type of autonomous area for them. This solution should be implemented with the cooperation of the Iraqi government. 

Kurds are, mostly, Sunni. Is there also danger of radical Islam taking hold among the Kurds?
Yes, of course. We, the members of the minorities are afraid of radical people in Kurdistan. We are happy that the Government is secular, but in the community there are radicals and the Government should speak out against them.

It may be a small number, but over the last 20 years there was a type of islamization of the street, and this led to big problems, so that whereas the Kurdish people in the past were not very religious, there are now some religious people in the community.

There are some Kurds from the KRG who joined ISIS, a small amount, I don't know the number, maybe 300 or 500 fighters, more or less. There is fundamentalism in Kurdistan and we are trying to fight it, to become a liberal community in Kurdistan. We hope for this and we are working towards it, all of us.

What is your opinion on Turkey in the midst of all this?
The negative role of Turkey in support of the Islamic State is well known. Everybody knows that at the beginning Turkey played a very negative role in support of the Islamic groups, especially Jhabat al-Nusra, and other Islamic groups against Bashar al-Assad.

So now we have this problem: Turkey is under a big question mark, will it cooperate with the international community, first to stop the resources of ISIS and to stay in a positive situation? Until now its role has not been positive. Turkey cannot say "I will be independent about the issue of ISIS", because Turkey played a negative role and now they should change their policies and be positive, rather than negative.

Yazidi refugees in Erbil
All this instability has its roots in the Syrian civil war. Is there an end in sight?
They should find an outcome for the situation in Syria, peace should be established between all groups, with all opposition groups and non-opposition groups, otherwise we will have a massacre against the Alawites, for example.

All the Syrian players should work together, without Assad in power, but the Alawites should participate in planning the new country in a democratic way.


*Since this interview was conducted, the siege of Sinjar has been broken by Kurdish forces.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Um Natal misturado com lágrimas no Médio Oriente

O Papa Francisco deixa uma mensagem de Natal para os cristãos do Médio Oriente, que este ano vão ter festejos misturados com lágrimas.

Um desses cristãos, da Palestina, encontra-se em Portugal para vender artesanato da Terra Santa e fala de como é preciso ser um herói para sobreviver como cristão naquela parte do mundo.

E é precisamente como gesto de solidariedade para com os cristãos do mundo árabe, sobretudo os refugiados no Iraque e na Síria, que a cantora Ana Stilwell gravou uma versão do “Merry Xmas (War is Over)” do John Lennon. Saiba tudo, e ajude a divulgar, aqui.

Hoje é terça-feira, mas como amanhã é véspera de Natal e estaremos quase todos com outras preocupações, antecipei a publicação do artigo do The Catholic Thing. Temos uma estreia. Todd Worner traz-nos um artigo simples sobre como as histórias são mais úteis para transmitir as grandes verdades do que as fórmulas complexas.

Desejo a todos os meus leitores, sobretudo os cristãos, um Santo Natal, recordando de forma especial todos aqueles que o passam temendo a perseguição.

As Histórias Batem as Afirmações

Todd Worner
“Uma história é uma forma de dizer algo que não pode ser dito de outra maneira, e é preciso cada palavra na história para transmitir o significado. Conta-se uma história porque uma afirmação seria inadequada.” – Flannery O’Conner

Há 18 anos apaixonei-me loucamente. Ela chamava-se Cari. Tinha longos cabelos ruivos, maçãs do rosto altas, olhos azuis que dançavam e um sorriso que iluminava o quarto. O seu riso era contagioso, uma postura serena e uma confiança muito atractiva. Estávamos nas férias de Natal e tínhamos voltado para a faculdade para uma sessão de formação. Embora andássemos pelos mesmos meios, nunca nos tínhamos cruzado. E eu fiquei caídinho.

Tornámo-nos amigos e colegas em vários eventos universitários. Fizemos voluntariado, animamos um espectáculo para a universidade e fomos juntos a inúmeras festas. Ao longo da nossa caminhada, aparentemente platónica, ela saiu com alguns rapazes e eu com algumas raparigas, mas acabámos por nos apaixonar. Ao fim de um curso de medicina, estágio e internato, acabámos por chegar aos altares da Igreja Católica, estupefactos com a bênção que éramos um para o outro.

Hoje temos duas filhas. Se algum dia elas me pedirem para descrever como conheci e me apaixonei pela sua mãe, certamente não terei palavras para o dizer. Como é que se explica em palavras aquilo que apenas se expressa pelas mais puras e arrebatadoras emoções?

Contando a história.

A Fé Católica é diferente? Se pensarmos no assunto – mas pensarmos mesmo – a verdade, a bondade e a beleza desta fé são totalmente arrebatadoras e inicialmente ela chega-nos primeiro através da Bíblia e não de um qualquer argumento abstracto. Um Deus que poderia ter sido frio, calculista e caprichoso como Zeus, ou um sem número dos outros deuses antigos e maus, afinal é um criador que nos ama, que corre um risco com a sua criação, dando-nos livre-arbítrio.

Ele lamenta a ruptura que a humanidade desencadeia, mas procura incansavelmente trazer-nos de volta para o seu abraço paternal. Através de regras que promovem a nossa dignidade, lições que corrigem os nossos caminhos e uma esperança duradoura que sacia a nossa sede de redenção, no meio do nosso estado decaído, quando pensamos bem no assunto este Deus – este Pai indiscritível cujo único Filho se faz Homem – devia-nos deixar sem palavras. Devíamos sentir-nos demasiado emocionados até para falar, não desatemos a chorar.

Quando me tornei católico compreendi bem todas estas verdades? Não sei bem. Nem sei se algum dia o farei verdadeiramente. Mas tenho momentos de apreensão quando a graça repousa sobre mim e consigo vislumbrar – breve e docemente – o Deus que se recusou a abandonar-me à minha sorte. Em que alturas é que experimento mais este amor? Nas histórias.

Ouço-o quando alguém me diz: “Jesus ama-te”. Mas compreendo-o quando um Cristo sofredor e crucificado murmura: “Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem”.

Estou a ouvir quando me dizem: “Deus perdoa-te”. Mas compreendo-o quando um filho pródigo, desesperado e indigno, é abraçado com tamanha força por um Pai emotivo.

Nada como uma história...
Estou receptivo quando me avisam: “Não peques”. Mas sou transformado por um Cristo que gentilmente pede contas aos carrascos enquanto perdoa a adúltera com palavras firmes mas cheias de amor: “Vai, e não tornes a pecar”.

No final da sua extraordinária biografia de Charles Dickens, Chesterton não se limitou a transmitir a sua apreciação pelo homem e pela sua mensagem com meros adjectivos. Disse isto:

A camaradagem e a alegria a sério não são interlúdios na nossa viagem; mas antes, as viagens são interlúdios da nossa camaradagem e alegria, que em Deus perdurarão para sempre. A taberna não aponta para a rua; a rua é que aponta para a taberna. E todas as ruas apontam para a última das tabernas, onde nos encontraremos com Dickens e todas as suas personagens: e quando voltarmos a beber será de grandes canecas, na taberna que se situa no fim do Mundo.

Na conclusão da obra-prima de Georges Bernano, o “Diário de um Pároco de Aldeia”, o sentido da Graça não é explanado de forma complexa, antes é colocada no último fôlego de um padre rural generoso e moribundo. Com o terço na mão, o padre olha para o seu empregado, que aguarda ansiosamente a chegada de outro padre para administrar a extrema-unção. O sacerdote faz uma última afirmação antes de morrer:

“Será que importa? A Graça está em toda a parte”.

Há um número sem fim de afirmações gloriosas que podemos fazer sobre a Fé Católica, tal como há um sem número de afirmações maravilhosas que se podem fazer sobre a minha mulher. E podem ser todas verdadeiras. Mas por vezes, no meio da majestade de Deus e da magnitude do meu amor pela minha mulher, uma afirmação, como disse Flannery O’Conner, não chega.

Por isso se um dia as minhas filhas olharem para mim e perguntarem porque é que acredito em Deus, ou como é que me apaixonei pela sua mãe, talvez deixe de lado as afirmações e lhes conte a história. Acho que vão gostar.


Tod Worner é um marido, pai e médico de medicina interna católico, de Minneapolis. Contribui regularmente para a Patheos sob o nome: A Catholic Thinker. O Dr. Worner criou um currículo católico para alunos de liceu que já fizeram o Crisma e costuma fazer conferências sobre titãs e tiranos da Segunda Guerra Mundial. Está actualmente a escrever o seu primeiro livro.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A três dias do Natal... mas saiba porquê!

Estamos a dias do Natal. Mas foi só no século IV que se começou a assinalar o nascimento de Jesus neste dia. Isto, e muito mais sobre os costumes natalícios que hoje damos como adquiridos, explicado aqui.

O Papa Francisco falou esta manhã aos membros da Cúria Romana. Quem esperava platitudes e palavras de ocasião sobre o Natal deve ter ficado com as orelhas a arder. O Papa nem sequer poupou os outros funcionários, como os jardineiros e pessoal de limpeza!

Um jornalista alemão passou tempo em pleno “califado” do Estado Islâmico e conta tudo nesta reportagem da Reuters, que a Renascença lhe traz.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Sinjar libertada e concerto de Natal

Ontem fiz uma referência à notícia da reaproximação entre EUA e Cuba. Trata-se de um momento histórico, que poderá bem tornar-se a grande referência da presidência de Barack Obama. O Vaticano desempenhou um papel significativo, como referi de passagem ontem, mas que Aura Miguel explica melhor aqui.

Os islamitas voltaram a fazer o que fazem melhor: aterrorizar mulheres e crianças. Desta vez foi na Nigéria, onde mais de cem foram raptados depois de 30 homens terem sido assassinados. Depois, pelos vistos, os mauzões do Boko Haram foram até aos Camarões atacar soldados a sério e aí… a coisa não correu assim tão bem.

Do Iraque chega uma boa notícia. Os soldados curdos terão conseguido reconquistar centenas de quilómetros quadrados ao Estado Islâmico, quebrando também o cerco ao monte Sinjar, onde ainda se encontram centenas, se não milhares, de yazidis.

Este fim-de-semana há música em Lisboa! Os jovens dos movimentos católicos juntaram-se mais uma vez para organizar um concerto de Natal. Custa cerca de 4 euros a entrada e todo o dinheiro vai para caridade. Se puderem, não percam mesmo!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Parabéns Francisco e Paulo Bento clone de Santo António

O Papa Francisco festeja hoje 78 anos e foi brindado com danças na Praça de São Pedro. Não foi Tango, como alguns erradamente afirmaram, mas sim Milonga! (Digo eu, como se fizesse a menor ideia da diferença entre as duas).

Na audiência geral de quarta-feira de manhã Francisco não se referiu aos seus anos, preferindo concentrar-se nos anos de Jesus, que se aproximam, e lamentando a morte trágica de mais de 100 crianças, ontem, no Paquistão, bem como outras vítimas de terrorismo.

Também hoje Francisco nomeou novos membros para a Comissão de Protecção de Menores criado pelo Vaticano para combater os casos de abusos na Igreja. Um desses novos membros é um inglês que foi ele mesmo vítima de abusos, em criança.

A Igreja de Inglaterra nomeou a primeira mulher bispo. Era uma questão de tempo, mas não deixa de ser um obstáculo às relações ecuménicas com católicos e ortodoxos.

O Patriarca de Lisboa lamenta que as fugas de informação dificultem a justiça. Foi numa conferência conjunta com Fernando Santos, em que D. Manuel Clemente revelou que Santo António era cara chapada de… Paulo Bento!

Um grupo de católicos ligados a vários movimentos quer “Escutar a Cidade” para melhor cumprir os objectivos do Sínodo Diocesano. Saiba como.

Já é a notícia do dia, e embora não tenha nada a ver directamente com religião, parece que a troca de presos que poderá permitir uma reaproximação histórica entre Cuba e os EUA foi mediada em parte pelo Vaticano…

O Grande Ausente do Sínodo: A Contracepção

Vários casais foram convidados para participar no recente Sínodo Extraordinário que decorreu no Vaticano em Outubro, como auditores, sem direito a voto, para partilhar as suas experiências no terreno com os padres sinodais.

Um casal brasileiro, Arturo e Hermelinda Zamperlini, mostraram de forma impressionante como a contracepção é o contexto segundo o qual os muitos problemas que dizem respeito ao casamento devem ser compreendidos. A sua experiência coincide certamente com os factos das famílias católica noutras partes do mundo.

Pelas suas palavras: “Devemos admitir sem medo que muitos casais católicos, mesmo os que procuram viver o seu casamento de forma séria, não se sentem na obrigação de usar os métodos naturais [de planeamento familiar]… A isto acresce que normalmente não são questionados sobre o assunto pelos seus confessores… Em geral não consideram que seja um problema moral”.

Os Zamperlini pediram ao Papa e ao Sínodo que clarificassem e propagassem os ensinamentos da encíclica de Papa Paulo VI, Humanae Vitae. Um dos padres sinodais, o Cardeal Andre Vingt-Trois de Paris, apoiou-os, indicando que existe um novo “paradigma” (uma nova “norma”?) para os casais católicos: “Tudo isto tem consequências para a prática sacramental dos casais que frequentemente não encaram o uso de métodos contraceptivos como um pecado e, por isso, tendem a não confessar o facto e recebem comunhão sem problemas”.

O relatório final do sínodo menciona brevemente a contracepção no parágrafo 58, recomendando os “métodos naturais de regulamento da natalidade”. Mas a frase final, traduzida para inglês, levou a algumas interpretações ambíguas. No italiano lê-se: “Va riscoperto il messaggio dell’Enciclica Humanae Vitae di Paolo VI, che sottolinea il bisogno di rispettare la dignità della persona nella valutazione morale dei metodi di regolazione della natalità”, e o inglês diz: “we should return to the message of the Encyclical Humanae Vitae of Blessed Pope Paul VI, which highlights the need to respect the dignity of the person in morally assessing methods in regulating births.” [devemos regressar à mensagem da encíclica Humanae Vitae, do beato Paulo VI, que sublinhou a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação dos métodos naturais de regulação dos nascimentos.]

Os padres sinodais referem-se, como é evidente, à insistência de Paulo VI no Humanae Vitae de que os métodos de regulação dos nascimentos deviam respeitar a dignidade pessoal. Por exemplo, o parágrafo 17, que diz: “É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.”

No final do Sínodo Extraordinário, Nicole Winfield, uma jornalista da Associated Press, propôs uma interpretação diferente: “No documento sinodal final os bispos reafirmaram a doutrina, mas disseram ainda que a Igreja devia respeitar os casais na sua avaliação moral dos métodos contraceptivos” [ênfase acrescentada]. Por outras palavras, ela interpreta os bispos como dizendo que precisamos de respeitar a dignidade da pessoa no acto de avaliar que métodos usar para regular os nascimentos, que é tudo uma questão de consciência individual. Se uma pessoa e o seu confessor acharem que a pílula não tem problema, tudo bem, respeitamos essa decisão.

Esta interpretação errada pode bem coincidir com a opinião geral dos casais católicos (e dos seus confessores) e ser a razão pela qual a vasta maioria dos católicos não se opõe à contracepção. Se for o caso, muitos dos assuntos familiares/maritais discutidos no sínodo têm como “denominador comum” as práticas contraceptivas generalizadas. Isto devia ter um efeito sobre as deliberações do sínodo.

Arturo e Hermelinda Zamperlini

Alguns exemplos:

·         Se um casal divorciado nunca pretendeu estar aberto à procriação, o casamento é inválido aos olhos do Direito Canónico, pelo que uma declaração de nulidade poderá mesmo parecer desnecessária.

·         Se um cônjuge num casamento válido decidir usar contraceptivos para evitar ter filhos, e o esposo não consentir, isto deve ser razão suficiente para declarar a nulidade do casamento?

·         Se os casais estiverem a praticar sexo antiprocreativo, como é que podem julgar consistentemente os homossexuais que também o fazem? Ou proibi-los de casar?

·         Se um casal que coabita estiver a usar contracepção, deve isto ser um impedimento ao casamento sacramental?

·         Quando se fala em admitir uma pessoa em união irregular à comunhão, o factor contraceptivo deve ser tido em conta? Ou já não é relevante?

Na conclusão do Sínodo Extraordinário de Outubro o meu pároco mostrou-se surpreendido, na sua homilia dominical, pelo facto de o tema do acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares ser sequer uma questão teológica, uma vez que ele e os seus colegas concedem frequentemente esse privilégio a muitos que o procuram, sem qualquer autorização superior.

Esta prática (chamada praxis in foro interno, i.e. que diz respeito ao “foro interno” da consciência) foi aprovada em 1973 pela Congregação para a Doutrina da Fé, mas restringido em 1981 pelo Papa João Paulo II na sua exortação apostólica Familiaris Consortio.

Numa exortação apostólica de 2007 o Papa Bento XVI (que em 1972, enquanto teólogo, tinha manifestado algum apoio à prática), afirmou que o Sínodo da Eucaristia de 2005 “confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados recasados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia”.

Mas pelos vistos o forum internum continua a ser utilizado frequentemente pelos confessores não só para permitir a comunhão a divorciados e recasados, mas também o uso de contraceptivos.

Vale a pena sublinhar que os padres sinodais que se mostraram favoráveis à admissão de católicos divorciados e recasados à comunhão não abordaram o tema da contracepção, que seria um impedimento adicional. Talvez estivessem a partir do princípio que a maioria dos divorciados e recasados, ao contrário de muitos dos outros católicos, evitariam a contracepção.

O Sínodo Ordinário da Família e Evangelização de 2015 terá uma nova oportunidade para abordar estas questões, que a Igreja, como os Zamperlinis disseram, e com razão, precisa de confrontar claramente e directamente.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 13 de Dezembro de 2014)

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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Islamitas a fazer o que fazem melhor...

Os islamitas voltaram a fazer hoje aquilo que sabem fazer melhor, matar inocentes indefesos. Foram mais de 100 crianças mortas a sangue frio num ataque a uma escola, no Paquistão. Quem foram os “bravos”? Os mesmos que tentaram matar Malala.

Em Espanha foram detidas sete pessoas acusadas de recrutar para o Estado Islâmico.

Os EUA continuam a tentar descalçar a bota de Guantanamo. Agora pediram ajuda à Santa Sé.

O Vaticano estendeu hoje um ramo de oliveira para as ordens religiosas femininas americanas. E assim chega ao fim um longo braço de ferro. Saiba tudo aqui.

E por fim, uma ideia engraçada. O Cardeal Saraiva Martins diz que se Roma ganhar a candidatura para acolher os jogos olímpicos de 2024, o Vaticano devia oferecer-se para acolher uma das modalidades.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sequestro em Sidnei e MDV premiado

O sequestrador Mon Haron Monis
Um homem fez pelo menos 30 reféns num café em Sidney, durante a madrugada de ontem. Trata-se de um autoproclamado sheikh muçulmano, nascido xiita, no Irão, mas convertido depois de ter sido recebido na Austrália como refugiado.

À medida que escrevo estas linhas o sequestro terminou, mas há notícia de mortos. Não é certo exactamente quem, mas mesmo que um seja o próprio sequestrador, haverá pelo menos uma vítima inocente a lamentar. A Renascença está a acompanhar de perto a situação.

Entretanto a Áustria mandou fechar uma escola saudita por suspeitas de radicalismo, mas há preocupação também com legislação proposta que limita a liberdade religiosa, impondo, por exemplo, uma versão alemã e estandardizada do Alcorão.

O Movimento de Defesa da Vida, que faz um trabalho notável com um orçamento muito limitado, recebeu um prémio com valor monetário de 50 mil euros pelo “Projecto Família”, que trabalha com famílias em situação precária. É uma ajuda preciosa.

O Cardeal Oscar Maradiaga, um dos principais conselheiros do Papa Francisco, esteve em Portugal e falou com Aura Miguel sobre as suas ideias da Igreja e das reformas que o Papa está a preparar.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A Santa Sé prepara-se para o Punk Rock

Patti Smith
Patti Smith vai cantar amanhã no concerto do Vaticano. Há quem ache surpreendente e escandaloso. Saiba aqui porque não devíamos sentir nem uma coisa nem outra.

Para melhor entender este caso recorremos ao nosso especialista de punk rock e Cristianismo, o cantor e pastor Tiago Cavaco. Ele tem muita coisa interessante a dizer sobre Patti Smith e revela que se fosse ele a ser convidado… porque não?

Noutras notícias, o bispo da Guarda espera que os casos de pessoas mediáticas a serem levadas à justiça sirvam para motivar a sociedade.



Termino com um aviso. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que merece todo o nosso apoio, organiza uma série de concertos de Natal. Não deixem de consultar aqui as datas e os locais, e apareçam. É uma forma de ajudar!

“Se o Papa me convidasse para tocar para ele, porque não?”

Transcrição integral da conversa com Tiago Cavaco sobre o facto de Patti Smith actuar no concerto do Vaticano, em Roma. A reportagem está aqui.


O facto de Patti Smith cantar no concerto do Vaticano está a ser apresentado quase como uma hipocrisia, por ela dizer numa das suas primeiras músicas: “Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não os meus”. Concorda?
Ela escreve sobre isso num livro editado em Portugal, chamado "Apenas miúdos", onde conta um bocado a sua história com o seu companheiro que foi o Robert Mapplethorpe, um fotógrafo, e o que ela diz sobre essa frase é que revoltar-se contra Jesus era revoltar-se contra a própria rebelião, porque Jesus era também um rebelde.

Uma das coisas interessantes é que provavelmente hoje, comparado com os anos 70, em que ela escreveu isso, Jesus é um símbolo de maior rebeldia do que era nessa altura. Portanto termos uma cantora como a Patti Smith a associar-se à figura de Jesus até acho que é uma justiça poética e ela é uma poetisa. Eu encontro lógica aqui, não vejo incoerência, vejo lógica.

Mas podemos então dizer que ela é religiosa?
É uma boa pergunta. Às vezes tenho dificuldade em classificar o que é uma pessoa religiosa por oposição a uma pessoa não-religiosa. Por um lado acho que ter uma má vontade, a toda a prova, contra a religião, por si pode ser uma religião também, porque é uma coisa muito exigente, uma pessoa que esteja sempre contra a Igreja tem de ser muito zelosa nisso, é preciso dar muito de si para ser muito coerente com isso.

Não deixa de ser contraditório, a Igreja – e eu não sou católico romano – passa a vida a ser criticada por não falar com o mundo e cada vez que o mundo vem falar com a Igreja as pessoas também criticam. O que parece é que a Patti Smith é uma pessoa que se apercebe que a religião é uma coisa demasiado importante para ser rejeitada e descartada de maneira fácil.

Há um aspecto que acho assinalável. A Patti começou a escrever antes de fazer música e o que diria é que o Cristianismo é por excelência uma fé da escrita, portanto alguém que escreva, mesmo que não creia, faz todo o sentido que tenha uma relação próxima com o Cristianismo, mesmo que não seja uma relação de crença. Portanto que uma cantora que é escritora, como a Patti Smith, se aproxime da Igreja, nem que seja em coisas destas, acho absolutamente normal e natural.

Num dos álbuns dela, "Easter", cita São Paulo "Combati o bom combate, completei a carreira..." A frase seguinte seria "Guardei a Fé", mas ela deixa de fora. Isso pode ter algum significado?
Lá está, acho que qualquer pessoa que goste de ler e que tenha passado por momentos da sua vida em que alguma coisa que leu a transformou, de um modo geral, se viver com acesso ao texto bíblico, vai ser uma pessoa com interesse por ler a Bíblia, e vai sentir-se desafiada pela Bíblia.

A Bíblia é o livro dos livros, quer as pessoas creiam nele enquanto revelação divina ou não. É o grande livro da nossa cultura, mesmo que não nos coloquemos perante ela sob uma perspectiva de fé. Portanto a capacidade que a Patti Smith tem de citar textos bíblicos, eventualmente trazendo questões às afirmações que lá estão, acho que é uma coisa absolutamente produtiva e sinal de que ler o nosso tempo é necessariamente ler o texto bíblico também. Eu acho que a Patti Smith está a caminho de fazer muito mais perguntas ao texto bíblico do que aquelas que já tem vindo a fazer. 

Essa é uma das grandes pobrezas da nossa cultura em Portugal, é que os nossos artistas não lêem a Bíblia. E portanto não têm sequer a capacidade de perceber o que lhes agrada ou não agrada, porque pura e simplesmente não a conhecem. Os Estados Unidos de facto são um país com uma cultura diferente e as pessoas estão habituadas a ir ao texto bíblico, nem que seja para se zangarem com ele, mas isso é saudável, irmos ao texto bíblico nem que seja para nos zangarmos com ele. Mais tarde traz encontros. Hoje a Patti Smith estar a tocar para o Papa acho que sem dúvida tem a ver com o facto de ela ter a Bíblia aberta, isso ajuda bastante. 

Independentemente de ser falsa a imagem dela ser um ícone anti-religioso, não deixa de ser surpreendente vê-la a cantar no Vaticano.
Depende da forma como o vemos. Se nós pensarmos em tocar para o Papa como um prémio carreira, vamos ter de pensar que a pessoa que vai tocar para o Papa tem de ter uma relação muito próxima com ele. Mas se tivermos a ideia de que tocar para o Papa é no fundo participar num momento em que os cristãos, neste caso os católicos, dialogam com o mundo, então é possível que o Papa naturalmente receba pessoas e que possam cantar para ele sem que isso represente um acto de profissão de fé. Acho que depende um bocado da maneira como se olha para isto.

Eu que não sou católico romano, mas que sou cristão, provavelmente não acontecerá, mas se o Papa me convidasse para cantar para ele, porque não? Da mesma maneira que se for convidado por um amigo para ir jantar lá a casa, apesar de não gostar de cantar nestes contextos, depende da amizade que temos pelas pessoas. Portanto eu acho que é preciso que a nossa visão do contacto que temos com a religião seja uma relação mais do campo da amizade, onde somos capazes de sermos amigos mesmo das pessoas com quem não concordamos. 

A esse nível, de modo nenhum me choca que a Patti Smith, ou qualquer outra pessoa que não seja conhecida pela sua fé, vá cantar e tenha alguma relação ou gesto de amizade, neste caso com a Igreja Católica e com o Papa em particular. 

O Papa também passa a vida a ter gestos de amizade com pessoas que não são católicas, portanto acho que faça sentido que as pessoas que não são católicas também tenham gestos de amizade com o Papa.

Da obra dela, em termos de referências religiosas, o que é que destacaria?
Na verdade não sou um conhecedor profundo da Patti Smith, é verdade que ela é de uma área que é a minha área de afectos, ali no início do punk, há quem lhe chame proto-punk, no sentido de ser aquilo que veio permitir que o punk aparecesse como uma reacção a uma música que era muito sofisticada, muito gorda, muito progressiva. 

A Patti Smith, é uma pessoa que escrevia e que começou basicamente por fazer discos muito mais falados do que propriamente cantados, isso é interessante, porque o punk, apesar de ter uma aura de simplicidade, não veio destituir o poder da palavra, nem que fosse pela palavra-choque, mas os discos da Patti Smith, que não conheço muito bem, tirando o "Horses" por exemplo, são discos que voltam a colocar naquilo que se está a dizer a importância daquilo que se está a tocar. 

Acho difícil que algum músico que faça música e que dê valor às palavras não torne a música com qualidade espiritual. Porque podemos ouvir músicas numa fase bastante simples, mas a partir do momento em que a palavra começa a ser uma coisa importante há um valor espiritual aí, pelo menos é isso que os cristãos acreditam. Deus é um Deus que se revela através da palavra, neste caso a Bíblia, mas que se revela através de Cristo enquanto Verbo, portanto a nossa cultura é uma cultura que valoriza a palavra e por isso acho que nos discos da Patti Smith, pelo valor dado à palavra, há uma espiritualidade. Essa é uma das coisas que podemos encontrar até na música popular e no rock, quando a palavra é importante.

Quando aquilo que se diz não é importante e é mais um pretexto para que os instrumentos toquem, então é provável que seja fácil distrairmo-nos com mensagens que não são assim tão vitais. Mas no caso da Patti Smith é um universo diferente, é um universo que valoriza aquilo que está a ser dito e isso, na minha perspectiva, leva sempre a uma relação pelo menos de indagar e questionar a fé.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Mais um português "justo entre as nações"

"Justo entre as nações"
É uma notícia que muito honra o país. O museu do Holocausto, em Jerusalém, distinguiu mais um português pelo seu papel na salvação de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Joaquim Carreira era responsável pelo Colégio Pontifício Português, em Roma. A distinção deve muito ao trabalho de António Marujo, o jornalista que investigou mais a fundo a sua história.

Outra boa notícia, do meu ponto de vista, vem da Polónia, onde o tribunal constitucional decretou que a proibição do abate ritual de animais para consumo, uma questão importante para judeus e muçulmanos, é inconstitucional e por isso a prática pode ser retomada.

Menos boa, ou pelo menos polémica, é a decisão de um tribunal francês de mandar retirar um presépio de uma câmara municipal. Ganha importância por se tratar de uma localidade na Vendeia.

O Vaticano anunciou a realização de um consistório para criação de novos cardeais. Será em Fevereiro, como habitual. Não se sabe quem serão os cardeais, mas a lista poderá dizer muito sobre as prioridades do Papa e os portugueses estarão particularmente atentos…

A jornalista Rosário Silva dá-nos a conhecer um pouco sobre o dia-a-dia dos monges da Cartuxa. Vale sempre a pena ver.

Foram vários os portugueses que se associaram a uma iniciativa, ontem, de solidariedade para com Asia Bibi. Era fácil, bastava beber um copo de água.


E termino com um aviso. Todos os que se interessam por temas ligados ao tradicionalismo católico (e sublinho aqui o católico, por oposição a movimentos tradicionalistas que estão fora da comunhão com a Igreja) não quererão perder um colóquio que se realiza em Lisboa no próximo sábado. O programa está aqui.

2º Colóquio Tradição e Revolução

Local: Palácio da Independência, Lisboa, Sábado, 13 de Dezembro de 2014.


14:30 – Abertura

15:00 – Marcos EscobarA Tradição em Maurras

15:30 – Carlos Maria BoboneA Tradição em Montesquieu

15:45 – Ibsen NoronhaTradição, Direito e Religião

16:00 – Debate

16:30 – Clarence Protin Perenidade e continuidade da Tradição Platónico-Augustiniana

16:45 – Francisco FelizolTradição à Traição

17:00 – José Maria Pereira CoutinhoA Tradição como garantia de continuidade

17:15 – Debate

17:45 – Café

18:15 – Carlos BoboneO tradicionalismo e os seus involuntários teorizadores

18:30 – José Carlos Sepúlveda da Fonseca A Tradição em Plinio Corrêa de Oliveira: um princípio de acção

18:45 – Debate

19:30 – Encerramento 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

E você, já combateu a escravatura hoje?

A escravatura assume muitas formas...
O Papa divulgou hoje a sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, que se assinala a 1 de Janeiro. O que é que cada um de nós tem feito para combater a escravatura e exploração humana? O Papa quer saber, e olhem que um sorriso pode bastar.

O Vaticano também divulgou o documento que servirá de base para os trabalhos do sínodo da família, em 2015. Hoje, na audiência geral, falou abertamente sobre o que se passou no de Outubro passado, dizendo que a natureza do casamento nunca foi posta em causa.

A Conferência Episcopal mostrou-se ontem solidária com o Bispo do Porto, acerca do caso da paróquia de Canelas.

Há duas entrevistas que já foram publicadas a semana passada e que não deve perder. Uma é com o Chef Kiko Martins, que fala da importância da fé na sua vida; a outra é com a Irmã Ângela Coelho, postuladora da causa de canonização dos pastorinhos, que fala do seu percurso.

Promessas

James V. Schall S.J.
Nos salmos lê-se: “Sustenta-me, Senhor, segundo a tua promessa…” É preciso uma certa lata para pedir a Deus que cumpra com as suas promessas, quanto mais reconhecer que Ele as fez.

Muita da nossa felicidade e infelicidade deriva da manutenção ou quebra de promessas. Um juramento é uma declaração de que vamos cumprir uma promessa. Um voto é uma promessa solene, normalmente feita a Deus, que tem por objectivo enfatizar a seriedade da promessa e a intenção de a manter. Um contrato é um acordo de que algo será feito ou entregue de uma forma particular, num tempo específico. Há demasiadas vidas preenchidas com promessas quebradas, logo, os juramentos e os contratos costumam acarretar uma penalidade ou uma emenda para o caso de o acto prometido não ser cumprido. Os outros contam connosco e com o cumprimento das nossas promessas.

As promessas podem, ou não, envolver um factor-tempo. O casamento é, ou devia ser, “até que a morte nos separe”. Um contrato pode estipular que eu entregarei esta encomenda de carvão no dia 20 de Dezembro. As promessas permitem-nos configurar o futuro. Uma promessa identifica a forma como alguém agirá ou falará num futuro por definir. Permite-nos fazer as nossas próprias promessas, nas certezas das dos outros.

Mas há promessas que nunca deveríamos fazer, ou cumprir, caso tenham sido feitas. Penso em Herodes Antipas. Ele jurou que daria à sua filha até metade do seu reino. Mas em vez disso ela pediu a cabeça de João Baptista. O Rei, por ter feito tanto caso, teve de “cumprir” o seu juramento e promessa. Platão argumenta, numa famosa passagem da República, que os maiores crimes requerem mútuo acordo entre criminosos para serem levados a cabo. As promessas surgem da nossa compreensão e poder de vontade. Fazem parte do discurso de livre vontade e a sua relação com a razão.

Uma promessa é uma forma de organizar o futuro, como Hannah Arendt explicou. O passado aconteceu. Não o podemos mudar. Mentir sobre o passado é um mal que pode ser verificado à luz dos factos. Mas o futuro ainda não aconteceu. Podemos ser daqueles crentes que afirmam que confiamos de tal forma em Deus que não precisamos de “fazer” nada. Deixamos que tudo o que acontece seja “vontade de Deus”. Desculpamo-nos dizendo que seguimos a “vontade de Deus”, para onde quer que ela nos leve. Mas esta tese passa ao lado de tudo o que significa ser humano: a capacidade de agir e tomar responsabilidade pelas nossas acções.

As regularidades da natureza, como o levantar e o pôr-do-sol, decorrem independentemente de nós. Podemos louvá-los mas não os podemos mudar. Esta necessidade é verdadeira no que diz respeito à nossa existência, tanto quanto nos diz respeito. Mas a nossa existência dependeu da promessa de outros, dos nossos pais, da sua promessa de criar aquilo que geraram. Mas outras coisas apenas existirão se as planearmos. Se bem que ter um plano, só por si, não chega. Devemos desejá-lo, tomar uma resolução e prometer torná-lo realidade.

No seu famoso ensaio, “Em Defesa de Votos Impulsivos”, Chesterton escreveu as seguintes linhas:

É verdadeiramente interessante ouvir os opositores ao casamento… Eles parecem imaginar que o ideal da constância (o cumprimento dos votos) é uma carga misteriosamente colocada sobre a humanidade pelo demónio em vez de ser, como é, uma carga imposta consistentemente por todos os amantes sobre si mesmos. Inventaram uma expressão, uma expressão que em duas palavras representa uma contradição total – “amor livre” – como se o amor alguma vez tivesse sido, ou alguma vez pudesse ser, livre. O compromisso faz parte da natureza do amor e a instituição do casamento simplesmente presta ao homem comum o elogio de confiar na sua palavra.

Nunca ninguém o disse melhor. Quem ama escolhe ser livre comprometendo-se com aquilo que ama de tal forma que cumprimos a nossa promessa àquele a quem amamos. As promessas e os votos quebrados não nos libertam, simplesmente nos mostram como optámos por não ser livres.

Na fórmula confessional prometemos firmemente expiar os nossos pecados. Sem esta promessa, as coisas não avançam, nem moralmente nem sacramentalmente. Se quebramos uma promessa (e quem nunca o fez?), não devemos usar isso como uma desculpa para quebrar todas as outras. Mas se dermos por nós sempre a quebrar promessas, das mais comuns às mais solenes, estamos próximos da condição de “amor livre” a que Chesterton se referiu, aquele amor que não nos compromete com nada para além de nós mesmos.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

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