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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Cinco Paradoxos da Revolução Sexual

Mary Eberstadt
Nota: Este artigo é, na verdade, dois... A primeira parte foi publicada no dia 14 de Fevereiro e a segunda, para simplificar a leitura, foi-lhe juntada no dia 21.

As definições de revolução sexual variam consoante os académicos, mas há uma fórmula simples e incontroversa. A “revolução” diz respeito a mudanças no comportamento e nas normas sexuais que se seguiram à aprovação e adopção de formas de contracepção fiáveis há mais de meio século. O primeiro factor foi a pílula, aprovada para comercialização em 1963 e disponibilizada em larga escala a partir de então. O segundo factor é a legalização do aborto a pedido em 1973 através do caso Roe v. Wade – um desenvolvimento que a aprovação da pílula tornou tudo menos inevitável. A contracepção moderna e a legalização do aborto alteraram não só os comportamentos como as atitudes. Em todo o mundo a tolerância para com o sexo extraconjugal subiu em conjunto com estas outras mudanças, por razões lógicas que já abordei noutros lados, incluindo no meu livro “Adão e Eva depois da Pílula”.

À excepção da internet, é difícil pensar em qualquer outro fenómeno desde os anos 60 que afectou a humanidade em todo o mundo tão profundamente como esta revolução em particular. Alguns dos efeitos são bem conhecidos: há quatro anos, no 50º aniversário da aprovação da pílula contraceptiva, assistimos a uma torrente de comentário e de reflexão, na maioria positiva. A revolução, como foi proclamado – e aclamado – pela revista Time e a maior parte das outras fontes seculares, tinha aplanado o campo do mercado económico entre homens e mulheres, pela primeira vez na história; tinha concedido às mulheres uma liberdade que jamais tinham conhecido. Tudo verdade. Mas há um outro lado desta história que tem sido ignorado por uma sociedade saturada pelos prazeres da revolução. A cada ano que passa acumulam-se mais provas que acabarão por alterar a narrativa cor-de-rosa que predomina. Nesse sentido gostaria de falar de cinco formas em que a revolução alterou a realidade humana como a conhecemos, cinco aparentes paradoxos que revelam o poder da revolução, em particular o seu incrível poder destrutivo.

Comecemos por uma pequena história que capta a escala da mudança. Eu cresci numa série de pequenas vilas em zonas rurais do Estado de Nova Iorque, a norte do Vale do Rio Hudson, no que parecia um planeta diferente da Cidade de Nova Iorque. Esta era, e é ainda, uma região de operários. Era o tipo de sítio em que mais rapazes nos anos 60 iam para o Vietname do que para a faculdade. Em larga medida não mudou, com uma gigantesca excepção, a família.

Nos anos 60 a maioria dos homens trabalhava nas explorações agrícolas, ou nas fábricas de cobre ou de prata locais. A maioria das mulheres casadas ficava em casa. A maior parte das famílias estava intacta – quer as religiosos quer as não religiosos. Não era uma população particularmente devota, a maioria dos residentes eram protestantes, menos de 10% católicos, e as igrejas não estavam propriamente a rebentar pelas costuras aos domingos.

Uma das minhas memórias dessa época é de uma rapariga adolescente que vivia na nossa rua e que engravidou. O pai da criança era um jovem soldado, acabado de regressar da guerra. As fofoqueiras estavam revoltadíssimas porque o rapaz não tencionava casar com ela. Nesses dias isso era chocante. Havia noivas grávidas, até adolescentes, mas os homens que recusavam casar com as mulheres que engravidavam eram objecto de reprovação. As pessoas falavam, e o que diziam não era simpático.

A rapariga acabou por ter o bebé, noutro local qualquer, e seguiu-se uma adopção. Ela regressou e acabou o liceu – tanto quanto sei sem estigma social. Mas o estigma de que me lembro, e bem, foi o que se manteve em relação ao namorado. A ideia de que ele se deveria ter responsabilizado, que era partilhada pela maioria dos adultos naquele local, e naquele tempo, desapareceu com os ventos da revolução.

Avancemos agora alguns 20 anos. No início dos anos 90 regressei e conversei com a minha antiga professora. Ela calculava que entre os 200 finalistas do liceu desse ano, cerca de um terço das raparigas estava grávida. Nem uma era casada. E sem dúvida haveria outras gravidezes para além das visíveis, pois havia boatos de que outras raparigas tinham abortado.

Ou seja, de uma gravidez escandalosa num liceu rural nos anos 70 passámos para muitas gravidezes não escandalosas nesse mesmo liceu em meados dos anos 90. Essa é uma imagem que nos mostra como a revolução sexual transformou o mundo.

O que nos leva ao primeiro dos paradoxos dessa revolução:

Paradoxo um: Se a premissa principal da revolução era a disponibilidade de contraceptivos baratos e fiáveis, porquê o aumento sem precedentes tanto no número de abortos como de gravidezes extraconjugais?

Esta é uma questão profundamente importante. Afinal de contas, quando a contracepção se tornou comum, muitas pessoas de bem-intencionadas a defenderam precisamente porque pensavam que tornaria o aborto obsoleto. A Margaret Sanger é um exemplo disso mesmo. Ela considerava o aborto “bárbaro” e argumentou que a contracepção acabaria com a prática. Entretanto a Planned Parenthood elevou-a ao estatuto de padroeira. Ela estava a fazer um argumento que parecia ser do senso comum: a contracepção fiável iria prevenir o aborto. Muitas mais pessoas, tanto antes como depois dos anos 60, acreditaram na mesma coisa. Mas os dados empíricos desde os anos 60 mostraram que esta lógica está errada. As taxas de contracepção, aborto e nascimentos fora do casamento explodiram em simultâneo. Há mais de 20 anos um grupo de economistas explicou a dinâmica destes crescimentos simultâneos com uma clareza admirável.

Antes da revolução sexual as mulheres tinham menos liberdade, mas era esperado que os homens assumissem a responsabilidade pelo seu bem-estar. Hoje as mulheres têm maior liberdade de escolha, mas os homens adoptaram para si uma opção comparável. “Se ela não está disposta a abortar ou a usar contraceptivos”, pensa o homem, “porque é que eu hei de me sacrificar para casar?” Ao remeter o nascimento da criança para a dimensão da escolha da mãe, a revolução remeteu o casamento e o apoio infantil para a dimensão da escolha do pai. Por outras palavras, a contracepção conduziu a mais gravidezes e a mais aborto porque levou ao fim do casamento por “penalti”, ou a ideia de que os homens têm uma responsabilidade igual no caso de uma gravidez não planeada.

Outra teoria interessante sobre o falhanço da contracepção na prevenção do aborto foi aduzida por Scott Lloyd, no “National Catholic Bioethics Quarterly”. Recorrendo a estudos e estatísticas da própria indústria abortista ele (tal como outros) argumenta que a contracepção conduz ao aborto – não inevitavelmente, em casos individuais, claro, mas repetidamente e seguramente, como fenómenos sociais geminados:

“A questão de fundo é esta: os contraceptivos não são tão eficazes como dizem, e o seu falhanço está no cerne da exigência pelo aborto. A contracepção permite encontros e relações sexuais que sem ela não aconteceriam. Por outras palavras, quando os casais usam contraceptivos, concordam em ter relações sexuais numa altura em que uma gravidez seria problemática. Isto conduz ao desejo por um aborto.”

Há muitos esforços nas ciências sociais, e não só, para explicar este mesmo paradoxo; mas a questão principal mantém-se: ao contrário do que a maioria teria adivinhado nos anos 60, tanto o aborto como as gravidezes não planeadas proliferaram apesar da contracepção.

Muitas das pessoas que estavam presentes no início desta revolução não teriam antecipado estas consequências paradoxais. Muitas, em boa-fé, esperavam que a humanidade dominasse estas novas tecnologias e que elas acabariam por contribuir para o bem social. Mas aqueles de nós que estão vivos hoje, em claro contraste, possuem uma imensidão de dados empíricos acumulados ao longo de décadas e podemos ver, através da ferramenta perfeitamente secular das ciências sociais, que a história da revolução sexual tomou um rumo mais sinistro.

Paradoxo dois: A revolução sexual era suposto libertar as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, tem-se tornado mais difícil para elas conseguir aquilo que a maioria das mulheres diz querer: casamento e família.

Não estou a ser tendenciosa. Mulheres de todos os espectros políticos concordam que o casamento, ou a união para a vida, se tornou mais difícil do que outrora fora. Essa é uma razão pela qual temos actualmente barrigas de aluguer e congelamento de ovos – no caso do congelamento, com o apoio entusiástico do mundo empresarial. O objectvo destas inovações – para além dos lucros de um carreirismo ininterrupto – é estender o horizonte da fertilidade natural, para que as mulheres estejam mais livres para permanecer no local de trabalho e para encontrar marido e formar família. A suposta ideia – tal como a ideia por detrás da contracepção livre e do aborto a pedido – é de dar mais poder às mulheres, dar-lhes controlo.

Mas paradoxalmente, muitas mulheres dão por si com menos capacidade de casar, permanecer casadas e constituir família – tudo coisas que a vasta maioria das mulheres continua a descrever como seus principais objectivos. As redes sociais e a imprensa fazem eco desta preocupação com manchetes como “Oito razões pelas quais as nova-iorquinas não conseguem arranjar marido” (New York Post); ou “Porque as licenciadas não encontram amor” (The Daily Beast); ou muitas outras histórias que se preocupam com as mulheres de hoje e a questão do casamento.

Mas os economistas já desvendaram a realidade por detrás destas preocupações, mais resquícios da revolução. No seu livro “Cheap Sex: A Transformação dos Homens, do Casamento e da Monogamia”, o sociólogo Mark Regnerus utilizou as ferramentas da economia para explicar o mercado sexual pós-revolucionário, com o apoio de novos dados.

A essência do argumento é esta:
Muitas mulheres pensam que os homens têm medo do compromisso. Mas os homens, em média, não têm medo do compromisso. A questão é que os homens estão numa posição privilegiada no mercado do casamento, podendo navegá-lo de uma forma que privilegia os seus interesses e preferências sexuais.

Por outras palavras, a mesma força que erodiu o casamento de “penalti” acabou por dar mais poder aos homens e não às mulheres.

Um dos economistas citados por Mark Regnerus, Timothy Reichart, escreveu uma análise semelhante da revolução, num artigo do First Things, chamado “Bitter Pill”, em que utiliza dados dos anos 60 em diante para argumentar que “a revolução resultou numa redistribuição massiva de riqueza e de poder das mulheres e das crianças para os homens”. Especifica: “Tecnicamente, a contracepção artificial cria uma cena a que os economistas chamam o ‘dilema do prisioneiro’, em que cada mulher é levada a tomar decisões racionais que acabam por a deixar a ela e a todas as mulheres numa situação pior”.

Claro que não estamos a falar aqui nos movimentos e comunidades deliberadamente contraculturais que se juntaram para se opor à revolução desde os anos 60. Antes, estamos focados na narrativa cultural em ambientes não-religiosos – o tipo de local em que a revolução não é encarada como sendo problemática. (Ainda).

E nesse mundo, que é agora a cultura predominante, o facto de muitos homens não estarem a assentar, a casar e a constituir famílias é uma preocupação constante. É daí que surgem expressões como “síndrome Peter Pan”, dos anos 80. É por isso que “falha de lançamento” é uma expressão tão utilizada hoje e “manolescent” [homenloscente] se tornou uma palavra no Urban Dictionary.

Todos estes novos termos têm a mesma origem, que é um menor incentivo para os homens casarem, devido ao facto de o mercado sexual ter sido inundado de potenciais parceiras – “sexo barato”, como se lê no título. Também este desenvolvimento não estava entre previsões dos anos 60. Mas há mais. 

Um terceiro paradoxo tornou-se dominante na telenovela das redes sociais dos nossos dias, passa-se assim: Era suposto a revolução sexual capacitar as mulheres. Em vez disso, trouxe-nos os escândalos sexuais de 2017 e o movimento #MeToo. Para além de ter tornado o casamento mais difícil para qualquer mulher, permitiu ainda um nível de predação sexual nunca visto fora do âmbito de exércitos conquistadores.

Tomemos o exemplo de Hugh Hefner, fundador da Playboy, que morreu o ano passado. O seu império comercial assentava, claro está, em fotografias pornográficas de um grande número de mulheres. Tornou-se um exemplo da sua própria suposta filosofia, a filosofia Playboy de bebidas sofisticadas, música e, claro, sexo fácil. Foi uma ideia que se espalhou rapidamente e podemos supor que a maioria das pessoas não conhecia as verdades sórdidas que mais tarde emergiram da mansão Playboy, e não só, sobre a exploração que estava por detrás da publicidade vistosa.

Apesar disso, quando Hefner morreu muitos progressistas, incluindo autodenominadas feministas, não se pouparam a elogios ao apóstolo da revolução. Porquê? Porque ele mascarava os seus objectivos de predador na linguagem do progressismo sexual. Tal como um escritor da Forbes resumiu, “a Playboy publicou o primeiro artigo a apoiar a legalização do aborto em 1965, oito anos antes da decisão de Roe v. Wade que permitiu a prática – e antes ainda de o movimento feminista abraçar a causa. Também publicou números de telefone gratuitos para mulheres que queriam obter abortos seguros.”

Sharon Tate, Hugh Hefner, Barbi Benton e Roman Polanski
Por outras palavras, o apoio de Hefner por estas causas parece estar intrinsecamente ligado ao seu desejo de poder viver de uma forma que explora as mulheres. Esta geminação aplica-se a muitos dos escândalos sexuais que têm rebentado nos noticiários. As histórias dos Weinsteins, etc., revelam este papel estratégico do aborto na vida de numerosos homens que vêem as mulheres como objectos sexuais e desprezam a monogamia. Sem o recurso à liquidação fetal, onde estariam homens deste calibre? Em tribunal, a pagar fortunas em pensões alimentares.

Cada vez mais pensadores, mesmo fora do mundo religioso, estão a chegar à mesma conclusão. A revolução sexual não cumpriu as promessas feitas às mulheres; pelo contrário, deu ainda mais liberdade aos homens – sobretudo homens sem as melhores intenções. Francis Fukuyama, um cientista social não religioso, escreveu há quase 20 anos no seu livro “The Great Disruption” que “uma das maiores fraudes impostas durante a Grande Disrupção foi a noção de que a revolução sexual era neutra do ponto de vista de género, e que beneficiaria homens e mulheres em igual medida… De facto, a revolução sexual serviu os interesses de homens e acabou por impor fortes limites aos ganhos que as mulheres poderiam esperar da sua libertação de papéis tradicionais”.

Com essa observação, Fukuyama junta-se a uma longa e crescente lista de pensadores não-religiosos que agora, em retrospectiva, podem compreender melhor aquilo que alguns dos líderes religiosos dizem desde sempre. A revolução democratizou, efectivamente, a predação sexual. Já não era necessário ser rei ou senhor do universo noutra dimensão para poder abusar ou assediar mulheres de uma forma contínua. Tudo o que era preciso era um mundo em que a maioria das mulheres usam contracepção e não beneficiam de protectores masculinos. Por outras palavras, o mundo que nos foi entregue pela revolução.

Há um quarto paradoxo que ainda mal foi estudado, pelo menos de forma sistemática, e que precisa de o ser. Trata-se do efeito da revolução sobre o Cristianismo. Ao olhar para trás percebemos que a história da revolução tem acompanhado, simultaneamente, a polarização das igrejas por dentro ao mesmo tempo que cria laços mais fortes entre denominações diferentes do que alguma vez tinham existido.

Há décadas que os comentadores discutem o que os anos sessenta significaram para as igrejas. Alguns acolheram as inovações do Concílio Vaticano II, por exemplo, e outros saudaram as transformações teológicas radicais das principais igrejas protestantes. Outros ainda deploram estas mudanças. Seja como for, os observadores do Cristianismo hoje chegam a uma conclusão inevitável: a revolução sexual é a questão mais divisiva que atinge a fé.

Isto aplica-se tanto a católicos como a protestantes. Em 2004 o livro “A Church at War”, de Stephen Bates, um livro sobre a Comunhão Anglicana, resumia assim o seu principal argumento na contra-capa: “A política sexual vai levar ao divórcio entre Anglicanos e Episcopalianos?” Alguns anos mais tarde, escrevendo sobre o mesmo assunto em “Mortal Follies: Episcopalians and the Crisis of Mainline Christianity”, William Murchison concluiu que “para os episcopalianos, como para muitos outros cristãos, as principais questões são o sexo e a expressão sexual, nem um nem outro visto como um meio para um fim maior, mas sim como o fim em si”.

No seu livro de 2015 “Onward”, Russell Moore reflecte sobre a tensão entre evangélicos progressistas e tradicionalistas da seguinte forma: “No que diz respeito à religião na América, neste momento, o progresso resume-se sempre a sexo”.

Tal como noutros exemplos, parece seguro dizer que o estado de divisão que existe hoje não é nada que os cristãos dos anos 60 desejavam. As vozes dentro das igrejas que pediam apenas um Cristianismo “mais aberto” não sabiam o que vinha aí, que se transformou na guerra civil figurativa de hoje, que atravessa denominações e a fé em si.

Por agora termino com um quinto paradoxo. A revolução sexual não se ficou pelo sexo. O que muitas pessoas pensavam tratar-se de uma transformação privada das relações entre indivíduos acabou por reconfigurar de forma radical não só a vida familiar, mas a vida em si.

Talvez o efeito menos compreendido da revolução seja aquilo a que se podem chamar os seus efeitos macrocósmicos – a forma como continua a transformar e deformar não apenas indivíduos, mas sociedades e política também.

Algumas destas mudanças são demográficas: em grade parte do mundo desenvolvido as famílias são hoje mais pequenas e mais estilhaçadas por dentro do que em qualquer outro período da história.

Alguns efeitos são políticos: famílias mais pequenas e fracturadas colocaram uma pressão sem precedentes sob os estados sociais do Ocidente, ao reduzir a base fiscal necessária para a sustentar.  

Há ainda efeitos sociais que só agora começam a ser mapeados, como o grande aumento de pessoas a viver sozinhas, ou a demonstrar índices muito reduzidos de contacto humano ou de outras formas que constituem o campo em crescimento de “estudos de solidão” – também isto acontece em muitos países ocidentais.

Depois há as consequências espirituais, que também não podiam ter sido previstas nos anos sessenta, sobretudo por aqueles que argumentavam que uma mudança de paradigma moral ajudaria os cristãos a serem melhores cristãos.

Já argumentei noutro lado que a revolução deu aso a uma nova fé secularista e quási-religiosa – o conjunto de crenças mais potente desde o marxismo-leninismo. De acordo com esta nova fé, o prazer sexual é o bem-maior e não existe qualquer padrão moral para além do consentimento entre adultos para o que quer que seja que desejem fazer uns com os outros. Quer tenham consciência disso ou não, muitas pessoas modernas tratam a revolução sexual como uma espécie de fundação religiosa – intocável em termos de revisão, independentemente das consequências que provocou.

Estes são apenas alguns exemplos do novo mundo que precisa de ser estudado e isto vai absorver-nos intelectualmente durante muito tempo. Devemos ter esperança nesses esforços futuros. Afinal de contas, levou mais de cinquenta anos para a opinião mudar sobre apenas alguns aspectos negativos do legado da revolução. Poderão ser precisos mais cinquenta, ou cem, para que seja feito um apanhado empírico e intelectual completo e honesto. O revisionismo sobre os efeitos da revolução no mundo ainda agora começou.

Termino com um pensamento. O grande escritor russo Leo Tolstoy foi a dada altura enviado pelo seu jornal para fazer uma reportagem sobre o que se passava num matadouro local. O que viu abalou-o profundamente. A descrição que fez incluiu uma frase imortal que penso aplicar-se à nossa situação hoje. Depois de relatar os factos, Tolstoy observou, com simplicidade devastadora, “não podemos fingir que não sabemos estas coisas”.

É nesse ponto que se encontra a humanidade em 2018 no que diz respeito à revolução sexual. Não podemos continuar a fingir que não sabemos estas coisas, estas coisas que a revolução provocou.

Nos anos idílicos da década de 60 muitas pessoas de boa-fé podiam alegar ignorância sobre as consequências vindouras. Poucos podiam adivinhar quantos milhões de crianças nas gerações seguintes cresceriam sem pais em casa, por exemplo, ou quantos mais milhões seriam abortados; ou quantos homens e mulheres de casas destroçadas acabariam por sofrer de diversas formas, recorrendo a drogas – a epidemia de opiáceos não se pode resumir ao marketing – e outros comportamentos autodestrutivos.   

Há apenas meio século, muitas pessoas esperavam que a revolução não provocasse danos colaterais humanos. E, justiça lhes seja feita, quem, nesses anos, poderia ter previsto a autêntica biblioteca de ramos de ciências sociais que, entretanto, foi criada, demonstrando apenas alguns dos danos humanos afligidos a homens, mulheres e filhos da revolução?

Há cinquenta anos algumas pessoas até esperavam que as novas liberdades e controlos tecnológicos acabariam por estabilizar o casamento. A encíclica Humanae Vitae, que também completa os seus 50 anos este ano, acabaria por se tornar desprezada ao longo das décadas precisamente por prever o contrário – precisamente por insistir que a revolução iria ferir o romance e a família, e permitir o comportamento predatório dos homens e a maldade de governos.

É um paradoxo dentro do paradoxo que muitas pessoas, incluindo dentro da Igreja Católica, mesmo em altos cargos, resistiram furiosamente à rejeição que a Humanae Vitae fez da revolução – ou, já agora, qualquer rejeição da revolução – não obstante as provas.

Mas em 2018 será que algum de nós pode, em boa-fé, fingir que não sabe estas coisas que foram empiricamente documentadas? A resposta tem de ser não.

Em 1953, quando a primeira edição da Playboy chegou aos escaparates, talvez muitas pessoas quisessem acreditar na sua conversa sobre aumentar a sofisticação e a urbanidade dos homens americanos. Em 2018 não podemos continuar a fingir que a generalização da pornografia representou menos do que um desastre para o romance e um dos factores principais para os divórcios de hoje, bem como outras rupturas familiares.

Em 1973 nem mesmo os apoiantes de Roe vs. Wade podiam imaginar o que aí vinha: alguns 58 milhões de micro-humanos que nunca teriam a oportunidade de nascer, só nos Estados Unidos; generocídio, ou a matança selectiva de micro-meninas por serem meninas, em várias nações do mundo, também aos milhões. Nem podiam antever o grande salto tecnológico que acabaria por revelar a verdade sobre o aborto de uma vez por todas: a ecografia.

Será que os defensores actuais do aborto podem alegar a mesma ignorância?

Encarar os factos de forma honesta, e usá-los para estabelecer uma narrativa verídica, não é apenas uma forma de nos lamentarmos: é capacitador. Ao rejeitarmos estarmos sujeitos às falsidades da revolução, ainda que se tenham tornado a narrativa dominante dos nossos tempos, estamos a abraçar a liberdade de escrever uma narrativa nova, e mais verdadeira.

Só falta dar mais um passo na revisão do legado da revolução rumo à verdade: acabar de fingir que não conhecemos o registo histórico e empírico, quando cada ano que passa o revela cada vez, tanto à ciência como à razão. 


Mary Eberstadt é investigadora na Faith and Reason Institute. Alguns dos seus anteriores artigos para o The Catholic Thing, ou em que o seu trabalho é discutido, podem ser encontrados aqui. É autora de vários livros, incluindo It’s Dangerous to Believe e How the West Really Lost God.

(Primeira parte deste artigo publicada pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 10 de Fevereiro de 2018)
(Segunda parte deste artigo publicada pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 17 de Fevereiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Colher o que Semeámos

Anne Hendershott
Estudos recentes revelam que os níveis de esperma de homens no ocidente desceram 60% desde 1971, evocando a grande distopia de P.D. James “Os Filhos dos Homens”, com a sua visão de uma sociedade que já não se consegue reproduzir. Baseado no Reino Unido, em 2021, esta ficção assustadora descreve uma mundo de infertilidade em massa entre os homens, um mundo em que não nascem crianças há 25 anos. No livro, o último bebé que nasceu é agora um adulto e a população está a envelhecer. Tal como na realidade actual, os cientistas no livro de James ainda não conseguiram descobrir uma cura, ou sequer uma causa, para a infertilidade.

No artigo em que publicam as suas descobertas, na revista Human Reproduction Update, os investigadores – de Israel, Estados Unidos, Dinamarca, Brasil e Espanha – concluem que o total de contagem de esperma caiu 59.3% entre 1971 e 2011 na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia.

Alguns cientistas afirmam que a “vida moderna” causou sérios danos à saúde dos homens. Pesticidas, poluição, dieta, stresse, tabaco e obesidade… todos têm sido associados ao problema, com algum grau de plausibilidade. Mas há menos homens a fumar do que nunca e os controlos de poluição e de pesticidas que os governos têm implementado ao longo dos últimos 40 anos diminuíram vários destes riscos.

Durante a Revolução Industrial, no século XIX, os homens incorriam em riscos de saúde muito maiores ao trabalhar em fábricas numa altura em que não havia sequer regulamentos sobre a qualidade do ar. Havia menos problemas de fertilidade nessa altura, as famílias eram numerosas e ninguém se preocupava com a contagem de esperma.

A obesidade pode ser um factor, mas os investigadores ainda não conseguiram estabelecer uma ligação. Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Loma Linda fez um estudo ao longo de quatro anos com uma população de Adventistas do Sétimo Dia, que são rigorosamente vegetarianos. Os resultados revelaram que os vegetarianos têm uma média de contagem e de mobilidade de esperma significativamente mais baixas que carnívoros, mas o veganismo é um estilo de vida minoritário ainda, especialmente entre homens, e por isso não pode ser a principal causa do fenómeno.

As causas para este declínio de fertilidade continuam por apurar. Mas para se compreender as consequências de uma sociedade estéril, a história de P.D. James descreve um mundo sombrio em que emerge um Governo totalitário para manter a ordem – e fornecer “conforto” aos residentes. É um mundo em que os animais de estimação se substituem às crianças e a religião parece ter perdido o seu sentido. Porém, na tentativa fraca de manter os rituais cristãos as igrejas anglicanas levam a cabo cerimónias de baptismo elaboradas para os gatinhos de estimação da população, repletas de vestidos brancos e boinas.

Na sociedade estéril de P.D. James, o sexo entre os jovens tornou-se “o menos importante dos prazeres sensoriais do homem”. E embora os homens e as mulheres ainda se casem, é frequentemente com pessoas do mesmo sexo. O desejo sexual diminuiu a par da fertilidade masculina, não obstante os esforços do Governo para estimular o desejo através de lojas de pornografia patrocinadas pelo Estado.

De certa forma o romance de James descreve uma sociedade que conseguiu precisamente aquilo que queria: prazer sexual sem risco de gravidez. Mas a ironia é que não havendo possibilidade de procriação, o sexo perde o seu sentido. É um facto que enfrentamos cada vez mais hoje enquanto debatemos se o Estado deve obrigar todos os contribuintes, incluindo aqueles que têm objecções religiosas, a pagar pelos “direitos reprodutivos” de todas as mulheres, numa altura em que há cada vez mais preocupações com a infertilidade masculina.

Há muito que os antropólogos e os sociólogos sabem que a questão da fertilidade humana numa dada população tem de ser vista de uma perspectiva cultural. A cultura é a forma de vida, ou a concepção de vida que caracteriza cada sociedade humana. Inclui os valores partilhados, normas e comportamentos de uma dada sociedade.

Para compreender as taxas de fertilidade e a diminuição da população, devem-se identificar e modificar as influências culturais. A cultura é importante para se compreender as taxas de fertilidade e para modificar a actividade sexual, criando uma relação entre o sexo e a reprodução e o sistema de valores de uma cultura. Quando, numa determinada sociedade, a chegada de uma criança é desvalorizada, o acto sexual que produz a criança também se desvaloriza. Note-se que os níveis de fertilidade masculina estão em queda no Ocidente e não em África, onde as crianças continuam a ser altamente valorizadas e acolhidas em amor.

Esta perspectiva sociológica ou cultural estava claramente expressada na Humanae Vitae: Sobre a Regulação da Natalidade, emitida pelo Papa Paulo VI no dia 25 de Julho de 1968, onde se lê:

“O problema da natalidade, como de resto qualquer outro problema que diga respeito à vida humana, deve ser considerado numa perspectiva que transcenda as vistas parciais  sejam elas de ordem biológica, psicológica, demográfica ou sociológica – à luz da visão integral do homem e da sua vocação, não só natural e terrena, mas também sobrenatural e eterna.”

Talvez seja chegada a hora de considerar a sociologia em torno da cultura de “direitos reprodutivos” que criámos – a cultura de contracepção que o Ocidente abraçou. Temos de nos questionar sobre o eventual custo psíquico de uma cultura em que a contracepção e o aborto são de tal forma importantes que o ObamaCare procurou obrigar todos os empregadores – incluindo instituições religiosas – a fornecer aos seus funcionários seguros de saúde que incluíam cobertura para medicamentos contraceptivos e abortivos abortivos para todos.

É importante realçar que estes declínios de fertilidade começaram a registar-se em 1971 com o surgimento da pílula contraceptiva e liberalização do aborto a pedido através de Roe v. Wade. Será que, tal como na distopia de James, há um preço psíquico a pagar quando começamos a partir do princípio que podemos controlar todos os aspectos das nossas vidas? Será possível que tenhamos sobrecontrolado a nossa própria fertilidade?


Anne Hendershott é professora de Sociologia e directora do Centro Veritas para Ética na Vida Pública, da Universidade Franciscana de Steubenville, Ohio. É autora do livro The Politics of Deviance (Encounter Books).

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 10 de Agosto de 2017 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A Poluição da Nossa Vida Comum

Matthew Hanley
Há um aluno da Universidade de Arizona que acha que é um hipopótamo. Ora aí está uma frase que nunca imaginei escrever. Define-se como um “tranimal”.

Normalmente qualquer leigo o poderia diagnosticar – mesmo sem lhe pôr os olhos em cima e sem qualquer medo de negligência – como non compôs mentis. Mas já fomos todos avisados, à medida que estes desvarios aumentam em número, que qualquer forma de “autoidentificação” deve ser validada.

Basta perguntar ao professor canadiano que tem sido perseguido incansavelmente por se recusar a alinhar com a ditadura dos pronomes. Os seus superiores insistem que ele use invenções gnósticas como Ze, Hir, Xe, Verself, etc., em vez dos pronomes ingleses comuns (he, she, hers, etc.), sempre que alguém considera que os reflexos gramaticais da realidade biológica sejam demasiado restritivos.

Tendo em conta que os advogados têm achado por bem forçar as massas a aceitar estas ilusões (e bem antes disto já eramos lamentavelmente litigiosos), temo pelo futuro da Universidade de Arizona. Há claramente um processo no horizonte – se não contra a universidade, então contra quem alimenta o hipopótamo. Eu já tive a sorte de ver hipopótamos em liberdade e sei que todas as reservas naturais insistem que é proibido e punível por lei alimentar animais selvagens. Como é que vai ser quando a exaltação da autonomia no ramo da sexualidade – que chegou ao ponto de redefinir a realidade biológica – entrar em conflito com o respeito pelo ambiente? Nem deve ser uma questão. A vida selvagem fica em segundo lugar, a autonomia em primeiro.

Por falar em vida selvagem, vejamos outro exemplo deste conflito. Até envolve outro “tranimal” – na medida em que se pode referir ao fenómeno dos peixes “inter-sexo” com este termo. Estamos a falar de peixes machos que estão a desenvolver ovos nos testículos. Como é que isto acontece? Demasiado estrogénio na água; as ETAR simplesmente não conseguem lidar com a quantidade de hormonas estrogénicas que os seres humanos consomem, eliminam e enviam de volta para a natureza.

Há décadas de provas – que constam até de publicações “mainstream” como a “Nature” – de que o princípio activo da pílula (EE2), juntamente com outros estrogénios, “causa danos em larga escala no ambiente aquático, perturbando os sistemas endócrinos da vida selvagem”.

No início de Julho o professor Charles Tyler da Universidade de Exeter, juntou os seus dados dramáticos ao monte crescente de provas numa palestra a um simpósio internacional patrocinado pela Sociedade Pesqueira das Ilhas Britânicas.

A apresentação chamava-se “A feminização da natureza – uma história não-natural” e era bastante técnica, mas uma das conclusões principais foi de que testes feitos em cinquenta locais diferentes revelaram que um em cada cinco peixes machos de água doce no Reino Unido tinha características femininas. Isto, juntamente com outros impactos adversos, diminui a capacidade desses peixes de se reproduzirem. Por outras palavras, o ecossistema está a levar por tabela.

Há muitos outros contaminantes implicados, como os derivados de cosméticos, plásticos e detergentes mas, tal como a pílula, estes também têm propriedades estrogénicas que contribuem para estes desequilíbrios ao nível fisiológico. Outros químicos, tais como os que se encontram nos antidepressivos, provocam alterações anormais no ramo do comportamento.

É um dado bem conhecido que a pílula é carcinogénea; mas isso pode não estar limitado ao consumo directo. Podemos estar perante um problema mais alargado, por causa dos níveis de estrogénio na água. Existe uma correlação forte – mas não, sublinho, uma causalidade comprovada – entre a utilização da pílula na sociedade e o cancro da próstata nos homens. Essa associação significativa foi detectada em todos os 88 países em que foi investigada.

Seja como for, a preocupação gerada pela realidade dos peixes inter-sexo – um exemplo inegável da conspurcação humana do ambiente – é insignificante em comparação com o furor sobre as alterações climáticas, alegadamente causadas pelo homem. Nem se dá por ela. Perante dados científicos ciência tão inegáveis, mas tão inconvenientes como estes, é muito mais eficiente ignorar do que negar.

A mera quantidade de repercussões da pílula, a todos os níveis, que é preciso ignorar só se compreende através de um exercício voluntário do intelecto. Melinda Gates disse recentemente que a pílula é uma das maiores medidas de sempre para combater a pobreza. Talvez esteja simplesmente a ignorar o trabalho do falecido economista Julian Simon, que demoliu essa visão recorrente que, no fundo, revela uma visão de soma zero de recursos limitados, destinados a diminuir à medida que as pessoas proliferam. Uma visão temorosa, contradita por resmas de provas. Simon, por outro lado, sabia que o melhor recurso no planeta são as pessoas e defendia que é tendo mais pessoas, e não menos, que se chegará à inovação e à produtividade responsáveis pelo desenvolvimento.

O principal motor do progresso mundial é uma boa quantidade de conhecimento humano. E o melhor dos recursos é composto por pessoas esperançosas, qualificadas e animadas, usando a vontade e a imaginação para se sustentarem a elas e às suas famílias, contribuindo dessa forma para o benefício de todos.

A investigação de Simon mostrou-se tão persuasiva que a sua tese passou de contracorrente a largamente aceite hoje. Até os peixes ficariam contentes se a Srª Gates passasse a ver as coisas deste modo. Esperar-se-ia que as pessoas que amam a humanidade – como a Srª Gates, na qualidade de filantropa – ficariam fora de si com a perspectiva do triunfo do engenho humano sobre as aparentes contrariedades da natureza.

A Srª Gates parece esperançada de que a Igreja Católica esteja em vias de mudar os seus ensinamentos sobre a contracepção. Talvez saiba algo que eu não sei. É verdade que algumas pessoas têm especulado sobre alterações para coincidir com os 50 anos da “Humanae Vitae” no próximo ano.

Há muitas razões importantes e de peso sobre porque é que isso não é boa ideia, mas eu acrescentaria mais uma: A aceitação de um conhecido poluente por parte da Igreja não estaria em contradição com a admoestação de 2015 contida na “Laudato Si”, de “cuidar da nossa casa comum”?


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 31 de Julho 2017 em The Catholic Thing)

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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Quão Antigo é o Ensinamento da Igreja sobre Contracepção?

Randall Smith
Muitos dos leitores já saberão que um grupo de 141 académicos católicos, na maior parte da Europa e dos Estados Unidos, assinou algo que se chama a Declaração de Wijngaards, que deriva o seu nome do Instituto Wijngaards de Investigação Católica (“Promovendo a Igualdade de Género e a Partilha de Responsabilidades na Igreja” desde 1983). Esta declaração foi posteriormente apresentada nas Nações Unidas para – o quê precisamente? Aprovação? Diversão? Leitura de tempos livres? Parece que os signatários consideram que a Igreja deve mudar o seu ensinamento sobre contracepção. Ui, que modernos que eles são!

Felizmente, outro grupo de académicos católicos redigiu um documento de resposta: “A afirmação do Ensinamento da Igreja Católica sobre o Dom da Sexualidade”. Este segundo documento, talvez goste de saber, conta actualmente com mais de 500 assinaturas de académicos com doutoramentos ou o equivalente nos ramos de Medicina, Direito, Filosofia e Teologia.

Muitos católicos pensam que a discussão sobre contracepção remonta à encíclica Humanae Vitae de Paulo VI, de 1968. Mas isso não é bem verdade, uma vez que as raízes desse ensinamento vêm bastante detrás. Em larga medida, Paulo VI estava meramente a reiterar, nas suas palavras, um ensinamento anterior. Alguns católicos poderão recordar-se (ou ter aprendido sobre) a encíclica Casti Connubii de Pio XI de 1930. Também esta é importante, mas não é a fonte original.

Então exactamente quão antiga é a oposição da Igreja à contracepção? 1920? 1900? 1880? Afinal de contas, a contracepção é um fenómeno relativmente recente, certo?

Acontece que não. Quem se der ao trabalho de dar uma vista de olhos nos detalhes, por vezes grotescos, do livro “Contraception: AHistory of its Treatment by the Catholic Theologians and Canonists”, escrito por John T. Noonan – algo que, a propósito, e por várias razões, não recomendo – verá que as pessoas andam a enfiar substâncias terríveis pelas mulheres a dentro para tentar evitar que tenham filhos há muito tempo. Há quanto, precisamente? De acordo com Noonan, “cinco papiros diferentes, todos de entre os anos 1900 e 1100 A.C. (Sim, antes de Cristo), incluem receitas para preparações contraceptivas a serem usadas…” – bem, digamos que, de formas que eu preferia não ter de descrever.

Tendo em conta os ingredientes – bosta pulverizada de crocodilo em mucilagem fermentada? Mel com carbonato de sódio? Estas mistelas dificilmente poderiam fazer bem às mulheres que eram obrigadas a tomá-las. Digo “obrigadas”, porque estamos a falar da época antes de os homens terem conseguido convencer as mulheres que a contracepção é uma expressão potente da sua autonomia e não o resultado evidente dos desejos sexuais vorazes daqueles.

Pode-nos parecer que estas misturas eram nojentas, mas seriam assim tão diferentes da prática moderna de encher a mulher de hormonas para convencer o seu corpo de que está gravida? E o estrogéneo todo que usam, de onde acham que vem? Se for ver à internet que é sintetizado, terá de perguntar, sintentizado a partir de quê? Como? Com que químicos? Como é que é “cultivado”? De que animais é extraído? Quando se começa a ver a questão com mais atenção, percebemos que a ideia de bosta pulverizada de crocodilo em mucilagem fermentada afinal não é uma coisa assim tão estranha. Mas fosse qual fosse o ingrediente, muitas civilizações antigas tinham métodos ou mezinhas que acreditavam poder prevenir uma mulher de engravidar depois de ter relações sexuais. Nós, claro, temos os nossos.  

E como é que a Igreja primitiva via tudo isto? Enfrentada por uma cultura romana que na maior parte não tinha qualquer problema com contracepção e aborto, tanto quanto conseguimos perceber os cristãos primitivos opunham-se a ela. No importante texto do primeiro século, o “Didaqué”, ou “O ensinamento dos Doze Apóstolos”, o autor, cujo nome desconhecemos, distingue a Via da Vida da Via da Morte.

A Via da Morte, como podemos supor, estava recheada de pecados, um dos quais incluía fazer uso de pharmakeia que são “assassinos de crianças, corruptores da imagem de Deus”. Parece ser uma referência a drogas abortivas ou contraceptivas. O mesmo ensinamento surge na Epístola de Barnabé, do século primeiro. Encontramos ainda na Paedagogus, de Clemente de Alexandria, a admoestação moral: “Por causa da sua instituição divina para a propagação do homem, a semente não deve ser ejaculada em vão, nem deve ser danificada, nem deve ser desperdiçada”.

Para além destas condenações expressas, o que é mais revelador é a insistência repetida, entre todos os padres da Igreja, da inseperabilidade do acto sexual e do propósito procriativo. Trata-se de uma preocupação constante e de um tema repetido nas pregações e no ensinamento. “Nós cristãos”, escreveu o apologista Justino Mártir, “ou casamos para poder produzir filhos ou, se nos recusamos a casar, somos absolutamente continentes”. De igual forma, o bispo Atenágoras, do século II, afirmou numa carta escrita ao imperador no ano 177 que os cristãos não praticam o coito para satisfazer os desejos. Antes, “a procriação de filhos é a medida do desejo dos nossas apetites.”

Naturalmente, o que temos aqui é um mero resumo simplificado destes textos. Cada um deve ser lido no seu contexto original. Nem cheguei ao desenvolvimento mais sério destes ensinamentos noutros padres como Agostinnho, Aquino e muitos outros, ao longo dos séculos. Acredito que é seguro dizer-se que o ensinamento que vemos reflectido no Humanae Vitae e nos desenvolvimentos posteriores levados a cabo por João Paulo II – de que não se deve separar as dimensões procriativa e unitiva do acto conjugal – remonta ao início da Igreja e que tem sido constantemente reafirmada desde então.  

Mas sabem como é… Agostinho, Aquino, os primeiros padres da Igreja e 2000 anos de pensamento moral sobre esta questão de um lado e 141 “académicos”, na maior parte da Europa, onde a Igreja está morta (uma das signatárias é uma baronesa de verdade) a apresentar um documento numa reunião da ONU do outro lado,

Ena, é difícil saber que posição, a favor ou contra, devemos tomar sobre esta questão. Talvez o melhor seja atirar uma moeda ao ar. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 26 de Setembro de 2016 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Namoro na era da Pílula

George Sim Johnston 
Fala-se muito, hoje em dia, da crise do casamento. Os níveis de divórcio são altos e demasiadas crianças vivem em famílias monoparentais e frequentemente as pessoas acabam por se sentir isoladas e sós quando chegam à meia-idade. Mas fala-se pouco de namoro. Como é que se chega a um casamento? Como é que uma pessoa de 25 anos devia lidar com toda a cena do namoro?

Segundo o filósofo Leon R. Kass, a razão pela qual se fala tão pouco de namoro é porque “os próprios termos: ‘cortejar’ e ‘pretendente’ são arcaicos e se hoje as palavras mal se usam é porque o fenómeno praticamente desapareceu. Actualmente não existem normas de conduta socialmente definidas para ajudar os jovens a orientarem-se para o casamento. Para a grande maioria o caminho para o altar é território desconhecido: É cada casal por si, sem bússola, frequentemente sem um objectivo”.

Esta ausência virtual de guiões para o namoro não tem precedentes. Até há pouco tempo, a sociedade possuía normas claras para governar a “dança” entre um homem e uma mulher antes do casamento. Há razões pelas quais isso já não acontece, salvo raras excepções.

Em primeiro lugar, vivemos naquilo a que Barbara Dafoe Whitehead chama uma cultura de divórcio. Muitos jovens adultos têm os pais divorciados e por isso falta-lhes não só bons conselhos como um modelo convincente para o matrimónio. O fim doloroso dos casamentos dos seus pais deixa-os reticentes quanto à ideia de compromisso.

Em segundo lugar, tem havido uma grande mudança de prioridades em relação ao trabalho e à família. Hoje as pessoas querem ter independência financeira antes de pensar sequer em casar, enquanto os seus pais (e certamente os seus avós) costumavam casar antes de terem uma situação financeira clara. Há cinquenta anos esperava-se que os jovens casais subsistissem com pouco nos primeiros anos do casamento e isto tendia a fortalecer a relação.

“Se esperar até aos trintas”, escreve Charles Murray, “é provável que o seu casamento seja uma fusão. Se casar antes é natural que seja um start-up… Quais são as vantagens de um casamento start-up? Em primeiro lugar, ambos terão memória das suas vidas em conjunto quando tudo estava ainda por definir (…) e cada um saberá que sem o outro não seria a pessoa que é hoje”.

Em terceiro lugar, muitos solteiros tendem a viver o que Kay Hymowitz apelida de uma “adolescência pós-moderna”. Este estado de suspensão emocional tem sido retratado em séries como Seinfeld. Homens novos (e algumas mulheres) que não vêem qualquer razão convincente para se tornar adultos; podem nem saber bem o que a palavra significa.

Para os homens este atraso em aceitar as responsabilidades da vida adulta explica-se em parte pela disponibilidade de sexo sem compromissos. “Se a cultura oferece acesso sexual sem exigir compromisso pessoal em troca”, escreve James Q. Wilson, “muitos homens optarão sempre pelo sexo”.

O sexo, em tempos reservado para o casamento, é agora visto como parte essencial do namoro. Isto não clarifica o pensamento nem enriquece as emoções. O sexo casual criou um clima de cinismo entre os jovens, que entraram no hábito de tratar os membros do sexo oposto como um meio para atingir um fim. A transformação do sexo numa actividade casual faz mirrar o sentido do namoro e, portanto, do próprio casamento.

Estado de suspensão emocional
A modernidade dá muita importância à ideia de liberdade, mas diz pouco sobre como usar essa liberdade. Um caso concreto é a revolução sexual, que tem tido um impacto devastador sobre o namoro e o casamento. De forma geral é difícil, passados estes anos todos, afirmar que a revolução sexual tornou as pessoas mais felizes. Talvez seja mais fácil comprovar o contrário. Considere-se, por exemplo, o número de nascimentos fora do casamento, que agora já ultrapassa os 40% na América e no Reino Unido, ou a epidemia de doenças sexualmente transmissíveis.

A revolução sexual foi iniciada pela introdução da pílula contraceptiva para mulheres. A pílula era suposto “libertar” as mulheres, mas teve uma série de efeitos imprevistos – pelo menos pelos que a promoviam mais vigorosamente.

A pílula concedeu aos homens uma autorização em branco para ter sexo sem responsabilidades, tornou-se algo que podiam exigir sem se preocuparem com as consequências. Tornou-se fácil aos homens tratar as mulheres como objectos de prazer (e algumas mulheres adoptaram a mesma atitude). Esta transformação de prazer físico em comodidade esvaziou o acto sexual do seu sentido nupcial. Fez com que os homens e as mulheres passassem a olhar uns para os outros de formas que têm pouco a ver com a aliança de permanente doação própria que é o casamento.

A pílula também ajudou a criar uma cultura de engate que – como até escritoras feministas de tendência liberacionista como Donna Freitas admitem – tem causado muita dor e frustração, sobretudo entre mulheres. Não é difícil ver que a promiscuidade sexual tanto nos campus universitários como mais tarde tem resultado em muitos homens e mulheres a entrar para o casamento com uma atitude consumista em relação ao sexo.

A pílula também ajudou a criar uma cultura de coabitação antes do casamento. Em 1960, o ano em que a pílula foi introduzida, quase ninguém coabitava antes de casar. Agora 60% já o faz. E acontece que a coabitação não é uma boa rampa de acesso ao casamento. Para começar, ensina aos casais uma noção de compromisso “light”. Apelidos diferentes e contas bancárias separadas, a certeza de que se podem separar “a qualquer instante”. Muitos casais descobrem apenas tarde de mais que a coabitação e o casamento não são de todo a mesma coisa.

A transformação da instituição do casamento terá de passar pela restauração do namoro, embora de uma forma diferente do que era há 60 anos. Recentemente uma aluna de 23 anos contou-me que o que se faz actualmente é juntar-se a um tipo que pode ou não vir a ser seu marido e nem pensar em casar até perto dos trinta. A sua geração precisa de ouvir as razões pelas quais isto é uma fórmula para a infelicidade aos cinquenta anos.


George Sim Johnston é autor de “Did Darwin Get It Right? Catholics and the Theory of Evolution” (Our Sunday Visitor).

(Publicado pela primeira vez no sábado, 4 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Torneio solidário e munições de mártires

Não se esqueçam que hoje começa a Feira do Livro de Lisboa.
Olhem só quem apareceu!
Antes de mais, a todos os que vivem no Seixal ou arredores, não deixem de ir ao Torneio de Futsal solidário, no domingo. É uma excelente forma de ajudar os cristãos no Iraque e passar umas horas divertidas. As entradas custam três euros.

Os deputados, ou alguns deles, também se preocupam com os cristãos perseguidos e vão por isso formar um grupo parlamentar em solidariedade.

O Patriarca de Lisboa recebeu recentemente um presente fora do normal. Três balas que foram usadas para matar cristãos na Síria. Foram oferecidos por uma freira síria e são um testemunho impressionante de fé e martírio.

O Papa Francisco pede aos noivos que valorizem o tempo e preparem bem o casamento. Sempre bons conselhos!

Ontem foi dia de publicar um novo artigo no The Catholic Thing. O padre Mark Pilon argumenta persuasivamente que a mentalidade contraceptiva é o que está na raiz de novidades como o “casamento gay”. Fiquem com um excerto, mas leiam o artigo, que vale a pena, como sempre.

«Quando começámos a alterar tecnologicamente o corpo humano e a sua fertilidade, tratou-se de uma verdadeira mudança na nossa relação com Deus. A fertilidade não é apenas mais um aspecto da nossa natureza humana. É o elo de ligação mais íntimo entre a natureza corporal do homem com o Deus da criação, um aspecto essencial da humanidade enquanto criada à imagem de Deus.”»

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Muito Mais que Uma Crise de Natalidade

Pe. Mark Pilon
Recentemente um amigo, bom católico e bom homem, discordou de mim quando eu argumentei que a contracepção e a mentalidade contraceptiva não só mudaram os conceitos sociais de casamento e família, como poderão ter minado fatalmente as culturas e as nações previamente cristãs. É uma visão negativa, admito, mas também acho que é bastante realista e penso que é crucial que a enfrentemos como cristãos.

Ele contra-argumentou que a minha visão é demasiado simplista e que ignora o facto de a queda do índice de natalidade anteceder em pelo menos um século a invenção da pílula. Mais, existem por detrás disto muitas causas complexas para além dos contraceptivos, causas de natureza económica, social, geográfica, etc. Tudo isto é verdade.

Mas esta visão deixa de fora o factor essencial. A contracepção não é a única causa da queda demográfica radical, mas é, sim, o meio pelo qual essa queda foi conseguida de forma tão eficiente em tantos sítios. Obviamente as correntes ideológicas, como o movimento contra o crescimento populacional, também desempenharam um papel fundamental e há certamente outros factores envolvidos, mas estes não explicam o que há de verdadeiramente diferente e novo neste decréscimo demográfico secular.

Historicamente tem havido várias razões, tanto pessoais como sociais, para que as pessoas limitem o tamanho das suas famílias. Mas quando as pessoas limitavam o tamanho das suas famílias no passado – normalmente através da abstinência ou do uso de métodos de barreira – não estavam a negar, em si, o plano de Deus para o casamento, estavam simplesmente a recusar-se a segui-lo por razões pessoais, boas ou más.

Também não afirmavam, como fazem cada vez mais pessoas hoje, que a esterilidade é mesmo preferível em relação à fertilidade, nem que a esterilidade no casamento é igual a, se não mesmo preferível à, fertilidade no casamento. Por outras palavras, não tomavam parte numa redefinição da relação essencial entre o casamento e a procriação.

Mas esse já não é o caso. E a crescente aceitação do conceito de casamento homossexual é, a este respeito, um poderoso sinal dos tempos, a último desenvolvimento das implicações da contracepção para o casamento e para a sociedade.

A mentalidade contraceptiva não é apenas uma construção mental, nem uma questão secundária. Esta mentalidade é precisamente aquilo que há de novo na tendência histórica da infertilidade, a tendência para separar radicalmente a fertilidade do casamento, para negar que a procriação é um factor essencial de um verdadeiro casamento.

Essa tendência chegou agora ao seu ápice na afirmação, tanto legal como na opinião pública, de que o exemplo extremo de união sexual infértil, o acto homossexual, deve ser reconhecido como base para um casamento. Esse é o cerne da questão na igualdade do casamento, o equiparar de actos homossexuais a actos que estão intrinsecamente ligados à fertilidade, mesmo que nem sempre resultem na procriação. O casamento gay é o último passo na redefinição do casamento em relação à fertilidade e a procriação. Esse processo de redefinição de casamento iniciou-se com a gradual aceitação moral da contracepção.

Outro passo foi o desenvolvimento de técnicas e meios contraceptivos que causam directamente esterilidade, não apenas no acto mas na pessoa. A pílula era considerada uma alteração temporária (talvez não tão temporária para muitas mulheres) do corpo da mulher, por forma a evitar a fertilidade. Agora existem intervenções cirúrgicas, tanto para homens como para mulheres, que tornam o corpo permanentemente estéril, uma alteração ainda mais radical da natureza humana.

Pecado contra o primeiro mandamento?
Claro que estas invenções tiveram consequências enormes, sociais e culturais, que afectaram tanto o casamento como a família. Hoje negamos regularmente a contribuição significativa da contracepção para a ruina actual destas instituições, bem como o surgimento de novos estilos de vida. Verdadeira cegueira, mas isso não é o pior efeito.

Quando começámos a alterar tecnologicamente o corpo humano e a sua fertilidade, tratou-se de uma verdadeira mudança na nossa relação com Deus. A fertilidade não é apenas mais um aspecto da nossa natureza humana. É o elo de ligação mais íntimo entre a natureza corporal do homem com o Deus da criação, um aspecto essencial da humanidade enquanto criada à imagem de Deus.

O Senhor é verdadeiramente um Deus de fertilidade, ainda que não seja o Deus da fertilidade dos pagãos. Aliás, pelo menos os pagãos estavam, dessa forma, a honrar a relação essencial entre a fertilidade humana e o divino. Eles percebiam aquilo que o nosso mundo tão esclarecido já não percebe. É por isso que João Paulo II ensinou que a contracepção era também um pecado contra o primeiro mandamento. É uma nova forma de idolatria em que o homem se eleva ao estatuto de divindade e as consequências são muito extensas, indo muito para além do mal da contracepção.

A contracepção afectou tudo: casamento, fé, consciência moral, autoridade do magistério, já para não falar no colapso da sociedade, causado pela revolução sexual que facilitou e, agora, a destruição de populações e nações inteiras.

Em Junho os juízes do Supremo Tribunal tomarão uma decisão sobre a natureza do casamento, mas essa decisão interessa pouco. As sondagens já mostram que o mal tomou conta das massas na Europa e aqui. Mesmo muitos cristãos aceitam que uma noção profundamente deturpada de casamento seja aceite como igual ao verdadeiro plano de Deus para o casamento, como aparece no Génesis.

É provável que esta atitude acabe por determinar o destino de muitas nações.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez no sábado, 23 de Maio de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Ideologia do género não é a solução, é o problema

Desde que não engravides...
O Papa Francisco criticou a ideologia do género, esta manhã, dizendo que eliminar a diferença entre os sexos não é a solução, é o próprio problema.

Por esta hora, na Sinagoga de Lisboa, está a ser homenageado do padre Joaquim Carreira, que foi considerado “Justo Entre as Nações” pelo memorial do holocausto, Yad Vashem.

Esta tarde representantes das três principais religiões em Portugal juntaram-se para discutir a relação entre a cultura e a religião, concluindo que a cultura pode ser mesmo o antídoto para o fanatismo religioso.

Já perdi a conta às vezes que ouvi dizer que a pílula contraceptiva é não só, e magicamente, isenta de efeitos secundários negativos, como até tem só vantagens. Também já estou habituado a ouvir falar nos métodos naturais como os “métodos da Igreja”… Ora aqui está um artigo do The Catholic Thing para acabar definitivamente com ambos os mitos. Divirtam-se!

Uma Pró-escolha que Defende os Métodos Naturais

Howard Kainz
Na introdução ao seu livro “Sweetening the Pill” [Dourar a Pílula], Holly Grigg-Spall deixa claro que é pró-aborto, em termos políticos, e não tem qualquer objecção aos vários métodos de contraceptivos de barreira – como preservativos, diafragmas, espermicidas etc. Todavia, ela encabeça um movimento contra a pílula contraceptiva e seus derivados (Injecções Depo-Provera, Implantes Nexplanon, anéis vaginais NuvaRing, o DIU hormonal Mirena, etc.) e fá-lo não só com o seu livro, mas com o seu site, entrevistas e um documentário que deve estrear em 2016.

Qual será a sua razão para contrariar assim, de forma tão evidente, a doutrina da Planned Parenthood, da Fundação Bill e Melinda Gates, agências americanas e da ONU e outros que promovem as mais modernas tecnologias de contracepção em todo o mundo?

Ela menciona os riscos para a integridade física, raramente abordados pelos principais meios de comunicação – o facto de a pílula contraceptiva aumentar significativamente o risco de doença cardíaca e de cancro cervical, do peito e do fígado; o facto de os contraceptivos orais serem classificados pela Organização Mundial da Saúde como cancerígenos de classe 1, a par do tabaco e do amianto; que a injecção Depo-Provera vem com um aviso de que é prejudicial para a saúde óssea de adolescentes, e por aí fora.

Mas a sua principal preocupação tem a ver com os efeitos mentais e emocionais da pílula. Cita um estudo de 1998 da Universidade da Carolina do Norte, um estudo de 2001 do Kinsey Insitute, outro da Universidade Monash, de 2005 e um de 2008 da Universidade Lakehead que mostram, todas, um impacto negativo dos contraceptivos hormonais sobre o bem-estar emocional.

As pílulas contraceptivas são usadas como tratamento alternativo para problemas físicos como hemorragias fortes, períodos irregulares, dores menstruais, endometriose e Síndrome do ovário policístico. Mas, pergunta, porque é que mulheres perfeitamente saudáveis hão-de começar a tomar medicamentos, muitas vezes desde a adolescência até à menopausa, que tem inúmeros efeitos secundários – para a tiróide, adrenalina, glicose no sangue, níveis de testosterona, etc?

Basicamente, a pílula funciona recorrendo a hormonas artificiais para colocar mulheres férteis num estado em que acabarão por nunca ovular (apesar das hemorragias de privação que acompanham muitos medicamentos) e que por isso serão sujeitas às alterações fisiológicas comuns às mulheres em menopausa – infertilidade, risco acrescido de AVC e cancro da mama, resistência à insulina, imunossupressão e decréscimo da libido, etc.

Por outras palavras, estamos a assistir a um fenómeno estranho em que vemos as mulheres a serem cuidadosas com o que comem, com o exercício, vida saudável e a optarem frequentemente por um estilo de vida “natural” – mas que de resto escolhem tomar comprimidos que utilizam hormonas para impedir toda a forma de menstruação, contribuindo para a contaminação das águas e desregulando a sua própria fisiologia. 

A motivação invocada para suportar tudo isto é, claro, o medo da gravidez. Holly Grigg-Spall, que usou contraceptivos hormonais desde a adolescência quase até aos 30, descreve da seguinte forma a sua experiência: enxaquecas, hemorragias e náuseas constantes e mudanças frequentes de receitas, mas nunca quis parar porque: “Estava aterrorizada pela ideia de engravidar”.

As pressões nos nossos dias são enormes – pais aterrorizados com a ideia de que as suas filhas adolescentes possam vir a ser “punidas” com uma gravidez; médicos (incluindo pediatras) querendo assegurar a “saúde” das suas pacientes; uma economia moderna que precisa que as mulheres estejam disponíveis para trabalhar sem o fardo de “assuntos femininos”, isto para não falar de homens que querem que as suas mulheres ou namoradas estejam constantemente disponíveis para ter relações sexuais.


Mesmo as mulheres que estão a sentir os efeitos secundários negativos da pílula hesitam em parar por causa dos aspectos “bons”. As adolescentes que usam contraceptivos descobrem não só que as menstruações mais pesadas acabam, mas que a acne começa a desaparecer e o cabelo fica menos oleoso. Continuando pelos anos 20 e 30, como diz Holly Grigg-Spall: “Deixamos de ter períodos chatos, podemos ter a pele mais limpa, somos mais magras, temos peitos maiores e, supostamente, livramo-nos da TPM maçadora”.

Deixar de tomar a pílula também pode resultar em sintomas de ressaca, comparáveis ao abandono de outras drogas – insónias, irritabilidade, etc. E as mulheres que querem engravidar podem descobrir que leva vários meses até começarem a ovular normalmente depois de vários anos a tomar a pílula. Mas para as mulheres que decidem que querem deixar de viver como homens, sem períodos, em menopausa perpétua (e com vários dos sintomas da menopausa), o abandono pode abrir novas vias de oportunidade.

Holly Grigg-Spall cita a sua experiência, que coincide com a de muitas outras:

“Quando tomava a pílula sentia-me estagnada – física, mental e emocionalmente. Ficava presa em sentimentos e pensamentos. Não pensava com clareza. Não progredia. Depois de deixar de tomar a pílula o meu corpo vai passando por alterações durante o mês, experimento ondas e picos, o vai e vem e tudo isto me move. Este movimento é galvanizante... Quando deixei de tomar a pílula foi como se tivessem ligado um interruptor. Rapidamente voltei a ter a capacidade para me relacionar verdadeiramente.”

A sua solução, como alternativa para os contraceptivos hormonais, são os Métodos Naturais de Planeamento Familiar, ao estilo do “Método Creighton” mas sem as motivações católicas “opressivas”. Especificamente, segue os métodos seculares da Fertility Awareness Methods (FAM), como o método “Justisse”. Cita estatísticas de estudos alargados da Universidade de Heidelberg e outros que mostram que as FAM são tão eficientes como a pílula. Proclama a boa nova da sua emancipação da pílula no seu site, num manual de instruções (Coming off the Pill: a Guide) e, como já tinha mencionado, num documentário que está a ser produzido. Também promove uma aplicação para smartphone e tablet – Kindara, uma forma “completa e sofisticada” para seguir os ciclos.

Um defensor católico dos Métodos Naturais gostaria mais de ver uma ênfase no direito natural, e veria os problemas enumerados por Grigg-Spall como manifestações empíricas da violação dessa lei. Mas como São Tomás de Aquino, que sublinhou que se devia apreciar a verdade, independentemente da sua origem, devíamos encarar este movimento, que põe a nu uma das mais potentes armadilhas da revolução sexual, como um passo na direcção certa.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 11 de Abril de 2015)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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