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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Alguns homens nascem eunucos . . .

Anthony Esolen
Alguns homens nascem eunucos, alguns tornam-se eunucos pelo Reino do Céu e alguns, para grande lucro de cirurgiões e da indústria farmacêutica, são feitos eunucos por pais que os abandonam e por mães que não.

O último “castrato” a cantar profissionalmente, Alessandro Moreschi, morreu em 1922. Não se sabe se ele foi castrado ainda menino para preservar a voz, ou por causa de uma hérnia inguinal. Ainda existe uma gravação, em mau estado, da sua voz. O que se ouve é um soprano algo fibroso, não é o género de coisa para a qual um defensor da prática recomendaria a mutilação. Talvez outrora tenha sido mais forte e seguro. Não sabemos.

À medida que um rapaz se aproxima da puberdade, a sua voz ganha uma qualidade peculiar devido à configuração singular e temporária da sua laringe e cavidade oral. Produz um som que os mestres de coro valorizam muito e que inspirou os talentos de compositores como Palestrina, Allegri e Bach.

Para preservar esse timbre, por vezes um soprano rapaz aceitava ser castrado. Quando os “castrati” eram o último grito da moda nas cortes e nos coliseus da Europa iluminista, um rapaz talentoso de uma família humilde poderia ser tentado a aguentar a mutilação para poder ganhar dinheiro para si e para os seus pais.

Naturalmente isso também o levava a ser bem acolhido nos quartos de mulheres aristocratas, que brincavam com ele como fariam com um cachorro, sem envergonhar os seus maridos. Essa é a lógica por detrás do estratagema de Horner na peça lasciva de Wycherley “A Mulher do Campo”, embora neste caso a castração tenha sido supostamente necessária por causa de sífilis. Os eunucos também eram um alvo preferido por homossexuais.

Contranatura e bárbaro. O Papa Leão XIII condenou a prática quando assumiu o papado em 1878. Graças a Deus não a voltaremos a ver.

Mas estamos a assistir a coisas bem piores. Pensemos um bocado nisto.

Longe de mim desculpar de qualquer maneira os padres nojentos cujos vícios deturparam as vidas de tantos rapazes e jovens e reduziram várias paróquias e dioceses à penúria. Mas quando esses homens acabavam de apalpar as joias da família, estas pelo menos continuavam ligadas ao rapaz, que ainda poderia vir a tornar-se marido e pai de família.

Mas isso já não é o caso quando o rapaz “transita”, isto é, quando se submete a cirurgia para poder fingir ser a rapariga que não é, nem nunca poderá ser.

O rapaz que optava pela mutilação fazia-o para garantir algo que era, em si, um bem. É bom, e não mau, ter uma voz bonita. É bom ser um solista no “Miserere” de Allegri. Não é bom mutilar o corpo para isso. É bom, e não mau, poder ser o ganha-pão da família. Mas não é bom mutilar o corpo para o conseguir. É bom louvar a Deus. Não é bom expressar esse louvor através de algo que é contranatura, como a mutilação.

Esse rapaz, muito provavelmente, sabia bem o que era o sexo. Sabia-o melhor do que as nossas crianças agora. Teria visto os animais da quinta, teria dormido próximo de outras crianças e teria desenvolvido uma atitude prática para com as exigências mais embaraçosas da vida física. Teria estado próximo de homens a fazer trabalho fisicamente árduo, todos os dias da sua vida, trabalho que só os homens podiam fazer.
Alessandro Moreschi

Ele não estava a rejeitar o seu sexo. Não estava acometido da loucura de acreditar que na verdade era uma menina. Ninguém lhe tinha dito na escola que o seu sexo era responsável por todo o mal que existe no mundo. Não teria crescido num lar dividido pelo divórcio, com uma mãe infetada por fantasias feministas de um mundo purificado do masculino. Não teria tido que se sujeitar à hora do conto narrado por travestis. Não teria pornografia à distância de um clique. Não vivia no reino da ilusão. A mutilação assegurava, de facto, o bem em questão.

Não seria sujeito a uma cirurgia após outra. O seu corpo não seria bombeado com drogas perigosas, incluindo bloqueadores de puberdade e hormonas para fazer crescer os seios, que provavelmente virão a ser carcinogénicas. Não seria condenado a uma vida de dependência farmacêutica. Os seus ossos largos continuariam a crescer. O seu corpo seria um pouco mole, mas de resto pareceria um homem normal e não uma aberração. Não seria sujeito a uma operação para fazer uma vagina falsa.

Não faria parte de uma campanha para preservar e prolongar uma ética profundamente anticristã, como é a nossa revolução sexual. Como já disse, talvez fosse tentado pela homossexualidade, mas esse não seria o objectivo declarado da operação. Não estava envolvido na destruição da linguagem. Seria tratado por “ele” e provavelmente atirava-se a quem o tratasse de outra forma.

Não estava a estabelecer um precedente para outros violadores do sentido do humano: falo naqueles que acreditam que devemos fabricar-nos a nós mesmos, através da manipulação genética, úteros artificiais e outras pontes que o homem lança ao robot ou à besta. Não estava a lançar um precedente para pessoas doentes que acreditam que não serão inteiros enquanto não forem parciais: falo naqueles que não conseguem viver com a integridade dos seus corpos e que por isso encontram, nalgum lado, um médico malévolo que lhes remova um braço ou uma perna saudável.

Não estava na linha da frente da sujeição dos pensamentos, da linguagem e dos actos de pessoas normais e ordinárias à supervisão de um estado vasto e totalitário, com a sua simbiose de entretenimento e escolaridade massificados.

Por mais doentio que fosse fazer aquilo que eles faziam, o que fazemos agora é muito pior.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Não há pão para Malukkal

Freiras enfurecidas
Mais um bispo suspenso por abusos sexuais. Desta vez é na Índia e a vítima é uma freira. O bispo Franco Malukkal nega.

O Vaticano continua a tentar colocar-se na linha da frente da prevenção de abusos e anunciou hoje a realização de um mestrado sobre proteção de menores, em Roma.

Um missionário italiano foi raptado por jihadistas no Níger, e na Nigéria o Boko Haram ameaça matar a jovem que foi raptada em fevereiro e que não foi libertada por que se recusa a converter ao Islão.

Quem explora ou rejeita migrantes e refugiados acabará por “prestar contas” a Deus, garante o Papa.

Anthony Esolen constrói aqui um texto muito forte, e interessante, com base na obra clássica “O Paraíso Perdido” de John Milton, em que pergunta se os padres que abusam de crianças acreditam ou não em Deus e pede que venha rapidamente um “novo Samuel” para limpar a casa.

E deixo-vos ainda o convite para irem a Cascais, este fim-de-semana, ao Family Land, organizado pela Associação das Famílias Numerosas. É no hipódromo, promete diversão para toda a família e os bilhetes estão à venda na Blue Ticket, ou então no recinto, no próprio dia. As portas abrem às 10 e encerram às 19.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Quando o Padre se Torna Ateu

Anthony Esolen
Quando John Milton, no seu poema épico “Paraíso Perdido”, identifica e descreve os piores dos anjos caídos, diz-nos em que parte do mundo mediterrânico e do Levante eles se estabeleceram, quais falsos deuses, para serem adorados. Quanto mais perto de Sião, pior o demónio. Nesse sentido Moloch, que é o primeiro a ser referido, é o pior de todos, depois de Satanás e Belzebub.

Não bastava que fosse adorado pelos vizinhos amonitas:

Cioso por ver de Deus o altar vizinho,
Com fraudulenta sedução pôde ele
De Salomão levar o peito egregio
(Salomão, o mais sábio d’entre os homens)
A edificar-lhe um majestoso templo
Na montanha do Opróbrio, bem defronte
Do Templo do grão Deus, e a consagrar-lhe,
Como parque, de Hinom o vale ameno
Que ficou desde então, sob outro nome
De Tofete e Geena, emblema do Orco.[1]

Consegue imaginar algo pior do que seduzir o construtor do templo de Deus, Rei Salomão, a construir um templo para si, colado ao verdadeiro? Pode-se estar mais próximo que isso?

Sim, pode. É aí que Milton quer chegar. O último demónio que ele nomeia, supostamente o oposto do sanguinário e guerreiro Moloch, é o lascivo, efeminado Belial, amante do vício pelo vício.

E onde é que Belial é adorado? A resposta é preocupante:

Em honra desse monstro
Não se erguem templos, nem altares fumam;
Porém, com refinada hipocrisia,
É quem templos e altares mais frequenta
Chegando a ser ateus os sacerdotes,
Bem como de Eli sucedeu aos filhos
Que de Deus os alcáçares encheram
De atroz fereza, de brutal lascívia!
                                
Belial não precisa que lhe construam templos ou altares. Ele já ali está, quando o padre se torna um verdadeiro ateu. Não que isso sirva de desculpa para os leigos, porque Belial também se instalou nas sedes de governo e nos costumes lascivos do povo:

Reina ele pelas cortes, nos palácios,
E nas cidades onde os vícios moram,
Onde a devassidão, a infâmia, o ultraje,
Sobem por cima das mais altas torres.
Ali, assim que tolda a noite as ruas,
Os filhos de Belial n’elas divagam
Pela insolência e pelo vinho insanos.

O vício específico de que disfrutam os filhos de Belial é perverso:

Testemunhas as ruas de Sodoma
E a noite em Gaba quando a virtude,
Por amparar os hóspedes, decide
Dar às torpezas a infeliz matrona,
Para evitar mais feios atentados!

Temos então de um lado Moloch, o devorador de crianças, brutal e sangrento, de templo encostado ao de Deus, e do outro lado o mal sexual e antinatural de Belial, que penetra tanto templos como cortes e que toma conta das ruas pela noite, determinando o estilo de vida das pessoas ou levando-as a esconder-se em casa, se puderem.

Moloch e Belial; infanticídio e sodomia; sangue derramado em vão e semente espalhada em vão; guerra pela guerra, lascívia pela lascívia; um deus da fertilidade que come a sua prole e um deus da esterilidade, cujo vício nem prole chega a conceder.

Como dizia o pregador, não há nada de novo debaixo do Sol.

As pessoas têm perguntado se é possível que os padres que tiveram relações sexuais com jovens, consensuais ou não, acreditavam em Deus. Eu tenho tentado recordar a capacidade ilimitada do homem para o fingimento e autoengano, para não falar de mera contradição. Mas talvez devêssemos olhar a questão de outra perspetiva. Milton não disse que Finéias e Hofni, filhos de Eli, eram ateus quando assumiram o seu cargo em Siló. Ele diz que eles se tornaram ateus.

Algumas pessoas perdem a sua fé em Deus por causa das tribulações que sofrem. Desesperam, sucumbindo à sensação de abandono. Outros perdem a fé em Deus por causa dos sucessos de que gozam. Presunçosos, são seduzidos pelo sentimento de invencibilidade. Qual é o caso do padre?

Não estou a estabelecer uma regra universal. Cada padre é um homem, como qualquer um de nós, e pode sofrer aquilo que qualquer um de nós sofre. Mas se perguntarmos quais as ameaças específicas para a fé dos padres, teremos de concluir que no nosso mundo elas vivem do lado do poder, do conforto e do prestígio, e não do lado da fraqueza, privação física e humilhação.

Isto não é uma acusação. Não estou a sugerir que os padres devam viver a pão e água, e que devem ser agredidos em via pública. Estou apenas a constatar um facto. Não é a perseguição que leva os nossos padres a perder a fé, é a complacência.

A Justa Ana com o Profeta Samuel
E o que acontece se perdem mesmo a fé? Mais uma vez, devemos ter o cuidado de recordar o enlear e as contradições do coração humano. Fugimos das verdades difíceis. Talvez o desgraçado cardeal McCarrick acreditasse que acreditava. Mas o que é que você faria se estivesse a tornar-se ateu e toda a sua vida tivesse sido orientada para uma só coisa, o ministério de Deus?

Não pode voltar à sua antiga profissão, porque não existe. Não pode vender os seus serviços, porque não existem. Não tem recursos para voltar à escola, mesmo que pudesse aguentar a vergonha. Não está preparado para trabalho físico, por isso as obras não são uma opção. Então fica quieto.

Se for sincero, reza, reza e mortifica-se, arranja um bom director espiritual e tenta sobreviver à tempestade. Se for fraco e insincero, deixa a sua fé enfraquecer cada vez mais enquanto tenta robustecer a sua imagem, convencendo-se de que é o arauto de uma nova fé, uma nova forma de crença. Só você sabe o que pertence verdadeiramente à fé e o que não pertence. Destrói. Tem ciúmes de pessoas que têm devoções que não o movem. Secretamente, regozija com o falhanço dos outros.

Segue o mundo, porque tem de seguir alguma coisa. Todos os seres humanos seguem uma bandeira, os ateus não são excepção. Mas o dia do pequeno Samuel está para chegar, e não será para si qualquer conforto. Senhor Deus, que seja em breve!


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 16 de Setembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



[1] Na versão portuguesa baseei-me nesta edição, modernizando apenas alguma da ortografia

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Voltei de férias, posso-me ir embora outra vez?

Antes de ir de férias falei várias vezes do caso McCarrick, nos EUA. O que para muitos parecia ser apenas uma crise localizada nos EUA revelou-se, como eu já imaginava, uma crise para a Igreja Global que hoje levou o Papa a convocar todos os presidentes de Conferências Episcopais para uma cimeira sobre abusos, em Fevereiro.

Isto no mesmo dia em que o sucessor de McCarrick anunciou que vai a Roma discutir a sua resignação e um relatório na Alemanha, revelado pela imprensa, mostra que houve pelo menos 3.700 casos de abusos sexuais naquele país nas últimas sete décadas.

Neste momento os bispos americanos preparam-se para viajar para Roma para discutir estes assuntos mais directamente com o Papa também e o secretário pessoal de Bento XVI disse ontem, numa data apropriada, que os abusos são o 11 de Setembro da Igreja.

Por cá, os bispos continuam a confiar que as directrizes já aprovadas chegam para lidar com eventuais casos de abusos. Esperemos que tenham razão.

O tema dos abusos continua a merecer atenção por parte dos autores dos artigos do The Catholic Thing. Anthony Esolen dá um murro na mesa neste artigo e o padre Vaverek considera que o que está verdadeiramente em causa é uma crise de abuso de autoridade.

Temos também dois artigos do jovem Casey Chalk. No primeiro ele aconselha-nos a, no meio da tempestade, rezar mais e com mais força e, no de hoje, adverte para o perigo de, no meio dos pedidos de responsabilização, não “protestantizar” a Igreja.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Basta!

Anthony Esolen
Que não ouçamos mais vozes de padres, prelados e autores católicos, a dissentir da verdade – da razão, da Escritura, do constante e claro ensinamento da Igreja no que diz respeito à criação da humanidade, homem e mulher; da união carnal desejada por Deus desde o princípio; da educação de rapazes para serem homens e de meninas para serem mulheres, criadas um para o outro; da bondade e da realidade do sexo e das suas expressões naturais na cultura humana; da natureza criada do casamento que era tão óbvia para os pagãos como é para os cristãos; da inadmissibilidade de separar a dimensão de prazer do acto sexual do seu propósito biológico e do seu sentido corporal; da indissolubilidade do casamento e dos avisos dos mais recentes Papas; da solidão, confusão e tristeza que resultam de todos os géneros de caricatura de casamento, incluindo a fornicação habitual e consensual.

Que não ouçamos mais palavras a menorizar a perversão dos actos que violam a própria estrutura dos sexos. Que cesse a denigração ingrata da masculinidade e feminidade verdadeiras e a submissão cobarde a todas as mentiras nojentas do entretenimento e da educação de massas, para as quais uma escola católica está apenas um ou dois anos atrás dos tempos – New York Times.  

Não queremos ouvir mais sobre pronomes da parte de padres, prelados e autores católicos, que praticaram ultrajes sobre as almas e os corpos de jovens padres e seminaristas, nem de quem os encobriu, por razões que só vocês conhecem, mas que não servirão para vos desculpar nem para evitar que façam o que é digno. Se está numa posição de autoridade, e nada fez, deve demitir-se. Pode ser substituído, não é indispensável. Basta.

Há vários anos o bispo da diocese canadiana onde vivemos no verão foi apanhado numa inspeção de rotina no aeroporto. Tinha na sua posse imagens pornográficas com crianças. A imprensa canadiana não foi mais específica do que isso. Resignou em desgraça e cumpriu uma curta pena na prisão. Agora, segundo ouvi dizer de um padre respeitável, vive com outro homem. Nada que nos surpreenda. Ele tinha o hábito de viajar para destinos peculiares no mundo, que nada tinham a ver com as características étnicas ou culturais da sua diocese, maioritariamente rural. Lugares onde a carne é barata.

Se é verdade que agora está a viver uma velhice confortável de pecado, não é tanto um exemplo de arrependimento, mas de contumácia e de desafio. Não há vergonha? Não estamos a falar de uma diocese recheada de padres homossexuais atrás de rapazes adolescentes, embora houvesse alguns, e as paróquias, que já não eram propriamente ricas, foram reduzidas à penúria pelo custo das indemnizações. Ele já sabia que assim era, e ainda sabe. Uma senhora idosa da nossa aldeia ofereceu 165 mil dólares para ajudar a manter aberta a igreja local e os paroquianos fartaram-se de trabalhar para restaurar o edifício, em vez de contratar um empreiteiro. Todo esse dinheiro foi esbanjado. 

As paróquias faliram todas e o seminário diocesano está vazio, e mesmo assim não vemos vergonha na chancelaria.

Não quero insinuar que os fiéis não têm também pecados. Em parte, recebemos líderes e pastores muito piores do que merecíamos, mas não merecíamos grande coisa. Toda a gente tem sido queimada e conspurcada pela devolução sexual. Todos tinham o hábito de piscar o olho e virar a cara. Não há quem não tenha culpa. “A Igreja está este bordel porque eu contribuí para que assim fosse”, é o que todos os cristãos deviam dizer, por ser a verdade.

Mas alguns cristãos, alguns católicos romanos, têm estado a combater uma luta desigual não só para se arrependerem do que fizeram mal, mas para sarar aquilo que feriram e reconstruir o que ajudaram a demolir.

É agora que precisamos de pastores que possam liderar-nos nesse combate e não que nos repreendam a cada passo e que nos carreguem com o peso da sua verborreia burocrática, não para sorrirem para aqueles que sabem o que se passa, assegurando-lhes calmamente que nada vai mudar. Não estou em luta contra o episcopado, que em larga medida tem culpa pelos escândalos dos últimos quinze anos e que não se sujeitou a qualquer sanção, preferindo cobrir as suas almas episcopais colectivas de elogios.

Eu quero acreditar nos bispos. Deus sabe que aceito a autoridade dos seus cargos. Mas digo-vos que se não querem travar o combate que temos pela frente, então é melhor que saiam da frente e deixar passar quem esteja disposto a fazê-lo. Chega de brandura e de chazinho. Todos os bispos, padres e autores católicos que sabiam sobre o incesto espiritual e as perversões macabras do anterior bispo da nossa capital, agora caído em desgraça, e que nada fizeram, têm a obrigação de, pelo menos desta vez, admitir o seu falhanço e partir.

Por favor, vão-se embora. Resignem, rezem, leiam, pensem, façam o que entenderem e que seja agradável ao Senhor, mas não continuem a obrigar a Igreja a carregar o vosso peso morto. São uma vergonha tanto para o crente como para o infiel. Vão-se embora.

E dêmos uma chance aos verdadeiros, bons e jovens sacerdotes de Deus, suficientemente novos para não terem qualquer ilusão sobre o que se passou na geração anterior à deles. Será possível serem piores do que os seus eternamente infantis superiores?



Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 8 de Agosto de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 15 de março de 2018

A diocese do Porto tem uma nova cara, e é linda!

D. Manuel Linda é o novo bispo do Porto.


Numa primeira mensagem à sua nova diocese, D. Manuel Linda diz que vai ser um pastor com cheiro de ovelha. Deixou também uma mensagem de saudades à diocese das Forças Armadas, que agora fica vacante.

Está em Portugal o imã da Mesquita de al-Azhar, que é uma das figuras mais importantes do mundo islâmico. Amanhã publico uma entrevista com ele, estejam atentos, e também amanhã ele vai à mesquita de Lisboa participar na celebração dos 50 anos da comunidade, altura em que será lançada uma colecção de selos comemorativos.

E ontem foi publicado mais um artigo do The Catholic Thing. Anthony Esolen fala de liberdade religiosa e objecção de consciência e deita abaixo o argumento tradicionalmente usado contra o direito à objecção de consciência, nomeadamente o das Testemunhas de Jeová que recusam transfusões de sangue. Afinal, explica, quem tem mais em comum com as Testemunhas de Jeová são aqueles que querem acabar com essa liberdade de consciência.

quarta-feira, 14 de março de 2018

As Testemunhas de Belial

Anthony Esolen
Nos últimos tempos tenho sido um comentador pouco frequente – e não muito bem-vindo – numa página chamada The Imperial Academy, que é gerida por académicos de esquerda. É suposto ser um local de partilha de conhecimento, mas na prática é dedicado às fofoquices políticas do dia. Não sei bem como é que lá fui parar, mas pode ter sido pela mão do meu amigo, o excelente Robert P. George. Encaro isso como um ministério menor, o meu esforço em escrever pequenas porções de verdade para uma congregação maioritariamente ateia e secularista.

E há uma coisa em que tenho reparado. Não fiquei admirado por ver que os membros do Imperial Academy têm pouco respeito pela religião. O que me espanta é a hostilidade e o desprezo, sem que se vislumbre qualquer esforço por compreender em que é que acreditamos ou porquê, e como devemos agir com base na nossa fé, ou pelo menos evitar agir contra ela.

O outro dia o assunto foi o aborto e os membros expressaram a opinião de que se alguém não quer praticar um aborto não deve entrar num campo que o requer. Por outras palavras, se não queres fazer abortos, não vás para medicina. Católicos – irlandeses ou de outra estirpe – escusam de se candidatar.

Eventualmente, nestas discussões, alguém joga o que pensa ser o ás de trunfo. A cartada das Testemunhas de Jeová. “Então”, diz, “suponho que aceitarias ter uma testemunha de Jeová como cirurgião ou como hematologista”, que são dois campos em que nenhuma testemunha de Jeová quereria entrar, pois as transfusões de sangue são uma componente necessária e regular do trabalho. Embrulha!

Mas não é o ás de trunfo. Talvez um rei de um naipe menor, orgulhosamente a passear pela mesa de jogo, mas prestes a perder a vasa. Eis a razão porquê:

Os católicos não apelam à escritura para ditar as especificidades da prática da medicina. Apelamos de forma geral à natureza das coisas e à razão. A medicina, por definição, remedeia. Se tens febre, a medicina restaura o teu corpo até à temperatura normal. Se tens uma infecção, a medicina restaura a ordem saudável ao teu corpo. Se tens um membro partido, a medicina arranja-o. Se és vulnerável a uma doença facilmente transmissível, a medicina fornece-te protecção. Se tens um órgão que não funciona como deve ser, a medicina cura-o. Se o corpo apenas pode ser salvo através da remoção de um órgão ou de um membro doente, a medicina faz na prática aquilo que o próprio corpo faz através do seu sistema autoimune.

Reparem que não estou a apelar a qualquer coisa extrínseca à medicina e ao corpo. A testemunha de Jeová apela, porque não há nada na natureza do sangue que sugira que a hemoglobina de um homem não pode, ou não deve, ser usada por outro, como nada impede que o ar que um homem inala seja inalado por outro na respiração boca-a-boca.

Mas no que toca a questões como o aborto, a esterilização e a mutilação sexual, a testemunha de Belial faz esse apelo extrínseco. Não apela a uma visão deturpada da escritura, mas sim a uma visão deturpada do papel da vontade individual, da conveniência política ou à demografia mundial. Por outras palavras, a testemunha de Belial deixou o mundo da medicina para trás.

Mas não há nada de errado com a criança no útero. Isso é um simples facto. Nem há nada de errado, evidentemente, com os sistemas reprodutivos dos pais da criança. Claramente, esses estavam a funcionar correctamente. O aborto não restaura a saúde a um órgão ou a um membro doente, não protege contra doenças transmissíveis, não cura, não salva uma pessoa em perigo de morte.

O aborto não remedeia. Logo, tem tanto de medicina como terá a amputação de um membro saudável, independentemente de envolver trabalho com e sobre o corpo.

O liberal contrapõe com o problema dos pais da testemunha de Jeová que tentam impedir os seus filhos de receber sangue de um dador. Mas também isto é, na verdade, um argumento contra o liberal, por duas razões. A primeira é que uma coisa é praticar um acto que outra pessoa considera moralmente condenável, com o propósito de salvar uma vida. Mas é outra coisa diferente tentar obrigar todos os profissionais médicos a participar nesse acto. Seria como tentar obrigar um pacifista a pegar em armas em tempo de guerra. Para quê? Que tipo de mente faria uma coisa dessas?

Belial
Mas há outra questão que o liberal não está a ver que o liga de forma trágica à testemunha de Jeová. É tão simples como isto: Em ambos os casos acabamos com uma criança morta. Tanto a testemunha de Belial como a testemunha de Jeová recorrem a factores extra-médicos para definir o que é próprio da medicina, e tanto a testemunha de Belial como a testemunha de Jeová acabam por ter nas mãos a morte de uma criança inocente.

Se há alguma distinção entre os dois, tem de ser a favor da testemunha de Jeová. Afinal de contas, ele é vítima de uma teologia infeliz, mas não deseja a morte do seu filho. A testemunha de Belial, pelo contrário, deseja precisamente isso. A testemunha de Jeová limita, desnecessariamente, a medicina. Mas ao exceder a medicina, a testemunha de Belial destrói a própria medicina. A testemunha de Jeová tem medo de fazer algo que possa salvar uma vida. A testemunha de Belial não tem qualquer temor em matar. A testemunha de Jeová quer que lhe deixem em paz. A testemunha de Belial não te deixará em paz. A testemunha de Jeová não quer violar a sua consciência, por mais deturpada que esteja. A testemunha de Belial quer obrigar-te a violar a tua.

A testemunha de Jeová está a pensar em Deus – de forma errada. A testemunha de Belial está a pensar em ambição, carreira, dinheiro e sexo. Porque no final de contas, vai dar sempre nisso: libertação sexual, compulsão estatal e crianças mortas.

Ah, e para terminar… Há um nome para o tipo de governo do Século XX que procuraria obrigar o pacifista a pegar em armas. Chama-se “fascismo”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez no sábado, 10 de Março de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Francisco no olho do furacão, vestido modestamente, claro

Continua a visita do Papa ao Chile e hoje ele esteve “no olho do furacão”, numa região onde existe uma luta armada contra o Governo e ontem mesmo os militantes atacaram os polícias que faziam a segurança ao recinto onde hoje decorreu a missa. O Papa tinha palavras fortes para o Governo e para os militantes.

Hoje soube-se que ontem, depois do almoço, Francisco recebeu vítimas de abusos sexuais, a quem escutou, e com quem rezou e chorou.

Ainda ontem, já depois de eu ter enviado o email, Francisco encontrou-se com reclusas em Santiago e, depois, esteve com os religiosos e religiosas do país, a quem fez um discurso que é tão bonito, na minha opinião, que o coloquei no blog e convido-vos a ler na íntegra. É longo, mas vale a pena.

A diocese de Leiria celebra 100 anos desde que foi restaurada. Saiba mais aqui.

Se forem como eu, então a maior parte das vezes que lêem ou ouvem um católico discorrer sobre vestuário modesto e a explicar que os bikinis são um sinal visível do fim dos tempos, só vos apetece arrancar cabelos. Este artigo do grande Anthony Esolen não é desses. Há uma forma inteligente e racional de abordar este tema. Há contextos e lugares para (quase) tudo. Leiam que vale bem a pena.

Modéstia e Caridade

Anthony Esolen
Há alguns anos, a editora do jornal da escola católica de Saint Eustaby escreveu que devia poder “descer a rua sem mais do que um par de chanatas e um sorriso” sem ter de se preocupar em ser assediada.

E tinha razão, de um ponto de vista óbvio e trivial. Assediar pessoas é contra a lei. Se um miúdo bêbado fosse a correr para a apalpar, alguém devia impedi-lo. Se esse alguém fosse um polícia, devia levá-lo directamente para a esquadra. Claro que ela também deveria ser detida por atentado ao pudor.

Mas o que me põe a pensar é a atitude por detrás da posição daquela rapariga. Faz-me lembrar um incidente que se passou comigo num verão em que estava a trabalhar como voluntário numa casa para operários católicos, em Washington. Estava a pintar um dos corredores quando tocaram à campainha. Como em qualquer outro verão naquele antro de calor, nevoeiro e corrupção, estava um autêntico forno, e por isso eu estava em tronco nu quando fui abrir a porta.

Era uma senhora hispânica, com cerca de 50 anos, que tinha umas perguntas a fazer, por isso fui buscar o meu chefe, John. Ele veio à porta e eles ficaram a conversar enquanto eu observava. Ela queria apenas umas informações, não era nada de privado.

Às tantas interrompeu uma frase e disse “com licença”, enquanto olhava na minha direcção. Eu pedi desculpa e voltei à pintura. Mais tarde o John explicou-me: “Ela é uma senhora tradicional, e tu estavas sem camisa”. Eu compreendi. Não pensei que ela fosse mal-educada nem puritana.

Não duvido que se estivéssemos todos no campo a cavar batatas ela não teria pensado duas vezes sobre o facto de haver homens em tronco nu. Também não teria esperado que eu usasse uma camisa na praia. O contexto é muito importante.

Ela não pensava mal do facto de eu estar a pintar o corredor em tronco nu. Também não a incomodava o facto de eu ter ficado a ver enquanto ela conversava com o meu patrão, para o caso de poder fazer alguma sugestão. O que lhe parecia mal era que eu não tivesse posto a camisa novamente enquanto não estava a pintar.

Tinha razão, e eu nunca mais me esqueci da lição. Somos seres sociais, e a forma como nos vestimos ajuda a comunicar-nos aos outros, ou a mentir, gritar ou frustrar os outros, evitando que se comuniquem a nós.

Em parte a linguagem do amor é convencional, como todas as linguagens, e em parte não é convencional, mas baseada na natureza do corpo e nas condições materiais do mundo que nos rodeia. Se eu estiver em Paris e proferir aquela lendária frase dos manuais de introdução ao francês, “La plume de ma tante est sur la table”, alguém responderá, “Mai bien sur” e o dia continuará em paz e solarengo. Mas essa mesma alocução não significa absolutamente nada em Peoria.

Mas se eu estiver em Paris e passar por uma criança a brincar no passeio, e se olhar para ele e sorrir na sua direcção e na da sua mãe, então estou a comunicar a mesma alegria e aprovação do que se estivesse em Peoria, ou Poona ou Papeete. É um gesto universal.

"Um par de chanatas e um sorriso"
Aquilo que consideramos roupa imodesta varia de acordo com os povos e dependerá do clima ou da actividade, mas todas as sociedades traçam limites nalgum ponto. Mas uma vez que nos nossos dias não se pode falar de modéstia sexual sem que os puritanos do vício desmaiem, temendo que os “teocratas” os levem para algum castelo longínquo, para os aterrorizar com presentes de poesia e cortesia, mudemos de arena moral.

Pensemos antes em gritar ou lutar. Estes são actos de agressão não apenas contra os oponentes, mas contra quem estiver por perto. Novamente estão em causa contextos e convenções sociais, mas não só. Normalmente, gritar num jogo de futebol não tem problema, excepção feita para palavrões ou ameaças contra outro jogador, treinador ou árbitro.

Mas gritar num jogo de ténis, antes do serviço, não está bem e levará à sua expulsão. Gritar numa grande festa ao ar livre é aceitável, mas gritar dentro de portas? Agressivo, mal-educado, pouco caridoso.

Rapazes podem lutar no recreio da escola, desde que respeitem as regras. Mas lutar dentro de portas não é aceitável. Os rapazes devem controlar a sua agressividade, mesmo a sua agressividade boa, na companhia de raparigas. Isso inclui linguagem ordinária. Não o fazer equivale a dizer, “aqui quem manda sou eu, fazes o que eu quero, e que te lixes”.

Acontece o mesmo com a roupa imodesta. Uma mulher que se veste para revelar as suas curvas de forma provocatória, ou está a dizer “não quero que olhes para a minha cara, mas para coisas mais importantes, mais abaixo”, ou então “vai-te lixar”.

Deixem-me ser claro. Se eu vir uma mulher cujo vestido parece um embrulho de plástico, para ser usado uma vez e descartado, surgem-me logo pensamentos sexuais, que é precisamente o que ela quer, a não ser que seja uma tola. Então eu controlo-me e desvio os olhos, porque não quero ter esses pensamentos.

E não basta dizer para não pensar dessa forma. Todas as forças humanas contêm também uma fraqueza. A sensibilidade das mulheres para com os sentimentos – sem a qual a raça humana não teria sobrevivido – revela-se também na tentação de escolher a palavra certa para magoar ao máximo os sentimentos. A inclinação de um homem para com a agressividade – sem a qual a raça humana jamais teria sobrevivido – revela-se também na tentação para a violência.

Temos de viver uns com os outros como somos. A caridade, a paciência, um reconhecimento honesto da nossa susceptibilidade para o pecado e compreensão pela susceptibilidade de outros – em particular os membros do sexo oposto, cujas emoções são frequentemente diferentes das nossas – deve orientar sempre as nossas escolhas no que diz respeito ao vestuário, à linguagem e ao comportamento físico.

Não coloquemos obstáculos no caminho do nosso próximo.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 15 de Janeiro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nem mais cem anos de solidão!

Um Papa rejuvenescido na Colômbia
Hoje foi o primeiro dia “em cheio” do Papa na Colômbia.

Francisco encontrou-se com as autoridades e com o Presidente da Colômbia, citando Gabriel García Marquez num discurso muito bonito.

Depois visitou a Catedral e dirigiu-se aos jovens, mostrando-se muito bem-disposto e em boa forma. Seguiu-se um longo discurso aos bispos. Esta noite há ainda um encontro com os representantes da CELAM e missa às 22h, hora portuguesa, que podem acompanhar em directo no liveblog da Renascença.

Realizam-se em Lisboa, precisamente na sede da Renascença, as jornadas da Comunicação Social. Os interessados podem inscrever-se através do link neste artigo.

Aos interessados, Bragança vai promover um ciclo de música sacra.

Aproveito para divulgar mais dois dos artigos do The Catholic Thing que publiquei durante o passado mês. Anthony Esolen escreve sobre aquela bela frase que Jesus nunca disse: “Se vires um argueiro no olho do teu irmão, ignora-o, porque o mais natural é teres um argueiro no teu olho também, ou alguma coisa pior”.

E Randall Smith tem um belo texto sobre o cuidado que temos de ter quando debatemos temas sensíveis e a firmeza que temos de ter perante exigências das autoridades que chocam com as nossas crenças. Leiam, vale bem a pena. 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Argueiros, Traves e Vista Desimpedida

Anthony Esolen
“Se vires um argueiro no olho do teu irmão, ignora-o, porque o mais natural é teres um argueiro no teu olho também, ou alguma coisa pior”, disse Jesus, nunca. Um argueiro no olho dói. Esta parábola é um aviso contra o orgulho espiritual; acharmo-nos melhor que os nossos irmãos só porque calhou não sermos afligidos por esse argueiro em particular. É por isso que na parábola que verdadeiramente contou chama hipócrita ao homem orgulhoso. Mas reparem que ele acrescenta: “Primeiro tira a trave do teu próprio olho, só assim, verás com nitidez para tirar o argueiro do olho do teu irmão”.

Jesus não é fã de argueiros. Quer-nos livres deles. Ordena-nos a fazer um sério exame de consciência, uma limpeza espiritual; devemos ser misericordiosos com os pecadores, mas intolerantes com o pecado, a começar com o nosso próprio. Estamos zangados com o nosso irmão? Olhámos com desejo para aquela mulher? Procurámos o lugar de honra na mesa? Rezamos de forma a dar nas vistas? Alimentamos desejos de vingança contra aqueles que nos magoaram?

Hipocrisia, orgulho, ira, cobiça, vaidade, desejo de vingança – estes são pecados ou disposições pecaminosas que devemos odiar como odiamos as doenças do corpo, porque, tal como o cancro, fazem mal à constituição moral de que Deus nos dotou. Pensem nos pecados sérios como corpos estranhos que se alojam nos ossos, no sangue, no cérebro e no coração. Jesus quer-nos livres deles.

Podemos fazer uma distinção claríssima entre o realismo da Igreja e aquilo a que chamarei o “irrealismo” dos nossos tempos, uma incapacidade de compreender a realidade do pecado. Quando eu digo que a calúnia é um pecado isso significa mais do que apenas a constatação do facto de que a calúnia fere a reputação da vítima, ou que Deus a condenou, ou que, como dizem os sofistas, a “sociedade” a vê com maus olhos. Significa que Deus a condena da mesma forma como um médico odeia cancro.

Platão entendia isto – como é que os cristãos não o percebem? A calúnia devora verdadeiramente as entranhas do caluniador. O pecador é a primeira e mais miserável vítima do pecado. Não seguimos as leis morais como se fossem um conjunto de restrições culturais arbitrárias. Deus criou-nos de forma que florescemos quando obedecemos à lei moral e decaímos, adoecemos e morremos quando a ignoramos ou violamos.

Tudo isto é independente de opiniões. É a lei que está inscrita nos nossos corações; a lei com a qual os nossos corações funcionam, e neste sentido todas as pessoas são iguais. Não há dois ou três tipos de coração diferentes que bombeiam o sangue pelos nossos corpos; só um. Não há dois ou três testemunhos da lei moral diferentes inscritas no nosso coração, apenas um. O coração físico é feito para sangue, não para água ou cola. O coração moral é formado por aquilo que é verdadeiramente bom, não para a hipocrisia, orgulho, ira, luxúria, cobiça, vaidade ou vingança.

Claro que, se viver cercado de pessoas que enchem o coração moral de cola e chamam-lhe um tipo de sangue diferentes, e seguir os seus exemplos, poderá não ser culpado de uma violação consciente e intencional da lei de Deus. A sua culpa é mitigada pela sua insensatez. Mas a cola não deixa de ser cola. Chame-lhe o que quiser; o pecado não se verga às alcunhas. Pode chamar ao melanoma na bochecha do seu irmão um sinal, mas os seus perigosos tentáculos não deixarão de fazer o seu trabalho.

E porque é que lhe chamaria um sinal? Talvez não creia verdadeiramente naquilo que a Igreja ensina. Segue-o na sua própria vida, mas não lhe dá verdadeiro crédito. É um resíduo de um hábito cultural; como um judeu que segue as leis kosher, mas que não insiste que os filhos o façam, porque já não vê qualquer ligação entre essas leis e a aliança entre Deus e Israel. Não tem valor real.

E portanto você diz que a fornicação é errada, porque Deus a condenou, mas não acredita verdadeiramente que a fornicação é errada, e que por isso a condenação de Deus é um pouco como um alarme, uma barreira de segurança. Diz a si mesmo que Deus ignorará esse mal, tal como você ignora, porque assim é tudo mais fácil.

Você não é um hipócrita moralista. É um hipócrita não-moralista, que se congratula por ter uma mente muito aberta que, na realidade, não passa de indiferença e cobardia.

Ou então chama-lhe um sinal porque é isso que toda a gente lhe chama e de alguma forma tem esperança que Deus alinhe. Diz que toda a gente é pecadora, por isso pouco interessa qual é o pecado que desfigura o seu irmão. No fim Deus apagará tudo.

Mas essa atitude não é reconciliável com as palavras e o exemplo de Jesus, e faz com que a Cruz não tenha qualquer sentido. Para quê morrer por um povo paralisado pelo pecado quando seria muito mais fácil encolher os ombros perante a paralisia e com um toque de uma varinha mágica na ressurreição dos mortos: Já está! Toda a gente é santa.

Nesse esquema não há lugar para o amor. Se vê um cancro não diz: “Bem, toda a gente vai morrer de alguma coisa eventualmente, qual é o problema?” Se vir um homem deitado numa vala, espancado quase até à morte, não olha para ele e diz “bem, se não fosse isto era outra coisa qualquer” e segue o seu caminho.

Interessa que o homem se tenha lançado para a vala? Interessa que o seu irmão esteja a preparar uma corda para se enforcar? A vontade altera a realidade do mal? Se duas pessoas concordam em jogar à roleta russa, isso faz com que o jogo seja menos mortal? O consentimento mútuo no mal tanto pode agravar a culpa como mitigá-la. Num duelo, ambos consentem.

Caros leitores, chegou a hora de voltar à realidade.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 3 de Agosto de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Atentado em Londres e multi quê?

Houve um atentado terrorista esta tarde em Londres. O incidente já acabou mas ainda se estão a juntar as peças para perceber exactamente o que é que aconteceu. Aqui temos toda a informação e aqui o acompanhamento ao minuto.

O Papa disse esta quarta-feira que a crise dos refugiados é a pior tragédia desde a II Guerra Mundial. Ontem recordou que a experiência da Igreja não é igual a um “flashmob”.


A minha colega Ângela Roque tem aqui uma entrevista interessante com duas médicas que estão na Guiné com os missionários da Consolata. Uma delas é agnóstica mas com os missionários aprendeu que a Igreja é “bem mais do que um lugar de culto”.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é de Anthony Esolen, que se orgulha em pertencer à instituição mais multicultural do mundo, a Igreja, mas se envergonha de pertencer à instituição que mais luta contra a cultura, a comunidade académica. Leiam que vale a pena.

Recordo que na sexta-feira haverá um café concerto no “Meeting de Lisboa”, no Campo Pequeno. Eu modero, os músicos Manuel Fúria e Maria Durão cantam e falam. Vai valer muito a pena, ambos são do maior interesse. Apareçam!

Que “multi”? Que “cultura”?

Anthony Esolen
É com orgulho que pertenço à instituição mais multicultural da história do mundo, de longe: Sou católico romano. E é com vergonha que pertenço a uma instituição que parece determinada a destruir aquilo que existe de verdadeiramente cultural na vida moderna: Sou professor universitário. A combinação dota-me de uma série infindável de perguntas que mais ninguém se preocupa em fazer.

Comecemos com o termo “multicultural”. A Igreja tem-no sido desde a sua criação. Lemos nos Actos dos Apóstolos que os seguidores de Jesus que vinham da diáspora judaica – os judeus helénicos, de língua grega – nem sempre eram bem acolhidos pelos que tinham vivido toda a vida na Palestina e que, presumivelmente, falavam aramaico. Foi preciso resolver esse conflito, mas reacendeu-se de forma ainda mais dramática quando São Paulo foi para Jerusalém para interceder não pelos judeus helénicos, mas pelos gregos helénicos, isto é gregos que tinham chegado a Cristo mas que nunca tinham sido judeus, e por isso não tinham seguido os preceitos litúrgicos e civis da Lei de Moisés.

A longa história da actividade missionária da Igreja seguiu o caminho aberto por São Paulo, que sabia que sem Cristo o homem estava perdido, mas também teve o cuidado de não transmitir a fé como se fosse uma série de hábitos culturais. A revelação de Deus, embora insuficiente para a salvação, é dada a todas as pessoas; por isso Paulo podia ser grego entre os gregos, tal como Matteo Ricci podia tornar-se mandarim para pregar aos mandarins na China.

Não pretendo com isto dizer que toda a gente devia ser multicultural. A principal mensagem cultural de Deus para os hebreus do Antigo Testamento é precisamente de que não devem ser como os seus vizinhos. Não deviam obrigar os seus filhos a passar pelo fogo de Moloch. Não deviam frequentar as bancas de Aserá nem participar na prostituição ritual com mulheres e rapazes. Não deviam chorar a morte anual do deus da fertilidade Tamuz.

Os judeus deviam ser judeus, e não pagãos que cantam um salmo de vez em quando. A festa das Luzes, o Hanucá, celebra a purificação e re-dedicação do Templo depois de os ocupadores gregos terem colocado uma estátua de Zeus – a abominação da desolação – no Santo dos Santos, e contra os colaboracionistas judaicos que encontravam formas de conviver com os esses cosmopolitas sofisticados.

Judas “o Martelo”, estava bem dentro da longa tradição de profetas intransigentes. Ele e Ezequiel haveriam de se ter entendido bem. Só na fidelidade a Deus é que os judeus, o povo escolhido, podiam cumprir o seu papel de levar a palavra de Deus às nações.

Uma pessoa sozinha pode ser multicultural, mas não é fácil e é menos comum hoje em dia do que era na Idade Média, quando um rapaz chamado Tomás, cuja língua mãe era italiano napolitano, podia viajar para Colónia para ter aulas de Latim com um mestre chamado Alberto, cuja língua mãe era alemão, e depois partir para Paris, para dar aulas numa cidade onde as pessoas falavam francês, convivendo com estudantes e mestres que vinham de toda a Europa, professando um Cristianismo carregado de aspectos de culturas locais, desde Trondheim a Messina.

Para se ser multicultural é preciso estar inteiramente à vontade com mais do que uma cultura e isso implica, normalmente, que é preciso falar fluentemente mais do que uma língua. Para além disso, deve-se possuir pelo menos duas arcas de tesouro de histórias e cantigas imemoriais; deve poder cantar sobre Davy Crocket e Simon Bolivar; terá entre os seus amigos os amantes de Manzoni e os Cavaleiros da Távola Redonda dos romances franceses; estará familiarizado com Bach e com as melodias tradicionais pentatónicas dos chineses. Não são coisas nas quais consegue meter um dedo, como um turista que se banha no Mediterrâneo. Serão a sua herança.

Posto nestes termos, poderá ver que nem um aluno em cem, talvez nem um em mil, pode dizer que possui sequer algumas das riquezas de mais do que uma cultura. Não é por qualquer falha pessoal. É porque a própria cultura, aquela coisa sobre a qual estamos supostamente a falar, está a desaparecer da face da terra e a ser substituída por uma coisa nova na história da humanidade, a que Gabriel Marcel chamou “Sociedade de Massas”, uma sociedade manufacturada pela educação massificada, inflamada pela política massificada e entretida pelo entretenimento em massa.

Por isso o estudante americano típico vem para a universidade e nem reconhece o nome de Alfred Tennyson (pense nisso um bocadinho); e o típico aluno hispano-americano vem para a universidade e não reconhece o nome de Tennyson nem de Lope de Veja. Não se pode ser multicultural quando não se pertence a cultura nenhuma.

Nesta fase, com os bárbaros de Wall Street, Hollywood, Washington e Bruxelas às portas de cada reduto de cultura local, linguística e nacional, o que é que a comunidade académica faz? Bem, faz aquilo que sempre fez, desde que me conheço: Rende-se.

Claro que reveste a sua traição com o vocabulário da respeitabilidade intelectual, mas quem não está interessado em Chretien de Troyes também não terá interesse na Senhora Murosaki. As pessoas que não ficam escandalizadas quando um anglófono com formação universitária não sabe nada sobre Milton – porque eles próprios, os professores, não sabem nada de Milton – não se vão escandalizar quando um francófono com formação universitária admite que não sabe nada de Racine.

A única instituição que ainda existe que pode defender a beleza e bondade da cultura é a Igreja. É nela que as culturas do mundo têm alguma hipótese de sobrevivência. Talvez isso explique porque é que a comunidade académica é tão hostil para com a Igreja. Os profissionais não gostam de ser ultrapassados pelo “amador”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Março de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

(Muita) Eutanásia

Cartaz pró-eutanásia, Alemanha, anos 30
Hoje foi o dia em que arrancou o debate da Eutanásia no Parlamento. Ainda passará muita água debaixo da ponte…

A Renascença preparou um grande pacote de reportagens sobre o assunto. Destaco o trabalho da minha colega Matilde Torres Pereira sobre a “excepção” que tem o hábito chato de não parar de crescer e aqui uma reportagem com vídeo que procura mostrar ambos os lados do argumento e que revela a grande necessidade de investimento nos cuidados paliativos. Da minha autoria, um resumo da posição da Igreja sobre a Eutanásia. Temos ainda a opinião da directora de informação Graça Franco, de Ana Sofia Carvalho, especialista em ética da Universidade Católica do Porto A Renascença publicou ainda uma nota de abertura sobre este assunto, a deixar bem clara a posição institucional da casa. Para ver tudo o que se publicou sobre o assunto cliquem aqui.

Enquanto uns se preocupam em legislar a morte, outros apostam em melhorar a qualidade de vida dos mais pobres de entre os pobres. Foi o que fez a Cáritas portuguesa, com uma campanha que vai ajudar mais de 250 famílias na Grécia e na Sérvia.

Dos EUA temos duas notícias sobre Donald Trump. Será que a medida temporária que proíbe a entrada de muçulmanos de sete países é mesmo temporária, ou é um modelo para o futuro? E parece que o próximo juiz do Supremo Tribunal será Neil Gorsuch, que é episcopaliano e conservador (sim, parece que ainda existem).


No artigo do The Catholic Thing de hoje temos Anthony Esolen a lamentar o analfabetismo religioso dos seus alunos. Quando lhes perguntou qual dos apóstolos permaneceu junto à Cruz de Jesus, responderam “Pedro?” “Judas?” “Simão?” “Tomás?” “Paulo?”…

Analfabetismo Religioso e a Evangelização da Imaginação

Anthony Esolen
“Quando Beowulf parte para matar o dragão que tem estado a devastar os campos”, dizia eu aos meus alunos caloiros, há dias, “todos os seus seguidores juram que o acompanharão na batalha. Mas quando a situação aperta, desaparecem. Apenas um deles, Wiglaf, é leal e ajuda Beowulf, mortalmente ferido, a matar o dragão. Não indo ao ponto de dizer que Beowulf é uma figura semelhante Cristológica, o que claramente não é o caso”, continuei, “parece-me seguro dizer que o poeta está a evocar Cristo no Calvário”.

Até aqui, tudo bem. Toda a gente sabe que Jesus foi crucificado. Então perguntei, casualmente: “Qual dos apóstolos foi fiel ao ponto de ficar junto a Jesus quando o pregaram na cruz?”. Silêncio envergonhado. Dei-lhes umas pistas. “Aparece em praticamente todas as representações artísticas da Crucifixão. Normalmente é representado como um jovem sem barba, porque segundo a tradição ele era o mais novo dos apóstolos”. Nada. “Jesus falou directamente com ele a partir da Cruz”.

Então cinco dos alunos tentaram adivinhar.

“Pedro?”
“Judas?”
“Simão?”
“Tomás?”
“Paulo?”

As tentativas revelaram mais que o silêncio, e foram mais desencorajadoras.

Dezasseis caloiros universitários, a maioria católicos de uma forma ou de outra, e nem um deles recordava a passagem “mulher, eis o teu filho”.

Ocorreu-me que se tivessem diante do quadro da Crucifixão no santuário da igreja que frequentei quando era criança, em Archbald, Pensilvânia, não seriam capazes de o “ler”. Isso é verdadeiramente bizarro, quando paramos para pensar no que motiva a arte religiosa.

Porque só pintamos uma cena das Escrituras, ou esculpimos em pedra, ou fundimos em vitrais, se pudermos contar que outros cristãos a vão reconhecer. Fazemos parte de uma história partilhada do mundo e a nossa arte fornece aos fiéis uma experiência partilhada, ou uma visão comum de algum momento ou incidente histórico.

O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt, tem pouco ou nenhum significado se não conhecermos a parábola. Não compreenderemos porque é que o jovem está de joelhos, nem por que razão tem os sapatos desfeitos ou porque é que os que observam estão trajados com mantos reais.

Em certo sentido estamos perante uma verdadeira inversão. Os analfabetos da Idade Média, quando os livros eram raros e caros e, por isso, havia pouca ou nenhuma razão para que um agricultor ou um moleiro soubessem ler, estavam, ainda assim, imersos em histórias. Os quadros e os vitrais eram simultaneamente uma expressão da fé e um elemento de instrução da mesma.

A crucifixão, de Hendrick ter Brugghen
Essa expressão e instrução abrangiam ainda a riqueza de orações e de hinos que as pessoas ouviam e conheciam de cor. Quando se inventou a imprensa, os livros tornaram-se mais acessíveis, dando às pessoas comuns uma razão prática para aprender a ler. Todos os salmos, as orações da missa e a liturgia das horas, para além de incontáveis orações, hinos e relatos das vidas dos santos, estavam de repente ao alcance.

Mas tudo isso é passado. Os nossos jovens sabem ler, mais ou menos – as nossas escolas abandonaram em larga medida tanto a poesia em geral como a literatura inglesa escrita antes de ontem à tarde.

Mas no que diz respeito às histórias da Escritura e da fé, não estão em melhor posição que os índios pagãos, olhando deslumbrados para os símbolos estranhos que comunicavam com o sacerdote a partir do seu livro. Aliás, em certo sentido estão ainda em pior situação. Os Huron e os Iroquois tinham séculos de histórias poéticas imemoriais para os ajudar a compreender o mundo. Os nossos pobres sub-pagãos têm apenas o Homer Simpson e o Han Solo.

Que fico claro que não estou a sugerir que eu, na idade deles, estava em muito melhor posição. Certo, conhecia os Evangelhos de trás para a frente, bem como as principais histórias do Antigo Testamento. Mas para além disso, também eu sofria de analfabetismo religioso.

Durante seis anos frequentei a escola de São Tomás de Aquino e não aprendi nada sobre São Tomás de Aquino. Assistia frequentemente à missa naquela igreja, mas era incapaz de reconhecer Santo Inácio e São Francisco Xavier nos vitrais. O guarda-roupa na sacristia tinha gravado nas portas um pelicano medieval com as suas crias, com uma frase do hino eucarístico de São Tomás, mas eu não fazia ideia do que se tratava. Ninguém falava do assunto. O elo histórico tinha sido quebrado.

Permitam-me fazer então o diagnóstico, da forma mais crua que posso. Não há catequese que compense esta lacuna. Se a sua imaginação for formada pelo entretenimento de massas – se o Spock lhe for mais familiar do que Abraão e Moisés, se consegue cantarolar o último sucesso da Madonna, mas não consegue identificar as palavras de Jesus sobre os lírios do campo – então é como um pagão que acaba de ser baptizado, mas que ainda só tem uma ideia vaga do que significa ser cristão.

Não admira que os antigos vikings, acabados de evangelizar, pensassem que podiam continuar a pilhar como tinham feito. Da mesma maneira não nos deve surpreender que os novos pagãos, praticamente sem evangelização, pensem que podem continuar a matar crianças no ventre, ou caminhar alegremente rumo a Sodoma.

C.S. Lewis, influenciado por antigos filósofos e poetas, dizia que a cabeça governa a barriga através do peito. Pois o peito é o reino da arte imaginativa, que nos inspira com contos de valor e de santidade, ou que então degrada com contos de hedonismo, cinismo, ateísmo e depravação.

Temos de evangelizar a imaginação. Jesus ensinou através de histórias. Isso não nos devia dizer alguma coisa?


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life:How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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