quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Acolhimento Evangélico

Pe. Paul Scalia
A noção de acolhimento tem estado muito nas notícias católicas nos últimos tempos. O relatório intercalar do sínodo extraordinário sobre a família colocou questões, por exemplo, sobre a capacidade da Igreja de acolher homossexuais. Pouco depois, o padre jesuíta Timothy Lannon, presidente da Creighton University, explicou a sua curiosa decisão de alargar benefícios a “esposos” de funcionários homossexuais com a ainda mais curiosa frase: “Perguntei-me, o que é que Jesus faria num caso destes? Só consigo imaginar Jesus a acolher toda a gente”.

Este Jesus Acolhedor é um bom trunfo. Não acolher, ou não parecer acolhedor, seria portanto equivalente a discordar de Jesus. Claro que o Jesus que “acolhia a todos” não é uma invenção do sacerdote. Pelo contrário, é profundamente real. Mais real do que muitos querem imaginar. Mas dar benefícios a quem adopta um estilo de vida pecaminoso ultrapassa os limites do significado cristão de acolhimento. E isto leva-nos a questionar o verdadeiro significado de acolhimento cristão.

Todos nos queremos sentir acolhidos. Podemo-nos recordar de momentos em que o sentimento de acolhimento foi palpável, e por isso encorajador. Com igual facilidade, podemos apontar momentos em que nos sentimos profundamente mal acolhidos, e por isso sozinhos. Um dos efeitos do pecado é a alienação e o isolamento. Por isso, falar de Nosso Senhor como aquele que acolhe é algo que ressoa em todos os corações que desejam a reconciliação e a cura.

E Ele é, verdadeiramente, acolhedor. As suas acções e a suas palavras ecoam com acolhimento. As multidões vão ter com Ele precisamente porque se sentem acolhidas – porque Ele lhes fala de perdão; Ele dá prioridade aos pobres e excluídos; toca nos intocáveis. Em casa de Simão, o fariseu, acolhe a mulher arrependida. Zanga-se com os discípulos que impedem as crianças de vir ter com Ele. Acolhe o clamor do cego Bartimeu, mesmo quando as multidões o tentam silenciar. E numa variação do mesmo tema, faz-se acolhido em casa de Zaqueu. Os seus críticos dirigem-lhe palavras que supostamente serão um insulto: “Este homem acolhe pecadores e come à mesa com eles”. (Lc 15,2)

A sua doutrina invoca esse mesmo acolhimento e inclusivismo. Entendemos a parábola do grão de mostarda como símbolo do acolhimento de todas as nações pela Igreja. Conta outra parábola de um Rei que, querendo encher a sua sala com convidados, ordena os servos: “Ide, pois, para as encruzilhadas, e convidai para a festa todos os que encontrardes”. É o que eles fazem, trazendo: “Todos os que encontraram, bons e maus”. (Mt. 22, 9-10). E talvez de forma mais significativa, na parábola que é vista como um resumo do Evangelho, o pai acolhe de novo em sua casa o filho pródigo.

Porém…

Jesus cura Bartimeu
Acholhimento Evangélico...
O seu acolhimento é curioso. Afinal de contas, as primeiras palavras do seu ministério são “Arrependei-vos”! e não “Bem-vindos”! Ele não acolhe aqueles que são falsos ou, mais directamente, aqueles que procuram justificar as suas próprias vidas, em vez de aderir à sua verdade. O seu acolhimento exige um mínimo de aceitação da sua verdade. Os Evangelhos narram várias vezes a sua frustração com as multidões. De vez em quando deixa mesmo escapar uma frase acusadora: “Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei com vocês e terei que suportar-vos?” (Lc 9,41) e “Esta geração é uma geração iníqua...” (Lc 11, 29)

E também não altera a sua doutrina para que as pessoas se sintam mais bem acolhidas. Quando a multidão fica ofendida com o seu ensinamento sobre a Eucaristia, é significativo que Ele os deixa partir. A belíssima parábola sobre a multidão chamada para a festa de casamento termina com a expulsão de um homem que entrou sem “veste nupcial” e a lição de Jesus: “Muitos são convidados, mas poucos os escolhidos” (Mt 22,14)

E são estas palavras que chegam ao cerne do que significa o acolhimento. Por mais que queiramos ser acolhidos e convidados, também sabemos que cada convite inclui uma expectativa e o entendimento de que não podemos fazer como nos apetecer quando entrarmos pela porta. “Muitos são convidados, mas poucos os escolhidos”, porque nem todos moldam as suas vidas às exigências do convite.

Este acolhimento evangélico deve parecer muito estranho para o mundo. É um acolhimento... do arrependimento. Um convite... à mudança de coração. Ele acolhe todos os que se arrependem, que tiram proveito do seu perdão e da sua cura – todos os que, reconhecendo o seu pecado e a sua ignorância, abraçam a sua graça e verdade. É, na verdade, o acolhimento mais importante para uma humanidade pecadora: um acolhimento no seu Sagrado Coração... Isto, claro, se reconhecermos que precisamos dele.

Como o Senhor, assim a sua Igreja. Para a Igreja ser autêntica deve proclamar o convite de Jesus de forma universal e acolher todos os que desejam a graça da conversão. Mas não pode esvaziar esse acolhimento do seu significado, nem sendo demasiado severa, nem demasiado permissiva. Se os meios da graça não fossem postos à disposição de todos os que procuram Cristo, então não seria acolhimento nenhum. Mas ao mesmo tempo seria uma mentira, e por isso falta de caridade, não dar a conhecer as exigências desse acolhimento evangélico.

Defraudar tanto o convite como as exigências é não saber imitar o Bom Pastor.


O Pe. Paul Scalia (filho do juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 2 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

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