sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

“Se o Papa me convidasse para tocar para ele, porque não?”

Transcrição integral da conversa com Tiago Cavaco sobre o facto de Patti Smith actuar no concerto do Vaticano, em Roma. A reportagem está aqui.


O facto de Patti Smith cantar no concerto do Vaticano está a ser apresentado quase como uma hipocrisia, por ela dizer numa das suas primeiras músicas: “Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não os meus”. Concorda?
Ela escreve sobre isso num livro editado em Portugal, chamado "Apenas miúdos", onde conta um bocado a sua história com o seu companheiro que foi o Robert Mapplethorpe, um fotógrafo, e o que ela diz sobre essa frase é que revoltar-se contra Jesus era revoltar-se contra a própria rebelião, porque Jesus era também um rebelde.

Uma das coisas interessantes é que provavelmente hoje, comparado com os anos 70, em que ela escreveu isso, Jesus é um símbolo de maior rebeldia do que era nessa altura. Portanto termos uma cantora como a Patti Smith a associar-se à figura de Jesus até acho que é uma justiça poética e ela é uma poetisa. Eu encontro lógica aqui, não vejo incoerência, vejo lógica.

Mas podemos então dizer que ela é religiosa?
É uma boa pergunta. Às vezes tenho dificuldade em classificar o que é uma pessoa religiosa por oposição a uma pessoa não-religiosa. Por um lado acho que ter uma má vontade, a toda a prova, contra a religião, por si pode ser uma religião também, porque é uma coisa muito exigente, uma pessoa que esteja sempre contra a Igreja tem de ser muito zelosa nisso, é preciso dar muito de si para ser muito coerente com isso.

Não deixa de ser contraditório, a Igreja – e eu não sou católico romano – passa a vida a ser criticada por não falar com o mundo e cada vez que o mundo vem falar com a Igreja as pessoas também criticam. O que parece é que a Patti Smith é uma pessoa que se apercebe que a religião é uma coisa demasiado importante para ser rejeitada e descartada de maneira fácil.

Há um aspecto que acho assinalável. A Patti começou a escrever antes de fazer música e o que diria é que o Cristianismo é por excelência uma fé da escrita, portanto alguém que escreva, mesmo que não creia, faz todo o sentido que tenha uma relação próxima com o Cristianismo, mesmo que não seja uma relação de crença. Portanto que uma cantora que é escritora, como a Patti Smith, se aproxime da Igreja, nem que seja em coisas destas, acho absolutamente normal e natural.

Num dos álbuns dela, "Easter", cita São Paulo "Combati o bom combate, completei a carreira..." A frase seguinte seria "Guardei a Fé", mas ela deixa de fora. Isso pode ter algum significado?
Lá está, acho que qualquer pessoa que goste de ler e que tenha passado por momentos da sua vida em que alguma coisa que leu a transformou, de um modo geral, se viver com acesso ao texto bíblico, vai ser uma pessoa com interesse por ler a Bíblia, e vai sentir-se desafiada pela Bíblia.

A Bíblia é o livro dos livros, quer as pessoas creiam nele enquanto revelação divina ou não. É o grande livro da nossa cultura, mesmo que não nos coloquemos perante ela sob uma perspectiva de fé. Portanto a capacidade que a Patti Smith tem de citar textos bíblicos, eventualmente trazendo questões às afirmações que lá estão, acho que é uma coisa absolutamente produtiva e sinal de que ler o nosso tempo é necessariamente ler o texto bíblico também. Eu acho que a Patti Smith está a caminho de fazer muito mais perguntas ao texto bíblico do que aquelas que já tem vindo a fazer. 

Essa é uma das grandes pobrezas da nossa cultura em Portugal, é que os nossos artistas não lêem a Bíblia. E portanto não têm sequer a capacidade de perceber o que lhes agrada ou não agrada, porque pura e simplesmente não a conhecem. Os Estados Unidos de facto são um país com uma cultura diferente e as pessoas estão habituadas a ir ao texto bíblico, nem que seja para se zangarem com ele, mas isso é saudável, irmos ao texto bíblico nem que seja para nos zangarmos com ele. Mais tarde traz encontros. Hoje a Patti Smith estar a tocar para o Papa acho que sem dúvida tem a ver com o facto de ela ter a Bíblia aberta, isso ajuda bastante. 

Independentemente de ser falsa a imagem dela ser um ícone anti-religioso, não deixa de ser surpreendente vê-la a cantar no Vaticano.
Depende da forma como o vemos. Se nós pensarmos em tocar para o Papa como um prémio carreira, vamos ter de pensar que a pessoa que vai tocar para o Papa tem de ter uma relação muito próxima com ele. Mas se tivermos a ideia de que tocar para o Papa é no fundo participar num momento em que os cristãos, neste caso os católicos, dialogam com o mundo, então é possível que o Papa naturalmente receba pessoas e que possam cantar para ele sem que isso represente um acto de profissão de fé. Acho que depende um bocado da maneira como se olha para isto.

Eu que não sou católico romano, mas que sou cristão, provavelmente não acontecerá, mas se o Papa me convidasse para cantar para ele, porque não? Da mesma maneira que se for convidado por um amigo para ir jantar lá a casa, apesar de não gostar de cantar nestes contextos, depende da amizade que temos pelas pessoas. Portanto eu acho que é preciso que a nossa visão do contacto que temos com a religião seja uma relação mais do campo da amizade, onde somos capazes de sermos amigos mesmo das pessoas com quem não concordamos. 

A esse nível, de modo nenhum me choca que a Patti Smith, ou qualquer outra pessoa que não seja conhecida pela sua fé, vá cantar e tenha alguma relação ou gesto de amizade, neste caso com a Igreja Católica e com o Papa em particular. 

O Papa também passa a vida a ter gestos de amizade com pessoas que não são católicas, portanto acho que faça sentido que as pessoas que não são católicas também tenham gestos de amizade com o Papa.

Da obra dela, em termos de referências religiosas, o que é que destacaria?
Na verdade não sou um conhecedor profundo da Patti Smith, é verdade que ela é de uma área que é a minha área de afectos, ali no início do punk, há quem lhe chame proto-punk, no sentido de ser aquilo que veio permitir que o punk aparecesse como uma reacção a uma música que era muito sofisticada, muito gorda, muito progressiva. 

A Patti Smith, é uma pessoa que escrevia e que começou basicamente por fazer discos muito mais falados do que propriamente cantados, isso é interessante, porque o punk, apesar de ter uma aura de simplicidade, não veio destituir o poder da palavra, nem que fosse pela palavra-choque, mas os discos da Patti Smith, que não conheço muito bem, tirando o "Horses" por exemplo, são discos que voltam a colocar naquilo que se está a dizer a importância daquilo que se está a tocar. 

Acho difícil que algum músico que faça música e que dê valor às palavras não torne a música com qualidade espiritual. Porque podemos ouvir músicas numa fase bastante simples, mas a partir do momento em que a palavra começa a ser uma coisa importante há um valor espiritual aí, pelo menos é isso que os cristãos acreditam. Deus é um Deus que se revela através da palavra, neste caso a Bíblia, mas que se revela através de Cristo enquanto Verbo, portanto a nossa cultura é uma cultura que valoriza a palavra e por isso acho que nos discos da Patti Smith, pelo valor dado à palavra, há uma espiritualidade. Essa é uma das coisas que podemos encontrar até na música popular e no rock, quando a palavra é importante.

Quando aquilo que se diz não é importante e é mais um pretexto para que os instrumentos toquem, então é provável que seja fácil distrairmo-nos com mensagens que não são assim tão vitais. Mas no caso da Patti Smith é um universo diferente, é um universo que valoriza aquilo que está a ser dito e isso, na minha perspectiva, leva sempre a uma relação pelo menos de indagar e questionar a fé.

4 comentários:

  1. Porque é que o Filipe Avilês escolhe um músico protestante para comentar atualidade, neste caso católica, quando tem bons músicos católicos nas categorias musicais em causa, intelectualmente estimulantes, para o fazer...? Só assim de repente lembro-me de 2 ou 3. Quer justificar?

    ResponderEliminar
  2. O comentário foi assim tão ofensivo para não figurar ou o moderador ficou sem resposta? Não me parece caso para tanto.

    ResponderEliminar
  3. O moderador não vive só para isto e não viu os mails no fim-de-semana. O moderador pede desculpa pelo atraso.

    Em resposta à primeira pergunta. Jornalisticamente o Tiago Cavaco parece-me uma pessoa perfeitamente indicada para comentar um assunto destes. Não me parece que seja essencial pedir um comentário a um católico... Aliás, músicos católicos, à vontade neste género musical, só conheço o Manuel Fúria, embora o lapso seja certamente meu.
    Dito isso, venham daí esses nomes! Agradeço muito a informação que espero que me possa ser útil no futuro.
    Obrigado pelo comentário!
    Filipe

    ResponderEliminar
  4. Obrigado pela resposta. Recordo José Cid ou Frei Hermano da Câmara, para citar alguns.

    ResponderEliminar

Partilhar