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segunda-feira, 11 de abril de 2016

Afinal de contas o que é que diz o Amoris Laetitia sobre divorciados recasados?

Recebi o texto completo da exortação apostólica Amoris Laetitia no início da tarde de quinta-feira, ainda com embargo, obviamente, e estive a lê-lo e a escrever sobre ele até às 4h.

Quando acabei de ler o capítulo VIII fiquei sem qualquer dúvida de que o Papa Francisco acabava de legitimar que algumas pessoas em situação matrimonial irregular podem vir a ser admitidas aos sacramentos.

Mas nem toda a gente achou o mesmo.

Só hoje tive oportunidade para fazer uma leitura mais alargada das reacções no resto do mundo. Para além dos muitos órgãos de informação que claramente não pescaram nada do que estava escrito no documento e por isso fizeram títulos genéricos, noto algumas tendências claras.

Por um lado há os liberais que sempre foram a favor de que os divorciados recasados fossem admitidos aos sacramentos e que não perderam tempo em dizer que era precisamente isso que o Papa tinha acabado de fazer.

Por outro lado, há os que não concordam que os divorciados recasados sejam admitidos aos sacramentos e, como o Papa nunca o diz claramente no texto, vieram dizer que afinal tinha ficado tudo na mesma.

Interessantemente há ainda outra classe de conservadores que lendo o texto admitiram, nalguns casos horrorizados, que o Papa acabava de abrir uma via para que pessoas em situação irregular possam comungar.

Claro que isto não são categorias estanques. Haverá certamente muitos que, como eu, ao longo dos últimos dois anos acharam que não seria possível o Papa chegar a esta conclusão, mas que agora, perante esta exortação, não têm problemas em compreender que o Papa é ele, e não eu, e por isso aceitam com filial obediência o que Francisco escreve.

Mas para isso é preciso primeiro compreender o que é que ele escreve…

A chave, para mim, está nesta passagem: “A Igreja possui uma sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”.

Não há dúvida que o Papa está a falar de casos irregulares. São os tais divorciados recasados (podendo ser que apenas uma das partes tenha sido casada pela Igreja). Não sei se as pessoas em união de facto poderiam também estar abrangidas.

Que o Papa diz que algumas das pessoas nestas situações podem não estar em pecado mortal é também claro. Ora, se uma pessoa não se encontra em pecado mortal, se não está privado “da graça santificante”, então porque é que não pode comungar?

A lógica da proibição anterior era simples. Quem está numa situação irregular comete adultério, o adultério é um pecado mortal, quem está em pecado mortal não pode comungar. Simples. Dizendo que há quem não esteja em pecado mortal interrompe esta sequência lógica.

Há quem coloque objecções. Alguns dizem que embora o Papa fale na necessidade de se integrar as pessoas nestas situações, nunca se refere explicitamente à disciplina sacramental. Mas isso não é verdade. No ponto 305 Francisco diz: “por causa dos condicionalismos ou dos factores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio de uma situação objectiva de pecado – mas subjectivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja.”

O tipo de ajuda está explicitado numa nota de rodapé: “Em certos casos poderia haver também a ajuda dos sacramentos. Por isso, aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do senhor e de igual modo assinalo que a Eucaristia não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos”.

Não é por isso verdade que Francisco não se refira explicitamente à disciplina sacramental. E pergunto: Neste contexto, nesta exortação, a que mais é que o Papa se poderá estar a referir do que ao acesso de algumas pessoas em situação irregular aos sacramentos? Que mais é que isto poderia querer dizer?

Ainda assim, há quem avance outra teoria. Dizem que o Papa está simplesmente a referir-se a pessoas que, vivendo num casamento aparentemente irregular, cumprem o requisito da castidade, vivendo “como irmãos” e por isso podem comungar e confessar-se. Isto não será então uma novidade, já existe há anos.

Mas também não me parece provável. Por duas razões. Primeiro, porque viver na mesma casa que alguém não é adultério nem pecado. Por isso, se Francisco estivesse a falar destes casos, não faria sentido falar numa “situação objectiva de pecado”, porque de facto as pessoas nessa situação não estão em pecado.

Mas há mais. O Papa fala de facto sobre as pessoas que vivem “como irmãos”, novamente numa nota de rodapé do parágrafo 298, e não é propriamente uma referência muito entusiástica. “Nestas situações, muitos, conhecendo e aceitando a possibilidade de conviver ‘como irmão e irmã’ que a Igreja lhes oferece, assinalam que, se faltam algumas expressões de intimidade, ‘não raro se põe em risco a fidelidade e se compromete o bem da prole’”.

O facto de, já no final do texto, o Papa escrever “compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma; mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade”.

O que é isto se não uma admissão de que aquilo que o Papa acaba de propor é uma pastoral que permite soluções diferentes para diferentes situações? O que tínhamos antes era claro. Se agora não é, é porque mudou. E mudou para ficar tudo igual mas com termos mais confusos? Não me parece…

Dito tudo isto não quero deixar de sublinhar que esta exortação é muito mais do que apenas o capítulo VIII. Leiam-no, porque vale a pena. Leiam-no com calma e, de preferência, em grupos onde seja possível fazer uma discussão informada e bem-intencionada.

Na Renascença podem ler ainda a cobertura completa sobre a exortação e aqui, mais especificamente, o artigo com a análise do capítulo VIII.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Recasados podem comungar? Parece que sim, mas talvez não


O tema que está a atrair mais atenções, claro, é sobre os divorciados recasados. Francisco diz claramente que é possível estar numa situação irregular sem estar em pecado mortal. A meu ver esta é a chave de leitura desse capítulo e não me parece deixar margem para dúvidas que o Papa está a abrir caminho para que algumas pessoas nessas situações comunguem. Nem todos concordam, nada como ler por si mesmo.


Seria uma pena, porém, que a excessiva atenção sobre esse ponto acabasse por esconder outros também muito interessantes.
- Uma longa exposição, muito pessoal, sobre a educação, incluindo educação sexual e crítica aos estereótipos masculinos e femininos;
- Defesa da natalidade e rejeição da ideia de que a emancipação da mulher seja culpada pela crise das famílias

Por fim, e talvez surpreendentemente, há muito pouco na exortação sobre homossexualidade.

O padre Duarte da Cunha, que participou no sínodo de 2015, diz que a exortação vai mudar atitudes na Igreja e a terapeuta familiar e psicóloga Teresa Ribeiro elogia a profundidade das passagens sobre amor e educação.

Com tudo isto, poderá ter passado despercebida a repetida e enfática condenação dos bispos portugueses à eutanásia e ainda a confirmação da visita do Papa a Lesbos, no dia 16 deste mês.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing e, se tiverem por Cascais e interessados em saber mais sobre a cultura do Perdão podem ir ouvir-me falar às 16h na Igreja dos Navegantes, na jornada diocesana da juventude.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Massacres sem sentido? Infelizmente não...

Lizzy Myers cumpre um sonho
A pequena Lizzy cumpriu hoje o sonho de ver o Papa Francisco antes de ficar cega e surda. Foi uma aventura chegar a Roma, mas conseguiu.

O Papa pretende visitar a ilha de Lesbos, para estar com os refugiados. A Igreja Ortodoxa Grega não se opõe, o que já não é mau!

Depois de amanhã é divulgada a exortação pós-sinodal sobre a Família. O objectivo é recontextualizar a doutrina, explica a Santa Sé.

Duas mortes de peso. Em Moçambique, hoje, morreu D. Jaime Pedro Gonçalves, que foi instrumental na conquista da paz naquele país e na China morreu, há dias, um bispo que chegou a estar 23 anos preso por fidelidade a Roma.

O Papa Francisco disse que os recentes massacres de Lahore foram um acto “sem sentido”, mas David Warren, do The Catholic Thing, discorda e explica precisamente qual é o sentido terrível daquele acto e por que razão os terroristas têm esperança de que resulte. Um texto preocupante mas importante.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Barbas, Turbantes, Deus e Morgan Freeman

O documento do Papa sobre a família vai ser divulgado publicamente no dia 8 de Abril. Até lá, só especulação.

A partir de domingo vai poder ver no canal do National Geographic uma série sobre Deus, dirigida por aquele que já fez de Deus em pelo menos dois filmes… Morgan Freeman.

E atenção que as maiores forças armadas do mundo renderam-se!... Às barbas
Sim, como já sabem, qualquer desculpa serve para eu voltar ao tema da importância religiosa das barbas e do cabelo!!

O Estado Islâmico lançou uma ameaça em que fala explicitamente de Portugal, as autoridades estão atentas.


Deixo-vos com um desafio, sobretudo para quem trabalha no ramo da comunicação. Vai decorrer no dia 15 de Abril um encontro sobre Comunicação da Igreja, que abordará a necessidade de as estruturas da Igreja comunicarem profissionalmente, bem como as perspectivas que se abrem com a visita do Papa no próximo ano. O programa está em baixo e há mais informação aqui.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Texto e o Contexto

O sínodo sobre a família de 2015 já acabou, depois de ter produzido vários pontos positivos, e não poucos negativos. O relatório final contém algumas reflexões espirituais fortes, inspiradas pelas Sagradas Escrituras e as tradições da Igreja. Trata também de forma realística muitas das situações políticas, sociais e culturais de famílias em todo o mundo – situações que variam muito: Desde a cultura hedonista e saturada de sexo do Ocidente às condições de guerra e perseguição do Médio Oriente e África. Alguns parágrafos eram escusados. Se o virmos apenas como uma visão geral da família, tem o seu valor. Mas o contexto em que o texto foi elaborado é outra coisa e será uma ferida aberta durante muitos anos.

Um tema repetido muitas vezes pelos padres sinodais durante as últimas três semanas é que uma Igreja preocupada com o futuro da família estaria a adoptar uma visão muito estreita se se limitasse a reflectir preocupações ocidentais sobre divorciados e homossexuais. Um dos sinais do quão longe o sínodo de 2015 já foi, apesar de ainda haver problemas, é que já não há nada daquela linguagem de “aceitar e valorizar… orientação sexual gay, sem pôr em causa a doutrina católica da família e do matrimónio”, trata-se de uma recuo grande em relação ao relatório intermédio de 2014. Durante o fim-de-semana, a BBC disse que o Papa Francisco tinha sido “derrotado” na questão dos homossexuais – o que não é particularmente correcto, tendo em conta que ele não defende o casamento gay. E ainda por cima, o instrumentum laboris, com o qual ele teve pouco que ver, não dizia grande coisa sobre homossexualidade. Mas a cadeia britânica não foi a única a inventar coisas de acordo com as suas próprias obsessões. Cuidado com estes relatos e com os media em geral. 

Uma boa parte do relatório final é útil e reflecte uma Igreja global interessada em proclamar a Boa Nova e em corresponder às responsabilidades de todas as famílias do mundo. Quando for traduzido, valerá a pena passar algumas horas a estudar, por parte de todos os que se interessam pelos actuais problemas e pelo futuro das famílias.

Mas a questão do acesso à comunhão por parte de divorciados recasados continuou a absorver a maior parte das atenções no mundo desenvolvido – sobretudo nos media. Teria sido bom poder dizer que agora sabemos em que situação estamos. O Wall Street Journal não tem dúvidas: “Bispos entregam ao Papa uma derrota na aproximação aos católicos divorciados”. (Que é como quem diz, como muitos repararam, que não existe uma referência clara ao acesso à Comunhão para estas pessoas no documento e, por isso, não existe apoio textual para uma das correntes que consta do processo sinodal desde que o Cardeal Walter Kasper se dirigiu aos bispos, a convite do Papa, no dia 15 de Fevereiro de 2014). Mas o jornal romano Il Messagero leu a coisa de maneira diferente: “Sim, para os divorciados recasados”. Outros, que queiram que essa seja a mensagem, também o afirmarão. Na verdade, o resultado foi, como tem sido frequente com este Papa, confuso.

Os bispos optaram por não votar sobre o documento como um todo, mas apenas nos parágrafos individuais, o que faz do texto, no fundo, uma série de reflexões apresentadas ao Papa para sua consideração e não uma afirmação global aprovada formalmente pelos padres sinodais. Teremos de esperar por Francisco para ele nos dizer o que considera que deve ser o próximo passo. Poderá ter tornado a sua vida mais complicada tanto pela forma como o sínodo foi gerido como (ver abaixo) pela forma zangada como reagiu às críticas e para com os mais conservadores.

Apesar do que se possa vir a dizer ao longo das próximas semanas, vale a pena repetir: O relatório final do sínodo não refere o acesso à comunhão para os divorciados recasados. Se é isso que o Papa quer, terá de ser ele a colocá-lo lá. Como temos dito desde o início, houve oposição clara a essa proposta em si. Por causa da controvérsia, a linguagem final sobre a relação entre a consciência e a lei moral é muito mais clara no texto final do que no instrumentum laboris. Mas alguns parágrafos do texto final – que obtiveram o maior número de votos negativos – exploram muito a ideia do “discernimento” das circunstâncias individuais e invocam o “foro interno”, ou seja, a direcção privada por um padre ou bispo, chegando mesmo até à fronteira do acesso à Eucaristia, sem o pôr em palavras.

Alguns jornalistas dizem que isto se trata de uma forte defesa do ensinamento actual da Igreja, mas essa é uma caracterização demasiado optimista. Mas também não é um livre-trânsito para liberais. Houve esforços nas discussões do último dia para deixar claro que isto não era um convite para mudar a doutrina ou a disciplina. O padre Federico Lombardi sublinhou propositadamente a continuidade com os ensinamentos de São João Paulo II e Bento XVI . O Cardeal de Viena, Christoph Schönborn, realçou, de forma menos convincente, que haveria critérios claros para guiar esse discernimento.

Os critérios existem, mas se são claros é outra questão. Quando se olha para o texto, o que vemos é isto (tradução da nossa autoria, uma vez que o texto em português ainda não foi publicado):

85. São João Paulo II ofereceu critérios compreensivos, que permanecem a base de avaliação para estas situações. “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjectivamente certos em consciência de que o precedente matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido.”

Aqui vemos João Paulo II a ser usado para dar força à ideia de um discernimento mais vigoroso, o que em si pode ser esticar a corda, tendo em conta a forma como o discernimento é entendido hoje em dia. O que falta é o que JPII diz passados dois parágrafos, no Familiaris Consortio: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio”.

A indissolubilidade é afirmada noutros pontos do relatório final e há passagens polvilhadas pelo texto que sugerem mais claramente aquilo que o Papa João Paulo II disse. Há também referências ao Catecismo da Igreja Católica sobre “inimputabilidade”, quando as circunstâncias diminuem ou anulam mesmo a responsabilidade pessoal. Devidamente seguidas, todas estas citações poderiam significar que nada mudou na prática da Igreja. Mas oitenta padres sinodais votaram contra este parágrafo, o maior número de votos contra de qualquer parágrafo isolado porque, sem permitir explicitamente uma mudança na prática, ele tem o potencial de permitir muitas escapatórias.

A questão que está a gerar mais controvérsia é esta: O discernimento será devidamente conduzido na linha dos princípios morais firmes enunciados por JPII? É aqui que alguns optam pela abordagem do Wall Street Journal e outros pela do Il Messagero. As palavras do texto são estas:

86: O percurso de acompanhamento e discernimento orienta estes fiéis em direcção a um exame de consciência sobre a sua situação diante de Deus. A discussão com o sacerdote, no foro interno, caminha juntamente com a formação de um juízo correcto sobre aquilo que bloqueia a possibilidade de uma melhor participação na vida da Igreja e sobre os passos requeridos para que ela cresça. Tendo em conta que na mesma lei não existe gradualidade (cf. Familiaris Consortio 34), este discernimento nunca pode prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade, como propostas pela Igreja. Para que isto possa acontecer, devem ser garantidas as condições necessárias de humildade, reserva, amor pela Igreja e pelos seus ensinamentos, na busca sincera pela vontade de Deus e no desejo de responder a ela de forma mais perfeita.

Para chegar a este texto foi preciso muito ajuste e os peritos em teologia irão sem dúvida analisá-lo cuidadosamente. Mas lendo-o como está, e retirado do contexto polémico, até se poderia dizer que tinha sido escrito por João Paulo II. A frase que eu destaquei em itálicos parece dar bastante força à necessidade de uma mudança de vida para remover obstáculos, mais do que outra coisa qualquer. E quando se diz que não existe gradualidade na lei, está-se a dizer que as pessoas se aproximam gradualmente daquilo que devem seguir, mas que a lei é constante e não pode ser abrogada simplesmente porque há pessoas que levam mais tempo a harmonizar-se com ela. Ainda assim, há uma razão pela qual 64 padres sinodais votaram contra este parágrafo, talvez não tanto pelo que diz, mas por aquilo a que poderá conduzir no actual clima que se vive na Igreja.

Mas também vale a pena notar os votos para o Conselho do Sínodo, o grupo que governa os próximos sínodos. Tal como disse na sexta-feira (apesar de os resultados oficiais ainda não serem públicos nessa altura), estes mostram basicamente que existe uma maioria de dois terços a favor do ensinamento católico tradicional. O jornalista Sandro Magister disse durante o fim-de-semana que o arcebispo Charles Chaput, de Filadélfia, foi quem recebeu o maior número de votos de todo o mundo, embora os cardeais George Pell e Robert Sarah também tenham tido números significativos. Isto são excelentes notícias. Das américas temos também o canadiano Cardeal Marc Ouellet (um tipo formidável), e o Cardeal Oscar Maradiaga (muito próximo do Papa). Da Ásia os cardeais Pell, Oswald Gracias (Bombaím) e Luis Antonio Tagle (Manila). De África os cardeais Sarah, Wilfred Napier, e o bispo Mathieu Madega Lebouakehan, do Gabão.

Só na Europa é que as escolhas foram mais fraquinhas: Schönborn, o arcebispo inglês Vincent Nichols e o arcebispo Bruno Forte (cardeais italianos fortes como o Scola, o Caffara e o Bagnasco tiverem também muitos votos individuais, e se os italianos se tivessem unido atrás de um candidato, este teria arrasado). Em todo o caso, na medida em que o Conselho do Sínodo conduzirá os eventos futuros, há uma preponderância de figuras sérias e a sua selecção demonstra o sentir geral dos padres sinodais.

O próprio Papa não estava particularmente contente no final dos procedimentos, embora como é hábito em eventos do Vaticano a linha oficial tenha sido que tudo terminou numa grande demonstração de fraternidade e sinodalidade, incluindo uma ovação de pé no final do seu discurso. Entre muitas afirmações positivas, contudo, Francisco expressou irritação com partes da conversa. “Ao longo deste sínodo foram livremente expressas opiniões diferentes – por vezes, infelizmente, de forma pouco caridosa…”

E nas suas declarações sobre a razão de ser do sínodo, disse: “Tratou-se de abrir os corações fechados, que frequentemente se escondem mesmo atrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções, para se sentarem na cátedra de Moisés e julgar, por vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas”.

Este é um tema recorrente com ele. Ninguém negaria que existem pessoas autoritárias entre aqueles que enfatizam os ensinamentos tradicionais – tal como há pessoas autoritárias com opiniões teológicas contrárias. Mas estas são as franjas, os poucos. Muitos clérigos e leigos ficaram ofendidos – e enfurecidos – com esta afirmação. É justo sublinhar que pode bem ter estado a dizer que alguns tradicionalistas são duros de coração, mas não foi essa a leitura que a maioria das pessoas fez e é natural que isso venha a exacerbar as divisões que já existem.

Esta é a realidade com que teremos de lidar nos próximos tempos na Igreja. O Relatório Final é um texto tolerável, sobretudo tendo em conta que é produto de uma comissão de 270 pessoas. Se tivesse aparecido durante o pontificado de João Paulo II, teria causado pouco alarido. Mas num contexto de suspeição mútua e de revolta, o tolerável pode bem tornar-se intolerável.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 26 de Outubro de 2015)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sínodo finitu e encontro de campos de férias católicos

Participantes de um campo de férias do Sairef
E ao 21º dia, o sínodo acabou… Em que é que ficamos?

A terminologia na questão dos divorciados recasados é vaga, mas a minha leitura é que se deixa uma abertura para o acesso aos sacramentos. Agora cabe ao Papa escrever um documento definitivo. Vamos aguardar.

D. Manuel Clemente mostrou-se satisfeito com o sínodo, D. Antonino Dias também e o Cardeal Schöenborn, idem. Nesta notícia o padre Duarte da Cunha, que participou como perito, ajuda a interpretar o documento final.

Das pessoas ouvidas pela Renascença, a mais céptica foi o vaticanista do Le Figaro.

Faz parte das milhares de pessoas que já fez, ou ajudou a organizar, um campo de férias católico? Sábado vai haver um encontro dos diversos movimentos e são desafiados a participar, de forma especial, os que gostariam de organizar campos e não podem.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Poligamia, emendas e hóstias caseiras

Amanhã é o Dia D do sínodo. Os bispos vão votar o documento final. Esse esteve a ser elaborado hoje, depois de terem sido feitas 50 propostas de emendas por parte dos bispos.

Segundo um dos participantes no sínodo, as perguntas são claras, as respostas é que nem por isso.

Tem-se falado muito do facto de as discussões no sínodo terem ignorado a realidade de outras culturas e houve bispos que lamentaram o facto de no sínodo terem ficado assuntos importantes por discutir. A esse respeito falei com um bispo nigeriano sobre o problema da poligamia e a conclusão é que é um assunto mais complexo do que possa parecer à primeira vista.

Conheça aqui o padre de 80 anos que ainda faz hóstias em casa, de forma artesanal…

E não deixe de ler esta reportagem da participação de Jorge Silva Melo nas conversas sobre Deus, com Maria João Avillez, na Capela do Rato.

Por fim, fica novamente a recomendação para ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre o que faz verdadeiramente “grandes homens”.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Marx, Müller e o Tarzan das ocupações surpreendem

Cardeal Reinhard Marx
Foram hoje apresentados os relatórios dos grupos de trabalho no sínodo, relativos à terceira parte do instrumentum laboris, precisamente a parte mais “polémica”. Aqui pode encontrar o essencial de todos os relatórios.

Mas o que mais admirou foi o facto de o grupo de língua alemã ter apresentado uma proposta de admissão de algumas pessoas em uniões irregulares aos sacramentos. A surpresa, lá está, não é a proposta, mas sim o facto de ter sido aprovada por unanimidade nesse grupo, o que significa que os cardeais Marx e Kasper estiveram de acordo com o cardeal Muller.

Durante a conferência de imprensa de hoje, o Cardeal Marx aproveitou também para lamentar o tom com que o cardeal Pell se dirigiu aos defensores da mudança da prática da Igreja nestes casos.

A preparação para o matrimónio tem sido um dos assuntos em cima da mesa. A jornalista Matilde Torres Pereira foi ver o que se faz nesse campo em Portugal, e se é suficiente.

Anda a circular uma notícia que diz que o Papa está com um tumor benigno no cérebro, mas o Vaticano desmente categoricamente

O que parece ser mesmo verdade é que alguém do Vaticano escreveu uma carta de apoio ao “Tarzan das ocupações”… pois… mais vale lerem, porque não sei bem o que dizer sobre este assunto.

O padre Tolentino venceu um prémio literário pela obra “A Mística do Instante – O Tempo e a Promessa”

E hoje é dia de artigo do Catholic Thing. O padre Jerry Pokorsky estreia-se na versão portuguesa com um texto que mostra as diferenças entre a perspectiva terrena e a perspectiva cristã sobre o que constitui um “grande homem”.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Papa quer Converter o Papado

A irmã Annie, em Aleppo
O Papa Francisco quere a “conversão do papado” e mais colegialidade na Igreja e disse-o no sábado, em pleno sínodo sobre a família. Palavras revolucionárias? Veremos.

O sínodo entrou esta segunda-feira na recta final, e esse facto é aqui analisado por Aura Miguel. Esta tarde esteve na conferência de imprensa o patriarca Fouad Twal, de Jerusalém, que recordou que para os seus fiéis nem sequer existe casamento civil, pelo que a questão de acesso aos sacramentos é simplesmente uma não-questão.

A Comunidade Israelita de Lisboa condena os ataques que têm sido levados a cabo por civis em Israel.

A guerra na Síria destruiu quase tudo, mas não a fé dos cristãos. Quem o diz é a irmã Annie Demarjian, que esteve em Lisboa a semana passada. Aqui pode ler a entrevista desta freira de Alepo na íntegra, em inglês.

Entretanto durante o fim-de-semana foi canonizado um casal, pais de Santa Teresinha.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Dia ecuménico no sínodo

Delegados fraternos no sínodo
Os últimos dois dias foram reservados para que os representantes de outras igrejas cristãs e os auditores e especialistas – isto é, os não bispos – presentes no sínodo tomassem a palavra. Na conferência de imprensa o representante ortodoxo pediu aos jornalistas para não focarem só as notícias negativas e o anglicano lamentou que no sínodo não se fale de outros assuntos, para além dos problemas de divorciados recasados.

O Papa Francisco visitou um dormitório para sem-abrigo aberto recentemente no Vaticano e conviveu com os residentes.

Por cá, a Igreja de São Cristóvão, que tem tentado, de forma heróica, sobreviver, entrou na lista de monumentos em risco, elaborado pela World Monument Foundation. É uma boa/má notícia.

Foi inaugurada uma nova sede para a Ajuda à Igreja que Sofre, em Évora. Na cerimónia de abertura o Arcebispo de Évora disse que a perseguição aos cristãos só vai acabar com uma “intervenção musculada” das organizações internacionais.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre os preconceitos que existem em relação à religião e à violência, do nosso grande Randall Smith.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Igreja ou é missionária ou não é Igreja

Agora é que as coisas vão começar a aquecer! Os padres sinodais já começaram a discutir a secção do documento orientador do sínodo que contém as questões mais polémicas. Hoje já foi assunto no briefing.

Em relação à segunda secção do documento, que acabou de ser discutido, pode ler aqui o essencial dos relatórios de cada grupo, publicados ontem. Também ontem foi ficando mais claro que os bispos querem mesmo que o Papa publique algo, como uma exortação apostólica, para dar mais sentido às conclusões do sínodo.

Directamente de Roma D. Manuel Clemente, que participa neste sínodo, esteve no debate sobre religião na Renascença e também comentou a actualidade política, dizendo que considera um acordo entre a coligação e o PS como a solução mais “normal” para o actual impasse.

O Papa enviou uma mensagem à fundação Ajuda à Igreja que Sofre em Portugal, que acaba de cumprir 20 anos de existência, em que pede que o mundo acorde para o sofrimento e a perseguição de que os cristãos são alvo.

A Igreja ou é missionária, ou não é Igreja”. Quem o diz é o padre Tony Neves, que acaba de lançar um segundo volume do seu livro “Crónicas com Missão”.

É verdade que há muita violência religiosa no mundo, mas precisamente por isso não precisamos que se veja essa ligação entre as duas realidades onde ela não existe. Randall Smith escreve aqui sobre o seu encontro surreal com uma jornalista em “Religião, Violência e Preconceito Ignorante”, o artigo desta semana do The Catholic Thing.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Cada cabeça sua sentença, incluindo a minha

Peregrinos acendem velas em Fátima, ontem à noite
A conferência de imprensa do sínodo sobre a família desta terça-feira foi reveladora das diferenças de opinião que existem entre os presentes. O monge beneditino alemão, a consagrada ruandesa e a teóloga canadiana foram questionados sobre as “questões fracturantes” e cada um deu uma resposta diferente.

Sobre uma destas “questões fracturantes” escrevi eu um texto no blog, que vos convido a ler e, se for caso disso, criticar, porque este é um assunto que continua a dar muito que falar.

Há sítios no mundo onde a existência do Cristianismo está ameaçada. Essa é uma das conclusões do relatório anual da fundação Ajuda á Igreja que Sofre, apresentada hoje em Lisboa.

Centenas de milhares de pessoas resistiram à chuva ontem à noite e estiveram presentes no Santuário de Fátima, cujo reitor considera que “o poder político continua a envergonhar-se” do local de peregrinação.

Um importante documento português, um livro de comentários e iluminuras do Apocalipse, foi considerado “memória do mundo” pela UNESCO.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A terra onde "fácil" e "tranquilo" não existem

Depois de ontem o cardeal Erdö ter dado a entender que a comunhão para pessoas em uniões irregulares não estava sequer em discussão, hoje ficámos a saber que afinal está. Mas o Papa quer que se saiba que essa não é a única questão que se discute no sínodo.

O que o Papa também não quer, pelos vistos, é que os bispos entrem em modo conspiração, e por isso hoje falou novamente aos bispos. Se fosse pelo gabinete de imprensa da Santa Sé, porém, nunca o saberíamos.

Entretanto a pouca distância de Roma, na Síria, as palavras “fácil” e “tranquilo” já não são usadas. Quem o diz é o provincial dos salesianos para o Médio Oriente, numa entrevista interessantíssima em que fala também dos refugiados, dos perigos da sua missão e da tristeza de ver os cristãos a abandonar o Médio Oriente.

Hoje partilho convosco mais uma transcrição completa de uma das entrevistas que fiz de antecipação do sínodo. Assunção Guedes é mediadora familiar e fala daquelas famílias que acabam por ser esquecidas no meio destas discussões do sínodo, isto é, as famílias “normais”, mas que também têm problemas.


E por fim, um convite. Na sexta-feira estarei na Igreja Baptista da Lapa, a convite do meu amigo o pastor Tiago Cavaco. É com enorme prazer que participo pela segunda vez no “Fim-de-Semana Cheio na Lapa”, cujo programa vai em anexo. Apareçam, que todos são bem-vindos!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sínodo, sínodo, sínodo e sauditas

"Sínodo? Não! Falemos antes de mim!"
Antes de mais um pedido de desculpas, a semana passada folguei alguns dias e nos outros estive demasiado ocupado para conseguir enviar o mail, mas não desesperem, porque estou de volta!

A razão da minha ausência foi a produção de três reportagens sobre o sínodo para a Família. Uma foi sobre a questão dos “recasados” e inclui uma explicação sobre o que significa verdadeiramente “comunhão espiritual”. Outro artigo foi sobre a questão do acolhimento aos homossexuais e, por fim, falei com uma mediadora familiar sobre os problemas que afectam as famílias “normais”.

Esta mesma mediadora familiar esteve entretanto no debate semanal “Conversas Cruzadas”, dedicado precisamente às questões do sínodo.

Tenho transcrição integral das três entrevistas no blogue, destacarei um por dia, hoje ficam com o cónego Carlos Paes, que desenvolve muito trabalho com os divorciados e recasados.

Entretanto, depois da missa inaugural de ontem, os verdadeiros trabalhos do sínodo arrancaram hoje. O Papa avisou que o sínodo não é lugar para negociar consensos, o cardeal Erdö disse que não vai haver mudanças de doutrina e o cardeal Vingt-Trois, de Paris, concordou, falando ainda do caso do padre polaco que no sábado se assumiu publicamente como homossexual, exigindo que a Igreja mude as suas práticas.

O Cardeal D. Manuel Clemente, já em Roma, abordou também o tema do padre polaco, que acusa de ter tentado manipular o sínodo.

No meio disto tudo 52 clérigos sauditas declararam jihad contra a Rússia, cujo patriarca ortodoxo diz que a intervenção russa na Síria é uma “guerra santa”.

Para terminar, não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, onde Howard Kainz pergunta se as vítimas do divórcio não serão as viúvas e os órfãos dos dias de hoje

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Padre português é perito no sínodo da família

Padre Duarte da Cunha, perito no sínodo da Família
O padre Duarte da Cunha, que é actualmente secretário do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, vai estar no sínodo da Família, por nomeação do Papa Francisco. Nesta entrevista ele explica qual vai ser a sua função.

O Papa lamentou esta quinta-feira o facto de ninguém conseguir encontrar uma solução para a crise na Síria.

E no Iémen a coisa continua a ferro e fogo. Ontem foi mais fogo, com uma igreja católica na cidade de Aden a ser incendiada por fundamentalistas islâmicos.

Não deixe de ler o artigo de Randall Smith, do The Catholic Thing em português, no qual ele exorta os casais a amarem-se, mesmo que seja difícil, nem que seja unicamente para bem dos seus filhos.

Termino com um convite que não podia vir mais a propósito. Com tudo o que se passa no mundo actualmente, desde os conflitos no Médio Oriente até à previsível chegada de milhares de muçulmanos entre os refugiados que vêm para a Europa e para Portugal, é agora lançado o livro “Compartilhe a sua fé com um muçulmano”, do missionário americano Charles R. Marsh.

O livro é apresentado na próxima terça-feira, dia 22, na sede da Aliança Evangélica Portuguesa (Avenida Conselheiro Barjonas Freitas, 16-B,  1500-204 Lisboa) e eu estarei a moderar uma mesa redonda sobre o assunto. Não deixem de aparecer.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Papa, as famílias e as talhas de bom vinho

Fiéis aguardam o Papa no Equador
O Papa Francisco está no Equador, onde esta tarde visitou um santuário da Divina Misericórdia e, depois, celebrou missa para uma grande multidão, debaixo de um calor intenso.

Da homilia há uma frase sobre o sínodo da família que há-de ser interpretado e lido das mais variadas maneiras, mas seria uma enorme pena se essa frase desviar a atenção do texto como um todo, que é dos mais bonitos que já ouvi este Papa proferir.

Durante a semana que estive fora, de férias, o Papa Bento XVI fez um discurso oficial e público, o primeiro desde a sua resignação, sobre um dos seus temas preferidos… A música!

Também durante a semana publicou-se, como sempre, mais um artigo do The Catholic Thing. O padre Mark Pilon pergunta se a Igreja precisa de pessoas como João Baptista hoje em dia, recordando o caso do bispo de Nova Orleãs que excomungou um político que se opunha às leis de integração racial na década de 60.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Menos Propaganda e Mais Ciência para os Bispos

Rick Fitzgibbons
Declarações feitas recentemente pelas conferências episcopais da Alemanha e da Suíça, em antecipação do Sínodo da Família, mostram-nos a ceder na questão das uniões homossexuais. Os alemães emitiram um comunicado para o sínodo em falam de alegadas descobertas: “nas ciências humanas (medicina e psicologia), nomeadamente que a orientação sexual é uma disposição que não é escolhida pelo indivíduo e que não é alterável. Por isso, a referência no questionário [para o sínodo] a ‘tendências homossexuais’ é confusa e consideramos que é discriminatória”.

Nas palavras do altamente respeitado vaticanista Sandro Magister: “Os bispos alemães não só aprovam que se dê absolvição e comunhão aos divorciados e recasados, como também manifestam a esperança de que os segundos casamentos civis possam ser abençoados na igreja, que a comunhão eucarística possa ser dada a esposos que não são católicos e que seja reconhecida a bondade dos relacionamentos e das uniões homossexuais.”

Os bispos explicam ainda que estas uniões deixarão de ser, salvo em casos extremos, incompatíveis com um emprego ao serviço da Igreja na Alemanha. Não é difícil detectar aqui as pressões exercidas sobre a Igreja em todo o lado, de forma mais ou menos subtil, para alinhar com a nova ética sexual.

Contudo, as afirmações dos bispos alemães não reflectem fielmente os dados médicos e psicológicos sobre as origens da atracção homossexual. Os bispos católicos não só deviam estar a resistir à pressão de ceder a estas tendências sociais, como deviam estar a promover os benefícios do tratamento e a participação na Courage, a única organização católica de acompanhamento de homossexuais que é reconhecida pelo Vaticano. Uma declaração de 2006 da Conferência Episcopal do Estados Unidos recomenda o tratamento e a orientação espiritual para quem tem atracção por pessoas do mesmo sexo. Talvez seja tempo de nos actualizarmos, a começar com os dados científicos sobre os graves riscos médicos e psiquiátricos para aqueles que vivem em uniões homossexuais e os graves perigos para o desenvolvimento psicológico dos jovens que são deliberadamente privados de um pai ou de uma mãe por terem sido criados num lar homossexual.

Um dos maiores estudos de casais homossexuais revelou que apenas sete dos 156 casais analisados vivia numa relação completamente exclusiva, e que a maioria das relações durava menos de cinco anos. Nos casais cujas relações duravam mais tempo havia alguma tolerância por actividade sexual exterior. Os autores concluíram que “o único factor mais importante que mantém os casais unidos para além de dez anos é a ausência de um sentido de posse” – isto é, uma racionalização que minimiza a dor emocional de ser vitimizado por repetidos casos de infidelidade.

Um estudo dinamarquês de 2011 revelou que o risco de suicídio, ajustado à idade, para homens em uniões de facto homossexuais era quase oito vezes maior que o risco de suicídio para homens num casamento heterossexual.

Foram feitas duas avaliações sistemáticas de 47 estudos sobre a violência nas relações íntimas (VRI) entre homens em relações homossexuais. Um concluiu: “Os dados emergentes avaliados revelam que a VRI – psicológica, física e sexual – ocorre a ritmos alarmantes em relações homossexuais masculinas”.

Dois estudos de 2015 revelaram que 512 crianças criadas por pais do mesmo sexo tinham uma prevalência de problemas emocionais duas vezes superior à norma. Outro investigador concluiu que, em comparação com lares tradicionais com pais casados, as crianças criadas por casais homossexuais tinham 35% menos probabilidade de progredir normalmente na escola.

Um estudo de 2013 do Canadá analisou dados de uma amostra em grande escala e concluiu que os filhos de casais gays e lésbicas têm apenas cerca de 65% de probabilidade de terminarem o secundário quando comparados com os filhos de casais heterossexuais casados. As raparigas sofrem mais que os rapazes. Filhas de “mães” lésbicas revelaram ter taxas de sucesso escolar dramaticamente inferiores.

Símbolo do apostolado Courage
Contrariamente à propaganda disseminada, há várias décadas que existem relatórios, tanto do ponto de vista dos terapeutas como dos clientes, de mudanças profissionalmente assistidas de atracção indesejada pelo mesmo sexo. Os profissionais usam uma variedade de protocolos de tratamento que abrangem várias escolas de psicoterapia. Ao contrário do que se pensa, não existem provas científicas de que estas terapias de mudança profissionalmente assistida de atracção indesejada pelo mesmo sexo sejam prejudiciais.

Alguns clientes que recebem estes cuidados profissionais por atracção indesejada pelo mesmo sexo admitem ter mudado “completamente”, outros revelam “nenhuma” mudança. Outros ainda dizem ter conseguido alterações sustentadas, satisfatórias e significativas tanto na direcção como na intensidade das suas atracções, fantasias e excitação sexual, bem como no seu comportamento e identidade de orientação sexual.

A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu uma carta em 1986 aos bispos católicos sobre o Cuidado Pastoral de Pessoas Homossexuais em que pede aos bispos de todo o munto para “apoiar com todos os meios à sua disposição, o desenvolvimento de formas especializadas de atendimento pastoral às pessoas homossexuais”. Tais cuidados podem “incluir a colaboração das ciências psicológicas, sociológicas e médicas, mantendo-se sempre na plena fidelidade à doutrina da Igreja.” [Ênfase do autor]

Uma investigação, no âmbito de um doutoramento, sobre os membros da Courage comprova a eficácia do programa em lidar com aqueles que têm atracção por pessoas do mesmo sexo. (Os indivíduos com atracção pelo mesmo sexo têm mais perturbações mentais do que a população geral.) Os entrevistados que viviam em castidade revelavam melhorias na sua saúde mental geral. Existe uma correlação entre uma espiritualidade autêntica e melhorias na saúde mental. Também existem correlações positivas entre a castidade, a participação religiosa e índices autorelatados de felicidade.

A minha experiência profissional de quase 40 anos a trabalhar com padres mostra que os principais obstáculos à aceitação e à pregação da verdade da Igreja sobre a sexualidade humana e a homossexualidade radica numa incapacidade de ensinar a verdade da Igreja sobre contracepção, proclamada na Humanae Vitae. Quando se ignora a ordem criada por Deus isso reflecte-se inevitavelmente noutras áreas.

Os padres sinodais e as conferências episcopais têm de ser actualizados em relação aos dados das ciências médicas e psicológicas relacionados com a homossexualidade. A Associação de Médicos Católicos dos Estados Unidos e o apostolado da Courage fornecem uma formação muito importante, juntamente com outras associações médicas católicas internacionais. 

Um recurso importante que já foi traduzido para várias línguas é a publicação da Associação de Médicos Católicos “Homossexualidade e Esperança”. Mas há muito mais – se ao menos os nossos líderes católicos quisessem realmente saber a verdade sobre estes assuntos.


Rick Fitzgibbons é um dos autores da segunda edição de “Homossexualidade e Esperança”, da Associação de Médicos Católicos dos EUA.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 17 de Maio de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Porque é que o Sínodo de 2015 não fala de Contracepção?

Pe. Mark Pilon
Talvez a coisa mais surpreendente sobre as novas Perguntas para o acolhimento e o aprofundamento da Relatio Synodi – o pedido de opiniões em preparação para o sínodo de Outubro 2015 – não seja o que contêm mas a ausência de questões sobre um assunto que se poderia esperar de um documento deste género. Entre as 46 questões, nem uma toca directamente a questão da contracepção.

É incrível. Como é que um sínodo que lida com o tratamento pastoral do casamento e da família nos dias de hoje consegue excluir completamente qualquer pergunta que tenha a ver especificamente com um assunto que tem sido central para essas mesmas questões ao longo dos últimos cinquenta anos?

Não acredito que seja coincidência. A contracepção tem tido um impacto inegável e grave sobre a instituição do casamento. Pode-se argumentar que o impacto tem sido positivo, mas ninguém pode dizer que se trata de uma preocupação marginal. E, todavia, aqui temos um documento que nem sequer menciona a questão directamente. Há uns pontos gerais sobre o encorajamento da generosidade no acolhimento da vida e a relação essencial entre o casamento e a abertura à vida; e bem. Mas nunca se toca na relação evidente entre a contracepção e o facto de muitos casamentos estarem fechados a ambos.

O documento menciona as “mudanças” demográficas e perguntas se as pessoas têm “consciência das graves consequências” que daí advêm, sem nunca explicitar de que mudança se fala realmente e evitando assim usar descrições mais sérias como “suicídio demográfico” ou “inverno demográfico”, a formulação usada por São João Paulo II.

No Humanae Vitae, esta “mudança” era entendida como sendo uma explosão demográfica, mas hoje não é o caso. Quão importante pode ser esta questão, se não merece mais do que uma frase na pergunta 43? Os países europeus estão em queda-livre demográfica e o documento contém uma referência vaga e nenhuma referência a contracepção nem aqui nem em parte alguma?

Mas não é só a crise demográfica que pede alguma referência de contracepção e da mentalidade contraceptiva. Um dos discernimentos centrais do Beato Paulo VI e, sobretudo, de São João Paulo II era de que o uso de contraceptivos num casamento é destrutivo não só do sentido procriativo mas também da sua dimensão unitiva.

Mas a aparente falta de preocupação com a questão da contracepção parece trair uma convicção de que a instabilidade marital e a crise das famílias tem pouca ou nenhuma relação com o facto de a vasta maioria dos casais católicos usarem contracepção.

Mais, existe uma miopia notável em não compreender os falhanços da catequese e das preparações para o matrimónio por todo o mundo no que diz respeito ao mal moral que é a contracepção. E porém, enquanto o documento inclui questões sobre a catequese e a preparação dos matrimónios no que diz respeito à indissolubilidade do casamento, por exemplo, não existe qualquer questão relacionada com uma correcta catequese e preparação para o casamento no que diz respeito à contracepção -  a não ser que se acredite que a referência à “abertura à vida” cobre o assunto, o que seria absurdo.

Então o que é que se passa aqui? Durante meio século, segmentos inteiros da hierarquia da Igreja, tanto padres como bispos, têm-se mantido em silêncio, para não usar um termo pior, no que diz respeito à contracepção e à preparação para o casamento. O mesmo em relação ao confessionário. Tem sido uma revolução silenciosa. Não podiam mudar a doutrina, por isso ignoravam os ensinamentos.


Será que isto explica o silêncio do documento sinodal? Este ensinamento não pode ser alterado, como o Papa Francisco já disse claramente. E porém, parece claro que muitos líderes na Igreja continuam a manter-se cegos à verdade dos ensinamentos de dois grandes papas, de que a contracepção é um veneno para o casamento e para a sociedade em geral.

Então qual é a solução? Faz-se o mesmo que se tem feito ao longo das décadas, enterra-se a questão com silêncio. Fala-se vagamente da “abertura à vida” da “generosidade” no casamento, mas não se especifica que a contracepção leva as pessoas a estarem fechadas à vida ou egoístas em relação a ter filhos. É como uma comissão médica a falar de SIDA sem referir que ter relações promiscuas tem muito a ver com a sua transmissão.

A velha “Aliança Europeia”, que teve tanta influência nas primeiras fases do Concílio Vaticano II, poderá ter voltado ao poder neste sínodo. Os principais defensores da contracepção no Vaticano II eram principalmente teólogos e bispos europeus que faziam parte desta Aliança Europeia, tão bem retratada no livro “The Rhine Flows into the Tiber”.

Os nomes podem ter mudado, mas a rejeição básica do ensinamento da Igreja sobre contracepção mantém-se. A “sensibilidade” pastoral exige que se as pessoas querem contraceptivos, então devem tê-los. Esse não é certamente o objectivo do sínodo, mas é uma questão que não vai desaparecer. Se o sínodo se mantiver silencioso sobre o assunto, isso será entendido quase de certeza como um abandono da Igreja em relação a este assunto, ao nível “pastoral”.

A tragédia é que este sínodo poderia ter tido um impacto positivo, não só para a renovação do casamento, mas para salvar um continente Europeu apostado em autodestruir-se. Se não lidarmos directamente com a questão da contracepção de forma frontal e positiva, então o Sínodo terá pouco impacto na renovação e estabilidade do casamento, e a Europa, bem como a América e grande parte do resto do mundo, continuará a trilhar o caminho do suicídio demográfico, não por meio de armas de destruição maciça, mas através de pílulas minúsculas, mas poderosas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 24 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Grande Ausente do Sínodo: A Contracepção

Vários casais foram convidados para participar no recente Sínodo Extraordinário que decorreu no Vaticano em Outubro, como auditores, sem direito a voto, para partilhar as suas experiências no terreno com os padres sinodais.

Um casal brasileiro, Arturo e Hermelinda Zamperlini, mostraram de forma impressionante como a contracepção é o contexto segundo o qual os muitos problemas que dizem respeito ao casamento devem ser compreendidos. A sua experiência coincide certamente com os factos das famílias católica noutras partes do mundo.

Pelas suas palavras: “Devemos admitir sem medo que muitos casais católicos, mesmo os que procuram viver o seu casamento de forma séria, não se sentem na obrigação de usar os métodos naturais [de planeamento familiar]… A isto acresce que normalmente não são questionados sobre o assunto pelos seus confessores… Em geral não consideram que seja um problema moral”.

Os Zamperlini pediram ao Papa e ao Sínodo que clarificassem e propagassem os ensinamentos da encíclica de Papa Paulo VI, Humanae Vitae. Um dos padres sinodais, o Cardeal Andre Vingt-Trois de Paris, apoiou-os, indicando que existe um novo “paradigma” (uma nova “norma”?) para os casais católicos: “Tudo isto tem consequências para a prática sacramental dos casais que frequentemente não encaram o uso de métodos contraceptivos como um pecado e, por isso, tendem a não confessar o facto e recebem comunhão sem problemas”.

O relatório final do sínodo menciona brevemente a contracepção no parágrafo 58, recomendando os “métodos naturais de regulamento da natalidade”. Mas a frase final, traduzida para inglês, levou a algumas interpretações ambíguas. No italiano lê-se: “Va riscoperto il messaggio dell’Enciclica Humanae Vitae di Paolo VI, che sottolinea il bisogno di rispettare la dignità della persona nella valutazione morale dei metodi di regolazione della natalità”, e o inglês diz: “we should return to the message of the Encyclical Humanae Vitae of Blessed Pope Paul VI, which highlights the need to respect the dignity of the person in morally assessing methods in regulating births.” [devemos regressar à mensagem da encíclica Humanae Vitae, do beato Paulo VI, que sublinhou a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação dos métodos naturais de regulação dos nascimentos.]

Os padres sinodais referem-se, como é evidente, à insistência de Paulo VI no Humanae Vitae de que os métodos de regulação dos nascimentos deviam respeitar a dignidade pessoal. Por exemplo, o parágrafo 17, que diz: “É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.”

No final do Sínodo Extraordinário, Nicole Winfield, uma jornalista da Associated Press, propôs uma interpretação diferente: “No documento sinodal final os bispos reafirmaram a doutrina, mas disseram ainda que a Igreja devia respeitar os casais na sua avaliação moral dos métodos contraceptivos” [ênfase acrescentada]. Por outras palavras, ela interpreta os bispos como dizendo que precisamos de respeitar a dignidade da pessoa no acto de avaliar que métodos usar para regular os nascimentos, que é tudo uma questão de consciência individual. Se uma pessoa e o seu confessor acharem que a pílula não tem problema, tudo bem, respeitamos essa decisão.

Esta interpretação errada pode bem coincidir com a opinião geral dos casais católicos (e dos seus confessores) e ser a razão pela qual a vasta maioria dos católicos não se opõe à contracepção. Se for o caso, muitos dos assuntos familiares/maritais discutidos no sínodo têm como “denominador comum” as práticas contraceptivas generalizadas. Isto devia ter um efeito sobre as deliberações do sínodo.

Arturo e Hermelinda Zamperlini

Alguns exemplos:

·         Se um casal divorciado nunca pretendeu estar aberto à procriação, o casamento é inválido aos olhos do Direito Canónico, pelo que uma declaração de nulidade poderá mesmo parecer desnecessária.

·         Se um cônjuge num casamento válido decidir usar contraceptivos para evitar ter filhos, e o esposo não consentir, isto deve ser razão suficiente para declarar a nulidade do casamento?

·         Se os casais estiverem a praticar sexo antiprocreativo, como é que podem julgar consistentemente os homossexuais que também o fazem? Ou proibi-los de casar?

·         Se um casal que coabita estiver a usar contracepção, deve isto ser um impedimento ao casamento sacramental?

·         Quando se fala em admitir uma pessoa em união irregular à comunhão, o factor contraceptivo deve ser tido em conta? Ou já não é relevante?

Na conclusão do Sínodo Extraordinário de Outubro o meu pároco mostrou-se surpreendido, na sua homilia dominical, pelo facto de o tema do acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares ser sequer uma questão teológica, uma vez que ele e os seus colegas concedem frequentemente esse privilégio a muitos que o procuram, sem qualquer autorização superior.

Esta prática (chamada praxis in foro interno, i.e. que diz respeito ao “foro interno” da consciência) foi aprovada em 1973 pela Congregação para a Doutrina da Fé, mas restringido em 1981 pelo Papa João Paulo II na sua exortação apostólica Familiaris Consortio.

Numa exortação apostólica de 2007 o Papa Bento XVI (que em 1972, enquanto teólogo, tinha manifestado algum apoio à prática), afirmou que o Sínodo da Eucaristia de 2005 “confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados recasados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia”.

Mas pelos vistos o forum internum continua a ser utilizado frequentemente pelos confessores não só para permitir a comunhão a divorciados e recasados, mas também o uso de contraceptivos.

Vale a pena sublinhar que os padres sinodais que se mostraram favoráveis à admissão de católicos divorciados e recasados à comunhão não abordaram o tema da contracepção, que seria um impedimento adicional. Talvez estivessem a partir do princípio que a maioria dos divorciados e recasados, ao contrário de muitos dos outros católicos, evitariam a contracepção.

O Sínodo Ordinário da Família e Evangelização de 2015 terá uma nova oportunidade para abordar estas questões, que a Igreja, como os Zamperlinis disseram, e com razão, precisa de confrontar claramente e directamente.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 13 de Dezembro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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