quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Promessas

James V. Schall S.J.
Nos salmos lê-se: “Sustenta-me, Senhor, segundo a tua promessa…” É preciso uma certa lata para pedir a Deus que cumpra com as suas promessas, quanto mais reconhecer que Ele as fez.

Muita da nossa felicidade e infelicidade deriva da manutenção ou quebra de promessas. Um juramento é uma declaração de que vamos cumprir uma promessa. Um voto é uma promessa solene, normalmente feita a Deus, que tem por objectivo enfatizar a seriedade da promessa e a intenção de a manter. Um contrato é um acordo de que algo será feito ou entregue de uma forma particular, num tempo específico. Há demasiadas vidas preenchidas com promessas quebradas, logo, os juramentos e os contratos costumam acarretar uma penalidade ou uma emenda para o caso de o acto prometido não ser cumprido. Os outros contam connosco e com o cumprimento das nossas promessas.

As promessas podem, ou não, envolver um factor-tempo. O casamento é, ou devia ser, “até que a morte nos separe”. Um contrato pode estipular que eu entregarei esta encomenda de carvão no dia 20 de Dezembro. As promessas permitem-nos configurar o futuro. Uma promessa identifica a forma como alguém agirá ou falará num futuro por definir. Permite-nos fazer as nossas próprias promessas, nas certezas das dos outros.

Mas há promessas que nunca deveríamos fazer, ou cumprir, caso tenham sido feitas. Penso em Herodes Antipas. Ele jurou que daria à sua filha até metade do seu reino. Mas em vez disso ela pediu a cabeça de João Baptista. O Rei, por ter feito tanto caso, teve de “cumprir” o seu juramento e promessa. Platão argumenta, numa famosa passagem da República, que os maiores crimes requerem mútuo acordo entre criminosos para serem levados a cabo. As promessas surgem da nossa compreensão e poder de vontade. Fazem parte do discurso de livre vontade e a sua relação com a razão.

Uma promessa é uma forma de organizar o futuro, como Hannah Arendt explicou. O passado aconteceu. Não o podemos mudar. Mentir sobre o passado é um mal que pode ser verificado à luz dos factos. Mas o futuro ainda não aconteceu. Podemos ser daqueles crentes que afirmam que confiamos de tal forma em Deus que não precisamos de “fazer” nada. Deixamos que tudo o que acontece seja “vontade de Deus”. Desculpamo-nos dizendo que seguimos a “vontade de Deus”, para onde quer que ela nos leve. Mas esta tese passa ao lado de tudo o que significa ser humano: a capacidade de agir e tomar responsabilidade pelas nossas acções.

As regularidades da natureza, como o levantar e o pôr-do-sol, decorrem independentemente de nós. Podemos louvá-los mas não os podemos mudar. Esta necessidade é verdadeira no que diz respeito à nossa existência, tanto quanto nos diz respeito. Mas a nossa existência dependeu da promessa de outros, dos nossos pais, da sua promessa de criar aquilo que geraram. Mas outras coisas apenas existirão se as planearmos. Se bem que ter um plano, só por si, não chega. Devemos desejá-lo, tomar uma resolução e prometer torná-lo realidade.

No seu famoso ensaio, “Em Defesa de Votos Impulsivos”, Chesterton escreveu as seguintes linhas:

É verdadeiramente interessante ouvir os opositores ao casamento… Eles parecem imaginar que o ideal da constância (o cumprimento dos votos) é uma carga misteriosamente colocada sobre a humanidade pelo demónio em vez de ser, como é, uma carga imposta consistentemente por todos os amantes sobre si mesmos. Inventaram uma expressão, uma expressão que em duas palavras representa uma contradição total – “amor livre” – como se o amor alguma vez tivesse sido, ou alguma vez pudesse ser, livre. O compromisso faz parte da natureza do amor e a instituição do casamento simplesmente presta ao homem comum o elogio de confiar na sua palavra.

Nunca ninguém o disse melhor. Quem ama escolhe ser livre comprometendo-se com aquilo que ama de tal forma que cumprimos a nossa promessa àquele a quem amamos. As promessas e os votos quebrados não nos libertam, simplesmente nos mostram como optámos por não ser livres.

Na fórmula confessional prometemos firmemente expiar os nossos pecados. Sem esta promessa, as coisas não avançam, nem moralmente nem sacramentalmente. Se quebramos uma promessa (e quem nunca o fez?), não devemos usar isso como uma desculpa para quebrar todas as outras. Mas se dermos por nós sempre a quebrar promessas, das mais comuns às mais solenes, estamos próximos da condição de “amor livre” a que Chesterton se referiu, aquele amor que não nos compromete com nada para além de nós mesmos.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

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