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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Filémon e o Novo Homem em Cristo

Randall Smith
Um amigo meu protestante fez uma observação interessante, o outro dia, sobre a Epístola de São Paulo a Filémon. Esta carta é muitas vezes encarada com algum embaraço, porque aparentemente Paulo está a enviar um escravo fugitivo, Onésimo, de volta para o seu senhor, um líder da Igreja Colossense chamado Filémon. “Como é que Paulo podia mandar um escravo de volta ao seu senhor?”, pergunta-se, “porque não proibiu simplesmente a escravatura?”

Alguns académicos modernos responderão, indubitavelmente, que Paulo, sendo um homem da sua época, não compreendia o quão horrível era a escravatura. Nós, que vivemos numa era mais iluminada, temos a visão que lhe faltava. Talvez seja verdade – todos temos pontos cegos – mas eu prefiro dar o benefício da dúvida às pessoas, sobretudo se estavam a escrever textos sob inspiração do Espírito Santo. Parece-me mais seguro.

Eis o que diz São Paulo:

Embora tenha toda a autoridade em Cristo para te impor o que mais convém, levado pelo amor, prefiro pedir como aquele que sou: Paulo, um ancião e, agora, até prisioneiro por causa de Cristo Jesus. Peço-te pelo meu filho, que gerei na prisão: Onésimo, que outrora te era inútil, mas agora é, para ti e para mim, bem útil. É ele que eu te envio: ele, isto é, o meu próprio coração. Eu bem desejava mantê-lo junto de mim, para, em vez de ti, se colocar ao meu serviço nas prisões que sofro por causa do evangelho. Porém, nada quero fazer sem o teu consentimento, para que o bem que fazes não seja por obrigação, mas de livre vontade. É que, afinal, talvez tenha sido por isto que ele foi afastado por breve tempo: para que o recebas para sempre, não já como escravo, mas muito mais do que um escravo: como irmão querido; isto especialmente para mim, quanto mais para ti, que com ele estás relacionado tanto humanamente como no Senhor. Se, pois, me consideras em comunhão contigo, recebe-o como a mim próprio. E se ele te causou algum prejuízo ou alguma coisa te deve, põe isso na minha conta.

Paulo, prisioneiro por Cristo, insta Filémon a não lançar na prisão o seu “amado filho” Onésimo, cujo “pai” ele se tornou durante o seu cativeiro. Na qualidade de escravo, Onésimo era “inútil” para Filémon. Agora, regressando não como escravo mas como irmão, pode ser útil a ambos, não para carregar os fardos das suas possessões terrenas inúteis, mas ajudando-os a carregar a cruz que conduz à salvação celeste.

“Recebe-o como a mim próprio”, diz Paulo, um homem acostumado a pedir aos outros que o recebam a ele como se recebessem Cristo. Se receber Paulo é receber Cristo, e se receber Onésimo é receber Paulo, então Filémon deve receber Onésimo como Cristo, aquele que “se esvaziou da sua divindade”, lavou os pés dos seus discípulos e lhes disse: “Estou entre vós como aquele que serve”, para que os primeiros sejam os últimos e aquele que seria o mestre venha a servir os outros.

“Se ele te causou algum prejuízo ou alguma coisa te deve”, diz Paulo a Filémon, “põe isso na minha conta”. Seria necessário Paulo dizer mais alguma coisa para recordar a Filémon a sua dívida não só para com Paulo, mas para Deus – Dívida essa paga por inteiro por Cristo? Paulo sabe que, tendo em conta tudo quanto Filémon lhe deve, poderia simplesmente dar-lhe uma ordem. Mas nesse caso Filémon não estaria a dar livremente, e Paulo sabe bem a diferença entre a obediência externa a um mandamento e aquilo que significa tornar-se um “homem novo”, inspirado por uma dádiva livre de amor.

Onésimo regressa a casa de Filémon
Por isso sim, Paulo envia Onésimo de volta para Filémon, não já como escravo, mas como “irmão” – um irmão em Cristo. A base da sua relação foi inteiramente transformada e com este gesto Paulo semeou as sementes que levarão ao fim da escravatura, não através de um tratado político cujo objectivo seja dirigir a partir de cima a aplicação do poder político, mas procurando mudar corações, levedando o pão a partir de dentro. Planta-se a semente nesta casa, com esta relação, e deixa-se a vida nova crescer daqui para o exterior.

Por mais “imperfeita” que pensemos que foi a resposta de Paulo ao problema da escravatura, não é verdade que nos deparamos com problemas semelhantes no nosso tempo? Existem instituições que sabemos que estão marcadas pela decadência da condição humana, contudo, não temos nem o poder nem a autoridade para as abolir. Burocracias que denigrem as pessoas em vez de as dignificar; estruturas económicas que enriquecem poucos e deixam os pobres sem meios de subsistência; mecanismos financeiros que protegem as pessoas das consequências morais das suas decisões de investimento.

Mas poderíamos viver sem as funções organizativas fornecidas pelas instituições burocráticas? Como é que reestruturávamos a nossa economia e reorganizaríamos a nossa bolsa para servirem melhor e mais fielmente o bem comum? É fácil criticar os males passados; mais difícil é compreender como reformar os aspectos difíceis do nosso sistema sem introduzir nele males ainda maiores do que aqueles que já enfrentamos.

Não nos devemos, então, rever em São Paulo? Sozinho ele não conseguiria reformar todo o Império Romano, nem convencer toda a gente a abandonar a instituição da escravatura. Que fazer?

Mesmo que não possamos fazer mais nada, podemos plantar as sementes e confiar que Deus as ajudará a crescer. Podemos estar dispostos a sacrificar-nos pelo Evangelho e abraçar-nos uns aos outros, não como “escravos” e “mestres”, “ricos” e “pobres”, “fracos” e “fortes”, mas como “irmãos em Cristo”.

Não nos cabe salvar o mundo; esse é o trabalho de Deus. Mas se amarmos os outros como Cristo, plantamos sementes espirituais e abrimos novas perspectivas para futuras gerações que neste momento talvez estejam vedadas ao pensamento humano. Temos de caminhar pela fé, e não à vista, fiéis ao Evangelho que nos foi confiado, mesmo quando parece bizarro ou chocante. Como Filémon certamente se deve ter sentido chocado quando abriu a porta e encontrou uma encomenda de São Paulo: Um antigo escravo, um novo irmão.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 7 de Janeiro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Presunção, Água Benta e Sieg Heil

Anthony Esolen
O meu grande amigo Robert George gosta de perguntar aos seus alunos universitários quantos deles, caso tivessem vivido no Sul antes da Guerra Civil, ter-se-iam oposto à escravatura. Todos levantam a mão. “Deus os abençoe”, diz ele, e depois explica-lhes o que lhes teria custado essa oposição: serem ridicularizados pelos líderes políticos e intelectuais da sociedade; calúnia sobre os seus motivos; incompreensão – na melhor das hipóteses – por parte dos familiares; despedimento; solidão e escassa gratidão das pessoas que tencionavam ajudar.

Nem sequer é claro que teriam a capacidade de formar uma posição moral tão distante daquilo que muitos deles tinham dado por adquirido desde que nasceram. É quase como fazer uma cirurgia a nós próprios sem anestesia: arrancar da nossa carne um aspecto errante da nossa cultura, pelas raízes, com todos os ganchos e picos. E quem é que pegaria nesse bisturi por sua livre iniciativa? Para isso seria necessário abraçar uma autoridade superior e contrária ao que toda a gente sabe, o que toda a gente diz, toda a gente faz. E tal autoridade deveria fazer mais do que apenas recomendar, teria de comandar, mesmo perante o sofrimento, a dúvida e o fracasso.

Ai, as ilusões dos homens, convencidos da sua bondade! O que os outros seriam, ninguém sabe, mas se nós vivêssemos na Alemanha Nazi, seríamos todos Oskar Schindler ou Corrie ten Boom; jamais teríamos apanhado a doença nacionalista e socialista; teríamos visto para além das mentiras, mesmo quando apresentadas de forma inócua e moderada e politicamente razoável, como se encontrava nos melhores jornais – não os jornais nazis, não, mas os seguidistas, aqueles para os quais um homem decente podia escrever ao mesmo tempo que fazia compras na drogaria do judeu.

Também não teríamos dançado aos sons das balalaicas do Bolshoi. Teríamos visto aquelas igrejas todas confiscadas, transformadas em museus ou celeiros, ou demolidas, e não teríamos alinhado com doze anos de escolaridade a criticar a velha fé ou a congratular-nos por vivermos na terra mais progressista alguma vez vista pelo homem.

Teríamos feito aquilo que é ainda mais raro do que aceitar a crítica, teríamos rejeitado o elogio. Teríamos requisitado mapas da Sibéria da biblioteca local, regozijando nos nossos corações pelo facto de em breve irmos para lá desterrados na companhia dos verdadeiros patriotas; ansiando o gulag, o pão bolorento, a enxada para quebrar a lama congelada, as luvas sem dedos e um farrapo de papel todos os dias para limpar o traseiro.

Sim, era isso que faríamos, tudo com uma determinação nascida da nossa própria vontade, julgando-nos a nós próprios, comandando-nos a nós próprios, obedecendo a nós próprios.

Não nos é dado o direito de escolher o mal público das sociedades em que nascemos. Alguns de nós, se nos mantivermos fiéis a Cristo, seremos levados por esse mal a sofrer o martírio do sangue. Foi o que se passou com as freiras carmelitas de Paris, que subiram à guilhotina durante a grande regurgitação secular de loucura, crueldade, vanglória, blasfémia e luxúria.

A outros será pedido um sacrifício muito menos terrível. Qual é o mal público do nosso tempo? Qual a coisa que nos custaria mais, em termos de ridicularização pública e perseguição, a rejeitar, se agíssemos em conformidade?

Todos nós seríamos Oskar Schindler?
A resposta é fácil. A Revolução Sexual. Já ouço as objecções dos bem-pensantes: “Mas a Revolução Sexual não é nem de longe nem de perto tão má e errada como o nazismo. É absurdo equiparar uma ao outro”. Mas eu nunca disse que as duas coisas eram iguais.

Por acaso não é fácil defender que, tudo somado, o nazismo tenha sido responsável por menos sangue, ou por razões mais censuráveis, do que a Revolução Sexual tem sido. Mas darei de barato, para bem da discussão, que é pior trabalhar numa estação de comboio nazi do que ser recepcionista numa clínica de aborto.

Já os meus opositores devem também admitir que o risco de não colaborar com os nazis era muito maior do que não colaborar como regime abortista, por isso quem colabora com a Revolução Sexual não pode invocar compreensão nesse ponto.

Em todo o caso, a questão é que não somos chamados a opor-nos, de forma teórica e confortável, aos males que caracterizam a nossa sociedade, regozijando ao sol de uma rectidão que não nos custa nada. Somos chamados a sofrer em oposição aos males que caracterizam a nossa época, e não nos será sequer possível conceber tal possibilidade se não obedecermos a uma autoridade que transcende a humanidade.

Recentemente um padre católico de Providence, no Rhode Island, despediu o seu director musical porque este se tinha “casado” com outro homem, um facto que era bem conhecido pelos restantes fiéis. Se o padre não o tivesse despedido, posso-vos dizer o que todos os jovens adolescentes daquela comunidade teriam concluído: Que a Igreja não acredita verdadeiramente naquilo que ensina, que no que diz respeito à sexualidade cada um pode fazer como lhe apetecer, desde que não seja cruel, no sentido mais flagrante que ofende as sensibilidades das pessoas certas. Seria essa a armadilha no caminho daqueles rapazes.

Mas várias pessoas da congregação decidiram interromper a recitação do Credo na missa do domingo seguinte, cantando “Todos são bem-vindos”, sabendo que por tal acto seriam louvados pelas pessoas que realmente lhes interessam, nomeadamente os jornalistas das estações de televisão locais e dos jornais, bem como pelos líderes de opinião das sociedades mais “progressistas” e “inclusivas”.

Deixam-se levar pela corrente. Escolham o seu próprio juízo – o juízo que resultou de anos de escolaridade imbecil, entretenimento de massas, comunicação social e conversas amenas uns com os outros na segurança do conforto material – contra o juízo da Igreja e das palavras expressas da Escritura. Retalham a escritura para condizer com as suas opiniões em matéria de sexualidade.

É daí, e não da Igreja, que virá a sua vitória e a sua salvação: Sieg, Heil!


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. 

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 4 de Outubro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Princípios, úteros e paragens de autocarros

Hadley Arkes
Na altura pensei apenas que a jovem senhora, apesar de ser professora de Direito, era tremendamente limitada ao nível intelectual. Nunca me ocorreu que era uma mostra dos tempos que aí vinham. Estávamos em meados dos anos 90 e um grupo de colaboradores do First Things estava a defender os nossos argumentos sobre o aborto e os abusos do poder judicial numa faculdade de Direito em Nova Orleãs. Não querendo dizer que os nossos adversários estavam em inferioridade, para além de mim estavam a lidar com o padre Richard Neuhaus, Robert George e Russell Hittinger.

Num dos painéis eu estava a argumentar novamente que a prole no útero nunca muda de espécie; que é humana em todas as fases da sua existência; que o seu estatuto humano não pode depender do tamanho nem do peso e que a criança é sem dúvida inocente de qualquer crime.

Foi nessa altura que a jovem professora de Direito me surpreendeu. “Mas está no meu útero”, afirmou. Respondi rapidamente que na minha opinião a questão essencial é que a criança é um ser humano inocente e que a localização geográfica é totalmente irrelevante no que toca à licitude de se matar um ser humano inocente. “A vítima podia estar numa paragem de autocarro”, disse eu, que não faria diferença nenhuma.

Foi aí que a jovem professora respondeu, indignada: “Está a dizer que o meu útero é igual a uma paragem de autocarro?”. Respondi: “Espero bem que não seja”.

Isto passou-se há cerca de 18 anos. Mas a cada dia que passa parece que encontramos provas de que mesmo pessoas com educação superior parecem ter dificuldade em compreender a noção de “princípio” que se aplica a um argumento.

Costumo recorrer a um exemplo, como modelo de raciocínio baseado em princípios, o texto que Lincoln escreveu, sobre uma conversa imaginária com um esclavagista, em que se questiona a legitimidade de se possuir escravos. Seria o escravo menos inteligente que o seu dono? Se for esse o caso, então o dono sujeita-se a ser escravizado pelo próximo homem branco mais inteligente que ele. Era uma questão de cor, podendo o mais claro escravizar o mais escuro? Se sim, então um branco com pele mais clara do que a sua poderia torná-lo escravo também.

Por outras palavras, qualquer princípio apresentado servia tanto para justificar a escravatura de brancos como de negros.

Muitos de nós utilizamos o mesmo argumento em relação ao aborto, ao perguntar porque é que o nascituro não está protegido pela lei. E da mesma forma, descobrimos que não há qualquer princípio que possa justificar o aborto que não seja aplicável a muitas pessoas que já se encontram bem fora do útero. A criança não é desejada? Por esse critério há muito que nos teríamos livrado de Joe Biden. A criança está dependente de outros? Não consideramos que as pessoas perdem a sua humanidade na medida em que se tornam dependentes dos cuidados de outros.

No útero Na paragem à espera do autocarro
Os meus alunos tendem a compreender esta ligação imediatamente. Mas fico espantado com a quantidade de pessoas que tenho encontrado recentemente, incluindo pessoas com formação universitária, que não conseguem perceber a lógica. Estamos a falar de duas coisas diferentes, argumentam. O que é que a escravatura tem a ver com o aborto?

Na discussão sobre a homossexualidade a incompreensão é ainda maior e é agravada por revolta. Já afirmei que mesmo os activistas homossexuais considerarão que certas “orientações sexuais” são ilegítimas. Discutem se a Associação de Amor entre Homens e Rapazes devia poder marchar na parada gay e podem ter reservas em relação ao excitamento sexual conseguido através de sexo com animais, ou asfixia. Poderão ter dúvidas, por isso, como todos nós temos, sobre se as pessoas comprometidas com estas “orientações” deviam poder adoptar crianças.

Mas então como é que podemos justificar leis que, de forma geral, proíbem toda a discriminação com base em “orientação sexual”? Entretanto alguns dos licenciados da minha faculdade, hoje com sessenta e tal anos, acusam-me de dizer que o sexo homossexual equivale a ter sexo com animais, ou que estou a tratar os dois como analogia.

Mas não faço qualquer sugestão de “analogia”. Se eu avançar a proposição de que “as pessoas deviam ser livres para fazer o que quiserem”, isso abrange tanto o direito ao homicídio como ao plágio. Mas ninguém estaria a sugerir que o homicídio é igual, ou análogo, ao plágio.

Um dos meus comentadores preferidos, Charles Krauthammer, afirmou recentemente que se deve banir os abortos no terceiro trimestre porque o bebé no útero podia agora ser visto claramente nas imagens das ecografias. Mas para além disso ele não parece dar qualquer importância no nosso debate político a um assunto que envolve a morte de mais de um milhão de pequenos e inocentes seres humanos, por ano, neste país.

Mas certamente Krauthammer não pensa que um sexagenário de 60 anos é mais humano que um ser humano pequeno no útero; nem admito que ele possa achar que matar um sexagenário seja pior do que matar uma criança de dois anos.

Aconteceu alguma coisa enquanto eu estava distraído? Alguma coisa que tenha afectado até as nossas “melhores cabeças”? Ouvimos falar tanto da polarização da nossa política, mas a maior preocupação, presente em ambos os partidos, é a profunda erosão das mentes das pessoas que compõem as nossas classes políticas.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 21 de Abril de 2015 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

E você, já combateu a escravatura hoje?

A escravatura assume muitas formas...
O Papa divulgou hoje a sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, que se assinala a 1 de Janeiro. O que é que cada um de nós tem feito para combater a escravatura e exploração humana? O Papa quer saber, e olhem que um sorriso pode bastar.

O Vaticano também divulgou o documento que servirá de base para os trabalhos do sínodo da família, em 2015. Hoje, na audiência geral, falou abertamente sobre o que se passou no de Outubro passado, dizendo que a natureza do casamento nunca foi posta em causa.

A Conferência Episcopal mostrou-se ontem solidária com o Bispo do Porto, acerca do caso da paróquia de Canelas.

Há duas entrevistas que já foram publicadas a semana passada e que não deve perder. Uma é com o Chef Kiko Martins, que fala da importância da fé na sua vida; a outra é com a Irmã Ângela Coelho, postuladora da causa de canonização dos pastorinhos, que fala do seu percurso.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

200 mil para os refugiados, centenas de milhões "encontrados" no Vaticano


A comissão que está a fazer a reforma das finanças do Vaticano já descobriu centenas de milhões de euros que não estavam declarados.

O Papa Francisco associou-se ontem ao dia contra a escravatura, à qual chamou um “delito aberrante” e um “flagelo atroz”.


Tem-se falado tanto do “acolhimento” nos últimos tempos. Para ajudar a perceber exactamente o que significa o termo, o padre Paul Scalia escreve um artigo elucidativo que é a escolha desta semana da edição portuguesa do The Catholic Thing.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Mero Consentimento e o Fim da Dignidade Humana

Francis J. Beckwith
O que é que torna a escravatura moralmente errada? Há duas décadas que coloco esta questão aos meus alunos de ética.

A questão não é saber se a escravatura é moralmente errada, concordamos quanto a isso. O que pergunto é qual é a característica da escravatura que justifica o nosso juízo de que é moralmente errada. É como a diferença entre perguntar se a Pietà de Miguel Ângelo é bela, e perguntar porque é que é bela. A segunda questão presume que a resposta à primeira é “sim”, pelo que a segunda pretende justificar o porquê desse “sim”.

A resposta que recebo de quase todos os meus alunos é de que “os escravos não consentiram”. Mas, como rapidamente se apercebem, essa resposta não é capaz de satisfazer as suas mais profundas intuições sobre o mal da escravatura. Normalmente pergunto: E se os historiadores descobrissem um grupo de ex-escravos, nos anos seguintes à Guerra Civil, saudosos da vida que levavam na plantação? Como é que reagiríamos perante uma revelação dessas?

Aceitaríamos que uma situação destas pudesse desembocar num caso de escravatura moralmente aceitável, em que os ex-escravos consentiam em regressar ao seu estado anterior, para se tornarem novamente, à luz da lei, nada mais que a propriedade de outro?

Se a sua resposta for afirmativa, então acredita que a escravatura é só condicionalmente errada, que não há nada de intrinsecamente errado na prática. Por isso, mesmo que continue a condenar a prática, o fundamento sobre o qual essa condenação assenta – a noção de consentimento – implica que não há nada na essência da natureza do Ser Humano que nos impeça de sermos propriedade de alguém.  

Por isso, Segundo esta análise, o mal da escravatura depende não de quem são as vítimas, mas antes, do que as vítimas querem. Sugere que a ausência de vontade, e não a presença de dignidade, é que está por detrás da nossa condenação da escravatura.

Porém, hoje muitos sugerem que no que toca a algumas das grandes questões morais do nosso tempo, a autonomia individual (ou “consentimento”) é o único princípio de que precisamos para assegurar todos os bens que até agora têm sido vistos sob o prisma de conceitos mais antigos, como a dignidade humana.

Por exemplo, o psicólogo de Harvard, Steven Pinker, escreve num ensaio recente no New Yorker, sob o título provocador de “A Estupidez da Dignidade”:

O problema é que “dignidade” é uma noção mole e subjectiva, incapaz de suportar as exigências morais que lhe são atribuídas. Ruth Macklin argumenta que a bioética tem-se aguentado lindamente só com o princípio da autonomia pessoal – a ideia de que, uma vez que todos os humanos têm a mesma capacidade mínima de sofrer, prosperar, raciocinar e escolher, nenhum humano tem o direito de impingir sobre a vida, corpo ou liberdade de outro. É por isso que o consentimento serve de base sólida para a investigação ética e impede claramente o tipo de abuso que levou ao nascimento da bioética, tal como as pseudo-experiências sádicas de Mengele na Alemanha Nazi (...). Quando se reconhece o princípio da autonomia, argumentou Macklin, a “dignidade” não acrescenta nada.

Embora haja muito a responder a Pinker, tal como fiz num artigo de 2010, publicado na revista “Ethics & Medicine”, bastará aqui utilizar o mesmo tipo de raciocínio que emprego com os meus alunos quando lhes pergunto sobre a escravatura.

Errado? Claro. Mas porquê?

E se, por exemplo, descobríssemos os diários de cidadãos alemães que se submeteram voluntariamente às experiências nazis a troco de somas avultadas de dinheiro para os seus familiares? O consentimento destas vítimas voluntárias tornaria aceitáveis as pseudo-experiências de Mengele?

Se a resposta for não, então só pode ser porque estas actividades são intrinsecamente más, e que a sua natureza não depende, por princípio, no consentimento de quem nelas participa, seja como vítima ou agressor. Logo, ao contrário do que afirma Pinker, a noção de dignidade não só acrescenta algo, como o mero consentimento subtrai tudo.

Claro que não estou a sugerir que o consentimento é irrelevante para a ética. É essencial, por exemplo, para averiguar a licitude de um casamento e o conceito de coacção injusta é uma realidade. Antes, o que eu argumento é que a vida moral não pode ser reduzida ao mero consentimento, como muitos dos nossos contemporâneos, como Pinker, defendem.

Como já vimos, quando aplicamos esta redução a atrocidades reais, a nossa atenção desvia-se daquilo que parecia verdade à primeira vista – a dignidade intrínseca da pessoa humana – para a alternativa que a mente moderna pensa que pode impor sem mais nem menos: a vontade condicional do indivíduo.

A implicação desta posição é clara: não existe qualquer bem para o qual o homem está ordenado e ao qual a nossa vontade deve conformar-se. O bem é meramente aquilo que preferimos e para o qual direccionamos a nossa vontade. Mas, nesse caso, não possuímos dignidade intrínseca, uma vez que essa seria sempre um bem, independentemente da nossa vontade, à qual as nossas preferências se deviam sujeitar.

De facto, a noção de mero consentimento implica o fim da dignidade humana.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 23 de Maio de 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Formação de uma Consciência Católica

Randall Smith
Agora sei porque é que o Lincoln perdeu para o Douglas [nas eleições presidenciais de 1858].

Há várias semanas escrevi aqui uma coluna em que sugeria que um católico de consciência bem formada não pode votar num candidato que é a favor do aborto quando existe outro que se opõe, tal como no passado um católico de consciência bem formada não poderia justificar votar num candidato pró-escravatura ou pró-nazi.

As respostas que recebi sugerem que é fácil perder de vista o que é realmente importante, no meio de um mar de temas secundários.

Alguns acusaram-me de ter comparado Obama a Hitler, apesar de o nome do Presidente nunca ter aparecido no artigo. Trata-se de uma incompreensão sobre analogias, que envolvem sempre a comparação de coisas diferentes.

Se eu disser que o terço está para o dominicano como a espada está para o soldado, não estou a equiparar os dominicanos aos soldados. Antes, estou a contrastar a relação que o dominicano tem com o seu terço com a que o soldado tem com a sua espada (ambos a usam à cintura). A questão é que, tal  como os nossos antepassados, nós também temos de enfrentar desafios morais cruciais.

Outros responderam com o argumento de que os cortes propostos para o sistema de saúde  Medicare poderão trazer um aumento de abortos, apesar de não haver quaisquer dados estatísticos que o sustentem. Isto sem mesmo ter em conta que, por um lado, se agora não fizermos nada sobre o Medicare terá de haver cortes muito mais preocupantes no futuro e, por outro, que não podemos tomar decisões sólidas com base em consequências imprevisíveis. 

Hoje em dia não teríamos muita paciência para alguém que, em 1858, argumentasse que ia votar em Douglas porque, se a economia melhorasse, talvez diminuísse a pressão para alargar a escravatura.

Que diríamos sobre um eleitor desses se a economia acabasse por não melhorar – se, pelo contrário, piorasse bastante – e ele continuasse a votar no Douglas? Começaríamos a pensar que as preocupações expressas pelos escravos eram afinal uma mentira, para dar cobertura aos seus verdadeiros interesses.

Também houve quem afirmasse que certos candidatos actuais não são suficientemente pró-vida, ou que “não faz qualquer diferença”. Na altura de Lincoln também se faziam argumentos do género, de que não era suficientemente anti-escravatura (e na verdade não era), ou de que não seria capaz de mudar nada. Mas isso não passa de sofismas.

Não vivemos num mundo de candidatos perfeitos, mas pense no seguinte: No dia em que um presidente pró-vida assumir funções: A proibição de usar fundos públicos para promover abortos no estrangeiro volta a aplicar-se; As leis contra a experiências com células estaminais embrionárias também; Isto para não falar na possibilidade de se poder nomear um juiz do Supremo Tribunal (ou dois), que poderia votar contra o aborto em vez de a favor, o que seria certamente o cenário contrário.

A única forma de refutar a proposição de que um católico com consciência bem formada não pode votar a favor de um candidato pró-aborto quando existe outro que seja pró-vida, da mesma forma que não poderia votar a favor de um candidato que fosse pró-escravatura ou pró-nazi, seria argumentar que: (A) Um católico de consciência bem formada poderia ter votado a favor de um candidate pró-escravatura ou pró-nazi (será que alguém acredita nisso?), ou (B) Que o aborto não é um mal tão grave como a escravatura ou o genocídio Nazi.

É importante realçar que o juízo sobre a gravidade moral do aborto não é meu, é da Igreja. Quem praticar, ou cooperar formalmente na prática de um aborto incorre em excomunhão automática à luz do direito canónico (cânone 1398).

A declaração sobre aborto provocado, publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1974 afirma: “O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Ela tem outros bens e alguns deles são mais preciosos; mas este — da vida — é fundamental, condição de todos os demais.”

Na exortação apostólica Christifideles Laici, João Paulo II afirma:
“Ora, a inviolabilidade da pessoa, reflexo da inviolabilidade absoluta do próprio Deus, tem a sua primeira e fundamental expressão na inviolabilidade da vida humanaÉ totalmente falsa e ilusória a comum defesa, que aliás justamente se faz, dos direitos humanos — como por exemplo o direito à saúde, à casa, ao trabalho, à família e à cultura, — se não se defende com a máxima energia o direito à vida, como primeiro e fontal direito, condição de todos os outros direitos da pessoa.”

Mais, no Evangelium Vitae, João Paulo II deixou claro que, embora haja uma vasta gama de questões ligadas à vida e ataques à dignidade humana sobre as quais nos devemos preocupar, o aborto e a eutanásia são de “outra categoria” e de “gravidade extraordinária”.

Finalmente, em 1998, no documento “Living the Gospel of Life: A Challenge to American Catholics,” os bispos americanos declararam:

“Introduzir o respeito pela dignidade humana na vida política pode ser um tarefa assustadora. Há uma grande variedade de questões que envolvem a protecção da vida  e a promoção da dignidade humana. É frequente pessoas boas discordarem sobre quais os problemas a abordar, que políticas adoptar e a melhor maneira de as aplicar. Mas tanto para cidadãos como para políticos o princípio base é simples: Devemos começar com o compromisso de nunca matar intencionalmente, nem cooperar com a morte de, qualquer vida humana inocente...”

Por outras palavras, há certas escolhas de acção que são sempre incompatíveis com o amor de Deus e com a dignidade da pessoa humana criada à sua imagem. O aborto directo nunca é uma opção tolerável. É sempre um acto grave de violência contra uma mulher e o seu filho por nascer.

A Igreja tem sido tudo menos pouco clara sobre este assunto. A questão passa por saber se os católicos se consideram obrigados a formar as suas consciências de acordo com os repetidos ensinamentos da Igreja e depois agir conforme, ou se preferem tomar a atitude equivalente a tapar as orelhas e gritar: “não estou a ouvir, não estou a ouvir!

Quem tem ouvidos que ouça. O sangue dos nossos filhos clama do chão.



Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Quem te avisa…

Randall Smith
Os debates de 1858 entre Lincoln e Douglas prepararam os americanos para uma eleição que Abraham Lincoln acabaria por perder e cobriram uma série de assuntos políticos daquele tempo, mas houve um que dominou: a escravatura. Na verdade, hoje ninguém quer saber quais eram as posições de Stephen A. Douglas sobre, digamos, a economia, o que pensava sobre meios de pagamento ou impostos. A única coisa que nos interessa agora é que ele votou a favor da escravatura.

Em abono da verdade, devemos esclarecer que Douglas repetiu insistentemente que não era a favor da escravatura, mas foi também um dos arquitectos da noção de “soberania popular”, isto é, deixar que os Estados decidam a questão por si.

Assim, Douglas declarou que:

Acredito que a humanidade e o Cristianismo ambos requerem que o negro deva ter, e possa beneficiar de, todos os privilégios e todas as imunidades consistentes com a segurança da sociedade na qual vive. Sobre isso, presumo, não pode haver diversidade de opinião. Somos obrigados a estender aos seres dependentes e inferiores todo o direito, todo o privilégio, toda a facilidades e imunidade que sejam consistentes com o bem público.

A questão que surge é, então, que direitos e privilégios são consistentes com o bem público? Esta é uma questão que cada Estado e cada Território deve decidir por si. O Estado de Illinois já decidiu. Decidimos que o negro não deve ser escravo e também que não deve ser um cidadão, mas protegêmo-lo nos seus direitos cívicos, na sua vida, na sua pessoa e propriedade, negando-lhe apenas todos os direitos políticos e recusando colocá-lo num nível de igualdade com o homem branco. A política do Illinois é satisfatória para o Partido Democrático e para mim, e se assim fosse para os republicanos então não haveria nada a discutir; mas os republicanos dizem que ele deve ser um cidadão e quando isso acontece ele torna-se nosso igual, com todos os nossos direitos e privilégios. Eles dizem que a decisão Dred Scott é monstruosa porque nega ao negro o direito à cidadania à luz da Constituição. Ora, eu considero que o Illinois tinha o direito de abolir e proibir a escravatura, como fez, e considero que o Kentucky tinha o mesmo direito de manter e proteger a escravatura que o Illinois tinha de a abolir.

Por outras palavras, Douglas era o típico candidato pró-escolha: Defendia a liberdade de escolha para todos – excepto para os americanos negros que não eram inteiramente pessoas à luz da lei de então. Quanto à sua garantia de que os negros deviam poder gozar de “todos os direitos, todos os privilégios” consistentes com o bem público, trata-se de um caso típico de “duplicidade”: aquilo que oferece tão generosamente com uma mão, tira de forma brutal com a outra.

E não pensem que Douglas não tentou classificar Lincoln como um “extremista”, “desalinhado”, próximo dos abolicionistas “fanáiticos”. Disse-o diversas vezes. Mas o próprio Lincoln também não tinha um registo imaculado no que diz respeito à escravatura, optando por compromissos pragmáticos que, sem dúvida, levaram alguns abolicionistas a optar por um candidato mais “puro”. Assim, é natural que muitos grupos tenham votado contra Lincoln: os que discordavam da sua posição sobre a escravatura; os que estavam convencidos de que ele não era suficientemente contra e aqueles que pensavam que a escravatura era apenas uma de entre várias questões e que, pensando bem, preferiam o Douglas.
Lincoln e Douglas... muito mais que economia
Seria errado colocar todos os assuntos a par da escravatura em termos de importância, mas seria igualmente errado esquecer que há momentos na história em que as injustiças que surgem tornam tudo o resto insignificante, pese embora a seriedade da situação não seja clara para todos na altura.

Não existiam Nazis na Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, porém o partido tinha sido eleito por largas maiorias em todas as eleições até que a guerra começou a correr mal em 1942. Hoje ninguém olha para trás e diz: “Sim, o candidato Nazi era a favor da deportação de judeus, mas se calhar tinha boas políticas económicas.” As políticas económicas não interessam a ninguém.

A expressão “mas eles puseram os comboios a correr a horas!”, outrora usada para justificar o apelo dos Nazis, é hoje recebida com particular desprezo porque sabemos qual era a carga humana desses comboios. Nem temos grande pachorra para aqueles que argumentariam que era melhor votar num candidato Nazi porque, se a economia melhorasse, poderia diminuir a pressão para deportar judeus. As consequências não intencionais não podem ser controladas, mas o que as pessoas escolhem favorecer ou restringir pode. Os candidatos que se opõem à defesa da vida minam o mais básico princípio fundador da nação.

À medida que nos aproximamos da eleição presidencial de Novembro faríamos bem em recordar esta história. Daqui a 200 anos, quando a visão moral for mais clara, alguem quererá saber das questiúnculas políticas que agora nos dominam? Ou perguntarão simplesmente (como nós fazemos em relação aos nossos antepassados): quem votou contra o aborto e quem não o fez?

O ensinamento da Igreja sobre este assunto tem sido repetida várias vezes; nalguns aspectos é até mais clara do que era em relação à escravatura ou ao tratamento dos judeus. Muitas vezes perguntam-me porque é que os bispos alemães não excomungaram os católicos que votavam nos Nazis. Não sei. Mas também tendo a interessar-me menos pelos pecados do passado e mais em evitar a minha própria cegueira moral. O juizo é uma faca de dois gumes.

A Igreja não pode obrigar, como fazem os governos. Ela pode apenas apelar à consciência dos homens e mulheres de boa vontade. Um católico com consciência bem formada não pode votar a favor de um candidato que defende o aborto por oposição a um candidato que defende a restrição do aborto, da mesma maneira que nenhum católico de consciência bem formada poderia ter votado a favor de um candidato pró-escravatura ou pró-Nazi. Alguém hoje defenderia que era justificável votar em Douglas em vez de Lincoln?

Não se engane a si mesmo. Aqueles que têm ouvidos, que ouçam.

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.


(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Sexta, 21 de Setembro de 2012)

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