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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Alfie Evans, o disputado e Inês Gil, a escolhida

Um "toffee" agridoce
Depois do triste caso do bebé inglês Charlie Gard, temos agora uma nova situação parecida com Alfie Evans. Eutanásia? Distanásia? Direitos parentais? Autoridade do Estado? Qual é a posição da Igreja? Há muito por compreender e tentei esclarecer o mais possível neste artigo, tendo em conta que nem toda a informação é pública ainda.

No Paquistão os problemas são outros. Mais dois cristãos foram assassinados e uma igreja incendiada nos últimos dias.

Falando de coisas bem mais agradáveis, a cineasta portuguesa Inês Gil foi escolhida para presidir a um júri ecuménico no próximo festival de Cannes.

Realiza-se a partir de hoje um congresso sobre saúde mental, organizado pelas irmãs hospitaleiras do Sagrado Coração. Reportagem aqui.

E saiba ainda como é que a Misericórdia de Évora consegue cumprir a sua missão de defender a vida, à imagem das obras de misericórdia.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Cavaleiro de Deus: Recensão de “Inácio de Loyola”

Brad Miner
Embora esta biografia cinematográfica do fundador dos jesuítas tenha estreado no Verão passado, só esta semana é que tive oportunidade de a ver. O filme do guionista-realizador Paulo Dy foi gravado – em inglês – entre Espanha e as Filipinas, sob os auspícios da Fundação de Comunicações Jesuítas das Filipinas (JesCom Films). É pouco provável que apareça no seu cinema local mas, como explicarei mais à frente, pode tomar a iniciativa de organizar um visionamento para um grupo ou uma organização católica.

E sugiro que o façam, porque este é um filme católico que está muito à frente de qualquer outro que tenho visto nos últimos anos. Consegue ser simultaneamente verdadeiramente católico e bom cinema.

O filme começa com fogo e água – um tema que se mantém ao longo da película. Entramos pelo fogo da conversão e emergimos através do baptismo da vida nova. Inácio Lopez de Loyola (desempenhado pelo actor Andreas Muñoz) desenvolve-se como uma flor a brotar de terra queimada – é um soldado forjado como uma espada nas chamas e depois submetido à água para testar a força. É mesmo assim que culmina a cena, e é muito forte.

A história de Loyola, um nobre espanhol quebrado pela guerra que acaba por fundar a Sociedade de Jesus, é como muitas verdadeiras histórias de conversão: De Agostinho a Merton, mas sobretudo São Francisco de Assis, antes dele e Charles de Foucauld, depois, que também eram soldados para quem os profundos ferimentos da guerra levaram a uma vontade mais profunda para servir Cristo. Tal como Agostinho, Loyola viveu uma vida bastante carnal até ser gravemente ferido na Batalha de Pamplona, em 1521.

O filme custou cerca de 1 milhão de dólares (trocos para Hollywood). Normalmente nos filmes de guerra de baixo custo as cenas de combate são pouco impressionantes, mas não é o caso aqui. Alguns dos efeitos especiais, sim, são limitados, mas não podemos esperar efeitos ao nível do “Reino dos Céus” de Ridley Scott, que teve um orçamento dez vezes superior. Mas no geral, as imagens de guerra são potentes – sobretudo as imagens das sequelas do combate, por exemplo a perna destroçada de Loyola, que o deixou coxo para o resto da vida, precisa de ser colocada no sítio, depois partida novamente e recolocada. Estas cenas devem muito à realização prudencial de Dy e à cinematografia de Lee Briones Meily.

Mas é a representação de Muñoz que verdadeiramente faz com que as cenas e, na verdade, todo o filme, funcionem tão bem. É ele quem dá unidade. É um papel pelo qual facilmente poderia ter sido nomeado para um Oscar, caso os membros da academia tivessem visto o filme. Há outros actores igualmente bons, o suficiente para terem sido nomeados para um prémio de elenco da Screen Actors Guild, se essa malta tivesse visto o filme.

Deve ser mais fácil representar a agonia do que o carinho e há uma cena no filme – na minha opinião a melhor – em que entra um Inácio desgastado pela guerra, e uma prostituta, Ana. O seu irmão e o seu primo levaram-no a um bordel, na esperança de o animar depois da guerra, sem saber que ele já ouviu o chamamento de Deus. Sentado na cama de Ana, recusa os seus avanços, querendo apenas conversar, algo que nenhum homem lhe tinha pedido.

Ana, desempenhada por Marta Codena, e Inácio falam sobre Jesus. Tal como faz com outras personagens durante o filme, ele pede-lhe que use a sua imaginação para ver Jesus sentado numa cadeira no seu quarto. A conversão dele está bem encaminhada, a dela está apenas a começar. A cara de Ana é transformada primeiro pelo medo, depois pela esperança, e a dele também. É um momento tão emocionalmente poderoso como qualquer outro que tenho visto nos ecrãs nos últimos anos; a subtileza estonteante atinge-nos como uma vaga.

Pouco depois Loyola parte para seguir as pegadas de São Francisco. Serve os doentes e os moribundos num hospital em Manresa, Espanha, e vive durante meses numa caverna – torturando-se e sendo tentado por um demónio (também representado por Muñoz). As cenas de autoflagelação remetem sempre para uma forma de loucura, mas o resultado da angústia de Inácio é uma quase total sanidade. O que o leva à presença da Inquisição.

Esta parte do filme é estranha, não porque não tenha acontecido (aconteceu), mas porque o inquisidor que o julga por pregar sem ter curso de teologia nem ser ordenado, é Alonso de Salazar Frias. Mas Frias – desempenhado por Gonzalo Trujillo – que era conhecido como o defensor das bruxas, só nasceu oito anos depois da morte de Loyola. Talvez tenha havido outro inquisidor chamado Frias, mas se sim, não encontrei qualquer referência. Mas adiante.

Há medida que a história se desenrola, vemos Loyola a escrever um diário da sua vida (que formaria a base da sua autobiografia) e os seus Exercícios Espirituais. A conversão pode ser descrita como morrer em, e por, Cristo e, em certo sentido, Loyola desenvolveu uma fórmula para fazer isso mesmo – um processo disciplinado através do qual tudo é visto através de Jesus Cristo e oferecido a Cristo.

O filme termina sem contar a história da fundação da Sociedade de Jesus e as décadas finais da vida de Loyola, por isso talvez possamos esperar uma sequela – eventualmente com um flashback para a sua viagem à Terra Santa. Acredito que isso acontecerá se houver gente suficiente a ver o filme. A Ignatius Press está a disponibilizar o filme para exibições cinematográficas patrocinadas por qualquer organização. Podem encontrar mais informação aqui. [Nota do Tradutor: O gabinete de comunicação dos jesuítas em Portugal diz-me que estão previstas sessões de visionamento do filme, mas ainda não há detalhes concretos].

O filme é para maiores de 13 [nos EUA], em grande parte por causa das cenas de flagelação. Entre o elenco contam-se ainda a belíssima Tacuara Casares, que representa a Princesa Casares e Javier Godino e Mario de la Rosa, que fazem de parentes de Loyola. A elegante Isabel Garcia Lorca representa uma das primeiras mecenas de Inácio e Julio Perillán aparece no papel do dominicano que defende Inácio diante da Inquisição. Pepe Ocio é um camarada em armas de Loyola, cuja morte assombra o futuro santo e o projecta em direcção a Deus.


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 21 de Fevereiro de 2017 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O “Silêncio” de Scorsese: Três atitudes perante a perseguição

Antes de começar, dois pontos.

1º Este filme é baseado num livro de Shusaku Endo. Eu só vi o filme, não li o livro, embora tenha ouvido dizer que o filme é bastante fiel ao original, vou estar aqui a falar de subtilezas que são do filme e não sei se correspondem ao texto e às intenções de Endo.

2º Inevitavelmente, o texto terá spoilers, isto é, falará de várias coisas importantes no filme que, caso ainda não tenham visto, poderão afectar essa experiência e condicionar o visionamento. É um aviso. Se não viram, vejam, que vale mesmo a pena, e leiam o texto depois.


Antes de ir ver o “Silêncio” de Martin Scorsese, baseado no livro de Shusaku Endo, li várias recensões e falei longamente com pessoas que já conheciam o livro. As opiniões dividiam-se muito, mas reparei em muitos um medo ou uma preocupação de que o filme pudesse ser entendido como uma justificação da apostasia.

Depois de ter visto o filme, não concordo de todo com essa análise. Acho, até, que o que ele nos transmite é o contrário. Há várias razões para isso, mas apresento o que me parece ser uma chave de leitura do filme.

Scorsese apresenta-nos essencialmente três atitudes diferentes e possíveis diante da perseguição religiosa extrema. Em primeiro lugar temos os que não cedem e dão a vida pela sua fé. Neste filme este grupo de pessoas é representada essencialmente por pobres camponeses japoneses que praticavam o Cristianismo em segredo mas que, sendo descobertos, recusam a apostasia, preferindo a morte.

Depois há os que renunciam à fé, mas arrependem-se. Esta segunda categoria é representada por Kichijiro, um pescador que cresceu numa família cristã e que fugiu do Japão depois de toda a sua família ter sido martirizada. Nessa ocasião ele foi o único que renunciou, salvando a vida. Durante o filme vemos Kichijiro várias vezes a renunciar à fé, mas acabando sempre por pedir perdão e procurar a confissão sacramental.

Por fim há os que, após alguma resistência, renunciam e transformam-se, passando a viver uma vida consonante com a sua renúncia. Um exemplo é o padre Ferreira, um jesuíta português que, tendo cedido às torturas e à pressão das autoridades japonesas, comete apostasia e passa a viver como um japonês, com mulher e filhos, e é usado como instrumento para levar outros a abandonar a fé também, chegando a escrever um tratado sobre os “erros do Cristianismo”.

O filme começa com dois jesuítas portugueses – que ao contrário de Ferreira são figuras míticas, embora um deles se baseie numa figura real, mas não portuguesa – que partem para o Japão para saber notícias de Ferreira. Guiados por Kichijiro conseguem encontrar cristãos escondidos nas aldeias de pescadores, e desenvolvem os seus ministérios, para enorme alegria dos fiéis, até que são apanhados pelas autoridades.

Shusaku Endo
Uma vez capturados, o padre Francisco Garrpe não só recusa renunciar à fé como se lança à água para morrer juntamente com cristãos que estão a ser afogados pelos soldados. Já o padre Rodrigues, após uma longa batalha de vontades com o inquisidor japonês que quebrou Ferreira, acaba por ceder quando compreende que só assim consegue salvar a vida a cinco cristãos nativos que estão a ser torturados. Com o seu acto público de apostasia, pisando uma imagem de Cristo, passa a viver com todo o conforto, tal como Ferreira, sendo usado pelas autoridades para desmascarar cristãos e objectos de culto cristãos.

Qual destas atitudes é a certa? O filme não o diz explicitamente. Aliás, diria que é propositadamente dúbio. Somos levados a admirar os mártires, a sentir pena de Kichijiro e a compreender que Ferreira e Rodrigues renunciem para poder salvar inocentes.

Mas não havendo respostas explícitas, há sinais. A mim, o que me chamou mais atenção foi a questão da dignidade…

Aquilo que salta mais à vista na morte de todos os cristãos, durante o filme, é a enorme e admirável dignidade com que são representados. Desde os que são crucificados e deixados à mercê da maré enchente, chegando a cantar hinos religiosos enquanto são fustigados pelas ondas, aos que são lançados ao mar. Todos são um hino à dignidade. Mas há uma sequência que o mostra de forma muito explícita.

Quando vários cristãos são conduzidos de uma cela e convidados a pisar a imagem religiosa, todos recusam. Apesar de presos, estão vestidos de forma digna, e comportam-se assim, também. No final são todos reenviados para a cela, excepto um. Enquanto este espera, vemo-lo, surpreendentemente, a conversar de forma aparentemente relaxada com o guarda. Está de pé, de cabeça erguida, a falar com um guarda de igual para igual e a ser tratado como um homem. Do nada surge um dos inquisidores que lhe corta a cabeça, uma cena que recorda – duvido que não seja propositado – as decapitações de Cristãos na Síria, na Líbia e no Iraque nos últimos anos.

Logo a seguir, o inquisidor diz aos cristãos que há uma outra hipótese e manda chamar Kichijiro, que é convidado a pisar a imagem, penso que pela terceira vez desde o início do filme. O Kichijiro que aparece parece um primata. Vestido unicamente de cueca, sujo, desgrenhado, corre curvado, pisa a imagem medroso e foge de imediato para fora da prisão.

O contraste entre as duas posições não podia ser mais evidente. Os que morrem pela fé morrem inteiros e dignos. Os que abjuram, quanto mais o fazem, mais miseráveis ficam, por mais que se venham a arrepender. Mas há mais… Kichijiro ainda volta a aparecer, e no final do filme, inesperadamente, é-lhe descoberto um amuleto religioso. Nessa altura encontra-se já bem vestido e limpo. Quando tudo indica que a traição poderá novamente comprar-lhe a liberdade, é fiel aos seus amigos e, embora não se diga explicitamente, fica-se com a ideia de que acaba por ser martirizado. Quando os soldados o levam embora, vai direito, de cabeça erguida e a olhar em frente. Agora sim, um homem digno. Salvou-se no final, apesar de ter dado a vida.

E que dizer dos outros? A melhor expressão que encontro é que são carcaças de homem. Da primeira vez que Ferreira aparece, para tentar convencer Rodrigues a apostatar, nem lhe consegue olhar nos olhos, é todo ele autojustificação e arrogância. Mais tarde, quando Rodrigues lhe segue os passos, praticamente não voltamos a ver nele qualquer emoção. Não sorri, não revela compaixão por cristãos perseguidos. Está vazio. Se há alguma esperança de salvação para Rodrigues, esta parece chegar-lhe, surpreendentemente, de Kichijiro.

A apostasia é justificada? Scorsese não nos enfia uma resposta pela goela abaixo, mas penso que o seu filme deixa bem claro quais são as atitudes que mais respeitam a dignidade humana dos seus intervenientes.

Uma nota final, ligada a tudo isto… Várias vezes os inquisidores dizem aos cristãos que na verdade não querem saber daquilo em que acreditam ou não, apenas lhes interessa que façam o acto público, exterior, e serão deixados em paz. É a sedução do mal em todo o seu esplendor.

Mas outra coisa que ressalta muito claramente do filme, é que essas promessas são sempre falsas. Em primeiro lugar, vários dos cristãos que são mortos, segundo nos dizem, já renunciaram publicamente, mas são torturados para levar outros a renunciar. Em segundo lugar, nunca é só uma vez… Mesmo Ferreira e Rodrigues, que para todos os efeitos vivem vidas de exemplar colaboração com as autoridades, têm de assinar declarações de apostasia regulares e são repetidamente convidados a pisar publicamente as imagens sagradas em demonstração pública dessa mesma renuncia. Ou seja, a apostasia é um acto que nunca satisfaz quem o exige e nunca deixa em paz quem o pratica.


Podem ler as reportagens que fiz sobre o filme aqui e aqui. Aqui a opinião de Aura Miguel. Podem também ler as transcrições integrais das entrevistas que fiz para as reportagens, incluindo ao padre Adelino Ascenso, provavelmente o maior especialista sobre Shusaku Endo e a sua obra em Portugal. Aqui podem ler a transcrição da entrevista a Brad Miner e a do padre José Maria Brito.

segunda-feira, 31 de março de 2014

“‘O Filho de Deus’ é um desafio assumido mas mal sucedido”

Transcrição completa da entrevista a Margarida Ataíde, crítica de cinema para a Ecclesia e colaboradora do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

O que achou do filme “O Filho de Deus”?
Sempre que escrevo um artigo de cinema há duas circunstâncias que se verificam sempre. Não costumo ler muito sobre o filme antes de o ler, escolho pela programação ou por referências que tenha, mas tento não ir condicionada.

No caso de “O Filho de Deus” sei porque foi lançado há não muito tempo o DVD com a mini-série feita para televisão e que está na base deste produto, uma mesma obra do mesmo realizador, Christopher Spencer, e sabia que era um filme que ia ser lançado com um formato original feito para televisão, e que iria ser levado ao grande ecrã, o que representa já por si um grande desafio uma vez que no grande ecrã tudo é dimensionado a uma escala bastante maior, o que significa que tanto os efeitos do filme são apresentados ao espectador de uma forma mais grandiosa, de forma a envolvê-lo mais, e se há alguns aspectos de menor qualidade também são mais evidentes. São estes os desafios que o realizador tinha.

Neste caso isso correu-lhe bem, ou nem por isso?
Penso que foi um desafio assumido mas não bem sucedido. O filme contava com um orçamento muito baixo e portanto teve de se socorrer de uma equipa técnica e artística não de grande qualidade. Temos uma coisa que nos toca particularmente, porque temos o actor português Diogo Morgado a encarnar o papel de Jesus. Seria aquele a quem é feito o desafio para encarnar o verbo e penso que fica muito aquém da dimensão da personagem. Por outro lado o realizador tem como única solução para tentar dirimir essa evidência de menor qualidade que é recorrer a sequências muito fugazes, isso não ajuda à impressão e transmissão da mensagem e do texto ao longo do filme.

Na altura da mini-série houve muitas críticas, algumas boas e outras más. Pode-se dizer que estamos perante uma ideia que funciona bem em DVD mas não no grande ecrã?
Poderia ser isso. Qualquer realizador interessa-se pela figura de Jesus e pela proposta da própria Bíblia e pode, eventualmente, olhar Jesus e tentar interpretá-lo à sua forma, ou recontar a sua experiência de relação com aquela figura, não o pode fazer de forma abusiva. Não pode perverter o que está no fundamento daquela pessoa, Deus tornado homem.

O que acontece neste filme é que, sendo Jesus aquele que se fez próximo de nós, que estabelece uma relação próxima de nós, de tal forma que vem a nós também como homem, todo o filme, ao assentar na ideia que Jesus traz o poder, e são permanentes as referências, isto são perversões do próprio texto bíblico, daquilo que é a narrativa bíblica e portanto ultrapassam o facto de ser um formato grande ou pequeno ou de ter menos ou mais qualidade. É uma interpretação abusiva.

Temos assistido a vários filmes nos últimos anos que recuperam temas bíblicos. Tem havido uma maior atenção a temas especificamente religiosos do que era normal há uns anos?
Temos de fazer uma distinção entre a produção cinematográfica e o cinema que circula e que é representado em sala. Para além de um investimento, de uma produtora, de um produto que procura fazer o circuito comercial, que tem de ter rentabilidade, daquele que é feito por realizadores e criadores independentes, por sua iniciativa, que perscruta um pouco alguns temas que são de carácter religioso ou de matéria de fé, ou que questionam o sentido da vida e isso também perpassa por este Deus como o conhecemos... talvez a nível comercial sim, talvez.
 
Não diria que existe um maior interesse, talvez haja uma abordagem diferente e nesse sentido talvez ultimamente, nestes anos, e agora com este caso de “O Filho de Deus” e o que me parece que acontece um pouco com “Noé”, é que são narrativas que se aproximam mais do estilo narrativo utilizado nos grandes obras bíblicas dos anos 40 e 50, mais do que obras em que um criador de cinema interpela uma questão de fé mais como um diálogo individual, aqui tem esse carácter mais público e comercial.

Mas a nível de temas religiosos no substrato de filmes que não são explicitamente religiosos, isso tem sido mais uma constante?
Sim, no circuito comercial penso que sim.

A nível de filmes recentes que talvez tenham escapado ao circuito comercial, ou mesmo estando no circuito comercial tenham essa linguagem mais escondida, o que é que a marcou mais nos últimos anos?
Um dos filmes que me marco mais, por várias razões, foi um filme de uma jovem realizadora italiana chamado “Corpo Celeste”, que tive oportunidade de levar ao sétimo simpósio do clero, em Fátima, exactamente por ser um filme feito por uma realizadora não católica, que terá passado pela catequese e que conta a história de uma menina chamada Marta que vem com a sua mãe e com a sua irmã da Suíça e retorna a uma cidade suburbana, periférica, da região sul de Itália.

Esta menina inicia o seu percurso de crisma na catequese da Igreja. É uma criança que está em transformação, na adolescência, e procura um encontro com Cristo que não consegue fazer através da catequese. Aqui o interesse da realizadora é ela própria questionar um caminho possível de fé, é um olhar de fora da Igreja para dentro, sério e tocante, em que se acompanha o percurso da menina, que convive com um grupo em que não se sente integrada, porque tudo o que a catequista lhe transmite, com a sua melhor intenção e bondade, não é suficiente para tocar o seu coração e para ela perceber o mistério de Deus em si.

Ela faz o percurso do Crisma e não faz esse encontro, e acaba por conseguir fazê-lo de uma outra forma que não é totalmente à margem da Igreja, mas que não é com aquele tipo de resposta que lhe foi dada. Foi dos filmes mais sérios que vi. Passou um pouco despercebido... Também por ter sido distribuído por uma pequeníssima distribuidora portuguesa, resultado do investimento de um jovem, também realizador e também não-católico, mas que teve este interesse e é aí que digo exactamente que há muitas pessoas que passam despercebidas nesse interesse e nessa curiosidade que suscita temas que podem ser de fé, ou religiosos.

Do cinema português, esse interesse também se tem manifestado?
A distinção entre os temas religiosos e do sentido da vida é realmente importante. Existem alguns filmes que revelam um interesse pela procura de algo transcendente, algo que é muito próximo da designação e nomeação de Deus como nós o entendemos, algo que desperta no íntimo de um realizador e que o leva a procurar qualquer coisa mais adiante, distingo da questão religiosa porque não é revestido da formalidade e de preceitos religiosos, mais públicos e mais formais.

Encontramos, sim. Os prémios Árvore da Vida que têm sido distribuídos no IndieLisboa, por exemplo, são prova disso. Há muitos filmes que se aproximam de Deus mesmo sem O nomear, que se aproximam muito dessa busca e que revelam esse interesse.

O Cinema é um meio privilegiado para tocar as pessoas neste campo?
Se sair daqui e descer ao Cais do Sodré e contemplar o rio pela frente, na sua imensidão e beleza, fica tocado não só pelo olhar que transmite, mas sobretudo pelo que o rio e a beleza dizem no mais íntimo de si. O cinema tem exactamente essa capacidade de exprimir essa beleza de uma forma até grandiosa, ao mesmo tempo tocando no mais íntimo de nós. Penso que é nestas duas dimensões que o cinema, como cinema, se cumpre.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

SSPX perde um quarto dos seus bispos...

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É já esta noite que Lisboa entra no Ano da Fé. Na missa que vai decorrer na Sé de Lisboa o Patriarca fará chegar aos fiéis a carta que escreveu a propósito desta iniciativa.

Ainda no âmbito do Ano da Fé, ao fim da tarde foi lançado o álbum Missa Brevis, de autoria de João Gil e vários outros músicos. Veja aqui a entrevista a João Gil.

Sábado chega ao fim o sínodo dos bispos para a Nova Evangelização, mas o documento final será divulgado amanhã.

Entretanto a Sociedade de São Pio X tem menos um bispos. O anti-semita Richard Williamson foi expulso. Mas as conversações com Roma parecem ter naufragado.


Amanhã não deve haver mail, pelo que vos desejo um bom fim-de-semana e até Segunda, se Deus quiser.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cristãos não são estrangeiros na Síria, nem querem "outro Iraque"


Com votos de um bom dia de
São Pedro e de São Paulo!
Continuamos a tentar trazer-vos notícias da Síria, país que continua a ferro e fogo, num conflito com muitos aspectos religiosos. Esta semana falei com um Arcebispo Melquita que nos ajuda a compreender o que se passa. Como habitualmente, podem ler a transcrição completa da entrevista aqui.

Atenção para quem vive nos arredores do Porto, decorre no Domingo um evento solidário que para além de ajudar crianças institucionalizadas, promete ser um bom passeio.

Ainda na onda solidária, a Igreja Lusitana, ramo português da Igreja Anglicana, organiza uma festa na sua sede em Vila Nova de Gaia, amanhã a partir das 18h. Os fundos revertem para o trabalho social.


Esta semana começamos a trazer-vos sugestões de cinema, da autoria de Margarida Ataíde, que faz crítica para a agência Ecclesia. Esta semana temos “O Moínho e a Cruz”.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

"Luz da Manhã", tradicionalistas e São Tomé



Apesar da crise, os peditórios continuam a render mais dinheiro às organizações de solidariedade. A Cáritas conta com mais 300 milhões de euros!


Os tradicionalistas “não puderam recusar a proposta” de Bento XVI que deverá, até ao fim do mês, levar à reintegração da sociedade fundada por Marcel Lefebvre.

O júri que representa a Igreja no IndieLisboa atribuiu o prémio Árvore da Vida ao filme “Luz da Manhã”.

O bispo de São Tomé esteve em Lisboa e falou de um país onde 90% da população é pobre.

E para quem pensa peregrinar a Fátima, seja quando ou por que razão for, não deixem de levar este Guia. Se tiverem mais tempo aproveitem e façam o caminho de Bragança…

sexta-feira, 27 de abril de 2012

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