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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A Revolta dos Informáticos

"No, Trump! No!"
O Papa Francisco faz anos no sábado, hoje cantaram-lhe os parabéns antecipados e ele lembrou, na brincadeira, que na terra dele isso dá azar. Há um email para darem os parabéns a Francisco, e um hashtag. É só modernices!


Centenas de informáticos americanos estão a assinar uma carta aberta a recusar colaborar com a administração de Donald Trump no eventual registo de muçulmanos, ou expulsão em massa de “indesejáveis”.

Hoje é dia de Catholic Thing. Francis J. Beckwith escreve sobre a teoria que postula que a lei moral na realidade não existe, é só uma ilusão criada pelos nossos genes para facilitar a sua propagação… O que custa acreditar nisto? Demais, considera o autor.

Deixo-vos com duas recomendações. Corre uma petição para pedir que o aborto não seja um tema dado na educação sexual no segundo ciclo (crianças de 10 anos), que podem ler e assinar aqui, se assim entenderem.

E a paróquia da Estrela está a organizar uma série de catequeses para adultos. Três já foram, mas a quarta, intitulada “Deus ao Encontro do Homem”, decorre amanhã. Começa às 21h30 e dura uma hora. Estão todos desafiados! 

Deus, a Lei Moral e Perder o Juízo

Francis J. Beckwith
Este ano lectivo estou integrado no corpo docente da Universidade de Colorado, em Boulder, como professor convidado para 2016-2017 na cadeira de Pensamento e Política Conservadora. Uma das aulas que lecciono, “Filosofia e Religião”, aborda uma série de questões sobre a avaliação filosófica da crença religiosa, que normalmente são alvo de debate, incluindo sobre se a moralidade requer um Deus.

A leitura obrigatória para esta secção do curso inclui não só um capítulo do manual, mas também dois ensaios, um de C.S. Lewis (um excerto de “Mero Cristianismo”) e outro do filósofo Michael Ruse e do biólogo E. O. Wilson. Chama-se “A Evolução da Ética” e é um ensaio já bastante conhecido e usado frequentemente, que apareceu pela primeira vez na revista New Scientist, em 1985.

Ruse e Wilson defendem que o nosso sentido de moralidade, ou aquilo a que Lewis chama “a lei da natureza humana” pode ser inteiramente justificado pela evolução biológica e, por isso, é desnecessário afirmar que este está enraizado em Deus. Eles argumentam que a natureza nos equipou de certas disposições (ou “regras epigenéticas”) que nos predispõem a favorecer algumas acções em relação a outras, para poderemos passar mais eficientemente os nossos genes.

Assim, por exemplo, estamos predispostos a temer leões, a não gostar de incesto e a sermos altruístas. Dito de outra forma, ser a refeição de um animal, contribuir para a limitação do património genético ou não ajudar aqueles que nos são mais próximos, diminui a utilidade da busca dos nossos genes pela vida eterna.

Para Ruse e Wilson existe uma espécie de paradoxo nesta realidade: Para que o nosso “gene egoísta” possa chegar onde quer chegar deve residir dentro de um organismo que tenha desenvolvido disposições que o inclinam no sentido de fazer certas coisas e de não fazer outras – como por exemplo agir de forma altruísta ou resistir ao encanto de um safari – que à primeira vista não parecem ter nada de egoístas. Isto é, as nossas normas sociais derivam de um sentido partilhado de moralidade, que é ágil na sua habilidade de traçar um rumo entre os interesses comunitários e individuais, que todavia tem na sua raiz mecanismos puramente materiais e biológicos, ferozmente eficientes, e que são essencialmente “egoístas”.

Mas então porque é que parece, como argumenta C.S. Lewis, que de facto existe uma lei moral a que temos a obrigação de obedecer e que não foi por nós inventada? E uma vez que a ideia de uma lei moral implica a noção de um legislador, não devemos concluir que mesmo que a versão evolutiva nos conte a história biológica completa, há coisas que ficam por explicar?

Edward Wilson
Afinal de contas, mesmo que seja possível fazer um relato completo do cérebro humano do ponto de vista da evolução, porque é que devemos concluir que esse relato pode explicar tudo aquilo que o intelecto pensa que sabe e que não se pode reduzir meramente a matéria em movimento? Como por exemplo que isto não é um cérebro, ou que a beleza, os objectos abstractos e uma primeira causa para toda a existência são coisas que de facto existem?

Acreditamos verdadeiramente que ao explicar a torradeira também explicámos as torradas? (Claro que algumas pessoas, tais como Wilson e Ruse, negam a existência de coisas imateriais. Mas o que estou a tentar dizer é que não há nada na teoria evolutiva, per se, que sustente essa negação).

Para Ruse e Wilson existe uma resposta: “A moralidade, ou mais rigorosamente, a nossa crença na moralidade, é meramente uma adaptação criada para facilitar os nossos fins reprodutivos. Logo, a base da ética não assenta na vontade de Deus… Num sentido importante, a ética como nós a compreendemos é uma ilusão que nos é imposta pelos nossos genes para nos levar a colaborar. Não está enraizada em nada exterior a nós. A ética é produzida pela evolução, mas não justificada por ela, porque, tal como a adaga de Macbeth, serve um propósito importante sem todavia existir em substância”.

Logo, para Ruse e Wilson, a crença comum de que existe uma lei moral é o resultado de uma partida que nos é pregada pelos nossos genes, pois o acreditar na existência de uma lei moral, mesmo que ela não exista de facto, contribui da melhor forma para o sucesso reprodutivo da raça humana. 

Que conclusões devemos tirar de tudo isto? Em primeiro lugar devemos elogiar Ruse e Wilson pela simplicidade e limpeza do seu argumento, que não está desprovido de elegância. Se partirmos, como eles fazem, da crença de que o materialismo filosófico é a visão correcta da realidade, então a sua posição tem muita força.

Mas isso também se aplica a outros projectos filosóficos que dependem daquilo a que chamamos “uma grande ideia”. Marx consegue explicar tudo através do prisma da luta de classes. Para Heraclitus não existem substâncias estáveis e para Parmenides nada muda. Nos nossos dias, certos movimentos sociais classificam tudo o que se distancia da sua mundovisão como ódio. Mas em todos estes casos, aquela grande ideia que explica tanta coisa, fá-lo à custa da desvalorização de tudo o que mina a sua plausibilidade.

Michael Ruse
Qual o preço da teoria de Ruse e Wilson? Devo confessar que não sou capaz de o pagar, pois implica desistir de tudo aquilo em que acreditamos. Pense nisto: Se a crença na lei moral pode ser atribuída inteiramente a um truque genético, porque não aplicar a mesma análise a todas as outras crenças que existem na nossa mente? Afinal de contas, a mesma mente que crê na lei moral mantém crenças sobre arte, literatura, ciência, filosofia, matemática e a existência dos outros.

Talvez estas crenças também não digam respeito a nada que seja real. Se “a ética como nós a compreendemos é uma ilusão que nos é imposta pelos nossos genes para nos levar a colaborar”, então talvez a arte, a literatura, a ciência, a filosofia, a matemática e a existência de outras pessoas, como as entendemos, sejam ilusões impostas pelos nossos genes com o mesmo objectivo.

Só posso falar por mim, mas abandonar a crença de que existe uma verdadeira lei moral não compensa o custo de perder o juízo.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2016 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Vingança dos Apegados Amargos

Francis J. Beckwith
Devíamos ter desconfiado que alguma coisa se iria passar. Os Cavaliers venceram o NBA, os Cubs foram campeões de Basebol, o Reino Unido votou para abandonar a União Europeia e Bob Dylan venceu o prémio Nobel da Literatura. Este não é um ano normal.

Quando a comunicação social declarou, na manhã de Quarta-feira, que Donald J. Trump vai ser o 45º Presidente dos EUA, vieram-me à cabeça as palavras do mais recente Nobel da literatura: “Something’s happening here, and you don’t know what it is, do you, Mr. Jones?”

Tal como a maioria dos membros da classe dos opinadores, fui apanhado completamente desprevenido pela vitória de Trump. Praticamente nenhum dos meus amigos – incluindo muitos que se identificam como conservadores – apoiava o Trump. Eles argumentavam – como eu fiz em vários lugares – que havia fortes razões práticas e morais para não votar em Trump (nem na Hillary, já agora).

Pensávamos que tendo em conta as indiscrições públicas e privadas de Trump, aliados à sua impulsividade e imprevisibilidade, para não falar nos seus comentários pouco delicados sobre imigrantes, a sua eleição seria catastrófica tanto para o Partido Republicano como para o país. Mas o facto é que praticamente nenhum de nós pensava que se teria de preocupar mesmo com o país, porque achávamos que era inelegível. Caramba, como nos enganámos!

Tal como o Mr. Jones do Bob Dylan, não fazíamos ideia do que é que se estava a passar aqui. Eu e os meus amigos existimos no equivalente cultural a um condomínio fechado: suburbanos, profissionais, com educação superior, de classe média, viajados e cosmopolitas. Temos posses e estamos em larga medida isolados do dia-a-dia das vidas da maioria dos americanos de classe operária, brancos, religiosos e sem formação universitária, ou seja, aqueles cujos votos deram a vitória a Trump na Pensilvânia, no Iowa, no Ohio, no Michigan e no Wisconsin.

Era destas pessoas que Barack Obama falava de forma tão condescendente em 2008 quando se dirigia em privado a um grupo de dadores em São Francisco:

Vamos a estas pequenas vilas na Pensilvânia e, como em muitas das vilas pequenas do Midwest, os empregos desapareceram há 25 anos e nada os substituiu. E passaram as administrações de Clinton e de Bush e cada uma delas disse que as comunidades se iam regenerar, mas isso não aconteceu.

Por isso não é de admirar que fiquem amargos, que se apeguem a armas ou à religião ou à antipatia para com pessoas que não são como elas, ou sentimentos contra os imigrantes ou contra o comércio livre como forma de explicar as suas frustrações.

Apesar destes comentários, Obama obteve o voto de uma boa parcela destes “amargos apegados”. Parece que estavam dispostos a suportar os insultos elitistas desde que isso levasse a melhores perspectivas para eles e para as suas famílias. Mas oito anos volvidos as coisas não correram assim. Não só estão piores agora, como as suas preocupações sobre a imigração, as políticas de comércio, segurança policial e nacional e liberdade religiosa passaram a ser descritas pelos seus “superiores” como meras expressões viscerais de xenofobia, fascismo, racismo, islamofobia e ódio. É claro que é sempre possível encontrar entre estas pessoas alguns cuja linguagem torna credíveis estas descrições, mas aquilo que eu sinto é que para a vasta maioria são preocupações que nascem de um amor profundo pelas suas famílias e a sua nação.

O único candidato que pareceu abordar estas preocupações e de as levar a sério foi Donald Trump. Certo, fê-lo de forma bombástica, por vezes desarticulada, e com uma linguagem muitas vezes desagradável, desnecessariamente agressiva ou chocantemente ofensiva. Mas para quem mais é que estes eleitores se podiam voltar? Hillary Clinton?

Foi ela quem descreveu os apoiantes de Trump, durante um comício LGBT em Setembro, da seguinte forma: “Sabem, generalizando bastante, podíamos meter metade dos apoiantes de Trump naquilo a que eu chamo o ‘cesto dos deploráveis’. Não é?... Os racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos – tudo isso.” Ao condenar publicamente os apegados amargos de Obama ao cesto de deploráveis, deliciando-se com os risos que se lhe seguiram, Clinton e a plateia embeiçada selaram o seu destino, sem sequer darem por isso.



Mas houve mais, graças ao Wikileaks, os “deploráveis” também puderam espreitar atrás da cortina. O que vieram foi as elites – que na maioria frequentaram as mesmas escolas, vivem nos mesmos bairros, auferem os mesmos ordenados e têm os mesmos amigos – a usar as suas ligações para dar a Clinton aquilo que a maioria das pessoas considera serem vantagens injustas. Quando se vê os autoproclamados defensores da justiça social e manipular o sistema em favor dos amigos ao mesmo tempo que lhe chamam a si e aos seus vizinhos “deploráveis” (isto sem falar sequer das críticas gratuitas ao Catolicismo), a indignação parece ser a resposta emocional mais apropriada.

Em breve veremos se Trump vai cumprir com algumas das coisas que devem interessar a qualquer católico sério: Nomeações para o Supremo Tribunal e defesa da liberdade religiosa, não só contra aspectos como os mandatos do Obamacare que afectam grupos como as Irmãzinhas dos Pobres, mas de forma mais geral na pressão do Governo federal sobre crentes tradicionais que resistem à promoção agressiva do aborto e de um entendimento da sexualidade humana que é intrinsecamente hostil à sua teologia moral.

Inclino-me a pensar que vai.

Isto não significa que eu tenha mudado de opinião sobre Trump e sobre como o seu carácter pessoal e exemplo público podem afectar o carácter dos cidadãos desta nação bem como a trajectória do Partido Republicano, mas espero sinceramente que esteja enganado.

Talvez a noção que o Presidente eleito tem da gigantesca responsabilidade da Sala Oval, combinadas com a escolha de pessoas excelentes para ocupar posições de liderança e de aconselhamento na sua administração resultem num Presidente Trump menos dados ao exercício indisciplinado daquilo que São Tomás de Aquino chamou os apetites irascíveis e concupiscíveis.

Quem sabe? Mas num ano em que os Cubs foram campeões de basebol e Dylan venceu o Prémio Nobel, tudo pode acontecer. E porque em Deus tudo é possível o Sr. Trump, e a nação que ele vai servir, devem agora estar constantemente nas nossas orações. 


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Conservadorismo na Encruzilhada

Francis J. Beckwith
Reza a história que Robert Johnson, o lendário cantor de blues, vendeu a alma ao diabo a troco de se tornar um dos melhores guitarristas que alguma vez pisou a terra. Foi à meia-noite, quando se encontrava numa encruzilhada no Mississippi.  

I went to the crossroad, fell down on my knees
I went to the crossroad, fell down on my knees
Asked the Lord above, “Have mercy, now save poor Bob, if you please”
(“Crossroads Blues”)

Pouco tempo depois dessa alegada transacção, quando tinha apenas 27 anos, Johnson morreu. Talvez venha daí a expressão “chegar à encruzilhada” em referência ao momento em que se tem de escolher entre o sucesso mundano e a integridade da alma.

Parece-me que o conservadorismo americano chegou precisamente a uma dessas encruzilhadas, em que os seus defensores têm de decidir se o movimento deve ser guiado por um conservadorismo ancorado nas verdades inalteráveis da natureza humana que nos apontam na direcção do bem, da verdade e do belo, ou se devem alinhar com o conservadorismo do mero mercado.

Este “conservadorismo de mercado” consiste na ideia de que como o mercado livre tem sido tão eficiente a produzir riqueza e prosperidade, permitindo-nos gozar de muitos outros bens, a lógica do mercado deve ser aplicada a todos os aspectos da vida. Uma vez que o valor dos bens é calculado com base no preço que as pessoas estão dispostas a pagar por eles, o valor de todos os bens aparentes – incluindo as supracitadas inclinações da natureza humana – não acarretam qualquer peso normativo para o conservador de mercado.

Do seu ponto de vista, longe de serem verdades básicas da natureza humana sobre as quais depende o bem comum, estas são limites à liberdade de cada indivíduo para poder perseguir a sua própria visão subjectiva do que constitui uma vida boa. Por esta razão, para o conservador de mercado o objectivo praticamente único da política é garantir o Governo limitado, isto significa a economia de mercado livre mas também a eliminação de leis e costumes que interfiram com a demanda do consumidor. Assim, segundo esta narrativa, o bem comum (se é que o termo se aplica) é medido de acordo com a libertação de amarras como a tradição, a natureza, as ligações familiares, religião, etc. para poder adquirir o que deseja quando o deseja.

Todavia, em termos práticos, os conservadores de mercado e os defensores da moral tradicional tem usado muitas vezes o mesmo vocabulário e chegado a conclusões semelhantes em termos de política, embora as razões de fundo sejam muito diferentes. Tal como o conservador de mercado, o defensor da moral tradicional costuma defender a ideia do governo limitado. Assim, por exemplo, ambos apoiam o mercado livre, uma vez que esse sistema económico é o que tem o melhor registo em termos de melhoria de qualidade de vida. 

Mas o que é que interessa melhorar a qualidade de vida? Para o conservador de mercado, “o grande propósito”, nas palavras de C.S. Lewis em “A Abolição do Homem” é “alimentar e vestir as pessoas”. (O próprio Lewis não era um conservador de mercado). A questão de como é que estes cidadãos conduziam as suas vidas – se seguiam ou não os preceitos da justiça natural – não compete à jurisdição da lei, desde que a sua conduta não interfira com as escolhas privadas dos seus concidadãos para perseguirem as suas próprias ideias de boa vida.


O defensor da moral tradicional concorda com o conservador de mercado sobre os benefícios de as pessoas estarem bem alimentadas e vestidas, mas na sua opinião elas são apenas úteis na medida em que o ajudam a cumprir com as suas obrigações para com esposo, prole, vizinho, nação e Deus. Para ele, a liberdade é a possibilidade de poder procurar os bens não escolhidos de justiça natural sem ter de se preocupar com obstáculos exteriores como criminosos ou governos injustos. Para o conservador de mercado, a liberdade é a possibilidade de poder satisfazer os seus desejos sem ter de se preocupar com quaisquer obrigações não escolhidas para com esposo, prole, vizinho, nação ou Deus. Para o defensor da moral tradicional, é o bem que é desejável por si, enquanto para o conservador de mercado o desejo é o que confere valor a algo e o torna bom.

Na medida em que o mercado livre e os seus limites morais estavam contextualizados numa infra-estrutura moral que não era conscientemente hostil aos objectivos do defensor da moral tradicional, fazia muito sentido uma aliança entre estes dois tipos de conservadorismo. O defensor da moral tradicional tinha boas razões para apoiar o mercado livre, enquanto o conservador de mercado tinha razões pragmáticas para aceitar os dados adquiridos da cultura mais alargada, cujos mandarins não tinham como objectivo principal esmagar as instituições e o modo de vida tradicionais, bem como qualquer oposição pública que delas pudesse brotar.

Mas esse já não é o mundo em que vivemos. Vivemos num mundo em que as grandes empresas criaram um cartel cultural – um monopólio moral – com o qual esperam tornar a resistência tão cara e a anuência tão barata, que os seus concorrentes ideológicos sejam levados a declarar bancarrota civilizacional ou sofrer uma OPA hostil.

Alguns consideram que o conservador de mercado nunca foi verdadeiramente amigo do defensor da moral tradicional, que tudo não passava de um casamento de conveniência, destinado ao divórcio logo que um dos dois encontrasse uma alternativa melhor. Talvez, embora eu considere que é uma teoria algo simplista. O que não podemos fazer é ignorar o lugar e a hora em que nos encontramos: É meia-noite e chegámos à encruzilhada.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 9 de Junho 2016 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Sim, Cristãos e Muçulmanos Adoram o Mesmo Deus

Francis J. Beckwith
Nota: O mais recente artigo do professor Beckwith sobre este assunto gerou muita controvérsia entre leitores do The Catholic Thing e outros. Muitas pessoas pensaram que ele estava a afirmar a semelhança daquilo que são claramente duas religiões muito diferentes. Neste novo artigo ele clarifica alguns pontos da doutrina católica sobre o assunto e sobre a relação entre o Cristianismo e o Islão. – Robert Royal

No dia 17 de Dezembro abordei nesta página a questão de se os muçulmanos e os cristãos adoram o mesmo Deus. Dei a mesma resposta que foi dada pelo Vaticano II, e pela Igreja Católica desde o Concílio: Sim. Os Muçulmanos e os Cristãos adoram o mesmo Deus, pese embora o Islão tenha um entendimento imperfeito do divino, uma vez que nega a divindade de Cristo e, implicitamente, a natureza trinitária de Deus.

Como a Igreja declara na Nostra Aetate (1965) sobre os muçulmanos: “Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens (…) Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta”.

Este argumento levou a muitas respostas críticas, quase todas de cristãos não-católicos, incluindo pensadores distintos como Albert Mohler, Andrew Walker, Matthew Cochran e Peter Leithart. (Isto para não falar de uma enxurrada de revolta de leitores do The Catholic Thing). Cada um deles, enfatizando questões diferentes, identifica correctamente aquilo que os cristãos consideram ser as inadequações da teologia islâmica, tendo em conta a forma como Deus se tem revelado ao longo da história, como aprendemos na Escritura. Nada tenho contra esta linha de argumentação, pelo contrário, ela é consistente com o meu próprio argumento. Passo a explicar.

A visão da Igreja distingue entre revelação “geral” e “especial”. A primeira diz respeito àquelas verdades sobre Deus que podem ser conhecidas através da razão humana, por si; esta diz respeito àquelas verdades sobre Deus que só conhecemos através da Escritura, Sagrada Tradição e/ou o Espírito Santo que fala através do magistério. (Muitos protestantes também aceitam esta distinção, embora na categoria de revelação especial incluam apenas as Escrituras).

Para melhor compreender esta distinção, vejamos este argumento para a existência de um Deus Criador, do filósofo persa e muçulmano Al-Ghazali (1058 – 1111 AD), conhecida como o “Argumento Cosmológico de Kalam” e que é uma peça proeminente da filósofo e apologista evangélico William Lane Craig. Ele resume o argumento da seguinte forma.

1. Tudo o que tem início tem uma causa.
2. O universo começou a existir.
3. Logo, existe uma causa para a existência do universo.

Depois de defender cada uma das premissas deste argumento, um cristão com formação filosófica passará a demonstrar (através de vários argumentos) que a primeira causa do universo deve necessariamente ser um Criador eterno, auto-subsistente, perfeito e não causado, que sustenta tudo e que não deriva o seu ser de qualquer outro. (O Craig coloca a questão de uma forma ligeiramente diferente, uma vez que não é um teísta clássico, o que levanta a questão ainda mais bizarra de saber se todos os cristãos adoram o mesmo Deus, um assunto que deixaremos para outra altura).

Suponha-se que o Abdullah, um ateu árabe, depois de se ter deixado convencer por este argumento passa a acreditar, como acreditam os cristãos, que tal Criador existe. Será que o Abdullah e um cristão acreditam no mesmo Deus? Parece-nos que sim. O Cristão, como é evidente, não só acredita neste Deus mas presta-lhe culto também. Acredita também em muitas outras coisas sobre este Deus que a revelação geral, por si só, não lhe fornece. Estas coisas incluem a noção de que Deus é uma trindade, que a Segunda Pessoa da Trindade encarnou como Jesus, e por aí fora. De acordo com a fé cristã, estas crenças apenas se podem depreender com base na revelação especial, a Bíblia.

"Não há outro Deus que não Deus"
Pouco depois de ter mudado de ideias sobre a existência de Deus, Abdullah passa a frequentar a mesquita local, onde lhe ensinam a acreditar que o Criador (a quem ele chama “Allah”) é digno de adoração, não é uma Trindade, não pode gerar nem ser gerado, e por aí fora. Estas crenças não derivam da revelação geral que o levou a acreditar em Allah mas derivam, antes, daquilo que os muçulmanos acreditam ser revelação especial, o Alcorão.

Será que Abdullah e o cristão ainda acreditam no mesmo Deus, que agora ambos adoram? Sim, mas com um senão: Embora adorem o mesmo Deus, não podem ter os dois razão sobre a Trindade e a Encarnação. Partindo do princípio que o Cristianismo e o Islão são opções mutuamente exclusivas, entre o cristão e o Abdullah há um que sabe mais sobre Deus do que é possível depreender a partir da revelação geral. Mas é precisamente por isso que é correcto dizer que adoram o mesmo Deus, apesar de um deles estar claramente enganado sobre algumas das crenças que tem sobre esse Deus.

Vejamos mais este exemplo: A Lois Lane está apaixonada pelo Kal-El (o nome de nascimento do Super Homem), e acredita que ele não é humana porque nasceu em Krypton. Agora imagine-se que a Lana Lang se apaixona pelo Clark Kent (o alter-ego jornalista do Super Homem) e que acredita que ele é humano porque pensa que é filho de Martha e Jonathan Kent. A Lois não sabe que o Kal-El é, na realidade o Clark Kent e a Lana não sabe que o Clark Kent é, na realidade, Kal-El.

A Lois e a Lana estão apaixonados pelo mesmo homem? Claro que sim, embora uma delas esteja claramente enganada no que diz respeito a algumas das crenças sobre o Kal-El/Clark e a sua natureza. A razão por detrás disto é que existe apenas um ser que é, na sua essência, o Kal-El.

Da mesma forma, existe apenas um ser que é, na sua essência, Deus: o Criador eterno, auto-subsistente, perfeito, não causado, imutável, que tudo sustenta e que não deriva o seu ser de qualquer outro. Nas palavras de São Paulo, no seu sermão no Areópago, “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens (…) porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos. (Actos 17: 24,28)

Se esta descrição corresponde a quem adora, então adora Deus. Em todo o caso, faria bem em dar atenção à conclusão de São Paulo nesse dia em Atenas: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há-de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos. (Actos 17:30,31)

Deo Gloria.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 7 de Janeiro 2015 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Muçulmanos e Cristãos Adoram o Mesmo Deus?

Francis J. Beckwith
A 15 de Dezembro a universidade evangélica Wheaton College, de Chicago, suspendeu uma professora residente de ciências políticas. O comunicado de imprensa da universidade afirma que a professora Larcyia Hawkins foi suspensa “devido a questões significativas sobre as implicações teológicas de afirmações que fez sobre a relação entre o Cristianismo e o Islão”. Que afirmações são essas?

Segundo um artigo na Christianity Today, a Drª Hawkins atraiu as atenções quando afirmou publicamente no Facebook que iria passar a usar o véu islâmico como parte do seu percurso de Advento como gesto “de solidariedade religiosa com os muçulmanos porque eles, como eu, uma cristã, são um povo do livro. E como o Papa Francisco afirmou a semana passada, adoramos o mesmo Deus”.

Para ter a certeza que a utilização do véu islâmico por uma não muçulmana não seria ofensiva para os muçulmanos, Hawkins pediu ajuda ao Conselho para as Relações Americanas e Islâmicas (CAIR), que lhe disse que seria permissível. Mas a universidade não está preocupada com a mudança de vestuário da professora. Nas palavras do presidente Phillip Ryken, “a universidade não tem qualquer posição sobre a utilização de véus como sinal de cuidado e preocupação por membros da comunidade muçulmana, ou outras, que possam enfrentar discriminação e perseguição”.

Parece evidente, portanto, que aquilo que preocupa a universidade é a afirmação teológica de que os muçulmanos são um “povo do livro” com os quais “adoramos o mesmo Deus”. Esta última parte da afirmação foi mesmo apelidada de “incrível” e “verdadeiramente de deixar de boca aberta” por Denny Burk, um conhecido professor evangélico de Estudos Bíblicos.

Antes de eu passar a explicar porque é que Hawkins tem razão no que diz respeito a muçulmanos e cristãos adorarem o mesmo Deus e, por isso, que a sua suspensão por negar implicitamente a Posição de Fé da Universidade não tem cabimento, é importante mostrar porque é que ela está errada sobre os cristãos e muçulmanos serem “povos do livro”.

Em primeiro lugar, a vasta maioria dos cristãos não pensa assim sobre a sua fé. Os católicos, por exemplo, embora acreditem na autoridade das Escrituras, não encaram a sua fé como sendo fundada num livro. Como diz o Catecismo da Igreja Católica “No entanto, a fé cristã não é uma ‘religião do Livro’. O Cristianismo é a religião da ‘Palavra’ de Deus, ‘não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo’. Para que não sejam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna do Deus vivo, pelo Espírito Santo, nos abra o espírito à inteligência das Escrituras”.

Depois, na teologia islâmica, a frase “povo do livro” diz respeito apenas a seguidores de outras religiões abraâmicas (como judeus e cristãos) e não aos próprios muçulmanos. É uma confusão parecida com aquela que não-católicos cometem quando confundem a Imaculada Conceição com o nascimento virginal.

Larciya Hawkins, com o seu véu
Passamos agora à grande questão: Os muçulmanos e os cristãos adoram o mesmo Deus? Para responder adequadamente temos de fazer algumas distinções filosóficas importantes. Primeiro, o que é que significa dois termos referirem-se à mesma coisa? Tomemos, por exemplo, os nomes “Muhammed Ali” e “Cassius Clay”. Embora sejam termos diferentes, ambos se referem à mesma coisa, pois têm propriedades idênticas. O que for verdade em relação a Ali é verdade em relação a Clay e vice-versa. O mesmo se aplica a Robert Zimmerman/Bob Dylan, e Norma Jean Baker/Marilyn Monroe.

Por isso, o facto de os cristãos chamarem a Deus “Javé” e os muçulmanos lhe chamarem “Allah” não faz qualquer diferença desde que ambos tenham propriedades idênticas. De facto, aquilo que conhecemos como teísmo clássico foi adoptado por alguns dos maiores pensadores das religiões abrâamicas: São Tomás de Aquino, Maimonides e Avicena. Uma vez que, de acordo com o teísta clássico, por princípio apenas pode haver um Deus, os cristãos, judeus e muçulmanos que adoptam o teísmo clássico devem estar a adorar o mesmo Deus. Não pode ser de outra maneira.

Mas não é verdade que o Cristianismo afirma que Deus é uma Trindade e os muçulmanos o negam? Isto não significa que, na verdade, adoram “Deuses” diferentes? Não necessariamente. Atente-se neste exemplo. Imaginem que o Fred acredita que existem provas convincentes de que Thomas Jefferson teve vários filhos com a sua escrava Sally Hemings e, por isso, o Fred acredita que Jefferson possui a propriedade de “ser pai de vários dos filhos de Hemings”. Por outro lado, o Bob não se deixa convencer por essas provas e acredita que Jefferson não possui essa propriedade de “ser pai de vários filhos de Hemings”.

Não será lógico então dizer que o Fred e o Bob não acreditam no mesmo terceiro Presidente dos Estados Unidos? Claro que não. Da mesma maneira, Abraão e Moisés não acreditavam que Deus era Trindade, mas Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e Billy Graham acreditam. Isso significa que Agostinho, Aquino e Graham não acreditam no mesmo Deus que Abraão e Moisés? Mais uma vez, claro que não. O facto de uma pessoa ter um conhecimento incompleto ou falso sobre outra pessoa – seja humana ou divina – não significa que alguém com informação melhor ou mais completa não esteja a pensar na mesma pessoa.

Por estas razões, seria uma verdadeira injustiça se a Wheaton College fosse despedir a professor Hawkins simplesmente porque quem está a avaliar o seu caso não consegue fazer estas distinções filosóficas subtis, mas importantes.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 17 de Dezembro 2015 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Dogmas Materialistas e Más Conclusões

Francis J. Beckwith
São Tomás de Aquino disse uma vez, citando Aristóteles, que “um pequeno erro à partida pode levar a grandes erros nas conclusões”.

O que isso significa é que, tendo em conta a natureza da razão, se qualquer uma das suas premissas estiver errada, por mais irrelevante que possa parecer para o projecto em geral, as suas conclusões podem acabar por se revelar muito, muito erradas.

Um bom exemplo disto aparece num TED talk que o meu irmão Jim sugeriu que eu visse. Em “O que explica o domínio dos humanos?” o professor Yuval Noah Harari argumenta que o domínio do homo sapiens na terra se explica pela capacidade que os homens têm de construir certas “histórias” sobre “entidades ficcionais” que fornecem os meios para cooperarmos em grandes números. Entre estas entidades encontram-se Deus, os direitos humanos e o valor do papel-moeda.

Embora o professor Harari seja o orador captivante e o seu discurso tenha sido retoricamente atractivo, as credenciais filosóficas da sua tese deixaram-me com mais perguntas do que aquelas a que a teoria consegue responder.

Comecemos por colocar esta questão: Como é que o professor Harari sabe que estas “histórias” sobre o divino, os direitos nacionais e a moeda são “ficções”? Ele não explica. Tudo o que ele faz é partir do princípio que o materialismo é explicação correcta da realidade, isto é, a crença de que as únicas coisas verdadeiras são aquelas que são sujeitas a medição física quantificável.

Eis o que ele diz sobre os direitos humanos:

“Os direitos humanos, tal como Deus e o Céu, são apenas uma história que inventámos. Não são uma realidade objectiva; não são um efeito biológico do homo sapiens. Se pegarmos num Ser Humano e o abrirmos encontramos um coração, rins, neurónios, hormonas, ADN, mas não encontramos quaisquer direitos. Os únicos sítios onde encontramos direitos são nas histórias que inventámos e espalhámos ao longo dos últimos séculos. Podem ser histórias muito boas, muito positivas, mas não deixam de ser apenas ficções que inventámos.”

Ou seja, só porque não conseguimos detectar os direitos humanos (para nem falar em Deus) através das ciências naturais, devemos concluir que estes não fazem parte da “realidade objectiva”. Mas tal como o cantor de country Johnny Lee, que lamentou andar à procura do amor em bares de solteiros e entre amantes dos bons tempos, o professor Harari está a procurar direitos em todos os sítios errados. Para usar o exemplo do filósofo Edward Feser, ele assemelha o “bêbado que insiste em procurar as chaves do carro debaixo do candeeiro da rua, argumentando que esse é o único sítio onde existe luz suficiente para os poder ver”.

Então onde é que devemos procurar direitos? Não é preciso ir mais longe que a própria conferência de Harari. Ao apresentar a sua versão dos acontecimentos como aquela que ele acredita ser verdadeira, está a deixar implícito que aqueles que discordam dele estão errados. Partindo do princípio que o propósito de um argumento, bem como da utilização de provas para sustentar uma explicação, é de chegar à verdade, ou a algo que se aproxima da verdade, segue-se que a pessoa que se encontra equivocada não tem qualquer direito a afirmar que está correcta.

Segue ainda que uma pessoa que ignore as provas, o bom raciocínio e a reflecção cuidadosa, preferindo abraçar os pensamentos positivos, o raciocínio falacioso e as deambulações parvas está a fazer mal a si mesma. Mas apenas podemos dizê-lo se soubermos ao que é que o Ser Humano está ordenado.

Professor Harari
Mas este fim, ou causa final, não pode ser detectado por instrumentos ou pelos métodos das ciências naturais. Se dissecarmos um Ser Humano, para usar o exemplo de Harari, não conseguimos ver em lado nenhum os bens para os quais estamos ordenados. Se, contudo, isso significa que esses bens não constam da “realidade objectiva, então os próprios praticantes da ciência ficam sem qualquer base para condenar a ignorância e louvar a sabedoria, dois juízos cuja veracidade a “história ficcionada” de uma realidade imaterial, a formado Ser Humano. Afinal de contas, apenas podemos concluir que alguém tem uma deficiência se soubermos antes aquilo que é e como deve ser. Daí dizermos que a um cego falta a visão, mas a uma pedra cega nada falta.

As leis da lógica também são centrais para a investigação. Isto é, para poder fazer investigação científica é necessário saber raciocinar, o que significa não violar as leis da lógica. Mas as regras da lógica não são entidades materiais que se possa encontrar dissecando alguma coisa, muito menos um ser humano. Na realidade, as relações entre as premissas de um argumento são lógicas e não espaciais, o que significa que não são objectos físicos. Vejamos uma forma válida de argumento, modus ponens:

Se P, então Q
P
Logo Q

Esta é uma forma válida, não porque as duas premissas sejam, em conjunto, causa física da conclusão, como a bola branca faz mover a bola preta no bilhar. Antes, funciona por necessidade lógica, a conclusão segue-se às premissas.

Essa relação não é física, embora pareça tão real e parte da “realidade objectiva” como a relação entre as duas bolas de bilhar, ou aquilo que se vê quando se disseca um ser humano. Por isso, aqui temos outra razão para rejeitar o materialismo do professor Harari.

A questão é esta: Se alguém vos propuser uma teoria da realidade que exclui aquilo que parece ser evidente, é capaz de ser boa ideia ser céptico em vez de duvidar do senso comum. Por que é, ironicamente, o nosso senso comum – aquilo que acreditamos sobre o bem, a verdade e a beleza antes de reflectir sobre o assunto – que tornam a teorização, mesmo a má teorização, possível.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 15 de Agosto 2015 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Razão é Mais que Meros Argumentos

Francis J. Beckwith
O coração tem razões que a razão desconhece... Chegamos à verdade não só pela razão, mas também pelo coração. – Blaise Pascal (1623-1662)

Há cristãos cujas vidas parecem uma Quaresma sem Páscoa. – Papa Francisco

A minha primeira atracção pela filosofia chegou através da apologética cristã. Desde que me lembro, os aspectos cognitivos da minha fé – e como justificá-los – ocuparam a minha mente. Em 1968, quando os meus pais me perguntaram o que queria para a minha Primeira Comunhão, pedi uma Bíblia. Todos os meus colegas pediram uma medalha ou outra, mas eu fui atraído pelo λόγος. Era um puto católico fora do comum.

Na adolescência abandonei a Igreja e tornei-me evangélico. Sentia-me atraído por autores que se dedicavam a defender as credenciais intelectuais do Cristianismo. Antes de ir para a Universidade de Fordham, em 1984, para fazer o meu mestrado e doutoramento em filosofia estudei numa faculdade evangélica onde tirei um mestrado em apologética.

Ao longo dos anos, como já referi nestas páginas, comecei a discernir em mim o desejo desordenado de tratar as minhas crenças cristãs apenas como dados sobre os quais podia exercer o poder desapaixonado da razão, como se fossem apenas uma colecção de proposições que eu devia comprovar para minha satisfação. Em vez de ver o conjunto das minhas crenças como um aspecto integral mas não exclusivo de uma caminhada que não se pode percorrer sem as virtudes teológicas da fé, esperança e caridade, abordava-as como se não passassem de uma colecção de problemas a resolver.

Comecei também a descobrir que alguns dos meus heróis da apologética evangélica não eram, afinal, pessoas muito simpáticas. Eram intelectualmente brilhantes, claro, e enfrentavam quem fosse preciso com uma variedade de argumentos inteligentes e sedutores. Mas no fim de contas não queria ser como eles. Não obstante os seus apelos por um Cristianismo intelectualmente sério, alguns tendiam a aceitar atalhos intelectuais em vez de dedicar o tempo necessário para pesar paciente e cuidadosamente os argumentos dos seus críticos.

Houve dois, em particular, que à medida que envelheceram se tornaram caricaturas da sua juventude tão promissora. As virtudes que antes os tinham servido tão bem – a juventude, o charme e o raciocínio rápido – começaram a esvanecer na medida em que os vícios, mal contidos na sua juventude, se começaram a realçar. A dada altura deixaram de ser pessoas com mau feitio mas com imensas qualidades, tornando-se velhos zangados, descansando sobre louros antigos.
Razão e coração
Como é evidente tinha muitos outros heróis apologistas que não eram só academicamente brilhantes, mas também decentes e boas pessoas. Ao contrário das primeiras, estas eram pessoas de oração, devoção, grande piedade e caridade pessoal. A sua fé cristã não se podia reduzir a um combate intelectual, possuíam uma maneira de ser atraente e irradiavam um sentido de alegria, contentamento e verdadeira curiosidade intelectual. Queria ser como eles.

Quando reentrei para a Igreja Católica, há quase oito anos, descobri um fenómeno semelhante. Alguns apologistas católicos eram como o primeiro grupo que tinha encontrado quando era protestante: tinham argumentos fantásticos, mas almas feias. Pareciam estar sempre zangados, rejeitando os seus críticos como tolos cegos movidos por má-fé.

Mas os outros, para minha grande alegria, eram como o segundo grupo. Compreendiam que a evangelização não tem a ver com apresentar argumentos aos nossos vizinhos para os ganhar para Jesus; passa por introduzir os nossos irmãos a Jesus através do nosso exemplo para que se sintam atraídos a ouvir os nossos argumentos.

Acredito que seja isto que o Papa Francisco nos esteja a tentar ensinar sobre a Nova Evangelização. Como o próprio escreve na sua exortação apostólica “Evangelii Gaudium”, de 2013: 

É verdade que, na nossa relação com o mundo, somos convidados a dar razão da nossa esperança, mas não como inimigos que apontam o dedo e condenam. A advertência é muito clara: fazei-o “com mansidão e respeito” (1 Pd 3, 16) e “tanto quanto for possível e de vós dependa, vivei em paz com todos os homens” (Rm 12, 18). E somos incentivados também a vencer “o mal com o bem” (Rm 12, 21), sem nos cansarmos de “fazer o bem” (Gal 6, 9) e sem pretendermos aparecer como superiores, antes “considerai os outros superiores a vós próprios” (Fl 2, 3).


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 26 de Setembro de 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Meras crenças ou argumentos racionais?

Francis J. Beckwith
Na passada terça-feira Hadley Arkes levantou uma questão muito importante sobre a forma como o tribunal se referiu às crenças da família Green, os queixosos no caso Hobby Lobby. Tal como noutras ocasiões, a “religião” foi reduzida meramente à invocação de “crenças sinceras”.

Os Green dizem acreditar que a vida humana começa na concepção. Este é um facto básico dos manuais de embriologia, mas aqui aparece reduzido a uma mera “crença”, tal como a própria religião é reduzida a meras “crenças” sem base na razão.

A observação de Hadley é claramente correcta e não se aplica unicamente a esta decisão. Esta é a forma como os especialistas em direito e as elites académicas tendem a caracterizar as crenças religiosas que chocam com a narrativa liberal dominante. Em vez de as encarar como rivais intelectualmente sérias da narrativa liberal do assunto em disputa, a crença religiosa é apresentada como pertencendo a uma categoria inteiramente à parte.

A razão para isto, ao que me parece, é que os críticos de religião pensam, erradamente, que todas as crenças religiosas são apenas consequências da revelação, acessível ao crente através da escritura (como a Bíblia ou o Alcorão) e/ou uma autoridade eclesiástica.

Por isso, para o típico académico secularista, o facto de um católico acreditar que um embrião é verdadeiramente uma pessoa está na mesma categoria que a doutrina da transubstanciação. Por isso para o secularista, tal como a ideia católica do pão e do vinho consagrado é um acrescento religioso à visão científica do pão e do vinho, a visão católica do embrião é um acrescento religioso à visão puramente secular da vida nascente.

Através desta técnica, o secularista consegue dar a entender que se trata de duas matérias incomensuráveis, a fé e a razão, em vez de duas respostas contrárias à mesma pergunta: Será que o embrião é um de nós?

Como Hadley diz, e bem, as conclusões da embriologia são imensamente úteis neste debate. Mas para o secularista mais sofisticado, aquele que aceita a humanidade do embrião, mas nega que tenha o estatuto de pessoa, o activista pró-vida deve recorrer à filosofia, uma vez que é esse também o instrumento a que recorre o secularista para apresentar a sua visão.

O secularista argumenta que aquilo que torna qualquer ser um sujeito moral é a sua capacidade de participar em actos que tipicamente atribuímos a pessoas, como a capacidade de comunicar, autoconsciência, etc. Logo, para este crítico, um embrião não pode ser um sujeito moral, isto é, uma pessoa.


O defensor da vida não nega que uma pessoa possa fazer estas coisas, defende é que não é a capacidade de as fazer que faz do ser humano uma pessoa. Pelo contrário, os actos pessoais são aperfeiçoamentos daquilo que um embrião é, um ser com natureza pessoal. É por isso que um homem cego, inconsciente ou deficiente mental não deixa de ser um homem.

O nosso juízo sobre aquilo que lhe falta depende de sabermos o que é. Logo, para o pró-vida, o embrião é um de nós por causa do que é, não do que faz.

Mas isto significa que a posição da família Green – de que o embrião é, desde a concepção, verdadeiramente um de nós – não resulta meramente de um decreto eclesiástico ou de exegese bíblica, ainda que esteja firmemente ancorada em ambos. Antes, é o resultado do mesmo tipo de raciocínio usado pelos críticos da religião: a análise filosófica de uma realidade empírica.

Logo, a crença dos Green não é mais nem menos “religiosa” que a dos secularistas. Cada um está a oferecer uma resposta para a mesma pergunta, ainda que através de tradições de reflexão filosófica contrárias.

Sendo assim, certos críticos da decisão do tribunal no caso Hobby Lobby, nomeadamente aqueles que a pintam como uma vitória da fé sobre a razão, das duas uma: ou revelam ignorância sobre a natureza da disputa ou sabem que se forem honestos quanto à mesma não estarão a avançar a sua agenda política.

Se for o primeiro caso, então há esperança de um entendimento e de um debate público sério mas respeitoso. Se for o segundo (e temo que seja o caso), então estamos diante de adversários que rejeitam não só a fé, como também a razão. Adiuva nos Domine Deus.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 4 de Julho 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Amor Mais Fraco que o Comércio

Francis J. Beckwith
Até há pouco tempo o casamento era concebido universalmente como sendo constituído de três características essenciais: conjugalidade, permanência e exclusividade. As leis em vigor reflectiam, no geral, este conceito.

A conjugalidade refere-se à forma como o casamento é consumado: coito entre esposos masculino e feminino. A permanência refere-se ao facto de o casamento não poder ser dissolvido (ou anulado) sem que certas condições específicas sejam cumpridas ou um dos parceiros morra. A exclusividade refere-se ao facto de os esposos não poderem ter relações de intimidade sexual fora do casamento.

A conjugalidade só é uma condição devido à natureza da relação sexual, que se destina à criação de prole através da união dos dois corpos. É por isso que apertos de mão, abraços, beijinhos e outras formas de toque, penetração ou intimidade não preenchem este requisito.

É também por isto que é errado dizer-se que todas estas outras formas de relacionamento são indistinguíveis daqueles actos conjugais que, devido a doença ou idade, não podem gerar filhos. Estes actos, embora estéreis, não deixam de ser actos conjugais, da mesma maneira que um homem não deixa de ser um animal racional só porque se encontra em coma e deixou de poder exercer as suas faculdades racionais.

Tal como o doente ainda possui dignidade humana apesar de não conseguir exercer as suas capacidades humanas, o acto conjugal estéril entre um marido e a mulher possui a mesma dignidade, precisamente porque actualiza a mesma união misteriosa e profunda que é, pela sua natureza, ordenada para a criação de uma pessoa única e insubstituível que, literalmente, encarna a união.

Dada a natureza sagrada da conjugalidade, um conceito que em tempos era aceite sem qualquer controvérsia por praticamente toda a gente, a exclusividade e a permanência fazem todo o sentido, especialmente para quem acredita que as crianças não só se criam melhor com, como têm direito a, um pai e uma mãe, ligados um ao outro sob a autoridade de uma aliança cujos contornos não têm competência para dissolver ou mudarem meramente pelo consentimento.

Claro que tudo isto – conjugalidade, permanência e exclusividade – já não é um dado adquirido e, para muitos dos cidadãos cuja moral se formou na cultura pós anos 60, pode parecer literalmente incompreensível.

Com a entrada em vigor das leis de divórcio sem culpabilidade, no início dos anos 70, a permanência começou a dissipar. A exclusividade seguiu rapidamente o mesmo caminho. A revolução sexual trouxe consigo não só o desvendar da moral que condenava a fornicação, mas também os conceitos de “swinging”, casamentos “abertos” e mesmo o poliamor. As violações da exclusividade começaram a ser vistas não como intrinsecamente erradas, mas erradas apenas na medida em que os esposos não davam o seu consentimento.

Sem grandes surpresas, estas mudanças levaram à proliferação de nascimentos fora do casamento, mães solteiras (com filhos de uma variedade de pais diferentes), famílias destroçadas e famílias mistas.
 
Casamento moderno: Um esqueleto do que já foi
Consequentemente, não permaneceu nada de especial no casamento. Todas as relações podem, em princípio, ser quebradas, religadas ou removidas desde que exista consentimento dos adultos envolvidos. Contudo, aqueles que não podem consentir, como as crianças, podem ser eliminadas (através do aborto) ou, como qualquer propriedade comum, distribuídos de forma equitativa pelas partes interessadas através de procedimentos judiciais.

Dada esta trajectória, porque é que a conjugalidade há-de se manter? É precisamente isso que insinua a retórica de quem apoia o reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Isto faz todo o sentido para muitos dos nossos concidadãos, à luz da sua experiência pessoal de terem crescido numa cultura em que lhes foi ensinado que o “casamento” é um artefacto moldado pela nossa vontade e não uma instituição sagrada que não inventámos e à qual as nossas vontades e os nossos corpos ficam sujeitos quando a ela aderimos.

O que nos leva a uma das grandes ironias do nosso tempo. Recentemente um pasteleiro no Colorado foi avisado pelo Estado de que não se podia recusar a fazer e decorar um bolo para um casal do mesmo sexo que se tinha “casado” no Massachusetts, mas ia fazer a festa no Colorado onde, actualmente, essas uniões não são reconhecidas. O pasteleiro tinha-se recusado, por não poder, em consciência, apoiar materialmente um evento litúrgico que as suas crenças teológicas consideram gravemente imoral.

Estranhamente, com o fim das condições de exclusividade e permanência, e agora de conjugalidade, esta decisão significa que cada parceiro de um casamento legalmente reconhecido (ou união de facto) tem literalmente menos obrigações legais um para o outro do que o pasteleiro tem para com o casal. Aparentemente, o Estado acredita que a preservação da relação entre o pasteleiro e o “casal” homossexual é de maior importância para a causa da justiça pública do que fazer o mesmo para as relações que afirma estar a defender.

Dito de outra maneira: É mais difícil para um pasteleiro no Colorado deixar os seus clientes, do que os parceiros num “casamento” homossexual no Massachusetts deixaram-se um ao outro.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 20 de Junho de 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Mero Consentimento e o Fim da Dignidade Humana

Francis J. Beckwith
O que é que torna a escravatura moralmente errada? Há duas décadas que coloco esta questão aos meus alunos de ética.

A questão não é saber se a escravatura é moralmente errada, concordamos quanto a isso. O que pergunto é qual é a característica da escravatura que justifica o nosso juízo de que é moralmente errada. É como a diferença entre perguntar se a Pietà de Miguel Ângelo é bela, e perguntar porque é que é bela. A segunda questão presume que a resposta à primeira é “sim”, pelo que a segunda pretende justificar o porquê desse “sim”.

A resposta que recebo de quase todos os meus alunos é de que “os escravos não consentiram”. Mas, como rapidamente se apercebem, essa resposta não é capaz de satisfazer as suas mais profundas intuições sobre o mal da escravatura. Normalmente pergunto: E se os historiadores descobrissem um grupo de ex-escravos, nos anos seguintes à Guerra Civil, saudosos da vida que levavam na plantação? Como é que reagiríamos perante uma revelação dessas?

Aceitaríamos que uma situação destas pudesse desembocar num caso de escravatura moralmente aceitável, em que os ex-escravos consentiam em regressar ao seu estado anterior, para se tornarem novamente, à luz da lei, nada mais que a propriedade de outro?

Se a sua resposta for afirmativa, então acredita que a escravatura é só condicionalmente errada, que não há nada de intrinsecamente errado na prática. Por isso, mesmo que continue a condenar a prática, o fundamento sobre o qual essa condenação assenta – a noção de consentimento – implica que não há nada na essência da natureza do Ser Humano que nos impeça de sermos propriedade de alguém.  

Por isso, Segundo esta análise, o mal da escravatura depende não de quem são as vítimas, mas antes, do que as vítimas querem. Sugere que a ausência de vontade, e não a presença de dignidade, é que está por detrás da nossa condenação da escravatura.

Porém, hoje muitos sugerem que no que toca a algumas das grandes questões morais do nosso tempo, a autonomia individual (ou “consentimento”) é o único princípio de que precisamos para assegurar todos os bens que até agora têm sido vistos sob o prisma de conceitos mais antigos, como a dignidade humana.

Por exemplo, o psicólogo de Harvard, Steven Pinker, escreve num ensaio recente no New Yorker, sob o título provocador de “A Estupidez da Dignidade”:

O problema é que “dignidade” é uma noção mole e subjectiva, incapaz de suportar as exigências morais que lhe são atribuídas. Ruth Macklin argumenta que a bioética tem-se aguentado lindamente só com o princípio da autonomia pessoal – a ideia de que, uma vez que todos os humanos têm a mesma capacidade mínima de sofrer, prosperar, raciocinar e escolher, nenhum humano tem o direito de impingir sobre a vida, corpo ou liberdade de outro. É por isso que o consentimento serve de base sólida para a investigação ética e impede claramente o tipo de abuso que levou ao nascimento da bioética, tal como as pseudo-experiências sádicas de Mengele na Alemanha Nazi (...). Quando se reconhece o princípio da autonomia, argumentou Macklin, a “dignidade” não acrescenta nada.

Embora haja muito a responder a Pinker, tal como fiz num artigo de 2010, publicado na revista “Ethics & Medicine”, bastará aqui utilizar o mesmo tipo de raciocínio que emprego com os meus alunos quando lhes pergunto sobre a escravatura.

Errado? Claro. Mas porquê?

E se, por exemplo, descobríssemos os diários de cidadãos alemães que se submeteram voluntariamente às experiências nazis a troco de somas avultadas de dinheiro para os seus familiares? O consentimento destas vítimas voluntárias tornaria aceitáveis as pseudo-experiências de Mengele?

Se a resposta for não, então só pode ser porque estas actividades são intrinsecamente más, e que a sua natureza não depende, por princípio, no consentimento de quem nelas participa, seja como vítima ou agressor. Logo, ao contrário do que afirma Pinker, a noção de dignidade não só acrescenta algo, como o mero consentimento subtrai tudo.

Claro que não estou a sugerir que o consentimento é irrelevante para a ética. É essencial, por exemplo, para averiguar a licitude de um casamento e o conceito de coacção injusta é uma realidade. Antes, o que eu argumento é que a vida moral não pode ser reduzida ao mero consentimento, como muitos dos nossos contemporâneos, como Pinker, defendem.

Como já vimos, quando aplicamos esta redução a atrocidades reais, a nossa atenção desvia-se daquilo que parecia verdade à primeira vista – a dignidade intrínseca da pessoa humana – para a alternativa que a mente moderna pensa que pode impor sem mais nem menos: a vontade condicional do indivíduo.

A implicação desta posição é clara: não existe qualquer bem para o qual o homem está ordenado e ao qual a nossa vontade deve conformar-se. O bem é meramente aquilo que preferimos e para o qual direccionamos a nossa vontade. Mas, nesse caso, não possuímos dignidade intrínseca, uma vez que essa seria sempre um bem, independentemente da nossa vontade, à qual as nossas preferências se deviam sujeitar.

De facto, a noção de mero consentimento implica o fim da dignidade humana.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 23 de Maio de 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

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