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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Sacramentos e Hipócritas

“E nós a confessar-nos a estes tipos.” Com esse o comentário, a minha falecida avó revelava um momento de severa lucidez no meio da sua demência, enquanto via uma reportagem sobre o primeiro escândalo de abusos sexuais por parte do clero, em 2002. A minha avó era uma católica nova-iorquina, de ascendência irlandesa, que em toda a sua vida não faltou à missa um único domingo. Em relação ao fragilizado e quase esquecido sacramento da confissão, aposto que não foi a única a pensar desta maneira.

Dezasseis anos mais tarde esta nova ronda de escândalos clericais e episcopais volta a infligir diversas feridas no coração: os danos irreparáveis às vítimas, a cumplicidade com o pecado, o cheiro nauseabundo do abuso de poder. Com cada facada no coração vem também um murro no estômago: aqueles que têm por função convidar-nos a viver uma vida moral – e chamar-nos à atenção se falharmos – têm estado a viver uma vida dupla.

Poucas coisas fazem os homens e as mulheres comuns perder a cabeça mais do que a hipocrisia, e os padres e bispos abusadores são, possivelmente, os piores dos piores hipócritas.

Então porque é que havemos de continuar a ir confessar-nos a um padre, quando é bem possível que ele tenha manchas ainda mais feias que as nossas na sua alma? Quem é ele para me ensinar a viver?

A resposta: Ele não é ninguém. E é precisamente por isso que podemos, e devemos, continuar a confessar os nossos pecados a padres, semana após semana, mês após mês, ano após ano.

Quando Cristo edificou a sua Igreja sobre os apóstolos, não foram as suas capacidades humanas que a fizeram funcionar e crescer. Daquilo que a Sagrada Escritura nos diz sobre os apóstolos, a Igreja não teria sobrevivido um único dia se fosse esse o caso. Pelo contrário, Cristo concedeu a estes homens os seus poderes divinos para usarem: “Soprou sobre eles e disse-lhes, ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, lhes serão retidos’” (João 20, 22-23).

O poder infalível que Deus confiou à Igreja através de Cristo transcende os limites das mãos falíveis a quem é confiado através do sacramento da ordem. No confessionário o padre não age pela sua autoridade, mas pela da Igreja, para cujo serviço foi consagrado. Quando confessamos os nossos pecados, não é o padre quem nos perdoa, mas Cristo que age através dele. A identidade ou os actos do padre não inibem a graça que Deus nos quer dar através dos sete sacramentos que estabeleceu.

É essencial compreender que a Graça de Deus que os Sacramentos nos transmitem não depende do estatuto do transmissor, pois isso recorda-nos que a nossa Igreja é de Cristo, e não dos homens. Mas, ao mesmo tempo, continua a existir ao nível humano um sentimento de desilusão. Não queremos apenas saber que os nossos pecados foram perdoados, ou que recebemos a graça de Deus, embora isso nos deva bastar, queremos também sentir o amor de Deus.

Não há como negar que participar numa missa ou receber a absolvição de um padre santo e devoto é muito mais edificante, espiritualmente e pessoalmente, do que uma missa transformada num espetáculo de folclore, ou a confissão a um padre distraído ou mal-educado. Normalmente não podemos alcançar o divino sem o representante humano. O nosso desafio é não permitir que o humano nos desencaminhe do divino.

Jesus mostrou estar bem ciente desta dificuldade durante o seu ministério. Criticou ferozmente os fariseus da sua altura por causa da sua hipocrisia, chamando-os tolos cegos, serpentes, ninho de víboras e túmulos caiados. Mas por entre essas denúncias incríveis, Jesus chama-nos a obedecer. “Os escribas e os fariseus sentam-se no trono de Moisés, por isso façam e observem o que eles vos dizem” (Mat. 23, 2-3).

Obedecemos por causa do seu cargo, não por quem são como indivíduos nem pela forma como se comportam. Jesus é claro: Façam os queles dizem, não o que eles fazem.

Por isso devemos obedecer aos mandamentos morais e espirituais que Cristo deixou à sua Igreja, para passar às gerações seguintes. Devemos permanecer castos, confessar os nossos pecados a padres quando falhamos e receber o perdão de Deus através do sacramento da cura que o padre administra – independentemente de o padre no confessionário ser um santo ou um malandro, celibatário ou hipócrita.

E que fazer quando o elemento humano em nós tiver dificuldades em ultrapassar a hipocrisia, a banalidade ou a má educação que possamos encontrar? Como é que havemos de responder a estes fatores externos que dificultam o nosso caminho para o divino?

Talvez este seja o desafio de Deus para os leigos desta época: Ele está a purificar a nossa fé, mostrando-nos que a fé é mais do que apenas sentimentos, emoções e agradáveis interações humanas. A verdadeira fé consiste na confiança em Deus, assente na certeza de que Ele nos ama e quer dar-nos a sua graça. A verdadeira fé requer a nossa aceitação da Cruz e na Cruz não existe consolo humano, apenas a nossa fé de que Deus está connosco.  

E independentemente de como nos sentimos, sabemos que a nossa fé não é vã.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018 no The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Sermão Pascal sobre os Sacramentos

“Vocês mesmos são aquilo que recebem.”

A minha promessa não foi esquecida. Prometi àqueles de vós que foram baptizados, um sermão para explicar o sacramento da mesa do Senhor, que agora podem ver, e da qual partilharam na noite de ontem. Devem saber aquilo que receberam, aquilo que estão prestes a receber, o que devem receber todos os dias.

O pão que podem ver no altar, santificado pela palavra de Deus, é o corpo de Cristo. O cálice, ou melhor, o que o cálice contém, santificado pela palavra de Deus, é o sangue de Cristo. Foi por meio destas coisas que o Senhor Cristo quis apresentar-nos o seu corpo e o seu sangue, que derramou por nós, para o perdão dos pecados.

Se receberem bem estas coisas, vocês mesmos são aquilo que recebem. Sabem, o apóstolo diz que nós, sendo muitos, somos um pão, um corpo (1 Cor. 10, 17). É desta forma que ele explica o sacramento da mesa do Senhor; um pão, um corpo, é o que todos somos, por mais que sejamos.

Neste pão é-vos dado a perceber claramente o quanto devem amar a unidade. Acaso este pão foi feito de um só grão? Não foram muitos os grãos de trigo? Mas antes de se unirem no pão, cada um era separado; foram juntados por meio da água e de bater e esmagar. Se o trigo não for moído, afinal de contas, e amolecido com água, não se pode pôr neste formato, a que se chama pão.

Da mesma forma, também vocês foram moídos e batidos, por assim dizer, pela humilhação do jejum e o sacramento do exorcismo. Depois veio o baptismo e foram, por assim dizer, amolecidos pela água para poderem ser moldados na forma de pão. Mas não é pão ainda sem o fogo para o cozer. Então o que significa o fogo? É o crisma, a unção. O óleo, que alimenta o fogo, como vêem, é o sacramento do Espírito Santo.

Reparem nisso quando lemos os Actos dos Apóstolos; começamos agora a ler esse livro. Hoje começa o livro a que chamamos os Actos dos Apóstolos. Quem quiser progredir tem assim os meios para o fazer.

Quando se reunirem na Igreja, ponham de lado as histórias tontas e concentrem-se nas Escrituras. Aqui somos os nossos livros. Por isso prestem atenção e vejam como o Espírito Santo virá no Pentecostes. E é assim que ele virá; mostrar-se-á em línguas de fogo.

Santo Agostinho e Santa Mónica
Reparem que ele insufla-nos daquela caridade que nos deve fazer arder por Deus, fazendo-nos pensar pouco do mundo, queimar a palha e purgar e refinar os corações como ouro. Por isso o Espírito Santo vem, fogo após água, e são cozidos como pão, é o corpo de Cristo. E é assim que se representa a unidade.

Agora têm os sacramentos pela ordem em que ocorrem. Primeiro, após a oração, são convidados a elevar os corações; é assim que deve ser para os membros de Cristo. Afinal de contas, se vocês se tornaram membros de Cristo, onde está a vossa cabeça? Os membros têm cabeça. Se a cabeça não tivesse ido antes em frente, os membros não lhe seguiriam.

Onde foi a nossa cabeça? O que é que pronunciaram no Credo? Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus e está sentado à direita do Pai. Por isso a nossa cabeça está no céu. É por isso que, depois das palavras, “corações ao alto”, respondemos, “o nosso coração está em Deus”.

E não devem atribuir isso ao vosso poder, aos vossos méritos, aos vossos esforços, este elevar do coração ao Senhor, porque é pelo Dom de Deus que devem ter o coração no alto.

É por isso que o bispo, ou o presbítero que oferece, depois de termos respondido “o nosso coração está em Deus”, continua dizendo “demos graças ao Senhor nosso Deus”, porque os nossos corações foram elevados ao alto. Demos graças, porque se Ele não nos tivesse permitido elevá-los, os nossos corações continuariam cá em baixo na terra. E vocês afirmam a vossa concordância, dizendo “é nosso dever, é nossa salvação” dar graças ao que nos levou a erguer os nossos corações ao nível da nossa cabeça.

Então, depois da consagração do sacrifício de Deus, porque ele quis que nós próprios fôssemos o seu sacrifício, como é indicado por onde o sacrifício foi colocado em primeiro lugar, que é o sinal da coisa que somos; é por isso que, feita a consagração, rezamos a oração que o Senhor nos ensinou, que vocês receberam e pronunciaram.

Depois disso vem o cumprimento, “a paz esteja convosco”, e os cristãos beijam-se uns aos outros com um beijo sagrado. É um sinal de paz; o que é indicado pelos lábios deve acontecer na consciência; isto é, tal como os seus lábios se aproximam dos lábios do seu irmão ou da sua irmã, assim os vossos corações não se devem retrair dos deles.

São, por isso, grandes sacramentos e sinais, sacramentos verdadeiramente sérios e importantes. Querem saber como a sua importância é-nos incutida? O apóstolo diz, “Portanto, qualquer que comer este pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor” (1 Cor 11,27).

O que significa receber indignamente? Receber com desprezo, receber com escárnio. Não se deixem pensar que aquilo que podem ver não interessa. O que conseguem ver passa, mas a realidade invisível que é significada não passa, mas permanece.

Vejam, é recebido, é comido, é consumido. O corpo de Cristo é consumido? A Igreja de Cristo é consumida? Os membros de Cristo são consumidos? Deus nos livre! Aqui estão eles a ser purificados, ali serão coroados com os louros da vitória.

Por isso aquilo que é significado permanece eternamente, embora aquilo que significa parece passar.

Por isso recebam os sacramentos de tal modo que não pensem em vocês mesmos, mantendo a unidade nos corações, elevando sempre os corações ao alto. Que a vossa esperança não esteja na terra, mas no Céu. Que a vossa fé esteja firme em Deus, que seja aceitável para Deus. Porque aquilo em que crêem, sem ver, verão ali, onde terão alegria, sem fim.

– Proferido c.411-415


St. Agostinho (354-430) nasceu na actual Argélia. Depois de uma juventude desregrada, tornou-se um católico fiel, por influência da sua mãe, Santa Mónica, e do seu professor, Santo Ambrósio de Milão. Dois dos seus livros, “Confissões” e “A Cidade de Deus” são considerados dos maiores exemplos de apologética cristã.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo de Páscoa, 1 de Abril de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Lisboa já tem Laetitia

Lisboa já tem orientações para a aplicação do Amoris Laetitia. Saiba tudo aqui.

Foi lançada a mensagem de Quaresma do Papa Francisco, em que ele alerta para “os falsos profetas” e os riscos de um “coração frio”.

A renúncia quaresmal deste ano em Vila Real será para combater a “miséria envergonhada” e para “bolsas de estudo”, diz o bispo.

Conheça a aula de iconografia cristã a que nem a Judiciária faltou.

O Bloco apresentou hoje o seu projecto sobre a eutanásia e o PS, que evidentemente não quer ficar atrás, disse que também o vai fazer. O PCP é que continua a não mostrar a mão

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Afinal de contas o que é que diz o Amoris Laetitia sobre divorciados recasados?

Recebi o texto completo da exortação apostólica Amoris Laetitia no início da tarde de quinta-feira, ainda com embargo, obviamente, e estive a lê-lo e a escrever sobre ele até às 4h.

Quando acabei de ler o capítulo VIII fiquei sem qualquer dúvida de que o Papa Francisco acabava de legitimar que algumas pessoas em situação matrimonial irregular podem vir a ser admitidas aos sacramentos.

Mas nem toda a gente achou o mesmo.

Só hoje tive oportunidade para fazer uma leitura mais alargada das reacções no resto do mundo. Para além dos muitos órgãos de informação que claramente não pescaram nada do que estava escrito no documento e por isso fizeram títulos genéricos, noto algumas tendências claras.

Por um lado há os liberais que sempre foram a favor de que os divorciados recasados fossem admitidos aos sacramentos e que não perderam tempo em dizer que era precisamente isso que o Papa tinha acabado de fazer.

Por outro lado, há os que não concordam que os divorciados recasados sejam admitidos aos sacramentos e, como o Papa nunca o diz claramente no texto, vieram dizer que afinal tinha ficado tudo na mesma.

Interessantemente há ainda outra classe de conservadores que lendo o texto admitiram, nalguns casos horrorizados, que o Papa acabava de abrir uma via para que pessoas em situação irregular possam comungar.

Claro que isto não são categorias estanques. Haverá certamente muitos que, como eu, ao longo dos últimos dois anos acharam que não seria possível o Papa chegar a esta conclusão, mas que agora, perante esta exortação, não têm problemas em compreender que o Papa é ele, e não eu, e por isso aceitam com filial obediência o que Francisco escreve.

Mas para isso é preciso primeiro compreender o que é que ele escreve…

A chave, para mim, está nesta passagem: “A Igreja possui uma sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”.

Não há dúvida que o Papa está a falar de casos irregulares. São os tais divorciados recasados (podendo ser que apenas uma das partes tenha sido casada pela Igreja). Não sei se as pessoas em união de facto poderiam também estar abrangidas.

Que o Papa diz que algumas das pessoas nestas situações podem não estar em pecado mortal é também claro. Ora, se uma pessoa não se encontra em pecado mortal, se não está privado “da graça santificante”, então porque é que não pode comungar?

A lógica da proibição anterior era simples. Quem está numa situação irregular comete adultério, o adultério é um pecado mortal, quem está em pecado mortal não pode comungar. Simples. Dizendo que há quem não esteja em pecado mortal interrompe esta sequência lógica.

Há quem coloque objecções. Alguns dizem que embora o Papa fale na necessidade de se integrar as pessoas nestas situações, nunca se refere explicitamente à disciplina sacramental. Mas isso não é verdade. No ponto 305 Francisco diz: “por causa dos condicionalismos ou dos factores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio de uma situação objectiva de pecado – mas subjectivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja.”

O tipo de ajuda está explicitado numa nota de rodapé: “Em certos casos poderia haver também a ajuda dos sacramentos. Por isso, aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do senhor e de igual modo assinalo que a Eucaristia não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos”.

Não é por isso verdade que Francisco não se refira explicitamente à disciplina sacramental. E pergunto: Neste contexto, nesta exortação, a que mais é que o Papa se poderá estar a referir do que ao acesso de algumas pessoas em situação irregular aos sacramentos? Que mais é que isto poderia querer dizer?

Ainda assim, há quem avance outra teoria. Dizem que o Papa está simplesmente a referir-se a pessoas que, vivendo num casamento aparentemente irregular, cumprem o requisito da castidade, vivendo “como irmãos” e por isso podem comungar e confessar-se. Isto não será então uma novidade, já existe há anos.

Mas também não me parece provável. Por duas razões. Primeiro, porque viver na mesma casa que alguém não é adultério nem pecado. Por isso, se Francisco estivesse a falar destes casos, não faria sentido falar numa “situação objectiva de pecado”, porque de facto as pessoas nessa situação não estão em pecado.

Mas há mais. O Papa fala de facto sobre as pessoas que vivem “como irmãos”, novamente numa nota de rodapé do parágrafo 298, e não é propriamente uma referência muito entusiástica. “Nestas situações, muitos, conhecendo e aceitando a possibilidade de conviver ‘como irmão e irmã’ que a Igreja lhes oferece, assinalam que, se faltam algumas expressões de intimidade, ‘não raro se põe em risco a fidelidade e se compromete o bem da prole’”.

O facto de, já no final do texto, o Papa escrever “compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma; mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade”.

O que é isto se não uma admissão de que aquilo que o Papa acaba de propor é uma pastoral que permite soluções diferentes para diferentes situações? O que tínhamos antes era claro. Se agora não é, é porque mudou. E mudou para ficar tudo igual mas com termos mais confusos? Não me parece…

Dito tudo isto não quero deixar de sublinhar que esta exortação é muito mais do que apenas o capítulo VIII. Leiam-no, porque vale a pena. Leiam-no com calma e, de preferência, em grupos onde seja possível fazer uma discussão informada e bem-intencionada.

Na Renascença podem ler ainda a cobertura completa sobre a exortação e aqui, mais especificamente, o artigo com a análise do capítulo VIII.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Recasados podem comungar? Parece que sim, mas talvez não


O tema que está a atrair mais atenções, claro, é sobre os divorciados recasados. Francisco diz claramente que é possível estar numa situação irregular sem estar em pecado mortal. A meu ver esta é a chave de leitura desse capítulo e não me parece deixar margem para dúvidas que o Papa está a abrir caminho para que algumas pessoas nessas situações comunguem. Nem todos concordam, nada como ler por si mesmo.


Seria uma pena, porém, que a excessiva atenção sobre esse ponto acabasse por esconder outros também muito interessantes.
- Uma longa exposição, muito pessoal, sobre a educação, incluindo educação sexual e crítica aos estereótipos masculinos e femininos;
- Defesa da natalidade e rejeição da ideia de que a emancipação da mulher seja culpada pela crise das famílias

Por fim, e talvez surpreendentemente, há muito pouco na exortação sobre homossexualidade.

O padre Duarte da Cunha, que participou no sínodo de 2015, diz que a exortação vai mudar atitudes na Igreja e a terapeuta familiar e psicóloga Teresa Ribeiro elogia a profundidade das passagens sobre amor e educação.

Com tudo isto, poderá ter passado despercebida a repetida e enfática condenação dos bispos portugueses à eutanásia e ainda a confirmação da visita do Papa a Lesbos, no dia 16 deste mês.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing e, se tiverem por Cascais e interessados em saber mais sobre a cultura do Perdão podem ir ouvir-me falar às 16h na Igreja dos Navegantes, na jornada diocesana da juventude.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Cada cabeça sua sentença, incluindo a minha

Peregrinos acendem velas em Fátima, ontem à noite
A conferência de imprensa do sínodo sobre a família desta terça-feira foi reveladora das diferenças de opinião que existem entre os presentes. O monge beneditino alemão, a consagrada ruandesa e a teóloga canadiana foram questionados sobre as “questões fracturantes” e cada um deu uma resposta diferente.

Sobre uma destas “questões fracturantes” escrevi eu um texto no blog, que vos convido a ler e, se for caso disso, criticar, porque este é um assunto que continua a dar muito que falar.

Há sítios no mundo onde a existência do Cristianismo está ameaçada. Essa é uma das conclusões do relatório anual da fundação Ajuda á Igreja que Sofre, apresentada hoje em Lisboa.

Centenas de milhares de pessoas resistiram à chuva ontem à noite e estiveram presentes no Santuário de Fátima, cujo reitor considera que “o poder político continua a envergonhar-se” do local de peregrinação.

Um importante documento português, um livro de comentários e iluminuras do Apocalipse, foi considerado “memória do mundo” pela UNESCO.

Acesso aos sacramentos para divorciados recasados – revisitado

Concílio de Trento
O ano passado escrevi dois textos sobre este assunto, um primeiro em que levantei uma hipótese de como se poderia arranjar forma de permitir o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares sem pôr em causa a questão da indissolubilidade, nomeadamente “baixando a fasquia” para acesso aos sacramentos, permitindo assim que pessoas em situação de pecado pudessem comungar. Esse texto motivou uma discussão viva e interessante que me levou a escrever um segundo artigo, em que concluí que afinal não me parecia possível fazer-se essa alteração sem, de alguma forma, contrariar a doutrina da Igreja.

Este texto não pretende voltar aos mesmos argumentos, nem apresentar uma ou outra solução, mas apenas levantar algumas questões interessantes que me parece estarem a passar ao lado da maioria dos debates.

Li recentemente o artigo do Padre Miguel Almeida s.j. na mais recente edição da Brotéria, que achei muito interessante. O padre Miguel parece defender o acesso dos divorciados recasados aos sacramentos e embora não me tenha deixado convencido das suas conclusões, convenceu-me de muitos outros pontos pelo caminho.

Os conservadores invocam constantemente – e de forma compreensível – as palavras de Jesus aos seus discípulos “Não separe o homem o que Deus uniu”. Contudo, ainda nos tempos apostólicos aparece evidente que São Paulo, por exemplo, achou-se na liberdade de abrir excepções a estas palavras duras.

Recordo que Jesus não estava a falar especificamente de casamentos cristãos sacramentais. Pelo contrário, estava a falar especificamente de casamentos judaicos, que não eram então, nem são hoje, sacramentais do ponto de vista cristão. Mas o casamento é uma instituição natural e o que Jesus nos diz é que qualquer casamento é, seja sacramental ou não, algo que Deus uniu e que o homem não deve separar. Isto não se aplica a cristãos que optem conscientemente por não casar pela Igreja, mas só pelo civil, mas aplica-se a um casal de hindus, a um casal de aborígenes, de esquimós ou de neo-pagãos da Suécia.

No entanto a Igreja desde cedo permite o chamado privilégio paulino, em que a Igreja usa do seu poder para “ligar e desligar” para dissolver o casamento natural entre dois não-baptizados quando uma das pessoas pretende tornar-se cristã e casar novamente dentro da fé.

Há outros casos levantados no artigo, já do conhecimento dos historiadores e teólgos, que são debatidos para trás e para a frente, mas parece-me que este exemplo do privilégio paulino é indiscutível e claro e abre desde já uma premissa: Se se pode abrir uma excepção ao que Jesus disse, então os Papas e os sucessores dos apóstolos podem abrir outras excepções.

Isto é basicamente o que os ortodoxos já fazem. Mas isso não é, ou parece não ser, o que os defensores da abertura do acesso aos sacramentos para recasados defendem, uma vez que eles não propõem que a Igreja aceite a celebração de novos casamentos. Ora aqui é que se dá um salto lógico que eu não entendo, porque se no privilégio paulino se aceita a dissolução do casamento, permite-se às pessoas regularizar a sua situação, casando novamente. Isto sim, pode ser apresentado como misericórdia. Mas a opção de simplesmente deixar andar a situação da segunda união não resolve o problema de fundo. Aquelas pessoas, por duras que sejam as palavras, estão em situação de adultério e, por isso, em pecado grave e é isso que as impede de comungar.

A solução apenas poderia passar, a meu ver, pela dissolução oficial do primeiro casamento, invocando o poder apostólico de ligar e desligar, para que a segunda união fosse regularizada. Mas aqui chegamos a outro obstáculo, que raramente vejo abordado nestas discussões.
Casamento - uma realidade natural

O Concílio de Trento diz o seguinte no seu cânone VII sobre o sacramento do matrimónio. “Se alguém disser que a Igreja erra quando ensina, segundo a doutrina do Evangelho e dos Apóstolos, que não se pode dissolver o vínculo do Matrimónio pelo adultério de um dos consortes, e quando ensina que nenhum dos dois, nem mesmo o inocente que não deu motivo ao adultério, pode contrair outro matrimónio, vivendo com outro consorte, e que cai em fornicação aquele que casar com outra, deixada a primeira por ser adúltera, ou a que deixando o adúltero se casar com outro, seja excomungado.”

Aqui quase que vejo algumas pessoas a levar a mão à cabeça em desespero: “Mas então ele vai buscar os cânones de um concílio do século XVI? O que é que isso interessa?”

Mas interessa muito, a meu ver, porque é isto que nos torna católicos. Ou nós acreditamos que o Espírito Santo inspira as decisões dos bispos quando falam em união com Pedro ou não acreditamos. Não podemos dizer que o fez em 1963 e que o fez no conclave de 2013 mas que em 1563 não esteve para isso. É por isso que insistimos que não se pode mudar a doutrina, porque estamos ligados ao que herdámos. Se nos desligarmos disso não há nada que impeça os nossos filhos e netos de se desligarem de tudo o resto, não há nada que impeça a minoria de contestar a eleição do próximo Papa e o resto conta-se em cismas.

Tudo isto para dizer que, do meu ponto de vista, quem defende o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares tem de me demonstrar pelo menos uma das seguintes premissas:

1)            Que o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em estado de pecado grave – como é o adultério – não contraria a doutrina estabelecida.
2)            Que é possível contrariar directamente o cânone VII sobre o casamento do Concílio de Trento sem que isso implique uma ruptura com a doutrina do casamento.

Digo isto com a plena consciência de não ser teólogo e de, por isso, não ser especialista. Os especialistas que o vejam como um convite a desmascarar a minha profunda ignorância sobre o assunto, que assim todos ficamos a ganhar!

Peço, por favor, que nada disto seja lido como uma crítica ou um juízo de valor aos muitos casais que se encontram nesta situação e que sofrem com isso. Todos temos amigos, irmãos, pais ou tios que se encontram nessa posição. Pretendo apenas aqui contribuir para o debate, dentro daquilo que é a tradição católica, que devemos preservar.

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