Mostrar mensagens com a etiqueta Michael Pakaluk. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Michael Pakaluk. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Oração e Ascese

Michael Pakaluk
Se estiver a pensar quantos minutos de exercício é que devia fazer por dia para manter-se saudável, talvez já saiba que a resposta é 30 minutos. Mesmo que não soubesse, não duvidaria que existe uma resposta objectiva, e saberia onde a procurar (por exemplo, através do Ministério da Saúde).

E compreenderia que esse número corresponde a um mínimo. Alguém que precisa de perder peso, ou um atleta em treino, teria de fazer muito mais que isso. Mas compreenderia esta ideia do que, objectivamente, uma pessoa precisa para se manter saudável. Viver bem implica conseguir encaixar pelo menos 30 minutos de actividade vigorosa no seu dia. Todos sentimos e compreendemos isto, de forma implícita.

Mas eu gostaria de colocar a pergunta equivalente em relação à alma. Dizemos que existe uma alma, e que o corpo representa, de várias formas, a alma. Existe a actividade da alma, em como força e saúde. Por isso parece evidente que se possa colocar a pergunta: quantos minutos por dia é que devia exercitar a minha alma para uma boa saúde espiritual? Mas neste campo, embora seja muito mais importante, tendemos a pensar que não existe resposta objectiva e que não saberíamos bem a quem perguntar se precisássemos de uma indicação.

Repare que me estou a referir a tempo que “pomos de parte”. Claro que há esforços físicos que fazem parte do dia-a-dia – ir a pé para o trabalho, levantar sacos de compras, etc., e é bom que a nossa vida inclua estas coisas. Da mesma forma, podem existir actos de “exercício espiritual” nas actividades diárias. Mas eu estou-me a referir a períodos de tempo que são apenas para exercício corporal ou espiritual.

Vejamos a questão desta forma. Pode-se distinguir, em princípio, a oração da ascese. A oração pode ser entendida como uma conversa com o Senhor. A ascese é qualquer actividade que requeira e construa autodisciplina.

Teoricamente, pode haver conversas com o Senhor que não requeiram autodisciplina. Muitas pessoas entendem a oração desta forma. Pensam numa conversa entre dois amigos, como dois homens sentados em cadeirões, a fumar charutos e a beber whisky, tendo uma grande conversa. E então acham que a oração é assim, como se estivessem confortavelmente sentados a ter esse tipo de conversa agradável com Deus.

O Asceta - Pablo Picasso
Também em princípio pode existir ascese de algum tipo sem oração. O filósofo Thomas Reid resolvia problemas de cálculo todas as manhãs, pela disciplina mental, antes de se dedicar a escrever filosofia. O filósofo analítico Roderick Chisholm disse-me um dia que todas as manhãs, antes de começar a trabalhar, estuda um artigo da Summa Teológica, não pelo conteúdo, mas pela disciplina que implica.

Outro exemplo seria Benjamin Franklin, que fazia um autoexame todos os dias, com base numa tabela de virtudes, e há ainda quem resolva problemas de sudoku ou palavras cruzadas, para manter a mente alerta.

Mas embora a oração e a ascese espiritual sejam, em princípio, coisas diferentes, na prática conjugam-se. A oração é uma conversa com o Senhor, de facto. Mas se o Senhor estiver a caminho do deserto? Então não poderá conversar com ele sem se despir de tudo o resto.

Ou então imagine que o Senhor está a escalar uma montanha, e que para conversar com Ele é preciso subir também? Talvez já tenha escalado montanhas e saiba exactamente quanta autodisciplina precisa para empreender uma subida íngreme durante quatro ou cinco horas. Mas Nosso Senhor deu-nos precisamente estes exemplos de sair para o deserto para rezar, e de escalar uma montanha para rezar (Lc. 5,16, 6,12). Duvido que o tenha feito se não nos quisesse mostrar algo sobre a natureza da oração.

Bem vistas as coisas, não existem exemplos no Novo Testamento de Jesus a procurar um cadeirão para rezar.

A ideia errada de que se “encontra” tempo para rezar parece ligada à confusão de que a oração é, na prática, separável da ascese – como se a oração simplesmente aparecesse ou ocorresse de forma espontânea. Como se escalar uma montanha fosse apenas algo que surgisse naturalmente na nossa vida do dia-a-dia: “Fui trabalhar, acabei aqueles projetos, e então a ocorreu-me que o melhor a fazer era escalar uma montanha”.

A oração requer ascese – por causa do pecado original, por causa das exigências do discipulado, por causa do poder da Cruz. Também nos podemos espantar com o facto de (embora a oração seja fruto de uma busca de amor, tal como a conversa), a ascese não deixa de ser uma forma eficiente de desenvolver autodisciplina para todas as áreas da vida. Mais até do que práticas de ascese directa (excepto para disciplina intelectual pura – aí mais lhe vale resolver problemas de cálculo).

Voltando, portanto, à questão original: Quanto tempo por dia devia dedicar à oração? Podemos responder que seria o tempo necessário para exercitar a alma.

Afinal, para esta questão parece haver uma resposta objetiva, e autoridades competentes. Olhando para os santos e grandes Papas, vemos que recomendam a missa diária (30 minutos); a oração do terço (15 minutos); a oração do Evangelho do dia e de um livro espiritual (15 minutos) e oração mental diária (pelo menos 15 minutos, mas idealmente uma hora) – o que leva a um total de duas horas. Por isso, ao que parece, para viver uma boa vida cristã devemos encaixar duas horas de oração no nosso dia.

Se viajar para os Estados Unidos poderá surpreender-se com a quantidade de americanos obesos que existem. Mas talvez encontre também uma equipa de atletas universitários a caminho do seu voo. Desconfio que se existissem juízes capazes de ver as nossas almas, como acontece num dos mitos de Platão, eles ficariam espantados ao ver o quão espiritualmente obesos nós parecemos todos.

E os cristãos, que deviam parecer-se mais com aquela equipa de atletas, são iguais a todos os outros.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 20 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Califórnia recua do confessionário, Rússia das ogivas

Quantos objectos vê?
A Califórnia retirou da agenda uma proposta de lei que obrigaria os padres a violar o segredo da confissão nalguns casos de abusos sexuais.

As dioceses do interior estão abertas a ajudar os estudantes a conseguir alojamento mais barato.

O diretor da Capela Sistina demitiu-se, no meio de alegações de fraude e irregularidades financeiras.

E do mundo das realidades paralelas, a Igreja Ortodoxa da Rússia está a pensar se devia, ou não, deixar de benzer coisas, tipo… ogivas nucleares e mísseis balísticos

É casado? Agora pense no que representa a sua aliança. Já pensou? A sua resposta foi algo do género: “representa o meu amor e fidelidade pela minha esposa/o meu esposo”?

Sinais de Amor Mútuo

Michael Pakaluk
Num dos dedos da minha mão esquerda uso uma aliança, que entendo ser um sinal do meu amor e da minha fidelidade pela minha mulher, Catherine. Mas as palavras da liturgia dão a entender outra coisa. Quando recebi a aliança da minha mulher no nosso casamento ela disse, “Toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”. Por isso parece que estou enganado: a aliança que eu uso representa a fidelidade dela, não a minha. Ou será? Como é que resolvemos este problema?

Uma forma seria simplesmente mudar as palavras. Já vi essa sugestão feita num site popular de planeamento de casamentos, sem a devida autorização, claro, no sentido de mudar as palavras para Eu, [nome] recebo esta aliança como sinal do meu amor e fidelidade”!

Portanto a coisa não parece clara e algumas pessoas tentam resolvê-la com o senso comum. A verdade é que essa situação menos clara foi introduzida com a reforma litúrgica. A Forma Extraordinária é muito mais clara e inclui a bênção, só da aliança da mulher, pelo padre:

Abençoa, + Senhor, esta aliança, que benzemos + em vosso nome, que aquela que a vai usar, mantendo verdadeira fé no seu esposo, possa permanecer na vossa paz e em obediência à vossa vontade e viver para sempre em amor mútuo.*

Repare-se que as palavras não se referem à aliança como “sinal” de nada. Só existe uma cláusula de propósito, “que aquela que a vai usar”. Isto é porque a aliança é vista como um “sacramental”, isto é, algo sagrado que tem o poder conferido de fazer aquilo que significa (como a água benta). Assim, a aliança não é apenas representativa da sua fidelidade: tem como propósito auxiliá-la a ser fiel. (Vemos um sinal disto naqueles homens que tiram a aliança antes de entrar num bar, abdicando assim da ajuda divina em permanecer fiéis).

A bênção refere-se também à obediência à vontade de Deus. Isto é algo que uma pessoa sensata compreende. Ser casado implica aceitar uma regra; estar constrangido. Uma pessoa aceita um jugo – um jugo “suave” e “leve”, claro, que, se for adoptado com o espírito certo, traz muita “paz”. Mas seria insensato negar que uma aliança é um compromisso com a disciplina, tanto como um cabeção para um padre.

Mas há uma falha, uma fraqueza, no ritual. A bênção refere-se ao “amor mútuo” mas só o marido é que dá uma aliança à noiva, e não ao contrário. (Era costume na Europa, até ao final do Século XIX, apenas a mulher usar a aliança.) O novo rito, como veremos, procura remediar isto.

Na Forma Extraordinária, o padre dá a aliança benzida ao noivo, que a dá à noiva, usando uma de duas fórmulas:

Com esta aliança eu te desposo, e juro ser-te fiel*

-ou-

Com esta aliança eu te desposo; este ouro e esta prata eu te dou:
Com o meu corpo eu te venero; e todos os meus bens terrenos te ofereço*

Um objecto em duas mãos
Os linguistas chamam a este tipo de linguagem “performativa” uma vez que as palavras significam e cumpre, simultaneamente, a acção. Aquilo que as palavras significam e efectivam é a perfeição da união matrimonial através da dádiva de um objecto precioso, a aliança.

Mas nem é necessário que o objecto seja uma aliança! Acontece que a aliança era o objecto precioso mais fácil de guardar junto ao corpo nas culturas antigas. Mas o “ouro e prata” refere-se a moedas que também podem ser oferecidas, como as famosas “arras” que ainda são dadas durante a cerimónia nas culturas hispânicas e que por isso mesmo foram incorporadas como uma opção nos casamentos católicos nos Estados Unidos, em 2016.

Nos dias em que o casamento era entendido não tanto como uma simples relação pessoal, mas mais como uma instituição que conduzia à estabilidade financeira, o facto de o homem dar um objecto precioso à sua mulher era um sinal da seriedade do seu compromisso de estabelecer esta instituição com ela em particular. A isto acrescentava-se o dote, o capital inicial para a nova instituição, dada por uma ou ambas as famílias. Uma vez que o casamento continua a manter essa característica, pode-se argumentar que a tradição das “arras” é um vestígio e um testemunho desse entendimento e que por isso ganharia em ser adaptado a outras culturas também.

Podemos agora contrastar isto com o significado das palavras no novo rito. Quando o noivo diz “toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”, não se refere à utilização da aliança, mas à aliança enquanto objeto precioso. Oferece a aliança por amor e com uma promessa de fidelidade; depois, ela usará a aliança por amor e como promessa de fidelidade. (Em 2016 a linguagem foi alterada para “Recebe esta aliança” em vez de “toma esta aliança” – o que se pode dizer que emenda o problema ao enfatizar mais corretamente o facto de a dádiva ser um evento único.)

Então esta nova linguagem é confusa e confunde – ou (talvez sem o querer) é profundamente verdadeira? Vejamos por este prisma: num contexto moderno, uma aliança é um objecto ou meio objecto? Comparando: um sapato é meio objecto e não um objecto inteiro, uma vez que os sapatos existem aos pares. Claramente, hoje olhamos para as alianças da mesma forma, como sendo aos pares. Nesse sentido, em bom rigor, uma pessoa não usa uma aliança, são duas pessoas que usam um único objecto – as alianças. Cada aliança, sobretudo pelo facto de não ser completa por si só, representa o amor e a fidelidade de ambos.

Assim, as palavras do novo rito, não obstante a sua falta de clareza aparente, acabam por ser profundamente verdadeiras. É frequente uma coisa significar a sua proveniência. A aliança que uso na minha mão esquerda nunca deixa de “dizer” que foi recebida como sinal de amor e de fidelidade. Usada, representa um amor e uma fidelidade que são precisamente recíprocos e mútuos. 

*As traduções são minhas, do inglês. Não consegui encontrar traduções portuguesas das bênçãos e das expressões. Caso existam, e algum leitor as conhecer, agradeço que me informem para poder trocar. Obrigado!


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 9 de Julho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O Modo de Vida Livre e a Solo

Michael Pakaluk
Os adeptos da escalada costumam trabalhar em pares. Ambos estão equipados com um cabo, que está fixo em intervalos regulares à face da rocha. O que vai à frente costuma ter um bocado de cabo livre, mas nunca de tal forma que se magoaria muito se caísse.

Uma vez que a escalada exige confiança máxima, é natural os atletas formarem das mais próximas amizades humanas. Dizem que só a irmandade sentida por soldados em batalha é que se compara. Se virmos a vida como um desafio parecido com a difícil subida de uma montanha, então os parceiros de escalada podem representar a verdadeira amizade. Não admira que tantos cristãos se sintam atraídos pela escalada, ou por histórias de escalada.

Existe uma modalidade que se chama “livre solo” em que um atleta sobe “livre”, isto é, sem a proteção dos cabos, e “solo”, isto é, sem a ajuda de um parceiro. Nestes casos a colaboração não só se torna desnecessária como seria mesmo um obstáculo. Um amador que se faz a um muro de escalada no ginásio está a fazer “livro solo”, mas em segurança, a baixa altitude e por cima de colchões.

Mas alguns escaladores verdadeiramente dotados praticam o solo livre a alturas perigosas, onde um erro é morte certa. O melhor de todos é o Alex Honnold, conhecido por ter subido em livre solo a Dawn Wall e o El Capitan, em Yosemite. O “National Geographic” fez um documentário sobre a segunda destas subidas.

O livre solo é eticamente controverso, mas antes de mais consideremos a sua atratividade. O escalador pode mover-se mais depressa, logo conserva melhor a sua força. E é uma coisa muito pura: rocha, céu e homem. Um escalada bem-sucedida é um hino à perfeição: que demonstração de mestria poderia ser mais suprema do que alguém que tem tanta confiança no seu controlo que mal considera que a sua vida está em risco?

Do ponto de vista ético, o espírito do praticante de livre solo parece altamente admirável. É a velha escolha de Aquiles: preferia morrer em busca da perfeição, do que manter-se vivo mas a fazer algo que lhe parece medíocre. Não foi Aristóteles quem disse que devíamos preferir uma “vida boa” a “simplesmente viver”? Enquanto cristãos nós admiramos as pessoas que arriscam tudo. O cardeal Newman ensinava que não estamos verdadeiramente a viver como cristãos se não estivermos a arriscar todos os dias a nossa vida inteira na premissa do Cristianismo ser verdade. (Ver a sua homilia “Ventures of Faith”)

Podemos ainda olhar para as conquistas de Alex Honnold com orgulho pela nossa humanidade partilhada. Ele parece colocar a raça humana no cume da natureza. Nem uma cabra-montês conseguiria subir a Dawn Wall em Yosemite. (Um insecto conseguiria, mas jamais o faria.) Chegado ao topo da subida Honnold poderia afirmar, com razão “este é um salto de gigante para a humanidade…” Agora, mais do que nunca, precisamos dessas fontes de orgulho. Os ecologistas não o admitem, mas essa é a verdadeira razão por detrás da popularidade de Honnold.

E por fim, entre a raça humana, o praticante de solo livre parece provar a realidade daquilo a que Aristóteles e São Tomás chamaram a virtude sobre-humana – uma virtude de tal maneira poderosa que excede os limites normais da humanidade (tal como existe uma bestialidade no pecado). A imagem de Honnold a ultrapassar uma Saliência particularmente difícil perto do topo do El Capitan, suspenso mil metros por cima do vale, parece reveladora de uma coragem sobre-humana.

Mas a modalidade de livre solo é também vista como eticamente questionável. A escalada, dizem alguns, não é uma atividade “séria” como é o combate, mas “recreativa” como o desporto e o entretenimento. Não vale a pena arriscarmos a vida por ela, consideram. Desse ponto de vista praticar o livre solo é tão insensato como tentar acabar um jogo de golfe no meio de uma tempestade. E mesmo que os maiores feitos de livre solo mereçam esse risco, outras tentativas claramente não valem a pena e nesse sentido celebrar os feitos de homens como Honnold apenas encoraja outros a tentar o mesmo.

Se está a pensar em ver o documentário “Free Solo” do “National Geographic”, então devo avisá-lo que só os últimos 15 minutos é que mostram a famosa subida. O grosso do filme lida com a sua relação com a namorada, que vive com ele na sua carrinha. Ele trata-a como uma fã monogâmica ligeiramente irritante, enquanto que ela claramente gostaria que ele deixasse a escalada para se casarem. O “National Geographic” viu-se obrigado a transformar este documentário sobre escalada num “reality show” porque descobriu, ironicamente, que Honnold simplesmente não se conseguia concentrar totalmente com uma equipa de sete homens armados com câmaras a segui-lo escarpa acima. Por isso acabaram por ter muito poucas imagens da própria subida, todas captadas a grande distância, através de teleobjetivas.

Mas para os sábios a presença da namorada revela umas verdades profundas sobre o amor e o casamento. Por exemplo: Ele não a ama a ela mais do que à escalada (isto é, mais do que se ama a si mesmo). Ou, ele comprometer-se a casar com ela implicaria comprometer-se a deixar de escalar, mostrando que o casamento é uma instituição que nos eleva do egoísmo. Ou então, se queremos ver a coisa pelo lado positivo, o celibato é necessário para um modo de vida comparável ao de Honnold (basta pensar no sacerdócio).

Mas a sua presença revela ainda outra coisa verdadeiramente perturbadora sobre a atração pelo livre solo. Se a escalada em equipa representa a amizade, então o livre solo deve ser visto como representando um tipo de autonomia que quase toca o autismo. Honnold, que foi criado pela mãe divorciada, numa casa onde, segundo ele, não se falava em amor, tem de bloquear, deliberadamente, toda a afetividade pela sua namorada para ter sucesso. Ao ponto de lhe pedir que abandone a carrinha onde vivem nos dias antes da escalada.

Eu fico maravilhado com pessoas como o Honnold. Mas isso preocupa-me. Preocupa-me que nos maravilhamos – a nossa cultura maravilha-se – com o livre solo, em vez de o achar desprezível. E isto porque nos atrai a ideia da autonomia, mesmo que seja uma autonomia temerária, que arrisca tudo por ambições que não têm qualquer valor para além da criação da vontade.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Diferentes Papas para Diferentes Épocas

Dentro de cerca de uma hora o padre Tomás Halík vai proferir uma conferência em Lisboa. Se não teve a sorte de poder ir ao evento, não deixe de ler a entrevista que lhe fiz, em que ele explica como o Papa Francisco inaugurou uma nova época para a Igreja, mas sem tecer qualquer crítica – muito pelo contrário – aos seus antecessores. Se conseguiu ir à conferência, leia a entrevista à mesma. Quando acabar de a ler podem ainda ir ler a entrevista que ele deu à Ecclesia, ao Octávio Carmo, que complementa bem a minha.

Por falar na Ecclesia, os nossos amigos dessa agência estão por Angola e de lá mandaram estas duas reportagens muito interessantes. Numa os bispos sublinham a importância da relação com Portugal e noutra colocam-se firmemente junto ao atual regime e às reformas que está a empreender.

O Vaticano divulgou esta quarta-feira o programa da visita do Papa ao Panamá, para as Jornadas Mundiais da Juventude, em Janeiro. O Papa publicou ainda uma mensagem em vídeo para os participantes.

Hoje no artigo do The Catholic Thing trago-vos Michael Pakaluk, que comente ao Evangelho de Marcos e a centralidade, no mesmo, do poder de Cristo sobre os demónios. É uma análise muito interessante, cuja leitura recomendo!

Onde Estão os Demónios?

Michael Pakaluk
De entre os primeiros relatos da vida de Cristo, o Evangelho de Marcos tem uma certa primazia. É possível, como crêem a maior parte dos especialistas, que tenha sido o primeiro Evangelho a ser escrito. A tradição dita que era o “evangelho de Pedro”, isto é, que foi escrito por Marcos mas que lhe foi contado por Pedro. E Pedro era “a pedra”, o primeiro de entre os apóstolos, o primeiro Papa.

É costume, hoje, (ainda que em tempos tenha sido mais), ouvir os não-cristãos a admitir pelo menos que Jesus foi “um grande mestre moral”. Este ponto de vista já foi bastante bem demolido por C.S. Lewis e por Peter Kreeft: Jesus ensinou que era o Filho de Deus, que podia perdoar os pecados, e que a nossa salvação dependia dele. Mas se não forem verdade, então estas afirmações apontam mais no sentido da demência. Logo, Jesus ou era Deus ou era um homem mau. Não há alternativa. E em nenhum dos casos ele pode ser descrito simplesmente como “um grande mestre moral”. Os Padres da Igreja já tinham argumentado no mesmo sentido: aut Deus aut homo malus.

Daí que a ideia de que Jesus é um “grande mestre moral” não tenha fundamento. Se é grande, devemos acreditar nos seus ensinamentos, incluindo a de que é Deus; se, todavia, os seus ensinamentos são falsos, então não pode ser grande. Infelizmente, contudo, este tipo de argumentação não aponta para a verdade. Só por si é tão provável que leve alguém a rejeitar Jesus como aceitá-lo.

Mas aquilo que transparece do Evangelho de Marcos é um “argumento” mais forte e convincente, talvez aquele que mais falta faz nos nossos dias. Não é que Jesus não seja simplesmente um mestre moral – é antes que o Jesus que lá nos é apresentado nem sequer é um “mestre moral”! Mais simplesmente, mais do que ensinar alguma coisa, ele proclama, e o que ele proclama é a incursão do “Reino de Deus” nas possessões do demónio.

Aquilo que está em causa no Evangelho de Marcos não é tanto o género de conselhos sobre como conduzir a vida, mas o facto de estarmos perante a chegada de uma autoridade espiritual capaz de banir e subjugar o demónio.

Dito isto, sim, é verdade que alguns especialistas tendenciosos têm disputado estas conclusões: também é verdade que os ensinamentos da Igreja ao longo dos séculos continuam a ser a única forma sã de interpretar as escrituras. Mas continua a ser verdade que Marcos oferece uma correção impressionante de alguns dos nossos preconceitos, como por exemplo o à vontade com que lidamos com o pecado e os actos pecaminosos.

O primeiro milagre de Jesus em Marcos (capítulo 1) é um exorcismo: “Que tens tu a ver connosco, Jesus de Nazaré”, grita o demónio, “vistes destruir-nos? Eu sei quem és, o Santo de Deus”. Logo desde o inicio aquilo a que as pessoas se referem quando falam no “seu ensinamento” é o seu poder sobre o demónio. “Que é isto?”, perguntam, “um novo ensinamento! Com autoridade ele comanda até os espíritos impuros, e estes obedecem-lhe” (1,27).

Quando Jesus nomeia os doze como seus apóstolos, envia-os para ensinar, dando-lhes “autoridade para expulsar demónios” (3,15). O facto de Jesus possuir este poder é, aos olhos dos seus inimigos, a sua principal característica: “é pelo príncipe dos demónios que ele expulsa os demónios”, dizem, reconhecendo o facto.

Quando ele começa a ensinar (capítulo 4), fala apenas em parábolas sobre a incursão do Reino. Logo na primeira parábola refere-se a Satanás e aos seus esforços de resistência, roubando a palavra que é semeada (4,15). Quando começa a fazer actos de misericórdia é a cura do “endemoniado gadareno” que recebe mais atenção, num capítulo que também inclui a cura da hemorroísa e a ressurreição da filha de Jairo (capítulo 5). Quando envia os doze para pregar, a sua mensagem é a do arrependimento dos homens, associado ao facto de terem “expulso muitos demónios” (capítulo 6).

A primeira vez que lida com os pagãos, sinal de que o Evangelho está a ser pregado às nações, é quando exorciza a filha da mulher sirofenícia (capítulo 7). A sua famosa repreensão a Pedro mostra o que achava da oposição ao Reino: “Vá de retro, Satanás!” (capítulo 8). Quando se procura saber se certa pessoa está com ele ou contra ele, a prova dos nove é saber se expulsa demónios em nome de Jesus (11, 38-41).

Só no décimo capítulo é que encontramos algum traço do “ensinamento moral”. Nem de propósito, tendo em conta os nossos tempos, diz respeito à indissolubilidade do casamento e o acolhimento das crianças. Depois disso, o Evangelho de Marcos dedica-se aos eventos da Semana Santa.

Mas devemos enfrentar este contraste. Muitos de nós rezamos a oração de São Miguel depois da missa. O Santo Padre refere-se várias vezes ao demónio, que claramente trata como uma realidade.

Contudo, em geral a “cultura” da fé em que estamos imersos é muito diferente da de Marcos. Perdemos o sentido de luta contra o demónio como sendo parte do discipulado cristão, e que é precisamente daí que a Igreja retira o seu poder.

Mas com a nossa atitude complacente estamos a colocar-nos em campos opostos, não apenas a Marcos mas a todo o Cristianismo histórico. “Pelo pecado dos primeiros pais, o Diabo adquiriu certa dominação sobre o homem, embora este último permaneça livre (CCC 407); “E porque o Baptismo significa a libertação do pecado e do diabo, seu instigador, pronuncia-se sobre o candidato um ou vários exorcismos” (CCC 1237).

Então e hoje? Onde é que se meteram os demónios? Espero que possam ser banidos da “Cristandade”. Mas as muralhas dessa civilização já foram comprometidas – não obstante o facto de uma vida sacramental continuar a ser a melhor maneira de se proteger. Os demónios são seres imateriais, que não podem, por isso, ser destruídos. Diz-se que andam pelo mundo, até ao fim desta geração. Se admitirmos que sempre existiram, então faríamos bem em partir do princípio de que actualmente estão bem mais próximos.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 13 de Novembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Farei de vós Pescadores de Javalis

Michael Pakaluk
Que todos os javalis se salvem! – Esta minha oração, a que se juntam as de muitos outros, terá obtido, se Deus quiser, resposta quando ler estas linhas.

Os Javalis são a equipa de 12 rapazes e o seu treinador, que ficaram presos pelas águas das monções numa pequena câmara, quatro quilómetros no interior de uma rede de grutas no norte da Tailândia. É preciso alguma imaginação para apreciar o drama da coisa.

As grutas são escuras como o breu, sem pinga de luz. As passagens não foram limpas nem polidas para poderem receber turistas, assemelham-se mais a caminhos rigorosos ao longo de escarpas. 

Não é raro encontrar pequenas fendas pelas quais só se consegue passar se dobrar o corpo exactamente da forma correcta. Agora imaginem tudo isso, mas debaixo de água fria, com correntes fortes. Pense na sua caminhada favorita junto a uma falésia, e agora imagine-se a percorrer essa mesma distância, mas nadando, em escuridão total, através de caminhos estreitos, contra a corrente. Porque é isso que é preciso para os tirar de lá. Entretanto têm estado aninhados numa pequena saliência daquela pequena câmara, com o oxigénio a esgotar-se.

Poderia ter sido um grupo de rapazes qualquer, mas são uma equipa de futebol. Este facto pode não significar muito para si, mas não se esqueça que 40% da população mundial tem estado a acompanhar, nos últimos dias, o maior evento desportivo do planeta, o campeonato do mundo de futebol.

Os rapazes entraram para a gruta quase em simultâneo com o primeiro jogo do campeonato. O presidente da FIFA já convidou os Javalis para assistirem à final em Moscovo, no domingo, se estiverem bem de saúde. Não haveria melhor forma de chamar a atenção do mundo para tudo o que têm passado.

O conceito cristão de providência diz-nos que este tipo de provação pública não acontece apenas por acidente, mas são desígnios do plano de Deus que servem para nos ensinar algo. É por isso que podem servir de inspiração para arte de boa qualidade (ou de menor qualidade) como “O Naufrágio do Deutschland”, “No Ar Rarefeito”, “Titanic” e “O Endurance”.

Nosso Senhor dá-nos um exemplo disto: “E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.” (Lucas 13:4,5)

Então o que podemos aprender da provação dos Javalis, para além da necessidade de arrependimento?

Aqui temos alguma liberdade criativa. Enquanto filósofo, gosto particularmente da combinação de imagens – uma gruta, debaixo de água. Muitos têm sentido que a vida envolve algum tipo de contenda, ou de teste. Platão concebeu-a na forma de caverna e desde então os filósofos têm apreciado a imagem.

A caverna de Platão era profunda e acidentada, não totalmente escura, mas iluminada por um fogo que lançava sombras. Em princípio era possível sair dela por si. Mas com um guia seria mais fácil e era preciso ser libertado por ele para poder sequer começar a viagem.

Cristo poderia ter usado a imagem da caverna, uma vez que estas abundam na Terra Santa. Mas em vez disso ele imaginou a salvação como um resgate da água, sendo o homem retirado de lá como um peixe. Isto é, em si, interessante.

As cavernas são, por natureza, lugares inóspitos à vida; a água é uma fonte de vida: assim, um homem que se afoga na água não está num lugar onde nenhum ser vivo deve estar, mas simplesmente onde nenhum ser humano deve estar. Mais, a sua salvação pode ser instantânea: basta retirá-lo da água. Aí poderá respirar, ficará ao sol. A ascensão através da água é secundária, uma vez que basta uma poça para se poder afogar. Para além disso, o tempo é limitado. Logo, a principal tarefa de um homem que se está a afogar não é esforçar-se por subir, mas deixar de esbracejar e aceitar a ajuda do Pescador de Homens.

E, no entanto, muitos dos nossos contemporâneos têm mais em comum com esta equipa de futebol. Precisam de ser pescados da água, sim, mas ao mesmo tempo vão-se colocando cada vez mais fundo na caverna. O seu resgate, nesse caso, requer uma combinação hábil de fé e de razão: um testemunho sacrificial de fé, ao ponto da morte, mas também as capacidades necessárias para encontrar passagens através das grutas escuras.

Esta é, para mim, a mais importante lição deste evento. Imaginem o homem abandonado numa saliência, dentro de uma caverna parcialmente inundada. A Igreja deve ir em seu auxílio. Mas será que ela já anteviu a necessidade de ter uma equipa de mergulhadores especialistas para o fazer? Será capaz de identificar os peritos “amadores” que verdadeiramente sabem como lidar com estas circunstâncias, ou aceitará a sua ajuda se eles se apresentarem como voluntários? Já teve apóstolos com essas características, mas precisa de mais.

Há muitas outras lições a retirar, que deixarei ao leitor, com uma excepção. A cooperação internacional que envolveu o resgate destes rapazes permite-nos retirar alguma ilação sobre a natureza humana?

Se a natureza da humanidade fosse de estado de guerra de todos contra todos, quando uma equipa de elite da marinha tailandesa nadasse quatro quilómetros através das águas escuras de uma caverna não para eliminar, mas para salvar, o grupo que lá se encontra, estaria a agir contra a natureza humana. O seu aparente heroísmo resultaria apenas da convenção e da ameaça de punição por incumprimento.

Mas claramente não é esse o caso, e gostamos de nos lembrar que assim é. Gostamos de histórias como esta, do resgate da caverna, porque nos mostra que os militares são, fundamentalmente, agentes de paz e porque a humanidade, não obstante o pecado e a morte, está enfim, em paz.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 10 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Ressuscitar com Cristo

Michael Pakaluk
Nota: Este tema, da cremação, é uma das minhas embirrações. Espanta-me a facilidade com que pessoas cristãs aceitam tratar os restos mortais dos seus familiares como se fosse resíduos... Mas sobre isso deixarei falar o autor. 
Esta nota serve também para recordar que este e outros artigos só existem, e só estão disponíveis em português, porque há quem contribua para manter o The Catholic Thing a funcionar. Duas vezes por ano eles fazem angariação de fundos e por isso convido todos os que dão valor a este serviço a fazer um pequeno donativo através deste link. Recordo, como já fiz várias vezes, que o dinheiro doado vai directamente para o The Catholic Thing, e não passa de forma alguma por mim.


Se visitar a cidade de St. Andrews, na Escócia, a um domingo, verá que o famoso campo de golfe está encerrado nesse dia para o desporto, estando disponível para quem quiser passear. Esta tradição é um legado de John Knox para o mundo. O austero reformador estava errado quando decidiu proibir jogos ao domingo. Mas por outro lado parece eminentemente justo que até o golfe deva testemunhar que existe algo maior. Seja como for, o campo transforma-se em parque público uma vez por semana.

Certo domingo eu estava lá a andar, com alguma rapidez, e a aproximar-me de um grupo algumas centenas de metros à minha frente. Chocado, reparei que um dos homens do grupo estava a despejar os restos do seu almoço na relva. Metia a mão dentro de um saco e, a intervalos regulares, lançava o que pareciam ser migalhas para o chão. Pelo menos era o que parecia àquela distância. Fiquei irritado e andei ainda mais depressa para poder dizer ao homem para não estragar, através desta inconsciência, o bem comum que é este belíssimo terreno.

Quando me aproximei, porém, vi que o que ele tirava do saco não eram migalhas mas restos humanos (“cinzas”). A minha fúria transformou-se em pena. Quando os ultrapassei cumprimentámo-nos e o homem explicou que o seu pai era um apaixonado por golfe e por isso ele e os seus irmãos tinham viajado dos Estados Unidos para St. Andrews, para cumprir o desejo do seu pai de ter as cinzas espalhadas naquela relva. Naturalmente não pude senão dizer algo de simpático e encorajador.

Dei por mim naquela posição tão comum de saber objetivamente que o meu próximo estava a fazer algo profundamente errado, mas de ter apenas a oportunidade, numa troca superficial de palavras, de abordar as suas intenções subjectivas.

E não haja dúvidas que aquilo que ele estava a fazer era, objectivamente, muito errado. Em primeiro lugar, a minha primeira impressão não tinha sido errada: o homem estava, de facto, a fazer o género de coisa que se faz com os restos do almoço. Mas estava a fazê-lo com os restos mortais do seu querido pai! Em segundo lugar, esses restos estavam a ser lançados ao chão, expostos e, tanto quanto sabia, até eu os tinha pisado!

Nas palavras da antiga Enciclopédia Católica, no seu artigo sobre “Cremação”: “[A Igreja] crê que é indigno que o corpo humano, outrora templo vivo de Deus, instrumento de virtude celeste, tantas vezes santificado pelos sacramentos, seja sujeito a um tratamento contra o qual a piedade filial e o amor conjugal e fraternal, ou até a mera amizade, se revoltam como desumano.”

Em terceiro lugar, os actos deste homem testemunhavam uma falsidade. Não sei em que é que ele acreditava pessoalmente. Mas os nossos actos têm frequentemente um significado, e testemunham, algo diferente daquilo em que acreditamos. O espalhar das cinzas testemunha, inevitavelmente, o panteísmo, o naturalismo ou o niilismo. Neste caso, era uma espécie de panteísmo – a falsa crença de que o próprio campo de golfe é sagrado e que, através do espalhar das cinzas, o falecido pai se pode unir de alguma forma a este ídolo.

No que toca a estes pontos acho que o Catecismo, tal como noutros, está correcto, mas pode levar ao engano por omissão. “A Igreja permite a cremação”, lê-se, “a não ser que esta ponha em causa a fé na ressurreição”.

Podemos admitir logo que a ressurreição dos mortos não se põe em causa pelo “modo do sepulcro” (como se costumava chamar). Os judeus nunca cremavam os seus mortos. Os romanos estavam abertos tanto à cremação como ao enterro. Neste contexto, os primeiros cristãos seguiam uniformemente e definitivamente a prática judaica. Mas também insistam que não o faziam por necessidade – “como se Deus não pudesse ressuscitar os mortos tão facilmente a partir de uma mão cheia de cinzas como do pó da terra”.

É verdade que a cremação não é excluída. Mas ao mesmo tempo, como se lê no Código de Direito Canónico, “A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos” (1176, §3). Ou, como se lê no site da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, citando um documento do Vaticano: “Embora a cremação já seja permitida pela Igreja, não goza do mesmo valor que a sepultura dos corpos” (n. 413). E mesmo quando os restos são cremados, o corpo deve estar presente no funeral e os restos devem ser preservados de forma digna e colocados num local santo, tal como um cemitério.

É conveniente reflectir sobre estes assuntos no tempo Pascal. Na verdade, o nome da instrução sobre cremação emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé a 15 de Agosto de 2016, aprovada pelo Papa Francisco, é Ressuscitar com Cristo. A linguagem que usa é muito forte. “Seguindo a antiga tradição cristã, a Igreja recomenda insistentemente que os corpos dos defuntos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado.”

E continua: “Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne, e deseja colocar em relevo a grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo condivide a história. Não pode, por isso, permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções erróneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reincarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da ‘prisão’ do corpo.”

“Nada me dá mais prazer do que ir até ao cemitério rezar o meu terço”, dizia o padre Damião de Molokai. E a instrução supracitada elogia as devoções centradas nos cemitérios, terminando com uma nota de sobriedade. “No caso de o defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das cinzas na natureza por razões contrárias à fé cristã” – elevando a questão do plano subjectivo para o objectivo – “devem ser negadas as exéquias, segundo o direito.”


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 15 de Maio de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Elogio da Água Benta

Michael Pakaluk
Costumava-se dizer que o padre “fazia” água benta, não se limitava a benzê-la. O rito ainda consta do Ritual Romano. O padre faz água benta juntando sal exorcizado a água exorcizada.

Junta o sal em imitação do profeta Eliseu, que dessa forma purificou as águas de Jericó (2 Reis 2, 19-21): “Assim diz o Senhor: Sararei a estas águas; e não haverá mais nelas morte nem esterilidade.”

Neste rito a água benta é vista como uma criatura pura, comunicando o poder de Deus. Logo, tanto o sal como a água devem ser exorcizados primeiro, uma vez que a queda teve repercussões através de toda a criação material, dando a Satanás o domínio até sobre os elementos inertes.

Os exorcismos são impressionantes. Por exemplo, para o sal: “Eu te exorcizo, sal, criatura de Deus, pelo Deus vivo, pelo Deus verdadeiro, pelo Deus santo pelo Deus que ordenou ao profeta Eliseu que te lançasse à água, a fim de curar a sua esterilidade — para que te tornes sal exorcizado em proveito dos fiéis, dando a saúde da alma e do corpo aos que te usarem, fazendo fugir para longe dos lugares em que fores lançado, ilusões, malefícios e fraudes diabólicas, assim como todo espírito impuro, intimado por aquele que há de vir julgar vivos e mortos, e este mundo pelo fogo. Amen.”

Um exorcismo não é apenas uma oração mas sim, como diria o filósofo J.L. Austin, “algo feito com palavras”. O sal e a água são recriados, transformando-se de forma especial em armas contra o maligno. Assim, a oração final do padre sobre a mistura pede a Deus que a santifique para que “proporcione saúde da alma e do corpo a todos os que o tomarem, e que desapareça, de tudo o que for por ele tocado ou salpicado, qualquer impureza e ataque dos espíritos do mal.”

Creio que na maioria das situações a água benta nas igrejas hoje é benzida e não feita, com o padre a limitar-se a pronunciar uma bênção e a fazer o sinal da cruz por cima da água, frequentemente durante a missa.

Longe de mim, que não sou liturgista, afirmar que até a água benta foi diluída. Mas sim, também eu penso que se podemos seguir o exemplo de um grande profeta, e se podemos usar matéria exorcizada, por que não haveríamos de nos valer destes auxílios adicionais?

Certamente não nos convence o argumento de que a graça de Cristo basta, porque aí deixaríamos de ter razão sequer para usar água benta de todo. Mais, Cristo é um mediador que, na sua vida terrena, mostrou uma forte apetência para trabalhar através de matéria mediadora, tal como cuspo e pó.

Antes, sei por experiência que a água benzida funciona muito bem contra o demónio.

Uso o termo “experiência” no sentido lato e próprio daquilo que foi experienciado por aqueles em quem confiamos e não no sentido cartesiano atenuado daquilo que foi impingido aos meus sentidos em particular. Neste sentido, a experiência de Santa Teresa de Ávila é também a minha: “Tenho aprendido que não há nada como água benta para pôr os demónios em fuga e evitar que regressem”.

Muitos amigos têm-me dito o mesmo. Eram perturbados por sonhos deturpados, por exemplo, e depois de terem aspergido água benta na cama a cada noite, e de terem dito uma Avé Maria ou três, o problema desapareceu e nunca mais voltou. A minha experiência de vida tende a corroborar isto.

Os mesmos amigos, como seria de esperar, não deixam de recorrer à água benta quando metem os seus filhos na cama. O que me leva a outro elogio à água benta, para além da sua utilidade, isto é, a atracção que exerce sobre crianças e adultos que são como crianças.

As crianças são maravilhadas por sinos, fumo e fogo. A Igreja faz bem em apelar desta forma aos nossos sentidos. Mas se pensarmos bem a água, como o fogo, não é “suposto” estar dentro das casas. Por isso mesmo uma pequena vela – esse ponto de fogo brilhante, guardado por cera, mas com potencial de perigo caso consiga escapar – pode significar algo transcendente, a oração a subir, ou Deus e luz a descer.

É por isso que nos inclinamos para sermos aspergidos por água benta no Domingo de Páscoa, e molhamos os dedos na pia de água à entrada das igrejas. Como não é suposto haver água ali é fácil ver o influxo da graça de Deus e leva-nos facilmente a pensar no nosso próprio baptismo e na eficácia purificadora da confissão sacramental.

A família é uma igreja doméstica, não por si só, mas enquanto participante da vida da Igreja. Aquela pequena garrafa de água benta dentro de casa é um testemunho da realidade das Ordens Sagradas e do poder da Igreja nos sacramentos.

Como a água benta é considerada preciosa e só nos chega através do padre, é também uma forma de honrar o sacerdócio. E como a obtemos gratuitamente – basta trazer uma garrafa para a igreja para encher – ensina-nos que as coisas mais valiosas da vida não têm preço. São-nos dadas livremente por Deus, basta-nos procurá-las no sítio certo.

Por fim, a água é um elemento e a água benta é um elemento abençoado, testemunho da bondade da criação, da forma como a graça completa a natureza e a lógica da Encarnação.

A água benta contém todo um catecismo. Pode-se dizer que a verdadeira igreja não teria deixado de a criar e, uma vez que a verdade é sobredeterminada pelas provas, podemos também dizer que a existência e o uso da água benta, tal como 40 outras coisas, quase que basta para alguém se tornar católico.

Na tradição de São Francisco, gostaria então de dizer: “Bendito sejas, meu Senhor, através da Irmã Água Benta, que é muito útil, e humilde, e preciosa e casta”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 6 de Março de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Partilhar