Mostrar mensagens com a etiqueta Religião e Política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Religião e Política. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A Igreja é uma Realidade Política ou Espiritual?

Nicholas Senz

Quando os futuros repórteres aprendem as artes do jornalismo nas faculdades e universidades, o assunto sobre o qual costumam aperfeiçoar as suas técnicas costuma ser política. Por outras palavras, a maioria dos repórteres treinam para ser jornalistas políticos. Não é nada que não faça sentido, uma vez que a maioria dos empregos para jornalistas serão aqueles que cobrem o campo da política. Mas o factor negativo é que todas as outras áreas tendem a ser vistas pela lente da política e isso pode conduzir a uma cobertura distorcida.

Os exemplos abundam, mas existem sobretudo no campo do jornalismo religioso. E vemos esta tendência não só em órgãos de imprensa seculares, que cometem erros tão básicos como confundir um crozier [báculo] com “crow’s ear” [orelha de corvo] ou a apelidar carmelitas de freiras da Luz do Karma [Karma Light]. Claro que bastaria uma pesquisa de cinco segundos no Google para resolver isto, desde que haja noção do que não se sabe. Mas o que é mais perturbador é que tendemos a ver estes mesmos erros básicos em órgãos de informação católicos. Os jornalistas católicos importam frequentemente termos políticos para as suas reportagens sobre assuntos de Igreja e os resultados são tudo menos esclarecedores.

Uma das armadilhas mais frequentes e que mais têm formado, ou deturpado, o discurso eclesial é a divisão da Igreja entre “progressistas” e “conservadores”. Para o jornalista que vê tudo pela lente da política, isto seria uma perspectiva natural. A política tem sobretudo a ver com facções com interesses diferentes a competir pelo poder para poderem aplicar as suas agendas ou ideias. Na política americana as facções tendem de facto a caber nestes dois campos. Por isso, quando um jornalista participa num encontro da Conferência Episcopal e ouve os bispos a discutir se deviam dar prioridade a questões de vida ou de justiça social, não acha muito diferente de republicanos e democratas a debater os detalhes de um orçamento no senado.

Mas o ensinamento da Igreja não cabe tão bem nesta quadrícula da política secular e as tentativas de projectar os prelados neste ou naquele campo tendem a ser fúteis. Quem lê os textos do arcebispo Jose Gomez ou do Cardeal Sean O’Malley sobre questões de vida, classifica-os de conservadores; mas se ler as suas declarações sobre a imigração ou salários justos, parte do princípio que são progressistas. A verdade é que nem um termo nem outro se aplica a um contexto eclesial, mas demasiados jornalistas católicos insistem em usá-los. Este hábito só serve para exagerar e exacerbar as divisões entre os católicos.

A aplicação destes termos à realidade interna da Igreja é ainda menos apropriada. Tipicamente, os católicos que defendem os ensinamentos e a prática da Igreja são apelidados de “conservadores” enquanto aqueles que fazem pela mudança (normalmente por algo mais em linha com a moral secular), são apelidados de “progressistas”. Mas não deveria ser a doutrina da Igreja que serve para medir as outras coisas? Uma pessoa que simplesmente defende preservar a doutrina da Igreja devia ser considerada “moderada”. Os próprios termos são reveladores dos preconceitos daqueles que os usam.

Outro problema tem a ver com a forma como os repórteres e meios de comunicação descrevem os próprios ensinamentos da Igreja. Para os católicos estes ensinamentos são e entendidos como verdades, enraizadas nas Escrituras e passadas de mão em mão pela tradição apostólica, desenvolvida ao longo do tempo pelo Magistério. Mas demasiadas vezes vemos os jornalistas católicos a descrever estas verdades com recurso a termos políticos. Diz-se que a contracepção é “proibida” pela Igreja, que esta tem uma “política” contra a ordenação das mulheres e “regras” sobre eutanásia. Esta terminologia é inteiramente desadequada e enganadora. As proibições podem ser levantadas. As políticas podem ser alteradas. As regras podem ser mudadas. As verdades não podem.

Freiras da Luz do Karma
Todos estes termos podem ser usados correctamente numa análise política, em que as diferentes facções lutam pelo poder para poderem implementar as suas preferências, vendo-as anuladas e revertidas quando o partido da oposição as expulsar do poder. Usá-los para descrever os ensinamentos da Igreja apenas deixa o leitor com a impressão de que a doutrina e o dogma são alteráveis, sujeitos a guerrilhas de poder e acordos. Imagine-se os cardeais a fazer acordos sobre parágrafos do Catecismo como os deputados fazem acordos sobre projectos de lei.

Dito isto, claro que há elementos de verdade nesta forma de falar sobre a Igreja. Qualquer pessoa que conheça as tricas dos funcionários do Vaticano poderá dizer-lhe que muito do que se passa lá é política. Enquanto a Igreja for povoada por seres humanos – e não por anjos – continuará a haver facções e politiquices.

Mas esta não é a essência da Igreja. Não define o que a Igreja é, o que ensina nem a sua mensagem salvadora. A Igreja é composta por pessoas, mas é uma instituição fundamentalmente divina. É o corpo de Cristo, vivificado pelo Espírito de Deus, trazendo pessoas para o Pai através dos seus ensinamentos, sacramentos e vida diária.

Sem essas fundações, a Igreja ter-se-ia dissolvido há muito tempo. Esta deve ser a visão que guia a Igreja. Mas boa sorte em conseguir que as escolas de jornalismo compreendam, ou ensinem, isso.


Nicholas Senz é Director da Formação de Crianças e de Adults na Igreja Católica de St. Vincent de Paul, em Arlington, Texas, onde vive com a sua mulher e dois filhos. Tem um mestrado em Filosofia e Teologia da Dominican School of Philosophy and Theology em Berkeley, Califórnia.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Justiça restaurativa, sangue e sofrimento

Está em discussão em Cascais a Justiça Restaurativa. Seria capaz de perdoar ao seu agressor? Concorda que os reclusos estrangeiros em Portugal sejam apoiados? Estas e outras questões debatidas num assunto fundamental.

O Papa Francisco dedica o mês de Outubro à oração pelos direitos dos trabalhadores e esta quarta-feira renovou o apelo de Fátima de se rezar pela Igreja.

Igreja essa que nas Filipinas continua a fazer frente ao carniceiro Rodrigo Duterte. Agora os bispos oferecem guarida e ajuda a quem quiser testemunhar contra a “guerra à droga”.


Sabia que um em cada cinco países do mundo tem religião oficial? E que a maioria desses países são muçulmanos? Mas o cristianismo é das religiões que mais tem tratamento preferencial.

Esta quarta-feira publicamos um artigo do The Catholic Thing sobre o sentido do sofrimento. É algo que toca a todos durante as nossas vidas. Como entender e tirar graça da dor? O médico Philip Hawley deixa a sua opinião.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

E você, já rezou pelos políticos hoje?

Como tinha avisado, estive fora na semana passada e por isso não pude partilhar nenhuma das muitas notícias que foram publicadas por causa da morte inesperada de D. António Francisco, do Porto. Aqui podem recuperar algumas das mais importantes notícias e homenagens a um homem que era unanimemente considerado um cristão exemplar com um grande coração.

Esta segunda-feira o Papa alertou para a necessidade de se rezar pelos políticos, acrescentando que quem não o faz deve admiti-lo no confessionário. Ontem Francisco falou da necessidade de se perdoar e na incoerência de quem se recusa a fazê-lo.

Entretanto foi libertado o padre indiano que tinha sido raptado no Iémen há um ano e meio e um funcionário da nunciatura do Vaticano, em Washington, está a ser investigado por suspeita de pornografia infantil.

Durante a semana também publiquei um artigo novo do The Catholic Thing. David Warren recorda o autor Hillaire Belloc que previu, num livro escrito em 1938, que o Islão iria recuperar a sua força e continuar a ameaçar o Ocidente. Não perca!

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Como é que a História nos vai Julgar?

Pe. Mark A. Pilon
Passo a apresentar um pouco de história revisionista, claramente inventada, mas que vale a pena contemplar nos dias que correm.

Suponhamos que do início da década de 30 até 1945 a Alemanha tinha-se mantido uma democracia, em vez de se transformar numa ditadura de partido único, como foi com o Terceiro Reich. Suponhamos ainda que muitos representantes democraticamente eleitos de partidos liberais e conservadores tinham juntado forças com os Nazis de Hitler no que diz respeito às políticas antissemitas. Por fim, imaginemos que mesmo alguns deputados católicos da oposição tinham votado em conjunto com o Partido Nazi para levar a cabo a chamada “solução final” para a questão judaica e que tinham apoiado publicamente a sua implementação. Suponha, por agora, que tudo isto eram factos históricos.

Vamos então um bocado mais longe. Imagine que os bispos alemães não tinham tomado qualquer acção disciplinar contra esses políticos católicos, seja de que partido fossem, quer excomungando-os, quer negando-lhes os sacramentos. (Sabendo hoje que estas medidas já foram aplicadas pelos bispos alemães nos nossos dias apenas por não se pagar o chamado imposto da Igreja ou para com católicos que não se registam como tal com o Governo). Mas imaginemos que naqueles dias negros não se tinha feito nada do género e imaginemos ainda que as sondagens mostravam cada vez mais católicos alemães confusos sobre estas questões moralmente graves ou decididamente a favor das medidas racistas e genocidas.

Como é que acha que um historiador julgaria esses bispos e esses líderes religiosos? Alguém acreditaria que os bispos alemães tinham desempenhado fielmente o seu papel de proteger a fé dos seus rebanhos – incluindo dos políticos católicos – sem pressionar os católicos no parlamento para defender as vítimas inocentes, fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir as atrocidades do Governo? Será que a Igreja local teria, mais tarde, que se arrepender e pedir perdão, mais até do que os papas têm feito nos últimos anos em reconhecimento de erros do passado?

Talvez se considerasse que os leigos católicos tinham sido apanhados pelos tempos e pela mentalidade tão sagazmente difundida pela máquina de propaganda Nazi. E poderia ser considerada uma atenuante o facto de terem ficado naturalmente confusos com o facto de verem os políticos católicos a evitar serem disciplinados pelos líderes eclesiais e a receber publicamente a comunhão e outros sacramentos, enquanto se continuavam a apelidar de católicos fiéis e alinhados com a Igreja.

Mas voltemos à nossa realidade e ao nosso mundo actual. Durante os últimos 50 anos os leigos católicos na América ouviram os seus bispos a condenar muito claramente o crime monstruoso do aborto. Mas ao mesmo tempo têm visto políticos católicos a apoiar abertamente o chamado direito ao aborto e a combater as medidas para o restringir – com alguns até a defender os horrores da Planned Parenthood, sobre a qual vários bispos já falaram, mas pouco mais. Entretanto estes políticos continuam a apelidar-se de católicos e a receber a comunhão publicamente, por vezes das mãos dos próprios bispos.  

Ao longo deste tempo mais de 55 milhões de seres humanos foram chacinados, o que supera até as terríveis monstruosidades do Terceiro Reich. Entretanto, mais de metade da população católica deste país passou a apoiar o direito ao aborto. Devemos acreditar que não existe ligação entre este distanciamento em massa da verdade e prática moral do Catolicismo e a recusa dos bispos em disciplinar os políticos católicos?

Na verdade, a maioria dos políticos pró-aborto, católicos ou não católicos, são vistos frequentemente a receber homenagens de instituições católicas. Universidades que se dizem católicas contratam professores que divergem publicamente do ensinamento moral católico e, mais uma vez, os leigos não vêem qualquer acção disciplinar. Não surpreende, por isso, que exista muita confusão, sobretudo entre jovens, acerca do ensinamento católico relativo ao aborto e ao casamento. Será que os bispos vão assumir a responsabilidade por esta perda de fé católica em questões tais como o aborto, o casamento, a eutanásia e outros temas morais que se deve à ausência de censura pública de políticos católicos ou de instituições cujos funcionários apoiam estes desvaneios morais?

Como é que a história vai julgar esta geração de líderes da Igreja quando a carnificina chegar finalmente ao fim? Como é que as gerações futuras de católicos julgarão os líderes espirituais desta geração se olharem para trás e virem que nenhum político católico foi alguma vez disciplinado por apoiar e votar favoravelmente não só o aborto como a perversão do casamento? Os mesmos políticos católicos que apoiaram o direito a acabar com vidas humanas inocentes estão agora a apoiar o direito ao casamento homossexual e até a pedir à Igreja que mude os seus ensinamentos. A seguir virá, sem dúvida, a eutanásia, disfarçada de misericórdia.

Até parece que a democracia se tornou um absoluto que supera tudo. Se o aborto é imposto democraticamente, ou legalizado por juízes que trabalham num enquadramento democrático, então os líderes da Igreja ficam como que paralisados quando toca a disciplinar os seus próprios fiéis políticos ou juízes. Se agem no contexto de uma democracia, têm carta branca, é isso? Não podemos dar a ideia de estar a minar a democracia disciplinando sequer católicos que votam pelo direito a matar os inocentes?

Um abortista católico está automaticamente excomungado, mas com o político católico que vota de forma a permitir que o abortista possa exercer o seu trabalho, não se passa nada? Se o juiz [do Supremo Tribunal] Anthony Kennedy atropelar o ensinamento católico com uma decisão bizarra no caso Obergefell [que legalizou o casamento homossexual nos EUA], com ele também não se passa nada. Os políticos e os juízes católicos não podem ser beliscados pela disciplina católica, porque agem a coberto da democracia e da separação entre a Igreja e o Estado e tudo isso. Por isso o juiz Kennedy continua a ser tratado como homem honrado e – mais ainda – pode continuar a afirmar-se um bom católico sem demais consequências.

Questiono-me se um futuro Papa terá de pedir perdão por toda esta hesitação da parte dos bispos de exercer a sua liderança através da disciplina pública, e não só por palavras, mas cobrindo-se de saco e sentando-se em cinzas, penitenciando-se pela fraca resposta dos líderes da Igreja enquanto dezenas de milhões de novos e velhos pagavam o preço dessa inacção com as suas próprias vidas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Barack o Teólogo e Lutero o Playmobil

A cristandade continua a tentar perceber como reagir ao terrível martírio dos 21 cristãos coptas às mãos do Estado Islâmico. Mas se a notícia nos chocou a todos, que dizer da aldeia egípcia de onde eram naturais 13 dos homens? Segundo o pároco, “houve gritos em todas as casas, em todas as ruas”.

Ontem Barack Obama falou do Estado Islâmico. Não contente com o facto de ser líder político e comandante supremo das Forças Armadas, Obama agora também é teólogo e decide o que é o verdadeiro Islão e o que são deturpações…

Já escrevi sobre este assunto antes, aqui, mas escusado será dizer que sou da opinião de que não cabe aos líderes políticos fazer este tipo de juízos. E não estou sozinho! Não deixem de ler este excelente e autoritário artigo que explica, bem explicado, o que é o Estado Islâmico e em que é que acreditam.

Mudando de tom, porque bem falta nos faz rir, os responsáveis da empresa alemã Playmobil estão estupefactos com o maior fenómeno de vendas de sempre daquele brinquedo… Nada mais nada menos que Martinho Lutero! Bom, neste caso um bocadinho menos, porque afinal de contas é só um boneco…

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Joe Biden e as Portas do Inferno

Pe. Mark A. Pilon
Há dias o vice-presidente Joe Biden declarou solenemente que os bárbaros que decapitaram o jornalista Jim Foley seriam perseguidos até às portas do Inferno e depois repetiu, duas vezes, que era no inferno que iriam residir. A primeira parte da afirmação é claramente uma metáfora que indica que os EUA não vão desistir de trazer esta gente até à justiça. Mas a segunda parte é bastante diferente, Biden declarou que os terroristas estão destinados a ir para o Inferno, por causa do assassinato bárbaro deste jornalista americano, e tantos outros.

Biden abriu as portas a um tipo de juízo muito severo. Pessoalmente, concordo que estes homens são verdadeiros bárbaros e que os seus crimes merecem a punição do Inferno – mas estou obrigado a acrescentar: a não ser que se arrependam. Este já é um juizo moral com uma condição e não um juizo final escatológico sobre o destino final de tais monstros.

Mas não podemos dizer algo parecido de Joe Biden? O vice-presidente é um aliado firme do movimento bárbaro que, neste país e durante o seu mandato, conduziu à morte – também grotesca, de, literalmente, milhóes de seres humanos por nascer. Não interessa o que Biden diz serem as suas opiniões pessoais sobre o aborto, se é pessoalmente contra estes crimes contra a humanidade ou não. Fazendo eco da Escritura, podemos dizer que o ISIS matou as suas dezenas de milhares enquanto os médicos americanos cooperaram com as mães americanas para matar dezenas de milhões. 

Contudo, enquanto os islamitas decidiram transformar a sua barbárie num espectáculo público, as barbaridades dos abortistas tendem a ser escondidas e só se tornam ligeiramente visíveis, mesmo hoje, quando pessoas como o Dr. Gosnell são acusados e condenados.

Biden faz parte deste crime através do seu apoio político. Como a maioria dos católicos que apoiam o lobby pró-abortista e a legislação através dos seus votos, Biden parece não ter sensibilidade para a dimensão e a natureza do mal em que está envolvido, verdadeira e responsavelmente envolvido, mesmo que apenas indirectamente. Embora ele não encoraje ninguém a abortar, nem financie os abortos de ninguém, o seu apoio activo tem feito dele um colaborador em milhões de mortes. Tal como Nancy Pelosi, outra auto-proclamada católica, Biden parece não ter qualquer noção da sua responsabilidade moral.

Cristo ensinou que nem todos aqueles que dizem “Senhor, Senhor”, entrarão no Reino, mas apenas aqueles que fazem a vontade do Pai. Certamente não é a vontade do pai que os líderes políticos cooperem em abortos. Biden, Pelosi e outros católicos que se consideram católicos de boa fé correm o risco de ouvir as palavras que Jesus proclama no final do sermão da montanha: “E então lhes direi abertamente: ‘Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’”. A colaboração ou prática persistente da imoralidade resulta sempre na cegueira moral.


Um muçulmano que se oponha firmemente ao aborto poderia facilmente virar o bico ao prego a Biden e dizer-lhe que é ele o bárbaro que vai parar ao Inferno. Um católico deve colocar as coisas de outra maneira. Deveria usar da caridade para dizer a Biden que residirá no Inferno caso não se arrependa nem faça reparação pela sua colaboração com este grande mal moral. Porque é que nenhum bispo teve a coragem de dizer a Biden e a Pelosi, e a todos os outros católicos colaboracionistas, que arriscam passar a eternidade no Inferno se não se arrependerem? A não ser que Jesus tenha errado quando censurou os fariseus, não há mal nenhum em avisar aqueles que colaboram com o mal moral que arriscam o Inferno caso não se arrependam.

Suponho que os bispos estejam a sofrer de correcção política. Ou então têm uma noção errada da relação entre Estado e Igreja. Mas é provavel que a maioria dos bispos tenha adoptado, de facto, uma noção subjectiva de consciência, a ideia de que a consciência acaba por triunfar sobre a autoridade moral da Igreja. Parece ser isso o que está por detrás da recusa em negar a comunhão a políticos que apoiam o aborto. Partem do princípio que não podem nunca julgar a responsabilidade destes políticos pelas suas acções. O Direito Canónico não exige qualquer juízo final moral para negar a Sagrada Comunhão, apenas o exige quando se considera que certos católicos são culpados de uma acção pública objectivamente escandalosa, contrária à lei moral num assunto grave.

Mas penso que o problema é mais profundo que esta leitura obviamente errada do Direito Canónico. Muitos bispos consideram que uma pessoa pode ter uma consciência recta e moralmente boa, mesmo quando está objectivamente em erro – e sabendo bem que a autoridade da Igreja tem considerado, de forma consistente, que uma acção moral é gravemente errada. Por outras palavras, a formação subjectiva da consciência vence sempre a autoridade moral na determinação da responsabilidade moral, quando estiverem os dois em conflito.

Esta abordagem à consciência moral tem sido a base teórica da “solução pastoral” para a rejeição em massa dos ensinamentos da Igreja sobre contracepção ao longo dos últimos cinquenta anos. A consequência natural, claro, será a total subjectivização da lei moral, como as igrejas protestantes já aprenderam. É por isso que estamos na posição em que estamos no que diz respeito à responsabilidade dos Joe Bidens e das Nancy Pelosis. Eles continuam cegamente a percorrer a estrada que conduz à perdição, enquanto os bispos continuam a manter-se em silêncio, recusando a admoestar publicamente o seu rebanho. Chamam a isto caridade pastoral? 


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quart-feira, 10 de Setembo de 2014 em The Catholic Thing)


© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. 
Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eleições foram derrota para a Igreja

A hindu Tulsi Gabbard com razões para
 sorrir, ao contrário dos bispos católicos
As eleições que se realizaram ontem nos EUA traduziram-se numa derrota para a Igreja Católica em quase toda a linha.

Não só Barack Obama reconquistou a Casa Branca, apesar de os bispos terem deixado bastante claro, sem no entanto endossar claramente Mitt Romney, que os fiéis não deviam votar num candidato que abraça posições anti-católicas como por exemplo a liberalização do aborto e a limitação da liberdade religiosa.

A hostilidade entre os bispos e Obama é palpável, os bispos assumiram um grande risco em entrar em guerra com ele, embora se possa entender que não tinham outra hipótese, por fidelidade aos ensinamentos da Igreja. Recorde-se que a administração de Obama quer obrigar as instituições católicas, como hospitais e escolas, entre outros, a fornecer aos seus funcionários seguros de saúde que incluam serviços contraceptivos e abortivos.

Prevêem-se agora quatro anos complicados para os bispos. Resta saber se Obama vai estender um ramo de oliveira aos católicos, revogando o decreto sobre contracepção. De resto, a Igreja sempre apoiou o seu plano de reforma do sistema de saúde e não se compreende porquê tanta teimosia por parte do Presidente neste assunto.

Nos próximos dias saber-se-á com mais detalhe como votaram os católicos, sendo quase certo que a maioria votou por Obama, mas os dados costumam ser bem trabalhados e dará para ver os votos de católicos praticantes, católicos culturais, outra religiões, etc.

Referendos locais
Mas a "derrota" não foi só nas presidenciais. As posições da Igreja foram derrotadas em quase todos os referendos estaduais sobre temas fracturantes. Tudo indica que os três Estados, mais a cidade de Washington D.C., que votaram sobre o "casamento" gay o aprovaram ou mantiveram. A Florida recusou restringir o acesso ao aborto livre e na California os eleitores rejeitaram a proposta de acabar com a pena de morte.

Só existem dois casos para sorrir. Nomeadamente no Montana, onde as menores agora não podem abortar sem consentimento dos pais, e no Massachusetts onde, aparentemente, a eutanásia foi rejeitada por curta margem.

Resta saber agora como serão os próximos quatro anos e como é que o Cardeal Dolan, presidente da Conferência Episcopal americana, vai lidar com Obama.

Ah! E para os curiosos, Tulsi Gabbard tornou-se, de facto, a primeira hindu a ser eleita para o Congresso, pelo Havai.

Filipe d'Avillez

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Habent x4

Sem pressão, estás só a escolher o Papa!
Habent Papam! Os Coptas ortodoxos já têm um novo líder. Uma criança de olhos vendados escolheu de uma urna a bola com o nome do bispo Tawadros, que se torna assim novo Papa daquela Igreja.

Hoje o Papa de Roma enviou uma mensagem de parabéns. É a única ocasião em que um Papa escreve a outro…


Habent Multos Deos! Na Índia uma organização encontrou uma forma original de salvar as árvores, pintando-as com imagens de deuses hindus e esperando que os locais, conhecidos pela sua devoção, não as cortem por isso.

Habent Comitia! Amanhã é dia de eleições nos EUA. Há muito em jogo e há muita religião no jogo. Mas felizmente está tudo explicado aqui…

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Memórias de perseguição na Índia e solidariedade com a Síria

Cristã vítima de violência em Orissa, Índia, em 1998
Para começar temos uma reportagem com o arcebispo de uma diocese em Orissa, na Índia, onde decorreram algumas das piores perseguições anticristãs da última década.

Vale a pena ler a reportagem e ver o vídeo (se não estiver disponível já, estará em breve). Se quiserem, contudo, ler a entrevista completa, que tem muita informação que não coube na reportagem, podem fazê-lo aqui, no inglês original.

A perseguição aos cristãos é um dos assuntos em discussão no debate de religião na Renascença, esta noite por volta das 23h30.

Bento XVI já se mostrou várias vezes solidário com os sírios, mas enviou agora uma delegação ao país para averiguar o que lá se passa.


E hoje temos novo artigo de The Catholic Thing no blogue. Randall Smith revisita o assunto das presidenciais, dando sequência ao artigo que já tinha escrito o mês passado e no qual avalia se um católico pode, ou não, votar num candidato pró-aborto.

A Formação de uma Consciência Católica

Randall Smith
Agora sei porque é que o Lincoln perdeu para o Douglas [nas eleições presidenciais de 1858].

Há várias semanas escrevi aqui uma coluna em que sugeria que um católico de consciência bem formada não pode votar num candidato que é a favor do aborto quando existe outro que se opõe, tal como no passado um católico de consciência bem formada não poderia justificar votar num candidato pró-escravatura ou pró-nazi.

As respostas que recebi sugerem que é fácil perder de vista o que é realmente importante, no meio de um mar de temas secundários.

Alguns acusaram-me de ter comparado Obama a Hitler, apesar de o nome do Presidente nunca ter aparecido no artigo. Trata-se de uma incompreensão sobre analogias, que envolvem sempre a comparação de coisas diferentes.

Se eu disser que o terço está para o dominicano como a espada está para o soldado, não estou a equiparar os dominicanos aos soldados. Antes, estou a contrastar a relação que o dominicano tem com o seu terço com a que o soldado tem com a sua espada (ambos a usam à cintura). A questão é que, tal  como os nossos antepassados, nós também temos de enfrentar desafios morais cruciais.

Outros responderam com o argumento de que os cortes propostos para o sistema de saúde  Medicare poderão trazer um aumento de abortos, apesar de não haver quaisquer dados estatísticos que o sustentem. Isto sem mesmo ter em conta que, por um lado, se agora não fizermos nada sobre o Medicare terá de haver cortes muito mais preocupantes no futuro e, por outro, que não podemos tomar decisões sólidas com base em consequências imprevisíveis. 

Hoje em dia não teríamos muita paciência para alguém que, em 1858, argumentasse que ia votar em Douglas porque, se a economia melhorasse, talvez diminuísse a pressão para alargar a escravatura.

Que diríamos sobre um eleitor desses se a economia acabasse por não melhorar – se, pelo contrário, piorasse bastante – e ele continuasse a votar no Douglas? Começaríamos a pensar que as preocupações expressas pelos escravos eram afinal uma mentira, para dar cobertura aos seus verdadeiros interesses.

Também houve quem afirmasse que certos candidatos actuais não são suficientemente pró-vida, ou que “não faz qualquer diferença”. Na altura de Lincoln também se faziam argumentos do género, de que não era suficientemente anti-escravatura (e na verdade não era), ou de que não seria capaz de mudar nada. Mas isso não passa de sofismas.

Não vivemos num mundo de candidatos perfeitos, mas pense no seguinte: No dia em que um presidente pró-vida assumir funções: A proibição de usar fundos públicos para promover abortos no estrangeiro volta a aplicar-se; As leis contra a experiências com células estaminais embrionárias também; Isto para não falar na possibilidade de se poder nomear um juiz do Supremo Tribunal (ou dois), que poderia votar contra o aborto em vez de a favor, o que seria certamente o cenário contrário.

A única forma de refutar a proposição de que um católico com consciência bem formada não pode votar a favor de um candidato pró-aborto quando existe outro que seja pró-vida, da mesma forma que não poderia votar a favor de um candidato que fosse pró-escravatura ou pró-nazi, seria argumentar que: (A) Um católico de consciência bem formada poderia ter votado a favor de um candidate pró-escravatura ou pró-nazi (será que alguém acredita nisso?), ou (B) Que o aborto não é um mal tão grave como a escravatura ou o genocídio Nazi.

É importante realçar que o juízo sobre a gravidade moral do aborto não é meu, é da Igreja. Quem praticar, ou cooperar formalmente na prática de um aborto incorre em excomunhão automática à luz do direito canónico (cânone 1398).

A declaração sobre aborto provocado, publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1974 afirma: “O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Ela tem outros bens e alguns deles são mais preciosos; mas este — da vida — é fundamental, condição de todos os demais.”

Na exortação apostólica Christifideles Laici, João Paulo II afirma:
“Ora, a inviolabilidade da pessoa, reflexo da inviolabilidade absoluta do próprio Deus, tem a sua primeira e fundamental expressão na inviolabilidade da vida humanaÉ totalmente falsa e ilusória a comum defesa, que aliás justamente se faz, dos direitos humanos — como por exemplo o direito à saúde, à casa, ao trabalho, à família e à cultura, — se não se defende com a máxima energia o direito à vida, como primeiro e fontal direito, condição de todos os outros direitos da pessoa.”

Mais, no Evangelium Vitae, João Paulo II deixou claro que, embora haja uma vasta gama de questões ligadas à vida e ataques à dignidade humana sobre as quais nos devemos preocupar, o aborto e a eutanásia são de “outra categoria” e de “gravidade extraordinária”.

Finalmente, em 1998, no documento “Living the Gospel of Life: A Challenge to American Catholics,” os bispos americanos declararam:

“Introduzir o respeito pela dignidade humana na vida política pode ser um tarefa assustadora. Há uma grande variedade de questões que envolvem a protecção da vida  e a promoção da dignidade humana. É frequente pessoas boas discordarem sobre quais os problemas a abordar, que políticas adoptar e a melhor maneira de as aplicar. Mas tanto para cidadãos como para políticos o princípio base é simples: Devemos começar com o compromisso de nunca matar intencionalmente, nem cooperar com a morte de, qualquer vida humana inocente...”

Por outras palavras, há certas escolhas de acção que são sempre incompatíveis com o amor de Deus e com a dignidade da pessoa humana criada à sua imagem. O aborto directo nunca é uma opção tolerável. É sempre um acto grave de violência contra uma mulher e o seu filho por nascer.

A Igreja tem sido tudo menos pouco clara sobre este assunto. A questão passa por saber se os católicos se consideram obrigados a formar as suas consciências de acordo com os repetidos ensinamentos da Igreja e depois agir conforme, ou se preferem tomar a atitude equivalente a tapar as orelhas e gritar: “não estou a ouvir, não estou a ouvir!

Quem tem ouvidos que ouça. O sangue dos nossos filhos clama do chão.



Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A arte de não comentar...

O Patriarca de Lisboa disse hoje que não quer entrar na balbúrdia das opiniões sobre a situação actual do país.


Tudo isto em Fátima, na conferência de imprensa que lança as celebrações do 13 de Maio, que lança o Ano da Fé em Portugal.

A citação do dia vai para o Pe. António Vieira, por via do Bispo de Beja, D. Vitalino Dantas: “A fé que não se apega, apaga-se”.

Ontem o Papa voltou a falar do Concílio Vaticano II, falando de um legado com “luzes e sombras”. Uma das sombras é a fuga dos fiéis… exemplo disso é a holanda, onde fecham duas igrejas por semana.

No meio disto tudo a Renascença encerra este fim-de-semana, também em Fátima, as celebrações dos 75 anos de existência. O padre João Aguiar considera que enquanto rádio católica ela tem “uma responsabilidade diferente” das restantes.

sábado, 18 de agosto de 2012

Dois anos atrás das grades para afinar a voz

Três das meninas da banda Pussy Riot foram condenadas a dois anos de pena efectiva pela “actuação” que tiveram na Catedral de Moscovo.

É uma pena severa? É. Mas não me parece totalmente desajustada. Quem ouve apenas os bem-pensantes liberais a falar do assunto diria que elas estão a ser condenadas só porque são anti-Putin, ou porque criticaram a Igreja russa. Mas aquilo que elas fizeram foi de uma total falta de respeito pelas crenças mais profundas de milhões de pessoas e a profanação de um espaço sagrado.

Para colocar as coisas em perspectiva, se eu e os meus amigos amanhã fizéssemos um “show-concerto-punk-protesto”, devidamente mascarados, na Mesquita de Meca, ou junto ao Muro das Lamentações, a protestar contra a ligação entre as respectivas religiões e Estados, o que é que vos parece que me aconteceria?

Dito isto, tinha ficado bem uma condenação meramente simbólica e, para que fique claro, com estas palavras não estou a dizer que acho que os tribunais russos funcionam de forma transparente, ou sequer que aprovo do Governo ou da sua cada vez mais estreita ligação à Igreja Ortodoxa.

Para este blog interessa especialmente analisar o papel da Igreja Russa no meio disto tudo. Parece-me que ela caiu aqui numa perigosa armadilha. Ao alinhar numa condenação e num circo mediático que interessa mais a Putin que à Igreja, expõe-se em demasia por uma causa pateta. O acto das Pussy Riot não teve nada de heroico. Foi de mau gosto, ofensivo e, sobretudo, infantil. Mas a Igreja Ortodoxa conseguiu fazer destas miúdas mártires de uma causa que nada devia ter a ver consigo e assim assumiu uma aura de perseguidora, cimentando a ideia de que está de facto ao serviço de Putin e do Kremlin.

O maior perigo da não separação entre a Igreja e o Estado é sempre para o lado da Igreja, e não do Estado. Esta é mais uma prova de que isso é verdade. A revolta do mundo por esta causa (que só prova que estamos de facto na Silly Season informativa) tem agora por alvo os padres e bispos ortodoxos que, sinceramente, merecem melhor do que serem descritos como lacaios de Vladimir Putin.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fé e Luz, partidos religiosos e as "coisas que os povos amam"

Nestes dias foram publicadas três reportagens sobre o movimento Fé e Luz, que trabalha com pessoas com deficiência mental e as suas famílias. Para além de servir de apoio, o movimento procura estimular a espiritualidade destes “amigos especiais”, como são conhecidos.


Se alguém estiver interessado em conhecer melhor este movimento deve contar Alice Cabral: caldeiracabral.alice@gmail.com

De resto soubemos hoje que a Líbia pretende proibir os partidos de natureza religiosa. Adivinhem que não gostou da ideia?


Ontem, como é hábito, foi publicado o artigo semanal de The Catholic Thing. Este fala sobre o problema da crise demográfica, que afecta também o mundo islâmico. “Os povos falham porque amam as coisas erradas”. Será assim?

E por fim, muitos de vós terão recebido, como eu, um e-mail a alertar para a perseguição dos cristãos na índia por parte de “Budistas extremistas”. É um e-mail falso, em vez de o reencaminharem ou de se preocuparem, leiam e divulguem esta clarificação.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Havana e Religião: Se não os puderes vencer, junta-te a eles

Diana Espírito Santo com um curandeiro tradicional, em Cuba
Diana Espírito Santo é antropóloga Social e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Especialista em religião popular cubana, ela ajuda-nos a compreender como se vive a religiosidade num dos últimos países comunistas do mundo

Aqui deixo a transcrição integral da entrevista. Para ler a notícia clique aqui.


Como é que o povo cubano vive a religiosidade?
É um povo que, ao contrário daquilo que se pensa, tem uma religiosidade bastante aprofundada, que não desapareceu ao fim destes anos todos, e que por um lado é mal documentada e por outra continua a existir de uma maneira muito forte e muito popular.

Há números?
Só houve dois censos minimamente fiáveis. O primeiro foi em 1954 pela Agrupacion Católica Universitária e que mostrou 72,5% da população a declarar-se católica, em vários graus de compromisso; 19% declarou-se indiferente, 6% protestante e 1% espírita, o que deve incluir praticantes da religião afro-cubana.

Em 1988 foi o próximo e já mudou muito a estatística. Foi do Departamento de Estudos Socio-religiosos. 55,9% disse acreditar nalguma coisa de conteúdo mágico, mas que não pertence a nenhum grupo organizado; 13,6% dizem que são crentes em algo sobrenatural, em milagres, e 6,3% dizem que pertencem a um grupo especificamente religioso. Finalmente 13,8% são não-crentes e 10,4% não determinados. Mas este censo tem um problema, é que até bastante tarde nos anos 90 havia muito pouca possibilidade de se declarar religioso sem consequências. Não se podia ser praticante católico ou de religião afro-cubana e ao mesmo tempo ter-se acesso a muita coisa, como ser membro do partido, por exemplo, eram dificultadas as possibilidades de trabalho, de acesso à universidade, ou seja há um grande incentivo para não declarar, não havia instituições religiosas nessa altura.

E como tem sido a evolução da relação com a Igreja Católica?
Fidel Castro teve uma relação muito complicada com a Igreja Católica, no princípio da revolução houve vários passos dados pela Igreja que demonstravam uma certa aliança com os poderes neo-coloniais dessa altura, com a ditadura, e logo após a revolução, também. A Igreja foi instrumental em tirar do país uma série de crianças, na operação Peter Pan, derivada do medo instalado na Igreja de que o Regime ia mandar as crianças para campos de reeducação na União Soviética e que iam levar uma lavagem cerebral e ser separadas dos pais, que era a antítese do que se pretendia.

A Igreja demonstrou-se oposta aos ideais da revolução e Fidel consolidou esse antagonismo depois do fiasco da Baía dos Porcos, em que alguns dos que foram detidos, que tinham sido treinadas pela CIA, eram padres católicos. Castro, em 1961, tem uma viragem completa contra a Igreja, fecha seminários, invalida títulos de universidades católicas e deporta padres. Muitos dos padres nessa altura e foram expulsos, ou presos.

Freira católica em Cuba (Foto Diana Espírito Santo)
O que é que se passa para que haja a abertura nos anos 90?
É simplista dizer que foi só a queda do regime soviético, mas Cuba tinha uma dependência quase a 100% do Comecon e ficou completamente devastada, passou por uma época de crise chamada “o período especial”, que desencadeou uma série de outros fenómenos. As pessoas estavam sob enorme pressão e a religião tornou-se não só um ponto de escape espiritual e existencial, mas também de apoio económico e social.

Sobretudo entre as religiões afro-cubanas, as redes que sempre existiram forneciam uma espécie de família que era uma fonte de apoio e de comida, até.

Ao mesmo tempo abriu-se um bocado o país nessa altura, para turismo, para intercâmbios culturais. Fidel disse, em 91, que não havia opção se não abrir o país.

A partir daí as coisas começaram a progredir muito rapidamente. No congresso de 1992 do partido salientou-se que era preciso dar mais liberdade às pessoas de exprimirem-se, porque o projecto comunista de aniquilação das crenças religiosas não tinha resultado.

O Comunismo pensou que a crença religiosa era uma questão de falta de conhecimento, de educação, de recursos, e afinal não era. Ao fim de 30 anos de comunismo as pessoas estavam a praticar mais até do que antes do comunismo, então o regime decidiu aliar-se a isso e não opor-se. Isso foi das primeiras fortes mudanças de atitude.

Durante os anos 90 foi-se cultivando essa liberdade religiosa e em 98 quando veio o Papa João Paulo II foi a cristalização desse processo todo. Foi extraordinário, foi recebido por milhares de pessoas em Havana, foi recebido por Fidel Castro sem farda, um acto de reverência. Disse que não aprovava o embargo americano e por outro lado pediu ao regime que fosse mais tolerante com os religiosos, de toda a espécie. E Fidel prometeu que iria ser mais tolerante e mais flexível, e foi. Os anos 2000 foram completamente diferentes. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Os enjoos de Rick Santorum e os amigos de Israel

O Patriarca de Lisboa e o Papa Bento XVI assinalaram ontem o primeiro Domingo da Quaresma. O primeiro, que ontem fez 76 anos, falou sobre o catecumenato e o segundo sobre o casamento.


Na Nigéria mantém-se o ataque aos cristãos. Três pessoas morreram durante um ataque suicida em Jos.


E por fim, em Israel o responsável pelos lugares santos católicos queixou-se ao presidente de uma onda de vandalismo contra locais cristãos. Faz tudo parte de uma campanha contra o desmantelamento dos colonatos judaicos.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Como se diz colaboracionista em língua gestual?

Homem de Deus ou agente Hristov?
Tem curiosidade em saber como é uma missa para surdos-mudos? Amanhã celebra-se uma em Leiria, às 19h. Trata-se de uma iniciativa importante, o ministério para surdos-mudos tem muito que caminhar na Igreja. Mas pode uma missa ser celebrada em língua gestual? A resposta a essa e outras questões, aqui.

A Igreja Ortodoxa da Bulgária está a ser abalada pela revelação de que 11 dos 15 membros do Santo Sínodo eram colaboradores da polícia secreta do regime comunista. Falámos com o padre da comunidade ortodoxa búlgara em Lisboa, que fala numa tentativa de descredibilizar a Igreja.

Seja como for, a Bulgária será um dos últimos países do Bloco de Leste a ser abalado por este escândalo que também afectou a Igreja Católica, por exemplo na Polónia.

Na Nigéria as preocupações são outras. A Ajuda à Igreja que Sofre fala em 35 mil cristãos que já fugiram do Norte do país. Sobre este assunto volto a chamar atenção para este artigo de The Catholic Thing, que publicámos em português no blogue.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Constituição húngara revisitada

Alguns leitores afirmaram, na caixa de comentários ao meu último post sobre a Constituição da Hungria, que eu tinha caído no logro da propaganda liberal sobre este assunto.

Tendo lido a constituição devo concluir que, de facto, não encontro nela provas claras que sustentem a maioria das acusações que tenho lido e que repeti no meu texto de ontem. As conclusões gerais do texto, contudo, mantém-se, uma vez que não dependem deste caso específico.

Contudo, na constituição encontrei alguns sinais de alarme, vejamos:

O artigo D e H referem que “that there is one single Hungarian nation that belongs together,
Hungary shall bear responsibility for the fate of Hungarians living beyond its borders, and shall facilitate the survival and development of their communities; it shall support their efforts to preserve their Hungarian identity, the assertion of their individual and collective  rights,  the  establishment of their community  self-governments,  and  their prosperity in their native lands, and shall promote their cooperation with each other and with Hungary” e que “Hungary shall protect the Hungarian language”

Isto levanta muito perigo de ingerência nos assuntos de outros. Há minorias de etnia húngara em vários dos países vizinhos da Hungria, incluindo a República Checa e a Sérvia, por exemplo, no passado tem havido tensões por causa disto e o tom do que está escrito na constituição não é particularmente amigável.

Contudo, o que está escrito mais à frente parece equilibrar e dar um sentido de reciprocidade: “Nationalities living in Hungary shall be constituent parts of the State. Every Hungarian citizen belonging to any nationality shall have the right to freely express and preserve his or her identity. Nationalities living in Hungary shall have the right to use their native languages and to the individual and collective use of names in their own languages, to promote their own cultures, and to be educated in their native languages.
Nationalities living in Hungary shall have the right to establish local and national self-governments

Adiante.

Article O: Every person shall be responsible for his or herself, and shall be obliged to contribute to the performance of state and community tasks to the best of his or her abilities and potential
Isto significa o quê, precisamente? É demasiado vago para o meu gosto.

No artigo VIII vemos isto, respeitante a partidos políticos. Recordo que uma das acusações que se fazia era que a nova constituição tornava o maior partido de oposição de esquerda ilegal.

Every person shall have the right to peaceful assembly.
Every person shall have the right to establish and join organisations.
The right to freedom of association shall allow the free establishment and operation of political parties. Political parties shall  participate in the formation and proclamation of people’s will. No political party may exercise public power in a direct way.

The detailed rules for the operation and financial management of political parties shall be regulated by a cardinal Act.”

Ora, à primeira vista nada de grave. A questão está em saber o que se encontra no tal “cardinal Act”, pois isso pode fazer toda a diferença, e aí confesso não fazer a menor ideia. [Ver adenda]

Pode-se dizer o mesmo em relação à imprensa e ao tribunal constitucional:

“The detailed rules for the freedom of the press and the organ supervising media services, press products and the infocommunications market shall be regulated by a cardinal Act”

“The detailed rules for the competence, organisation and operation of the Constitutional Court shall be regulated by a cardinal Act.”

Escrito este texto fiz mais umas pesquisas e verifiquei que as minhas preocupações coincidem, no essencial com as da Comissão de Veneza, um órgão do Conselho da Europa, como se pode ver por este parágrafo da conclusão:

“The significant number of matters relegated, for detailed regulation, to cardinal laws requiring a two-thirds majority, including issues which should be left to the ordinary political process and which are usually decided by simple majority, raises concerns. Cultural, religious, moral, socio-economic and financial policies should not be cemented in a cardinal law.”


Salvaguardo que não sou nem constitucionalista, nem de direito. Os comentários nestes assuntos são sempre bem-vindos!

ADENDA

Chamo atenção para este texto, que esclarece um pouco o que são os "Cardinal laws" e o conteúdo daqueles que têm sido passados nas últimas semanas. Se Paul Krugman tiver razão, e não tenho razão para pensar que não tenha, então definitivamente penso que estamos perante um texto problemático. Ironicamente o problema não será tanto a Constituição, mas sim as "outras coisas" (novamente as "outras coisas"), nomeadamente as Cardinal laws.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Debate episcopal, mortes missionárias e viagens papais

Espero que todos tenham entrado bem no novo ano!

A jornalista Aura Miguel reuniu os três bispos mais novos de Portugal para um debate sobre o estado da Igreja em Portugal. Pode ler a notícia aqui e ainda ouvir o debate completo.

No mundo morreram, em 2011, 26 missionários católicos. A América Latina continua a ser o local mais perigoso para ir pregar o Evangelho.

Ontem entrou em vigor a nova constituição da Hungria. O documento consagra a herança cristã do país, defende o casamento e a vida, mas limita seriamente os direitos individuais, de imprensa e outros. A minha opinião aqui.


Depois do Reino Unido os EUA já têm um ordinariato pessoal para acolher anglicanos que queiram entrar em comunhão com Roma.

Partilhar