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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Alguns homens nascem eunucos . . .

Anthony Esolen
Alguns homens nascem eunucos, alguns tornam-se eunucos pelo Reino do Céu e alguns, para grande lucro de cirurgiões e da indústria farmacêutica, são feitos eunucos por pais que os abandonam e por mães que não.

O último “castrato” a cantar profissionalmente, Alessandro Moreschi, morreu em 1922. Não se sabe se ele foi castrado ainda menino para preservar a voz, ou por causa de uma hérnia inguinal. Ainda existe uma gravação, em mau estado, da sua voz. O que se ouve é um soprano algo fibroso, não é o género de coisa para a qual um defensor da prática recomendaria a mutilação. Talvez outrora tenha sido mais forte e seguro. Não sabemos.

À medida que um rapaz se aproxima da puberdade, a sua voz ganha uma qualidade peculiar devido à configuração singular e temporária da sua laringe e cavidade oral. Produz um som que os mestres de coro valorizam muito e que inspirou os talentos de compositores como Palestrina, Allegri e Bach.

Para preservar esse timbre, por vezes um soprano rapaz aceitava ser castrado. Quando os “castrati” eram o último grito da moda nas cortes e nos coliseus da Europa iluminista, um rapaz talentoso de uma família humilde poderia ser tentado a aguentar a mutilação para poder ganhar dinheiro para si e para os seus pais.

Naturalmente isso também o levava a ser bem acolhido nos quartos de mulheres aristocratas, que brincavam com ele como fariam com um cachorro, sem envergonhar os seus maridos. Essa é a lógica por detrás do estratagema de Horner na peça lasciva de Wycherley “A Mulher do Campo”, embora neste caso a castração tenha sido supostamente necessária por causa de sífilis. Os eunucos também eram um alvo preferido por homossexuais.

Contranatura e bárbaro. O Papa Leão XIII condenou a prática quando assumiu o papado em 1878. Graças a Deus não a voltaremos a ver.

Mas estamos a assistir a coisas bem piores. Pensemos um bocado nisto.

Longe de mim desculpar de qualquer maneira os padres nojentos cujos vícios deturparam as vidas de tantos rapazes e jovens e reduziram várias paróquias e dioceses à penúria. Mas quando esses homens acabavam de apalpar as joias da família, estas pelo menos continuavam ligadas ao rapaz, que ainda poderia vir a tornar-se marido e pai de família.

Mas isso já não é o caso quando o rapaz “transita”, isto é, quando se submete a cirurgia para poder fingir ser a rapariga que não é, nem nunca poderá ser.

O rapaz que optava pela mutilação fazia-o para garantir algo que era, em si, um bem. É bom, e não mau, ter uma voz bonita. É bom ser um solista no “Miserere” de Allegri. Não é bom mutilar o corpo para isso. É bom, e não mau, poder ser o ganha-pão da família. Mas não é bom mutilar o corpo para o conseguir. É bom louvar a Deus. Não é bom expressar esse louvor através de algo que é contranatura, como a mutilação.

Esse rapaz, muito provavelmente, sabia bem o que era o sexo. Sabia-o melhor do que as nossas crianças agora. Teria visto os animais da quinta, teria dormido próximo de outras crianças e teria desenvolvido uma atitude prática para com as exigências mais embaraçosas da vida física. Teria estado próximo de homens a fazer trabalho fisicamente árduo, todos os dias da sua vida, trabalho que só os homens podiam fazer.
Alessandro Moreschi

Ele não estava a rejeitar o seu sexo. Não estava acometido da loucura de acreditar que na verdade era uma menina. Ninguém lhe tinha dito na escola que o seu sexo era responsável por todo o mal que existe no mundo. Não teria crescido num lar dividido pelo divórcio, com uma mãe infetada por fantasias feministas de um mundo purificado do masculino. Não teria tido que se sujeitar à hora do conto narrado por travestis. Não teria pornografia à distância de um clique. Não vivia no reino da ilusão. A mutilação assegurava, de facto, o bem em questão.

Não seria sujeito a uma cirurgia após outra. O seu corpo não seria bombeado com drogas perigosas, incluindo bloqueadores de puberdade e hormonas para fazer crescer os seios, que provavelmente virão a ser carcinogénicas. Não seria condenado a uma vida de dependência farmacêutica. Os seus ossos largos continuariam a crescer. O seu corpo seria um pouco mole, mas de resto pareceria um homem normal e não uma aberração. Não seria sujeito a uma operação para fazer uma vagina falsa.

Não faria parte de uma campanha para preservar e prolongar uma ética profundamente anticristã, como é a nossa revolução sexual. Como já disse, talvez fosse tentado pela homossexualidade, mas esse não seria o objectivo declarado da operação. Não estava envolvido na destruição da linguagem. Seria tratado por “ele” e provavelmente atirava-se a quem o tratasse de outra forma.

Não estava a estabelecer um precedente para outros violadores do sentido do humano: falo naqueles que acreditam que devemos fabricar-nos a nós mesmos, através da manipulação genética, úteros artificiais e outras pontes que o homem lança ao robot ou à besta. Não estava a lançar um precedente para pessoas doentes que acreditam que não serão inteiros enquanto não forem parciais: falo naqueles que não conseguem viver com a integridade dos seus corpos e que por isso encontram, nalgum lado, um médico malévolo que lhes remova um braço ou uma perna saudável.

Não estava na linha da frente da sujeição dos pensamentos, da linguagem e dos actos de pessoas normais e ordinárias à supervisão de um estado vasto e totalitário, com a sua simbiose de entretenimento e escolaridade massificados.

Por mais doentio que fosse fazer aquilo que eles faziam, o que fazemos agora é muito pior.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Cinco Paradoxos da Revolução Sexual

Mary Eberstadt
Nota: Este artigo é, na verdade, dois... A primeira parte foi publicada no dia 14 de Fevereiro e a segunda, para simplificar a leitura, foi-lhe juntada no dia 21.

As definições de revolução sexual variam consoante os académicos, mas há uma fórmula simples e incontroversa. A “revolução” diz respeito a mudanças no comportamento e nas normas sexuais que se seguiram à aprovação e adopção de formas de contracepção fiáveis há mais de meio século. O primeiro factor foi a pílula, aprovada para comercialização em 1963 e disponibilizada em larga escala a partir de então. O segundo factor é a legalização do aborto a pedido em 1973 através do caso Roe v. Wade – um desenvolvimento que a aprovação da pílula tornou tudo menos inevitável. A contracepção moderna e a legalização do aborto alteraram não só os comportamentos como as atitudes. Em todo o mundo a tolerância para com o sexo extraconjugal subiu em conjunto com estas outras mudanças, por razões lógicas que já abordei noutros lados, incluindo no meu livro “Adão e Eva depois da Pílula”.

À excepção da internet, é difícil pensar em qualquer outro fenómeno desde os anos 60 que afectou a humanidade em todo o mundo tão profundamente como esta revolução em particular. Alguns dos efeitos são bem conhecidos: há quatro anos, no 50º aniversário da aprovação da pílula contraceptiva, assistimos a uma torrente de comentário e de reflexão, na maioria positiva. A revolução, como foi proclamado – e aclamado – pela revista Time e a maior parte das outras fontes seculares, tinha aplanado o campo do mercado económico entre homens e mulheres, pela primeira vez na história; tinha concedido às mulheres uma liberdade que jamais tinham conhecido. Tudo verdade. Mas há um outro lado desta história que tem sido ignorado por uma sociedade saturada pelos prazeres da revolução. A cada ano que passa acumulam-se mais provas que acabarão por alterar a narrativa cor-de-rosa que predomina. Nesse sentido gostaria de falar de cinco formas em que a revolução alterou a realidade humana como a conhecemos, cinco aparentes paradoxos que revelam o poder da revolução, em particular o seu incrível poder destrutivo.

Comecemos por uma pequena história que capta a escala da mudança. Eu cresci numa série de pequenas vilas em zonas rurais do Estado de Nova Iorque, a norte do Vale do Rio Hudson, no que parecia um planeta diferente da Cidade de Nova Iorque. Esta era, e é ainda, uma região de operários. Era o tipo de sítio em que mais rapazes nos anos 60 iam para o Vietname do que para a faculdade. Em larga medida não mudou, com uma gigantesca excepção, a família.

Nos anos 60 a maioria dos homens trabalhava nas explorações agrícolas, ou nas fábricas de cobre ou de prata locais. A maioria das mulheres casadas ficava em casa. A maior parte das famílias estava intacta – quer as religiosos quer as não religiosos. Não era uma população particularmente devota, a maioria dos residentes eram protestantes, menos de 10% católicos, e as igrejas não estavam propriamente a rebentar pelas costuras aos domingos.

Uma das minhas memórias dessa época é de uma rapariga adolescente que vivia na nossa rua e que engravidou. O pai da criança era um jovem soldado, acabado de regressar da guerra. As fofoqueiras estavam revoltadíssimas porque o rapaz não tencionava casar com ela. Nesses dias isso era chocante. Havia noivas grávidas, até adolescentes, mas os homens que recusavam casar com as mulheres que engravidavam eram objecto de reprovação. As pessoas falavam, e o que diziam não era simpático.

A rapariga acabou por ter o bebé, noutro local qualquer, e seguiu-se uma adopção. Ela regressou e acabou o liceu – tanto quanto sei sem estigma social. Mas o estigma de que me lembro, e bem, foi o que se manteve em relação ao namorado. A ideia de que ele se deveria ter responsabilizado, que era partilhada pela maioria dos adultos naquele local, e naquele tempo, desapareceu com os ventos da revolução.

Avancemos agora alguns 20 anos. No início dos anos 90 regressei e conversei com a minha antiga professora. Ela calculava que entre os 200 finalistas do liceu desse ano, cerca de um terço das raparigas estava grávida. Nem uma era casada. E sem dúvida haveria outras gravidezes para além das visíveis, pois havia boatos de que outras raparigas tinham abortado.

Ou seja, de uma gravidez escandalosa num liceu rural nos anos 70 passámos para muitas gravidezes não escandalosas nesse mesmo liceu em meados dos anos 90. Essa é uma imagem que nos mostra como a revolução sexual transformou o mundo.

O que nos leva ao primeiro dos paradoxos dessa revolução:

Paradoxo um: Se a premissa principal da revolução era a disponibilidade de contraceptivos baratos e fiáveis, porquê o aumento sem precedentes tanto no número de abortos como de gravidezes extraconjugais?

Esta é uma questão profundamente importante. Afinal de contas, quando a contracepção se tornou comum, muitas pessoas de bem-intencionadas a defenderam precisamente porque pensavam que tornaria o aborto obsoleto. A Margaret Sanger é um exemplo disso mesmo. Ela considerava o aborto “bárbaro” e argumentou que a contracepção acabaria com a prática. Entretanto a Planned Parenthood elevou-a ao estatuto de padroeira. Ela estava a fazer um argumento que parecia ser do senso comum: a contracepção fiável iria prevenir o aborto. Muitas mais pessoas, tanto antes como depois dos anos 60, acreditaram na mesma coisa. Mas os dados empíricos desde os anos 60 mostraram que esta lógica está errada. As taxas de contracepção, aborto e nascimentos fora do casamento explodiram em simultâneo. Há mais de 20 anos um grupo de economistas explicou a dinâmica destes crescimentos simultâneos com uma clareza admirável.

Antes da revolução sexual as mulheres tinham menos liberdade, mas era esperado que os homens assumissem a responsabilidade pelo seu bem-estar. Hoje as mulheres têm maior liberdade de escolha, mas os homens adoptaram para si uma opção comparável. “Se ela não está disposta a abortar ou a usar contraceptivos”, pensa o homem, “porque é que eu hei de me sacrificar para casar?” Ao remeter o nascimento da criança para a dimensão da escolha da mãe, a revolução remeteu o casamento e o apoio infantil para a dimensão da escolha do pai. Por outras palavras, a contracepção conduziu a mais gravidezes e a mais aborto porque levou ao fim do casamento por “penalti”, ou a ideia de que os homens têm uma responsabilidade igual no caso de uma gravidez não planeada.

Outra teoria interessante sobre o falhanço da contracepção na prevenção do aborto foi aduzida por Scott Lloyd, no “National Catholic Bioethics Quarterly”. Recorrendo a estudos e estatísticas da própria indústria abortista ele (tal como outros) argumenta que a contracepção conduz ao aborto – não inevitavelmente, em casos individuais, claro, mas repetidamente e seguramente, como fenómenos sociais geminados:

“A questão de fundo é esta: os contraceptivos não são tão eficazes como dizem, e o seu falhanço está no cerne da exigência pelo aborto. A contracepção permite encontros e relações sexuais que sem ela não aconteceriam. Por outras palavras, quando os casais usam contraceptivos, concordam em ter relações sexuais numa altura em que uma gravidez seria problemática. Isto conduz ao desejo por um aborto.”

Há muitos esforços nas ciências sociais, e não só, para explicar este mesmo paradoxo; mas a questão principal mantém-se: ao contrário do que a maioria teria adivinhado nos anos 60, tanto o aborto como as gravidezes não planeadas proliferaram apesar da contracepção.

Muitas das pessoas que estavam presentes no início desta revolução não teriam antecipado estas consequências paradoxais. Muitas, em boa-fé, esperavam que a humanidade dominasse estas novas tecnologias e que elas acabariam por contribuir para o bem social. Mas aqueles de nós que estão vivos hoje, em claro contraste, possuem uma imensidão de dados empíricos acumulados ao longo de décadas e podemos ver, através da ferramenta perfeitamente secular das ciências sociais, que a história da revolução sexual tomou um rumo mais sinistro.

Paradoxo dois: A revolução sexual era suposto libertar as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, tem-se tornado mais difícil para elas conseguir aquilo que a maioria das mulheres diz querer: casamento e família.

Não estou a ser tendenciosa. Mulheres de todos os espectros políticos concordam que o casamento, ou a união para a vida, se tornou mais difícil do que outrora fora. Essa é uma razão pela qual temos actualmente barrigas de aluguer e congelamento de ovos – no caso do congelamento, com o apoio entusiástico do mundo empresarial. O objectvo destas inovações – para além dos lucros de um carreirismo ininterrupto – é estender o horizonte da fertilidade natural, para que as mulheres estejam mais livres para permanecer no local de trabalho e para encontrar marido e formar família. A suposta ideia – tal como a ideia por detrás da contracepção livre e do aborto a pedido – é de dar mais poder às mulheres, dar-lhes controlo.

Mas paradoxalmente, muitas mulheres dão por si com menos capacidade de casar, permanecer casadas e constituir família – tudo coisas que a vasta maioria das mulheres continua a descrever como seus principais objectivos. As redes sociais e a imprensa fazem eco desta preocupação com manchetes como “Oito razões pelas quais as nova-iorquinas não conseguem arranjar marido” (New York Post); ou “Porque as licenciadas não encontram amor” (The Daily Beast); ou muitas outras histórias que se preocupam com as mulheres de hoje e a questão do casamento.

Mas os economistas já desvendaram a realidade por detrás destas preocupações, mais resquícios da revolução. No seu livro “Cheap Sex: A Transformação dos Homens, do Casamento e da Monogamia”, o sociólogo Mark Regnerus utilizou as ferramentas da economia para explicar o mercado sexual pós-revolucionário, com o apoio de novos dados.

A essência do argumento é esta:
Muitas mulheres pensam que os homens têm medo do compromisso. Mas os homens, em média, não têm medo do compromisso. A questão é que os homens estão numa posição privilegiada no mercado do casamento, podendo navegá-lo de uma forma que privilegia os seus interesses e preferências sexuais.

Por outras palavras, a mesma força que erodiu o casamento de “penalti” acabou por dar mais poder aos homens e não às mulheres.

Um dos economistas citados por Mark Regnerus, Timothy Reichart, escreveu uma análise semelhante da revolução, num artigo do First Things, chamado “Bitter Pill”, em que utiliza dados dos anos 60 em diante para argumentar que “a revolução resultou numa redistribuição massiva de riqueza e de poder das mulheres e das crianças para os homens”. Especifica: “Tecnicamente, a contracepção artificial cria uma cena a que os economistas chamam o ‘dilema do prisioneiro’, em que cada mulher é levada a tomar decisões racionais que acabam por a deixar a ela e a todas as mulheres numa situação pior”.

Claro que não estamos a falar aqui nos movimentos e comunidades deliberadamente contraculturais que se juntaram para se opor à revolução desde os anos 60. Antes, estamos focados na narrativa cultural em ambientes não-religiosos – o tipo de local em que a revolução não é encarada como sendo problemática. (Ainda).

E nesse mundo, que é agora a cultura predominante, o facto de muitos homens não estarem a assentar, a casar e a constituir famílias é uma preocupação constante. É daí que surgem expressões como “síndrome Peter Pan”, dos anos 80. É por isso que “falha de lançamento” é uma expressão tão utilizada hoje e “manolescent” [homenloscente] se tornou uma palavra no Urban Dictionary.

Todos estes novos termos têm a mesma origem, que é um menor incentivo para os homens casarem, devido ao facto de o mercado sexual ter sido inundado de potenciais parceiras – “sexo barato”, como se lê no título. Também este desenvolvimento não estava entre previsões dos anos 60. Mas há mais. 

Um terceiro paradoxo tornou-se dominante na telenovela das redes sociais dos nossos dias, passa-se assim: Era suposto a revolução sexual capacitar as mulheres. Em vez disso, trouxe-nos os escândalos sexuais de 2017 e o movimento #MeToo. Para além de ter tornado o casamento mais difícil para qualquer mulher, permitiu ainda um nível de predação sexual nunca visto fora do âmbito de exércitos conquistadores.

Tomemos o exemplo de Hugh Hefner, fundador da Playboy, que morreu o ano passado. O seu império comercial assentava, claro está, em fotografias pornográficas de um grande número de mulheres. Tornou-se um exemplo da sua própria suposta filosofia, a filosofia Playboy de bebidas sofisticadas, música e, claro, sexo fácil. Foi uma ideia que se espalhou rapidamente e podemos supor que a maioria das pessoas não conhecia as verdades sórdidas que mais tarde emergiram da mansão Playboy, e não só, sobre a exploração que estava por detrás da publicidade vistosa.

Apesar disso, quando Hefner morreu muitos progressistas, incluindo autodenominadas feministas, não se pouparam a elogios ao apóstolo da revolução. Porquê? Porque ele mascarava os seus objectivos de predador na linguagem do progressismo sexual. Tal como um escritor da Forbes resumiu, “a Playboy publicou o primeiro artigo a apoiar a legalização do aborto em 1965, oito anos antes da decisão de Roe v. Wade que permitiu a prática – e antes ainda de o movimento feminista abraçar a causa. Também publicou números de telefone gratuitos para mulheres que queriam obter abortos seguros.”

Sharon Tate, Hugh Hefner, Barbi Benton e Roman Polanski
Por outras palavras, o apoio de Hefner por estas causas parece estar intrinsecamente ligado ao seu desejo de poder viver de uma forma que explora as mulheres. Esta geminação aplica-se a muitos dos escândalos sexuais que têm rebentado nos noticiários. As histórias dos Weinsteins, etc., revelam este papel estratégico do aborto na vida de numerosos homens que vêem as mulheres como objectos sexuais e desprezam a monogamia. Sem o recurso à liquidação fetal, onde estariam homens deste calibre? Em tribunal, a pagar fortunas em pensões alimentares.

Cada vez mais pensadores, mesmo fora do mundo religioso, estão a chegar à mesma conclusão. A revolução sexual não cumpriu as promessas feitas às mulheres; pelo contrário, deu ainda mais liberdade aos homens – sobretudo homens sem as melhores intenções. Francis Fukuyama, um cientista social não religioso, escreveu há quase 20 anos no seu livro “The Great Disruption” que “uma das maiores fraudes impostas durante a Grande Disrupção foi a noção de que a revolução sexual era neutra do ponto de vista de género, e que beneficiaria homens e mulheres em igual medida… De facto, a revolução sexual serviu os interesses de homens e acabou por impor fortes limites aos ganhos que as mulheres poderiam esperar da sua libertação de papéis tradicionais”.

Com essa observação, Fukuyama junta-se a uma longa e crescente lista de pensadores não-religiosos que agora, em retrospectiva, podem compreender melhor aquilo que alguns dos líderes religiosos dizem desde sempre. A revolução democratizou, efectivamente, a predação sexual. Já não era necessário ser rei ou senhor do universo noutra dimensão para poder abusar ou assediar mulheres de uma forma contínua. Tudo o que era preciso era um mundo em que a maioria das mulheres usam contracepção e não beneficiam de protectores masculinos. Por outras palavras, o mundo que nos foi entregue pela revolução.

Há um quarto paradoxo que ainda mal foi estudado, pelo menos de forma sistemática, e que precisa de o ser. Trata-se do efeito da revolução sobre o Cristianismo. Ao olhar para trás percebemos que a história da revolução tem acompanhado, simultaneamente, a polarização das igrejas por dentro ao mesmo tempo que cria laços mais fortes entre denominações diferentes do que alguma vez tinham existido.

Há décadas que os comentadores discutem o que os anos sessenta significaram para as igrejas. Alguns acolheram as inovações do Concílio Vaticano II, por exemplo, e outros saudaram as transformações teológicas radicais das principais igrejas protestantes. Outros ainda deploram estas mudanças. Seja como for, os observadores do Cristianismo hoje chegam a uma conclusão inevitável: a revolução sexual é a questão mais divisiva que atinge a fé.

Isto aplica-se tanto a católicos como a protestantes. Em 2004 o livro “A Church at War”, de Stephen Bates, um livro sobre a Comunhão Anglicana, resumia assim o seu principal argumento na contra-capa: “A política sexual vai levar ao divórcio entre Anglicanos e Episcopalianos?” Alguns anos mais tarde, escrevendo sobre o mesmo assunto em “Mortal Follies: Episcopalians and the Crisis of Mainline Christianity”, William Murchison concluiu que “para os episcopalianos, como para muitos outros cristãos, as principais questões são o sexo e a expressão sexual, nem um nem outro visto como um meio para um fim maior, mas sim como o fim em si”.

No seu livro de 2015 “Onward”, Russell Moore reflecte sobre a tensão entre evangélicos progressistas e tradicionalistas da seguinte forma: “No que diz respeito à religião na América, neste momento, o progresso resume-se sempre a sexo”.

Tal como noutros exemplos, parece seguro dizer que o estado de divisão que existe hoje não é nada que os cristãos dos anos 60 desejavam. As vozes dentro das igrejas que pediam apenas um Cristianismo “mais aberto” não sabiam o que vinha aí, que se transformou na guerra civil figurativa de hoje, que atravessa denominações e a fé em si.

Por agora termino com um quinto paradoxo. A revolução sexual não se ficou pelo sexo. O que muitas pessoas pensavam tratar-se de uma transformação privada das relações entre indivíduos acabou por reconfigurar de forma radical não só a vida familiar, mas a vida em si.

Talvez o efeito menos compreendido da revolução seja aquilo a que se podem chamar os seus efeitos macrocósmicos – a forma como continua a transformar e deformar não apenas indivíduos, mas sociedades e política também.

Algumas destas mudanças são demográficas: em grade parte do mundo desenvolvido as famílias são hoje mais pequenas e mais estilhaçadas por dentro do que em qualquer outro período da história.

Alguns efeitos são políticos: famílias mais pequenas e fracturadas colocaram uma pressão sem precedentes sob os estados sociais do Ocidente, ao reduzir a base fiscal necessária para a sustentar.  

Há ainda efeitos sociais que só agora começam a ser mapeados, como o grande aumento de pessoas a viver sozinhas, ou a demonstrar índices muito reduzidos de contacto humano ou de outras formas que constituem o campo em crescimento de “estudos de solidão” – também isto acontece em muitos países ocidentais.

Depois há as consequências espirituais, que também não podiam ter sido previstas nos anos sessenta, sobretudo por aqueles que argumentavam que uma mudança de paradigma moral ajudaria os cristãos a serem melhores cristãos.

Já argumentei noutro lado que a revolução deu aso a uma nova fé secularista e quási-religiosa – o conjunto de crenças mais potente desde o marxismo-leninismo. De acordo com esta nova fé, o prazer sexual é o bem-maior e não existe qualquer padrão moral para além do consentimento entre adultos para o que quer que seja que desejem fazer uns com os outros. Quer tenham consciência disso ou não, muitas pessoas modernas tratam a revolução sexual como uma espécie de fundação religiosa – intocável em termos de revisão, independentemente das consequências que provocou.

Estes são apenas alguns exemplos do novo mundo que precisa de ser estudado e isto vai absorver-nos intelectualmente durante muito tempo. Devemos ter esperança nesses esforços futuros. Afinal de contas, levou mais de cinquenta anos para a opinião mudar sobre apenas alguns aspectos negativos do legado da revolução. Poderão ser precisos mais cinquenta, ou cem, para que seja feito um apanhado empírico e intelectual completo e honesto. O revisionismo sobre os efeitos da revolução no mundo ainda agora começou.

Termino com um pensamento. O grande escritor russo Leo Tolstoy foi a dada altura enviado pelo seu jornal para fazer uma reportagem sobre o que se passava num matadouro local. O que viu abalou-o profundamente. A descrição que fez incluiu uma frase imortal que penso aplicar-se à nossa situação hoje. Depois de relatar os factos, Tolstoy observou, com simplicidade devastadora, “não podemos fingir que não sabemos estas coisas”.

É nesse ponto que se encontra a humanidade em 2018 no que diz respeito à revolução sexual. Não podemos continuar a fingir que não sabemos estas coisas, estas coisas que a revolução provocou.

Nos anos idílicos da década de 60 muitas pessoas de boa-fé podiam alegar ignorância sobre as consequências vindouras. Poucos podiam adivinhar quantos milhões de crianças nas gerações seguintes cresceriam sem pais em casa, por exemplo, ou quantos mais milhões seriam abortados; ou quantos homens e mulheres de casas destroçadas acabariam por sofrer de diversas formas, recorrendo a drogas – a epidemia de opiáceos não se pode resumir ao marketing – e outros comportamentos autodestrutivos.   

Há apenas meio século, muitas pessoas esperavam que a revolução não provocasse danos colaterais humanos. E, justiça lhes seja feita, quem, nesses anos, poderia ter previsto a autêntica biblioteca de ramos de ciências sociais que, entretanto, foi criada, demonstrando apenas alguns dos danos humanos afligidos a homens, mulheres e filhos da revolução?

Há cinquenta anos algumas pessoas até esperavam que as novas liberdades e controlos tecnológicos acabariam por estabilizar o casamento. A encíclica Humanae Vitae, que também completa os seus 50 anos este ano, acabaria por se tornar desprezada ao longo das décadas precisamente por prever o contrário – precisamente por insistir que a revolução iria ferir o romance e a família, e permitir o comportamento predatório dos homens e a maldade de governos.

É um paradoxo dentro do paradoxo que muitas pessoas, incluindo dentro da Igreja Católica, mesmo em altos cargos, resistiram furiosamente à rejeição que a Humanae Vitae fez da revolução – ou, já agora, qualquer rejeição da revolução – não obstante as provas.

Mas em 2018 será que algum de nós pode, em boa-fé, fingir que não sabe estas coisas que foram empiricamente documentadas? A resposta tem de ser não.

Em 1953, quando a primeira edição da Playboy chegou aos escaparates, talvez muitas pessoas quisessem acreditar na sua conversa sobre aumentar a sofisticação e a urbanidade dos homens americanos. Em 2018 não podemos continuar a fingir que a generalização da pornografia representou menos do que um desastre para o romance e um dos factores principais para os divórcios de hoje, bem como outras rupturas familiares.

Em 1973 nem mesmo os apoiantes de Roe vs. Wade podiam imaginar o que aí vinha: alguns 58 milhões de micro-humanos que nunca teriam a oportunidade de nascer, só nos Estados Unidos; generocídio, ou a matança selectiva de micro-meninas por serem meninas, em várias nações do mundo, também aos milhões. Nem podiam antever o grande salto tecnológico que acabaria por revelar a verdade sobre o aborto de uma vez por todas: a ecografia.

Será que os defensores actuais do aborto podem alegar a mesma ignorância?

Encarar os factos de forma honesta, e usá-los para estabelecer uma narrativa verídica, não é apenas uma forma de nos lamentarmos: é capacitador. Ao rejeitarmos estarmos sujeitos às falsidades da revolução, ainda que se tenham tornado a narrativa dominante dos nossos tempos, estamos a abraçar a liberdade de escrever uma narrativa nova, e mais verdadeira.

Só falta dar mais um passo na revisão do legado da revolução rumo à verdade: acabar de fingir que não conhecemos o registo histórico e empírico, quando cada ano que passa o revela cada vez, tanto à ciência como à razão. 


Mary Eberstadt é investigadora na Faith and Reason Institute. Alguns dos seus anteriores artigos para o The Catholic Thing, ou em que o seu trabalho é discutido, podem ser encontrados aqui. É autora de vários livros, incluindo It’s Dangerous to Believe e How the West Really Lost God.

(Primeira parte deste artigo publicada pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 10 de Fevereiro de 2018)
(Segunda parte deste artigo publicada pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 17 de Fevereiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Presunção, Água Benta e Sieg Heil

Anthony Esolen
O meu grande amigo Robert George gosta de perguntar aos seus alunos universitários quantos deles, caso tivessem vivido no Sul antes da Guerra Civil, ter-se-iam oposto à escravatura. Todos levantam a mão. “Deus os abençoe”, diz ele, e depois explica-lhes o que lhes teria custado essa oposição: serem ridicularizados pelos líderes políticos e intelectuais da sociedade; calúnia sobre os seus motivos; incompreensão – na melhor das hipóteses – por parte dos familiares; despedimento; solidão e escassa gratidão das pessoas que tencionavam ajudar.

Nem sequer é claro que teriam a capacidade de formar uma posição moral tão distante daquilo que muitos deles tinham dado por adquirido desde que nasceram. É quase como fazer uma cirurgia a nós próprios sem anestesia: arrancar da nossa carne um aspecto errante da nossa cultura, pelas raízes, com todos os ganchos e picos. E quem é que pegaria nesse bisturi por sua livre iniciativa? Para isso seria necessário abraçar uma autoridade superior e contrária ao que toda a gente sabe, o que toda a gente diz, toda a gente faz. E tal autoridade deveria fazer mais do que apenas recomendar, teria de comandar, mesmo perante o sofrimento, a dúvida e o fracasso.

Ai, as ilusões dos homens, convencidos da sua bondade! O que os outros seriam, ninguém sabe, mas se nós vivêssemos na Alemanha Nazi, seríamos todos Oskar Schindler ou Corrie ten Boom; jamais teríamos apanhado a doença nacionalista e socialista; teríamos visto para além das mentiras, mesmo quando apresentadas de forma inócua e moderada e politicamente razoável, como se encontrava nos melhores jornais – não os jornais nazis, não, mas os seguidistas, aqueles para os quais um homem decente podia escrever ao mesmo tempo que fazia compras na drogaria do judeu.

Também não teríamos dançado aos sons das balalaicas do Bolshoi. Teríamos visto aquelas igrejas todas confiscadas, transformadas em museus ou celeiros, ou demolidas, e não teríamos alinhado com doze anos de escolaridade a criticar a velha fé ou a congratular-nos por vivermos na terra mais progressista alguma vez vista pelo homem.

Teríamos feito aquilo que é ainda mais raro do que aceitar a crítica, teríamos rejeitado o elogio. Teríamos requisitado mapas da Sibéria da biblioteca local, regozijando nos nossos corações pelo facto de em breve irmos para lá desterrados na companhia dos verdadeiros patriotas; ansiando o gulag, o pão bolorento, a enxada para quebrar a lama congelada, as luvas sem dedos e um farrapo de papel todos os dias para limpar o traseiro.

Sim, era isso que faríamos, tudo com uma determinação nascida da nossa própria vontade, julgando-nos a nós próprios, comandando-nos a nós próprios, obedecendo a nós próprios.

Não nos é dado o direito de escolher o mal público das sociedades em que nascemos. Alguns de nós, se nos mantivermos fiéis a Cristo, seremos levados por esse mal a sofrer o martírio do sangue. Foi o que se passou com as freiras carmelitas de Paris, que subiram à guilhotina durante a grande regurgitação secular de loucura, crueldade, vanglória, blasfémia e luxúria.

A outros será pedido um sacrifício muito menos terrível. Qual é o mal público do nosso tempo? Qual a coisa que nos custaria mais, em termos de ridicularização pública e perseguição, a rejeitar, se agíssemos em conformidade?

Todos nós seríamos Oskar Schindler?
A resposta é fácil. A Revolução Sexual. Já ouço as objecções dos bem-pensantes: “Mas a Revolução Sexual não é nem de longe nem de perto tão má e errada como o nazismo. É absurdo equiparar uma ao outro”. Mas eu nunca disse que as duas coisas eram iguais.

Por acaso não é fácil defender que, tudo somado, o nazismo tenha sido responsável por menos sangue, ou por razões mais censuráveis, do que a Revolução Sexual tem sido. Mas darei de barato, para bem da discussão, que é pior trabalhar numa estação de comboio nazi do que ser recepcionista numa clínica de aborto.

Já os meus opositores devem também admitir que o risco de não colaborar com os nazis era muito maior do que não colaborar como regime abortista, por isso quem colabora com a Revolução Sexual não pode invocar compreensão nesse ponto.

Em todo o caso, a questão é que não somos chamados a opor-nos, de forma teórica e confortável, aos males que caracterizam a nossa sociedade, regozijando ao sol de uma rectidão que não nos custa nada. Somos chamados a sofrer em oposição aos males que caracterizam a nossa época, e não nos será sequer possível conceber tal possibilidade se não obedecermos a uma autoridade que transcende a humanidade.

Recentemente um padre católico de Providence, no Rhode Island, despediu o seu director musical porque este se tinha “casado” com outro homem, um facto que era bem conhecido pelos restantes fiéis. Se o padre não o tivesse despedido, posso-vos dizer o que todos os jovens adolescentes daquela comunidade teriam concluído: Que a Igreja não acredita verdadeiramente naquilo que ensina, que no que diz respeito à sexualidade cada um pode fazer como lhe apetecer, desde que não seja cruel, no sentido mais flagrante que ofende as sensibilidades das pessoas certas. Seria essa a armadilha no caminho daqueles rapazes.

Mas várias pessoas da congregação decidiram interromper a recitação do Credo na missa do domingo seguinte, cantando “Todos são bem-vindos”, sabendo que por tal acto seriam louvados pelas pessoas que realmente lhes interessam, nomeadamente os jornalistas das estações de televisão locais e dos jornais, bem como pelos líderes de opinião das sociedades mais “progressistas” e “inclusivas”.

Deixam-se levar pela corrente. Escolham o seu próprio juízo – o juízo que resultou de anos de escolaridade imbecil, entretenimento de massas, comunicação social e conversas amenas uns com os outros na segurança do conforto material – contra o juízo da Igreja e das palavras expressas da Escritura. Retalham a escritura para condizer com as suas opiniões em matéria de sexualidade.

É daí, e não da Igreja, que virá a sua vitória e a sua salvação: Sieg, Heil!


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. 

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 4 de Outubro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Cartago deve ser destruída

David Carlin
Quando Roma derrotou Cartago na terceira Guerra Púnica os romanos não se contentaram com a vitória. Queriam que Cartago fosse não só derrotada mas totalmente destruída, para que a antiga inimiga de Roma, que tinha causado tanta angústia e sofrimento durante as primeiras duas guerras púnicas jamais se erguesse. Os romanos optaram por seguir os conselhos de Catão, o Velho, que tinha o hábito de terminar os seus discursos no senado com a frase “Considero, ainda, que Cartago deve ser destruída”.

Por isso, vencida a Guerra, Roma arrasou Cartago e dispersou a sua população. Alguns séculos mais tarde foi construída uma nova cidade com o mesmo nome e foi nesta Cartago que Santo Agostinho viria mais tarde a ser educado e tornar-se maniqueu. Mas a velha Cartago fenícia, de Dido e de Aníbal, desapareceu para sempre. Nunca mais incomodou Roma.

Chegámos a este ponto na guerra entre a noção cristã da sexualidade e a ideia secular moderna, o ponto em que o inimigo deve ser destruído totalmente. A revolução sexual, que começou há cerca de 50 ou 60 anos, terminou numa vitória muito convincente para os revolucionários. A noção cristã de conduta sexual foi derrotada. E agora os secularistas passaram ao próximo passo, isto é, a destruição – a pulverização – da ideia cristã.

Os cristãos, derrotados, talvez quisessem dizer: “Tudo bem, venceram a Guerra. Nós rendemo-nos e deixaremos de lutar pelo domínio. Mas não podem ter misericórdia e tolerar-nos como uma minoria inofensiva, como se toleram as pessoas que acreditam em discos voadores?” Mas os revolucionários sexuais respondem: “Não, vocês e a vossa ética sexual incomodaram o mundo durante demasiados séculos. Os vossos crimes são inumeráveis e imperdoáveis. Temos de nos assegurar que a vossa ética não regressará para estragar novamente os prazeres do mundo”.

Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial a ética sexual protestante continuava a dominar na América. O americano típico ainda acreditava na maioria dos velhos tabus sexuais que prescreviam a fornicação, o adultério, o aborto e a homossexualidade. Isso não significa que toda a gente acatava essas proibições. Todas eram violadas, claro, de tempos a tempos. Mas as pessoas não deixavam de acreditar nelas.

Havia falhas na ética protestante, claro. O protestantismo clássico permitia o divórcio apenas por adultério, mas essa limitação tinha sido abandonada há muito tempo. Nos anos 50 havia muitas causas que legitimavam o divórcio e nos anos entre as guerras a contracepção dentro do casamento tornava-se aceite entre protestantes americanos.

A ética católica era mais rigorosa. O catolicismo acrescentava a proibição do divórcio e da contracepção. E mais, o catolicismo exaltava a ideia do celibato, tornando-o obrigatório para padres, monges e freiras.

Enquanto a maioria dos americanos, sendo protestantes, não estavam dispostos a abraçar a ética católica, toleravam-na de bom grado e, até certo ponto, admiravam-na, porque comprovava que os católicos, a maioria dos quais eram recém-chegados aos Estados Unidos, não era tão maus como tinham sido representados durante séculos pela propaganda religiosa anglo-americana.

Catão o Velho
Tudo isto desmoronou no início dos anos 60. Quase da noite para o dia, ao que parece, a fornicação tornou-se aceitável e nem precisava de ser acompanhada de amor nem de compromisso. A contracepção não só se tornou aceitável como obrigatória para casados e ainda mais para não casados. A coabitação tornou-se aceitável. O aborto também, e depois de Roe v. Wade, em 1973, tornou-se até legal e fácil de obter.

Levou mais algum tempo até que a homossexualidade se tornasse aceitável, mas o dia chegou e só podia chegar, tendo em conta a rejeição da antiga ética sexual cristã.

Tendo sido derrotada a ideia de sexualidade cristã, começou agora a sua pulverização. A aceitação do casamento homossexual é mais um passo nessa direcção. É a forma de os secularistas dizerem não só que a homossexualidade é moralmente aceitável mas que é tão boa e nobre quanto a sexualidade conjugal, que os cristãos consideram a mais perfeita.

A ideologia do transgénero é outro passo. É uma rejeição da ideia bíblica de que “Deus os criou homem e mulher” (Marcos 10,6) – uma ideia errada que era defendida por Jesus, um rabino bem-intencionado mas preconceituoso do século I.

A poligamia, a poliandria, os casamentos abertos (adultério consentido) – tudo isto ainda não foi aceite em larga escala. Mas será, uma vez que a sua aceitação decorre logicamente do princípio fundador da revolução sexual, nomeadamente a rejeição da ideia de sexualidade cristã. Tal como a aceitação da homossexualidade não surgiu imediatamente nos anos 60 e 70 e a de adultério também não, mas não se preocupem, está por pouco.

Mas o factor mais importante para a destruição total da noção cristã de sexualidade não são as muitas práticas sexuais anticristãs que existem no mundo de hoje. Também não é a aceitação alargada destas práticas entre pessoas que, por uma razão ou por outra, preferem não participar delas.

Não, é a proibição – uma proibição social cada vez mais eficiente que está cada vez mais perto de se tornar uma proibição legal – da própria expressão de opiniões cristãs sobre sexualidade. Se for um cristão antiquado que não se encontra do “lado certo da história” (para citar uma das frases preferidas de Obama), que diz que a fornicação é um pecado, que o aborto é homicídio, que a homossexualidade não é natural ou que a ideia de ser transgénero é uma loucura – então será denunciado como um intolerante, um misógino, um homófobo, um transófobo ou um mero idiota. Os seus juízos negativos tornam-se “ódio” e estes ataques aos seus crimes de pensamento aumentam de tom dia após dia.

O objectivo é que a moral sexual cristã, tal como Cartago, se torne nada mais que uma memória.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 22 de Abril de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O aborto como sacramento de uma nova religião

Isabel Moreira
 Fundamentalista religiosa
Foram ontem aprovadas alterações à lei do aborto. Nomeadamente:

- As mulheres que pensam abortar são agora obrigadas a fazer consultas de aconselhamento durante o período de reflexão;
- Algumas mulheres, as que não seriam isentas de taxas moderadoras de qualquer maneira, terão de passar a pagá-las para abortar;
- Os objectores de consciência passam a poder fazer consultas de aconselhamento.

A pergunta do referendo de 2007 foi esta:

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

Ou seja, não há aqui nada sobre as consultas de aconselhamento, nada sobre taxas moderadoras e nada sobre a exclusão de objectores de consciência de eventuais consultas de aconselhamento.

Contudo, ainda assim, a esquerda conseguiu vislumbrar na decisão de ontem uma “adulteração” do referendo. Segundo o expresso, as várias bancadas consideram que se trata de uma violação do “espírito” do referendo. São os tempos em que vivemos. Os fetos não têm direitos nem dignidade, mas os referendos têm espíritos (mas só alguns… o referendo de 1998 foi bastante menos espirituoso).

A questão dos objectores de consciência sempre me pareceu uma das maiores injustiças da actual lei (deixando de parte a óbvia injustiça que é o próprio aborto). Porque o que o Estado está a dizer quando exclui os objectores de consciência das consultas de aconselhamento é que as pessoas que acreditam que o aborto é um mal, e que por isso não o querem praticar, são de alguma forma incapazes de exercer outros aspectos da sua profissão e não conseguem sequer aconselhar mulheres em situações dramáticas sem tentar impor as suas crenças medievais.

O comunista António Filipe considera mesmo que a direita quer “transformar os objectores de consciência numa tropa de choque”. Mas se pensavam que o dramatismo se resumia ao menino do PCP que se veste à Bloco de Esquerda, enganam-se! Temos sempre a Isabel Moreira.

Não. Eu não vou fazer um post a destruir ou a criticar a Isabel Moreira. Isto porque embora eu possa discordar muito do aborto, sou um fervoroso defensor da liberdade religiosa e Isabel Moreira, nestes casos, está a agir claramente em defesa da sua fé.

Porque para quem ainda não percebeu, esta questão não é menos que uma questão religiosa. Toda a revolução sexual, que tanto mal tem feito às famílias, às crianças e às próprias mulheres que supostamente seriam as suas grandes beneficiárias, é hoje defendida com fervor religioso, contra todos os factos.

(Nesse sentido, permito-me regozijar no facto de que pelo menos a minha religião defende – e tem longa tradição de defender – que a fé não pode ser incompatível com a razão, coisa que aos fiéis da Igreja da Revolução Sexual não se aplica, mas crenças são crenças e temos de respeitar.)

E como qualquer religião que se preze, a Igreja da Revolução Sexual tem liturgias – ver aqui um exemplo recente e perturbador –, tem apologistas – ver Isabel Moreira –; tem doutrina (e por consequência considera hereges que não segue a ortodoxia) e tem sacramentos: o aborto*.

Só assim é que se explica a paixão com que pessoas como Isabel Moreira, mas não só, defendem algo que até recentemente os seus correligionários classificavam apenas como um “mal necessário”. Só assim se explica que, segundo a própria, a existência de consultas de aconselhamento, com o intuito de informar as mulheres daquilo que vão fazer e das consequências, é uma forma de “terrorismo psicológico sobre as mulheres” praticada por pessoas imbuídas de “maldade pura”.

Os fiéis desta igreja até reivindicam para os seus praticantes a isenção de impostos que tanto criticam nos outros credos. Mas porque razão as nossas irmãs têm de pagar taxas moderadoras quando são operadas a um tumor no útero, mas as nossas primas devem ser isentas quando optam por abortar?

Um dos problemas desta religião é que nem sequer é fiel à sua própria tradição. Hoje diz uma coisa, amanhã diz outra. Lembram-se quando nos pintavam a imagem da pobre mulher, forçada a abortar numa clínica de vão de escada, sozinha e sem apoio? Pois Helena Pinto critica precisamente que com as alterações à lei a mulher pode abortar, pode decidir, “mas não pode decidir sozinha”.

"Recebei Senhor este sacrifício das nossas mãos"
Eu lembro-me da campanha de 2007. Lembro-me que os adeptos do sim nos diziam que o aborto é uma coisa terrível, mas que pelo menos a mulher não deve ir presa e que o referendo era unicamente sobre isso: a descriminalização. Nem liberalização era! Apenas descriminalização.

Pois quem diria! É uma coisa tão terrível que os únicos que trabalham no terreno para ajudar as mulheres a não o praticar são “terroristas imbuídos de pura maldade” e os médicos que se recusam a desmembrar os nossos filhos, apenas porque a mãe, na sua sagrada autonomia o deseja (ou, o que é mais comum, porque os seus pais ou o seu parceiro a pressiona), são uma “tropa de choque”.

Sim, é verdade… A revolução sexual é uma religião, a nova religião oficial. E o facto de o PS deixar que Isabel Moreira seja a face visível da sua política neste campo diz tudo o que eu preciso de saber sobre esse partido, obrigado.

É que eu nunca gostei de partidos de inspiração religiosa.


*Caso seja um defensor do aborto e esteja irritado com o facto de eu o ter chamado um "sacramento" de uma nova religião, fique descansado que a equiparação não é original. Foi uma das vossas que o fez primeiro, eu limitei-me a roubar.

Filipe d'Avillez

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Tolos ou Mentirosos

Anthony Esolen
Os actuais defensores da Revolução Sexual – esse grande pântano de esgoto, miséria humana, famílias disfuncionais, entretenimento decadente e advogados – garantem que a ruptura antropológica mais radical que a humanidade alguma vez conheceu, a desvinculação entre o casamento, a procriação e os simples factos da vida, não terá qualquer efeito (nenhum, não se preocupem) sobre o casamento, a procriação, a família e a vida comunitária.

Ao que eu respondo: “Não foi isso que disseram das outras vezes?” Precisamente qual das previsões dos revolucionários sexuais é que se confirmou?

Disseram-nos que a liberalização das leis de divórcio não teria qualquer efeito, nenhum, não se preocupem, sobre as taxas de divórcio. A nova lei apenas tornaria o divórcio menos doloroso para o casal e, por isso, menos doloroso para os filhos. Porque aparentemente existem “bons” divórcios.

Através de uma demonstração milagrosa de simpatia e maturidade fora do alcance da sua idade, as crianças ficariam felizes por ver os seus pais felizes. Aliás, de outra forma a sua felicidade não seria possível. Ninguém se deu ao trabalho de perguntar como é que os pais poderiam ser felizes perante a infelicidade dos seus filhos. Mas os revolucionários enganaram-se em relação a isso. Ou então estavam a mentir, das duas, uma.

Disseram-nos que toda a gente fazia “aquilo”, sendo que “aquilo” se tornou gradualmente mais imoral e antinatural, e basearam as suas afirmações em investigação levada a cabo pelo pedófilo e fraude Alfred Kinsey. Ver com bons olhos a fornicação, disseram, não mudava nada, apenas libertava as pessoas da censura e permitia-lhes fazer aberta e honestamente aquilo que até então tinham feito desonestamente e em segredo. 

Em apenas uma geração a relação entre os sexos transformou-se completamente até que as raparigas e os rapazes que queriam praticar a normal virtude da prudência, e até a mais difícil virtude da castidade, se viram isolados e sós. Antigamente o coração de um rapaz entraria em sobressalto se a rapariga lhe desse um beijo. Agora, mal consegue fingir um bocado de afecto se ela não o levar ao clímax. Também aqui os revolucionários se enganaram. Ou então estavam a mentir.

Disseram-nos que a pornografia era um passatempo inocente para uma minoria que gostava. Não tinha nada a ver com violência, não seria prejudicial para a cultura. Seria possível proteger os nossos filhos dela. Não teria qualquer efeito, nenhum, não se preocupem. Vale a pena sequer comentar esta? Enganaram-se, ou então estavam a mentir.

Disseram-nos que com a pílula ia haver menos crianças concebidas fora do casamento, e que a liberalização das leis do aborto não afectaria, de todo, não se preocupem, o número de mulheres que o procuram. O Papa Paulo VI, na Humanae Vitae, previu o contrário. Actualmente 40% das crianças na América nascem fora de casamentos, a maior parte cresce sem um lar estável. Segundo o próprio Supremo Tribunal, o aborto tornou-se uma parte tão intrínseca da vida de uma mulher, como uma protecção de último recurso contra fazer um filho quando se faz a coisa que faz filhos, que não pode ser limitado. Mais uma vez, os revolucionários enganaram-se, ou estavam a mentir.

Talvez deva dizer que estavam a mentir outra vez, porque as provas que levaram até ao tribunal tinham sido sempre um monte de mentiras.

Disseram-nos que o facto de pequenas crianças serem introduzidas ao prazer sexual por pessoas queridas e mais velhas não tinha grande mal, a não ser que os pais reagissem de forma exagerada. Durante algum tempo tiveram de se esquecer que o tinham dito, mas agora que a Igreja Católica pôs a casa em ordem outra vez estão a esquecer-se de que se tinham esquecido e começam a cantar novamente a mesma melodia: não tem qualquer mal, nenhum, não se preocupem. Estavam, e estão, enganados, ou estavam e estão a mentir.

Não se preocupem...
Disseram-nos que as leis de igualdade de género não resultariam em consequências absurdas, como o envio de mulheres para as frentes de combate, casas de banho unissexo e a normalização da homossexualidade. Não teria qualquer efeito, nenhum, não se preocupem. Enganaram-se, ou estavam a mentir.

Em que é que acertaram? Alguma vez as relações entre homens e mulheres estiveram mais marcadas pela suspeita, raiva e vergonha? De acordo com os seus próprios testemunhos, as nossas faculdades são agora selvas incontroláveis de assédio e violação. Não era assim antes de os revolucionários meterem mãos à obra.

Disseram-nos que o aborto não conduziria à eutanásia. Agora dizem ainda bem que o aborto conduziu à eutanásia mas dizem que a eutanásia, a morte medicamente assistida, não levará à matança de idosos sem o seu consentimento. Mas por acaso isso já aconteceu. Todos os dias há idosos a serem sujeitos a asfixia lenta e supostamente indolor, em todos os hospitais do país. Não terá qualquer efeito, nenhum, não se preocupem.

Disseram-nos que o alargamento da noção (não a realidade, que é impossível, mas a pretensão) de casamento a pessoas do mesmo sexo não teria qualquer efeito, nenhum, sobre qualquer outra coisa no país. Não afectará o que os nossos filhos aprendem na escola, não afectará o número de jovens a experimentarem coisas antinaturais, não afectará a liberdade religiosa, não afectará a liberdade de expressão.

Não poderia ter qualquer efeito sobre essas coisas porque, garantiram-nos, o comportamento em questão é perfeitamente natural, levado a cabo por pessoas perfeitamente saudáveis. Não teria qualquer efeito, nenhum, não se preocupem, agora concordem ou sejam destruídos.

Alguma vez as previsões desta gente se confirmaram? Porque é que havemos de confiar neles agora?


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 30 de Abril de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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