segunda-feira, 1 de julho de 2019

Os novos negreiros e os bloquistas de direita

Lembram-se da polémica por causa da Isabel Jonet? A mulher que, sozinha, já deve ter feito mais para aliviar a fome e a pobreza neste país do que todos os ministros dos últimos Governos, foi arrasada há uns anos depois de ter criticado algumas atitudes esbanjadoras dos portugueses.

Nessa altura a esquerda ao estilo “bloquista” deixou cair a máscara e trucidou-a. É que para eles a Isabel Jonet e todas as “isabéis jonets” deste país, fazem apenas “caridadezinha”. Ao alimentar os pobres não estão a fazer mais do que aplicar um adesivo a uma hemorragia causada pelo sistema capitalista, esse sim o verdadeiro culpado dos males sociais. Pior, ao disfarçar esses males, perpetuam o problema.

Pois agora temos uma nova versão da mesma estratégia, mas em vez da Isabel Jonet o problema é o Miguel Duarte e todos os que, como ele, ajudam a resgatar sírios, afegãos, e africanos de diferentes nacionalidades, de botes à deriva no Mediterrâneo.

E agora é malta de direita – de uma certa direita – que aponta o dedo. Não é que o Miguel Duarte e seus colegas são, aos olhos destas pessoas “negreiros”? Sim, leram bem. Para muitos críticos um homem que deixa o conforto da sua casa e do seu trabalho e vai viver para alto mar durante semanas a fio, retirando da água pessoas que talvez não, mas muito possivelmente sim, iriam morrer, entregando-os depois num porto seguro é equiparado a traficante de escravos.

Dizem os críticos que o Miguel Duarte e companhia são parte do problema, que não são a solução para a crise dos migrantes. Duvido que alguém tenha dúvidas disso. Duvido que o Miguel pense que ao tirar homens, mulheres e crianças do Mediterrâneo está a contribuir para melhorar o regime da Eritreia ou pôr fim à guerra na Síria. Mas há ali homens, mulheres e crianças a ser salvas e o seu afogamento também não trava guerras nem depõe ditadores.

Apliquemos, então, a lógicas dos “negreiros” a outras áreas. Afinal de contas, os amigos da Sea-Watch não são os únicos a fazer “a caridadezinha”.

Já ouviram falar daquelas freiras que saem de noite para ajudar prostitutas? Convidam-nas a entrar numa carrinha para beber um chá quente, comer uma bucha. Dão-lhes um cartão e convidam-nas a pensar em mudar de vida. Conhecem? Pois bem. Segundo esta lógica são chulas. Com aqueles gestos de amizade, a melhorar um bocado a vida daquelas mulheres, que mais estão a fazer se não a perpetuar a exploração sexual? Anátema!

As várias instituições que existem por todo o país, fundadas por ativistas pró-vida depois do primeiro referendo ao aborto em 1998? Que ideia é aquela de dar roupa, estadia e comida quente a miúdas que engravidam aos 16 anos? Assim não estão a resolver o problema da gravidez adolescente! Estão, pelo contrário a incentivar a sexualidade desregrada… Assim reza a lógica dos “bloquistas de direita”.

A Comunidade Vida e Paz? Alimenta redes de pobreza e de exclusão. Madre Teresa de Calcutá? Ui! O Christopher Hitchens é que tinha razão

Mas sobre estes, curiosamente, os bloquistas de direita não falam. Se calhar, afinal, o problema está em quem está a ser alvo da caridadezinha, e não de quem a pratica. O problema com os “novos negreiros”, aparentemente, não está nos “eiros”.

Deixem-me dizê-lo claramente, agora sem ironias. Nojo. Não há outras palavras para isto. É um nojo e deviam ter vergonha.

3 comentários:

  1. Finalmente consegui localizar-me neste tema tão complexo. Esta análise comoveu-me. Obrigada pela clarificação.

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  2. O "estilo bloquista" de que o Filipe fala não é original do BE, já vem dos tempos do Estaline. Consiste em mascarar uma mentira com algumas verdades. Neste post o Filipe adopta totalmente este estilo. Apresenta o exemplo de Isabel Jonet e das Irmãs que ajudam mulheres a sair da prostituição como uma injustiça da "opinião pública" - é verdade, foi mesmo uma injustiça! E depois vem a mentira insidiosamente escondida no meio destas verdades: diz que o caso do Miguel Duarte é equivalente... Mas não é!
    Quer a atividade da Isabel Jonet, quer a das Irmãs pautam-se pela legalidade. Ou seja: são actividades que, sendo caritativas e ajudando quem mais precisa são também legais. Já a atividade do Miguel Duarte não é legal, é absolutamente ilegal. De facto, a ONG com a qual ele colaborava "apanhava" os barcos dos migrantes / candidatos a refugiados ao largo da costa da Líbia e da Tunísia e, de acordo com o Direito Internacional, devia deixá-los no porto seguro mais próximo, em geral na Tunísia. Em vez disso, atravessava o Mediterrâneo e ia deixá-los em portos europeus. Como o Filipe pode bem ver, as suas verdades misturadas com uma mentira bem escondida dão um estilo muito "bloquista" - ou Estalinista, se preferir...
    Mas continuemos, dado que isto nos levanta uma série de questões:
    1) O Direito Internacional que dita estas regras é ilegítimo? O Filipe considera ilegítima a norma que diz que os náufragos devem ser deixados no porto seguro mais próximo e não no porto que quem os recolhe decida?
    2) O direito interno dos Estados da UE para onde esta ONG levava os migrantes é ilegítimo? Considera também o sistema judicial destes países como ilegítimo? Note o Filipe que estamos a falar de Estados de direito democráticos, não estamos a falar da Arábia Saudita ou do Irão...
    3) Quando alguém comete um crime, dever-se-a abrir excepções no seu julgamento só porque a pessoa era bem intencionada? Se eu, como médico, conhecer uma mãe que será despedida do seu emprego se tiver um filho e, cheio de boas intenções, para a ajudar, operar gratuitamente um aborto para lá do prazo legal, devo ser perdoado porque tinha boas intenções?
    Saindo da filosofia jurídica e entrando naquela que julgo ser a área do Filipe, ciência política e relações internacionais... Quem financia estas ONGs? A quem serve o seu trabalho?
    O Filipe, que apesar deste post tão pateta, me parece ser uma pessoa inteligente, poderá intuir duas respostas para estas perguntas:
    1) Redes de tráfico de seres humanos - estas redes, espalhadas por toda a África são altamente lucrativas e passam impunemente por territórios controlados por grupos extremistas como o Boko Haram. Como é que isso acontece? Será que estas redes e quem as controla pagam luvas a estes grupos para poderem passar? E será que fazem quaisquer outros favores? Como, por exemplo, transportar no meio dos migrantes / candidatos a refugiados um ou outro jihadista?
    2) Dado o enorme potencial de extremismo que estas chegadas à Europa representam, levando a um cada vez maior anti-europeísmo (note o Filipe o resultado das eleições Europeias em Itália, por exemplo), não fará sentido que sejam países como a Rússia que, para enfraquecer a Europa facilitam os meios a estas ONGs? Note que a Itália, com o atual governo, alimentado do sentimento de injustiça pela questão dos migrantes, está entre os países que mais se batem contra as sanções à Rússia... Quantos mais migrantes chegarem, mais os Europeus votam em partidos populistas financiados pelo Kremlin e mais estes se batem para enfraquecer a UE e beneficiar a Rússia. Não lhe parece que as coisas poderão estar ligadas?
    O Filipe que em tantos outros posts me parece uma pessoa bem inteligente e com os valores no sítio certo, neste saiu-se mesmo mal, não saiu? Admita lá...

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  3. Olá meu caro,
    Está a partir do princípio que as atividades do Sea-Watch são ilegais. Tenho sérias dúvidas de que seja o caso. O seu argumento centra-se no facto de eles não levarem os migrantes para a Tunísia, por este ser um porto seguro, mais uma vez, tenho sérias dúvidas de que seja o caso. Há vários relatos de maus tratos de refugiados-migrantes na Tunísia e de falhas ao nível de "non-refoulement" [desconheço se existe um termo em português], que é o princípio segundo o qual um migrante/refugiado não deve ser repatriado se isso implicar perigo para a sua vida.
    Quem terá de decidir isso é o capitão do navio, que poderá eventualmente prestar contas por isso em tribunal. Veja-se como o tribunal italiano deu recentemente razão à capitã do Sea-Watch III, libertando-a e ilibando-a de qualquer crime... O Miguel Duarte, como mero colaborador/voluntário no navio, não terá por isso qualquer responsabilidade.
    Quem financia? Sabemos quem, nalguns casos, noutros poderemos não saber. Quem financiava a madre Teresa de Calcutá? Era tudo gente de intenções puras? Ela não fazia perguntas, aceitava o dinheiro e fazia com ele o bem. Decisão sensata? Não sei. Mas não deixa de ser santa.

    Há outros interesses em jogo? Sem embarcar nas suas teorias da conspiração, que juntam jihadistas e o Putin no mesmo saco, até pode haver, não sei nem me interessa. Sou o primeiro a dizer qu estas operações não são uma cura para o problema, digo-o no texto. Beneficiam os traficantes? Sim, beneficiam. A solução é deixar pessoas a morrer no mar? Não, não é.
    O Miguel Duarte e todos os outros Migueis Duarte não estão a resolver o problema da imigração ilegal. Mas estão a salvar vidas no mar. Eles e nós esperam que quem possa resolva o problema na raiz, nos países de origem. Eu espero sentado. Ele espera com as mãos na massa e você espera a vociferar contra quem salva vidas no mar. É essa a diferença.
    Cumprimentos,
    Filipe

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