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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Oração e Ascese

Michael Pakaluk
Se estiver a pensar quantos minutos de exercício é que devia fazer por dia para manter-se saudável, talvez já saiba que a resposta é 30 minutos. Mesmo que não soubesse, não duvidaria que existe uma resposta objectiva, e saberia onde a procurar (por exemplo, através do Ministério da Saúde).

E compreenderia que esse número corresponde a um mínimo. Alguém que precisa de perder peso, ou um atleta em treino, teria de fazer muito mais que isso. Mas compreenderia esta ideia do que, objectivamente, uma pessoa precisa para se manter saudável. Viver bem implica conseguir encaixar pelo menos 30 minutos de actividade vigorosa no seu dia. Todos sentimos e compreendemos isto, de forma implícita.

Mas eu gostaria de colocar a pergunta equivalente em relação à alma. Dizemos que existe uma alma, e que o corpo representa, de várias formas, a alma. Existe a actividade da alma, em como força e saúde. Por isso parece evidente que se possa colocar a pergunta: quantos minutos por dia é que devia exercitar a minha alma para uma boa saúde espiritual? Mas neste campo, embora seja muito mais importante, tendemos a pensar que não existe resposta objectiva e que não saberíamos bem a quem perguntar se precisássemos de uma indicação.

Repare que me estou a referir a tempo que “pomos de parte”. Claro que há esforços físicos que fazem parte do dia-a-dia – ir a pé para o trabalho, levantar sacos de compras, etc., e é bom que a nossa vida inclua estas coisas. Da mesma forma, podem existir actos de “exercício espiritual” nas actividades diárias. Mas eu estou-me a referir a períodos de tempo que são apenas para exercício corporal ou espiritual.

Vejamos a questão desta forma. Pode-se distinguir, em princípio, a oração da ascese. A oração pode ser entendida como uma conversa com o Senhor. A ascese é qualquer actividade que requeira e construa autodisciplina.

Teoricamente, pode haver conversas com o Senhor que não requeiram autodisciplina. Muitas pessoas entendem a oração desta forma. Pensam numa conversa entre dois amigos, como dois homens sentados em cadeirões, a fumar charutos e a beber whisky, tendo uma grande conversa. E então acham que a oração é assim, como se estivessem confortavelmente sentados a ter esse tipo de conversa agradável com Deus.

O Asceta - Pablo Picasso
Também em princípio pode existir ascese de algum tipo sem oração. O filósofo Thomas Reid resolvia problemas de cálculo todas as manhãs, pela disciplina mental, antes de se dedicar a escrever filosofia. O filósofo analítico Roderick Chisholm disse-me um dia que todas as manhãs, antes de começar a trabalhar, estuda um artigo da Summa Teológica, não pelo conteúdo, mas pela disciplina que implica.

Outro exemplo seria Benjamin Franklin, que fazia um autoexame todos os dias, com base numa tabela de virtudes, e há ainda quem resolva problemas de sudoku ou palavras cruzadas, para manter a mente alerta.

Mas embora a oração e a ascese espiritual sejam, em princípio, coisas diferentes, na prática conjugam-se. A oração é uma conversa com o Senhor, de facto. Mas se o Senhor estiver a caminho do deserto? Então não poderá conversar com ele sem se despir de tudo o resto.

Ou então imagine que o Senhor está a escalar uma montanha, e que para conversar com Ele é preciso subir também? Talvez já tenha escalado montanhas e saiba exactamente quanta autodisciplina precisa para empreender uma subida íngreme durante quatro ou cinco horas. Mas Nosso Senhor deu-nos precisamente estes exemplos de sair para o deserto para rezar, e de escalar uma montanha para rezar (Lc. 5,16, 6,12). Duvido que o tenha feito se não nos quisesse mostrar algo sobre a natureza da oração.

Bem vistas as coisas, não existem exemplos no Novo Testamento de Jesus a procurar um cadeirão para rezar.

A ideia errada de que se “encontra” tempo para rezar parece ligada à confusão de que a oração é, na prática, separável da ascese – como se a oração simplesmente aparecesse ou ocorresse de forma espontânea. Como se escalar uma montanha fosse apenas algo que surgisse naturalmente na nossa vida do dia-a-dia: “Fui trabalhar, acabei aqueles projetos, e então a ocorreu-me que o melhor a fazer era escalar uma montanha”.

A oração requer ascese – por causa do pecado original, por causa das exigências do discipulado, por causa do poder da Cruz. Também nos podemos espantar com o facto de (embora a oração seja fruto de uma busca de amor, tal como a conversa), a ascese não deixa de ser uma forma eficiente de desenvolver autodisciplina para todas as áreas da vida. Mais até do que práticas de ascese directa (excepto para disciplina intelectual pura – aí mais lhe vale resolver problemas de cálculo).

Voltando, portanto, à questão original: Quanto tempo por dia devia dedicar à oração? Podemos responder que seria o tempo necessário para exercitar a alma.

Afinal, para esta questão parece haver uma resposta objetiva, e autoridades competentes. Olhando para os santos e grandes Papas, vemos que recomendam a missa diária (30 minutos); a oração do terço (15 minutos); a oração do Evangelho do dia e de um livro espiritual (15 minutos) e oração mental diária (pelo menos 15 minutos, mas idealmente uma hora) – o que leva a um total de duas horas. Por isso, ao que parece, para viver uma boa vida cristã devemos encaixar duas horas de oração no nosso dia.

Se viajar para os Estados Unidos poderá surpreender-se com a quantidade de americanos obesos que existem. Mas talvez encontre também uma equipa de atletas universitários a caminho do seu voo. Desconfio que se existissem juízes capazes de ver as nossas almas, como acontece num dos mitos de Platão, eles ficariam espantados ao ver o quão espiritualmente obesos nós parecemos todos.

E os cristãos, que deviam parecer-se mais com aquela equipa de atletas, são iguais a todos os outros.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 20 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Reza Como uma Criança

Pe. Paul Scalia
“Disse-lhes, ‘Quando rezarem, digam: “Pai…’” Assim arranca a belíssima catequese do Senhor sobre oração (Lc. 11, 1-3). Devemos pensar bem sobre essa primeira palavra: Pai. Dizer Pai significa colocarmo-nos no papel de filhos. Dizê-lo com autenticidade implica conhecer-me como filho de Deus. Por isso a primeiríssima palavra do Senhor sobre oração contém o princípio da filiação divina – o facto de sermos filhos de Deus através do Filho, capazes de chegar ao Pai com Ele, através dele e nele. A oração cristã assenta nesta verdade fundamental. Toda a oração flui da nossa identidade enquanto filhos de Deus. O Pai é simultaneamente a primeira e a última palavra na oração.

Na verdade, a forma directa como se pedem estas instruções ao Senhor já são indicativas da atitude filial necessária para a oração: “Um dos seus discípulos disse-lhe, “Senhor, ensina-nos a rezar’”. O primeiro passo para a oração é compreender, como este discípulo, que não sabemos rezar como convém (Rom. 8,26). A oração não começa com a nossa força e com os nossos conhecimentos, mas com a nossa fraqueza e docilidade.

Esta verdade é dura para os orgulhosos, mas consoladora para todos os que já tentaram rezar e não foram capazes. Para rezar temos de reconhecer que precisamos de ser instruídos. Na verdade, todas as orações começam com “Senhor, ensina-me a rezar”.

Uma componente essencial desta oração filial é a perseverança. Vemos isto no Patriarca Abraão, cuja oração antecipa a dos filhos de Deus. (Cf. Gen. 18, 20-32). Nesta discussão sobre o destino de Sodoma e Gomorra ele parece uma criança a suplicar por mais uns minutos antes de ter de ir para a cama. Com a perseverança de uma criança que já tem em vista um objetivo e não se deixará dissuadir, Abraão está continuamente a regressar ao Senhor com uma nova proposta.

Mas existe uma diferença importante entre a perseverança de Abraão e a nossa. Ele apela à justiça de Deus, que não desbaratará os inocentes com os culpados. Abraão clama: Não deverá o juiz de todo o mundo agir com justiça? Na verdade, devia. Mas nós apelamos mais até à misericórdia de Deus. Pedimos-lhe que sustenha a sua fúria e que nos dê a sua ajuda não porque a merecemos, mas porque precisamos radicalmente dela. A nossa fraqueza reivindica a sua assistência.

É este seu apelo à misericórdia do Pai que Nosso Senhor enfatiza nas suas instruções. Temos confiança na nossa oração ao Pai não porque gozamos de um direito absoluto aos seus dons, mas porque sabemos que somos seus filhos. Por isso é que podemos regressar continuamente a Ele. Pois se nós, que somos maus, somos capazes de mostrar misericórdia, quanto mais o nosso Pai que está nos céus se apressará a ajudar-nos?

Claro que, sabendo do fim terrível que tiveram Sodoma e Gomorra, podemos pensar que o esforço de Abraão foi em vão. De que serviu toda a sua insistência? Aparentemente, nada. E isso chama atenção para outra dimensão da oração verdadeiramente filial: o abandono à vontade do Pai. Um filho descansa na certeza de que a vontade do Pai é supremamente boa. Se uma oração não é atendida é porque o Pai sabe melhor e tem um bem maior em mente.

Jesus reza no horto das Oliveiras
Vemos o próprio Senhor a adotar esta postura quando Ele reza a mais difícil de todas as orações filiais: “Abba, Pai, para ti tudo é possível. Afasta de mim este cálice, mas não seja feita a minha vontade, mas a tua”. (Mc. 14,36).

De certa forma, esse bem maior já está realizado em cada acto de oração. A oração de Abraão não foi desperdiçada porque através dela ele cresceu na sua capacidade de entrar em diálogo com Deus. Sim, devemos apresentar as nossas necessidades terrenas a Deus. Podemos, contudo, tornarmo-nos tão focados na resposta externa às nossas orações – o “remediar” da situação – que deixamos de ver os efeitos internos que a oração tem em nós.

O nosso Pai não quer simplesmente resolver todos os nossos problemas por nós. Ele quer algo mais. Deseja que nos aproximemos dele nas nossas orações, confiando-lhe as nossas preocupações. E se ele resolver, de facto, os nossos problemas, é para que ao experimentar o seu poder e bondade possamos confiar ainda mais nele.

E isto leva-nos àquela última e misteriosa linha na catequese do Senhor: “Quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará o Espírito Santo a quem o pedir?” Procuramos e pedimos muitas coisas na nossa oração. Batemos (e às vezes com força) na porta do Céu com vários pedidos. Mas as palavras de Nosso Senhor indicam que o fim último das nossas petições não é esta coisa ou aquela, mas algo maior: o próprio Espírito.

Nosso Senhor responde sempre às nossas orações (dizendo ou sim ou não) como o objetivo de dar ou aumentar o dom do Seu Espírito. A nossa oração pode ser dirigida apenas a esta ou aquela situação, mas Ele quer que seja mais, para nos aproximar mais de Si. Ele deseja não tanto que recebamos o que pensamos precisar aqui e agora, mas que cresçamos em união com Ele.

Quer o compreendamos ou não, a nossa oração é sempre dirigida a este aumentar do Espírito, o Espírito de Filiação, que reza de dentro de nós e nos permite clamar: Abba! Pai!


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"A Alegria do Evangelho" por temas

Tendo terminado a minha leitura da exortação apostólica Evangelii Gaudium, ao longo dos próximos dias pretendo destacar e comentar aquilo que mais me chamou a atenção. Não quer dizer que sejam as partes mais importantes, simplesmente são as que eu achei mais interessantes. Uma vez que as secções do texto que lidam mais com questões económicas já foram muito analisadas, não lhes dedicarei muita atenção.

Apresentarei as minhas reflexões por temas, e por isso nem todas as citações virão na ordem em que aparecem no texto.

Tudo o que está em itálico é do texto, o que está a letra normal é da minha autoria.

Antes de passar aos restantes temas, um comentário sobre a oração que aparece perto do princípio do texto.

A Oração

“Senhor, deixei-me enganar, de mil maneiras fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para renovar a minha aliança convosco. Preciso de Vós. Resgatai-me de novo, Senhor; aceitai-me mais uma vez nos vossos braços redentores.” (#3)
Logo no início do documento, o Papa coloca esta oração e sugere que a rezamos diariamente. Não faço ideia se é uma oração criada por ele ou não, mas é lindíssima e uma bela súmula da realidade da nossa vida cristã. Constante queda, marcada pela vontade de sempre melhorar.

Nunca desistir.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Exemplo a seguir!

Numa altura em que toda a gente se queixa da situação em Portugal, nada como um exemplo de sucesso que ainda por cima apela à oração!

Apresento-vos os livros de Thereza Ameal, autora de dois livros de oração para crianças, editadas pela Paulus.

“As Minhas Primeiras Orações” teve muita saída em Portugal, tanto que foi traduzido para italiano, quando normalmente é o inverso que acontece… Como se isso não bastasse, agora vai ser publicado na Coreia do Sul, um feito magnífico para um empreendimento deste género.

Em baixo podem ver a apresentação dos livros:



A Thereza recebe os meus mails diários e enviou-me esta informação. Não me farto de dizer que é também para isto que criei esta mailing list e, mais tarde, o blogue. Deve funcionar nos dois sentidos. Não prometo falar de tudo o que me pedem, mas se não pedirem é que é mais complicado!

Desde já obrigado à Thereza, tenho todo o gosto em divulgar esta obra interessantíssima!

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