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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Colômbia e o sonho dos sírios

Alegria internacional pelo regresso da Actualidade Religiosa
Espero que as vossas férias tenham sido excelentes! Aqui estou de regresso para vos trazer as notícias mais importantes – e por vezes mais bizarras – do mundo da religião.

O Papa está neste momento a sobrevoar o Atlântico, a caminho da Colômbia. É uma visita integrada num complexo e precioso processo de paz. Saiba mais sobre o contexto da viagem aqui, conheça o hino oficial aqui (eu dispensava o rap, mas de resto até é giro) e neste liveblog acompanhe a par e passo a viagem que vai durar vários dias.

Ontem foi dia Internacional da Caridade e assinalaram-se 20 anos da morte de Madre Teresa de Calcutá. Não, não é coincidência.

Numa altura em que península Coreana está em grande tensão, o Papa pediu aos líderes religiosos da Coreia do Sul que sejam instrumentos de paz e um grupo de empresários de Ourém vai para lá cativar mais peregrinos para Fátima.

Por cá o clima no futebol português às vezes faz lembrar a Coreia do Norte, mas para quem gosta verdadeiramente deste desporto e da cultura que o envolve, convido-vos a ler esta reportagem sobre o sonho da selecção da Síria, onde estão representadas as diferentes comunidades, incluindo cristãos, e que está a meros passos de conseguir um lugar no mundial 2018.

Durante as férias fui publicando os artigos do The Catholic Thing. Convido-vos a ler este par de artigos, com um tema parecido. Um fala dos efeitos da poluição causada pela pílula contraceptiva e outros medicamentos que estão a levar a desequilíbrios hormonais nas águas e o outro pergunta se haverá uma razão psíquica para a descida abrupta de níveis de fertilidade entre homens ocidentais.

Para esta semana temos o artigo de Brad Miner sobre o muito que a fundação Ajuda à Igreja que Sofre está a fazer pelos cristãos no Iraque, ajudando-os a permanecer no país.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cessar fogo frágil e dia de oração por vítimas de abusos

Santa Madre Teresa de Calcutá
Estou de regresso, depois de umas férias excelentes e ainda uma viagem fascinante, da qual ouvirão falar mais para o final do mês.

Muito se passou ao longo deste mês e meio, mas não irei recapitular as notícias, passando já para a actualidade.

Sendo assim, a notícia de hoje é a entrada em vigor do cessar-fogo na Síria. Rezemos para que se aguente pelo menos a semana que está prevista, e que sirva de base para um acordo de paz mais durador. Mas será complicado, muito complicado.

A comissão criada pelo Papa para pensar em formas de combater os abusos sexuais na Igreja vai apresentar uma série de sugestões a Francisco, incluindo a de que cada conferência episcopal crie um dia de oração pelas vítimas deste flagelo.

Os Leigos Para o Desenvolvimento continuam a enviar pessoas para vários países, para ajudar quem mais precisa. Já são 30 anos e a Renascença foi falar com a directora executiva Carmo Fernandes para saber mais sobre estes projectos.


Na semana passada tivemos o interessante artigo do padre Mark Pilon que diz que a crise que a Igreja enfrenta não é de culto, isto é, não se resolve com mudanças litúrgicas, mas sim de fé. Não podia estar mais de acordo.

Deixo-vos ainda com a informação sobre o próximo retiro “Vinha de Raquel” que é destinado a pessoas que tenham sido pessoalmente afectadas pelo aborto, seja porque abortaram, seja porque alguém próximo abortou, etc., O próximo é já nos dias 23 – 25 de Setembro e podem encontrar mais informações aqui

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

No Encalço de Santos: Madre Teresa e João Paulo II

Ines A. Murzaku
Santa Teresa de Calcutá e São João Paulo II tinham uma relação especial, uma amizade que foi confirmada para a eternidade pela canonização desta no passado dia 4 de Setembro. Lembram-se da imagem de São João Paulo II a beijar a cabeça daquela pequena mulher enquanto ela segurava na mão dele? Para o Papa polaco, nas palavras de George Weigel, a Madre Teresa era uma “pessoa-mensagem” para o Século XX.

Madre Teresa e São João Paulo II, o homem e a mulher do Século, juntos fizeram e mudaram a história. Eram peregrinos da paz, indivíduos profundamente apaixonados por Deus e pelo próximo, defensores dos pobres e dos marginalizados, promotores da liberdade e da dignidade humanas. Para além disso, o que São João Paulo II testemunhou na Madre Teresa foi aquilo a que chamou o mistério da mulher e as grandes obras de Deus em, e através de, a mulher.

A Madre Teresa e São João Paulo II acreditavam nos mesmos princípios de apostolado:
Abriram os braços da Igreja às pessoas e trouxeram para a fé um sentido de família e de pertença. A sua amizade era tão profunda e gentil que monsenhor Francesco Follo, Observador Permanente da Santa Sé na UNESCO, que trabalhou de perto com as Missionárias da Caridade em Itália e em França, escreveu no seu livro sobre João Paulo II que madre Teresa representava “a dimensão feminina de João Paulo II”.

Madre Teresa e Karol Wojtyla, então Cardeal Arcebispo de Cracóvia, conheceram-se pela primeira vez em Fevereiro de 1973, no 40º Congresso Eucarístico Mundial, em Melbourne, cujo tema era o mandamento novo de Jesus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Foi a primeira vez que Wojtyla esteve exposto ao Novo Mundo.

No seu diário pessoal, o futuro Papa mencionou ter conhecido Madre Teresa. Ela, na verdade, sentia-se em casa em Melbourne, as Missionárias da Caridade tinham inaugurado a sua primeira casa na Austrália em 1970, lidando com outras formas de pobreza, diferentes das que encontravam na Índia, incluindo alcoolismo, toxicodependência e as necessidades espirituais dos idosos. Ela acreditava que os homens e as mulheres alcoólicos da Austrália deviam ter mais do que abrigo e comida, que precisavam de ser amados e reabilitados para se poderem reintegrar na sociedade.

Em 1976 os dois encontraram-se novamente em Filadélfia, noutro Congresso Eucarístico, desta vez subordinado ao tema Jesus, o Pão da Vida. Por estranho que nos possa parecer, nem um nem outro era ainda muito conhecido no mundo católico. Mas os seus discursos tiveram muito impacto. Madre Teresa falou da fome física e do amor pelas coisas pequenas e o Cardeal, que conhecia em primeira mão os regimes totalitários, fez um apelo em nome daqueles a quem era negada a liberdade e que sofriam por detrás da Cortina de Ferro. Fome de pão e fome de liberdade – bem como a luta contra o sofrimento humano – estavam a contribuir para consolidar uma amizade duradoura e uma causa comum.

Os encontros em Melbourne e em Filadélfia com Madre Teresa e com o seu trabalho missionário devem ter tido um impacto profundo no Papa. Em 1986, durante uma visita de dez dias à Índia, ele rezou em Nirmal Hriday – Casa dos Puros de Coração, gerido pelas Irmãs da Caridade em Calcutá. Nessa casa, fundada em 1950 por Madre Teresa, dava-se assistência e tratava-se o sofrimento dos doentes, pobres e moribundos. O Papa, liderado por Madre Teresa, parou junto a cada um dos 86 doentes, alimentando à colher os doentes e moribundos. No fim da visita disse que “Nirmal Hriday é um local de esperança, uma casa assente na coragem e na fé, onde reina o amor”.

Ironicamente, foi numa casa localizada nos terrenos de um antigo templo hindu dedicado à deusa Kali que o Papa encontrou o mistério do sofrimento e do amor humano. Na verdade, o sofrimento e o amor humano são universais, transcendem nações, religiões, afectam ricos e pobres. A visita histórica de São João Paulo II à Índia e o seu encontro com Madre Teresa estão imortalizados em duas estátuas de tamanho real do Papa e da missionária no Santuário Nacional de São Tomé, Apóstolo da Índia.

O Papa ficou de tal forma emocionado pela pobreza e pelo sofrimento humanos que testemunhou na Índia que em 1988, durante o Ano Mariano, foi inaugurada a casa Dom de Maria, próxima da imponente colunata da Basílica de São Pedro. Madre Teresa deu-lhe esse nome na esperança de que “seja sempre possível experimentar, aqui, o amor da Virgem Santa”. A casa distribui comida e roupa a centenas de pobres em Roma e fornece abrigo e assistência médica a mulheres em situações de perigo.

São João Paulo II visitou a Albânia em 1993. Era a primeira vez que um Papa estava no país. No seu discurso aos albaneses, uma nação maioritariamente muçulmana e que tinha vivido debaixo do comunismo, o Papa falou sobre a liberdade, conquistada recentemente depois de décadas de perseguição severa e de martírio. Entre os albaneses que estavam lá para receber o Papa estava a Madre Teresa.

Ela tinha visitado a Albânia em 1989, quando ainda estava sob jugo comunista, por motivos “privados” – para rezar nas campas da sua mãe Drane e da sua irmã Age Bojaxhiu, que estavam sepultadas em Tirana, a capital da Albânia. Apesar dos esforços diplomáticos de mais alto nível, o Governo comunista negou a entrada à Madre Teresa durante quase vinte anos. Se a sua visita de 1989 foi um indicador dos primeiros sinais de abertura e da queda do último bastião do Comunismo na Europa de Leste, a visita de São João Paulo II em 1993 foi uma celebração da liberdade naquele que tinha sido o primeiro “estado ateu” do mundo.

No seu discurso ao povo albanês o Papa expressou gratidão à Madre Teresa e à sua missão universal para alimentar os famintos do mundo: “Mesmo nos tempos do isolamento total da Albânia, foi esta humilde religiosa, esta humilde servidora dos mais pobres dos pobres, que levou pelo mundo o nome do vosso país. Na Madre Teresa a Albânia foi sempre estimada… Hoje, agradeço-vos em nome da Igreja Universal, agradeço-vos, queridos albaneses, por esta filha da vossa terra e do vosso povo”.

A Madre Teresa, canonizada no domingo passado, e São João Paulo II, eram figuras universais a servir a Igreja universal com uma missão universal. O que os unia e consolidava a sua amizade eram a compaixão pelo sofrimento do mundo e um profundo respeito pela dignidade e liberdade humanas, alimentado de forma particular pelo Catolicismo. Como todos os santos, eles recordam-nos da profunda ligação entre o amor de Deus e o amor pelo homem.


Ines A. Murzaku é uma nova colaboradora do The Catholic Thing. É professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 3 de Setembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Os Primeiros Anos da Madre Teresa na Periferia

Ines A. Murzaku
A Madre Teresa é conhecida em todo o mundo. Mas são poucos os que sabem da importância dos seus primeiros anos nos Balcãs para a sua vida posterior. O dia 4 de Setembro de 2016, da sua canonização, será também, apropriadamente, o Jubileu dos Trabalhadores e dos Voluntários da Misericórdia. É uma feliz coincidência porque tudo indica que ela se tornará padroeira de todos os que trabalham e sofrem em nome do amor e da misericórdia de Deus.

O sofrimento é um factor inevitável da existência humana. Transcende países e nações, ricos e pobres. O sofrimento humano clama insistentemente para o mundo do amor humano. E de certa forma o homem deve a esse sofrimento o amor desinteressado que vive no seu coração e nos seus actos, como escreveu São João Paulo II na carta apostólica Salvifici Doloris, de 1984.

Madre Teresa vinha daquilo a que o Papa Francisco chama as periferias e partiu de lá para outras periferias, para uma missão que durou a vida inteira. Ela compreendia as periferias porque nasceu numa periferia e familiarizou-se com a realidade e a experiência de vida das pessoas da periferia de Skopje. É nas periferias, como explicou Yves Congar, que as ideias e as iniciativas para os grandes movimentos começam.

Não há muito escrito sobre os seus primeiros anos. Agnes “Gonxhe” Bojaxhiu nasceu em Skopje, actualmente capital da República da Macedónia, no dia 26 de Agosto de 1910. Gonxhe (uma alcunha que significa “botão de rosa”) era filha de pais albaneses, Drane e Nikola Bojaxhiu, de Prizren, no Kosovo. Os católicos albaneses eram uma minoria naquele tempo na Macedónia, onde a maioria eram ortodoxos ou muçulmanos.

Tinha muito orgulho nas suas raízes albanesas: “De sangue e de origem, sou albanesa”, disse à imprensa quando recebeu o Nobel da Paz em 1979. As influências familiares tiveram grande importância para a jovem Agnes. A sua família feliz e próxima, que incluía, para além dos pais, um irmão (Lazer) e uma irmã (Age), deixou marcas indeléveis no carácter da futura santa.

Nikola era um comerciante bem-sucedido, familiarizado com a situação política e com as tendências dos Balcãs e do estrangeiro nos anos entre as duas guerras (ele próprio era nacionalista). A família Bojaxhiu vivia numa casa grande na praça principal de Skopje. Mas ajudavam os doentes, as viúvas e as crianças que lhes apareciam à porta. “Egoísmo e o auto-centrismo são uma doença espiritual”, dizia Nikola. O lema dos Bojaxhius era hospitalidade: A sua casa estava aberta a Deus bem como às visitas e aos necessitados.  

Drane era dona de casa, tinha uma personalidade forte e era inteiramente dedicada aos filhos, ao marido e à sua fé. Depois da morte inesperada do seu marido, sob circunstâncias suspeitas (provavelmente envenenado por razões políticas), Drane trabalhou para sustentar a família. Agnes dizia que a mãe não falava muito, mas agia imenso.

Estas foram as primeiras lições – de amar de forma activa e misericordiosa – que a madre Teresa aprenderia da “sua” Skopje, como se costumava referir à cidade onde nasceu. O Arcebispo de Skopje, Lazer Mjeda, era um amigo próximo da família e influenciou Agnes de muitas formas. O Arcebispo levava e partilhava poesia com a família Bojaxhiu. O seu irmão, o padre Ndre Mjeda, era um poeta albanês proeminente e Agnes ouviu a sua poesia desde muito cedo.

Os jesuítas que passaram pela comunidade também impressionaram muito Agnes com o seu zelo pela missão. Os Bojaxhius peregrinavam anualmente à Nossa Senhora de Letnica, perto de Skopje, no 15 de Agosto. Foi aos 17 anos, durante uma dessas peregrinações, diante de Nossa Senhora, que Agnes recebeu o chamamento para ser missionária.


Skopje, na encruzilhada entre os Balcãs e as civilizações, expôs a futura madre Teresa a pessoas de diferentes religiões, etnias, culturas e línguas.

Quando ela nasceu Skopje fazia parte do Império Otomano. A Albânia, Bósnia, Sérvia etc., que atualmente são Estados independentes, não existiam. Kosovo era uma divisão administrativa de primeiro nível (yilayet) do Império Otomano e Skopje fazia parte da província administrativa de Kosovo.

Agnes tinha apenas dois anos quando começaram as guerras dos Balcãs (1912-1913). As guerras assinalaram o fim do domínio Otomano nos Balcãs e a divisão da região pela Bulgária, Sérvia e Grécia. A divisão causou muitos mortos e grande sofrimento humano, incluindo migrações forçadas, expulsões, limpeza étnica e a deslocação forçada de aldeias, vilas e famílias inteiras.

Mas o pior ainda estava para vir, durante a I Guerra Mundial a Macedónia tornou-se um ponto de discórdia entre a Sérvia e a Bulgária. Agnes testemunhou todo este sofrimento e guerra em primeira mão e muito cedo. Nos dois anos antes de receber o seu chamamento, passou longos períodos em retiro e oração profunda, fazendo perguntas existenciais sobre o sofrimento humano. Foi neste profundo abismo de agonia humana que Agnes testemunhou Jesus, pela primeira vez, no sofrimento humano.

Nessa periferia perturbada ela experimentou o “toque de Deus” que marcaria a sua vocação religiosa e a levou a jurar saciar a sede de Jesus prestando serviço incondicional aos indesejados. Para Agnes, a sede de Jesus deve ser unida ao desejo infinito de Deus por comunhão com aqueles que foram criados para amar a Deus.

Foram a sua Skopje e os valores de família albaneses – o microcosmos dos Balcãs – que prepararam a Madre Teresa para a sua missão na Índia. Foram estes primeiros anos da sua vida naquela periferia que a prepararam para ser uma construtora de pontes entre continentes e povos inteiros.


Ines A. Murzaku é uma nova colaboradora do The Catholic Thing. É professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 10 de maio de 2016

"Mother Teresa had a very good sense of humor!"

O padre Brian Kolodiejchuk com a
Madre Teresa e o Papa João Paulo II
This is a full transcript of my interview with Fr. Brian Kolodiejchuk, postulator of mother Teresa's cause of canonization. The news feature, in Portuguese, can be found here.

Transcrição integral, no inglês original, da minha entrevista ao padre Brian Kolodiejchuk, postulador da Causa de Canonização de Madre Teresa de Calcutá. A reportagem pode ser lida aqui

Mother Teresa will be canonized on September 4th, in Rome. Why not in Calcutta? Would it not have made more sense?
I understand why the bishops asked, and wanted, to have it in India, it would have been a big event for India, a shot in the arm, so to say, but I think the Holy Father chose Rome because now they went back to the older system where the beatification is in the local place and the canonization is in Rome, because canonization is presenting the person, in this case Mother Teresa, to the whole church.

So in that sense it is more appropriate to have it in Rome.

Did the current Indian government, which is Hindu nationalist, have anything to do with it?
I don't think so. I saw the other day that there was a delegation of the bishops asking Prime-minister Modi to come and lead it, but I don't know if that will happen.

There might have been practical difficulties of where to put such a big crowd, and security would have been a challenge.

As it is, I think the Holy Father and Archbishop Fisichella of the New Evangelization, wanted to have it in the Jubilee Year and as one of the major events of the Jubilee Year. Because thinking about her possible canonization, they put the Jubilee of the volunteers and workers of Mercy on that weekend because of Mother's feast-day the next day. It wasn't the other way around, they were assuming and hoping there would be the canonization and they made the jubilee of the workers and volunteers. So I think part of the event is that Mother will be, in a sense, the saint of the Jubilee and as the actual apostolate of the Missionaries of Charity are the works of mercy...

How close were you to mother Teresa?
I first met her in 1977 when I was a very young fellow and from there, at her invitation, I joined that first group of the Contemplative brothers and in 1983 I was at the beginning of what is now the Missionary of Charity Fathers. So during those 20 years I happened to be either in Rome or New York and then later in Tijuana, Mexico, so I would see her often. And having been one of the first I would be able to have a chance to see her, and talk to her.

Who asked you to become the postulator?
The postulator is named by the Missionaries of Charity, because he is the actor, the one who is presenting the person and so it was kind of a joint venture of the four branches. The active sisters, the active brothers, the contemplative brothers and the fathers...

Would it not have made more sense to have somebody who was perhaps not so close to her personally? Or was that something which made your work easier?
Actually, at the beginning, when I was doing the course... Because every year the congregation of saints offers a course, and at the beginning one of the sisters and I went and asked who could take on the cause, because I was young and inexperienced, then we went to the Jesuits, to father Molinari and father Gumpel, who are the main men in Rome for this, and they said that it should be one our own, because we were presenting somebody who lived a particular charism, so they said it should be somebody who shares in it, so they really understand.

My obligation was to present as best I can, as objectively as I can, but the actual process was not conducted by me. The diocesan inquiry in Calcutta was done by another episcopal delegate, notary and promoter of justice, and then in the Congregation itself I couldn't even be in when the witnesses were speaking, because if I was sitting there they might think that since I was going to hear... So it was just the person and the tribunal so they would have maximum freedom to speak.

Mother Teresa had her critics. But it seems that these were mostly in the West. Did you ever see the poor she served criticize her or the work the Missionaries did?
Not among the poor, no. Most of the critics were famously Christopher Hitchens and some others. As we were preparing the official material to be presented, on the basis of which the judgement would be made, we watched the film Hitchens had made, “Hell's Angel”, because I wanted to see what the criticism was. And we said there was really nothing there, as long as you know the facts.

So for example he shows Mother Teresa in Tirana, Albania, at Enver Hoxha's tomb, and says she was honouring him. The fact is that she asked to go to the burial place of her mother and her sister. So that is where she thought she was going, but they took her there first. Then they wanted her to put a flower on his tomb, but she said no, so she stood there and after, when she met his wife, she said she had prayed for her husband. Then she realized what the situation was and asked if she could please go to her mother's tomb.

A person from Albania, who was also involved in relating this story, said that everybody in Albania knew that was the protocol. So either the facts were twisted around, like that one, or his opinions came from a different perspective. Hitchens says he went to India and Mother was showing him around and he said that he really felt positively about the work until she took him to the children's home and said that they fought abortion through adoption. So you might not agree, but then it is a matter of opinion.

There was some criticism of the fact that she received money from people who were perhaps not very recommendable. What do you make of that?
When she would know who the person was, then she would refuse. There were cases where she refused... One I think was from a discotheque or something... When she had a sense that it wasn't well gained money she had the courage to refuse, even if it was a large amount.

One of the criticisms was that she had received money from Duvallier in Haiti, but she didn't receive any money from Duvallier, the only thing that was given was one one cheque for 1000 dollars from Mrs. Duvallier, the wife. So that is another one which is said, and it's not even true.

You mention that a dying man once said that all his life he had lived in the street like an animal, yet thanks to her he was dying like an angel… Does this story sum up her mission?
That is another one of the criticisms... Why don't you have a big clinic? But her purpose was that these people were really the dying in the street and the aim of the sisters is immediate and effective help. Exceptions are for things like leprosy, they have leprosy colony and the people live there, work there... The Saris are made by the lepers near Calcutta, so her aim is what we can give today.

She knew very well that you need to change the structures and work for more social justice, and those things, but her vocation, or the Missionaries of Charity vocation is the needs of today, the person who needs to eat, or who needs shelter, in the present moment.

But this idea of giving dignity to those who were marginalized... Does that sum up her mission?
I don't know if I'd say it sums it up completely, but that is certainly a very important part of it, human dignity. She would say my brother and my sister, and no matter what religion, no religion, colour... In this sense we are all children of God.

In Portugal we are currently in the middle of a debate about euthanasia, with proponents arguing that this is a necessary measure for people to be able to die with dignity. Few people are as close to misery, suffering and dying as the Missionaries of Charity, with that in mind, how do you respond?
I think Mother would say, as we say, from natural birth to natural death. And there is a way of dying with dignity which is not the easy solution, which would be to “pull the plug”, but it also involves the value of suffering and the Christian meaning of suffering, because that is another criticism that is made, as if she glorified suffering... Not at all! The whole work is to relieve suffering in whatever way, but at the same time I think she had that supernatural sense that if we give meaning to that suffering, then it has value. It doesn't have value in itself, but from a Christian perspective, especially, it does have value and meaning if it is lived and offered with love.

This idea of giving a meaning to suffering is a language that we are used to as Christians, but she was not working in a Christian atmosphere... Most of the people she served were Hindus, probably some Muslims... Did they manage to relate and understand this aspect?
The work in the home for the dying is to relieve that suffering, and now things are better in Calcutta, so more than half of those who come into the home for the dying don't die. And there are doctors that come so that immediate, basic, medical care is given. And if they get better then they move to another house the sisters have in Calcutta, or whatever they need to do. So the home for the dying still has the purpose of immediate help for somebody who really is dying or, more and more, the chance to get better.

But is this concept of giving meaning to suffering something they can understand?
I don't think the sisters go around saying to all the patients to offer up their suffering. No, it's the relief and helping them to die with dignity and at peace, so for example in New York, when they began work with the AIDS patients, at the beginning there was no hope of living too long... Now it's different. But one of the important things they did was lots of reconciliation with families. One of the men, he wasn't dying, he wasn't dying, until his father came and they had reconciliation and then he was free, so to say, to die. So that is one of the things they do, to die peacefully and with dignity.

Mother Teresa worked in a heavily Hindu society, with a large Muslim minority and only a very small Christian minority. Also, she was an ethnic Albanian, a country which is majority Muslim. What was her stance on inter-religious dialogue?
Mother Teresa had a very great respect for other religions. There was no explicit aim to convert anyone and most of the co-workers, the helpers, in India, or certainly in Calcutta, were Hindus. There was one woman I know who used to go every morning to Kalighat, the home for the dying, for over 25 years. And she was, and is, Hindu. Mother Teresa would say: “It is not for me to convert”, so that her first reaction would be to say to those who were involved, “I hope you become a better Hindu, a better Muslim, a better Christian”. Some of her doctors were Hindus and she would never invite them to convert, it had to be something which came from the people. She'd say she couldn't, God had to do that work in them.

Pope Francis has criticized aggressive proselitism. Could you say that she was a good example of what the Pope recommends nowadays?
Yes. That is what Pope Francis says now, but it was also what the Church was saying then. Service was given without any consideration of background, faith... It was my brother and my sister. From our perspective, we see Jesus in each person, but there was never a distinction made between those who were of one religion or another.

You have said that there was a special relationship between Mother Teresa and Fátima… Could you explain?
When she was a Loretto sister, in India, then especially in the 40s, there was a special emphasis in the church in general, among the Jesuits in Calcutta who were doing a lot of promotion. At the very beginning, as they began their work, they set up a little shrine to Our Lady of Fatima, and they would go on processions.

Our patroness is the Immaculate Heart of Mary. The daily rosary. In the visions Mother Teresa had (interiorly, in the imagination), Our Lady says “pray the rosary and all will be well”. So there is the rosary, also the sense of living and accepting sacrifices that come with our daily life. So there are many elements which are the same.

In 1947, when she was waiting for archbishop Perrier of Calcutta to give his OK for her to begin her work in Calcutta, in one of the letters she spoke of Our Lady of Fatima and said “we will do Her work in the slums”.

So it was very explicit that they would take the message of Our Lady of Fatima, at least amongst the Catholics in Calcutta, to promote that message.

You told a story about how she once placed an image of Our Lady facing the window on a train trip through Russia, saying that she needed to see outsider, since she hadn’t been there for a while… We associate many things to Mother Teresa, but a good sense of humour is not something that springs to mind…
Oh very much so! She had a very good sense of humour! She wasn't a great joke teller, but she was able to tell funny stories and if you were in the mother house and there were 300 sisters – and they had recreation together from 8h30 to 9h00 – and so if you happened to be there you would hear all this laughing and giggling and it was really very joyful. Sometimes she would bend over in laughter, so maybe publicly she didn't give that sense, but when you were one on one, or in a little group, she was very free and they used to enjoy these funny stories.

Mother Teresa’s “dark night of the soul” is something that many people have a difficult time relating to. In fact I remember that when the news broke, some media claimed she had been an atheist… How do you explain this phenomenon she suffered?
I think it was paradoxically experiencing her union with Jesus by not experiencing it. Or maybe better, living her union with Jesus without experiencing the consolation of that union.

She is a woman who is passionately in love with Jesus, for her Jesus is her spouse. Very explicitly, she said, she wants to love him as he has never been loved before. And then – probably women will understand this better than us men – but then to be passionately in love and then is seems that she is rejected, that Jesus is not loving her. It seems that she could not love as she would like to love, and so that is kind of the trial, and there is this aspect of being so united to Jesus that he can share with her his deepest suffering in the Garden of Olives and on the Cross, and his sense of abandonment – we are talking more at the feeling level, because at the same time she would say that she knew that she was united heart and mind – but even if you know it and believe it, that doesn't make the experience any easier.

And then what is unique more to her is that, when she went out into the West of India, she discovered that the greater poverty is this poverty of being unloved, unwanted, and uncared for, which could be rich people, any class of people can suffer this. And she was living that same sense of being unloved, unwanted... So we live poorly and simply so as to be identified with the materially poor, and now we discover that she was living that spiritual poverty, again, identified with all those who didn't....

Especially in the last years, whenever she would travel, even in Calcutta, people would be coming every day and in the mother house there is a chapel and a balcony which goes into the offices, that is where she would meet people, one of our priests called it the balcony apostolate.

People would come from wherever they were, from India, or outside, and tell her their stories... There must have been some horror stories... And so she would have been able to relate to those difficulties, because she wasn't up in the mystical clouds, experiencing this great consolation, on the contrary, so she had that real sense of being identified with those who were suffering spiritually as well.

You quote mother Teresa as saying that she wanted to love Jesus like he had never been loved before. Considering Jesus is first loved by God, as part of a Trinity of love, one could almost say this was blasphemous…
Well, it was something she had heard from Saint Therese, who had the same desire, but it was a way of saying that she really wanted to love Jesus that much, more than Saint Francis of Assisi, John of the Cross, the big saints... To take that really seriously was quite daring. But humanly speaking, she had a strong character... One of the priests I know, who was a psychologist as well, said that the purification, especially before she experienced the union, was so difficult because there was a lot to purify, because she had a strong character.

Would you like to see her become Patron Saint of something? Any idea?
Oh, that's a good question!

One of the things she was known for, even in life, was for those couples who had difficulty conceiving. So even while she was alive people would come and ask her to pray because they were having difficulty having a child, and she would take a miraculous medal – she liked giving miraculous medals to everyone – she would kiss it and say simply, here is the prayer “Mary mother of Jesus, give us a child”. And sometimes she would even say “You will have a child”. And then, almost always, one year later, people would come back and show her the children.

Maybe another one would be travellers, maybe with John Paul II too, they were both big travellers, but she put on many miles every year. So there are those two at least.

Both of those are examples I associate very much to John Paul II as well. There was a very close bond between them, wasn't there?
You can see in some of the pictures when she went to visit John Paul II, and they are very human, very tender. He was taller and she was quite short, so he might be kissing her forehead, and she had her hands clasped, because in her own culture, in India, men and women don't touch in public. So normally, at the very end, she might let us men give her a little embrace, but otherwise if people tried, naturally for another culture, she would back away and give the Indian greeting, “Namaste”, with her hands clasped.

This because she was so well integrated into the Indian culture, or was it part of her Albanian culture as well?
It was amazing how well she understood the Indian culture. One of our priests, who was actually from Canada, he was the superior of our house in Calcutta in those last years, and that was something he explained, that she had a real grasp of the culture.

We are currently in the year of Mercy, of which confession is a central aspect. How important was confession to Mother Teresa?
Very much so! She and we, and the sisters also, have the practice of going once a week. So in the first years she had more of a spiritual director, whom she saw regularly, usually the confessor of the Mother House. But when she travelled she would just go to the regular... They used to have Thursday as their day in, as they'd call it, and so the priest would come at Holy Hour and hear confessions, and she would just take her turn.

She liked to say that we go into the confessional sinners with sin, and we come out sinners without sin.

It was very important to her, and that was one of the reasons she wanted the fathers to begin, because she wanted that priestly aspect which the sisters and brothers couldn't give them. One is the mass, the other is confession.

This vision Pope Francis has for the Church as a field hospital seems to be so much in line with Mother Teresa's mission...
Oh yes! Very much so.

What do you think she would have made of his papacy?
Oh I think she would have loved to see this emphasis on the poor, on the peripheries, because in a sense that is where the Missionaries of Charity already are, with the poorest of the poor, and that is one of the effects of the work, even in India – and the World, she would also say – but also in India, is a greater sense of the poor, and she would accept awards only in the name of the poor. She would go and have a chance to speak because this was a way of drawing attention to the poor. So I think she would be very much in line with, and very pleased with, this emphasis on being attentive to and going out towards the poor.

Of all the things you experienced with mother Teresa, some surely are very personal, but of those you can share, which one struck you most?
There are a couple maybe... My sister is a Missionary of Charity sister and after her final vows she was sent to Poland to be the novice mistress and just a few years later they found melanoma cancer on her skin, in a few places.

Her superior brought her to Rome, where they examined her, and mother was there as well. And at that time I was in with the fathers in New York, and she knew my parents, and there were only the two of us siblings, so she knew she had both of their children, and I think out of consideration for my parents, especially, that she decided that she would take my sister from Rome, change her whole schedule, because going to New York was not part of the plan, and so she changed and came from Rome to New York. Typical of her, if it could be done now it will be done now.

So we picked her up at the airport and went straight to the doctor and one of our postulants who used to work at the hospital there, at one of the major hospitals in New York, and so we arrived and mother met this doctor and said to him: “I have a gift for you. That you make my sister alright”.

So she turned it around, that her gift was that he had a chance to do some good work and please make her sister alright.

Another story is a time we were in San Diego and mother had to go to a clinic and she saw one of the doctors there. And she visited the doctor, who asked her to go and see some of her patients. And she needed to eat, because of the medication she was taking. But the sisters knew that if they told her that she had to stop and eat she wouldn't have done it. But our superior was also on medication so the sisters said that Father Joseph needs to eat.

So we stopped at a Carls Junior, which is like a McDonalds or Burger King type of thing. I was the driver and mother was in the front seat. I and another lay woman went into the store to make the order. I was wearing my clerical collar, and many people in San Diego are Mexican or Mexican American in San Diego, you can live in San Diego and not even speak any English if you wanted too.

So he asked where we were coming from, and we said Tijuana and that I was a priest in Mother Teresa's order, and he said “Oh, Mother Teresa!”, and I was just thinking, if we had just told him, “By the way, this order is for Mother Teresa, who happens to be in the car over there...”

So we got the food and brought it back and distributed it. And Mother was eating her hamburger and French fries and I guess it was too much, so she asked if anybody wanted more French fries... It was just completely normal... And I was thinking how many people would love to have a chance just to see Mother Teresa and here we are having a hamburger and French fries!

And did your sister get well?
Yes she did. She is cancer free.

It can't have been easy for your parents...
No. Mother used to say sometimes that we, the children, make our parents make the sacrifice. It's our call, we respond, but no, it's not easy, especially in this case, because there are no other children, so there are no grand-children.

No resentment?
No! Thankfully they were very happy. They always told us to do what we wanted to do, and even though it did involve sacrifice for them, they were very happy. Until they couldn't anymore they would visit us once a year. We couldn't go home very often, but they came.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Madre Teresa, Padre Halik e Tiago Cavaco

Riso de santo
Espero que a minha falta de assiduidade nas últimas semanas seja justificada por este mail, em que partilho convosco três reportagens de fundo em que tenho estado a trabalhar.

Começo com a entrevista ao padre Tomás Halík, uma das maiores figuras da teologia actual, que considera que a Europa está a atravessar uma “noite escura da alma” colectiva. Vale muito a pena ler, a entrevista primeiro, depois os livros…

Passamos agora ao padre Brian, postulador da causa de canonização de Madre Teresa de Calcutá, que nesta conversa fala do sentido de humor, do sofrimento espiritual, da amizade com João Paulo II e até do que diria sobre o Papa Francisco. Tudo em função da canonização, no dia 4 de Setembro.

E termino esta ronda com mais uma reportagem da série que tenho estado a fazer sobre o Jubileu da Misericórdia. Desta vez temos o pastor baptista Tiago Cavaco a comentar a misericórdia à luz das parábolas de Jesus, que também não se vai arrepender de ler.

Mas porque a actualidade religiosa não se faz apenas de grandes reportagens, temos também esta reacção dos juristas católicos, sobre as “barrigas de aluguer” e notícia sobre o último relatório anual da comissão americana para a Liberdade Religiosa, que considera que a situação mundial vai piorando.

Em Israel foi hoje condenado a prisão perpétua um extremista judeu que participou na tortura e assassinato de um jovem palestiniano, que contribuiu para a segunda guerra de Gaza, em 2014.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Santidade de Madre Teresa: Sabedoria para além do Secular

Mary Poplin
Agora que a beata Madre Teresa vai ser canonizada é com naturalidade que vemos ressurgirem algumas das velhas críticas que lhe foram feitas. Não existem novas. O ateu-mor Christopher Hitchens “popularizou-as” para uma pequena elite em meados dos anos 90 e um “investigador” canadiano limitou-se a repetir estas “revelações” na secção de opinião do New York Times a semana passada. As acusações são de condições pouco sanitárias, recusa de medicamentos, gostar de pobreza e o carácter pouco recomendável de algumas das pessoas que lhe davam dinheiro, bem como a forma como ela o usava. William Doino Jr. respondeu claramente a estas acusações há três anos e, claro, a Congregação para as Causas dos Santos tê-las-á investigado também.

Contudo, eu quero ir para além destas defesas e sugerir que o nosso desafio, enquanto cristãos, passa por compreendermos as coisas de uma perspectiva diferente. O pensamento cristão assume uma racionalidade superior, que não contradiz a verdadeira racionalidade do mundo secular, mas que a ultrapassa. O mundo é racional, mas também é espiritual. Há leis espirituais que transcendem as meras leis da lógica. Estas são normalmente reveladas nas vidas de pessoas como a Madre Teresa. São pessoas que conhecem e vivem a vida de forma diferente.

Quando trabalhei como voluntária num dos lares para crianças de Madre Teresa, em 1996, não vi nenhuma das condições apontadas pelos seus críticos. Não duvido que alguém, num centro qualquer, possa ter-se esquecido de passar uma seringa por água. Mas não há falhas terríveis em hospitais modernos? Ainda assim, é importante lembrar que os centros não são hospitais. A madre Teresa insistia que os centros eram religiosos.

Havia lá irmãs com cursos de medicina e de enfermagem, e médicos voluntários. Quando uma criança ficava gravemente doente, as irmãs levavam-na às urgências. Contudo, a madre Teresa sempre insistiu que elas eram chamadas a fazer trabalho religioso e não social.

A Madre Teresa e as Missionárias acreditavam que cada pessoa de quem cuidavam era Jesus disfarçado de pobre. Esta é uma realidade espiritual, que não está ao alcance da lógica do humanismo secularista, embora os secularistas e os cristãos estejam de acordo quanto à necessidade de haver cuidados de saúde para os pobres.

Outra coisa que distinguia as Missionárias da Caridade era que nunca pediam dinheiro, nem aceitavam fundos do Governo (ou sequer do Vaticano). Era proibido pela sua constituição. Achavam que se estavam a fazer o trabalho de Deus, então seria do agrado de Deus sustentar todas as suas necessidades. Para grande raiva dos seus críticos, Ele fê-lo abundantemente.

Devido à fé determinada de que Deus providenciaria, elas não confirmavam as fontes de contribuições privadas. E porque haviam de o fazer? Duvalier ou Keating eram como qualquer outro doador. Sim, queriam tirar fotografias ao seu lado, mas como eles havia milhares de outros.

Há dois princípios bíblicos que explicam como estes fundos acabaram por ir parar aos centros religiosos de Madre Teresa. Em Provérbios 13,11 diz que “a riqueza de procedência vã diminuirá, mas quem a ajunta com o próprio trabalho a aumentará.” Foi precisamente o que aconteceu no caso de Charles Keating, que oferecia aos seus clientes insuspeitos taxas de juro muito altas. Em Provérbios 13,22 diz que a riqueza do pecador é depositada para o justo e em 28,8 que “o que aumenta os seus bens com usura e ganância ajunta-os para o que se compadece do pobre.”

Os cristãos são chamados a estes carismas particulares ou a trabalhar com a ajuda e a inspiração do Espírito Santo. O chamamento específico de Madre Teresa era de servir os mais pobres dos pobres – aqueles para quem mesmo os serviços típicos aos pobres não costumam estar disponíveis. Pela sua própria natureza ela era muito frugal, tendo sido criada em pobreza depois da morte prematura do seu pai.

Queria abrir centros em todo o mundo e actualmente existem mais de 700 em 131 países.

Eu estava com a Madre Teresa em Calcutá quando saiu o livro de Hitchens, pouco depois do seu documentário crítico na BBC. Tive a oportunidade de lhe perguntar sobre o assunto e, depois de se ter esforçado por se recordar do incidente, respondeu: “Ah, o livro. Não interessa. Ele está perdoado”. Ela e as irmãs simplesmente obedeciam ao mandamento de Cristo para perdoar incondicionalmente.

Há quem diga que não perdoar é como beber veneno na esperança de que a outra pessoa morra. As irmãs leram o livro, rezaram, jejuaram, examinaram-se para encontrar qualquer erro e seguiram com a sua vida. Libertaram-se do seu ódio, mas ele permaneceu cativo.

Por fim, o enfoque da Madre Teresa era em ajudar uma pessoa de cada vez. As Missionárias são como um homem na praia, desesperadamente a lançar estrelas-do-mar para dentro do oceano enquanto os seus amigos lhe dizem que não vale a pena, dado o grande número espalhados pela areia. Ele limita-se a pegar no próximo e atirá-lo ao mar, dizendo que para aquele valeu a pena sim.

A Madre não se interessava por grandes programas, apenas por cuidar de cada pessoa abandonada e ferida, fossem crianças atiradas para caixotes do lixo, fossem idosos deixados nos becos para morrer. O sorte deles era o sofrimento. É impossível estar muito tempo no meio da pobreza de Calcutá sem conhecer o seu desespero. Ela valorizava a persistência dos pobres, a sua simplicidade e honestidade. Não amava o seu sofrimento, se assim fosse não teria trabalhado tanto para o aliviar.

Qualquer cristão, seja quão profunda for a sua fé, sabe que o sofrimento pode bem produzir frutos e que as pessoa que sofrem podem ser das mais generosas que há. A Madre Teresa era disso um exemplo perfeito. Ela sofreu muito através das noites escuras de sofrimento e padecimentos físicos. Quanto mais sofria, mais alcançava e mais pessoas vinham ao seu encontro apenas para a poder ver, falar com ela ou tocar-lhe. Isto é sofrer de modo cristão – para a glória de Deus e redenção dos outros.

É uma insensatez – embora os seus críticos não o percebam – julga-la pelos padrões do secularismo humanista. O seu chamamento e a sua vida existiam noutro plano, mais alto.


Mary Poplin é uma nova contribuidora para o The Catholic Thing. É professora na Claremont Graduate University e autor de Finding Calcutta: What Mother Teresa Taught Me e Is Reality Secular?

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 7 de Abril de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 23 de março de 2016

Mais Bruxelas e menos refugiados na Polónia

Como já era expectável, o Papa Francisco referiu-se esta quarta-feira aos atentados de Bruxelas, lamentando e criticando o terrorismo.

De todo o mundo e de vários quadrantes chegam também as manifestações de repúdio e de tristeza. A comunidade islâmica de Lisboa não é excepção e já se mostrou solidária com as vítimas do atentado.

O último balanço aponta para uma vintena de portugueses feridos nestes ataques e, infelizmente, já se começaram a sentir os efeitos mais negativos, com a Polónia, por exemplo, a fechar as fronteiras aos refugiados.

Nem de propósito, a irmã Irene Guia, que conhece melhor que ninguém esta questão dos refugiados, foi a entrevistada de ontem à noite no programa da Renascença Terça à Noite e explica que os refugiados, na esmagadora maioria dos casos, são aqueles que simplesmente já não aguentam mais.

A minha posição sobre a questão dos refugiados e das fronteiras abertas ou fechadas já a divulguei, mas volto a partilhar os links para o caso de alguém estar interessado.

Porque hoje é quarta-feira, deixo-vos o link para o artigo desta semana do The Catholic Thing em português. É sempre bom poder apresentar uma perspectiva feminina neste espaço, hoje Mary Poplin escreve sobre aquela grande mulher que foi Madre Teresa de Calcutá e, mais especificamente, sobre a sua "noite escura da alma". Não deixem de ler!

Tenho Sede – O Poder das Noites Escuras de Madre Teresa

Mary Poplin
E a Luz brilha na escuridão, mas a escuridão não a compreende.

Três anos depois da minha conversão radical de humanista secular pós-moderna a crente incipiente, fui para Calcutá durante dois meses como voluntária no lar de crianças de Madre Teresa (Shishu Bavan). Queria compreender o que ela queria dizer quando afirmava que o trabalho que lá faziam não era social mas sim religioso. Abraham Heschel disse certa vez que os verdadeiros profetas de Deus “estilhaçam incessantemente a indiferença”. Eles são os “mensageiros relutantes” que permitem que Deus nos fale através deles, implorando-nos que regressemos a Ele num “mundo que mais do que não ter sentido é incapaz de o escutar”. A Madre Teresa era uma destas profetas. E apesar de termos sabido esta semana que ela vai ser formalmente canonizada no dia 4 de Setembro, tal como todos os profetas, a Madre Teresa sofreu.

Durante esses dois meses, em 1996, eu costumava chegar cedo para a missa e as orações das 5h30; queria ficar perto da Madre. Estudei-a a partir da minha própria fome espiritual, admiração e curiosidade. A primeira questão que me surgiu quando me sentei no chão da capela foi da razão de ser de ela ter escolhido duas das últimas palavras de Jesus para colocar por cima dos crucifixos de todas as capelas da ordem: “Tenho sede”. Ela dizia que era porque Jesus estava sedento de almas, mas pela sua expressão todas as manhãs parecia que ela é que estava sedenta. Como o primeiro livro que eu tinha lido depois da minha conversão, para além da Bíblia, tinha sido de São João da Cruz, consegui de alguma maneira fazer as pazes com isso.

João da Cruz ensinava que depois da noite escura da alma, os mais fiéis acabariam por entrar numa noite escura do espírito, em que as experiências místicas terminariam e sentiriam a ausência de Deus. Então Ele não habitaria fora, mas dentro das suas almas: “Albergam no seio da secura e do vazio das suas faculdades, um cuidado habitual e uma solidão por Deus que se faz acompanhar de aflição e temor de não o servir. É um sacrifício que agrada muito a Deus – o de um espírito em aflição e solicitude pelo seu amor… Começa a despertar no espírito o amor divino.” Em conformidade com este discernimento, as experiências místicas que marcaram o início do percurso da Madre Teresa acabaram por desaparecer e ela sofreu por pensar que de alguma forma tinha desagradado a Deus.

Durante a sua vida a Madre rezou por três coisas: Partilhar da Paixão de Cristo, ser santa (humilde e mansa), e não recusar nada a Deus. O Senhor concedeu-lhes todas estas coisas.

Quando era mais nova tinha rezado ardentemente para “beber UNICAMENTE do seu cálice de dor”. Graças a Deus ela contou com alguns confessores que compreenderam que durante as suas noites escuras ela estava de facto a partilhar da Paixão de Cristo e do sofrimento dos pobres.

Este sofrimento já tinha sido descrito por São Paulo: “Agora regozijo no meio dos meus sofrimentos por vós, e cumpro na minha carne o que resta das aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a Igreja”. Eventualmente a Madre escreveu a um dos seus confessores: “Pela primeira vez nestes 11 anos comecei a amar a escuridão, pois acredito agora que ela é uma pequena, pequeníssima parte da escuridão e da dor de Jesus na terra. Ensinaste-me a aceitá-la como uma ‘face espiritual do meu trabalho’”.

Felizmente para ela esses confessores compreenderam que a sua condição era espiritual e não psicológica. Se a sua noite escura tivesse sido uma depressão psicológica, como alguns têm sugerido, ela ter-se-ia revelado apática, negativa, ressentida, sem esperança, ansiosa e sem energia nem capacidade de concentração. Mas como referiu o postulador da sua causa de canonização, o padre Brian Kolodiejchuk, “Em vez de diminuir, a escuridão parece ter revigorado o seu impulso missionário”. A maioria das pessoas que, como eu, trabalharam de perto com as missionárias, mesmo durante curtos períodos de tempo, sabem no seu coração que não teriam conseguido aguentar. O amor e a energia delas era fruto de uma rendição a Deus, esvaziamento e Graça. Como disse a própria Madre Teresa, certa vez, “quanto menos temos, mais damos. Parece um absurdo, mas é a lógica do amor”.  

Só há um teste ao verdadeiro discipulado – a sua vida trouxe glória e honra a Jesus? A sua escuridão produziu luz? Na verdade, a presença de Cristo nela era por vezes tangível. Havia manhãs em que, sem pensar nisso, nos juntávamos à sua frente depois da missa e baixávamos as cabeças, na esperança de que ela nos tocasse. Vinham pessoas de todo o mundo e de todas as classes sociais só para que ela tocasse nos seus bebés, nascidos ou não nascidos. Cada grama de Jesus que havia nela, a Madre oferecia àqueles de entre nós que se tinham apresentado sem outra coisa que não a nossa pobreza.


Mary Poplin é uma nova contribuidora para o The Catholic Thing. É professora na Claremont Graduate University e autor de Finding Calcutta: What Mother Teresa Taught Me e Is Reality Secular?

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 17 de Março de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

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