Mostrar mensagens com a etiqueta Pe. Paul Scalia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pe. Paul Scalia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Reza Como uma Criança

Pe. Paul Scalia
“Disse-lhes, ‘Quando rezarem, digam: “Pai…’” Assim arranca a belíssima catequese do Senhor sobre oração (Lc. 11, 1-3). Devemos pensar bem sobre essa primeira palavra: Pai. Dizer Pai significa colocarmo-nos no papel de filhos. Dizê-lo com autenticidade implica conhecer-me como filho de Deus. Por isso a primeiríssima palavra do Senhor sobre oração contém o princípio da filiação divina – o facto de sermos filhos de Deus através do Filho, capazes de chegar ao Pai com Ele, através dele e nele. A oração cristã assenta nesta verdade fundamental. Toda a oração flui da nossa identidade enquanto filhos de Deus. O Pai é simultaneamente a primeira e a última palavra na oração.

Na verdade, a forma directa como se pedem estas instruções ao Senhor já são indicativas da atitude filial necessária para a oração: “Um dos seus discípulos disse-lhe, “Senhor, ensina-nos a rezar’”. O primeiro passo para a oração é compreender, como este discípulo, que não sabemos rezar como convém (Rom. 8,26). A oração não começa com a nossa força e com os nossos conhecimentos, mas com a nossa fraqueza e docilidade.

Esta verdade é dura para os orgulhosos, mas consoladora para todos os que já tentaram rezar e não foram capazes. Para rezar temos de reconhecer que precisamos de ser instruídos. Na verdade, todas as orações começam com “Senhor, ensina-me a rezar”.

Uma componente essencial desta oração filial é a perseverança. Vemos isto no Patriarca Abraão, cuja oração antecipa a dos filhos de Deus. (Cf. Gen. 18, 20-32). Nesta discussão sobre o destino de Sodoma e Gomorra ele parece uma criança a suplicar por mais uns minutos antes de ter de ir para a cama. Com a perseverança de uma criança que já tem em vista um objetivo e não se deixará dissuadir, Abraão está continuamente a regressar ao Senhor com uma nova proposta.

Mas existe uma diferença importante entre a perseverança de Abraão e a nossa. Ele apela à justiça de Deus, que não desbaratará os inocentes com os culpados. Abraão clama: Não deverá o juiz de todo o mundo agir com justiça? Na verdade, devia. Mas nós apelamos mais até à misericórdia de Deus. Pedimos-lhe que sustenha a sua fúria e que nos dê a sua ajuda não porque a merecemos, mas porque precisamos radicalmente dela. A nossa fraqueza reivindica a sua assistência.

É este seu apelo à misericórdia do Pai que Nosso Senhor enfatiza nas suas instruções. Temos confiança na nossa oração ao Pai não porque gozamos de um direito absoluto aos seus dons, mas porque sabemos que somos seus filhos. Por isso é que podemos regressar continuamente a Ele. Pois se nós, que somos maus, somos capazes de mostrar misericórdia, quanto mais o nosso Pai que está nos céus se apressará a ajudar-nos?

Claro que, sabendo do fim terrível que tiveram Sodoma e Gomorra, podemos pensar que o esforço de Abraão foi em vão. De que serviu toda a sua insistência? Aparentemente, nada. E isso chama atenção para outra dimensão da oração verdadeiramente filial: o abandono à vontade do Pai. Um filho descansa na certeza de que a vontade do Pai é supremamente boa. Se uma oração não é atendida é porque o Pai sabe melhor e tem um bem maior em mente.

Jesus reza no horto das Oliveiras
Vemos o próprio Senhor a adotar esta postura quando Ele reza a mais difícil de todas as orações filiais: “Abba, Pai, para ti tudo é possível. Afasta de mim este cálice, mas não seja feita a minha vontade, mas a tua”. (Mc. 14,36).

De certa forma, esse bem maior já está realizado em cada acto de oração. A oração de Abraão não foi desperdiçada porque através dela ele cresceu na sua capacidade de entrar em diálogo com Deus. Sim, devemos apresentar as nossas necessidades terrenas a Deus. Podemos, contudo, tornarmo-nos tão focados na resposta externa às nossas orações – o “remediar” da situação – que deixamos de ver os efeitos internos que a oração tem em nós.

O nosso Pai não quer simplesmente resolver todos os nossos problemas por nós. Ele quer algo mais. Deseja que nos aproximemos dele nas nossas orações, confiando-lhe as nossas preocupações. E se ele resolver, de facto, os nossos problemas, é para que ao experimentar o seu poder e bondade possamos confiar ainda mais nele.

E isto leva-nos àquela última e misteriosa linha na catequese do Senhor: “Quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará o Espírito Santo a quem o pedir?” Procuramos e pedimos muitas coisas na nossa oração. Batemos (e às vezes com força) na porta do Céu com vários pedidos. Mas as palavras de Nosso Senhor indicam que o fim último das nossas petições não é esta coisa ou aquela, mas algo maior: o próprio Espírito.

Nosso Senhor responde sempre às nossas orações (dizendo ou sim ou não) como o objetivo de dar ou aumentar o dom do Seu Espírito. A nossa oração pode ser dirigida apenas a esta ou aquela situação, mas Ele quer que seja mais, para nos aproximar mais de Si. Ele deseja não tanto que recebamos o que pensamos precisar aqui e agora, mas que cresçamos em união com Ele.

Quer o compreendamos ou não, a nossa oração é sempre dirigida a este aumentar do Espírito, o Espírito de Filiação, que reza de dentro de nós e nos permite clamar: Abba! Pai!


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Que Tipo de Filho?

Pe. Paul Scalia
A Quaresma é sobre o tipo de filho que escolhemos ser. Tem a ver, em primeiro lugar, com a filiação de Cristo, e depois com o facto de nós sermos filhos de Deus através dele, com Ele e nele. A Quaresma alcança o seu propósito e significado final na Vigília Pascal, quando os catecúmenos são baptizados e os fiéis renovam as suas promessas baptismais, isto é, quando nos tornamos, ou renovamos a nossa relação de, filhos de Deus.

As leituras reflectem esta realidade. O primeiro Domingo de Quaresma coloca-nos diante das tentações que queriam afastar o Filho do Pai. Ele tinha acabado de escutar a voz do Pai no Rio Jordão: “Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus toda a minha complacência”. Agora é o demónio que põe à prova as palavras do Pai, propondo outro tipo de relação filial – não proposto e desejado pelo Pai, mas baseado antes nas suas próprias sugestões: Se és de facto o filho de Deus…

É confiando no Pai, recebendo o que Ele dá e rejeitando qualquer relação filial contrafeita, que Nosso Senhor triunfa. E como que a confirmar esta vitória, o segundo Domingo da Quaresma dá-nos a voz do Pai no Monte Tabor: “Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência; escutai-o”. A Quaresma toda tem a ver, portanto, com a rejeição da falsa filiação, afastando o que não é de Cristo e preparando-nos para renascer, ou vermos renovada a nossa relação filial com Deus.

É neste contexto de filiação – tanto real como falsa – que devemos escutar a parábola do Filho Pródigo, de domingo passado. Na verdade, claro, é sobre dois filhos. Embora sejam muito diferentes, têm algo em comum: cada um escolhe o seu próprio tipo de filiação, independentemente do pai. Ou melhor, cada um nos revela formas diferentes de sermos apanhados nas ciladas do demónio e na filiação criada à nossa medida.

A rebelião do filho mais novo é mais infame. Ele “consumiu os bens [do pai] com mulheres de má vida”, nas palavras do irmão. Esta vida dissoluta poderá parecer-nos o pecado mais grave. Mas na verdade é apenas o fruto terrível, e não a raiz, da sua rebelião.

Na raiz do pecado do filho pródigo está a vontade de querer uma relação filial à sua medida. “Pai, dá-me a parte da herança que me toca”. Esta exigência dura revela o seu desejo de querer ter todos os benefícios da filiação – a sua herança – mas sem o pai. Note-se que não lhe basta estar longe do pai, quer que o pai deixe de existir. Quando diz: “Pai, dá-me a parte da herança que me toca” o que está a dizer de facto é: “Eu quero aquilo a que tenho direito quando morreres”… “Eu só posso viver a filiação que desejo quando tu partires”… “Gostaria que morresses”. 

O filho mais novo é Adão, tentando alcançar o fruto, procurando obter à sua maneira aquilo que o Pai lhe quer dar livremente – e acabando em grande desapontamento. Esta é a doença do homem caído. Queremos as coisas de Deus, mas sem Deus. Queremos a bondade da criação, sem o Criador, a dignidade que Ele nos deu, sem qualquer responsabilidade para com Ele, e a vida eterna que Ele promete, sem o seu caminho.

O Ocidente pós-cristão quer o património intelectual, moral e espiritual da Cristandade – mas sem Cristo. No final nós, tal como o filho pródigo, percebemos que não podemos ter um sem o outro. Sem o Pai, os seus dons rapidamente nos traem. E nós, tal como o filho pródigo, encontramo-nos no meio dos porcos.

E depois temos o filho mais velho. Também ele vive uma relação filial à sua maneira. Só não é tão evidente. O filho mais novo estabelece a sua própria rota, em claro contraste com o pai. O mais velho estabelece os termos para a sua relação (ou falta dela) com o pai, mas de forma menos clara. Também ele quer as coisas do pai sem o pai. Em vez de ser dissoluto e irresponsável, porém, os seus termos são mercantilistas e (espera ele) lucrativos.

“Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua”. Esta não é a voz de um filho, mas de um empregado ou de um escravo. Trai a visão distorcida do filho mais velho da relação filial e uma fraca compreensão do seu pai. Ele encara o seu trabalho, não em união com o pai ou para bem da família, mas apenas como obrigação. O filho mais velho está sozinho em casa: todo este tempo na casa do pai, mas não da casa do pai.

Se o filho pródigo representa aqueles que se afastam, ou que se revoltam mesmo contra a Igreja (a casa do Pai) o mais velho representa aqueles que, enquanto na Igreja e talvez até a trabalhar para a Igreja, são animados apenas por um sentido de dever.

Ao contrário da vida dissoluta do filho pródigo, este vício ameaça aqueles que levam a sua fé a sério e, também ao contrário do pródigo, não querem abandonar a casa do Pai. Arriscam estar na casa do Pai, mas sem o sentido de serem seus filhos. O perigo, para eles, está em substituir o Pai pelas coisas do Pai – colocando a piedade acima da santidade e satisfazerem-se com a observação externa acima da obediência filial.

“Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Embora partam da boca do mais novo, ambos os filhos o poderiam ter dito. A ambos falta uma relação genuína com o pai. Cada um deles, à sua maneira, distorceu-a, criando uma relação filial à sua medida.

É normal tentarmos reconhecer em nós mesmos um ou outro dos dois filhos. Mas a realidade é que nos assemelhamos a ambos, até certo ponto. Por isso, agora que nos encontramos a meio da Quaresma, fazemos bem em perguntar não se, mas como é que agimos como cada um. Quando e como é que prefiro as bênçãos de Deus ao próprio Deus? E, igualmente, quando e como é que reduzo a minha relação com o pai a um mero quid pro quo?

Temos de renunciar a estas falsas relações filiais para sermos renovados como filhos de Deus, na filiação autêntica de Cristo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Março de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Palavras de Graça

Pe. Paul Scalia
Uma das vítimas do Pecado Original foi o dom da fala. Sabemos, através do relato da Torre de Babel, que Deus semeou a confusão das línguas como castigo pelo pecado do orgulho. Mas esse castigo em particular apenas realça os danos que já existiam desde início.

Deus concedeu ao homem o dom da fala como uma espécie de prerrogativa divina. Confiou ao homem a autoridade de poder falar em seu lugar. Deus conduziu-o a todos os animais “para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome” (Gen. 2,19). Também havia uma dimensão sacerdotal neste dom da fala. Nas palavras do homem toda a criação encontraria a voz para louvar o seu criador. De facto, as primeiras palavras conhecidas de Adão são um hino de graças pela ajudante que lhe foi dada:

Esta, por fim, é osso dos meus ossos
e carne da minha carne;
Chamar-se-á mulher,
porque foi retirada do homem. (Gen. 2,23)

Depois de o homem se revoltar contra o seu criador, a sua palavra fica ferida e passa a desviar-se facilmente do seu propósito. Logo depois da queda, Adão usa palavras não para louvar, mas para culpar essa mesma ajudante culpando, por extensão, o seu Criador: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.” (Gen. 3:12).

No mundo decaído o poder do homem para articular a verdade e louvar o Criador torna-se também um meio de decepção e manipulação. Vemo-lo ao longo das Escrituras, desde a desculpa de Caim – “Sou eu guardador do meu irmão?” (Gen. 4,9) – à insinceridade de Judas: “Salvé, Rabi” (Mt. 26,49). Vemo-lo à nossa volta, na constante distorção das palavras para servir a ganância e o lucro e vez da verdade e o louvor. O mais triste é que vemo-lo até em nós, na forma como usamos as nossas palavras para manipular, culpar e enganar.   

Todas as coisas serão restauradas em Cristo, incluindo a palavra humana. Na Encarnação, a Palavra de Deus redime as nossas palavras. Ao assumir a nossa natureza humana, Ele assume para si o discurso humano. Redime a nossa palavra ao torná-la não apenas sua, mas fazendo dela um veículo da Sua verdade. A fala sempre foi uma coisa sagrada. Mas agora que o próprio Deus falou como nós falamos, carrega consigo um significado divino.

A Santíssima Virgem Maria, enquanto aurora que anuncia a vinda do Senhor, saúda a restauração que Ele traz. Ela “entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel” (Lc. 1,39). Não sabemos o que é que ela disse, mas sabemos que pelas suas palavras João é santificado no seio de Isabel, que lhe diz: “Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre” Lc. 1,44. Em Maria já vemos as palavras humanas redimidas e tornadas veículo de graça.

Nossa Senhora antecipa-se às instruções de São Paulo, dadas a todos os seguidores de Cristo: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem” (Ef. 4,29). Devemos seguir o seu exemplo, porque aquilo que se aplica a Nossa Senhora de forma particular, deve-se tornar verdade para nós também à medida que crescemos na graça. As nossas palavras devem ser também graça, tanto na forma como são ditas como no efeito que produzem.

Maria pode dirigir palavras de graça a Isabel e levar João a regozijar, porque antes dirigiu palavras de fé ao Arcanjo Gabriel: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra”, (Lc. 1:38). Esta sua resposta está em claro contraste com as palavras de dúvida expressas por Zacarias: “Como saberei isto?” (Lc. 1,18). Ele ficou mudo, o que é significativo, pois sem fé ficamos sem nada para dizer.

Depois de elogiar a sua saudação, Isabel também reconhece a fé de Maria: “Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas” (Lc. 1,45). Maria profere palavras de fé e, por isso, torna-se portadora da Palavra e de palavras de graça.

Para falar de uma forma que promove a edificação devemos primeiro acreditar no Construtor. É a fé nele que nos permite proferir palavras de verdade, esperança e encorajamento. A confiança nele traz força e gentileza às nossas palavras. Força, porque falamos como filhos do Todo Poderoso. Gentileza, porque sabemos que esse poder radica na sua verdade e não nas nossas próprias ideias. Não temos de recorrer à força, nem cair na brusquidão, porque a sua verdade pode fazer muito com pouco.

Se não confiarmos nas suas palavras e na sua palavra, então as nossas palavras ficam confinadas aos nossos pensamentos e dependem do nosso poder. Rapidamente o medo leva-nos ao silêncio ou a insegurança à brusquidão.

Mas acima de tudo Nossa Senhora revela-nos que as palavras de graça requerem humildade. O orgulho de Adão confundiu o seu falar. A insistência de Zacarias no seu próprio conhecimento roubou-lhe a voz. Maria é a serva do Senhor, disposta a ser encoberta pelo Espírito. Não está cheia de si. O seu auto-esquecimento perfeito revela que há espaço no seu coração e na sua mente para a palavra de Deus.

E por isso ela tem algo para partilhar. Nós, por outro lado, não gostamos de ser encobertos. Estamos cheios de nós e deixamos pouco espaço para que a sua palavra actue em nós, temos pouco para partilhar com os outros.

Na sua visita a Isabel, as palavras de Maria levaram a graça a quem a escutou. Nas nossas visitas, sobretudo nesta quadra, peçamos que a Verdade de Deus e a nossa humildade nos ajudem a fazer o mesmo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Proteger o Reino

Pe. Paul Scalia
“Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo”. É significativo que nosso Senhor comece as suas parábolas sobre o Reino do Céu (Mt. 13,24-50) com uma referência ao inimigo. O Reino do Senhor não é estabelecido facilmente (aliás, requer o seu próprio sacrifício). Nem se defende com facilidade. O maligno anda sempre à espreita para semear joio no Reino. Por isso a parábola do joio no trigo tem ensinamentos não só sobre o Reino, mas sobre como o proteger.

Em primeiro lugar, o inimigo aproveita o facto de estarem todos a dormir. Devemos ouvir nessa referência uma alusão não ao sono confiante de uma criança, ou o pacífico sono dos justos, mas sim o adormecimento da negligência – a sonolência espiritual que aflige os apóstolos no jardim, Dante a meio da sua vida e o nosso mundo hoje.

A sonolência conduz à trapalhice. Um guarda sonolento deixa entrar aqueles que não deve – e que não deixaria caso estivesse acordado. Um pensador sonolento não faz distinções necessárias. A sua precisão sofre, deixando passar coisas que lhe teriam chamado a atenção caso estivesse mais desperto. Na parábola de Nosso Senhor, a sonolência dá ao inimigo a oportunidade que procura. Assim também na Igreja o torpor dá uma abertura ao inimigo. O nosso pensamento embrutecido, a incapacidade de fazer distinções e a falta de clarividência são uma porta aberta para o joio do inimigo.

A parábola apela, por isso, à vigilância, uma virtude que devia caracterizar a vida espiritual de todos os fiéis. Cada um de nós deve estar desperto e atento, primeiro para ver o Senhor, mas também para se proteger contra o maligno, não vá ele semear nos nossos corações e poluir aquilo que Deus plantou em nós.

Contudo, no que diz respeito à Igreja como um todo, a tarefa da vigilância cabe aos pastores. São eles que têm o dever de vigiar o rebanho e o campo, de serem as sentinelas mencionadas pelos profetas (ver Jeremias 6,17 e Ezequiel 3,17). Infelizmente, ao longo da história temos visto esta parábola a desenrolar-se no seio da Igreja: o mal ganha entrada devido à falta de vigilância. No seu tempo, o santo John Fisher lamentou que “a fortaleza é traída até por aqueles que a deviam defender”. Essas palavras aplicam-se, infelizmente, a muitos momentos na história da Igreja.

A parábola ensina-nos também sobre uma táctica essencial do maligno: a confusão. Este é o seu cartão-de-visita. O Senhor traz luz e claridade. O maligno traz escuridão e confusão. Ele divide aquilo devia estar unido e mistura aquilo que devia ser distinto. Na parábola, o inimigo mistura a semente boa com a má. A sabotagem tinha dois objectivos, ou os consumidores da colheita sofreriam pela mistura malévola, ou os criados prejudicariam o fruto bom ao tentar arrancar o mau.

O semeador e o demónio, Albin Egger-Linz
A mesma táctica malévola aplica-se hoje. A confusão foi semeada à nossa volta. Chamamos bom ao que é mau e mau ao que é bom. Até chamamos homem à mulher e mulher ao homem. Os consumidores desta confusão sofrerão, de facto, sofrerão a tristeza e a dor que deriva da confusão actual sobre casamento, sexualidade e a pessoa. Na melhor das hipóteses sofrerão apenas a tristeza de vidas desancoradas de qualquer sentido ou propósito.

E nós, os criados, tal como aqueles da parábola, somos tentados a extirpar o mal de forma demasiado agressiva – e ao fazê-lo arriscamo-nos a prejudicar precisamente aqueles que queremos ajudar. Parece aqueles filmes de acção manhosos em que o vilão mantém os bons como reféns. Não nos atrevemos a agir, por mendo de causar mais mal. Na verdade, podemos fazer muito mal quando tentamos livrar o Reino de qualquer semblante de mal, de todo e cada joio aparente. Na história da Igreja não há falta de heresias e seitas criadas por tal zelo imprudente.

Reparem que com esta tentação o demónio procura ferir não os medíocres nem os preguiçosos, mas sim os zelosos e fiéis – isto é, precisamente os criados mais preocupados com a pureza e a integridade da fé.

O que nos leva a outra virtude essencial para os criados do Senhor: paciência – a capacidade de sofrer enquanto esperam a intervenção do Senhor. Sem paciência apressamo-nos e, tipicamente, estragamos tudo. Os criados devem esperar pela colheita – o fim dos tempos – para ver as coisas a serem postas em ordem, como o Senhor promete que acontecerá. A paciência é diferente da inacção dos desatentos e dos despreocupados. Não é um encolher dos ombros ou resignação. É o poder (virtus) de esperar pela vindicação do Senhor.

Claro que a palavra “vindicação” parece cruel aos olhos do mundo, talvez até aos olhos de muitos católicos. Faz pensar em corações empedernidos, desejosos de vingança. Mas devemos esperar pela vindicação, caso contrário Nosso Senhor não a teria prometido. A esperança tem a certeza de que Nosso Senhor virá revelar a sua justiça e a paciência espera pacificamente que o dia chegue.

Mas é pela vindicação do Senhor que os criados esperam, não pela das suas opiniões, posições ou partidos. Através da paciência centramo-nos Nele, nas suas promessas e no seu poder. São estes os criados que o Senhor deseja, aqueles que tanto vigiam o seu Reino como esperam pacientemente a sua vinda.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Julho de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Maria, Destruidora de Heresias

Pe. Paul Scalia
Na encíclica Pascendidominici gregis, o Papa Pio X invoca a bem-aventurada Virgem Maria com o título “Destruidora de todas as heresias”. Este curioso título tinha um sentido particular nessa encíclica, escrita em 1911 contra o modernismo, a “síntese de todas as heresias”. Perante tal crise, era apropriado apelar à “Destruidora de todas as heresias”. O título, contudo, ainda se aplica. Na verdade, descreve algo que sempre foi verdade sobre Nossa Senhora – e que talvez seja ainda mais urgente agora.

Mas como é que Maria destrói as heresias? Maria nunca pregou uma homilia contra qualquer erro. Nunca conduziu uma inquisição nem excomungou ninguém. E nunca, valha-nos Deus, apresentou um artigo numa conferência teológica.

Então como? Bem, em primeiro lugar olhem para o zelo que ela inspira. Uma característica típica dos defensores da fé é que têm uma devoção – muitas vezes encantadoramente infantil – por Nossa Senhora. De Santo Ireneu, escrevendo contra as heresias no século II a São Domingos, pregando contra os albigenses no XII, até São João Paulo II advertindo contra os erros do nosso tempo, a devoção a Maria tem sido sempre uma marca dos defensores da fé. Num belo paradoxo católico, estes homens tornaram-se defensores ferozes da fé depois de se tornarem como crianças diante dela. A devoção a Maria faz-se acompanhar de pureza de alma e daí vem clareza mental.

Também podemos pedir a sua intercessão. Só na eternidade é que saberemos como isso funciona. Entretanto temos a certeza de que a Igreja tem sido livrada, vezes e vezes sem conta, das trevas e do erro porque os fiéis clamaram por ela quando precisavam.

Mas acima de tudo, ela é a “Destruidora de todas as heresias” em virtude do que é. É a verdade de quem ela é – ou, antes, a verdade do que Deus fez por ela – que derrota as heresias. O seu ser guarda a verdade sobre Deus e o homem.

Vemos isto muito cedo na história da Igreja. Quando o Concílio de Éfeso definiu solenemente que Maria era a portadora de Deus – a Theotokos – essa foi outra forma de defender a divindade de Cristo. O facto de Nestório se ter recusado a reconhecer Maria como Mãe de Deus alertou os outros pais conciliares para erros em relação ao seu Filho. Proclamar a verdade sobre Maria é proclamar a verdade sobre Jesus Cristo. No século XIX, a definição solene de Pio IX da Imaculada Conceção defendeu a iniciativa da Graça de Deus contra o enamoramento da modernidade pelo engenho humano e o desejo crescente por autonomia humana total.

Hoje vemos outra dimensão de Maria enquanto destruidora de todas as heresias: A sua defesa das verdades sobre a pessoa humana. Mais especificamente, através da sua Assunção, ela revela e destrói o erro que agora nos atormenta: o erro sobre o corpo humano. A heresia moderna (que se vê acima de tudo na gnóstica ideologia do género) é a renovação de um erro antigo e recorrente. Em vez de reconhecer no homem uma alma incorporada, vemos uma alma que calha ter, ou que está cativa dentro de, um corpo.

Desse ponto de vista, ser humano implica ter uma alma – e fazer com o corpo aquilo que se deseja. O corpo torna-se um brinquedo, uma ferramenta, uma posse, uma maldição, etc. Devemos saciá-lo enquanto tiver saúde e descartá-lo quando deixar de ser útil. O corpo nada significa nem nos diz nada sobre nós mesmos. Pode-se ser uma coisa fisicamente mas outra espiritualmente.

Este é um erro perene precisamente porque todos nós experimentamos até certo ponto uma des-integração do corpo e da alma. Através do pecado original perdemos a integridade original, incluindo a união perfeita entre corpo e alma que Deus desejava desde o início. A diferença agora é que esse desconforto foi elevado ao nível de ideologia e essa ideologia está a ser imposta pelos manda-chuvas culturais e governamentais.

Maria, assumida ao Céu, revela a verdade e revela os erros. Todos os santos estão no Céu em espírito. Esperam pelo dia final, quando os seus corpos serão ressuscitados e reunidos com as suas almas. Mas Nossa Senhora, assumida já de corpo e alma no Céu, goza já da perfeição na inteireza da sua natureza humana. No seu próprio ser ela ensina-nos sobre a união essencial entre corpo e alma.

A sua assunção deve ser entendida como estando de acordo com toda a sua vida. Através da Imaculada Conceição, Maria é livre do pecado original e dos seus efeitos. Não sofre de oposição entre corpo e alma, como nós. A sua virgindade perpétua confirma e revela ainda mais esta união perfeita. O seu corpo e alma são tão perfeitamente um que o seu corpo participa de, e manifesta, o dom espiritual perfeito de si para Deus.  

Com essa graça singular que é dada à Nova Eva – na sua Assunção – somos recordados daquilo para o qual fomos criados e vemos uma proclamação daquilo que a Graça de Deus pode conseguir. Vemos que Deus nos criou como uma unidade entre corpo e alma. O corpo e a alma do homem são um, e uma sociedade organizada à volta de um conceito de oposição entre eles é contrária ao seu bem. Mais, a Graça de Cristo reconcilia-nos com Deus e, por isso, connosco próprios. Encontramos na oração e nos sacramentos da Igreja o remédio que cura a divisão que existe em nós.

As velhas orações em Latim suplicam a graça pelo poder de Maria assumpta. Não só pela Assunção de Maria, mas por Maria Assumida – Maria, a que foi Assumida. Este termo chama atenção não só para um evento, mas para um estado de ser. Ela própria, em virtude do que Deus fez por ela, assiste-nos.

Roguemos-lhe mais e mais enquanto nos esforçamos por viver a integridade de corpo e de alma nas nossas próprias vidas e, ao mesmo tempo, enquanto lutamos contra as confusões da nossa cultura e os abusos do nosso Governo.

Maria Assumpta, ora pro nobis.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 14 de Agosto de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A ideologia do género é demoníaca?

Pe. Paul Scalia
Quando o cardeal Sarah esteve em Washington para um evento, há pouco tempo, referiu-se três vezes à ideologia do género como “demoníaca”. Mais recentemente o arcebispo Coakley, da Cidade de Oklahoma, utilizou o mesmo termo em idêntico contexto e o mesmo fez o bispo Paprocki, de Springfield, em relação ao casamento homossexual. É uma palavra forte, certamente. Mas a maioria das pessoas não percebem bem o alcance. Alguns consideram que se trata meramente de hipérbole para descrever algo que não é apenas mau, mas muito, muito mau. Outros consideram que se trata de um juízo apressado dos adversários, diabolizando-os. E depois há aqueles que consideram que se trata de um exagero de fanáticos religiosos, que já não regulam bem de qualquer maneira.

Mas “demoníaco” é na verdade um juízo sóbrio e esclarecedor do pensamento por detrás da ideologia do género. Não é um juízo de intenções. Não significa que as pessoas que defendem a ideologia do género são demoníacas, ou estão possessas. Significa, antes, que o raciocínio e os resultados daquela filosofia – independentemente da inocência com que é defendida – estão em linha com os desejos, as tácticas e os ressentimentos do próprio Belzebu.

A ideologia do género repete uma mentira básica do demónio: “Sereis como Deuses” (Gen. 3, 5). Esta mentira está na verdade por detrás de todas as tentações. Todo o pecado deriva do desejo orgulhoso de suplantar Deus. Mas no campo da sexualidade humana tem uma gravidade maior.

Deus cria; o homem é criado. Deus dá existência; o homem recebe a existência. A ideologia do género propõe uma versão alternativa: Nós somos os nossos próprios criadores. Num dos seus últimos discursos, e talvez um dos mais importantes, o Papa Bento XVI disse:

Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: “Ele os criou homem e mulher” (Gn. 1, 27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem. O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e vontade. A manipulação da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo… Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação… Chega-se necessariamente a negar o próprio Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser...

E se concluirmos que os nossos corpos não estão em linha com o que determinámos ser, então alteramo-los de acordo. É contra isto que o Papa Francisco aconselha: “Não caiamos no pecado de pretender substituir-nos ao Criador. Somos criaturas, não somos omnipotentes. A criação precede-nos e deve ser recebida como um dom. Ao mesmo tempo somos chamados a guardar a nossa humanidade, e isto significa, antes de tudo, aceitá-la e respeitá-la como ela foi criada.” (AL, 56)

Existe também um ódio demoníaco pelo corpo. No livro “Vorazmente Teu”, C.S. Lewis refere-se ao ressentimento do demónio pelo facto de Deus ter favorecido os “bípedes calvos… [animais] gerados numa cama”. Porquê este ódio? Talvez porque o corpo e a alma humana são um só. A alma, tendo tanto em comum com a natureza angélica, está unida ao corpo, que tem tanto em comum com a natureza animal. O diabo considera isto pessoalmente ofensivo. Ele procura (tal como todos podemos verificar) desfazer esta união – dividir-nos da nossa carne, virar a alma e o corpo um contra o outro. Com grande perícia, leva-nos a adorar o corpo num instante e odiá-lo no minuto seguinte. A morte – a separação entre o corpo e a alma – foi, claro, a sua maior vitória.

Existe ainda o facto de a Palavra se ter tornado carne. O grande acto de generosidade de Deus para connosco apenas agrava a inveja do demónio. O Filho de Deus assumiu a natureza humana, incluindo o corpo humano. Ele salvou-nos não apenas nesse Corpo, mas através dele. Porque é que esta dignidade havia de nos ser dada a nós, tão inferiores aos serafins, e não a ele, o mais elevado dos anjos?

Adão e Eva depois de terem pecado
O homem caído nunca está em paz com o seu corpo. O Cristianismo procura sarar essa divisão. Mas a ideologia do género procura codificá-la, com base no princípio de que não existe uma verdadeira relação entre o corpo e a alma. A divisão entre os dois é de tal forma absoluta que se pode ser uma coisa fisicamente e outra espiritualmente.

O ódio demoníaco contra a procriação está ligada de perto com isto. O demónio não pode procriar, mas o homem pode. O homem e a mulher cooperam com Deus, gerando uma nova pessoa. O demónio tem inveja disto porque Deus é generoso. Como é evidente, a ideologia do género rejeita a complementaridade entre masculino e feminino e aquilo que a sua união alcança.

O Senhor pega em verdades naturais – corpo, casamento e família – e usa-as como modelo e meio para a sua obra salvífica. Ele é a Palavra feita carne, o Esposo, filho de José e de Maria, que nos torna membros da família de Deus. Apercebemo-nos do significado da oferta que Jesus faz do seu corpo na Cruz e na Eucaristia, precisamente porque sabemos que o corpo tem significado. A união permanente, fiel e de vida oferecida entre marido e mulher permite-nos compreender o que significa dizer-se que Cristo é o esposo e a Igreja a sua esposa.

A perda destas verdades naturais inibe, por isso, a nossa capacidade de compreender o sobrenatural e compreender a salvação. Se o corpo humano não tem significado intrínseco – se não nos diz nada sobre nós e se pode ser ajustado ao nosso gosto – então como podemos apreciar as palavras “este é o meu Corpo”?

Se não temos qualquer experiência vivida da complementaridade entre homem e mulher, entre esposo e esposa, então não podemos compreender o facto de Cristo, o Esposo, ter dado a vida pela sua Esposa. E também não conseguimos compreender o significado de Deus enquanto Pai, Deus enquanto Filho, Igreja enquanto Mãe, etc. O Demónio tem todo o interesse em despojar-nos destes sinais naturais do sobrenatural.

Como é evidente, estas tendências não surgiram do nada. São as suas tácticas habituais. Vimo-las em acção durante a revolução sexual, na contracepção, aborto e fertilização in vitro. A ideologia do género assenta sobre estas fundações e promove-as como nunca.

O reconhecimento da dimensão demoníaca pode ser útil. Mas deve também levar-nos a um exame de consciência – para ver até que ponto caímos nas suas armadilhas, através dos nossos pequenos actos de auto-exaltação orgulhosa (que na verdade é uma forma de autocriação), pelo nosso desprezo e maus tratos do corpo (nosso e dos outros), pela falta de castidade (que ridiculariza o poder da procriação), pela forma como dificultamos a aproximação dos outros a Deus.

Alguns de nós podemos reconhecer a dimensão demoníaca da ideologia do género. Mas todos devemos arrepender-nos por termos cedido a ela. 


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 26 de Junho de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Partilhar