quarta-feira, 26 de junho de 2019

“Transjacking” no Desporto

Brad Miner
Estamos a cerca de um ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio (24 de Julho a 9 de Agosto, 2020), mas já existe polémica. Por outro lado, há sempre polémica nos Jogos Olímpicos, normalmente por causa de drogas que melhoram o desempenho desportivo (PED, de Performance-enhancing Drugs).

Nos Jogos de Inverno de Sochi, em 2014, os atletas russos e os seus “cientistas” fizeram batota em tão grande escala (sobretudo nas análises à urina) que a Agência Mundial Antidoping recomendou que a Rússia fosse banida de participar nos Jogos de Verão no Rio, em 2016. Isso não aconteceu, embora a Rússia tenha sido subsequentemente banida dos Jogos de Inverno de 2018 em PyeongChang. Ainda assim, alguns atletas russos competiram como “Atletas Olímpicos da Rússia”, mas sem a bandeira da Rússia ou hino nacional. (E mesmo muitos desses viriam a acusar em testes antidoping.)

No geral o Comité Olímpico Internacional (COI) tem tido manifestado repetidamente um grande interesse – partilhado por todas as organizações que supervisionam desportos – em manter os Jogos Olímpicos livres de PEDs. Não só por causa das vantagens competitivas que estas substâncias fornecem aos atletas, mas também por causa do perigo que estas drogas apresentam para a saúde dos mesmos atletas, no longo prazo.

O ideal do atleta amador talvez já não exista nos Jogos Olímpicos, mas pelo menos persiste a crença na importância de atletas naturalmente saudáveis.

Ou será?

O COI e muitas – se não a maioria (e em Julho do ano que vem talvez todas) – as federações atléticas defendem agora o uso de drogas mais extremas que se possa imaginar: drogas supressoras de testosterona para homens que querem competir como mulheres, isto é, atletas “transgénero” macho-para-fémea (MpF).

O debate que ainda existe – se é que ainda existe – apenas diz respeito a quão suprimido deve ser o nível de testosterona no atleta MpF, medida tanto nos níveis de soro de sangue reduzido da hormona e na duração desses mesmos níveis.

Na prática, o COI e outros estão a dizer que aquilo que define uma atleta feminina, por exemplo, nos 100 metros é simplesmente o nível dessa hormona. Atualmente, a fórmula do COI é: não mais que 10 nmols/L (nanomoles por litro) de soro de testosterona durante pelo menos os 12 meses que antecedem a competição. Segundo o COI: “As alterações anatómicas cirúrgicas como precondição de participação não são necessárias para preservar a concorrência leal e podem até ser inconsistentes com a legislação em desenvolvimento e com noções de direitos humanos”.

Temos, por isso, que um homem poderá qualificar-se para competir nos Jogos Olímpicos de 2020 contra atletas nascidas mulheres desde que declare o seu “género” como feminino e comece um regime de supressão de testosterona que coloque os seus níveis em 10 nmols/L, mantendo-os assim até ao começo dos jogos, no dia 24 de Julho de 2020.

A questão aqui é que enquanto o nível normal de soro de testosterona nos homens é entre 10.41 e 34.70 nmols/L, os níveis normais nas mulheres são entre 0.52 e 2.43. O que significa que um velocista MpF que se qualifique para os Jogos Olímpicos com um nível de 10 nmols/L, isto é, o limite inferior do espectro de testosterona masculino, continuará a ter quatro vezes mais do que o máximo para mulheres.

Claro que sabemos que isto é absurdo. Como se lê no recente documento do Vaticano “Homem e Mulher Ele os Criou: Um caminho de diálogo sobre o assunto de género na educação”:

O processo de identificação da identidade sexual é dificultado pela construção fictícia conhecida como “género neutro” ou “terceiro género”… As tentativas de ir para além da diferença sexual constitutiva macho-fémea, tal como as ideias de “intersexo” ou “transgénero” conduzem a uma masculinidade ou feminilidade ambíguas pese embora (de forma contraditória) esses mesmos conceitos pressuponham na verdade essa mesma diferença que se propõem a negar ou ultrapassar.

Tiffany (ex-Rodrigo) Abreu, estrela de vólei feminino no Brasil
Mas o que falta saber é quantos homens vão decidir comportar-se de forma absurda nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Para dizer a verdade, eu, que sou um homem velho e não uma velocista de nível mundial, não estou muito preocupado. Mas as atletas de elite estão, ou pelo menos deviam estar. E pela seguinte razão.

O recorde mundial dos 100 metros femininos de Florence Griffith Joyner em 1988, de 10,49 segundos, foi um grande feito (talvez até sem a ajuda de PEDs). Mas este ano, no campeonato dos 100 metros masculinos das escolas secundárias no Estado do Texas, Matthew Boling fulminou o recorde americano com uns incríveis 9,98 segundos. Joyner tinha 29 anos quando bateu o seu recorde mundial; Boling tem 18. E ao longo de 2019 todos os primeiros 75 velocistas masculinos dos campeonatos do ensino secundários bateram o recorde mundial de Joyner.

Estou a focar-me nestes alunos de liceu porque se trata de rapazes que já atingiram o auge do seu desenvolvimento biológico natural, sem a ajuda de drogas, e mesmo depois de passar a puberdade continuarão a beneficiar deste estímulo hormonal da adolescência em termos de altura, peso, velocidade e força. A supressão de testosterona poderá diminuir este benefício, mas só um pouco.

Volto a insistir que para competir em Tóquio um atleta MpF não precisa de parecer uma mulher. Com base no que se tem visto em competições recentes em que têm participado atletas MpF, alguns terão penteados “femininos” e outros poderão ter sinais de aumentos mamários. Outros vão simplesmente parecer gajos. Mas, como o COI já disse (graças a Deus!), não são precisas intervenções agressivas, como aquelas a que se sujeitam alguns transgéneros MpF: implantes mamários; rapagem da maçã-de-Adão; orquiectomia (remoção dos testículos); penectomia (a amputação do pénis); nem as subsequentes vaginoplastias, labiaplastias ou clitoroplastias – que requerem uma vida inteira de terapia hormonal (estrogénios, antiandrógenicos, progestogéneos e moduladores de libertação de gonadotropina – qualquer uma destas, se não todas), não vá o corpo começar a reafirmar-se, o que, inevitavelmente fará caso as intervenções químicas falhem, uma vez que é essa a sua natureza.   

Para além disso, não há qualquer intervenção que possa transformar uma pessoa XY numa pessoa XX. Essa diferença cromossómica e biológica, que define um homem e uma mulher, é que é natural. É por isso que o Vaticano considera que qualquer tentativa de mudar o género é “fictícia”.

As regras do COI para atletas femininas que se apresentam como homens apenas reforçam essa ficção. Na verdade, não existem regras, pois nenhuma mulher seria capaz de competir contra um homem, seja qual for o sexo que afirma ser.

Escrevi sobre este assunto e o seu impacto no mundo do desporto em 2016, e desde então as coisas só pioraram. Contudo, agora vemos algumas mulheres jovens a defender-se daquilo a que algumas apelidam de transjacking, e isso é uma boa notícia.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 24 de Junho de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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