quarta-feira, 3 de julho de 2019

Música para os Moribundos

Randal Smith
Quando tinha dezoito anos a Elaine Stratton Hild ofereceu-se para tocar viola de arco no seu hospital local. Logo no primeiro dia uma assistente social pediu-lhe para ir ao quarto de uma mulher que queria ouvir “Amazing Grace”. A mulher estava sozinha no quarto. Fechando os olhos e deixando que a música as envolvesse às duas, Elaine tocou. Quando abriu os olhos percebeu que a senhora se tinha voltado para a janela e deixado de respirar. Morreu a ouvir o “Amazing Grace”.

Mais recentemente Stratton Hild, doutorada em musicologia, tem estado a dedicar-se ao estudo fascinante dos cânticos que as diferentes comunidades entoavam para moribundos na Idade Média. Havia liturgias inteiras para confortar quem estava a morrer. Partia-se do pressuposto que toda a comunidade de amigos e família acompanhariam os moribundos na sua viagem através da morte e para além dela. Presumia-se que ninguém deveria morrer sozinho e que ninguém deveria morrer sem o apoio da comunidade de crentes que cuidariam das suas necessidades físicas, emocionais e espirituais.

Não eram só os medievais que acreditavam nisto. Muitas culturas desenvolveram práticas para ajudar a “acompanhar” os mortos tanto física como espiritualmente. Uma mãe de três filhos, que tinha sido noviça numa comunidade religiosa, disse-me que quando tocava uma certa campainha no mosteiro toda a gente parava imediatamente o que estivesse a fazer e ia para o quarto da irmã que estava a morrer. Então toda a comunidade, incluindo as que não cabiam no quarto, entoava um cântico enquanto ela morria.

Neste mundo moderno e secularizado a maioria de nós já não sabe cuidar dos moribundos. A nossa tendência é para fechar as pessoas num quarto para que ninguém tenha de assistir a este “falhanço” da nossa tecnologia moderna.

Recebi de uma amiga uma descrição do trabalho da Elaine Stratton Hild há algumas semanas, quando publiquei um artigo no The Catholic Thing em que exortava os bispos e padres católicos a aliviar algum do peso das famílias quando morrer um paroquiano. O velório, o terço e o funeral devem ter lugar na Igreja, em plena vista do altar e da cruz, dizia, e não numa sinistra casa funerária, com custos exorbitantes.

Não precisamos de embalsamar os corpos – um desastre tóxico para o ambiente – e as pessoas devem ser sepultadas num simples caixão de madeira, na terra, nos arredores da igreja, como acontece há séculos. Gastar milhares de euros para enterrar um corpo, dando pouca atenção à missa é tão estúpido como gastar milhares de euros num casamento e não pensar na missa. Ah, pois! Também fazemos isso…

Mas ao ouvir Stratton Hild falar do seu trabalho percebi que mal tinha arranhado a superfície da questão com o meu artigo anterior. Agora, acredito que a Igreja deve oferecer a sua ajuda, e a presença consoladora do Corpo de Cristo, não apenas no funeral, mas durante todo o processo da morte. E quando digo “a Igreja” não me refiro apenas aos clérigos.

Não quero com isso menosprezar a importância dos padres e das freiras. Não consigo pensar em nada mais consolador num hospital do que ver uma enfermeira que é também uma freira, de hábito. Os católicos costumavam ver isso a toda a hora, mas hoje em dia já não acontece. (Porquê?) Mas os padres e as freiras não podem fazer tudo, e não podem substituir-se a uma comunidade inteira. Não devemos querer descarregar neles esta responsabilidade, mantendo-a longe da vista, tal como já fizemos com os médicos e as enfermeiras.

Elaine Stratton Hild a fazer pesquisa
A única coisa que todos os moribundos que alguma vez conheci queriam era morrer em casa. Nenhum o fez. E as probabilidades de uma pessoa ter acesso a música, cânticos, uma liturgia comunitária ou a mera presença constante de família e amigos, é quase nula.

Deixámos que a cultura moderna nos atomize, transformando-nos em unidades isoladas. Quando isso acontece deixamos de ter qualquer poder contra as instituições que prometem cuidar de nós, mas que nos ameaçam cada vez mais. A comunidade médica tem um papel importantíssimo a desempenhar no tratamento dos moribundos, mas é apenas uma parte. Ninguém deveria ter de morrer sozinho, num hospital, longe de casa.

Recentemente tive o privilégio de poder participar numa celebração melquita em honra de um homem recém-falecido. Foi uma experiência triste, mas belíssima e profundamente tocante. A única tragédia era o homem não estar lá para o experienciar. E não o digo como piada, o que quero dizer é que há poucas coisas mais belas e consoladoras para uma pessoa que está a morrer do que experimentar este tipo de liturgia.

Precisamos de recuperar as liturgias e práticas comunais que a Igreja usou durante séculos para confortar os moribundos e consolar as suas famílias, antes da sociedade ter decidido que se tratava de um “assunto médico”. Cometemos uma violência contra a pessoa quando não compreendemos a importância e o valor de comer e falar com outros, do riso, do toque, da música, canto e da presença de amigos, família e comunidade. Isto é verdade tanto durante os nossos tempos de saúde como quando estamos às portas da morte.

A morte não é um falhanço humano. É o fim natural da vida humana. Mais, Cristo advertiu os seus seguidores para o facto de que “se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanecerá ele só; mas se morrer produzirá muito fruto”. Mais tarde São Paulo escreveria que “se já morremos com Cristo, cremos que também com Ele viveremos”. Esta ainda é a nossa fé? Então precisamos de rodear as pessoas com expressões repetidas dessa mesma fé à medida que se aproximam da sua viagem final.

Podem encontrar uma introdução belíssima ao projeto de Elaine Stratton Hild neste curto vídeo.



(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 29 de Junho de 2019)

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