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Wednesday, 31 January 2024

Como quem tem autoridade

O Evangelho do passado domingo (Marcos 1, 21-28) diz-nos que as pessoas ficaram “admiradas” e “espantadas”.

“Ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: ‘O que é isto?

Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!’” Não devemos simplesmente passar por cima deste espanto e admiração, como se isso fosse apenas Jesus a ser Jesus, antes devíamos pensar no que o causou.

A autoridade está no centro da vida e da missão do Senhor, e está também no centro dos seus conflitos com os líderes de Israel. A legitimidade da sua vida pública – e, na verdade, da sua própria Pessoa – resume-se a esta simples questão: “Com que autoridade fazes estas coisas, ou quem te dá autoridade para as fazer?” (Marcos 11,28).

Os chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos fazem essa pergunta no final da vida pública de Jesus. Mas a questão estava na ordem do dia desde o início. Logo no princípio do seu ministério na Galileia, sob o olhar crítico dos escribas e dos fariseus, Jesus curou um paralítico, demonstrando que “o Filho do Homem tem a autoridade de perdoar os pecados na terra” (Marcos 2, 10). Isto é, tem autoridade divina.

No Evangelho de João, o seu ministério público começa com a questão da sua autoridade sob o Templo. “Que sinal nos dás para fazer isto?” (João 2,18). Em resposta, Jesus estabelece a prova que será dada, a prova de que tem autoridade até sobre o Templo. “Destruí este templo, e em três dias eu o reedificarei” (João 2, 19). Assim, promete a sua ressurreição como prova da sua autoridade divina.

Com que autoridade? Essa é a questão central. Hoje, um ouvido moderno entenderá isto como uma pergunta retórica que descarta a própria noção de autoridade. Mas, pelo contrário, os contemporâneos de Nosso Senhor apreciavam a realidade da autoridade, ainda que abusassem dela (como acontece com os homens em todas as idades). Eles compreendiam que existe uma autoridade divina e uma autoridade terrena. Tinham era dificuldade em acreditar que o carpinteiro de Nazaré a possuía. 

Também não devemos pensar na autoridade de Cristo como algo que Ele meramente possui (como se de alguma forma fosse possível não a possuir). A razão pela qual é central para a sua missão e vida pública é porque faz parte dele, parte do seu ser Filho de Deus. Ele é a Palavra de autoridade de Deus, o autor de todas as coisas, e revela o Pai, com autoridade e autenticidade, porque está eternamente no seio do Pai.

Isto também aponta para o propósito da autoridade de Cristo. Ela está ordenada para o nosso bem, que no final de contas é a reconciliação com o Pai. Como vemos na sinagoga em Cafarnaum, Jesus exerce a sua autoridade para ensinar e para curar; para comunicar verdade e graça. Verdade para iluminar e graça para santificar. A maior verdade que comunica é a revelação de Deus enquanto Pai, e de Ele mesmo enquanto Filho eterno. A maior graça que comunica é ter parte na vida do Pai, tornando-nos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1, 4).

Tal como Jesus recebe a sua autoridade do Pai, também concede à Igreja uma participação na sua autoridade. “Como o Pai me enviou, eu vos envio” (João 20,21). A Igreja existe enquanto presença contínua de Cristo que comunica o duplo dom de verdade e graça. Ela ensina com autoridade, como a voz autêntica de Cristo a ecoar do seio do Pai ao longo da História, por todo o mundo. Ela comunica a graça de Cristo que expulsa os demónios, liberta as almas do domínio do mal e as imbui da sua própria vida.

A realidade e a gravidade da autoridade da Igreja deveriam humilhar os seus pastores, que a exercem em nome de Cristo. O seu dever não é o de reinterpretar o Evangelho, ou de mudar paradigmas, mas de transmitir fielmente a verdade e a graça que vêm do Pai.

Um dos frutos mais nefastos do pensamento moderno é a confusão de autoridade com poder, levando-nos a crer que tudo não passa de um golpe de poder. Assim, quem possui autoridade é por isso mesmo um opressor. A autoridade é sempre autoritária. Logo, a autoridade das instituições e do próprio passado devem ser desmantelados, por não passar de um instrumento dos opressores.

Como todas as revoluções, esta contra a autoridade acaba por comer os próprios filhos. Tendo rejeitado o princípio da autoridade, o pensamento moderno veio a desconfiar da autoridade do próprio pensamento. (Haverá alguma disciplina nas universidades que não seja considerada opressora e a precisar de ser desconstruída?). Ironicamente, é a Igreja Católica – a mais autoritária e opressiva das instituições – que entra em campo e confirma que sim, na verdade, a mente humana é capaz de alcançar a verdade. A autoridade da Igreja vem libertar a mente humana dos grilhões do cepticismo.

“Não queremos que este homem seja nosso Rei” (Lucas 19,14). Estas palavras, de uma das parábolas mais assombrosas do Senhor, expressam bem a rejeição autodestrutiva da autoridade de Cristo. A alma fiel, contudo, longe de desprezar essa autoridade, deseja submeter-se a ela. Sabemos que, não fosse a sua autoridade sobre nós, estaríamos ainda mergulhados no erro e no pecado. Quanto mais Cristo domina sobre nós com a sua autoridade, mais claramente vemos a verdade e mais livremente vivemos pela graça. E, quanto mais nos submetemos à autoridade da sua verdade e graça, mais nós mesmos nos tornamos pessoas que falam e agem com autoridade.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Janeiro de 2024 em The Catholic Thing) 

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 26 July 2023

Partilhando da Paciência de Deus

Pe Paul Scalia

Talvez um dos ensinamentos mais difíceis da Igreja seja sobre ela própria: de que é santa. Como é que é possível? Conhecemos a sua história suficientemente bem para saber que existe nela todo o género de impureza. E o que é mais importante, e mais imediato, é que sabemos que nós mesmos – membros da Igreja – somos assolados pelo pecado. Ainda assim, no Credo confessamos que a Igreja é santa, e a parábola de domingo passado, do trigo e do joio, pode ajudar a compreender melhor esta doutrina. 

A parábola descreve algo que era suficientemente frequente na antiguidade para que existissem leis específicas sobre o assunto. Um homem semeava joio no campo de trigo do seu inimigo. A erva assemelha-se ao trigo e crescia juntamente com ele. Mas se não fosse eliminado seria colhido com o trigo, entrava no pão e envenenava os consumidores, por vezes fatalmente.

Nosso Senhor deixa claro que a Igreja – os filhos do Reino – é a boa semente que o Pai semeou no mundo. Logo, a Igreja é santa. Não é uma mera criação humana, mas a fundação e a casa do Senhor, plantada pela sua mão, estabelecida como Corpo de Cristo. A Igreja é a árvore que cresce ao contrário, com as raízes no céu e os ramos aqui na terra.

Mas a Igreja existe num mundo caído, e o inimigo está à espreita. Como a parábola torna claro, ele semeia sementes más entre os filhos do reino. Há veneno, é verdade, mesmo dentro da Igreja. O problema é que a semente má é muito parecida com a boa. Por isso o Senhor da casa diz aos seus criados para esperar. Deixem-nos crescer juntos até ao tempo da colheita. Nessa altura será possível discernir e julgar.

Uma primeira lição da parábola é que não nos devemos surpreender com a maldade e a podridão na Igreja. Devemos ficar desiludidos, tristes e zangados, sim. Mas surpreendidos não. A existência de ervas daninhas entre o trigo é evidente desde os primeiros dias da Igreja, até aos dias de hoje.

A parábola é também uma lição sobre a paciência de Deus. A Igreja faz a sua peregrinação ao longo da história na posse de verdadeira e autêntica santidade, mas ainda assim semper purificanda – sempre a precisar de purificação. Não existe uma “era dourada” da Igreja, porque sempre existiu joio entre o trigo. O Pai chama-nos à fasquia mais alta, à santidade, mas é paciente connosco enquanto nos esforçamos por lá chegar.

Mais importante que tudo, a parábola é um convite para participar na paciência de Deus. Muitos dos que parecem ser joio acabarão por se revelar trigo – e vice-versa. Ele é paciente contigo, que por vezes pareces joio, e convida-te a seres paciente com o teu vizinho irritante, que pode bem ser trigo.

Por isso confessamos que a Igreja é santa, e esperamos pacientemente a sua purificação final, enquanto “crescemos em todos os sentidos para Cristo, que é a cabeça” (Efésios 4,15). A Vida da Igreja deve ser animada pela paciência de uns para com os outros. Mesmo a excomunhão, a pena mais severa da Igreja, é um exercício de paciência, na medida em que não tem por objectivo uma separação definitiva, mas o regresso e o arrependimento do visado.

E isto leva-nos à questão da disciplina e do castigo na Igreja. A parábola não pode ser lida em isolamento. Noutro local o Senhor dá instruções claras sobre como corrigir um irmão e, se ele não se arrepender, que “seja para vós como um gentio, ou um publicano” (Mateus 18,17). Paulo tinha recomendações severas para lidar com os transviados. “Com o poder do Senhor Jesus Cristo, entreguem esse homem ao poder de Satanás para que, embora o corpo se perca, o seu espírito possa salvar-se no dia em que o Senhor vier. (1 Coríntios 5, 4-5).

Tudo isto significa que existe um lugar para identificar e corrigir aqueles que se tresmalharam. Mas isso cabe aos pastores, e não às ovelhas. A parábola de hoje é dirigida às multidões, não aos apóstolos. Os bispos têm o direito de disciplinar, porque têm essa incumbência. Tal disciplina procura o bem das almas, clarificando os ensinamentos e evitando o escândalo. Mas quando os pastores não disciplinam, os membros da Igreja perdem a paciência e assumem eles o papel de arrancar o joio, levando com ele muito trigo.

De quem é que te gostarias de livrar? Essa questão leva-nos muito rapidamente ao centro da parábola. Cuidado, porque aqueles que tu consideras joio podem muito bem ser do trigo que dá mais frutos no Reino. E tu, és trigo ou joio? Essa pergunta leva-nos ao centro da parábola ainda mais rapidamente. Devemos preocupar-nos menos com o joio dos outros, e mais em darmos nós fruto. Devemos participar da paciência de Deus, sem apelidar os outros de semente má, nem presumir que somos bons. A sua graça está a trabalhar dentro de cada um de nós, instando-nos a voltarmo-nos para Ele, para sermos santificados. 

Deixai-os crescer juntos até à colheita. Estas palavras expressam paciência, mas não indulgência. A paciência de Deus tem limites, e está ordenada para a nossa conversão. Por isso ainda que a sua paciência nos console e encha de esperança, esforçamo-nos para dar fruto no dia da prestação de contas, na colheita.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Julho de 2023 em The Catholic Thing) 

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Wednesday, 29 March 2023

Despertando a Fé

Pe. Paul Scalia
Vivemos a Quaresma com os olhos postos na profissão de fé, na Páscoa. Nessa altura os catecúmenos farão a profissão de fé pela primeira vez e os baptizados renovarão a sua. É por isso que a Igreja nos dá a ler Evangelhos sobre a fé durante a Quaresma.

Ao longo das passadas cinco semanas temos escutado essas lições. Jesus é transfigurado diante dos apóstolos para confirmar nas suas mentes aquilo que já sabem pela fé. Na sua conversa paciente com a samaritana Jesus conduze-a a conhecê-lo como o Cristo: “Sou eu, que falo contigo”. Da mesma forma conduz o cego de nascença da escuridão da ignorância para a luz da fé. Este arranjo de leituras tem por objectivo aprofundar a nossa fé para que possamos renovar ainda mais convictamente as nossas promessas baptismais na Páscoa.

No passado domingo ouvimos esta última lição sobre a fé antes da Semana Santa. O relato da ressurreição de Lázaro (João 11, 1-45) coloca-nos diante do maior dos milagres de Jesus, o seu último “sinal” no Evangelho de São João. Do início ao fim, estamos perante uma história de fé. E a heroína da cena é Marta, a irmã ansiosa e mandona da mais pacífica e contemplativa Maria. Em Marta vemo-nos como somos e como devíamos ser.

Desde o início sentimos que Jesus pretende aumentar a fé de Marta e de Maria. O Evangelista João diz-nos que “Jesus amava Marta, a sua irmã, e Lázaro”. Depois diz, como se fosse uma consequência lógica: “Quando ouviu que ele estava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar onde estava.” Como é que se explica esta demora?

Não é que nosso Senhor seja insensível e despreocupado com o pobre Lázaro. É antes que ele permite que esta grande tristeza recaia sobre aqueles que ama para poder retirar deles um maior acto de fé. Ele permite que a situação ultrapasse a mera esperança humana. Permite o desespero. Atrasa a sua resposta para lhes poder dar a oportunidade de aumentarem a sua fé. 

Porque é que Ele não vem? Podemos imaginar Marta a fazer essa pergunta quando Jesus não chega imediatamente. É uma pergunta que também nós colocamos sempre que as nossas orações parecem demorar a ser atendidas. Quanto tempo, meu Deus? Esta passagem fornece-nos, por isso, uma lição sobre a oração de intercessão. Não devemos desistir de rezar quando não vemos resultados imediatos, ou quando as coisas até parecem piorar. A nossa fé aumenta quando esperamos pelo Senhor. Ou, melhor dito, quando Nosso Senhor nos faz esperar é para aumentar a nossa fé.

Quando Jesus finalmente chega, Marta sai ao seu encontro. As suas palavras traduzem uma enorme confiança. Começa com uma profissão de fé sobre o passado (que também serve de ligeira admoestação): “Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido”. Segue-se imediatamente uma profissão de fé sobre aquilo que é possível no presente: “Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá”, que é como quem diz: Eu antes confiava em ti… e ainda confio. Nem a morte pode quebrar esta confiança. Não obstante a morte de Lázaro e a aparente inutilidade das suas orações, ela persevera na fé.

Mas Jesus deseja uma fé mais forte ainda e age como um treinador que está a tentar que os seus atletas tenham um desempenho ainda melhor. Então diz de forma frontal a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá, e quem vive e crê em mim jamais morrerá para sempre”, seguido de: “Crês nisto?”

É uma pergunta que está ao nível da que coloca a Pedro em Cesareia Filipe: “Quem dizeis vós que eu sou?” De facto, Marta e Pedro são muito parecidos: obstinados, um pouco mandões, por vezes atrapalhando-se a si mesmos, mas cheios de fé. Fica-se com a ideia de que Jesus sentia por ambos uma afeição semelhante. Sem grandes surpresas Marta, como Pedro, responde com firmeza: “Sim, Senhor; eu creio que tu és o Cristo,

O Filho de Deus que deve vir ao mundo”.

Resta um teste, o mais duro de todos. “Onde o pusestes?”, pergunta Jesus. Ele quer que a fé de Marta seja posta à prova de forma extrema – na sepultura, frente a frente com o nada. Marta tropeça um pouco, tentando impedir o milagre: “Senhor, já cheira mal, pois é o quarto dia”. Por isso Jesus faz aquilo que já havia feito com Pedro, repreende Marta: “Não te disse que se creres, verás a glória de Deus?” És capaz de crer diante da morte? Confias só quando é mais fácil, ou também nos momentos mais escuros? Consegues crer e confiar até nos momentos de maior morte?

Com estas palavras Marta submete-se. A sua confiança é retribuída; Lázaro ressuscita.

Talvez nós fiquemos satisfeitos com uma fé superficial. Mas Deus não. Podemos pôr limites à nossa fé – a força ou a dimensão da nossa confiança, ou as situações em que confiamos. Mas Deus não coloca quaisquer limites. Ele continua a puxar por nós para aumentar a nossa fé. Aliás, Ele não fica satisfeito até que a nossa fé seja plena, penetrando as nossas vidas todas, chegando mesmo à sepultura. Até permite provas e sofrimentos, como a morte de uma pessoa querida, para dar mais oportunidades à nossa fé. E se perseverarmos como Marta, também nós seremos recompensados.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 26 de Março de 2023 em The Catholic Thing) 

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 8 March 2023

Ser Aquele Leproso que Voltou Atrás

Michael Pakaluk
Aconteceu mesmo, não foi uma parábola. Certa vez Jesus curou dez leprosos, mas só um voltou para agradecer. Aconteceu por desígnio de Deus, e Lucas teve o cuidado de o deixar escrito (17, 11-19), para que aprendêssemos algo com isso. Mas o quê?

Talvez que Nosso Senhor prefere fazer as coisas sem alarido: não fez um grande espetáculo da cura, mas disse-lhes simplesmente para irem mostrar-se ao sacerdote. Talvez que damos as graças obtidas por adquiridas – o único a regressar foi o samaritano. E certamente, também, que é provável sermos menos agradecidos por vermos os nossos pecados perdoados do que por uma cura física.

Mas neste ano de renovação da Devoção Eucarística nos Estados Unidos, eu gosto de pensar que há outra lição: como é fácil ser agradecido. Basta ir ter com Nosso Senhor e dizer obrigado. Em termos humanos, pensar-se-ia que o leproso curado estaria endividado a servir o Senhor para toda a vida, pelo favor que lhe tinha feito, ou pelo menos a dedicar o resto da sua vida a servir leprosos. Mas aparentemente bastou encontrar Jesus e agradecer-lhe. “É a misericórdia que eu quero, e não sacrifícios.”

Já pensou porque é que temos sacrários nas nossas igrejas? Não é por acaso. Para que é que servem? Eles são a resposta de Deus ao nosso pedido em Emaús: “mane nobiscum, Domine”, ou “permanece connosco, Senhor”, segundo nos diz São João Paulo II. Mas, presumivelmente, têm outro propósito para além de serem o ponto focal de devoção durante a missa.

Já ouvi dizer que todos os santos são santos eucarísticos (o que é interessante, pois se somos chamados à santidade então também nós devemos ser “eucarísticos”). A Madre Seton é um grande exemplo aqui nos Estados Unidos, e os hinos de São Tomás de Aquino são extraordinários, e amados por muitos.

Mas há um santo que foi canonizado recentemente e que poderá fornecer o ensinamento de que precisamos neste momento. Chama-se São Manuel González García, e nasceu em Sevilha. Foi bispo de Palencia, em Espanha, no início do Século passado. Foi beatificado pelo Papa João Paul II em 2001 e canonizado em 2016 pelo Papa Francisco. Existe uma edição com excertos das suas obras: “O Bispo do Sacrário Abandonado”.

São Manuel queria principalmente persuadir-nos a visitar Nosso Senhor no sacrário e passar tempo com ele. Quatro dos seus argumentos parecem-me particularmente criativos e convincentes.

Em primeiro lugar, diz ele, se acreditamos pela fé que Nosso Senhor está presente em corpo, sangue, alma e divindade, então “devido à nossa insuficiência, o Sacramento é um mistério para nós… mas podemos acreditar que Ele está impedido de exercer a virtude e o poder dos seus membros físicos e das suas capacidades humanas?” Assim, embora não possamos ver senão pela fé, ele tem uma boca para falar, olhos para ver, um coração para amar. “Apesar do seu silêncio e imobilidade no sacrário, Jesus Cristo fala e age”.

São Manuel González
Em segundo lugar, pergunta-nos o que achamos que é a “primeira obra” do Coração de Jesus no sacrário? A resposta, diz ele, é “ser”. Isto é extraordinário. “Não acrescentem qualquer outro verbo para especificar o objectivo, o caminho ou a duração desse acto de ser. Não partam do princípio que ele está lá apenas para consolar, iluminar, curar, alimentar… Em primeiro lugar ele está simplesmente… Asseguro-vos que muito poucas palavras expressam mais actividade, mais amor, que o verbo ‘ser’”.

Depois, em terceiro lugar, faz a comparação com a maternidade. “O Coração de Jesus no sacrário olha para mim. Olha para mim sempre. Olha para mim em todo o lado. Olha para mim como se não houvesse mais ninguém para contemplar do que eu. Porquê?” Compara Nosso Senhor a uma mãe que contempla o seu bebé enquanto dorme. “Perguntem à mãe que, sem falar e quase sem respirar, passa horas junto do seu filho enquanto ele dorme. Porque é que o faz? Ela responderá: ‘Apenas quero contemplar o meu filho’… E sabem o que lhe causa tristeza? É saber que não poderá seguir o seu filho muito amado com o seu olhar durante toda a vida dele, agora como criança e mais tarde como homem”. Mas o Senhor pode contemplar-nos sempre e em todo o lado, do sacrário, e é isso que faz.

Em quarto lugar, pede-nos para sermos verdadeiros e humildes. Nosso Senhor está sempre pronto para falar connosco. “Diz-me, há muitas pessoas no mundo que te conhecem e que têm interesse em dizer-te alguma coisa? Certamente que não! Sendo a quantidade de pessoas que te conhecem tão pequena em comparação com a população total, podes estar seguro de que as pessoas, no seu todo, não têm nada para te dizer… Verdadeiramente, somos de pouco interesse para outros no mundo!”

Os sábios e os poderosos certamente nada têm para nos dizer. (Estou muito enganado se fingir que Elon Musk tem alguma coisa para me dizer pessoalmente no Twitter.) E, porém, “temos um Rei muito mais sábio, mais rico e mais poderoso que nos aguarda a qualquer hora do dia ou da noite no pequeno palácio do seu sacrário. Está lá para dizer a cada um de nós, com interesse e amor infinito, a palavra certa que precisamos de ouvir naquele momento.”

Desconfio que alguns de nós evitam o Sacrário não porque consideramos estas palavras falsas, mas porque as achamos verdadeiras.

Estas são boas reflexões para a Páscoa também, olhando em diante, como os apóstolos descobriram o Senhor ressuscitado na fracção do pão. “O Evangelho mostra como e quando podemos conhecer o Cristo Ressuscitado:”, disse João Paulo II na sua homilia de beatificação, “na Eucaristia”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 2 de Março de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 15 February 2023

À Procura da Nossa Verdadeira Identidade

Peter Laffin
Um dos grandes dons da minha conversão ao Catolicismo foi o facto de me ter libertado do projecto fútil e aborrecido da auto-invenção. Como um autoproclamado “ateu sério” que se levava mais a sério ainda, eu levei a descrença em Deus até ao seu fim lógico: um mundo sem Deus é um mundo sem valores objectivos de qualquer tipo. Pela mesma ordem de razões, o indivíduo é uma tela em branco sobre a qual qualquer coisa pode ser pintada. Tendo engolido por inteiro as platitudes pós-modernas mais comuns sobre o romance da auto-invenção, arregacei as mangas e comecei a trabalhar no projecto do “eu” com particular vigor.

Mas tudo isso não passou de uma imitação juvenil de uma história que a nossa cultura não se cansa de repetir, a da criança cuja individualidade tem sido de alguma forma suprimida e que mais tarde aprendeu a encontrar a sua voz e a “dizer a sua verdade”. Mas o resultado é que me deixou amargurado, amassado e, no final de contas, aborrecido.

Hollywood faz com que esta história pareça glamorosa no grande ecrã, com imagens em câmara lenta que batem certo com a banda sonora. Mas na vida real o projecto da auto-invenção é marcado por fases sem qualquer glamour, que nos filmes são convenientemente ignorados. A criação da nossa própria identidade de raiz é um projecto limitador, frustrante e repleto de ansiedade. É o contrário da aventura de descobrir o nosso papel na grande história do cosmos, que expande a alma.

Este é um ângulo que devia ser mais explorado na evangelização: A Igreja oferece a promessa de aventura a um mundo irremediavelmente entediado pela sua própria reflexão no ecrã de um telemóvel.

Mais do que encorajar a miragem da auto-criação – como se fossemos suficientemente poderosos para nos criarmos a nós mesmos ou sequer alterar a substância das nossas almas – a fé revela a identidade humana como ela é, objectivamente, em relação ao Criador.

O Novo Testamento, em particular, oferece-nos pistas sobre a verdadeira identidade humana, na sua relação com Deus, na pessoa de Jesus Cristo. Na grande e variada quantidade de personagens que aparecem juntamente com Cristo, ou que surgem nas suas parábolas, reconhecemos partes de nós mesmos, e através das suas experiências discernimos verdades-chave sobre as diferenças entre o homem e Deus.

Se não lermos os Evangelhos apenas como exercícios académicos, mas como uma oportunidade para viver através dos olhos das suas personagens, damos por nós num constante estado de déjà vu. Os seus encontros com o Divino provocam um sentimento inquietante de acordar de um longo adormecimento. À Luz de Cristo um indivíduo é inteiramente exposto. A presença de Deus abre o alçapão do ego e vemo-nos lançados para um estado de autoconhecimento profundo.

As personagens individuais dos Evangelhos revelam-se-nos de acordo com as épocas inalteráveis do coração. Quando damos por nós numa grande tristeza por não conseguirmos largar os tesouros da terra pela eternidade identificamo-nos com o jovem rico. Quando sofremos com a ferida aberta do pecado não reparado identificamo-nos com a samaritana junto ao poço. Quando sentimos a tentação de abdicar das responsabilidades do nosso poder terreno, até nos identificamos com Pôncio Pilatos.

Até as personagens do reino animal nos transmitem verdades fundamentais sobre a natureza dos seres criados em relação à natureza de Deus. Na verdade, nenhuma personagem do Evangelho me diz mais sobre mim do que a personagem que dá o nome à parábola da ovelha tresmalhada.

As semelhanças superficiais entre mim e a ovelha tresmalhada saltam aos olhos. Em primeiro lugar, sempre me considerei demasiado individualista para correr com o rebanho. Pelo contrário, sempre tive a tendência para correr para a escuridão da floresta por impulso, nem que seja para provar que sou eu que comando o meu destino e que não preciso da ajuda nem da aprovação de ninguém. A ovelha tresmalhada era, como gostam de dizer os neopagãos, o meu “animal espiritual”.

Mas, como sempre, a história só ganha interesse quando Deus entra em acção. Num acto de desespero totalmente irracional o pastor – isto é, o Senhor – abandona o resto do seu rebanho, os noventa e nove que não se tresmalharam, para poder perseguir o que o fez. O coração do pastor sofre tanto com o desaparecimento de uma mera ovelha amada que ele se lança sem pensar duas vezes numa missão de socorro.

O leitor (este leitor, pelo menos) até fica admirado com a aparente irresponsabilidade. Pela lógica humana é algo que não faz sentido, não parece certo que o bem-estar de um deva ter precedência sobre o bem-estar de muitos. Também não faz sentido que um pastor deva agir contra o seu próprio interesse. Não deve ele preocupar-se com o valor geral do seu rebanho?

O que torna a parábola ainda mais estranha é o facto de, noutro lugar no Evangelho, Jesus nos dizer para sermos perfeitos como o Pai Celeste. Esta passagem não só revela a nossa identidade em relação a Deus, como ainda nos oferece um modelo de conduta. Será que o Senhor quer mesmo que imitemos o pastor nestas circunstâncias?

Mas a parábola não pode ser lida segundo a lógica humana. Os seus caminhos estão acima dos nossos caminhos, o seu amor tem uma lógica própria.

Se fecharmos os olhos e nos deixarmos submergir na Luz do seu amor, rapidamente compreendemos que, contra toda a razão, é claramente verdade. É tudo verdade. Deus corre imprudentemente atrás de cada um de nós enquanto caminhamos pelo vale da sombra da morte, pelas veredas escuras e as florestas profundas em que entramos devida à nossa própria ignorância e teimosia.

Ele persegue-nos porque Ele é amor e nós somos os seus amados. Ele está apaixonadamente envolvido nas nossas vidas, como se fôssemos o seu único amor. E como qualquer bom progenitor, aguentará tudo e dar-nos-á o que for necessário para que regressemos a casa em segurança. A sua bondade e a sua misericórdia acompanhar-nos-ão todos os dias da nossa vida.

Esta é a nossa verdadeira identidade: Na nossa fragilidade, afastamo-nos do caminho. Mas nunca estamos perdidos. Somos sempre procurados. Sempre amados. Isso é certamente melhor do que qualquer coisa que eu poderia ter inventado sozinhos.


Peter Laffin escreve de New England. O seu trabalho mais recente encontra-se no The Catholic Thing, The Washington Examiner, e The National Catholic Register.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 12 de Fevereiro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 30 November 2022

O Senhor da História

Pe. Paul Scalia
A discussão em torno da proposta de lei do suposto “Respeito pelo Casamento” voltou a colocar o assunto do casamento homossexual na agenda mediática e, juntamente com ele, o lema “O lado certo da história”. Esse mantra é uma forma inteligente de obrigar as pessoas a aceitar uma ideia política ou uma agenda social. Ou se concorda com a proposta em cima da mesa, ou estamos do lado errado da história. Não há pior forma de pressão social. Ninguém gosta de se sentir deixado de parte, mas estar do lado errado da história? Ora aí está uma proposta assustadora.

Na verdade, esta expressão encapsula a visão errada da história que a nossa cultura abraça. Nomeadamente, a ideia de que se trata de uma evolução da humanidade em constante melhoramento; de que toda a história se dirige rumo à perfeição. É evidente que temos assistido a progresso em determinadas áreas. Quase que erradicámos certas doenças. Temos formas extraordinárias de comunicação e de transporte. A câmara do novo iPhone é incrível, etc..

O problema está em pensar que o mesmo se aplica a nós mesmos e à nossa sociedade. Presumimos que, tal como a nossa tecnologia, também nós estamos constantemente a melhorar, através dos nossos próprios esforços e criatividade. Assim, a história não é mais do que uma marcha rumo à perfeição humana. Quem discorda está do lado errado, não apenas da discussão, mas da história.

Claro que todo o conceito é terrivelmente ingénuo. Sim, temos conseguido grandes avanços no ramo da ciência, da tecnologia e da medicina. Mas para que é que os usamos? Para o bem, em alguns casos, e para o mal, noutros. Por mais que tenhamos avançado em determinadas áreas, ainda temos a mesma capacidade para o mal que tinham os nossos antepassados e esse mal não é algo do qual nos possamos libertar apenas com os nossos esforços.

Outro problema é que os líderes tendem a estar sempre com muita pressa para chegar ao lado certo da história. E isso até faz sentido. Se é esse o objectivo final, porquê esperar? Nada se deve meter no caminho. Assim vimos que durante a Revolução Francesa o Reino do Terror guilhotinou todos aqueles velhacos que não prestavam culto à República e ao Culto do Ser Supremo. Lenin e Stalin correram atrás do paraíso dos trabalhadores, à custa de milhões de vidas dos seus próprios cidadãos. A mortandade provocada por Mao Tsé Tung conseguiu ser ainda maior que o Grande Salto em Frente. Chegar ao lado certo da história tem um grande custo em sangue.

Esta visão da história também escraviza espiritualmente e intelectualmente as pessoas. Uma vez que o lado certo da história está sempre no futuro, nada do passado tem valor. Qualquer apelo à história ou à tradição, à sabedoria do passado, é proibido. As estátuas devem ser removidas, a história purificada, os nomes das ruas e das escolas alterados.

Mas esse tal futuro nunca chega. É sempre uma utopia, mesmo para lá do horizonte. Claro que os líderes não têm qualquer interesse em que esse momento perfeito chegue, porque aí perderiam os seus trunfos. Então as pessoas são roubadas quer do seu passado, quer do seu futuro. Sem tradição que os alimente, nem futuro realístico por que esperar, tornamo-nos órfãos do imediato.

E o que é que isto tem a ver com o Primeiro Domingo do Advento?

O ponto de viragem da história
É que a Igreja tem uma visão radicalmente diferente da história. Nós não acreditamos que o momento mais importante esteja nalgum futuro “lado certo”. Acreditamos que o ponto de viragem da história está no evento passado, para o qual agora nos preparamos agora: o nascimento de Cristo. Tudo o resto ou estava a convergir para aí, ou parte daí. Aquilo por que ansiamos no futuro, no final dos tempos, não é uma coisa nova mas a plenitude, o desvendar, de tudo o que começou com o seu nascimento.

Nem estamos propriamente à espera que as coisas melhorem entretanto. Há incontáveis passagens das escrituras que nos mostram que para o povo de Deus as coisas não melhoram, antes pioram, à medida que o fim se aproxima. Então o Senhor aparecerá para salvar o seu povo e retribuir a sua fidelidade.

É verdade que isto pode parecer desencorajador e pessimista. Mas é também realístico e libertador: as coisas não estão sempre a melhorar. Existe grande sabedoria no passado e haverá grandes males no futuro. Isto ajuda-nos a colocar aquilo que vemos à nossa volta em perspectiva. As confusões culturais, as guerras, a doença, a fome e tudo o resto devem entristecer-nos. As injustiças devem deixar-nos zangados. Mas nem umas nem outras nos devem surpreender ou desorientar. Porque não esperamos a contínua perfeição do mundo nem procuramos a perfeição em todas as coisas deste mundo.

Esta visão bíblica também clarifica o nosso propósito. Devemos procurar construir uma sociedade melhor, cuidar dos doentes e ajudar os pobres. E isso é precisamente o que os cristãos têm feito ao longo da história, mais do que qualquer outro. Mas fazemos essas coisas como expressão de fé, como obras de misericórdia, e não por pensarmos que podemos aperfeiçoar o mundo. Não nos cabe a nós dobrar o arco da história. Nós não procuramos a perfeição das coisas presentes, mas sim mantermo-nos fiéis àquele grande evento do passado, enquanto esperamos o seu cumprimento no futuro.

Assim, para o cristão, toda a história tem sentido, e não apenas um momento fugaz no futuro. O momento definidor da história está no passado, e por isso podemos olhar para o passado em busca de sabedoria, verdade e sentido. O passado não nos está vedado. E olhamos em frente também. O culminar da história está no futuro e por isso devemos aguardar com esperança – não a perfeição deste mundo – mas a vinda de Cristo em sua glória.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing) 

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

Wednesday, 26 October 2022

A Doença e a Cura

Pe. Paul Scalia
Graças a Deus que não sou como o fariseu. Essa pode bem ser a nossa reacção à oração altiva do fariseu orgulhoso (ver Lucas 18, 9-14). Mas se cairmos nessa lógica cometemos o mesmo pecado que o fariseu, e revelamos a natureza infecciosa do orgulho, mostrando porque razão devemos estar mais atentos ao publicano.

Vejamos como o orgulho chega de facto a todo o lado e tudo afecta. É o pecado de Satanás, a ideia de que ele podia ser como Deus; que poderia ter a sua extraordinária dignidade e poder sem Deus. Então Deus responde ao orgulho de Satanás através do humilde São Miguel, cujo nome significa “Quem é como Deus?”. O orgulho é também o pecado dos nossos primeiros pais, a ideia de que poderiam ter as coisas de Deus, mas à sua maneira, que poderiam alcançar as coisas por si, em vez de as receber como dons. É, no final de contas, uma revolta contra a ordem natural das coisas, que Ele é Deus e nós não.

O orgulho é o pecado original também no sentido em que marca o ritmo de todos os outros. Não existe pecado, do mais leve ao mais gravoso, que não tenha as suas origens na elevação do nosso intelecto e da nossa vontade acima dos de Deus. Ou melhor, o orgulho comporta-se de certa forma como uma doença espiritual, que recebemos dos nossos primeiros pais, que infecta toda a alma, corrompendo até as nossas acções virtuosas.

Como tal, o fariseu nesta parábola é uma imagem do próprio homem – de cada um de nós. Sofremos do mesmo mal que ele, se bem que nem sempre dos mesmos sintomas. Se simplesmente nos recostarmos e o julgarmos sem nos julgarmos a nós mesmos, então não estamos a alcançar o ponto a que Jesus quer chegar e, o que é mais grave, tornamo-nos como ele.

Reparem em dois dos efeitos principais do orgulho. Em primeiro lugar isola-nos. “O fariseu tomou o seu lugar e orou para consigo”. Claro que não devemos orar para nós mesmos, mas o fariseu é tão egocêntrico que não reza a Deus, mas para si mesmo. Teria mais piada se não fizéssemos frequentemente a mesma coisa. Talvez não sejamos tão altivos ou convencidos como o fariseu, mas continuamos a sofrer os efeitos do orgulho. A nossa oração torna-se rapidamente uma mera conversa com nós mesmos, sobre nós mesmos. Em vez de rezar a Deus, colocamo-nos diante dele e pensamos em nós.

Isto ajuda-nos a compreender as graves palavras do Senhor no final da parábola: “Quem se exalta será humilhado”. Não se trata tanto de um juízo como de uma afirmação da realidade. O homem orgulhoso isola-se de tal forma que não deixa espaço para o único que o pode elevar. Não é que Deus não o ame, mas que ele se isolou de tal forma de Deus que está a bloquear os efeitos desse amor. Entrará para a eternidade na companhia de si mesmo, o que é humilhante.

Em segundo lugar, o orgulho leva a uma mentalidade competitiva. “Eu te agradeço porque não sou avarento, nem desonesto, nem imoral como as outras pessoas. Agradeço-te também porque não sou como este cobrador de impostos.” O fariseu, como qualquer pessoa orgulhosa, deriva o seu valor não da sua relação com Deus, mas de uma comparação com os outros. De facto, ele olha os outros apenas como adversários. Adoptou a instrução do demónio ao seu sobrinho no livro “Vorazmente Teu”, de C.S. Lewis: “Ser, é estar em competição”.

No caso do fariseu esta competição corre-lhe bem. Ele faz coisas melhores que o cobrador de impostos, e por isso sente-se satisfeito. Mas o mesmo espírito orgulhoso de competição pode frequentemente produzir o efeito oposto. Quando alinhamos no jogo da competição e damos por nós em desvantagem em relação aos outros, então em vez de altivos ou presunçosos, tornamo-nos desencorajados e inseguros. As redes sociais agravam este problema, uma vez que incentivam as pessoas – sobretudo os jovens – a competir neste jogo da comparação. É uma receita para a insegurança e a ansiedade. O orgulho – um enfoque excessivo em nós mesmos – é a raiz comum tanto do arrogante como do inseguro.

Ironicamente, o homem que na nossa cultura actual seria visto como sofrendo de falta de autoestima é o que a parábola apresenta como mais saudável. “Mas o cobrador de impostos manteve-se afastado e nem levantava o rosto para o céu. Batia no peito e dizia: ‘Ó Deus, tem pena de mim, pois sou pecador!’” Ao contrário do fariseu, o cobrador de impostos consegue falar mesmo com Deus. Ele tem noção da relação e do seu lugar na mesma. Mais, age em concordância, batendo o peito e reconhecendo e expressando a humildade do seu estado.

Há um debate clássico sobre se a humildade é uma questão do intelecto ou da vontade. É uma forma de pensar ou uma forma de agir? Devemos encará-la como ambos: precisamos de mudar tanto a nossa forma de pensar como o nosso comportamento. Assim, a humildade é, em primeiro lugar, a avaliação correcta de nós mesmos. É a virtude através da qual reconhecemos a verdade de que nada somos sem Deus, mas também de que Deus nos acumulou de bênçãos.

Ao mesmo tempo, a adesão à verdade e o reconhecimento de quem somos requer actos concretos da vontade que os fortaleçam. Sem o comportamento adequado, a forma adequada de pensar enfraquece. Por isso, a Igreja conduz os seus filhos em actos de humildade, sobretudo na sagrada liturgia. Reconhecemos o nosso pecado, batendo no peito como fez o cobrador de impostos. Ajoelhamo-nos e confessamos que não somos dignos. E por aí fora. Estes não são apenas gestos e palavras piedosos, mas actos que nos ajudam a interiorizar a verdade que nada somos – mas que Deus nos deu tudo.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Outubro de 2022 em The Catholic Thing) 

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Wednesday, 28 September 2022

A Pobreza da Riqueza

Pe. Paul Scalia

De quem é que devemos ter mais pena nesta parábola de Jesus, do homem rico ou de Lázaro? Naturalmente o nosso coração inclina-se mais para Lázaro, o homem pobre que jazia ao portão, ansioso por migalhas, mas a quem até os cães vinham lamber as feridas (um detalhe que os amantes de cães dos nossos dias podem achar querido, mas que para os judeus na antiguidade não tinha o mesmo encanto). Na verdade, é do homem rico que devemos ter mais compaixão, não só porque é muito pior fazer o mal do que sofrê-lo, mas também por causa daquilo em que o seu pecado o transformou. Assim, somos chamados a reflectir o triste estado do homem rico e o pecado que o conduziu a tal.

Notem bem a descrição curta, mas esclarecedora, do homem rico: “vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e todos os dias banqueteava-se e regalava-se”. Fala-se aqui da sua roupa luxuosa e das ricas comidas, mas não de amigos ou convidados. Mais ninguém é referido. Ele não está a ter festas ou jantares. Nem sequer está a esbanjar a sua fortuna numa vida de promiscuidade, como o filho pródigo. Não, é só ele, mesmo. Há algo de solitário e de isolado na sua riqueza.

O estado lastimável do homem rico é traduzido para a vida eterna. De facto, o seu destino é mais revelador que punitivo. Está isolado e só no inferno porque tinha feito por isso no mundo. Lázaro, por outro lado, está no regaço de Abraão (uma tradução melhor que “junto de”). Está em comunhão com outro. O homem rico está desprovido dessa comunhão por causa da sua avareza (e não apenas como castigo por ela). Viveu e morreu isolado dos outros e por isso entrou no isolamento eterno.

Este isolamento do homem rico não nos é estranho. Quando Ebenezer Scrooge é convidado a dar esmola para ajudar os pobres responde: “quero que me deixem em paz”. A sua afeição pelo dinheiro faz com que despreze não só a generosidade, mas também a companhia. Do mesmo modo Gollum, no “Senhor dos Anéis”, está tão obcecado pelo anel que, fugindo à companhia dos outros, passa anos na profundidade de uma caverna, sozinho com o seu “precious”.

O forreta é miserável porque está isolado pelas suas posses. Quer tudo só para ele, o que o obriga a estar absolutamente só. A sua ligação à riqueza significa que não se pode ligar a outros. As coisas que mais ama são o que o impedem de amar.

A avareza coloca as posses acima das pessoas. Pela sua própria natureza, isola-nos uns dos outros. Habituamo-nos a possuir e a usar, duas coisas que não são compatíveis com relações humanas autênticas. O homem avarento pode ter pessoas que o ajudam a gerir o seu dinheiro, ou a ganhar mais, mas isso só comprova a teoria. Essas pessoas não são amadas, são usadas.

Não existem pecados inteiramente pessoais. Há sempre uma dimensão social no pecado, porque envolve sempre um virar-se para dentro, e por isso para longe dos outros. Como disse São João Paulo II, “o mistério do pecado é formado por esta dupla ferida, que o pecador abre no seu próprio seio e na relação com o próximo. Por isso, pode falar-se de pecado pessoal e social: todo o pecado sob um aspecto é pessoal, e todo o pecado sob um outro aspecto é social, enquanto e porque tem também consequências sociais.” (Reconciliatio et Penitenza).

No caso do homem rico a repercussão social é a sua incapacidade de ver Lázaro. Reparem que nunca se diz na parábola que o homem rico roubou de Lázaro, ou que era de alguma forma a causa da sua pobreza. Não o pontapeava ao entrar ou ao sair de casa. Mas a questão é precisamente essa. Não é que ele não se interesse por Lázaro, o problema é que ele nem dá pela sua existência. Ele não detesta Lázaro, simplesmente não repara nele.

Vemos assim que a avareza produz uma indiferença ao sofrimento do outro. “Ai daqueles que vivem comodamente em Sião”, diz o profeta Amós, (Am. 6, 1 e 4-7). Ele associa esse comodismo à riqueza. Afeta todos os que se encontram “deitados em leitos de marfim, estendidos em sofás, comem os cordeiros do rebanho e os novilhos do estábulo. Deliram ao som da harpa, e, como David, inventam para si instrumentos de música; bebem o vinho em grandes copos, perfumam-se com óleos preciosos”.

O vício da avareza isola o avarento. Mas ao fazê-lo também priva os pobres da atenção de que precisam para a sua subsistência.

Riqueza e isolamento. Estas duas características da nossa cultura estão relacionadas entre si. Quanto mais temos, mais isolados nos tornamos e menos notamos ou nos interessamos pelos outros. Os confinamentos durante a pandemia foram pensados e impostos pelos ricos, a chamada “geração laptop”, que se podia dar ao luxo de se sequestrar e de prosseguir com a sua vida. Existiu uma indiferença cruel aos efeitos que este isolamento teria ao empobrecer ainda mais os pobres. Os sinais que vimos a dizer “estamos todos juntos” eram uma treta.

“Não se pode servir a Deus e a Mamon”, disse Nosso Senhor recentemente no Evangelho. E quatro domingos antes fez um aviso semelhante: “Quem de vós não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo”. Esta ligação à riqueza – por mais pequena que seja – corrói a nossa capacidade de nos preocuparmos com os outros e isola-nos. Tornamo-nos prisioneiros da avareza.

Damos aos pobres porque precisam da nossa ajuda. As suas vidas disso dependem. Mas damos também porque as nossas vidas disso dependem. Quando damos, desprendemo-nos daquilo que nos empobrece e libertamo-nos do que nos isola. Assim tornamo-nos capazes de ver, de conhecer e de amar os outros.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 25 de Setembro de 2022 em The Catholic Thing) 

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Wednesday, 14 September 2022

Banquetes e Famílias

Michael Pakaluk

Não sei de qualquer outro mandamento de Cristo que seja tão universalmente desobedecido que aquele que ouvimos recentemente no Evangelho de Domingo: “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” (Lc. 14,13).

“Ah, mas a minha paróquia organiza um jantar para os sem-abrigo por altura do Natal, e nós contribuímos com bens enlatados…” Lamento, mas não é isso que diz o Grego na Bíblia. Uma tradução mais literal seria “Sempre que deres um banquete”. Jesus está a estabelecer uma regra geral, não uma coisa que se possa satisfazer apenas de vez em quando. Em todas as ocasiões em que se der um banquete, diz Ele, é isto que deve fazer.

E mais, Ele afirma que só devem ser convidados aqueles que não tenham meios para retribuir (Lc. 14,14). Convidar um ou dois pobres, simbolicamente, não cumpre com a intenção do mandamento.

Eu já participei em milhares de “banquetes” (a palavra “dochē” que Lucas usa abrange todo o tipo de recepções ou mostras de hospitalidade, como encontros informais, cocktails, copos de água, evidentemente, eventos de angariação de fundos, para não falar de encontros de família e jantares festivos). De todas as vezes que os anfitriões eram cristãos, esta regra de Nosso Senhor nunca foi seguida. Um mandamento que devia ser seguido sempre, não é seguido nunca.

Então o que é que se passa aqui? Estas palavras não são para seguir? A passagem é de tal forma hiperbólica que é essencialmente impraticável.

Curiosamente, o próprio ensinamento tornou-se mais claro para mim quando li a “Riqueza das Nações” de Adam Smith. A certa altura ele pergunta “O que é feito dos banquetes? (III. iv). Nos relatos históricos antigos e medievais podemos ler, diz ele, que os homens ricos faziam banquetes quase diariamente. Esta era uma prática comum entre chefes dos Highlands escoceses, diz o autor, mesmo no início do Século XVIII.

Recordo-me de Sir Walter Scott iniciar o “Waverley” precisamente com uma descrição de um banquete desses. “Em Quo Vadis” os banquetes da corte de César são uma grande tentação e, claro, sabemos que João Baptista foi executado por um Herodes em estado de sedução. Mas nas sociedades modernas a prática tinha caído em desuso. Adam Smith explica.

“Num país que não tem comércio exterior nem manufaturas mais aperfeiçoados”, explica Smith, “um grande proprietário de terras, por não ter nada pelo que possa trocar a maior parte da produção de sua terra que vá além do necessário para a manutenção dos agricultores, consome tudo com seus hóspedes na casa senhorial. Se essa produção excedente for suficiente para sustentar 100 ou 1 000 pessoas, só pode utilizá-la para isso e apenas para isso.”

Daí que homens ricos, “desde o soberano até ao mais pequeno barão” sempre tiveram os seus séquitos de apoiantes leais, a quem banqueteavam constantemente. Qualquer excesso para além deste era usado para criar maior dependência entre os agricultores arrendatários. Era assim que os ricos mantinham o seu poder, diz Smith, criando dependência, principalmente através de banquetes.

Aqui Smith está a desenvolver o argumento feito por David Hume de que, curiosamente, o aumento da manufactura e do comércio externo levou à dissolução do poder baronial, uma vez que os ricos podiam agora gastar o seu dinheiro acumulando artefactos luxuosos. É verdade que ao fazê-lo, estavam ainda a “suportar” uma rede de artesãos e de comerciantes que forneciam estes luxos, mas não detinham qualquer poder sobre esta rede, quer por causa da sua dispersão, quer porque o seu próprio contributo para a manutenção desta era relativamente pequeno. Desta forma, a emergência de uma sociedade comercial sustentava a emergência de uma sociedade livre.

Banquete diário de uma família numerosa
Não me preocupa agora avaliar este argumento fascinante. É evidente que aquilo que Smith considera uma liberdade, ou seja, a autonomia dos consumidores e dos produtores, tem aspectos negativos que nos preocupam cada vez mais. Também é verdade que sistemas análogos ao do senhor medieval e o seu séquito de dependentes continuam bem vivos na nossa cultura política actual.

Antes, o que quero realçar é que nas sociedades tradicionais o “banquete” representa o destino dado à riqueza excedentária. Nosso Senhor está a usar a técnica retórica de tomar a parte pelo todo. Descreve um uso de riqueza excedentária, o único que existia na altura, para se referir de forma vívida a qualquer uso de riqueza excedentária.

Assim, o mandamento sobre banquetes é de facto um mandamento sobre a importância de destinar a riqueza excedentária à esmola. E essa, claro, mantém toda a sua validade nas sociedades comerciais.

Cristãos há, porém, que têm conseguido cumprir o mandamento de uma forma próxima do seu significado original. Ocorrem-me Santa Isabel da Hungria e Santa Margarida da Escócia. Estas mulheres trocaram as comitivas das suas cortes pelos mais pobres dos pobres. Em vez de banquetear diariamente centenas de nobres, estas santas tornaram-se conhecidas por montar hospitais junto aos seus palácios e cuidar dos aleijados, dos coxos e dos cegos, antes de qualquer outro.

Mas há outros cristãos que também o fazem, são os pais, especificamente os de famílias numerosas. Refiro-me a famílias numerosas porque é nesses casos que se torna mais evidente o total compromisso de riqueza excedentária e as suas mesas de jantar são o mais próximo, visualmente, de uma corte medieval.

Os seus filhos são como os cegos, isto é, sem educação; certamente que são pobres, uma vez que nem sequer podem possuir bens; aleijados – alguns nem andar sabem – e coxos, isto é, imaturos. Não podem retribuir agora nem, se a sua educação for bem dada, alguma vez o farão, uma vez que a melhor forma que têm de mostrar gratidão é fazer o mesmo, tendo os seus próprios filhos mais tarde.

Devemos rejeitar o falso argumento de que os pais que acolhem filhos apenas o fazem por razões egoístas, para sua própria realização, ou que não fazem mais do que a sua obrigação, uma vez que os geraram, e por isso não têm qualquer mérito. Certamente que estes pais servem o bem comum tendo tantos filhos durante um catastrófico inverno demográfico.

Sim, os pais de famílias numerosas cumprem fielmente, e de forma muito evidente, este mandamento de Nosso Senhor.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 14 de Setembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 3 August 2022

Marta, Maria, Lázaro e o Amor de Jesus

Pe. Thomas G. Weinandy
Há muitos anos que penso que a solenidade de Santa Marta deveria incluir toda a sua família – Marta, Maria e Lázaro. Por isso foi com agrado que vi o Papa Francisco criar, em 2021, uma solenidade que honra os três. Eles são um exemplo de uma “família” de amor uns pelos outros e por Jesus, bem como do amor de Jesus por eles, em particular por Lázaro. Contudo, este trio também tem algo de misterioso.

São os três adultos, mas nenhum é casado – algo raro tendo em conta a cultura judaica do seu tempo. Em Lucas, Marta aparece sempre como a chefe de família. Lucas refere-se a Marta como acolhendo Jesus na “sua casa”, enquanto Maria é representada como a irmã contemplativa.

Lucas não menciona Lázaro. Porém, no Evangelho de João, quando as irmãs informam Jesus da doença de Lázaro referem-se a ele apenas como “aquele que tu amas”, presumindo que Jesus saberia logo de quem falam. João também diz “Jesus amava Marta, e a sua irmã, e Lázaro”. Eis o mistério. Porque é que duas irmãs e um irmão viveriam juntos, e porque é que Jesus teria um amor especial por Lázaro?

Há quem especule que Lázaro pudesse ter uma doença degenerativa, e que por causa disso ele estava ao cuidado das suas duas irmãs, o que poderá também ter levado a que Jesus sentisse por ele uma afeição especial. Assim, Jesus declara imediatamente que a sua doença não é para a morte, mas para a glória de Deus e do seu Filho. Não será apenas Jesus a ser glorificado com este evento, Marta e Maria também serão.

Quando Jesus chegou, soube que Lázaro estava no túmulo há já quatro dias. Marta, sempre igual a si mesma, saiu ao encontro de Jesus enquanto que Maria, na mesma medida, permaneceu em casa.

Marta diz que se Jesus estivesse presente, o seu irmão não teria morrido, mas que tudo o que Jesus pedir a Deus, Ele concederá. Em resposta Jesus declara a Marta: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?” (Jo 11, 25-26)

Este é o momento de glória de Marta. O Evangelho de João não narra a proclamação de fé de Pedro, de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo. Aqui é Marta quem tem a honra de ecoar a declaração de Pedro: “Sim, Senhor, eu acredito que tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Para Marta, Jesus é o “Senhor” divino, porque é filho encarnado do Pai, ungido pelo Espírito.

Marta é glorificada na sua profissão de fé; Maria é glorificada no seu amor. Quando Jesus viu Maria a seus pés, chorando amorosamente a morte de Lázaro, Jesus “comoveu-se profundamente”. Perguntou onde é que Lázaro estava sepultado. No túmulo, também Jesus chorou por amor e alguns dos judeus comentaram quanto ele o amava.

Assim, apercebemo-nos do amor que liga Marta, Maria e Lázaro a Jesus, e o amor de Jesus que O liga a eles. Vemos também que o amor de Marta e de Maria estava repleto de fé em Jesus, enquanto Filho do Pai.

Neste contexto de amor e de fé, Jesus ordena que a pedra seja removida do túmulo de Lázaro. Então clama em alta voz: “Lázaro, vem cá para for!”. Quando Lázaro sai do túmulo, Jesus diz-lhes para lhe retirarem as ligaduras e deixarem-no ir. Podemos presumir que Marta foi a primeira a desligar e a libertar Lázaro.  

Ao ressuscitar Lázaro dos mortos, Jesus manifesta que é verdadeiramente a ressurreição e a vida. E aqueles que crêem nele como Filho do Pai, ainda que morram, viverão.

Ainda que Jesus tenha ressuscitado Lázaro dos mortos, e assim o possa ter curado da sua anterior doença, esta não foi uma ressurreição gloriosa da morte – ele tornaria a morrer. Jesus apenas se torna a ressurreição e a vida quando ele mesmo morre e é gloriosamente ressuscitado de entre os mortos. Então, e só então, é que ele se torna capaz de ressuscitar gloriosamente de entre os mortos todos os que têm fé nele e, assim, habitam em amor nele.

Interessante e significativamente, João narra que, seis dias antes da Páscoa as duas irmãs e Lázaro convidam Jesus para uma refeição – uma refeição eucarística, em acção de graças por aquilo que Jesus fez ao ressuscitar Lázaro de entre os mortos. Claro que foi Marta quem serviu, e Lázaro estava entre os convidados.

Depois, “Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume”. Maria, aquela que ama, manifesta, de forma sensual, o seu amor por Jesus ao derramar o seu dom mais precioso, um dom que simboliza a dádiva de si mesma. Em resposta a Judas Iscariote, que lamentou o desperdício, Jesus afirma que Maria o estava a preparar para o enterro – para a sua passagem da morte para a vida, em que ele se tornaria a ressurreição e a vida.

Nesta recriação simbólica da Eucaristia reconhecemos que tal como Jesus se oferece completamente a nós na Eucaristia, com o seu Corpo Ressuscitado e Oferecido e o seu Sangue Ressuscitado e Oferecido, assim também nós, na mesma Eucaristia, devemos dar-lhe, em amor, o nosso dom mais precioso, o dom de nós mesmos.

Nesta vivência mútua entre nós e Jesus a fragrância do amor deve encher as nossas igrejas e chegar aos Céus. Mais, podemos ter a certeza de que quando Ele regressar em Glória, no fim dos tempos, Jesus chamar-nos-á a cada um pelo nome, e ascenderemos em glória para o banquete celeste – para a presença do Pai celeste com todos os santos e anjos.

Então, o amor que existia na família de Marta, Maria e Lázaro – bem como o seu amor por Jesus e o amor de Jesus por eles – encontrará a sua plenitude universal, pois Jesus será a plena ressurreição para a vida eterna.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 29 de Julho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 4 May 2022

A Igreja: Corrupta desde Sempre?

Michael Pakaluk

Se a Igreja Católica alguma vez foi corrupta, então foi corrupta desde sempre. Mas como não foi corrupta desde sempre, nunca foi, nem será, corrompida.

Foi isso que me passou pela cabeça recentemente, ao ouvir um podcast sobre Roma antiga. A cidade de Roma – argumentava o autor – pode-se orgulhar de ser a maior da história do mundo: desde a sua população; a extensão geográfica da sua influência; os séculos de primazia; a organização da sociedade; a primazia do direito; a durabilidade das suas construções; e a sua habilidade para integrar o melhor dos seus vizinhos.

Ah, e depois havia o facto de se ter tornado a sede da mais importante religião da história da humanidade…

Estava à espera que, depois desta correcta análise das assinaláveis virtudes de Roma, o autor do podcast elogiasse a sabedoria de São Pedro por ter sedeado a Igreja em Roma. Pareceu-me ser um historiador sério. Certamente veria que a Igreja Católica se tornou tão “importante” porque as suas virtudes espelhavam no campo espiritual as que Roma exibia no secular.

Pelo contrário, ele lamentou a decisão de Pedro, porque “o envolvimento da Igreja com a autoridade romana, depois do édito de Milão, levou rapidamente à sua corrupção”.

Fiquei desiludido por ouvi-lo a repetir esta visão tão familiar, mas não surpreendido, afinal de contas o assunto deste episódio não era a Igreja, talvez ele não tivesse pensado muito no assunto.

Mas os seus comentários demonstravam que ele era um cristão praticante. Mesmo do ponto de vista das Escrituras, dei por mim a pensar se ele alguma vez tinha meditado na Paixão. Porque a “corrupção” começou muito antes do ano 313. Na verdade, esteve presente desde o início, e com o conhecimento e aparente autorização de Nosso Senhor.

Estou a falar, claro, de Judas Iscariote. Olhemos para ele de novo. A fundação da Igreja deu-se com a escolha dos 12 Apóstolos. Judas estava em pé de igualdade com todos eles, à excepção de Pedro. Não o podemos despromover ou excluir retroativamente. Judas era um dos 12, e podemos colocá-lo à mesma altura que qualquer outro, na medida em que o ocupante de um cargo pode substituir qualquer outro com o mesmo cargo.

Uma boa definição de corrupção é o aproveitamento de um cargo de confiança para ganho próprio. Por exemplo, um funcionário que aceita um suborno é, à luz desta definição, corrupto. E por isso Judas era corrupto. Ele aproveitou-se da sua ligação a Jesus, sendo apóstolo, para ganhar 30 moedas de prata.

Sabemos como é que a coisa correu. As autoridades queriam prender, julgar e condenar Jesus em segredo, para que a multidão não se manifestasse. Por isso, Jesus tinha de ser identificado e capturado antes do amanhecer, antes de poder fugir (como acreditavam ser possível). Judas era importante neste processo para o identificar, com um beijo.

Acreditamos que Judas era movido por mais do que apenas avareza. Tendemos a favorecer as ideias especulativas, sem qualquer base nas Escrituras – que, por exemplo, Judas queria provocar uma crise que levaria Jesus a assumir o poder, enquanto Messias; ou que como Caim, Judas estava com ciúmes dos apóstolos que Jesus parecia preferir. E por aí fora.

Porém, o único vício de Judas de que ouvimos falar na Bíblia é o seu amor pelo dinheiro. João diz que Judas se queixou do dinheiro gasto no nardo puro, porque guardava a bolsa comum e dela tirava o que queria (Jo. 12,6). Somos tentados a descartar a ganância como explicação, porque parece demasiado fraca. Trair o Messias por uma pequena soma?

Só que não era assim tão pequena. Se dava para comprar um campo na cidade, serviria para comprar uma quinta no campo. E muitas pessoas fazem coisas inacreditáveis por pequenas quantias de dinheiro. Esaú vendeu a sua primogenitura por um prato de lentilhas (Gen. 25, 29-32). Há quem aposte a aliança. Richard Rich traiu São Tomás Moro “por Gales”. 

São Tomás de Aquino escreve que uma das filhas do vício capital da avareza é a traição. Porquê? Porque a avareza procura possuir por excesso, pela força ou pela fraude, e a fraude, na medida em que afecta outra pessoa, é uma traição – “como no caso de Judas”, diz o santo, “que traiu Cristo por cobiça”. Resistimos a essa simples explicação porque o caso de Judas e de Cristo revela bem a irracionalidade de toda a avareza.

Por isso, a corrupção estava presente desde o início, e a sua consequência foi infinitamente grave.

Mais, a corrupção parece ter-se estendido para além de Judas, pelo menos potencialmente e virtualmente, no sentido de que cada um dos apóstolos, quando ouviram o Senhor dizer que um deles o iria trair, pensou se não seria ele o traidor (Jo. 13, 21-30).

Se naquele tempo houvesse jornais o facto mais evidente a relatar sobre os apóstolos, a melhor coscuvilhice, seria de que eles eram corruptos e tinham traído o seu mestre.

Mas pensemos agora no seguinte.

1. Esta corrupção estava presente com o tranquilo conhecimento prévio e “vontade permissiva” do Senhor. “Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!” (Jo. 6, 70).

2. De forma alguma o “cargo” Apostólico de Judas foi afetado pela sua corrupção. Matias foi selecionado para o preencher. (Actos 1, 24-25)

3. A pregação de Judas e os seus baptismos mantiveram-se válidos. Nada teve de ser refeito ou desfeito.

4. Jesus chega mesmo a garantir a “limpeza” de todos os Doze, excepto na medida em que alguém peca pessoalmente. “Quem já se banhou precisa apenas lavar os pés; todo o seu corpo está limpo. Vocês estão limpos, mas nem todos” (Jo. 13, 10).

A Igreja fundada por Cristo era “corrupta” desde o início, da mesma forma que sempre seria corrupta (incluindo agora), em pessoas particulares, desviadas pelo demónio. Mas enquanto Igreja, nas suas instituições, cargos, poderes, sacramentos e orientação divina – enquanto Corpo de Cristo – era santa da mesma forma que permanece santa.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 27 de Abril de 2022)

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