quarta-feira, 17 de julho de 2019

Em Busca do Bom Samaritano

O amor ao próximo é algo que é pedido a todos nós. A parábola do Bom Samaritano, que escutámos no passado domingo, fornece um bom guião. Temos a responsabilidade de reconhecer a necessidade e a miséria humanas, e de lhes responder tanto com atenção pessoal como com generosidade material.

Numa sociedade rica, com mudanças demográficas velozes, contudo, isto requer alguma análise. Poucos são os que, hoje em dia, vivem a familiaridade cara-a-cara das pequenas comunidades. A maioria vive em subúrbios e vai de carro para o trabalho, passando ao largo dos bairros mais pobres.

Claro que os media apresentam-nos muitas imagens de pessoas necessitadas, mas poucos de nós encontramos essas pessoas no nosso dia-a-dia. Existem, contudo, verdadeiras bolsas de miséria humana até no nosso mundo desenvolvido, desde o interior das cidades até às paisagens mais rurais.

Nas nossas ruas existem pessoas com necessidades crónicas. Vemo-las nas esquinas das ruas e nos degraus das igrejas. Algumas estão perturbadas emocionalmente, outras sofrem de stress pós-traumático, outros ainda estão simplesmente a atravessar um mau momento e há os que estão a aproveitar-se do sistema. Mas a desolação emocional e espiritual pode ser ainda mais devastadora.

Os padres que acompanham as Missionárias da Caridade apercebem-se que as irmãs os dissuadem de dar dinheiro diretamente aos necessitados. Lançar-lhes algumas moedas é muito mais fácil do que dar-lhes aquilo de que precisam verdadeiramente: cuidado pessoal moroso. As pessoas que vivem vidas isoladas e pobres precisam – segundo nos dizem aqueles que verdadeiramente cuidam delas – de interacção humana, muito mais do que de dinheiro. Frequentemente o que lhes conduziu àquela situação foi precisamente a falta de ligações pessoais.

Portanto nos nossos tempos não é fácil ser um Bom Samaritano. O Bom Samaritano cuidou das necessidades físicas da vítima do assalto e deixou-lhe dinheiro para uma espécie de cuidado institucionalizado: “E no dia seguinte retirou dois denários e deu-os ao estalajadeiro, dizendo, ‘Cuida dele, e tudo o que gastares a mais, pagar-te-ei quando regressar’” (Lc. 10,35).

Muitas vezes, dar dinheiro às pessoas na rua apenas os leva a adiar a procura de emprego ou de ajuda. Se souber que se vai cruzar com pobres ao longo do seu dia, um Bom Samaritano moderno poderá ter o cuidado de levar consigo uma sanduiche a mais, ou uma bebida, ou então comprometer-se com algo ainda mais substancial em termos de tempo e de trabalho, oferecendo-se para trabalhar numa sopa dos pobres ou uma iniciativa do género.

As paróquias suburbanas recolhem valores consideráveis das caixas de esmolas. Os párocos, em conjunto com os concelhos financeiros das paróquias, geralmente fazem chegar esses fundos a organizações que servem os necessitados. Ocasionalmente um paroquiano poderá também precisar de ajuda, por causa de uma crise. É bom que as paróquias encontrem formas de permitir que os paroquianos os possam abordar com esses problemas sem sentirem demasiada vergonha.

E, já agora, os párocos nunca devem aceitar agradecimentos pessoais por distribuírem dinheiro da caixa de esmolas. São chamados a ser bons gestores dos recursos paroquiais, como é evidente, mas a verdadeira generosidade é dos paroquianos que fazem os donativos.

De igual modo uma sociedade recta – o que normalmente significa as comunidades locais (por uma questão de subsidiariedade) – devem fornecer os cuidados mais básicos de quem está a passar um mau bocado. Mas deve ser claro – e hoje em dia não costuma ser – que cobrar impostos para ajudar os pobres não corresponde ao conceito de “caridade” que encontramos na Bíblia.

Essas cobranças são, na realidade, uma forma de justiça retributiva (e a virtude da solidariedade) mediada através do processo político. Ao longo dos tempos aprendemos que nem todos esses programas funcionam, e que chegam mesmo a prejudicar as pessoas que pretendem ajudar. Mas uma assistência social bem monitorizada e dirigida às pessoas certas, também tem o seu lugar.

Algumas organizações podem ser classificadas como Instituições Particulares de Solidariedade Social de acordo com as leis do Estado, ao mesmo tempo que contrariam as leis de Deus. A Planned Parenthood, por exemplo, recebe 500 milhões de dólares por ano de dinheiro público, bem como donativos privados, dedutíveis em IRS, para financiar 330 mil abortos por ano (e para colher e vender órgãos fetais à socapa). Esta suposta caridade não passa, na verdade, de uma monstruosa máquina de matança.

Algumas organizações têm mais jeito para angariar dinheiro do que para usá-lo em obras verdadeiramente caritativas. O Bom Samaritano de hoje que queira doar dinheiro a organizações de caridade deve dar ouvidos ao aviso de Eric Hoffer de que “todas as grandes causas começam por ser movimentos, depois transformam-se em negócios e eventualmente degeneram em fraudes”.

Parte do trabalho do Bom Samaritano moderno passa por exercer vigilância adequada, sem a qual as caridades podem encher-se de funcionários e tornar-se um buraco financeiro dependente de constantes peditórios, cada vez mais agressivos.

Por outro lado, como qualquer IPSS sabe, também existem pessoas que pensam que o trabalho caritativo deve operar praticamente sem custos administrativos, o que não é realístico. Até as Missionárias da Caridade recebem – merecidamente – comida e estadia em troca do exercício do seu santo apostolado.

Quando fazemos um donativo devemos examinar as nossas consciências. Foi-nos dito pela mais alta autoridade que o bom impulso de caridade pode ser estragado pelo desejo de admiração. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.”

No fim de contas temos de reconhecer que todos os programas governamentais do mundo, bem como todas as IPSS, são incapazes de aliviar o sofrimento humano em grande escala. Uma das consequências do pecado original é que os pobres, seja no sentido material ou espiritual, sempre os teremos connosco. Os leigos devem trabalhar para criar sistemas socioeconómicos justos e eficientes. Mas a assistência aos pobres, num generoso espírito cristão, é a levedura necessária para complementar e ultrapassar os mecanismos das ordens meramente económicas.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

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