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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Crise humanitária à vista em Moçambique

Ilha do Ibo, Moçambique
Continuamos a assistir a tragédias em Moçambique, onde alegados jihadistas lançam o pânico no distrito de Cabo Delgado. Muitos civis procuram fugir para as ilhas de Matemo e de Ibo, onde simplesmente não existem condições para os acolher a todos. Adivinha-se uma crise humanitária.

A crise de abusos sexuais no Chile continua a abalar a Igreja. Mais um padre foi suspenso. Recordo que este é o tema de um dos artigos do The Catholic Thing das últimas semanas.

D. Antonino Dias escreveu uma carta pastoral com “orientações positivas” de ajuda aos divorciados e o bispo da Guarda fala da importância do diálogo ecuménico.

De ontem, uma notícia triste. O padre de Maceira, em Leiria, foi encontrado morto numa praia. Tinha apenas 38 anos, não se sabe como morreu.

Se não tenho filhos, porque é que devo pagar as escolas? Se não uso o hospital público, porque é que devo pagar por eles? Esta e outras dúvidas respondidas pelo grande Randall Smith, do The Catholic Thing em português.

Normalmente evito traduzir os artigos mais doutrinais, mas Randall Smith tem um jeito especial para tornar mesmo os assuntos mais teóricos fáceis de compreender. Aproveitem!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A Difamação do Cardeal Burke

Uma das figuras mais exóticas da Marcha pela Vida este ano em Washington, era um excêntrico entusiasmado – provavelmente pentecostal ou fundamentalista – que carregava um grande cartaz anticatólico e gritava por um megafone. Só apanhei um bocado do que ele dizia, mas era o habitual sobre o facto de o Papa ser o anticristo e os católicos “adorarem Maria como uma deusa”. Coitado. Mas uma coisa ninguém lhe tira: Debaixo da loucura ele acredita sinceramente que as formas de liderança e o conteúdo da fé cristã são realmente importantes. Ouvi-o a dizer a outro participante da marcha que “isto são coisas sérias, meu!”

De facto.

Sexta-feira o “The Washington Post” brindou-nos com algo muito pouco sério. Uma difamação ridícula do Cardeal Raymond Burke, debaixo da manchete “Como o Papa Francisco pode Limpar a Podridão de Extrema-direita da Igreja Católica”. Assinada pela jornalista Emma-Kate Symons, a peça tinha tanta noção da realidade e do contexto da Igreja como o tipo do megafone. O texto arrancava assim: “O Papa Francisco precisa de tomar medidas mais duras contra o católico americano mais influente em Roma, o Cardeal Raymond ‘Breitbart’ Burke”.

É que a Breitbart entrevistou uma vez Burke – ainda por cima sobre o Islão – por isso agora, segundo o “Post”, Breitbart passou a ser o nome do meio, estão a ver?

Há pessoas que não gostam do Catolicismo ortodoxo, sempre houve e sempre haverá. Mas esta “jornalista” não estava a lamentar-se numa esquina ou num blogue de extrema-esquerda, mas nas páginas de um jornal que em tempos foi moderado mas que teve uma forte viragem à esquerda desde que foi adquirido por Jeff Bezos, da Amazon. Mas qualquer editor, seja qual for a sua orientação ideológica, deveria ter olhado de relance para este artigo de opinião e compreendido que não passava de uma parvoíce.

Mas o “Post” não está sozinho nesta coisa de deixar o profissionalismo pelo caminho por uma questão de paixão política. Ainda esta semana o “New York Times” publicou uma “notícia” de primeira página – mas que na verdade era um ataque pessoal mal investigado – assinado por Jason Horowitz, muito na mesma linha: “Steve Bannon Leva a sua Batalha para Outro Local Influente: O Vaticano”.

Toda a história assenta numa reunião que teve lugar em 2014 entre o Cardeal Burke e Steve Bannon, o arruaceiro da Casa Branca. Na sua histeria contra o Presidente Trump, os media adoram caracterizar Bannon como uma espécie de “storm trooper”. Não sou fã de Bannon ou da Breitbart, que ele geria. (Aliás, uma vez recusei um convite para aparecer na Rádio Breitbart para conversar com Bannon sobre católicos críticos de Trump porque sabia que ele me ia atacar. Prometeu que não o faria, mas depois fez exactamente isso à pessoa que compareceu, o Robert P. George.) Ainda assim, a verdade é a verdade. Do meu ponto de vista o modus operandi de Bannon é muitas vezes autodestrutivo, mas os media estão simplesmente a descredibilizar-se com esta caça às bruxas no gabinete de Trump.

Mas regressemos a Burke. A história do “Post” parte dessa reunião de 2014 e tece uma narrativa absolutamente delirante: Que Burke faz parte de um movimento global anti-islâmico, anti-mulher, nacionalista e pró-tudo-o-que-é-mau, que chegou ao poder com a vitória de Trump e que tem à cabeça Steve Bannon. Mas como o nosso amigo astuto Phil Lawler fez notar, essa reunião aconteceu em 2014, ou seja quase dois anos antes de Trump se candidatar sequer à Presidência e muito tempo antes de alguém imaginar sequer que Bannon viesse a trabalhar para ele. Então como é que essa reunião de há anos marca Burke de tal forma que obriga o Papa Francisco a “Limpar a Podridão de Extrema-direita da Igreja Católica”?

Bom, Bannon também falou numa conferência patrocinada pela Fundação Dignitatis Humanae, em Roma, em 2014. Burke faz parte da direcção da DH. Logo, o político três vezes divorciado e o defensor incansável da indissolubilidade matrimonial devem estar completamente alinhados, não?

E a nossa colunista intrépida ainda conseguiu descobrir que outro cardeal da direcção da DH também assinou a carta com as Dubia sobre o Amoris laetitia. Com isto está a insinuar, claro, que a oposição à comunhão para divorciados recasados faz parte do pacote de “podridão de extrema-direita”.

Tal como acontece com grande parte da imprensa, o que se está a fazer aqui é traçar uma linha imaginária entre as duas realidades que qualquer pessoa que saiba o mínimo sobre o assunto só pode descartar. O Bannon é, como já disse, um arruaceiro – às vezes o mundo precisa de certo tipo de arruaceiros. Burke, por outro lado, é um homem profundamente gentil – e o mundo também precisa destes. Quem não sabe isto não conhece o Burke. Bannon tem falado da ameaça do Islão e do Marxismo cultural para o Ocidente e da necessidade de os combater politicamente. Burke também – como muitos de nós – mas como devem imaginar fê-lo por razões bastante diferentes e, sobretudo, com uma entoação muito diferente.

Cardeal Raymond Burke
De forma geral Burke tem-se preocupado com assuntos doutrinais na Igreja e – não nos esqueçamos – foi prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica. Estamos a falar de coisas técnicas e intelectuais e não de populismo nem de política partidária. De facto ele fala frequentemente – de uma forma que, quanto a mim, exprime a sua maior paixão – sobre como o falhanço da educação católica ao longo dos últimos 50 anos feriu a Igreja e obscureceu os ensinamentos que Jesus lhe confiou para nossa salvação. Tem dito francamente pouco que pudesse ser considerado político, no sentido normal da palavra.

Mas liga-se o Bannon ao Burke, sugerindo culpa por associação, e tem-se uma verdadeira festa para a esquerda. O Cardeal já estava nas más graças de Francisco por causa da situação da Ordem de Malta – outro assunto confuso. Mas ainda por cima o Papa acaba de nomear um delegado pessoal para a Ordem de Malta o que parece deixar o Cardeal Patrono sem portfolio. O artigo do “Post” não ajuda em nada.

E depois, claro, há a questão de Burke e outros três cardeais terem publicado as “dúbia” sobre o Amoris laetitia – perguntando não só se agora, contrariando a história católica, é permitido dar comunhão aos divorciados recasados, mas também se estamos perante mudanças no campo da teologia moral em relação à consciência, normas sem excepção, mal intrínseco e a própria teologia da Santa Eucaristia.

Até se pode acreditar que Burke e companhia erraram ao publicar as “dubia”, que anteriormente tinham sido apresentadas privadamente ao Papa. Ou então que Burke tem sido tratado injustamente, como tem acontecido a outros na Curia, ao ser demitido das suas funções sem explicação. Mas é preciso ser completamente louco para colocar no mesmo saco este cardeal de brandos costumes e tudo o que os media acham repugnante – ou pior – na nova Administração americana.

É mais um sinal da confusão que existe actualmente na Igreja e no mundo.

Uma das categorias morais que tem desaparecido, juntamente com muitas outras coisas da cultura ocidental, é a noção de difamação. É pior do que mentir. É mentir com a intenção de causar dano. Vejam no dicionário. E por favor, reconheçam-na quando a virem.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cristianismo que não se verga, nem perante o absurdo

Bateladas de dons
O Papa Francisco não esquece o conflito na Ucrânia e por isso destinou às vítimas do conflito naquele país a receita dos peditórios de todas as missas na Europa do próximo fim-de-semana.

Ontem o Papa voltou a falar dos refugiados, descrevendo-os como “um dom” e não “um custo” e pedindo-lhes perdão pela falta de abertura e indiferença de que são vítimas. No fim-de-semana Francisco tinha recordado a história de um muçulmano que conheceu em Lesbos, cuja mulher cristã tinha sido degolada por terroristas.

A exortação do Papa continua a dar que falar. A jornalista Matilde Torres Pereira foi falar com casais católicos em situação irregular para saber como encaram o documento.

E esteve em Portugal, para participar no Meeting de Lisboa, o responsável pelo movimento Comunhão e Libertação. O padre Julian Carron apresenta um Cristianismo que “não se verga perante as dificuldades”.

Hoje é quarta-feira, dia de artigo do The Catholic Thing. Esta semana David Carlin fala-nos da “revolução do absurdo”, ou como a nova ortodoxia liberal insiste que devemos acreditar emcoisas que não fazem o menor sentido.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Amoris Laetitia decoded e aniversários vários

Afinal de contas, o que diz o “Amoris Laetitia”? Eu continuo convencido que diz que algumas pessoas em situação irregular poderão comungar, após processo de discernimento. Explico porquê neste texto.

O Papa Francisco vai visitar a ilha de Lesbos precisamente para recolocar o drama dos refugiados no mapa e nas atenções do mundo, diz o cardeal Peter Turkson.

Foi publicado em Portugal o livro com perguntas que crianças fizeram ao Papa e com as respostas dele. Conheça-o aqui.

Não fui o único a fazer anos este fim-de-semana. A Renascença também está de parabéns!

Hoje é a vez dos Leigos para o Desenvolvimento e no sábado foi a vez das Doroteia sem Portugal.

Afinal de contas o que é que diz o Amoris Laetitia sobre divorciados recasados?

Recebi o texto completo da exortação apostólica Amoris Laetitia no início da tarde de quinta-feira, ainda com embargo, obviamente, e estive a lê-lo e a escrever sobre ele até às 4h.

Quando acabei de ler o capítulo VIII fiquei sem qualquer dúvida de que o Papa Francisco acabava de legitimar que algumas pessoas em situação matrimonial irregular podem vir a ser admitidas aos sacramentos.

Mas nem toda a gente achou o mesmo.

Só hoje tive oportunidade para fazer uma leitura mais alargada das reacções no resto do mundo. Para além dos muitos órgãos de informação que claramente não pescaram nada do que estava escrito no documento e por isso fizeram títulos genéricos, noto algumas tendências claras.

Por um lado há os liberais que sempre foram a favor de que os divorciados recasados fossem admitidos aos sacramentos e que não perderam tempo em dizer que era precisamente isso que o Papa tinha acabado de fazer.

Por outro lado, há os que não concordam que os divorciados recasados sejam admitidos aos sacramentos e, como o Papa nunca o diz claramente no texto, vieram dizer que afinal tinha ficado tudo na mesma.

Interessantemente há ainda outra classe de conservadores que lendo o texto admitiram, nalguns casos horrorizados, que o Papa acabava de abrir uma via para que pessoas em situação irregular possam comungar.

Claro que isto não são categorias estanques. Haverá certamente muitos que, como eu, ao longo dos últimos dois anos acharam que não seria possível o Papa chegar a esta conclusão, mas que agora, perante esta exortação, não têm problemas em compreender que o Papa é ele, e não eu, e por isso aceitam com filial obediência o que Francisco escreve.

Mas para isso é preciso primeiro compreender o que é que ele escreve…

A chave, para mim, está nesta passagem: “A Igreja possui uma sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”.

Não há dúvida que o Papa está a falar de casos irregulares. São os tais divorciados recasados (podendo ser que apenas uma das partes tenha sido casada pela Igreja). Não sei se as pessoas em união de facto poderiam também estar abrangidas.

Que o Papa diz que algumas das pessoas nestas situações podem não estar em pecado mortal é também claro. Ora, se uma pessoa não se encontra em pecado mortal, se não está privado “da graça santificante”, então porque é que não pode comungar?

A lógica da proibição anterior era simples. Quem está numa situação irregular comete adultério, o adultério é um pecado mortal, quem está em pecado mortal não pode comungar. Simples. Dizendo que há quem não esteja em pecado mortal interrompe esta sequência lógica.

Há quem coloque objecções. Alguns dizem que embora o Papa fale na necessidade de se integrar as pessoas nestas situações, nunca se refere explicitamente à disciplina sacramental. Mas isso não é verdade. No ponto 305 Francisco diz: “por causa dos condicionalismos ou dos factores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio de uma situação objectiva de pecado – mas subjectivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja.”

O tipo de ajuda está explicitado numa nota de rodapé: “Em certos casos poderia haver também a ajuda dos sacramentos. Por isso, aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do senhor e de igual modo assinalo que a Eucaristia não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos”.

Não é por isso verdade que Francisco não se refira explicitamente à disciplina sacramental. E pergunto: Neste contexto, nesta exortação, a que mais é que o Papa se poderá estar a referir do que ao acesso de algumas pessoas em situação irregular aos sacramentos? Que mais é que isto poderia querer dizer?

Ainda assim, há quem avance outra teoria. Dizem que o Papa está simplesmente a referir-se a pessoas que, vivendo num casamento aparentemente irregular, cumprem o requisito da castidade, vivendo “como irmãos” e por isso podem comungar e confessar-se. Isto não será então uma novidade, já existe há anos.

Mas também não me parece provável. Por duas razões. Primeiro, porque viver na mesma casa que alguém não é adultério nem pecado. Por isso, se Francisco estivesse a falar destes casos, não faria sentido falar numa “situação objectiva de pecado”, porque de facto as pessoas nessa situação não estão em pecado.

Mas há mais. O Papa fala de facto sobre as pessoas que vivem “como irmãos”, novamente numa nota de rodapé do parágrafo 298, e não é propriamente uma referência muito entusiástica. “Nestas situações, muitos, conhecendo e aceitando a possibilidade de conviver ‘como irmão e irmã’ que a Igreja lhes oferece, assinalam que, se faltam algumas expressões de intimidade, ‘não raro se põe em risco a fidelidade e se compromete o bem da prole’”.

O facto de, já no final do texto, o Papa escrever “compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma; mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade”.

O que é isto se não uma admissão de que aquilo que o Papa acaba de propor é uma pastoral que permite soluções diferentes para diferentes situações? O que tínhamos antes era claro. Se agora não é, é porque mudou. E mudou para ficar tudo igual mas com termos mais confusos? Não me parece…

Dito tudo isto não quero deixar de sublinhar que esta exortação é muito mais do que apenas o capítulo VIII. Leiam-no, porque vale a pena. Leiam-no com calma e, de preferência, em grupos onde seja possível fazer uma discussão informada e bem-intencionada.

Na Renascença podem ler ainda a cobertura completa sobre a exortação e aqui, mais especificamente, o artigo com a análise do capítulo VIII.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Recasados podem comungar? Parece que sim, mas talvez não


O tema que está a atrair mais atenções, claro, é sobre os divorciados recasados. Francisco diz claramente que é possível estar numa situação irregular sem estar em pecado mortal. A meu ver esta é a chave de leitura desse capítulo e não me parece deixar margem para dúvidas que o Papa está a abrir caminho para que algumas pessoas nessas situações comunguem. Nem todos concordam, nada como ler por si mesmo.


Seria uma pena, porém, que a excessiva atenção sobre esse ponto acabasse por esconder outros também muito interessantes.
- Uma longa exposição, muito pessoal, sobre a educação, incluindo educação sexual e crítica aos estereótipos masculinos e femininos;
- Defesa da natalidade e rejeição da ideia de que a emancipação da mulher seja culpada pela crise das famílias

Por fim, e talvez surpreendentemente, há muito pouco na exortação sobre homossexualidade.

O padre Duarte da Cunha, que participou no sínodo de 2015, diz que a exortação vai mudar atitudes na Igreja e a terapeuta familiar e psicóloga Teresa Ribeiro elogia a profundidade das passagens sobre amor e educação.

Com tudo isto, poderá ter passado despercebida a repetida e enfática condenação dos bispos portugueses à eutanásia e ainda a confirmação da visita do Papa a Lesbos, no dia 16 deste mês.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing e, se tiverem por Cascais e interessados em saber mais sobre a cultura do Perdão podem ir ouvir-me falar às 16h na Igreja dos Navegantes, na jornada diocesana da juventude.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Texto e o Contexto

O sínodo sobre a família de 2015 já acabou, depois de ter produzido vários pontos positivos, e não poucos negativos. O relatório final contém algumas reflexões espirituais fortes, inspiradas pelas Sagradas Escrituras e as tradições da Igreja. Trata também de forma realística muitas das situações políticas, sociais e culturais de famílias em todo o mundo – situações que variam muito: Desde a cultura hedonista e saturada de sexo do Ocidente às condições de guerra e perseguição do Médio Oriente e África. Alguns parágrafos eram escusados. Se o virmos apenas como uma visão geral da família, tem o seu valor. Mas o contexto em que o texto foi elaborado é outra coisa e será uma ferida aberta durante muitos anos.

Um tema repetido muitas vezes pelos padres sinodais durante as últimas três semanas é que uma Igreja preocupada com o futuro da família estaria a adoptar uma visão muito estreita se se limitasse a reflectir preocupações ocidentais sobre divorciados e homossexuais. Um dos sinais do quão longe o sínodo de 2015 já foi, apesar de ainda haver problemas, é que já não há nada daquela linguagem de “aceitar e valorizar… orientação sexual gay, sem pôr em causa a doutrina católica da família e do matrimónio”, trata-se de uma recuo grande em relação ao relatório intermédio de 2014. Durante o fim-de-semana, a BBC disse que o Papa Francisco tinha sido “derrotado” na questão dos homossexuais – o que não é particularmente correcto, tendo em conta que ele não defende o casamento gay. E ainda por cima, o instrumentum laboris, com o qual ele teve pouco que ver, não dizia grande coisa sobre homossexualidade. Mas a cadeia britânica não foi a única a inventar coisas de acordo com as suas próprias obsessões. Cuidado com estes relatos e com os media em geral. 

Uma boa parte do relatório final é útil e reflecte uma Igreja global interessada em proclamar a Boa Nova e em corresponder às responsabilidades de todas as famílias do mundo. Quando for traduzido, valerá a pena passar algumas horas a estudar, por parte de todos os que se interessam pelos actuais problemas e pelo futuro das famílias.

Mas a questão do acesso à comunhão por parte de divorciados recasados continuou a absorver a maior parte das atenções no mundo desenvolvido – sobretudo nos media. Teria sido bom poder dizer que agora sabemos em que situação estamos. O Wall Street Journal não tem dúvidas: “Bispos entregam ao Papa uma derrota na aproximação aos católicos divorciados”. (Que é como quem diz, como muitos repararam, que não existe uma referência clara ao acesso à Comunhão para estas pessoas no documento e, por isso, não existe apoio textual para uma das correntes que consta do processo sinodal desde que o Cardeal Walter Kasper se dirigiu aos bispos, a convite do Papa, no dia 15 de Fevereiro de 2014). Mas o jornal romano Il Messagero leu a coisa de maneira diferente: “Sim, para os divorciados recasados”. Outros, que queiram que essa seja a mensagem, também o afirmarão. Na verdade, o resultado foi, como tem sido frequente com este Papa, confuso.

Os bispos optaram por não votar sobre o documento como um todo, mas apenas nos parágrafos individuais, o que faz do texto, no fundo, uma série de reflexões apresentadas ao Papa para sua consideração e não uma afirmação global aprovada formalmente pelos padres sinodais. Teremos de esperar por Francisco para ele nos dizer o que considera que deve ser o próximo passo. Poderá ter tornado a sua vida mais complicada tanto pela forma como o sínodo foi gerido como (ver abaixo) pela forma zangada como reagiu às críticas e para com os mais conservadores.

Apesar do que se possa vir a dizer ao longo das próximas semanas, vale a pena repetir: O relatório final do sínodo não refere o acesso à comunhão para os divorciados recasados. Se é isso que o Papa quer, terá de ser ele a colocá-lo lá. Como temos dito desde o início, houve oposição clara a essa proposta em si. Por causa da controvérsia, a linguagem final sobre a relação entre a consciência e a lei moral é muito mais clara no texto final do que no instrumentum laboris. Mas alguns parágrafos do texto final – que obtiveram o maior número de votos negativos – exploram muito a ideia do “discernimento” das circunstâncias individuais e invocam o “foro interno”, ou seja, a direcção privada por um padre ou bispo, chegando mesmo até à fronteira do acesso à Eucaristia, sem o pôr em palavras.

Alguns jornalistas dizem que isto se trata de uma forte defesa do ensinamento actual da Igreja, mas essa é uma caracterização demasiado optimista. Mas também não é um livre-trânsito para liberais. Houve esforços nas discussões do último dia para deixar claro que isto não era um convite para mudar a doutrina ou a disciplina. O padre Federico Lombardi sublinhou propositadamente a continuidade com os ensinamentos de São João Paulo II e Bento XVI . O Cardeal de Viena, Christoph Schönborn, realçou, de forma menos convincente, que haveria critérios claros para guiar esse discernimento.

Os critérios existem, mas se são claros é outra questão. Quando se olha para o texto, o que vemos é isto (tradução da nossa autoria, uma vez que o texto em português ainda não foi publicado):

85. São João Paulo II ofereceu critérios compreensivos, que permanecem a base de avaliação para estas situações. “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjectivamente certos em consciência de que o precedente matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido.”

Aqui vemos João Paulo II a ser usado para dar força à ideia de um discernimento mais vigoroso, o que em si pode ser esticar a corda, tendo em conta a forma como o discernimento é entendido hoje em dia. O que falta é o que JPII diz passados dois parágrafos, no Familiaris Consortio: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio”.

A indissolubilidade é afirmada noutros pontos do relatório final e há passagens polvilhadas pelo texto que sugerem mais claramente aquilo que o Papa João Paulo II disse. Há também referências ao Catecismo da Igreja Católica sobre “inimputabilidade”, quando as circunstâncias diminuem ou anulam mesmo a responsabilidade pessoal. Devidamente seguidas, todas estas citações poderiam significar que nada mudou na prática da Igreja. Mas oitenta padres sinodais votaram contra este parágrafo, o maior número de votos contra de qualquer parágrafo isolado porque, sem permitir explicitamente uma mudança na prática, ele tem o potencial de permitir muitas escapatórias.

A questão que está a gerar mais controvérsia é esta: O discernimento será devidamente conduzido na linha dos princípios morais firmes enunciados por JPII? É aqui que alguns optam pela abordagem do Wall Street Journal e outros pela do Il Messagero. As palavras do texto são estas:

86: O percurso de acompanhamento e discernimento orienta estes fiéis em direcção a um exame de consciência sobre a sua situação diante de Deus. A discussão com o sacerdote, no foro interno, caminha juntamente com a formação de um juízo correcto sobre aquilo que bloqueia a possibilidade de uma melhor participação na vida da Igreja e sobre os passos requeridos para que ela cresça. Tendo em conta que na mesma lei não existe gradualidade (cf. Familiaris Consortio 34), este discernimento nunca pode prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade, como propostas pela Igreja. Para que isto possa acontecer, devem ser garantidas as condições necessárias de humildade, reserva, amor pela Igreja e pelos seus ensinamentos, na busca sincera pela vontade de Deus e no desejo de responder a ela de forma mais perfeita.

Para chegar a este texto foi preciso muito ajuste e os peritos em teologia irão sem dúvida analisá-lo cuidadosamente. Mas lendo-o como está, e retirado do contexto polémico, até se poderia dizer que tinha sido escrito por João Paulo II. A frase que eu destaquei em itálicos parece dar bastante força à necessidade de uma mudança de vida para remover obstáculos, mais do que outra coisa qualquer. E quando se diz que não existe gradualidade na lei, está-se a dizer que as pessoas se aproximam gradualmente daquilo que devem seguir, mas que a lei é constante e não pode ser abrogada simplesmente porque há pessoas que levam mais tempo a harmonizar-se com ela. Ainda assim, há uma razão pela qual 64 padres sinodais votaram contra este parágrafo, talvez não tanto pelo que diz, mas por aquilo a que poderá conduzir no actual clima que se vive na Igreja.

Mas também vale a pena notar os votos para o Conselho do Sínodo, o grupo que governa os próximos sínodos. Tal como disse na sexta-feira (apesar de os resultados oficiais ainda não serem públicos nessa altura), estes mostram basicamente que existe uma maioria de dois terços a favor do ensinamento católico tradicional. O jornalista Sandro Magister disse durante o fim-de-semana que o arcebispo Charles Chaput, de Filadélfia, foi quem recebeu o maior número de votos de todo o mundo, embora os cardeais George Pell e Robert Sarah também tenham tido números significativos. Isto são excelentes notícias. Das américas temos também o canadiano Cardeal Marc Ouellet (um tipo formidável), e o Cardeal Oscar Maradiaga (muito próximo do Papa). Da Ásia os cardeais Pell, Oswald Gracias (Bombaím) e Luis Antonio Tagle (Manila). De África os cardeais Sarah, Wilfred Napier, e o bispo Mathieu Madega Lebouakehan, do Gabão.

Só na Europa é que as escolhas foram mais fraquinhas: Schönborn, o arcebispo inglês Vincent Nichols e o arcebispo Bruno Forte (cardeais italianos fortes como o Scola, o Caffara e o Bagnasco tiverem também muitos votos individuais, e se os italianos se tivessem unido atrás de um candidato, este teria arrasado). Em todo o caso, na medida em que o Conselho do Sínodo conduzirá os eventos futuros, há uma preponderância de figuras sérias e a sua selecção demonstra o sentir geral dos padres sinodais.

O próprio Papa não estava particularmente contente no final dos procedimentos, embora como é hábito em eventos do Vaticano a linha oficial tenha sido que tudo terminou numa grande demonstração de fraternidade e sinodalidade, incluindo uma ovação de pé no final do seu discurso. Entre muitas afirmações positivas, contudo, Francisco expressou irritação com partes da conversa. “Ao longo deste sínodo foram livremente expressas opiniões diferentes – por vezes, infelizmente, de forma pouco caridosa…”

E nas suas declarações sobre a razão de ser do sínodo, disse: “Tratou-se de abrir os corações fechados, que frequentemente se escondem mesmo atrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções, para se sentarem na cátedra de Moisés e julgar, por vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas”.

Este é um tema recorrente com ele. Ninguém negaria que existem pessoas autoritárias entre aqueles que enfatizam os ensinamentos tradicionais – tal como há pessoas autoritárias com opiniões teológicas contrárias. Mas estas são as franjas, os poucos. Muitos clérigos e leigos ficaram ofendidos – e enfurecidos – com esta afirmação. É justo sublinhar que pode bem ter estado a dizer que alguns tradicionalistas são duros de coração, mas não foi essa a leitura que a maioria das pessoas fez e é natural que isso venha a exacerbar as divisões que já existem.

Esta é a realidade com que teremos de lidar nos próximos tempos na Igreja. O Relatório Final é um texto tolerável, sobretudo tendo em conta que é produto de uma comissão de 270 pessoas. Se tivesse aparecido durante o pontificado de João Paulo II, teria causado pouco alarido. Mas num contexto de suspeição mútua e de revolta, o tolerável pode bem tornar-se intolerável.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 26 de Outubro de 2015)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Acesso aos sacramentos para divorciados recasados – revisitado

Concílio de Trento
O ano passado escrevi dois textos sobre este assunto, um primeiro em que levantei uma hipótese de como se poderia arranjar forma de permitir o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares sem pôr em causa a questão da indissolubilidade, nomeadamente “baixando a fasquia” para acesso aos sacramentos, permitindo assim que pessoas em situação de pecado pudessem comungar. Esse texto motivou uma discussão viva e interessante que me levou a escrever um segundo artigo, em que concluí que afinal não me parecia possível fazer-se essa alteração sem, de alguma forma, contrariar a doutrina da Igreja.

Este texto não pretende voltar aos mesmos argumentos, nem apresentar uma ou outra solução, mas apenas levantar algumas questões interessantes que me parece estarem a passar ao lado da maioria dos debates.

Li recentemente o artigo do Padre Miguel Almeida s.j. na mais recente edição da Brotéria, que achei muito interessante. O padre Miguel parece defender o acesso dos divorciados recasados aos sacramentos e embora não me tenha deixado convencido das suas conclusões, convenceu-me de muitos outros pontos pelo caminho.

Os conservadores invocam constantemente – e de forma compreensível – as palavras de Jesus aos seus discípulos “Não separe o homem o que Deus uniu”. Contudo, ainda nos tempos apostólicos aparece evidente que São Paulo, por exemplo, achou-se na liberdade de abrir excepções a estas palavras duras.

Recordo que Jesus não estava a falar especificamente de casamentos cristãos sacramentais. Pelo contrário, estava a falar especificamente de casamentos judaicos, que não eram então, nem são hoje, sacramentais do ponto de vista cristão. Mas o casamento é uma instituição natural e o que Jesus nos diz é que qualquer casamento é, seja sacramental ou não, algo que Deus uniu e que o homem não deve separar. Isto não se aplica a cristãos que optem conscientemente por não casar pela Igreja, mas só pelo civil, mas aplica-se a um casal de hindus, a um casal de aborígenes, de esquimós ou de neo-pagãos da Suécia.

No entanto a Igreja desde cedo permite o chamado privilégio paulino, em que a Igreja usa do seu poder para “ligar e desligar” para dissolver o casamento natural entre dois não-baptizados quando uma das pessoas pretende tornar-se cristã e casar novamente dentro da fé.

Há outros casos levantados no artigo, já do conhecimento dos historiadores e teólgos, que são debatidos para trás e para a frente, mas parece-me que este exemplo do privilégio paulino é indiscutível e claro e abre desde já uma premissa: Se se pode abrir uma excepção ao que Jesus disse, então os Papas e os sucessores dos apóstolos podem abrir outras excepções.

Isto é basicamente o que os ortodoxos já fazem. Mas isso não é, ou parece não ser, o que os defensores da abertura do acesso aos sacramentos para recasados defendem, uma vez que eles não propõem que a Igreja aceite a celebração de novos casamentos. Ora aqui é que se dá um salto lógico que eu não entendo, porque se no privilégio paulino se aceita a dissolução do casamento, permite-se às pessoas regularizar a sua situação, casando novamente. Isto sim, pode ser apresentado como misericórdia. Mas a opção de simplesmente deixar andar a situação da segunda união não resolve o problema de fundo. Aquelas pessoas, por duras que sejam as palavras, estão em situação de adultério e, por isso, em pecado grave e é isso que as impede de comungar.

A solução apenas poderia passar, a meu ver, pela dissolução oficial do primeiro casamento, invocando o poder apostólico de ligar e desligar, para que a segunda união fosse regularizada. Mas aqui chegamos a outro obstáculo, que raramente vejo abordado nestas discussões.
Casamento - uma realidade natural

O Concílio de Trento diz o seguinte no seu cânone VII sobre o sacramento do matrimónio. “Se alguém disser que a Igreja erra quando ensina, segundo a doutrina do Evangelho e dos Apóstolos, que não se pode dissolver o vínculo do Matrimónio pelo adultério de um dos consortes, e quando ensina que nenhum dos dois, nem mesmo o inocente que não deu motivo ao adultério, pode contrair outro matrimónio, vivendo com outro consorte, e que cai em fornicação aquele que casar com outra, deixada a primeira por ser adúltera, ou a que deixando o adúltero se casar com outro, seja excomungado.”

Aqui quase que vejo algumas pessoas a levar a mão à cabeça em desespero: “Mas então ele vai buscar os cânones de um concílio do século XVI? O que é que isso interessa?”

Mas interessa muito, a meu ver, porque é isto que nos torna católicos. Ou nós acreditamos que o Espírito Santo inspira as decisões dos bispos quando falam em união com Pedro ou não acreditamos. Não podemos dizer que o fez em 1963 e que o fez no conclave de 2013 mas que em 1563 não esteve para isso. É por isso que insistimos que não se pode mudar a doutrina, porque estamos ligados ao que herdámos. Se nos desligarmos disso não há nada que impeça os nossos filhos e netos de se desligarem de tudo o resto, não há nada que impeça a minoria de contestar a eleição do próximo Papa e o resto conta-se em cismas.

Tudo isto para dizer que, do meu ponto de vista, quem defende o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares tem de me demonstrar pelo menos uma das seguintes premissas:

1)            Que o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em estado de pecado grave – como é o adultério – não contraria a doutrina estabelecida.
2)            Que é possível contrariar directamente o cânone VII sobre o casamento do Concílio de Trento sem que isso implique uma ruptura com a doutrina do casamento.

Digo isto com a plena consciência de não ser teólogo e de, por isso, não ser especialista. Os especialistas que o vejam como um convite a desmascarar a minha profunda ignorância sobre o assunto, que assim todos ficamos a ganhar!

Peço, por favor, que nada disto seja lido como uma crítica ou um juízo de valor aos muitos casais que se encontram nesta situação e que sofrem com isso. Todos temos amigos, irmãos, pais ou tios que se encontram nessa posição. Pretendo apenas aqui contribuir para o debate, dentro daquilo que é a tradição católica, que devemos preservar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A Criança Invisível

Anthony Esolen
Ultimamente tenho pensado em casamentos e processos de nulidade e na instrução do Senhor de que devíamos sair em busca da ovelha perdida no deserto, longe das outras 99. Creio profundamente nessa instrução, porque essa ovelha era eu.

Mas o que acontece se for devido à nossa negligência e desobediência que a ovelha se perde? Será que o pastor vai em busca da ovelha perdida só porque isso é mais fácil do que cuidar do aprisco que deixou degradar-se? Vemo-lo a cantarolar pelo prado enquanto o lobo se aproxima? E quando regressa com a ovelha perdida dá-se ao trabalho de contar as que permanecem? Repara sequer no sangue e nas entranhas que mancham as paredes em ruínas?

Um rapaz tinha uma mãe e um pai. Eles tinham prometido amar-se um ao outro e serem fiéis até que a morte, e só a morte, os separasse. Não eram mentalmente débeis, sabiam o que significavam as palavras daquela promessa. E o rapaz era feliz.

Depois apareceu o Pai das Nuances, que sussurrou ao marido que as palavras são só palavras, não são coisas, e que as palavras estão sujeitas a interpretação, e que uma palavra proferida com total confiança num contexto poderia não ter o mesmo significado quando o contexto mudasse. E tinha mudado, porque a mulher era agora mais velha e os seus hábitos femininos que em tempos tinham fascinado o marido, agora não passavam de alfinetadas e beliscões. Por isso ele começou a deixar o seu olhar resvalar e o seu coração endureceu.

“Mulher”, disse, “vou levar a minha metade dos bens, que me pertence”. E ela não pôde fazer nada, por causa das leis do país onde viviam. Por isso ele vendeu a casa, a casa que o rapaz tanto amava, e levou metade dos bens e viajou para um país distante. Mas não foi sozinho. Levou outra mulher com ele.

E o rapaz amava o seu pai, porque era seu pai; e odiava-o, porque os tinha abandonado. E não havia quem o conseguisse consolar. Os seus professores chegaram ao ponto de lhe dizer que tinha sorte, porque agora tinha duas mães em vez de uma e duas casas também. Em breve teria também dois pais, porque a sua mãe desanimou.

Ela foi ter com um padre e disse: “Vê como o meu marido nos deixou a sangrar na berma da estrada”. Mas o padre não podia fazer nada por ela, incentivou-a a perdoar o marido e sugeriu que se juntasse a um grupo da paróquia para adultos solteiros. Foi ter com um escriba, perito na lei, e disse: “Vê como o meu marido quebrou os seus votos, agora estamos em sofrimento”, mas o escriba sorriu e disse que ela devia estar satisfeita com o que tinha recebido, que era bem generoso. 

E por isso desanimou. E um dia quando ela e o seu filho estavam no Templo, juntamente com outros, em oração, ouviu as palavras daquele que disse, “Então eles já não serão dois, mas uma só carne. E por isso não separe o homem o que Deus uniu”.

E então o padre disse que as palavras não passam de palavras, e que as palavras estão sujeitas a interpretação, e que uma palavra proferida num contexto não tem de significar o mesmo quando o contexto mudar. E tinha mudado, porque o padre incentivou os fiéis a abrirem as suas mentes e aceitar os fornicadores, os sodomitas e os adúlteros no meio deles. E o rapaz ouviu tudo, e passou a acreditar que tudo aquilo não passava de uma mentira.

Era suposto dizer que gostava de visitar o seu pai e a mulher que tinha ajudado a estragar a sua juventude, mas era mentira. Era suposto dizer que acreditava nas palavras de Jesus, mas pelos vistos ninguém acreditava nelas, em vez disso mentiam continuamente. A sua mãe passou a viver com outro homem, sem se dar ao trabalho de casar, porque ninguém acreditava que existia ligação entre o casamento e o acto conjugal, por isso deitavam-se no seu pecado como se nada fosse, continuamente. Era suposto ele amar aquele homem, e de certa forma amava, mas também era suposto fingir que tudo tinha acabado da melhor maneira, o que também era mentira.

"Por isso embriagou-se..."
Quando o seu corpo estava preparado para a fornicação, também ele estava. Tornou-se especialista no acto de dizer, com o seu corpo, “sou teu para sempre”, quando na verdade “para sempre” queria dizer apenas “até ficar farto de ti”, o que por vezes acontecia pouco tempo depois, outras vezes esgotava-se no próprio acto. Mas as raparigas mentiam também, por isso não devemos sentir muita pena por elas.

Então um dia o seu pai regressou com a madrasta e as pessoas foram instruídas a celebrar, porque ele tinha regressado. Não tinha regressado à sua mulher, e não procurou recompensar o seu filho pela sua tristeza, abandono e perda de fé. Não disse “trata-me como um dos teus empregados, porque pequei contra Deus e contra ti”, disse: “Vinde e festejai comigo, porque regressei!”

E o bispo gordo disse ao rapaz: “É bom que vás festejar com o teu pai, porque ele regressou”.

Por isso o rapaz foi para o banquete e embriagou-se. Afastou da memória as muitas vezes que tinha chorado de noite, porque o seu pai não estava lá. Afastou da memória aquele primeiro dia em que percebeu que ninguém dizia a verdade. Afastou da sua imaginação aquele Jesus que disse: “Deixai vir a mim as criancinhas”.

Pendurou uma mó à volta do seu coração. Não perdoou, porque toda a gente lhe dizia que não havia nada a perdoar. Por isso embriagou-se.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 30 de Setembro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Os turcos estão na fronteira... mas não avançam

Estaremos à beira de mais uma chacina no Médio Oriente? O Estado Islâmico já conseguiu entrar na cidade de Kobani, cujos habitantes estão a resistir ferozmente. A Turquia, com o segundo maior exército do mundo, está atenta… mas não faz nada.

Também na Síria um padre foi raptado juntamente com outros 20 cristãos de uma aldeia. É mau sinal quando sentimos alívio por saber que os raptores são da Al-Qaeda, e não do Estado Islâmico.

Os casais estão a fazer toda a diferença no sínodo, facilitando as conversas sobre temas importantes.

Decorre no Algarve um encontro de associações de homossexuais católicos, que esperam mais acolhimento por parte da Igreja. Amanhã voltaremos a este tema com uma perspectiva diferente.

A semana passada publiquei uma reportagem com o testemunho de Joaquim Mexia Alves, que viveu nove anos como divorciado e recasado, sem poder comungar, enquanto esperava o resultado de um processo de nulidade. Hoje publico a transcrição completa da entrevista. Leitura obrigatória para quem vive esta situação, directa ou indirectamente.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Até a CDU vai à caminhada! E você não?

Políticos dos quatro principais partidos já se associaram à Caminhada Pela Vida e a Federação anuncia esta quinta-feira que vai recolher assinaturas para um projecto-lei que pretende limitar alguns aspectos da actual liberalização do aborto em Portugal.

Faltam então dois dias para a Caminhada e a coisa começa a compor-se. O sol vai brilhar, não há futebol à mesma hora, não há razão para ficar em casa. Mas caso ainda esteja com dúvidas, ouça isto para mudar de ideias.

Ontem demos conta do debate entre vários cardeais sobre a questão dos divorciados e recasados e o acesso à comunhão. Hoje temos um interessantíssimo testemunho de um homem que viveu 9 anos nessa situação em fidelidade à Igreja e com serenidade. É o caminho certo, acredita o Joaquim.

Thereza Ameal lançou mais um livro. “Rezar, cantar e crescer” já está nas bancas.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, escrito e traduzido a pensar em todos aqueles que se dedicam a discutir e criticar em nome da religião. Mesmo que não seja o seu caso, não deixe de ler.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mensagem do Papa para pró-vidas Portugueses!

O que é que Alpha Blondy e o Papa têm em comum?
Ambos te querem na Caminhada Pela Vida 2014
Não vai ser o único tema, longe disso, mas é o mais polémico. No dia em que cinco cardeais lançam um livro em defesa da actual doutrina da Igreja, a Renascença faz um apanhado da discussão sobre o acesso dos divorciados e recasados aos sacramentos.

Precisa de mais alguma razão para ir à Caminhada Pela Vida, no sábado? Que tal o apoio e a bênção apostólica do Papa Francisco? É verdade. O Papa escreveu aos participantes da Caminhada, agradecendo o seu empenho na luta pela vida. Seja um deles!

Já agora, para ir entrando no espírito da coisa, ficam aqui umas boas vibrações. Destaco a letra: “Don’t blame the women, blame society. You gotta blame the system! Give the women everything that they need. No children, no future”.

Porque esta batalha, como tantas outras, trava-se sobretudo na arena dos corações e não da política ou da discussão, vem mesmo a propósito o artigo de Francis J. Beckwith, no The Catholic Thing, sobre como a razão tem a ver com muito mais do que apenas argumentos.

Uma última nota para avisar que a imagem de Nossa Senhora Peregrina chegou esta tarde ao IPO. Quem estiver por lá pode ir visitá-la… aproveitem para dar sangue!

Não esqueçam que esta noite há debate de religião na Renascença. A Caminhada Pela Vida é um dos temas que estará em discussão.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Divorciados, recasados e comunhão: Follow-up

Há dias escrevi um texto sobre a possibilidade do acesso à comunhão por parte de divorciados e “recasados”. Esse texto motivou uma grande e interessante discussão, na qual aprendi imenso. O que se segue são algumas das conclusões que tirei dessas discussões. Não vou repetir os meus argumentos, que podem encontrar no texto original.

Em primeiro lugar, tentei deixar claro, mas nem todos perceberam, que o meu texto era uma reflexão e não um manifesto. Penso que infelizmente temos pouco o hábito de discutir ideias de forma aberta, que não sejam necessariamente convicções. Mas é pena, porque é precisamente através dessas discussões, em que estamos abertos a reconhecer os nossos enganos e a razão dos outros, que crescemos.

Ora bem. Após estes dias de discussão, concluo que há apenas três possibilidades para que as pessoas em uniões irregulares sejam admitidas à comunhão.

Se a Igreja mudar ou reformular a doutrina da indissolubilidade do casamento.
Não acredito que isso seja possível e a minha reflexão, por causa disso, partia de outro pressuposto.

Se o adultério deixar de ser considerado pecado mortal.
O que não me parece provável nem aconselhável, embora como em tudo haja uma escala de gravidade para diferentes situações.

Se, mantendo-se a ideia do adultério como pecado mortal, for tomada a decisão de “baixar a fasquia” do acesso à comunhão, decidindo-se que não é necessário estar-se em estado de Graça para poder comungar. (Eu sei que "baixar a fasquia" tem um sentido perjorativo, mas não me vou pôr com jogos semânticos).

O meu argumento ia mais no sentido desta terceira hipótese.

Os meus adversários defendem que tal não é possível, pois a ideia de que só quem está em estado de Graça é que pode comungar é doutrina da Igreja que ninguém, nem o Papa nem os bispos, tem autoridade para alterar.

Não tenho qualquer problema em afirmar que reconheço aqui claramente um obstáculo que não pretendo, nem tenho capacidade para, discutir ou derrubar. Caso a ideia de que apenas quem está em estado de graça é que pode comungar seja, de facto, doutrina imutável, então sinceramente não vejo maneira de as pessoas em uniões irregulares poderem alguma vez vir a comungar.

Não sendo eu “liberal” ou “progressista”, não posso nem quero propor qualquer solução que seja uma ruptura com a tradição da Igreja.

Tudo o que eu respondi a quem me argumentou desta forma é que antes do Concílio Vaticano II reinava a ideia de que a doutrina da Igreja impedia certas mudanças, como a abertura ao ecumenismo, ao diálogo inter-religioso e à liberdade religiosa. Contudo, os padres conciliares conseguiram encontrar formas de reler e apresentar de forma diferente a doutrina, aceitando estas práticas de tal maneira que hoje não reconhecemos a Igreja sem elas. Como bem sabemos, os críticos do Concílio, tanto sede-vacantistas como os seguidores de Monsenhor Lefebvre, apontam precisamente estas “inovações” como razão para não aceitar o concílio, portanto a coisa não foi pacífica.

Eu não faço ideia se é ou não é possível “reler” a doutrina, à luz dos nossos tempos, para se proceder a estas mudanças. Se não for, então tenho que admitir que a minha própria reflexão deixa de me convencer. Contudo, teria muita cautela em colocar-me na posição de decidir quais são os limites da acção dos bispos nesta matéria.

Esperarei calmamente, e muito atentamente, o resultado do sínodo, aceitando sem reservas qualquer que seja a decisão. De facto, acho pouco provável que haja uma mudança significativa da Igreja a este respeito.

Não queria terminar sem dizer mais uma coisa. Ao longo destes dias foram muitas as pessoas que partilharam histórias de vida e testemunhos muito fortes, ou publicamente, ou directamente a mim, por mensagem privada.

Se há uma coisa que aprendi e que julgo que é muito importante realçar, é que mesmo que as pessoas nestas situações não possam voltar a comungar, existem outras formas de viver em Igreja e edificar uma relação com Cristo que deviam ser melhor conhecidas.

Nesse sentido aponto para o testemunho do Joaquim Mexia Alves, que passou por esta experiência e já falou dela várias vezes. Leiam, mesmo… não se vão arrepender.

terça-feira, 29 de abril de 2014

De concílios, revoluções e discussões

A caminho de Paris?
Começou esta manhã a reunião plenária da CEP. D. Manuel Clemente fez o discurso de abertura e recordou que tanto o Concílio Vaticano II como o 25 de Abril estão ainda por cumprir plenamente.


Faz hoje 9 meses que foi raptado o padre Paolo Dall’Oglio, na Síria. A sua família voltou a pedir a libertação do jesuíta e um site italiano diz que a informação indica que ele está vivo. Bom sinal, pelo menos!

Por fim, andam cabeções na estrada em França. Dois mil padres, diáconos, religiosos e seminaristas disputem o troféu de ciclismo para o clero.

Ontem apontei para uma reflexão que publiquei no blog sobre a questão dos divorciados, recasados e o acesso à comunhão. Tem motivado bastante discussão, tanto no espaço dos comentários como no Facebook. Gostaria de realçar três coisas.

1º Esta é uma reflexão, não mais que isso. Admito perfeitamente que esteja enganado em relação ao assunto. Se os bispos reafirmarem o “status quo”, serei o primeiro a aceitar e a recomendar que quem “fura o esquema” actualmente, acate obedientemente essa decisão.

2º Ao contrário do que eu mesmo esperava, a discussão à volta do tema tem sido civilizadíssima e muitíssimo interessante. Este é um tema que toca muita gente e que infelizmente é rapidamente visto como uma guerra entre “conservadores e liberais”. Fico muito contente por ver a elevação com que tem decorrido tanto no blogue como no Facebook.

3º O que mais gostaria de sublinhar é que desde que publiquei o texto, e no seguimento das discussões, já três pessoas me enviaram e-mails ou mensagens pessoais a contar as suas próprias experiências, algumas profundamente dolorosas. São testemunhos nalguns casos contrários. Mas o que realço é que isto só é possível porque estas pessoas entenderam que eu entro nesta discussão de boa-fé e não com qualquer “agenda escondida”. Temo que haja quem não tenha compreendido bem isso, gostaria por isso de salientá-lo. Obrigado a todos!

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Divorciados, recasados e comunhão

 [Nota: A seguir a este texto escrevi um novo, com as conclusões da discussão que decorreu a este propósito. Aconselho a sua leitura também]

Este ano não há nada a fazer, o tema do casamento, das segundas uniões e do acesso aos sacramentos para pessoas em uniões irregulares não vai acalmar.

Em Outubro do ano passado o Papa convocou um sínodo para a Família, que vai inevitavelmente abordar estes temas, entre outros. Foi feito um inquérito aos fiéis, o que conduziu logo a uma maior atenção mediática e maior discussão nas redes sociais.

Desde essa altura temos assistido, a meu ver tristemente, a uma guerrilha pública entre cardeais, com uns e outros a apresentar os seus argumentos procurando marcar terreno. Pior, nalgumas dioceses vemos mesmo uma antecipação ao sínodo, procurando dessa forma condicionar as suas conclusões.

Até agora, tanto quanto vi, toda a discussão se tem centrado na indissolubilidade do casamento. Mas será a única abordagem? E se víssemos a questão pela perspectiva do acesso à comunhão?

Hoje em dia estamos habituados à ideia de que todos podem comungar, todos os dias se quiserem. Mas nem sempre foi assim. Antigamente a comunhão, para os leigos, era uma coisa rara. Comungava-se na Páscoa, e eventualmente numa ou noutra celebração importante. E para isso era necessário ter-se confessado imediatamente antes.

Aliás, tudo isto apenas é possível porque se verificaram mudanças no entendimento do acesso à confissão. Antigamente a pessoa confessava-se uma vez, de preferência à beira da morte. Mais tarde, por iniciativa de monges irlandeses, nasceu o hábito da confissão frequente.

E se os bispos chegarem à conclusão que, da mesma maneira que se mudou a prática em relação à comunhão frequente, era agora possível dar mais este passo e admitir à comunhão pessoas que anteriormente estariam excluídas? Se em vez de se encarar a Eucaristia como o coroar de um “Estado de Graça”, se encarar como um auxílio também para quem falhou mas quer continuar a caminhar e não desistir de crescer na proximidade com Deus?

Há um grande obstáculo a este raciocínio. “Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor. Examine-se cada um a si mesmo e então coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor come e bebe para sua própria condenação”, diz São Paulo numa epístola aos Coríntios.

Contudo quem, se não a Igreja, tem a legitimidade para determinar quem é digno ou indigno? No tempo de São Paulo, provavelmente uma pessoa a viver em estado de adultério seria considerada indigna de comungar, mas na mesma medida, digo eu, seria considerada indigna sequer de ir à missa, de estar à mesa do Senhor.

Se a Igreja já disse várias vezes que os divorciados e recasados podem e devem estar integrados na vida da Igreja, que devem estar à mesa do Senhor, então não os pode admitir à comunhão? Faz sentido convidá-los para se sentarem à mesa mas não comer?

Pessoalmente, penso que este pode ser um caminho que dá aos milhões de pessoas que aguardam uma resposta da Igreja o sinal de esperança que não os desilude, sem no entanto abdicar da ideia da indissolubilidade do casamento, que é fundamental.

Este texto é uma mera reflexão. Não é uma reivindicação, nem quero colocar no lugar dos bispos. Eles que reúnam, que discutam, que decidam, é isso que esperamos deles!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

“Onde é que lhes dói?”, é isso que o Papa quer saber

Transcrição integral da entrevista feita ao Padre Carlos Delgado a propósito da “Lineamenta” do sínodo da Família. Notícia aqui.

Qual é o sentido destas perguntas que a Santa Sé envia para as conferências episcopais?
O sentido é o documento preparatório que sempre se faz para todos os sínodos e que de maneira prioritária é enviada aos bispos, mas o Papa quis que esta consulta fosse mais verdadeira e activa, que não ficasse apenas nos bispos e nos peritos convidados pelos bispos, mas que chegasse às próprias paróquias, às que vivem o concreto, neste caso, da problemática familiar, no contexto da transmissão da fé e da nova evangelização.

Portanto não há nada de extraordinário, há este vincar e esta tonalidade tão típica do Papa Francisco de chegar às pessoas concretas e às que vivem o dia-a-dia desta problemática familiar. É fundamentalmente essa a questão, ele quer respostas que sejam bem vividas e sentidas pelo povo cristão espalhado pelo mundo e pelas pessoas que estão nas paróquias.

Muitos têm interpretado este questionário como sendo um sinal de mudanças na doutrina… que tem a dizer sobre isso?
É possível que venham algumas respostas que sejam orientativas, mas de qualquer maneira não podemos esquecer que há uma doutrina comum na Igreja e é por essa dimensão comunitária da fé que nos temos que regular. Não apenas por uma questão de unidade e de sintonia, mas por uma questão de fidelidade à mensagem que Deus deixou à sua Igreja e de que somos portadores.

Creio que não é por acaso que o Papa tenha convidado para secretário do Sínodo o teólogo Bruno Forte. Creio que é uma questão de ver até que ponto estas questões, que causam interpelações aos cristãos nos dias de hoje, interpelam a fé, e que resposta a fé da Igreja lhes pode dar. Creio que é essa busca que o Papa Francisco quer, são questões que se vivem à nossa volta, por isso é necessário ver até que ponto isso implica a vivência cristã.

De facto as perguntas não falam quase de doutrina, mas sim de pastoral. Qual é a diferença na prática?
A questão doutrinal tem a ver com a mensagem traduzida numa linguagem universal, a pastoral são as questões concretas do dia-a-dia, aquilo que no fundo dificulta ou facilita a vivência cristã num determinado contexto. O Papa não vai perguntar as questões doutrinais aos cristãos e fiéis leigos do mundo inteiro, vai-lhes pedir as interpelações à sua vivência de fé. É mais esta questão experiencial que está em causa. É isto que tem de ser questionado e que as pessoas têm de apresentar. Dizer “onde é que lhes dói”, para usar um termo clínico. É isso que o Papa quer saber e que depois porá nas mãos de alguns bispos para tentar dar respostas e dar unidade de orientação pastoral prática da vida cristã.
                                             
Se a questão dos casais divorciados e recasados causa dor e sofrimento a muitos cristãos, como é que isso pode ser superado, como pode ser vivido por um cristão? Que ajuda é que a Igreja pode dar a homens e mulheres nessa situação?  É essa a pergunta que tem de ser feita, por isso o melhor é perguntar a quem está nessas realidades e a partir daí encontrar um caminho mais uniforme da Igreja universal.

É possível mudar a prática pastoral, sem mudar a doutrina?
A doutrina é um conteúdo único, um conteúdo que nos é transmitido por Deus e que o Espírito Santo nos ajuda a concretizar. Há formas diferentes de a concretizar consoante as épocas, mas a mensagem é sempre a mesma, é a salvação e a santificação da pessoa humana. E há muitos caminhos e todos são chamados a essa santificação. Agora, como é que se faz? Que meios se lhes dão? Que apoios é que a Igreja dá? É isso que o Papa procura, como dar a mão e ajudar a caminhar na santificação os homossexuais, os divorciados recasados, etc. Por isso importa questionar seriamente quem vive nesta situação. É isso que importa que seja transmitido para depois encontrar as propostas concretas que virão do sínodo.

Enquanto sacerdote muito envolvido com a questão das famílias, qual é a sua principal preocupação que gostaria de ver discutida no Sínodo?
A questão que me interpela mais, que me tem chegado mais na prática pastoral, é de facto a dos cristãos divorciados e recasados. Não só a vivência pessoal da fé dessas pessoas, mas a transmissão da fé e a continuidade da vida cristã dos filhos e descendentes.

Depois, toda a questão da vivência comunitária da fé, o acolhimento que nas comunidades se pode fazer. Esta tem sido para mim a maior interpelação e aquela em que tenho mais dificuldade de fazer entender a posição da Igreja.

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