quinta-feira, 1 de maio de 2014

Divorciados, recasados e comunhão: Follow-up

Há dias escrevi um texto sobre a possibilidade do acesso à comunhão por parte de divorciados e “recasados”. Esse texto motivou uma grande e interessante discussão, na qual aprendi imenso. O que se segue são algumas das conclusões que tirei dessas discussões. Não vou repetir os meus argumentos, que podem encontrar no texto original.

Em primeiro lugar, tentei deixar claro, mas nem todos perceberam, que o meu texto era uma reflexão e não um manifesto. Penso que infelizmente temos pouco o hábito de discutir ideias de forma aberta, que não sejam necessariamente convicções. Mas é pena, porque é precisamente através dessas discussões, em que estamos abertos a reconhecer os nossos enganos e a razão dos outros, que crescemos.

Ora bem. Após estes dias de discussão, concluo que há apenas três possibilidades para que as pessoas em uniões irregulares sejam admitidas à comunhão.

Se a Igreja mudar ou reformular a doutrina da indissolubilidade do casamento.
Não acredito que isso seja possível e a minha reflexão, por causa disso, partia de outro pressuposto.

Se o adultério deixar de ser considerado pecado mortal.
O que não me parece provável nem aconselhável, embora como em tudo haja uma escala de gravidade para diferentes situações.

Se, mantendo-se a ideia do adultério como pecado mortal, for tomada a decisão de “baixar a fasquia” do acesso à comunhão, decidindo-se que não é necessário estar-se em estado de Graça para poder comungar. (Eu sei que "baixar a fasquia" tem um sentido perjorativo, mas não me vou pôr com jogos semânticos).

O meu argumento ia mais no sentido desta terceira hipótese.

Os meus adversários defendem que tal não é possível, pois a ideia de que só quem está em estado de Graça é que pode comungar é doutrina da Igreja que ninguém, nem o Papa nem os bispos, tem autoridade para alterar.

Não tenho qualquer problema em afirmar que reconheço aqui claramente um obstáculo que não pretendo, nem tenho capacidade para, discutir ou derrubar. Caso a ideia de que apenas quem está em estado de graça é que pode comungar seja, de facto, doutrina imutável, então sinceramente não vejo maneira de as pessoas em uniões irregulares poderem alguma vez vir a comungar.

Não sendo eu “liberal” ou “progressista”, não posso nem quero propor qualquer solução que seja uma ruptura com a tradição da Igreja.

Tudo o que eu respondi a quem me argumentou desta forma é que antes do Concílio Vaticano II reinava a ideia de que a doutrina da Igreja impedia certas mudanças, como a abertura ao ecumenismo, ao diálogo inter-religioso e à liberdade religiosa. Contudo, os padres conciliares conseguiram encontrar formas de reler e apresentar de forma diferente a doutrina, aceitando estas práticas de tal maneira que hoje não reconhecemos a Igreja sem elas. Como bem sabemos, os críticos do Concílio, tanto sede-vacantistas como os seguidores de Monsenhor Lefebvre, apontam precisamente estas “inovações” como razão para não aceitar o concílio, portanto a coisa não foi pacífica.

Eu não faço ideia se é ou não é possível “reler” a doutrina, à luz dos nossos tempos, para se proceder a estas mudanças. Se não for, então tenho que admitir que a minha própria reflexão deixa de me convencer. Contudo, teria muita cautela em colocar-me na posição de decidir quais são os limites da acção dos bispos nesta matéria.

Esperarei calmamente, e muito atentamente, o resultado do sínodo, aceitando sem reservas qualquer que seja a decisão. De facto, acho pouco provável que haja uma mudança significativa da Igreja a este respeito.

Não queria terminar sem dizer mais uma coisa. Ao longo destes dias foram muitas as pessoas que partilharam histórias de vida e testemunhos muito fortes, ou publicamente, ou directamente a mim, por mensagem privada.

Se há uma coisa que aprendi e que julgo que é muito importante realçar, é que mesmo que as pessoas nestas situações não possam voltar a comungar, existem outras formas de viver em Igreja e edificar uma relação com Cristo que deviam ser melhor conhecidas.

Nesse sentido aponto para o testemunho do Joaquim Mexia Alves, que passou por esta experiência e já falou dela várias vezes. Leiam, mesmo… não se vão arrepender.

1 comentário:

  1. Bom mesmo seria fazermos todos o que Jesus fez: restituir a dignidade às pessoas, fazê-las sentirem-se dignas, qualquer que seja a sua circunstância. Isto de ligarmos mais às teorias, quaisquer que elas sejam, que às pessoas...

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