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segunda-feira, 9 de março de 2015

“A liturgia é sagrada e o latim ajuda-nos a lembrar isso”

Paulo VI celebra a missa pré-conciliar
Transcrição integral da entrevista ao padre Manuel Nogueira Mouzinho Vaz Patto, sobre o valor do latim nas celebrações da Igreja. A reportagem está aqui. Ver também, sobre o mesmo assunto, a entrevista ao padre Luís Manuel Pereira da Silva.


O que significa o rezar e celebrar em Latim e não no vernáculo?
O Latim sempre teve lugar na Igreja, e continua a ter, sobretudo no Concílio Vaticano II, na Sacrosanctum Concilium é reforçado o valor do latim, como sendo o vulgar. Infelizmente deixou de ser o vulgar para ser inexistente na Igreja, por isso qualquer fiel comum não pode ter acesso ao latim na liturgia, o que não é previsto no concílio.

De facto o latim tem um valor muito importante, em primeiro lugar porque remete para a sacralidade, para que a liturgia seja uma coisa diferente das coisas comuns, como acção sagrada que é e pela presença de Deus. A liturgia é a acção de Deus, em primeiro lugar, que desce à Terra e, pela presença de Jesus, pode trazer-nos as graças de Deus e levar as nossas súplicas até Deus.

Por isso a liturgia é sagrada e o latim ajuda-nos a lembrar isso, que a liturgia não é uma coisa comum, habitual, como uma refeição ou um encontro nosso. O latim tem esse valor que o concílio Vaticano II lhe dá e que infelizmente se tem perdido e é bom, de facto, sermos fiéis ao concílio e como os últimos Papas, Francisco e Bento XVI nos têm alertado, é preciso cuidarmos muito da liturgia como acção sagrada, para que possa ser um espaço de encontro dos homens com Deus.

O latim pode ter e tem, em muitas pessoas, essa possibilidade de ajudar ao encontro com Deus.

Celebra a maioria das suas missas no vernáculo, certamente. Sente alguma diferença quando celebra em latim?
O vernáculo tem muito lugar na Igreja, é importante que as pessoas compreendam sobretudo a palavra de Deus, para que se possam alimentar dela, portanto o vernáculo tem no rito antigo, mas sobretudo no novo, um lugar muito importante. As pessoas devem tentar compreender e foi esse o esforço do concílio, para que as pessoas compreendessem, mas sem tirar o carácter essencial da liturgia. Portanto a liturgia no vernáculo faz sentido, mas deve ser mantido também o uso do latim.

No pontificado de Bento XVI falava-se na reforma da reforma. Imagina uma situação em que nas missas em todo o mundo algumas orações sejam feitas em latim, como sinal de unidade?
A respeito da reforma da reforma, isso pode acontecer, depende dos fiéis, basta que os fiéis queiram.

O essencial é celebrar a liturgia com o cuidado que merece como acção sagrada. Portanto em cada gesto, em cada palavra, que pode ser no vernáculo ou em latim, deve estar presente esse carácter sagrado, de acção de Deus. Por isso o vernáculo faz sentido mas também o latim, sobretudo nos cânticos, que é o mais fácil e o mais adequado, que nos ajuda a rezar a elevar-nos para Deus.

Deve ter lugar e os fiéis reconhecem que os ajuda na sua intimidade e relação com Deus.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A “História da Igreja Católica” de Hitchcock

Acabei de ler a “História da Igreja Católica” de James Hitchcock, o que me levou a reflectir sobre alguns desenvolvimentos históricos que nos podem dar que pensar hoje em dia, sobretudo em três áreas específicas:

1. Desenvolvimentos Litúrgicos

No que diz respeito à Missa, o latim tornou-se a língua litúrgica em vez do grego no terceiro século, por ser o vernáculo. O “beijo da paz” era um costume pagão que foi gradualmente incorporado na liturgia. A comunhão na mão prevaleceu até ao século nono, altura em que se formulou a doutrina da presença real e a comunhão na boca tornou-se a respectiva afirmação doutrinal, (hereges como Ratramnus atacaram a ideia). Durante a Idade Média, sob influência do clero franco, as genuflexões, o sinal da cruz e outros gestos tornaram-se lugares-comuns litúrgicos. A comunhão era pouco frequente. O Concílio de Trento viria a encorajar a comunhão frequente, mas aquilo em que os padres conciliares estavam a pensar era comunhão semanal para seminaristas e comunhão mensal para freiras. Foi Pio X, no século XX, quem abriu a porta para aquilo que hoje compreendemos como “comunhão frequente”.

Enquanto académico de línguas clássicas, tendo estudado grego e latim no liceu e na universidade, tendo ensinado latim em África e na Califórnia e memorizado grande parte da missa em latim, fiquei de rastos quando se começou a celebrar o Novus Ordo em inglês. Graças às maravilhas da tecnologia Android, agora consigo ler partes do ofício divino em latim no meu Smartphone. Mas ainda não sei de cor o Glória nem o Credo em inglês. Seja como for, a missa não é sobre mim! Não se pode voltar atrás: a nossa é uma Igreja de muitos ritos – romano, bizantino, alexandrino, siríaco, arménio, maronita, caldeu… - com uma variedade de línguas – grego, sírio, árabe, russo, eslovaco, etc. A missa nos países de língua inglesa continuará a ser em inglês, com pequenos bolsos aqui e ali para quem ama a forma “extraordinária”. Ainda há padres fluentes em latim? Se não, será que têm tempo para aprender?

Mas a prática de celebrar a missa “versus populum”, de frente para a congregação, em vez de “ad orientem”, de frente para o altar, é um problema. Se há esperança para o diálogo ecuménico com os ortodoxos, esta prática, bem como a primazia do Papa, é um obstáculo gritante. A arquitectura das igrejas católicas de rito latino mudou significativamente desde o Vaticano II, com uma mesa próxima da congregação, ao estilo protestante, em vez de enfatizar o altar em frente, onde o padre continua a renovar o mistério do sacrifício de Cristo na Cruz.

Temos de perguntar: quais são as nossas prioridades ecuménicas? Queremos investir na união com os protestantes, que se sentem confortáveis numa igreja com uma mesa para a “Ceia do Senhor”? O senso comum deve levar-nos a dar prioridade aos ortodoxos, que são “igrejas irmãs” com sucessão apostólica válida e perpetuam de forma reverente o sacrifício da missa.

Entretanto, continuando a assistir a missas “Novus Ordo”, ficaria razoavelmente satisfeito se os padres apresentassem claramente a missa como um sacrifício em vez de uma refeição comunitária, deixassem de usar termos neutros para substituir os masculinos no Evangelho e no missal e deixassem de atravessar toda a Igreja para socializar na altura da comunhão.

2. Escândalos na Igreja
Jesus avisou os seus discípulos de antemão: “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” (Mt. 18,7). Os séculos IX e X foram o auge dos escândalos, tanto na Igreja como na política. Carlos Magno casou-se cinco vezes, teve seis concubinas e forçou as filhas a ter filhos fora do casamento, para evitar problemas com genros sedentes de poder. O Papa Estêvão VI exumou o cadáver do seu antecessor, o Papa Formoso, para o profanar publicamente por causa de desentendimentos sobre direito canónico, mas ele também acabou preso e estrangulado até à morte.

No século XI Bento IX tornou-se Papa através de subornos, mas acabou por resignar, na condição de ser reembolsado. No século XV o Papa Sexto mandou dois padres assassinar alguns Medicis que representavam obstáculos a alianças estratégicas que tinha em mente; e o Papa Alexandre VI, depois de uma feroz campanha para se tornar Papa, viria a ser um dos pontífices mais infames. Pio II, o único Papa a escrever uma autobiografia, também era conhecido por escrever obras pornográficas antes de ter conseguido alcançar o pontificado através de esquemas ambiciosos.

Contudo, as reformas proliferaram juntamente com os escândalos. No século XII, Pedro Abelardo, famoso pelos encontros com Heloísa, acabou por se tornar um director espiritual e um abade reformador, a tal ponto que os seus monges o tentaram envenenar, enquanto Heloísa se tornou abadessa de uma comunidade de freiras. No século XIV, Santa Catarina de Sena, que não deixava de melgar os papas desnorteados, dedicou o capítulo 124 dos seus famosos diálogos à necessidade de obliterar o escândalo dos padres sodomitas para se poder reformar a igreja. No século XVI o Papa Paulo III, cuja carreira foi auxiliada pelo facto de a sua irmã ter sido amante de Alexandre VI, deixou para trás uma vida de escândalos para se tornar um Papa reformista. E no século XVII a grande reforma trapista da ordem cisterciense foi conseguida por Armand-Jean de Rancé, depois da morte da sua amante.

No século XX, para além do escândalo de padres e freiras a abandonar os seus ministérios, o maior escândalo tem sido o dos abusos sexuais, incluindo pedofilia, por padres em boa conta, bem como o encobrimento e as “transferências”. Mas enquanto recuperávamos deste pesadelo tivemos dois grandes e santos papas, bem como uma reforma gradual e bem-sucedida numa área de disciplina interna da Igreja que costumava passar-se só atrás de portas fechadas, mas agora se tornou mais transparente.

E agora, perante desafios abertos à liberdade religiosa por parte dos governos, é possível que vejamos os bispos e outros líderes religiosos a chegarem-se à frente e a fechar serviços, como agências de adopção, em vez de ceder à pressão de servir “casais” homossexuais ou fechar hospitais em vez de sucumbir às exigências de financiar contraceptivos nos seguros. A “reforma”, nestes casos, poderá exigir atitudes verdadeiramente heroicas.

3. Concílios

Temos assistido a críticas incessantes ao Concílio Vaticano II por não ter clarificado nem fortalecido a posição da Igreja no mundo e de, pelo contrário, ter levado a uma fuga de fiéis. Mas como Hitchcock faz questão de sublinhar, historicamente os concílios nunca resolveram os problemas da época em que foram convocados. Pelo contrário, em muitos casos ajudaram a intensificá-los. O Concílio de Nicéia (325), que tinha como objectivo clarificar questões sobre a divindade de Cristo, acabou por gerar ambiguidades sobre a sua “consubstancialidade” com o Pai. O Concílio de Calcedónia (451) não resolveu o problema da relação de estatuto entre as sés de Roma e de Constantinopla. 

O Concílio de Trento (1545-63) foi recheado de divisões políticas. Boicotado pelos bispos franceses, teve a oposição de Paulo IV mas foi retomado por Pio IV, embora sujeito a relações tempestuosas entre facções nacionais e doutrinais. Os objectivos contra-reformistas de resolver as questões da justificação e da relação entre a graça e o livre arbítrio foram em larga medida falhados e a missa no vernáculo foi proibida, apesar de o latim ter alcançado a primazia precisamente por ser o vernáculo.

Igualmente, o Vaticano I (1869-70) enfrentou oposição episcopal considerável à declaração de infalibilidade papal. Um dos problemas era que, historicamente, dois papas tinham estado perto de heresias. Honório, no século VII aceitou o monoteletismo e o Papa João XXII, no século XIV defendeu, por um período, a doutrina de “alma adormecida” após a morte, antes do juízo final. Foi por isso que se incorporou a condição de se falar “ex cathedra” na declaração, para diminuir a probabilidade de pronunciamentos heterodoxos.

Por isso o Vaticano II, por mais falhas que tenha tido, não foi caso único. As divisões políticas eram imensas. Os principais agentes no Concílio foram principalmente teólogos, muitos dos quais do género “progressista”, e os bispos e os cardeais tendiam a dar lugar a esses “peritos”, como explica Hitchcock:

Juntamente com Schillebeeckx, Haering e, em menor escala, Rahner, o padre e teólogo germano-suíço Hans Küng tornou-se o mais apaixonado e audaz porta-voz do aggiornamento, exigindo que a Igreja se acomodasse a uma cultura em mudança, enquanto Lubac, Danielou, Maritain, Balthasar, Bouyer, Ratzinger e outros protestavam o que consideravam ser distorções do concílio.

Um dos principais pontos de viragem do Vaticano II teve lugar quando a Comissão Teológica, presidida pelo Cardeal Ottaviani, foi ultrapassada pela berma pelo recém-criado Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, presidido pelo Cardeal Bea. Este secretariado era idealista em relação à possibilidade de se restaurar a unidade e pragmática quanto aos métodos, que incluíam gestos diplomáticos para com os soviéticos e os representantes ortodoxos que simpatizavam com os soviéticos.

Vários dos “schemata” foram submetidos a critérios ecuménicos. Assim, os progressistas conseguiram descarrilar os esforços para enfatizar a Virgem Maria como Mediadora de todas as Graças e co-redentora, uma vez que isso era visto como um obstáculo à unidade co os protestantes. Os braços do secretariado chegavam mesmo bem mais longe que o Cristianismo, em direcção ao Islão, visto como uma religião “abraâmica” que adorava “o Deus único e misericordioso”. (Tanto quanto sei nem um dos peritos que escreveu a Constituição Dogmática Lumen Gentium era um estudante sério da doutrina, prática e história do Islão.)

Apesar destes exageros e talvez algumas ambiguidades noutros documentos, (o concílio não emitiu leis ou declarações definitivas sobre questões de fé e de moral), o Vaticano II não produziu nada de claramente herético. Os progressistas avançaram com propostas que tresandavam a heresia, como o conciliarismo, modernismo, a primazia da colegialidade episcopal, compromissos com a liberdade religiosa, etc. Mas a organização tardia de “conservadores” como como os cardeais Ottaviani, Siri, Ruffini e o arcebispo Lefebvre, entre outros, bem como as suas intervenções nas conferências, ajudaram a modificar estas iniciativas e a colocar os debates novamente em linha com a tradição e os anteriores concílios.

Aqueles que apontam para o Vaticano II como o princípio de uma espiral de declínio para o Catolicismo não têm em conta que o Concílio teve lugar mesmo durante a revolução sexual dos anos 60. Enquanto o Concílio começava, em 1962, a pílula contraceptiva estava no mercado há dois anos e esperava-se que um dos resultados deste concílio “pastoral” fosse a aprovação de pelo menos esta forma de contracepção. Quando isto não aconteceu e quando a encíclica Humanae Vitae (1968), de Paulo VI, enfrentou a rejeição ou a indiferença esmagadora de muitos bispos e teólogos, isso conduziu a uma crise de autoridade, que se mantém. O feminismo militante e o ataque a todas as formas de “patriarquia” também foram um factor muito importante.

Será que o Vaticano II conseguiu “abrir as janelas para deixar entrar ar fresco”, como o Papa João XXIII esperava? De certa maneira, sim. No Vaticano I, por exemplo, não havia cardeais da Ásia nem de África. No Vaticano II, contudo, os cardeais africanos, asiáticos e da América Latina estavam bem representados. Foi sem dúvida mais “ecuménico” no sentido de abrir a Igreja ao mundo. Aliás, Hitchcock apresenta uma estatística interessante, que em 2010 a Igreja duplicou de tamanho em relação ao fim do Concílio Vaticano II.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em TheCatholic Thing no sábado, 16 de Agosto de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Fim de Ramadão Sangrento

A letra N em árabe, usada para marcar as casas
de cristãos em Mossul e adoptada por muitos como
símbolo de solidariedade. Eu já adoptei, e você?
Estive de férias ao longo das últimas semanas e por isso tive de acompanhar “de longe” a tragédia que se tem abatido sobre o Iraque, onde o Estado Islâmico consolida o seu poder e todos os cristãos foram obrigados a fugir da região de Mossul.

A violência levou o Papa a pedir novamente, e de forma emocionada, um fim da guerra e construção da paz.

A sudanesa que tinha sido condenada à morte no Sudão por ser cristã está finalmente em liberdade, isto é, fora do Sudão, e viajou para Itália, onde foi recebida pelo Papa.

Hoje assinala-se o fim do Ramadão. Os muçulmanos de todo o mundo tentam festejar. Em Gaza, Iraque, Síria, Líbia, Nigéria e mesmo em partes das Filipinas, é complicado… No Paquistão, é sobretudo complicado para os membros da comunidade Ahmadi, considerada herética pelos restantes muçulmanos.

Durante as férias continuaram a ser publicados artigos do The Catholic Thing em português, curiosamente ambos de Randall Smith, um dos nossos contribuidores favoritos!


Termino com um convite dirigido sobretudo aos leitores que são, ou já foram, das Equipas de Jovens de Nossa Senhora. Decorre em Portugal o Encontro Internacional deste movimento, com cerca de 400 participantes de vários países. No sábado há um dia aberto em Belém, que começa com uma série de conferências na Casa Pia, junto aos Jerónimos, e termina com missa presidida pelo Patriarca D. Manuel Clemente, às 16h30. Apareçam!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um Concílio Pastoral e Dogmático

Randall Smith
Todos temos as nossas embirrações. Uma das minhas é quando ouço alguém a descrever o Vaticano II como um concílio “pastoral e não dogmático”. Apetece-me responder: “Então nunca chegou a ler os documentos, calculo”.

Os números falam por si. Dos 15 documentos oficiais do Concílio Vaticano II, três são “Constituições”. Duas destas são “Constituições dogmáticas”, uma sobre a Igreja (Lumen Gentium) e outra sobre a Revelação Divina (Dei Verbum). Depois há três “declarações”: Uma sobre educação religiosa, (Gravissimum Educationis), uma sobre a relação da Igreja com as religiões não-cristãs (Nostra Aetate) e uma sobre liberdade religiosa (Dignitatis Humanae). Acrescem oito “decretos” sobre: (1) a actividade missionária da Igreja, (2) o ministério e a vida Religiosa, (6) o múnus pastoral dos bispos, (7) o ecumenismo e (8), as Igrejas Católicas de Rito Oriental.

É de salientar que apenas dois destes quinze documentos contêm a palavra “pastoral” nos títulos: A Constituição Pastoral Sobre a Igreja no Mundo Moderno (Gaudium et Spes) e o Decreto Sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja (Christus Dominus). E tanto um como o outro são inteiramente “doutrinais”.

Atenção, não quero ser mal entendido. Não estou a dizer que o Concílio não foi pastoral em muitos sentidos importantes. Pelo contrário, o problema é a dicotomia que algumas pessoas gostam de criar – coisa que não se encontra no concílio – entre “pastoral” por um lado e “dogmático” por outro, como se fossem duas formas diferentes de ser “religioso”. Esta dicotomia não só viola a “hermenêutica da continuidade” com a tradição multi-secular, em que Bento XVI tanto insistiu, mas coloca o Concílio numa ruptura com a “hermenêutica da continuidade” consigo mesmo.

Num ensaio, o historiador intellectual A.H. Armstrong exorta os seus leitores a “apreciar a dimensão original e inauditamente estranha do fenómeno da Igreja Cristã primitiva, quando vista da perspectiva da observância e da piedade das religiões tradicionais helénicas... A religião helénica enfatizava o culto, não o credo. O que era realmente importante era o cumprimento correcto de sacrifícios e ritos secretos de acordo com o que se considerava ser a tradição imemorial”.

Na maioria das religiões do mundo antigo, os “ensinamentos doutrinais e as instruções morais” simplesmente não diziam respeito ao clero.

“O contraste com a Igreja Cristã é evidente”, diz Armstrong. “Aqui o culto desenvolveu-se de forma bastante casual e apenas atingiu um alto grau de elaboração bastante mais tarde”. Embora os sacramentos e o culto público “tenham sido sempre centrais na vida cristã”, todavia, “aquilo que se ensina dentro e fora da Igreja, sobre a adoração e o Deus a quem esta se dirige e a forma como os fiéis devem viver, sempre interessou aos cristãos de uma forma que não tem paralelo no antigo mundo helénico.”

Outra diferença fulcral, diz Armstrong, é esta: “Toda a pregação e ensinamento de religião ou moral que era praticada na antiguidade era levada a cabo por filósofos, que tinham tanto a ver com a celebração do culto como quaisquer outros e nunca representaram nada que se parecesse com o estatuto nem a autoridade dos pregadores numa comunidade eclesial”.


Aquilo que a Igreja alcançou – especialmente no que diz respeito ao ministério do bispo e dos seus irmãos padres – foi uma integração fantástica destas duas funções: o papel do filósofo, por um lado, de pregar e ensinar a verdade e, por outro lado, o papel do sacerdote no templo, que exerciam os ritos sagrados.

Há muitos católicos, tanto de um lado com do outro da divisão tradicional entre “conservadores e liberais”, que preferiam que os nossos padres fossem do género pré-cristão, para quem “o que era realmente importante era o cumprimento correcto de sacrifícios e ritos secretos de acordo com o que se considerava ser a tradição imemorial”. A diferença é que os “conservadores” tendem a acreditar que estão a demonstrar fidelidade para com uma tradição medieval (mas que geralmente é sobretudo renascentista e do barroco tardio) enquanto os “liberais” julgam que estão a ir à raiz das práticas patrísticas iniciais (mas que, na realidade, tendem a ser reconstruções imaginativas, produzida por liturgistas de meados do século XX, que têm sido reveladas em larga medida como falsas por estudos mais recentes).

Seja como for, em ambos os lados da barricada há muitos que preferiam deixar todas as discussões filosóficas e intelectuais sobre “o Deus a quem o culto se dirige e a forma como os seus verdadeiros fiéis devem viver” (do género protagonizado pelo Papa João Paulo II e Bento XVI), de fora da igreja – a única diferença entre os dois está em saber o que é que o liberal ou o conservador preferiam ouvir em vez de doutrina. Para alguns o melhor são exortações piedosas, para outros, recomendações vagas sobre “ajudar os pobres”.

Queremos mesmo que o nosso padre nos fale e ensine sobre a Trindade, a Incarnação, a Ressurreição do Corpo, Salvação, Justificação, Santificação e os nossos deveres morais para com o nosso próximo? Queremos mesmo instrução profunda que nos leve a crescer na compreensão da fé? Queremos verdadeiramente que o padre nos desafie moralmente, tanto em termos da nossa vida interior e pessoal como em termos das nossas obrigações e responsabilidades para com os outros membros da sociedade?

Deixemo-nos de ilusões: Se vivesse na Igreja primitiva e o seu bispo fosse Ambrósio, ou Agostinho, ou Basílio de Cesareia, seria isso mesmo que ouviria – às pazadas.  

O Vaticano II foi um grande Concílio pastoral precisamente porque foi um grande concílio dogmático. Pensar que se pode dar cuidados pastorais correctos sem uma formação doutrinal sólida é como pensar que se consegue fazer uma cirurgia ao coração sem os conhecimentos adquiridos no curso de medicina.


Randall Smith é professor na Universidade de St. Thomas, Houston, onde recentemente foi nomeado para a Cátedra Scanlon em Teologia.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 19 de Julho de 2014 em 
The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

terça-feira, 29 de abril de 2014

De concílios, revoluções e discussões

A caminho de Paris?
Começou esta manhã a reunião plenária da CEP. D. Manuel Clemente fez o discurso de abertura e recordou que tanto o Concílio Vaticano II como o 25 de Abril estão ainda por cumprir plenamente.


Faz hoje 9 meses que foi raptado o padre Paolo Dall’Oglio, na Síria. A sua família voltou a pedir a libertação do jesuíta e um site italiano diz que a informação indica que ele está vivo. Bom sinal, pelo menos!

Por fim, andam cabeções na estrada em França. Dois mil padres, diáconos, religiosos e seminaristas disputem o troféu de ciclismo para o clero.

Ontem apontei para uma reflexão que publiquei no blog sobre a questão dos divorciados, recasados e o acesso à comunhão. Tem motivado bastante discussão, tanto no espaço dos comentários como no Facebook. Gostaria de realçar três coisas.

1º Esta é uma reflexão, não mais que isso. Admito perfeitamente que esteja enganado em relação ao assunto. Se os bispos reafirmarem o “status quo”, serei o primeiro a aceitar e a recomendar que quem “fura o esquema” actualmente, acate obedientemente essa decisão.

2º Ao contrário do que eu mesmo esperava, a discussão à volta do tema tem sido civilizadíssima e muitíssimo interessante. Este é um tema que toca muita gente e que infelizmente é rapidamente visto como uma guerra entre “conservadores e liberais”. Fico muito contente por ver a elevação com que tem decorrido tanto no blogue como no Facebook.

3º O que mais gostaria de sublinhar é que desde que publiquei o texto, e no seguimento das discussões, já três pessoas me enviaram e-mails ou mensagens pessoais a contar as suas próprias experiências, algumas profundamente dolorosas. São testemunhos nalguns casos contrários. Mas o que realço é que isto só é possível porque estas pessoas entenderam que eu entro nesta discussão de boa-fé e não com qualquer “agenda escondida”. Temo que haja quem não tenha compreendido bem isso, gostaria por isso de salientá-lo. Obrigado a todos!

terça-feira, 16 de abril de 2013

Parabéns Bento XVI, obrigado políticos espanhóis!

Happy Birthday to you!
Os noticiários foram dominados pelo que se passou em Boston ontem à noite. O bispo local é, recorde-se, o Cardeal Seán O’Malley. O Cardeal, que se encontrava na Terra Santa, regressou imediatamente para os Estados Unidos e já manifestou a sua proximidade com as vítimas.

Mal começaram a circular as notícias começaram também as reacções. O Cardeal Dolan foi dos primeiros a falar.


Esta manhã, na missa que celebra em Santa Marta, o Papa criticou aqueles que querem regressar ao período pré-conciliar.

Essa missa foi celebrada por intenção de Bento XVI, que hoje faz 86 anos e festejou em Castel Gandolfo, na companhia do seu irmão.

Com tudo isto pode ter passado despercebido a muitos o facto de o Governo espanhol ter anunciado que quer mudar a lei do aborto, tornando-o muito mais restrito. Um elemento do PP espanhol diz que a lei “não vai agradar aos bispos”… permita-me discordar Sr. Alonso, acredito que vai agradar bastante mais que a actual!

Quem estiver pelo Porto, não deixem de participar na exposição itinerante “São Francisco de Assis – Património Vivo no Porto”. Quem não estiver, não deixem de ir visitar o novo site da iMissio com a qual tenho a honra de passar a colaborar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Cardeais, Concílio e Comunismo

Livro de Roberto de Mattei
apresentado hoje
O Papa surpreendeu hoje ao anunciar que vai nomear seis novos cardeais já em Novembro. São nomeações importantes, saiba aqui por quê.

Esta tarde é lançado nos Jerónimos o livro “O Concílio Vaticano II – uma história nunca escrita”. Entrevistei hoje o autor Roberto de Mattei que, entre outras coisas, diz que o grande mistério do Concílio é a falta de referências ao comunismo. Aqui podem ler a transcrição completa da entrevista, longa, mas muito interessante.


Concílio é uma ruptura histórica, não necessariamente doutrinal, com o passado

Edição de Caminhos Romanos
Transcrição integral da entrevista a Roberto de Mattei acerca do seu livro “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”. O livro é lançado esta quarta-feira às 18h30 nos Jerónimos. Veja aqui a notícia.

Em que sentido é que o seu livro é uma “história nunca escrita do Concílio”?
Nesta obra pretendi reconstituir o que se passou em Roma durante os três anos do Concílio, durante os quais 2500 padres conciliares se reuniram sob a orientação de João XXIII e Paulo VI, no 21º Concílio da história da Igreja. Nunca até hoje foi escrita uma história compreensiva sobre este período. A única que está escrita, por Giussepe Alberigo, em cinco volumes, na verdade é uma colecção de textos, mas não é uma história sintética.

Falta-lhe o aspecto de interpretação dos factos?
Exactamente, a ideia é também uma nova interpretação dos factos. Tem um nível de análise a respeito da história que tem como critério da verdade a verificação e apreciação dos factos. Depois há um segundo nível, que compete ao teólogo, ao pastor, mas trata-se de dois planos distintos, mas dependentes. Só depois da reconstrução histórica dos factos é que os pastores, os teólogos, podem intervir para formular os seus juízos teológicos e morais. Os dois níveis, o histórico e o hermenêutico, não podem ser confundidos, a não ser que consideremos que a história se confunde com uma interpretação da história. Mas o meu nível é o histórico.

Passaram 50 anos sobre o início do Concílio. Será cedo para fazer já um balanço do seu efeito na Igreja?
Acho que é o momento de se fazer este balanço. Sublinho que se tratou do 21º concílio. O Concílio Vaticano II não foi o primeiro nem o último concílio, foi um ponto, um momento da longa história da Igreja. Ao longo da história houve 21 concílios. Alguns deles, Niceia, Trento, Vaticano I, são inesquecíveis, por causa do alcance teológico dos documentos que deles emanaram. Outros foram esquecidos. Um concílio entra na história pela qualidade dos documentos que produziu.

Por exemplo no século XVI houve dois concílios, o de Latrão V e o de Trento. Toda a gente se recorda do Concílio de Trento, mas ninguém se recorda do Concílio de Latrão V. Nesse sentido acho que temos uma grande liberdade crítica para analisar e fazer um balanço do Concílio Vaticano II.

Na sua opinião daqui a 400 anos as pessoas vão-se lembrar do Concílio Vaticano II?
Não posso dizer isso, mas o que posso dizer é que o Concílio Vaticano II foi um concílio diferente de todos os que o precederam, neste a característica mais importante foi a pastoral. Claro que nem o Concílio de Trento nem o Vaticano I tinham sido privados do elemento pastoral, mas no Vaticano II o lado pastoral não foi apenas um facto, a natural explicação do conteúdo dogmático do concílio de uma forma adaptada aos tempos, como sempre foi feito. Este elemento pastoral foi elevado a princípio alternativo ao elemento dogmático, subentendendo-se a prioridade do primeiro relativamente ao segundo. A dimensão pastoral acabou por se tornar prioritária, introduzindo uma revolução na linguagem e na mentalidade. A Igreja despojou-se das suas vestes dogmáticas e revestiu-se de um novo fato pastoral e exortativo que deixou de ser obrigatório e definitivo. Mas usar termos diferentes do passado significa levar a cabo uma transformação mais profunda do que se possa pensar. Essa seria a característica principal, essa revolução. Não no conteúdo, não dogmática, mas uma revolução na linguagem, na mentalidade, na maneira de apresentar a doutrina da Igreja.

A grande discussão sobre o Concílio é à volta da questão de ter representado uma ruptura ou não. Qual é a sua opinião?
O Papa Bento XVI declarou que existe uma hermenêutica da reforma cuja verdadeira natureza consiste numa conjugação de continuidade e descontinuidade a níveis diferentes. Parece-me que é justamente da constatação da existência de níveis diferentes de continuidade e descontinuidade que devemos partir, a continuidade e descontinuidade do Vaticano II nos confrontos com a Igreja anterior, que pode ser considerada sobre dois aspectos, a dimensão histórica-humana da Igreja e a dimensão ontológica. Acho que houve continuação na dimensão ontológica que corresponde à dimensão divina da Igreja, porém houve descontinuidade na dimensão humana que corresponde à natureza humana da Igreja.

Roberto de Mattei
Os ultratradicionalistas, como por exemplo a Sociedade de São Pio X, apontam para a hipótese de ruptura, mas essa ideia também é comum na ala liberal da Igreja, ou não?
Talvez seja assim, mas eu acho que o erro é concentrar a atenção sobre o aspecto dos documentos do Concílio, ou seja do conteúdo dogmático. O Concílio, antes de ser uma série de documentos, foi um evento histórico. Esse é que é o problema central, os juízos sobre a natureza do Vaticano II ao nível histórico. Nesse sentido podemos dizer, acho, que houve uma ruptura, mas uma ruptura histórica não é necessariamente uma ruptura doutrinal e dogmática.

Há a ideia de que a Igreja mudou muito depois do Concílio, mas folheando o seu livro percebe-se que muitas das ideias que saíram já existiam fortemente implantadas na Igreja pré-conciliar, talvez até mais extremas… Qual era o clima na Igreja antes do Concílio?
Houve uma crise na Igreja antes do Concílio Vaticano II, mas certamente o clima do Concílio favoreceu a explosão dessa crise. Algumas expressões dessa crise apareceram depois do Concílio, por exemplo basta pensar na Humanae Vitae, a encíclica que reafirmou, em 1968, a doutrina católica em matéria de moral conjugal. A Humanae Vitae foi contestada por um grupo de bispos da Europa Central, entre os quais o Cardeal Suenens. Mas o Cardeal Suenens era um padre conciliar que no Concílio tinha estabelecido um pacto de ferro com Monsenhor Hélder Câmara, do Brasil, e foi escolhido pelo Papa Paulo VI para orientar o Concílio. O mesmo Suenens já tinha colocado no Concílio o problema do controlo de natalidade, proferindo na Basílica de São Pedro as palavras “não repitamos o processo de Galileu”.

Hoje temos de perguntar se a voz profética que se fez ouvir na aula conciliar foi essa do Cardeal Suenens, que contestou publicamente o Papa Paulo VI, ou a voz dos padres conservadores que no Concílio combateram o cardeal Suenens e anteciparam o Humanae Vitae. O problema é que a minoria conservadora do Concílio é hoje apresentada como a parte derrotada e o Cardeal Suenens e outros são apresentados como profetas, como vencedores. O que faço no meu livro é ser a voz dos vencidos do Concílio, que é a voz da tradição.

Acredita que essa voz poderá ser reabilitada e tornar-se a vencedora a longo prazo?
Acho que sim, porque hoje temos necessidade da tradição, porque a tradição não é o passado, esse acabou, não pode voltar. A tradição são os elementos do passado que vivem no presente e que têm de viver para que o nosso presente tenha futuro. Pessoalmente acredito que no nosso futuro está escrito, graças à intervenção de Deus, o retorno da tradição, a restauração da Igreja e da Civilização Cristã.

Cardinal Suenens, uma das
vozes liberais do Concílio
Mas se essas vozes forem reabilitadas, há incompatibilidade entre elas e os textos propriamente ditos do Concílio? Ou seja, há alguma coisa nos documentos que seja incompatível com a tradição?
Eu acho que o juízo último sobre os documentos do Concílio compete aos pastores e em última análise ao supremo pastor que é o Papa. Há alguns documentos que colocam problemas, por exemplo a declaração Dignitatis Humanae, que não é infalível nem tem valor obrigatório. Muito recentemente o Cardeal Walter Brandmüller [presidente emérito da Pontifícia Comissão das Ciências Históricas] o disse. Essa declaração tem passagens equívocas, que têm de ser clarificadas.

É o caso da liberdade religiosa, não no sentido do acto interior de fé, que sempre foi defendida pela Igreja, mas o direito não só de expressar mas de praticar a fé religiosa, seja qual for. A Igreja sempre condenou essa liberdade religiosa que leva ao indiferentismo. Nesse sentido acho que é preciso uma palavra definitiva da Igreja sobre esse ponto. É só um exemplo.

À medida que investigou o Concílio, o que é que o surpreendeu mais?
Talvez o silêncio do Concílio sobre o comunismo. Porque quando o Concílio se reúne, o Muro de Berlim acabara de desferir uma profunda ferida na Europa. O Comunismo estendia a sua sombra ameaçadora sobre todos os continentes. Porque foi que a solene assembleia dos padres conciliares, reunidos em Roma para tratar das relações entre a Igreja e o mundo moderno, ignorou o fenómeno mais macroscópico da sua era, que era o imperialismo comunista? Esse é talvez o mistério mais profundo do Concílio Vaticano II.

Bento XVI referiu-se recentemente à existência de “luzes e sombras” no legado do Concílio. Na sua opinião quais as maiores luzes e quais as sombras?
Não sei a que o Papa se refere, mas recentemente, no dia da recordação do Concílio, a 11 de Outubro, num discurso que Bento XVI fez, ele falou de como esteve, enquanto jovem teólogo, na Praça de São Pedro quando João XXIII abriu o Concílio e em todo o mundo havia um clima de entusiasmo, parecia haver um clima de aurora, de Pentecostes para toda a Igreja.

Mas, diz o Papa, o que depois aconteceu foi muito diferente porque houve problemas, erros, maus homens na Igreja. O Papa descreve uma situação de crise na Igreja depois do Concílio, que não corresponde às expectativas do Papa João XXIII e dos pastores.

Veja-se esse contraste entre o clima entusiástico, talvez optimista e um pouco utópico na abertura do Concílio e a situação da Igreja que se apresenta nos discursos dos padres sinodais, reunidos em Roma para o sínodo da Nova Evangelização. A voz dos padres sinodais é uma voz dolente, pessimista, descrevem nas próprias dioceses uma situação de profundo sofrimento da Igreja, uma igreja que é perseguida em todos os continentes, incluindo na Europa, pelo laicismo e o secularismo, mas que ainda por cima conhece uma divisão interna profunda. Essa é a situação actual.

Uma das questões que mais afectou os fiéis foi a reforma da liturgia. Acha que a nova missa corresponde ao que os padres conciliares tinham em mente?
A nova missa de Paulo VI foi promulgada no ano 1969, quatro anos depois do fim do Concílio. No documento Sacrosanctum Concilium, que trata a liturgia, não se fala de uma nova missa. Só está presente a possibilidade, dada às Conferências Episcopais, de se introduzir o vernáculo na liturgia da Igreja. A mesma constituição recomenda fortemente a utilização da língua latina na liturgia.

Nesse sentido, o que aconteceu depois não corresponde às indicações do Concílio, mas também existe uma certa continuidade. O problema é o papel desenvolvido pelas conferências episcopais, esse é um problema muito sério, porque a aplicação das decisões do Concílio foi feita em grande medida pelas conferências episcopais.

Há quem diga que o Papa pense, a médio prazo, fazer uma reforma da reforma, criar por assim dizer uma síntese entre a missa antiga e a missa nova… Concorda? E que poderíamos esperar de tal síntese?
Não acho que ele entenda fazer uma síntese das duas liturgias. O que entendo é que em 2007, com o motu proprio Summorum Pontificum, Bento XVI restituiu plena liberdade para a missa tradicional, impropriamente chamada Missa Tridentina, mas a ideia do Santo Padre é que a missa tradicional, o Vetus Ordo, deva manter a sua identidade, sem confusões com o novo rito. O Papa certamente deseja uma ressacralização da nova missa, por isso ele recomenda uma reorientação dos altares, o fim da comunhão nas mãos e outras coisas, mas ele pensa que o Vetus Ordo vai exercer uma pressão indirecta sobre a nova missa, sem a necessidade de fazer uma terceira missa que misture os dois ritos. O Papa fala de uma reforma da reforma, mas acho que é uma reforma do novo rito, o Vetus Ordo vai manter a sua identidade, sem combinar…

Mas essa reforma do novo rito poderia ser uma aproximação do antigo?
Nesse sentido sim.

Como é que o seu livro tem sido recebido?
Já foi traduzido na Alemanha, também vai sair em França, na Polónia e nos Estados Unidos.

Em Itália foi bem recebido, recebi muitas cartas de bispos e cardeais porque eles compreendem que o meu nível é o nível histórico e que compete ao teólogo, em última instância ao Papa, que é o guardião supremo da fé e da moral, resolver os problemas teológicos. Esses problemas existem. Eu, como baptizado, como historiador e leigo tenho a liberdade de realçar os problemas, mas só os pastores é que podem intervir no sentido de definir, porque que não tenho essa autoridade.

Mas o meu contributo é talvez oferecer uma descrição nova do Concílio, porque hoje em dia toda a gente se apercebe do alcance revolucionário do Maio de 68, uma revolução cultural mais profunda e incisiva que uma revolução política. Contudo, antes de 68 houve o triénio 1962-1965, os anos durante os quais teve lugar o Concílio Vaticano II, e eu acho que essa foi uma revolução que modificou profundamente a história dos anos seguintes, a história contemporânea, a começar pelo próprio Maio de 68 que foi influenciado pelo Vaticano II. Há uma componente católica na revolução de 68 e devemos reconhecer isso para melhor resolver os problemas contemporâneos.

É claramente crítico do concílio e próximo da tradição, o que o separa daqueles como a Fraternidade São Pio X (seguidores de Marcel Lefebvre) que recusam o concílio e estão fora de comunhão com o Papa?
A principal distinção é a distinção canónica, no sentido de que a Fraternidade São Pio X encontra-se numa situação irregular, mas não acho que do ponto de vista doutrinal tenham erros, o que é irregular é a situação canónica. Eu sou leigo, estou dentro da Igreja Canónica e tenho uma situação canónica perfeitamente regular.

Mas acontece o contrário, há na Igreja correntes progressistas que têm uma posição canónica regular, por exemplo o padre Hans Küng não é excomungado e celebra missa regularmente, mas ele é notoriamente um herético, mas um herético com uma posição canónica regular. Tem outros que são ortodoxos mas têm uma posição irregular. Eu penso que sou ortodoxo com uma posição canónica regular.

Filipe d'Avillez

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Braga invadida por 32 religiões

Cinquenta anos depois do Concílio temos ouvido vários testemunhos sobre o evento. Mas que dizem aqueles que não o testemunharam? Aqui encontrarão a minha visão do Concílio, eu que nasci quase 20 anos depois de este ter começado. Convido-vos a partilhar as vossas opiniões e experiências na caixa de comentários.


Amanhã será lançado o relatório da liberdade religiosa da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que é produzida de dois em dois anos, e que conclui que os cristãos são os mais atingidos pela perseguição.

Ontem houve mais um ataque sangrento num local de culto na Nigéria. Desta vez as vítimas foram muçulmanas. Vinte pessoas mortas no que pode ter sido uma vingança de salteadores.

Chamo a atenção, sobretudo dos mais jovens, para um evento na quarta-feira, na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa. D. Nuno Brás fala a convite das Equipas de Jovens de Nossa Senhora sobre os desafios para os jovens no Ano da Fé.

Não se esqueçam de me enviar dados de outros eventos relacionados com o Ano da Fé. Muitos já o fizeram e são úteis para completar o calendário que a Renascença disponibiliza na sua infografia especial.

sábado, 13 de outubro de 2012

O II Concílio Vaticano para mim

Estamos em plenas comemorações do 50º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II. Temos tido muita gente a comentar o Concílio e a partilhar as suas recordações daquele evento, mas sinto que tem havido falta de vozes de pessoas que vivem a Igreja mas que não eram sequer vivas nos anos 60.

Tenho 32 anos. O Concílio começou, portanto, 18 anos antes de eu nascer. Na casa e no ambiente onde cresci o Concílio e as suas decisões nunca foram postos em causa nem questionados. Para a maioria das pessoas da minha geração o Concílio Vaticano II tem tanta relevância e tanto interesse como o Vaticano I, ou o Concílio de Calcedónia. História.

E penso que essa é precisamente a primeira questão a assinalar. As pessoas que viveram a época do Concílio, particularmente aquelas que participaram directamente nele ou vibraram mais com ele, não parecem compreender porque razão a minha geração não sente as coisas da mesma forma ou, nalguns casos, até parece exibir interesse por aspectos da Igreja pré-conciliar que, em poucos casos, se manifesta como hostilidade para o Concílio em si.

Estamos sempre a ouvir que o Concílio teve lugar numa época de grande entusiasmo e de grande optimismo, “os loucos anos 60”, em que parecia que o mundo estava a mudar e tudo iria ser diferente. Contagiados por esse ambiente, os padres sinodais procuraram “abrir uma janela” para o mundo, reconciliar-se com o mundo, etc.

Mas para os católicos da minha geração, e penso não estar a exagerar, os anos 60 não são vistos dessa maneira. O entusiasmo e optimismo parecem-nos, daqui, ingénuos e precipitados. As únicas pessoas da minha idade que vibram com os anos 60 e procuram dar continuidade ao seu ambiente nos nossos dias, normalmente são os mesmos que revelam total incompreensão pelas minhas posições morais e religiosas.

Portanto perdoem-nos se não temos o mesmo entusiasmo. Provavelmente os nossos filhos e netos sentirão o mesmo em relação aos nossos entusiasmos e paixões, daqui a 40 anos.

Mas claro que não podemos confundir o ambiente dos anos 60 com o Concílio propriamente dito. Aqui, contudo, gostaria de clarificar uma coisa. Para mim o concílio são os documentos conciliares. Ponto final. Esses são, evidentemente, pedra fundamental da construção da Igreja, modelam a forma como vivemos hoje a nossa fé e dos que conheço melhor são muito inspiradores.

Não tenho, por isso, nada contra o Concílio. É importante que isso fique claro.

Mas o respeito que tenho pelo concílio não se estende a um qualquer “espírito” mal definido que vai muito para além dos documentos e que em muitas partes do mundo foi levado a extremos que, considero, prejudicaram os fiéis e violaram o direito que estes têm a receber e a conhecer a verdadeira fé da Igreja.

Esses abusos litúrgicos e doutrinais fazem mal à Igreja, ferem-na. Mas não concordo também com quem as absolutiza, como se o legado do Concílio se resumisse a eles. Cinquenta anos é muito pouco tempo para fazer um balanço de algo tão importante na história da Igreja. Tendemos a esquecer isso. As coisas extremaram-se em muitos casos, o entusiasmo terá ido longe de mais, mas voltarão ao centro. Aliás, já começaram a voltar, penso. É preciso paciência e, claro, oração.

Hoje vi um cartoon que mostrava uma igreja vazia. Um padre diz: “O Concílio abriu a Igreja”, ao que o acólito responde: “E os fiéis saíram”. Pode ser verdade… e nesse sentido, aqueles que apontam a “abertura da Igreja ao mundo” como a grande conquista do concílio poderão estar enganados. Por outro lado, podemos perguntar se muitas dessas pessoas estavam lá convictas ou não… os ortodoxos não tiveram reforma litúrgica nem concílio, mas têm as igrejas igualmente vazias, ou mais.

Mas o Concílio não foi só isso. Foi também, para dar só um exemplo, o abandono de uma atitude triunfalista e arrogante no que diz respeito ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso e o investimento na construção de relações, primeiro de amizade, com outros cristãos que, com a ajuda de Deus, conduzirão à plena comunhão no futuro.

Quanto à fuga dos fiéis, se a Igreja for verdadeira e fiel à sua missão, muitos hão-de voltar. Talvez sejamos uma Igreja mais pequena no futuro, mas isso não nos deve preocupar. Seremos, certamente, uma Igreja mais cristã, mais católica, onde todos, incluindo os leigos, podemos desempenhar papéis mais úteis e informados. Isso também é uma conquista do Concílio.

Finalmente uma recomendação aos católicos da minha geração. Familiarizem-se com o Concílio. Conheçam os documentos, leiam-nos. Aproveitem o Ano da Fé para isso. Já agora, aos mesmos, a caixa de comentários está aberta para partilharem também as vossas experiências, já que não presumo que fale por todos.

Filipe d'Avillez

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A arte de não comentar...

O Patriarca de Lisboa disse hoje que não quer entrar na balbúrdia das opiniões sobre a situação actual do país.


Tudo isto em Fátima, na conferência de imprensa que lança as celebrações do 13 de Maio, que lança o Ano da Fé em Portugal.

A citação do dia vai para o Pe. António Vieira, por via do Bispo de Beja, D. Vitalino Dantas: “A fé que não se apega, apaga-se”.

Ontem o Papa voltou a falar do Concílio Vaticano II, falando de um legado com “luzes e sombras”. Uma das sombras é a fuga dos fiéis… exemplo disso é a holanda, onde fecham duas igrejas por semana.

No meio disto tudo a Renascença encerra este fim-de-semana, também em Fátima, as celebrações dos 75 anos de existência. O padre João Aguiar considera que enquanto rádio católica ela tem “uma responsabilidade diferente” das restantes.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Küng, a velha do eléctrico 18


No meu dia-a-dia, em transportes públicos e no bairro onde vivo, é frequente assistir às litanias de queixas dos idosos. Sem pôr em causa a legitimidade das suas queixas, confesso que é deprimente perceber que há pessoas que chegam à velhice desiludidas, revoltadas, que apenas vêem razões para refilar sobre tudo o que se passa no mundo.

Vem isto a propósito de Hans Küng. O teólogo suíço é simultaneamente o porta-voz e o espelho de uma corrente dentro da Igreja que se assume como crítica da hierarquia e, sobretudo, do Papa.

Tal como as velhinhas que ouço a falar no eléctrico, Hans Küng só se sabe lamentar.

Há semanas, tendo sido convidado para participar num evento comemorativo do Concílio Vaticano II, o teólogo suíço agradeceu mas recusou, dizendo que no clima actual da Igreja, seria mais adequado um serviço fúnebre.

Agora, contudo, parece ter perdido completamente o norte e num texto publicado num jornal alemão chega ao ponto de acusar o Papa de ser cismático. Sim, leram bem, não é Küng – que está impedido de ensinar teologia católica, que abraça movimentos que fazem “apelos à desobediência” e que aceita de bom grado prémios entregues pela maçonaria – que é cismático… é Bento XVI.

E porquê? Tudo porque o Papa cometeu o terrível pecado de convidar de volta à comunhão da Igreja cristãos que estavam afastados há muito tempo. Um gesto louvável de ecumenismo, dirão alguns… e não é Küng um grande defensor do ecumenismo?

Mas o problema é que estes, que tudo indica irão agora regressar à Igreja, são os cristãos errados. Não são os protestantes amigos de Küng, são os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X, e para Küng, pelos vistos, a hospitalidade ecuménica deve servir-se só a alguns.

Küng alerta que os tradicionalistas da SSPX são “ultra-conservadores, anti-democráticos e anti-semitas”. Eu próprio já argumentei aqui que apesar de ser favorável a esta reintegração, os membros da SSPX são, em boa parte, gente complicada, triunfalista e arrogante.

Mas serão mais desagradáveis que os 400 ou mais padres que, sobretudo na Áustria fazem “apelos à desobediência”, professam abertamente opiniões que são incompatíveis com o catolicismo mas que, todavia, continuam em comunhão com Roma? Devem uns estar dentro e outros fora?

No seu texto, Küng avisa que os bispos e padres tradicionalistas têm ordens “certamente inválidas”. É uma opinião que alguns, muito poucos, defendem, mas que o Vaticano sempre descartou. Tanto que qualquer católico pode, sobretudo se não tiver um sacerdote ou uma paróquia “regular” por perto, participar dos sacramentos com sacerdotes da SSPX.

Mas o mais curioso é que mais à frente Küng afirma que em vez de perder tempo com estas criaturas terríveis, o Papa devia era “reconciliar-se com as igrejas reformadas” [protestantes]. Sr. Padre Küng, se as ordens dos tradicionalistas da SSPX são inválidas, as do clero das igrejas reformadas são o quê?

Humildade e obediência
Küng está revoltado. Foi um dos protagonistas do Concílio Vaticano II e é com horror que, perto do fim da sua vida, vê na Igreja um ambiente que pretende recuperar alguma da herança que depois do Concílio se pensava perdida. Ele, e outros, mostram-se muito ciosos dos documentos conciliares nesta altura, esquecendo-se que nos mesmos documentos que juram estar a defender, não existe qualquer abertura ao sacerdócio feminino, à aceitação das práticas homossexuais ou à abertura da Eucaristia a todos, que tão vigorosamente advogam. É o grande problema do “Espírito do Concílio”, aquela coisa vaga que serve para cada um defender o que bem quiser com a suposta autoridade do Vaticano II.

Até coloco a hipótese, embora para mim pouco provável, de Küng ter razão nos seus queixumes. Não há falta de exemplos de santos e santas que foram injustiçados pela hierarquia e silenciados, tendo sido reabilitados só postumamente. Mas a grande diferença entre esses e Küng é o espírito de obediência, fruto de uma tremenda humildade. Coisa que quem promove “apelos à desobediência” jamais compreenderá.

Sei que Hans Küng tem trabalho feito, e bem feito, na área da Teologia. Que é um dos teólogos incontornáveis do século XX, sobretudo do período do concílio.

Infelizmente, para a minha geração, ele será lembrado para a posteridade como um velho revoltado que só se sabe lamentar e queixar. Como as velhas do 18, que me acompanham todas as manhãs.


Filipe d'Avillez

terça-feira, 27 de março de 2012

A Igreja tem de reconciliar-se com a sua própria cultura

Quem quer ter uma relação profunda com alguém deve primeiro estar em paz consigo mesmo. Por essa razão, diria que a coisa mais importante a fazer neste campo é a Igreja reconciliar-se com a sua própria cultura.

Não estamos a falar de uma instituição que nasceu ontem, ou há uma década. A Igreja tem dois mil anos de cultura, fora outros tantos milhares que herdou da civilização judaica no seio da qual nasceu. Durante centenas de anos esta Igreja não só interagiu com a cultura dominante como foi a sua principal impulsionadora e mecenas.

Este estado de coisas levou a uma certa reacção. O mundo da cultura revoltou-se contra a Igreja e toda a tradição cristã, ao ponto de ambos os universos terem ficado quase de costas voltadas. Mas a revolta não se deu só do lado da cultura, também a Igreja se revoltou, em larga medida, contra si mesma. Um mal definido “espírito” do Concílio Vaticano II foi interpretado por muitos como uma licença para ignorar dois milénios de cultura católica, na vã esperança de que diluindo essa identidade a instituição se tornasse mais apelativa a quem tinha criado anticorpos a tudo quanto era clerical.

Modernizou-se a liturgia, tudo bem. Mas era preciso criar um clima em que o mero interesse pela liturgia antiga fosse vista praticamente como crime? Quantas dioceses em Portugal aplicaram o Summorum Pontificum? Não é por falta de interessados.

Existem na Igreja Ocidental três dioceses que têm o privilégio de usar uma variante distinta do rito romano. Milão, Toledo e Braga. Os dois primeiros cultivam e protegem essa riqueza. Por cá, quantos dos leitores já assistiram a uma celebração do rito Bracarense?

Damos por nós, enquanto Igreja, a incentivar os cristãos orientais a redescobrirem as suas raízes e a manterem as suas tradições e culturas distintas (e que fontes de riqueza são!), ao mesmo tempo que fechamos os olhos a séculos de cultura litúrgica e espiritual ocidental. Sempre achei a pior forma de paternalismo lutar pela cultura alheia enquanto tudo se faz para suprimir a nossa, dando a ideia que somos muito modernos mas que os outro devem ser preservados, quais peças de museu, para podermos observar e admirar.

Mais grave, ao abandonar a nossa herança permitimos que estes domínios se tornem bandeira quase exclusiva de movimentos tradicionalistas, e por vezes cismáticos, de carácter frequentemente duvidoso.

Hoje em dia percebemos cada vez melhor que não podemos ir ao encontro de outros sem conhecer algo sobre eles. Vemos a um ritmo quase diário o custo da falta de preparação cultural de agentes ocidentais que actuam em regiões como o Médio Oriente ou, para citar um caso mais recente, no Afeganistão.

Não temos então a obrigação de nos reconciliarmos com a nossa própria cultura? Familiarizar-nos com ela, explorá-la, recuperar o que for para recuperar, antes de nos sentirmos capazes de olhar nos olhos os nossos interlocutores do mundo da cultura?

Penso que sim. Sei que há uma nova geração, quer de leigos quer de padres, menos próximos do Concílio e que rejeitam o ambiente de ruptura que dele surgiu em muitos lados. Caberá a estes cristãos pôr fim a uma guerra fratricida com o qual não nos identificamos e que apenas prejudica a Igreja. Acredito mesmo que é urgente fazê-lo, sob pena de o mundo cultural nos considerar insignificantes e não ver qualquer utilidade em dialogar connosco.

Filipe d’Avillez

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia da Mulher, capela vencedora e Agapinhos

Foto: Nelson Garrido


Uma capela portuguesa venceu o prémio de arquitectura religiosa. Vale a pena ver de perto!

Ainda os feriados religiosos… Afinal agora diz-se que o 15 de Agosto poderá não acabar, diz o bispo emérito de Bragança.

Lembram-se do padre Marcelo Rossi? Está em Portugal para lançar o seu livro. Ontem visitou a prisão de Caxias e esteve também no auditório da Renascença, onde falou sobre o seu novo livro “Ágape”. Vai ser lançada também uma versão para crianças, chamada “Agapinho”. A sério.

Ontem na Renascença foi também dia de debate sobre a actualidade da Igreja. Entre outros assuntos, D. Nuno Brás falou da polémica das prostitutas da Mouraria e das freiras oblatas. É um tema que já abordámos em mais detalhe aqui.

Por fim, D. José Policarpo considerou ontem que o Concílio Vaticano II é hoje mais actual do que há 50 anos.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A caminho do 3º cardeal e eleições nos EUA

Portugal poderá passar a ter três cardeais, um marco notável para um país pequeno. D. Manuel Monteiro de Castro foi hoje nomeado para um cargo na Cúria Romana que deve conduzir ao cardinalato… poderá ser já em Fevereiro, amanhã deve-se saber.

Mitt Romney venceu ontem as primárias de Iowa do partido republicano. A religião já está a assumir um papel de peso nestas eleições, esse peso ainda deve aumentar.

Falando de política e religião, voltamos ao tema da Constituição da Hungria, agora com uma notícia mais especificamente religiosa. Com a entrada em vigor da constituição, e das leis específicas que a acompanham, várias religiões perderam o seu estatuto legal no país.

Recordo que este tema tem dado que falar no blog, tanto aqui como aqui


Por fim, chamo a vossa atenção para uma série de conferências que se vão realizar na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, subordinadas ao 50º aniversário do Concílio Vaticano II. A não perder.

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