quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A Difamação do Cardeal Burke

Uma das figuras mais exóticas da Marcha pela Vida este ano em Washington, era um excêntrico entusiasmado – provavelmente pentecostal ou fundamentalista – que carregava um grande cartaz anticatólico e gritava por um megafone. Só apanhei um bocado do que ele dizia, mas era o habitual sobre o facto de o Papa ser o anticristo e os católicos “adorarem Maria como uma deusa”. Coitado. Mas uma coisa ninguém lhe tira: Debaixo da loucura ele acredita sinceramente que as formas de liderança e o conteúdo da fé cristã são realmente importantes. Ouvi-o a dizer a outro participante da marcha que “isto são coisas sérias, meu!”

De facto.

Sexta-feira o “The Washington Post” brindou-nos com algo muito pouco sério. Uma difamação ridícula do Cardeal Raymond Burke, debaixo da manchete “Como o Papa Francisco pode Limpar a Podridão de Extrema-direita da Igreja Católica”. Assinada pela jornalista Emma-Kate Symons, a peça tinha tanta noção da realidade e do contexto da Igreja como o tipo do megafone. O texto arrancava assim: “O Papa Francisco precisa de tomar medidas mais duras contra o católico americano mais influente em Roma, o Cardeal Raymond ‘Breitbart’ Burke”.

É que a Breitbart entrevistou uma vez Burke – ainda por cima sobre o Islão – por isso agora, segundo o “Post”, Breitbart passou a ser o nome do meio, estão a ver?

Há pessoas que não gostam do Catolicismo ortodoxo, sempre houve e sempre haverá. Mas esta “jornalista” não estava a lamentar-se numa esquina ou num blogue de extrema-esquerda, mas nas páginas de um jornal que em tempos foi moderado mas que teve uma forte viragem à esquerda desde que foi adquirido por Jeff Bezos, da Amazon. Mas qualquer editor, seja qual for a sua orientação ideológica, deveria ter olhado de relance para este artigo de opinião e compreendido que não passava de uma parvoíce.

Mas o “Post” não está sozinho nesta coisa de deixar o profissionalismo pelo caminho por uma questão de paixão política. Ainda esta semana o “New York Times” publicou uma “notícia” de primeira página – mas que na verdade era um ataque pessoal mal investigado – assinado por Jason Horowitz, muito na mesma linha: “Steve Bannon Leva a sua Batalha para Outro Local Influente: O Vaticano”.

Toda a história assenta numa reunião que teve lugar em 2014 entre o Cardeal Burke e Steve Bannon, o arruaceiro da Casa Branca. Na sua histeria contra o Presidente Trump, os media adoram caracterizar Bannon como uma espécie de “storm trooper”. Não sou fã de Bannon ou da Breitbart, que ele geria. (Aliás, uma vez recusei um convite para aparecer na Rádio Breitbart para conversar com Bannon sobre católicos críticos de Trump porque sabia que ele me ia atacar. Prometeu que não o faria, mas depois fez exactamente isso à pessoa que compareceu, o Robert P. George.) Ainda assim, a verdade é a verdade. Do meu ponto de vista o modus operandi de Bannon é muitas vezes autodestrutivo, mas os media estão simplesmente a descredibilizar-se com esta caça às bruxas no gabinete de Trump.

Mas regressemos a Burke. A história do “Post” parte dessa reunião de 2014 e tece uma narrativa absolutamente delirante: Que Burke faz parte de um movimento global anti-islâmico, anti-mulher, nacionalista e pró-tudo-o-que-é-mau, que chegou ao poder com a vitória de Trump e que tem à cabeça Steve Bannon. Mas como o nosso amigo astuto Phil Lawler fez notar, essa reunião aconteceu em 2014, ou seja quase dois anos antes de Trump se candidatar sequer à Presidência e muito tempo antes de alguém imaginar sequer que Bannon viesse a trabalhar para ele. Então como é que essa reunião de há anos marca Burke de tal forma que obriga o Papa Francisco a “Limpar a Podridão de Extrema-direita da Igreja Católica”?

Bom, Bannon também falou numa conferência patrocinada pela Fundação Dignitatis Humanae, em Roma, em 2014. Burke faz parte da direcção da DH. Logo, o político três vezes divorciado e o defensor incansável da indissolubilidade matrimonial devem estar completamente alinhados, não?

E a nossa colunista intrépida ainda conseguiu descobrir que outro cardeal da direcção da DH também assinou a carta com as Dubia sobre o Amoris laetitia. Com isto está a insinuar, claro, que a oposição à comunhão para divorciados recasados faz parte do pacote de “podridão de extrema-direita”.

Tal como acontece com grande parte da imprensa, o que se está a fazer aqui é traçar uma linha imaginária entre as duas realidades que qualquer pessoa que saiba o mínimo sobre o assunto só pode descartar. O Bannon é, como já disse, um arruaceiro – às vezes o mundo precisa de certo tipo de arruaceiros. Burke, por outro lado, é um homem profundamente gentil – e o mundo também precisa destes. Quem não sabe isto não conhece o Burke. Bannon tem falado da ameaça do Islão e do Marxismo cultural para o Ocidente e da necessidade de os combater politicamente. Burke também – como muitos de nós – mas como devem imaginar fê-lo por razões bastante diferentes e, sobretudo, com uma entoação muito diferente.

Cardeal Raymond Burke
De forma geral Burke tem-se preocupado com assuntos doutrinais na Igreja e – não nos esqueçamos – foi prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica. Estamos a falar de coisas técnicas e intelectuais e não de populismo nem de política partidária. De facto ele fala frequentemente – de uma forma que, quanto a mim, exprime a sua maior paixão – sobre como o falhanço da educação católica ao longo dos últimos 50 anos feriu a Igreja e obscureceu os ensinamentos que Jesus lhe confiou para nossa salvação. Tem dito francamente pouco que pudesse ser considerado político, no sentido normal da palavra.

Mas liga-se o Bannon ao Burke, sugerindo culpa por associação, e tem-se uma verdadeira festa para a esquerda. O Cardeal já estava nas más graças de Francisco por causa da situação da Ordem de Malta – outro assunto confuso. Mas ainda por cima o Papa acaba de nomear um delegado pessoal para a Ordem de Malta o que parece deixar o Cardeal Patrono sem portfolio. O artigo do “Post” não ajuda em nada.

E depois, claro, há a questão de Burke e outros três cardeais terem publicado as “dúbia” sobre o Amoris laetitia – perguntando não só se agora, contrariando a história católica, é permitido dar comunhão aos divorciados recasados, mas também se estamos perante mudanças no campo da teologia moral em relação à consciência, normas sem excepção, mal intrínseco e a própria teologia da Santa Eucaristia.

Até se pode acreditar que Burke e companhia erraram ao publicar as “dubia”, que anteriormente tinham sido apresentadas privadamente ao Papa. Ou então que Burke tem sido tratado injustamente, como tem acontecido a outros na Curia, ao ser demitido das suas funções sem explicação. Mas é preciso ser completamente louco para colocar no mesmo saco este cardeal de brandos costumes e tudo o que os media acham repugnante – ou pior – na nova Administração americana.

É mais um sinal da confusão que existe actualmente na Igreja e no mundo.

Uma das categorias morais que tem desaparecido, juntamente com muitas outras coisas da cultura ocidental, é a noção de difamação. É pior do que mentir. É mentir com a intenção de causar dano. Vejam no dicionário. E por favor, reconheçam-na quando a virem.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2017)

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1 comentário:

  1. Depois de tantas injustiças, terá sido agora condenado a uma espécie de exílio em Guam?

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