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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Texto e o Contexto

O sínodo sobre a família de 2015 já acabou, depois de ter produzido vários pontos positivos, e não poucos negativos. O relatório final contém algumas reflexões espirituais fortes, inspiradas pelas Sagradas Escrituras e as tradições da Igreja. Trata também de forma realística muitas das situações políticas, sociais e culturais de famílias em todo o mundo – situações que variam muito: Desde a cultura hedonista e saturada de sexo do Ocidente às condições de guerra e perseguição do Médio Oriente e África. Alguns parágrafos eram escusados. Se o virmos apenas como uma visão geral da família, tem o seu valor. Mas o contexto em que o texto foi elaborado é outra coisa e será uma ferida aberta durante muitos anos.

Um tema repetido muitas vezes pelos padres sinodais durante as últimas três semanas é que uma Igreja preocupada com o futuro da família estaria a adoptar uma visão muito estreita se se limitasse a reflectir preocupações ocidentais sobre divorciados e homossexuais. Um dos sinais do quão longe o sínodo de 2015 já foi, apesar de ainda haver problemas, é que já não há nada daquela linguagem de “aceitar e valorizar… orientação sexual gay, sem pôr em causa a doutrina católica da família e do matrimónio”, trata-se de uma recuo grande em relação ao relatório intermédio de 2014. Durante o fim-de-semana, a BBC disse que o Papa Francisco tinha sido “derrotado” na questão dos homossexuais – o que não é particularmente correcto, tendo em conta que ele não defende o casamento gay. E ainda por cima, o instrumentum laboris, com o qual ele teve pouco que ver, não dizia grande coisa sobre homossexualidade. Mas a cadeia britânica não foi a única a inventar coisas de acordo com as suas próprias obsessões. Cuidado com estes relatos e com os media em geral. 

Uma boa parte do relatório final é útil e reflecte uma Igreja global interessada em proclamar a Boa Nova e em corresponder às responsabilidades de todas as famílias do mundo. Quando for traduzido, valerá a pena passar algumas horas a estudar, por parte de todos os que se interessam pelos actuais problemas e pelo futuro das famílias.

Mas a questão do acesso à comunhão por parte de divorciados recasados continuou a absorver a maior parte das atenções no mundo desenvolvido – sobretudo nos media. Teria sido bom poder dizer que agora sabemos em que situação estamos. O Wall Street Journal não tem dúvidas: “Bispos entregam ao Papa uma derrota na aproximação aos católicos divorciados”. (Que é como quem diz, como muitos repararam, que não existe uma referência clara ao acesso à Comunhão para estas pessoas no documento e, por isso, não existe apoio textual para uma das correntes que consta do processo sinodal desde que o Cardeal Walter Kasper se dirigiu aos bispos, a convite do Papa, no dia 15 de Fevereiro de 2014). Mas o jornal romano Il Messagero leu a coisa de maneira diferente: “Sim, para os divorciados recasados”. Outros, que queiram que essa seja a mensagem, também o afirmarão. Na verdade, o resultado foi, como tem sido frequente com este Papa, confuso.

Os bispos optaram por não votar sobre o documento como um todo, mas apenas nos parágrafos individuais, o que faz do texto, no fundo, uma série de reflexões apresentadas ao Papa para sua consideração e não uma afirmação global aprovada formalmente pelos padres sinodais. Teremos de esperar por Francisco para ele nos dizer o que considera que deve ser o próximo passo. Poderá ter tornado a sua vida mais complicada tanto pela forma como o sínodo foi gerido como (ver abaixo) pela forma zangada como reagiu às críticas e para com os mais conservadores.

Apesar do que se possa vir a dizer ao longo das próximas semanas, vale a pena repetir: O relatório final do sínodo não refere o acesso à comunhão para os divorciados recasados. Se é isso que o Papa quer, terá de ser ele a colocá-lo lá. Como temos dito desde o início, houve oposição clara a essa proposta em si. Por causa da controvérsia, a linguagem final sobre a relação entre a consciência e a lei moral é muito mais clara no texto final do que no instrumentum laboris. Mas alguns parágrafos do texto final – que obtiveram o maior número de votos negativos – exploram muito a ideia do “discernimento” das circunstâncias individuais e invocam o “foro interno”, ou seja, a direcção privada por um padre ou bispo, chegando mesmo até à fronteira do acesso à Eucaristia, sem o pôr em palavras.

Alguns jornalistas dizem que isto se trata de uma forte defesa do ensinamento actual da Igreja, mas essa é uma caracterização demasiado optimista. Mas também não é um livre-trânsito para liberais. Houve esforços nas discussões do último dia para deixar claro que isto não era um convite para mudar a doutrina ou a disciplina. O padre Federico Lombardi sublinhou propositadamente a continuidade com os ensinamentos de São João Paulo II e Bento XVI . O Cardeal de Viena, Christoph Schönborn, realçou, de forma menos convincente, que haveria critérios claros para guiar esse discernimento.

Os critérios existem, mas se são claros é outra questão. Quando se olha para o texto, o que vemos é isto (tradução da nossa autoria, uma vez que o texto em português ainda não foi publicado):

85. São João Paulo II ofereceu critérios compreensivos, que permanecem a base de avaliação para estas situações. “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjectivamente certos em consciência de que o precedente matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido.”

Aqui vemos João Paulo II a ser usado para dar força à ideia de um discernimento mais vigoroso, o que em si pode ser esticar a corda, tendo em conta a forma como o discernimento é entendido hoje em dia. O que falta é o que JPII diz passados dois parágrafos, no Familiaris Consortio: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio”.

A indissolubilidade é afirmada noutros pontos do relatório final e há passagens polvilhadas pelo texto que sugerem mais claramente aquilo que o Papa João Paulo II disse. Há também referências ao Catecismo da Igreja Católica sobre “inimputabilidade”, quando as circunstâncias diminuem ou anulam mesmo a responsabilidade pessoal. Devidamente seguidas, todas estas citações poderiam significar que nada mudou na prática da Igreja. Mas oitenta padres sinodais votaram contra este parágrafo, o maior número de votos contra de qualquer parágrafo isolado porque, sem permitir explicitamente uma mudança na prática, ele tem o potencial de permitir muitas escapatórias.

A questão que está a gerar mais controvérsia é esta: O discernimento será devidamente conduzido na linha dos princípios morais firmes enunciados por JPII? É aqui que alguns optam pela abordagem do Wall Street Journal e outros pela do Il Messagero. As palavras do texto são estas:

86: O percurso de acompanhamento e discernimento orienta estes fiéis em direcção a um exame de consciência sobre a sua situação diante de Deus. A discussão com o sacerdote, no foro interno, caminha juntamente com a formação de um juízo correcto sobre aquilo que bloqueia a possibilidade de uma melhor participação na vida da Igreja e sobre os passos requeridos para que ela cresça. Tendo em conta que na mesma lei não existe gradualidade (cf. Familiaris Consortio 34), este discernimento nunca pode prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade, como propostas pela Igreja. Para que isto possa acontecer, devem ser garantidas as condições necessárias de humildade, reserva, amor pela Igreja e pelos seus ensinamentos, na busca sincera pela vontade de Deus e no desejo de responder a ela de forma mais perfeita.

Para chegar a este texto foi preciso muito ajuste e os peritos em teologia irão sem dúvida analisá-lo cuidadosamente. Mas lendo-o como está, e retirado do contexto polémico, até se poderia dizer que tinha sido escrito por João Paulo II. A frase que eu destaquei em itálicos parece dar bastante força à necessidade de uma mudança de vida para remover obstáculos, mais do que outra coisa qualquer. E quando se diz que não existe gradualidade na lei, está-se a dizer que as pessoas se aproximam gradualmente daquilo que devem seguir, mas que a lei é constante e não pode ser abrogada simplesmente porque há pessoas que levam mais tempo a harmonizar-se com ela. Ainda assim, há uma razão pela qual 64 padres sinodais votaram contra este parágrafo, talvez não tanto pelo que diz, mas por aquilo a que poderá conduzir no actual clima que se vive na Igreja.

Mas também vale a pena notar os votos para o Conselho do Sínodo, o grupo que governa os próximos sínodos. Tal como disse na sexta-feira (apesar de os resultados oficiais ainda não serem públicos nessa altura), estes mostram basicamente que existe uma maioria de dois terços a favor do ensinamento católico tradicional. O jornalista Sandro Magister disse durante o fim-de-semana que o arcebispo Charles Chaput, de Filadélfia, foi quem recebeu o maior número de votos de todo o mundo, embora os cardeais George Pell e Robert Sarah também tenham tido números significativos. Isto são excelentes notícias. Das américas temos também o canadiano Cardeal Marc Ouellet (um tipo formidável), e o Cardeal Oscar Maradiaga (muito próximo do Papa). Da Ásia os cardeais Pell, Oswald Gracias (Bombaím) e Luis Antonio Tagle (Manila). De África os cardeais Sarah, Wilfred Napier, e o bispo Mathieu Madega Lebouakehan, do Gabão.

Só na Europa é que as escolhas foram mais fraquinhas: Schönborn, o arcebispo inglês Vincent Nichols e o arcebispo Bruno Forte (cardeais italianos fortes como o Scola, o Caffara e o Bagnasco tiverem também muitos votos individuais, e se os italianos se tivessem unido atrás de um candidato, este teria arrasado). Em todo o caso, na medida em que o Conselho do Sínodo conduzirá os eventos futuros, há uma preponderância de figuras sérias e a sua selecção demonstra o sentir geral dos padres sinodais.

O próprio Papa não estava particularmente contente no final dos procedimentos, embora como é hábito em eventos do Vaticano a linha oficial tenha sido que tudo terminou numa grande demonstração de fraternidade e sinodalidade, incluindo uma ovação de pé no final do seu discurso. Entre muitas afirmações positivas, contudo, Francisco expressou irritação com partes da conversa. “Ao longo deste sínodo foram livremente expressas opiniões diferentes – por vezes, infelizmente, de forma pouco caridosa…”

E nas suas declarações sobre a razão de ser do sínodo, disse: “Tratou-se de abrir os corações fechados, que frequentemente se escondem mesmo atrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções, para se sentarem na cátedra de Moisés e julgar, por vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas”.

Este é um tema recorrente com ele. Ninguém negaria que existem pessoas autoritárias entre aqueles que enfatizam os ensinamentos tradicionais – tal como há pessoas autoritárias com opiniões teológicas contrárias. Mas estas são as franjas, os poucos. Muitos clérigos e leigos ficaram ofendidos – e enfurecidos – com esta afirmação. É justo sublinhar que pode bem ter estado a dizer que alguns tradicionalistas são duros de coração, mas não foi essa a leitura que a maioria das pessoas fez e é natural que isso venha a exacerbar as divisões que já existem.

Esta é a realidade com que teremos de lidar nos próximos tempos na Igreja. O Relatório Final é um texto tolerável, sobretudo tendo em conta que é produto de uma comissão de 270 pessoas. Se tivesse aparecido durante o pontificado de João Paulo II, teria causado pouco alarido. Mas num contexto de suspeição mútua e de revolta, o tolerável pode bem tornar-se intolerável.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 26 de Outubro de 2015)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Poligamia, emendas e hóstias caseiras

Amanhã é o Dia D do sínodo. Os bispos vão votar o documento final. Esse esteve a ser elaborado hoje, depois de terem sido feitas 50 propostas de emendas por parte dos bispos.

Segundo um dos participantes no sínodo, as perguntas são claras, as respostas é que nem por isso.

Tem-se falado muito do facto de as discussões no sínodo terem ignorado a realidade de outras culturas e houve bispos que lamentaram o facto de no sínodo terem ficado assuntos importantes por discutir. A esse respeito falei com um bispo nigeriano sobre o problema da poligamia e a conclusão é que é um assunto mais complexo do que possa parecer à primeira vista.

Conheça aqui o padre de 80 anos que ainda faz hóstias em casa, de forma artesanal…

E não deixe de ler esta reportagem da participação de Jorge Silva Melo nas conversas sobre Deus, com Maria João Avillez, na Capela do Rato.

Por fim, fica novamente a recomendação para ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre o que faz verdadeiramente “grandes homens”.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Marx, Müller e o Tarzan das ocupações surpreendem

Cardeal Reinhard Marx
Foram hoje apresentados os relatórios dos grupos de trabalho no sínodo, relativos à terceira parte do instrumentum laboris, precisamente a parte mais “polémica”. Aqui pode encontrar o essencial de todos os relatórios.

Mas o que mais admirou foi o facto de o grupo de língua alemã ter apresentado uma proposta de admissão de algumas pessoas em uniões irregulares aos sacramentos. A surpresa, lá está, não é a proposta, mas sim o facto de ter sido aprovada por unanimidade nesse grupo, o que significa que os cardeais Marx e Kasper estiveram de acordo com o cardeal Muller.

Durante a conferência de imprensa de hoje, o Cardeal Marx aproveitou também para lamentar o tom com que o cardeal Pell se dirigiu aos defensores da mudança da prática da Igreja nestes casos.

A preparação para o matrimónio tem sido um dos assuntos em cima da mesa. A jornalista Matilde Torres Pereira foi ver o que se faz nesse campo em Portugal, e se é suficiente.

Anda a circular uma notícia que diz que o Papa está com um tumor benigno no cérebro, mas o Vaticano desmente categoricamente

O que parece ser mesmo verdade é que alguém do Vaticano escreveu uma carta de apoio ao “Tarzan das ocupações”… pois… mais vale lerem, porque não sei bem o que dizer sobre este assunto.

O padre Tolentino venceu um prémio literário pela obra “A Mística do Instante – O Tempo e a Promessa”

E hoje é dia de artigo do Catholic Thing. O padre Jerry Pokorsky estreia-se na versão portuguesa com um texto que mostra as diferenças entre a perspectiva terrena e a perspectiva cristã sobre o que constitui um “grande homem”.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Igreja ou é missionária ou não é Igreja

Agora é que as coisas vão começar a aquecer! Os padres sinodais já começaram a discutir a secção do documento orientador do sínodo que contém as questões mais polémicas. Hoje já foi assunto no briefing.

Em relação à segunda secção do documento, que acabou de ser discutido, pode ler aqui o essencial dos relatórios de cada grupo, publicados ontem. Também ontem foi ficando mais claro que os bispos querem mesmo que o Papa publique algo, como uma exortação apostólica, para dar mais sentido às conclusões do sínodo.

Directamente de Roma D. Manuel Clemente, que participa neste sínodo, esteve no debate sobre religião na Renascença e também comentou a actualidade política, dizendo que considera um acordo entre a coligação e o PS como a solução mais “normal” para o actual impasse.

O Papa enviou uma mensagem à fundação Ajuda à Igreja que Sofre em Portugal, que acaba de cumprir 20 anos de existência, em que pede que o mundo acorde para o sofrimento e a perseguição de que os cristãos são alvo.

A Igreja ou é missionária, ou não é Igreja”. Quem o diz é o padre Tony Neves, que acaba de lançar um segundo volume do seu livro “Crónicas com Missão”.

É verdade que há muita violência religiosa no mundo, mas precisamente por isso não precisamos que se veja essa ligação entre as duas realidades onde ela não existe. Randall Smith escreve aqui sobre o seu encontro surreal com uma jornalista em “Religião, Violência e Preconceito Ignorante”, o artigo desta semana do The Catholic Thing.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Um "texto mártir" que o Papa não merece

Cardeal Tagle e Arcebispo Kurtz
Os bispos reunidos no sínodo para a família fizeram muitas críticas ao documento de trabalho que estão a analisar. O cardeal Tagle, das filipinas, diz que é natural, pois trata-se de um “texto mártir”. O consenso dos grupos de trabalho é de que a linguagem é demasiado negativa, é preciso falar mais da ideologia do género e que a perspectiva é demasiado ocidental. Depois há críticas mais gerais, como a de um dos grupos de língua inglesa que diz que o Papa merece um documento melhor…

Esta manhã o Papa Francisco interrompeu os trabalhos do sínodo para dizer aos bispos e outros delegados que é preciso rezar mais urgentemente pela paz, sobretudo no Médio Oriente.

A tragédia que se abateu sobre Meca no dia 24 de Setembro foi, afinal, a mais grave da história da peregrinação anual. Números oficiais contabilizam 1,453 mortos, 600 mais do que as estimativas do próprio dia.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A terra onde "fácil" e "tranquilo" não existem

Depois de ontem o cardeal Erdö ter dado a entender que a comunhão para pessoas em uniões irregulares não estava sequer em discussão, hoje ficámos a saber que afinal está. Mas o Papa quer que se saiba que essa não é a única questão que se discute no sínodo.

O que o Papa também não quer, pelos vistos, é que os bispos entrem em modo conspiração, e por isso hoje falou novamente aos bispos. Se fosse pelo gabinete de imprensa da Santa Sé, porém, nunca o saberíamos.

Entretanto a pouca distância de Roma, na Síria, as palavras “fácil” e “tranquilo” já não são usadas. Quem o diz é o provincial dos salesianos para o Médio Oriente, numa entrevista interessantíssima em que fala também dos refugiados, dos perigos da sua missão e da tristeza de ver os cristãos a abandonar o Médio Oriente.

Hoje partilho convosco mais uma transcrição completa de uma das entrevistas que fiz de antecipação do sínodo. Assunção Guedes é mediadora familiar e fala daquelas famílias que acabam por ser esquecidas no meio destas discussões do sínodo, isto é, as famílias “normais”, mas que também têm problemas.


E por fim, um convite. Na sexta-feira estarei na Igreja Baptista da Lapa, a convite do meu amigo o pastor Tiago Cavaco. É com enorme prazer que participo pela segunda vez no “Fim-de-Semana Cheio na Lapa”, cujo programa vai em anexo. Apareçam, que todos são bem-vindos!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sínodo, sínodo, sínodo e sauditas

"Sínodo? Não! Falemos antes de mim!"
Antes de mais um pedido de desculpas, a semana passada folguei alguns dias e nos outros estive demasiado ocupado para conseguir enviar o mail, mas não desesperem, porque estou de volta!

A razão da minha ausência foi a produção de três reportagens sobre o sínodo para a Família. Uma foi sobre a questão dos “recasados” e inclui uma explicação sobre o que significa verdadeiramente “comunhão espiritual”. Outro artigo foi sobre a questão do acolhimento aos homossexuais e, por fim, falei com uma mediadora familiar sobre os problemas que afectam as famílias “normais”.

Esta mesma mediadora familiar esteve entretanto no debate semanal “Conversas Cruzadas”, dedicado precisamente às questões do sínodo.

Tenho transcrição integral das três entrevistas no blogue, destacarei um por dia, hoje ficam com o cónego Carlos Paes, que desenvolve muito trabalho com os divorciados e recasados.

Entretanto, depois da missa inaugural de ontem, os verdadeiros trabalhos do sínodo arrancaram hoje. O Papa avisou que o sínodo não é lugar para negociar consensos, o cardeal Erdö disse que não vai haver mudanças de doutrina e o cardeal Vingt-Trois, de Paris, concordou, falando ainda do caso do padre polaco que no sábado se assumiu publicamente como homossexual, exigindo que a Igreja mude as suas práticas.

O Cardeal D. Manuel Clemente, já em Roma, abordou também o tema do padre polaco, que acusa de ter tentado manipular o sínodo.

No meio disto tudo 52 clérigos sauditas declararam jihad contra a Rússia, cujo patriarca ortodoxo diz que a intervenção russa na Síria é uma “guerra santa”.

Para terminar, não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, onde Howard Kainz pergunta se as vítimas do divórcio não serão as viúvas e os órfãos dos dias de hoje

Comunhão espiritual e acolhimento de homossexuais

Transcrição integral da entrevista feita ao padre Bernardo Magalhães, antes do início do Sínodo sobre a Família de 2015. Para além de comentar a questão do acolhimento aos homossexuais, o padre Bernardo ajuda-nos a compreender do que se fala quando nos referimos a "comunhão espiritual". A reportagem sobre a questão dos homossexuais pode ser lida aqui, e as referências à comunhão espiritual aqui.

Tem-se falado muito em comunhão espiritual, como opção para as pessoas que não podem receber sacramentalmente. De onde vem este conceito, e o que significa exactamente?
É um conceito muito antigo.

Qualquer sacramento que uma pessoa recebe tem um efeito espiritual. A comunhão tem um efeito espiritual, a união com Cristo, a união na fé e na caridade com Cristo. Portanto toda a comunhão é comunhão espiritual. A comunhão sacramental está ordenada, tem como sentido, esta união espiritual com Jesus Cristo e com o mistério da sua Paixão, morte e Ressurreição. 

Depois, ao longo da história, para prever as situações em que uma pessoa deseja comungar, deseja unir-se a Cristo e ao seu amor levado até ao fim na Cruz, na paixão... Este desejo por vezes não é possível concretizar, porque não tenho acesso aos sacramentos, não posso ir à missa, estou doente, inválido, longe de uma igreja, numa circunstância que, independentemente da minha vontade, me impede de comungar.

O Cardeal Van Thuan, por exemplo, teve anos e anos preso. Algumas vezes conseguia celebrar missa, mas vivia da comunhão espiritual, da união espiritual ao sacrifício de Cristo, que não se concretizava numa união sacramental.

Agora, o problema que se põe com os divorciados e recasados, é um problema diferente. Quando o Papa Bento XVI, o Papa Francisco, o Papa João Paulo II na Familiaris Consortio, falam na Comunhão Espiritual, o que querem dizer é que os divorciados e recasados em concreto, ou qualquer outro cristão nas mesmas circunstâncias que não pode comungar sacramentalmente, deve procurar as disposições interiores para poder unir-se espiritualmente a Cristo, embora não o possa fazer porque a sua vida, livremente escolhida, contradiz de alguma maneira o mistério a que a comunhão nos une. Portanto, a comunhão espiritual também passa a ser entendida como um caminho quase penitencial, um caminho para dispor aqueles fiéis que não estão em Estado de Graça, como se diz na Teologia, em condições de comungar. 

Portanto são duas realidades distintas. A comunhão espiritual para aqueles que não podem receber o sacramento por uma circunstância externa em relação a eles, e independentemente da sua vontade, e que se podem unir espiritualmente àquele mistério e que podem gozar dos efeitos dessa união, serem sustentados na sua fé, na sua caridade e na sua vida cristã, e aqueles que não podem participar plenamente nesse mistério, porque as suas escolhas de vida, de alguma maneira não lhes permitem isso, mas que são chamados como qualquer outro cristão a caminhar nesse sentido. Isto é, no fundo, a comunhão espiritual vivida desta segunda maneira é um apelo à conversão, que é feito a todos e cada um de nós, que cada vez nos aproximemos mais de uma verdadeira comunhão espiritual com Cristo. 

Na prática, esse apelo à conversão poderia levar por exemplo em casos de uniões irregulares, a que os membros do casal vivessem "como irmãos". Sabendo que isso não é comum nem realístico para muitos casais, sobretudo casais em que só uma das pessoas é que manifesta essa vontade, essa disposição para ir-se aproximando é uma coisa que basta... 
Em si mesmo esta disposição é uma coisa óptima e já é uma acção da graça de Deus. Agora, repito, está ordenada à plena comunhão que implica uma adesão, plena também, ao mistério de Cristo, com todas as suas exigências. A fidelidade ao vínculo matrimonial, de fidelidade aos compromissos assumidos, levada até ao fim, até participar e comungar do mistério da paixão de Cristo. Para isso tende toda a vida cristã. Quando se diz que a Eucaristia é o centro e a raiz da vida cristã, é isto que se está a dizer.

Portanto isto não é uma utopia, é uma vocação. O homem tem como vocação comungar com Cristo. Nesta terra, no mistério da sua paixão, que nos conduz à Glória eterna, porque participamos da sua ressurreição também. 

Isto é a nossa vocação que, por vezes, tem traduções práticas difíceis e exigentes. E as pessoas que estão numa situação de casadas depois de um divórcio são pessoas que o experimentam de uma maneira especial e, por isso, justificam tantos cuidados pastorais, tanta atenção, justificam tanto isto que o Papa nos pede, quase que exige aos pastores, acompanhar essas pessoas, sem baixar a bitola, sem baixar a exigência, sem dizer que são chamados a um estado de vida cristã de segunda ordem, acompanhar as pessoas no seu concreto caminhar, como a todos os cristãos é pedido. Façam do mistério pascal de Cristo o centro da vossa vida, aquilo de que se alimenta toda a vossa vida, todas as dimensões da vossa vida. O vosso casamento, o vosso trabalho, tudo. 

Estas pessoas não têm uma vocação específica por estarem nessa situação, têm um problema concreto. E um problema concreto que é possível resolver, com a Graça de Deus, quando as pessoas se deixam transformar. Por isso precisamos todos, e em primeiro lugar os pastores da Igreja, de nos deixarmos transformar pelo mistério de Cristo. Não há nada específico do ponto de vista da vocação cristã para estas pessoas. Há dificuldades concretas para as quais temos de estar mais alerta.

O padre Bernardo (2º da esquerda) no dia da sua ordenação
Imaginemos então o caso de uma pessoa que está verdadeiramente convencida que o seu primeiro casamento era nulo, mas que, por alguma razão, ainda não recebeu um decreto de nulidade. Essa pessoa poderia fazer comunhão espiritual, ou deve ser encorajada a fazê-lo?
O casamento é um acto público, feito diante de Deus e da sua Igreja, e por isso não pode nenhuma pessoa, privadamente, declarar a nulidade do casamento. E por isso uma pessoa pode estar convencida o sacramento é nulo, mas enquanto não for considerado nulo a pessoa não pode ter a certeza e a garantia que o casamento é nulo. Portanto aqui põe-se um caso muito simples de uma consciência que, necessariamente, enquanto não há uma sentença que declare nulo o casamento, é necessariamente dúbia. Que não pode ter a certeza do seu juízo. Se eu não tenho a certeza se sou casado ou não e estou junto a outra pessoa, então aceito a possibilidade de estar a trair o meu primeiro vínculo e, portanto, a possibilidade de estar fora da comunhão plena com Cristo, que a comunhão sacramental significa e torna eficaz. 

Por isso não, não se põe a possibilidade de uma pessoa nessas circunstâncias comungar espiritualmente nesse sentido de adesão plena ao mistério de Cristo.

Outro tema de que se tem falado muito é do acolhimento dado aos homossexuais. Perante as novas realidades sociais, incluindo o chamado casamento entre pessoas do mesmo sexo e a possibilidade de adopção por parte de homossexuais, que é legal em muitos países, que novos desafios é que a Igreja poderá enfrentar, que mereçam discussão no sínodo?
Aquilo a que estamos a assistir, de um crescente número de pessoas que manifestam essa tendência, essa atracção por pessoas do mesmo sexo, de casamentos homossexuais que se tornam legislação comum dos estados, colocam um desafio porque a Igreja tem por missão anunciar o Evangelho da família, que Deus criou o homem e a mulher para se unirem, formarem uma família e geraram novas vidas.

Agora, o Papa Francisco tem sido claro e todos temos de levar muito a sério o que ele nos diz. A nossa missão não é dizer às pessoas para saírem porque têm problemas. A nossa missão é dizer às pessoas: "O senhor tem este problema, vamos olhá-lo à luz de Cristo, vamos olhar para a sua vida à luz de Cristo. O senhor tem esse problema em concreto, outros terão outro, e todos os problemas do homem se resolvem com Cristo. A receita para o homem é o mistério da Encarnação". Por isso isto levanta, do ponto de vista social, problemas gravíssimos mas do ponto de vista pastoral parece-me que nos obriga a olhar para este problema da homossexualidade à luz do Evangelho. Portanto, ver nela uma desordem, um afecto desordenado, mas ver nas pessoas que a têm filhos de Deus chamados a ser santos como qualquer outra pessoa.

O mundo está cheio de desordens, que Cristo vai resolver. Isto põe um problema também à Igreja, porque isto é um problema que põe a Igreja claramente contra a corrente, como o Papa Francisco também nos pede".

A questão é particularmente complexa no que diz respeito a crianças, ou não? Como é que uma escola católica, por exemplo, deve agir se um “casal” homossexual quiser inscrever crianças na escola, ou pedir baptismo, etc? Acredita que do sínodo virão indicações sobre estes casos e outros do género?
Certamente que sim, porque o sínodo é convocado justamente para isso, para marcar as linhas de acção pastoral e ajudar o Papa nessa sua missão, por isso certamente que sim e é um problema realmente complicado.

Mas também tem uma dimensão simples, a que o Papa Francisco também apela muitas vezes. Isto é... era o que faltava não baptizar uma criança, desde que os seus pais, como quaisquer outros, se disponibilizem para a educar na fé. Era o que faltava não lhe permitir uma educação cristã. 

Depois há outras questões. Como há muita propaganda à volta destes temas, há muitos lobbies, corremos o risco de sermos instrumentalizados e usados como propaganda. Mas acho que não vai haver nunca uma resposta prudencial muito fácil e talvez a melhor maneira seja reconhecer que é melhor uma Igreja acidentada que uma Igreja paralisada, a cheirar a bafio. 

A virtude da prudência cresce com a experiência e saber o que é bom em cada momento, que decisão concreta devo tomar em cada momento, é preciso ver caso a caso, com a experiência do tempo, porque isto é tudo muito novo. 

Por isso é que nos faz bem ver um Papa que abre o coração a esta experiência, para que não nos fechemos e simplesmente nos enclausuremos nas nossas convicções e deixemos de anunciar o Evangelho a quem quer que seja, seja homossexual ou o que for. Mas anunciar o Evangelho. 

Portanto acho que o Papa, nesse aspecto tem sido um desafio para todos os pastores, e para todos os cristãos e do sínodo poderão sair indicações sobre isso. Mas acho que mais do que do sínodo, sairá da experiência concreta de tratar destes casos. Experiência essa que tem como trave mestra a disponibilidade para levar o Evangelho e todos.

"Sínodo deve revalorizar o matrimónio na sua dignidade natural e sobrenatural"

Transcrição da entrevista feita ao cónego Carlos Paes, que acompanha muitos casais em uniões irregulares através das Equipas de Santa Isabel. A reportagem pode ser lida aqui.

Na sua experiência de trabalho com casais em uniões irregulares que tentam, na medida do possível, viver a fé católica, esta questão do acesso aos sacramentos é fonte de sofrimento?
Normalmente sim, até por motivos psicológicos. Uma pessoa que está privada do acesso à comunhão, nomeadamente, mas também à absolvição sacramental, acaba sempre por ter o sentimento de alguma exclusão, de alguma penitência, que lhe é imposta.

Às vezes aquilo que se passa na consciência de cada um é diferente do juízo que pode ser feito por fora. É por isso que desde a Familiaris Consortio que o Papa assinalou que essas pessoas continuam a ser membros da Igreja e não estão fora da comunhão, não estão excomungadas, embora não possam receber os sacramentos como as outras pessoas. Mas isso não quer dizer que não tenham acesso a outras formas de comunhão e, além disso, não estão castigadas, porque às vezes as pessoas têm a sensação que fizeram uma coisa má  e agora têm de suportar o castigo. Também não estão castigadas.

Esse é o ponto de partida, depois a Familiaris Consortio, e isso continua com este Papa Francisco, sugere caminhos de integração, de participação, de inclusão, dessas pessoas, para que não se sintam marginalizadas.  

Como é evidente não sabe quais serão as conclusões do sínodo, mas nesta altura parece inevitável que ficará muita gente desiludida, seja qual for. Acredita que será possível ainda encontrar uma proposta que satisfaça todas as partes?
Que satisfaça todas as partes, não prevejo, porque há pessoas que são mais radicais, mais exigentes, temem que possa ser uma "Igreja em saldos" para ser mais bem acolhida... Mas eu acredito sobretudo que começar por essas questões é começar pelo fim, porque há todo um trabalho a montante que será a melhor solução para uma reintegração positiva dessas pessoas e até para que esses casos não se multipliquem, como parece continuar a acontecer.

Acho que seria pobre fixarmo-nos aí e só procurarmos se vai haver solução, abertura, absolvição geral... Não. Porque o problema dessas situações resulta também do modo como esses casamentos, a montante, surgiram. As próprias pessoas têm consciência de que não viveram um verdadeiro sacramento de matrimónio, embora tenham vivido um casamento natural muito justo, muito razoável... Mas mesmo o casamento natural não foi perfeito porque se houve a ruptura alguma coisa falhou.

Às vezes há uma certa cultura do descarte, do descompromisso, imaginam que se houver algum problema separam-se, sem mais, mas não é para isso que as pessoas se casam.

Há muita ignorância acerca da beleza do matrimónio e da família, como célula base e mais importante, quer para a sociedade civil, quer para a comunidade religiosa, seja cristã ou de outra religião. Portanto há toda uma riqueza que se pode perder no meio dessa discussão, se vão ser admitidos ou não, se podem receber absolvição ou não, isso não é o principal com certeza e ficaria desiludido se a tónica principal fosse essa e não fosse exactamente revalorizar o matrimónio na sua dignidade natural e sobrenatural. 

Na sua dignidade quer para a sociedade civil quer para a comunidade cristã.

Tem-se falado muito na palavra misericórdia, mais especificamente numa “abordagem misericordiosa”. O que é isto?
A abordagem misericordiosa é, sobretudo, uma abordagem criativa, uma abordagem medicinal, uma abordagem transformadora, uma abordagem reveladora. 

Às vezes pensamos que é simplesmente passar um pano, para limpar, sem mais. Não. A abordagem misericordiosa é sempre reconstrutiva, porque o Deus que é misericordioso, antes de o ser, é misericordioso. E todos os gestos de Deus trazem a marca da criação e Deus cria e recria constantemente o seu povo  e os membros do povo de Deus em geral e também individualmente, exactamente oferecendo uma possibilidade de reconstrução e regeneração. 

Às vezes as pessoas parece que querem simplesmente que não lhes levantem mais problemas, mas que deixem passar, não tem importância, Deus é misericordioso... Não, há aqui um trabalho bonito que tem a ver com o próprio sentido positivo da penitência, a penitência não é um sacramento passa-culpas, a penitência é um sacramento onde cada um tem a oportunidade de olhar para a sua história de vida e perceber que aí pode introduzir um espírito criador novo, pode introduzir uma energia reconsrutiva, que lhe pode fazer divisar capítulos muito mais bonitos, não esquecer as coisas tristes do passado, mas sobretudo capítulos muito mais bonitos, muito mais reconhecidos no seu valor. Porque Deus usa todos os acontecimentos, até mesmo as vicissitudes da vida, para nos proporcionar uma reconstrução, uma regeneração, uma recriação. É sobretudo essa a ideia, isso está muito ligado ao sacramento da penitência.

As pessoas querem simplesmente satisfazer os seus desejos, as suas revoluções, ou estão abertas a uma conversão permanente de vida que lhes permita participar construtivamente, quer na regeneração da sociedade civil, quer na conversão da comunidade cristã.

Neste contexto seria de sublinhar a importância que tem a família no seio da Igreja e da comunidade civil, porque a família é, no seu todo, uma unidade responsável. Não é apenas um ajuntamento de pessoas na mesma casa, a família é para a Igreja a primeira unidade pastoral. 

O melhor que se pode imaginar para se tornarem cada vez mais pessoas responsáveis, mais participativas... ai daquele que não tiver uma experiência positiva, construtiva e feliz de família. 

Pela sua experiência com casais em situação irregular, nomeadamente através das Equipas de Santa Isabel, também há aí famílias sólidas que contribuem para  a Igreja e para a sociedade dessa forma?
Muitas vezes o que se passa é que eles próprios têm consciência que é agora que estão a viver uma verdadeira família, porque aquilo que aconteceu a montante não correu bem, acabou por se desfazer porque não chegaram a mergulhar na verdade. Às vezes um primeiro erro pode dar oportunidade a uma reconstrução mais consciente, mais participativa e às vezes esses casais são excelentes porque já tiveram de aceitar humildemente que nem tudo correu bem, mas que acreditam que é possível e às vezes... 

Entretanto dessas famílias nascem muitas vezes mais filhos. Esses filhos têm direito a encontrar em sua casa um lar feliz, completo, cristão. Eles não podem ser discriminados porque os pais vivem em união de facto ou não são casados pela Igreja. Às vezes estão num processo, não podemos discriminar com base no facto de serem casados ou não, terem ido à Igreja ou não, cumprirem ou não. Temos de perceber qual é a dinâmica daquele casal, o que é que estão a viver? Sentem-se ou não uma família renovada? Com que alegria é que buscam isso? Os filhos têm o direito de se sentirem perfeitamente normais no seio de uma família cristã e participativa, este é todo um trabalho que é muito bonito, muito estimulante e que não podemos esquecer, para felicidade de todos.

O cónego Carlos Paes foi alvo de outra entrevista o ano passado, na antecipação do primeiro sínodo, e que pode ser lida aqui.

"Dificuldades da família levam a sensação de solidão"

Transcrição integral da entrevista a Assunção Guedes, católica e mediadora familiar credenciada. A Assunção trabalha no acompanhamento de mulheres grávidas em dificuldade e suas famílias, com o Vida Norte, no Porto. A reportagem desta entrevista pode ser lida aqui.

Da sua experiência a trabalhar com famílias, quais são as principais dificuldades que estas enfrentam actualmente?
Há dificuldades internas e dificuldades externas. 

Nas dificuldades internas incluo sobretudo as dificuldades de relação, quer entre o casal quer entre gerações. Essas dificuldades têm sobretudo a ver com dificuldades de comunicação, de incompreensão, de dificuldade de entrega uns aos outros.

Para usar uma expressão do Papa, que acho muito certeira, nós temos dificuldade em gastarmo-nos uns com os outros. Numa relação de família, conjugal ou até de relação entre pai e filho, irmãos e irmãs, sogros e noras, há dificuldade nisto, em gastarmo-nos uns com os outros, de nos dedicarmos uns aos outros. É difícil porque isso implica esquecer-me de mim e pôr o outro à frente.

Por outro lado há dificuldades externas e que têm impacto directo e evidente nas relações familiares e aí vejo mais as questões da sociedade actual, de ritmo de vida, de exigências laborais, exigências de consumo e uma necessidade de consumo extremada, exagerada, que é difícil corresponder e que tem estragos evidentes nas relações. 

Depois, ao mesmo tempo, uma dificuldade que é externa mas que também é muito interna é o cansaço. O cansaço provocado por este ritmo de vida acelerado mas que implica falta de tempo e de disponibilidade para o outro, ou seja, a sociedade actual é de tal forma frenética que não nos permite estarmos uns com os outros; estamos desaprendidos de estar uns com os outros, de simplesmente estar, sem um programa estipulado, mas simplesmente para dar tempo à relação para estarmos juntos. Isto acontece de forma mais grave nas relações conjugais, mas na família no seu todo. 

São portanto dificuldades externas e internas, mas com implicações mútuas e que, de certa forma, só para concluir, ambas acabam num factor mais grave, que é a solidão. Ou seja, esta confusão toda termina numa sensação individual de solidão, que vejo muito nas famílias que acompanho. 

Ouvimos muito dizer que o conceito de família está a mudar. Concorda? E isso é bom, ou mau?
Acho que há aspectos que são novos e que são fruto de há umas décadas para trás. Podemos pegar se calhar na revolução francesa como pontapé de saída para estas mudanças familiares, mas desde então as mudanças são a um ritmo alucinante, da geração dos nossos pais para a nossa, da nossa para os nossos filhos, as mudanças são de uma riqueza e de uma violência enormes. 

Agora, se há benefícios? Claro que há benefícios, sem dúvida. Um dos benefícios mais evidentes que vejo é uma maior proximidade das relações dos pais com os filhos. Se calhar há duas gerações as relações dos pais com os filhos era de uma distância muito grande. O papel de educar cabia à mulher, ponto final. Hoje em dia não, há uma envolvência pais-filhos muito maior, que por um lado dá um acompanhamento e um carácter afectivo e emocional à relação pais-filhos muito mais próxima da nossa relação com Deus, por isso muito mais verdadeira e muito mais rica. Isso também é um benefício dessas mudanças todas, por isso efectivamente houve um papel muito grande sobretudo nas funções da mulher, na sua entrada no mercado de trabalho, mas a verdade é que o pai é muito mais tido e achado no seu papel de educador e de membro no seio de uma família.

Acha que o sínodo tem dado demasiada importância a questões fracturantes, e não o suficiente a famílias ditas normais, mas que também enfrentam problemas?
É preciso distinguir duas coisas. Uma é o que são os assuntos em cima da mesa no sínodo dos bispos, outra é o que se fala mais através da comunicação social. Aquilo que a comunicação põe mais em cima da mesa é o que acaba por ser mais falado e, por isso, atenção porque podemos estar a descurar e a descredibilizar o papel que os bispos têm em relação às famílias ditas normais e que, sim, precisam de imensa atenção, têm problemas concretos e que têm de ser vistos e pensados e reflectidos. Acredito, sim, que o sínodo não ignora essas questões.

Agora, que efectivamente a comunicação social também dá mais ênfase às questões fracturantes é natural, porque é o que está mais quente neste momento e que, de certa forma, não é disparatado. De facto há muitos assuntos que são fracturantes e que são gravíssimos - no sentido de importantes - e que estão em cima da mesa e que são de uma seriedade inegável, por isso não acho que se esteja a desvirtuar importâncias, acho que o sínodo dará certamente importância às questões de ordem normal das famílias, mas acho que não pode deixar de olhar com muita seriedade, tempo e com muita reflexão para os assuntos mais quentes. 

Acho que é evidente que no momento que estamos a passar agora, tem de ser olhado com muita seriedade, precaução e cautela. 

Perante os desafios que a família enfrenta hoje em dia, a proposta da Igreja é adequada? 
A resposta adequada encontraremos sempre no Evangelho, sempre. Abertos à acção do Espírito Santo, olhando para o Evangelho, certamente encontraremos a resposta ao desafio que temos em mãos em determinado momento. 

Também acredito que entre a doutrina social da Igreja e esta abertura dinâmica à acção do Espírito Santo, a seu tempo, na Igreja se vão encontrar as resposta que cada sociedade e cada tempo da história do mundo precisa. 

Portanto acho que neste momento, e digo isto por experiência de ter à minha frente inúmeras vezes situações difíceis e dramáticas de determinadas famílias, ou de determinado conjunto de pessoas, em que é difícil o que a Igreja propõe. É difícil muitas vezes a adesão ao que a Igreja propõe. Mas daí a dizer que a proposta que a Igreja nos faz é errada, é um caminho longuíssimo, uma coisa não é a outra. Que a proposta seja difícil é um caminho, que a proposta seja errada, é diferente. 

No limite a resposta está no Evangelho, e com oração e abertura ao Espírito Santo encontramos a resposta de certeza absoluta. Aliás, o próprio Papa é a isso que nos convida. Acredito que no momento em que vivemos, entre a Doutrina Social da Igreja e a abertura ao Espírito Santo, encontraremos para cada caso uma resposta adequada. 

O Papa Francisco tem falado do perigo para a família que representa a “colonização ideológica”. Como é que entende este termo e, concorda que a ameaça existe?
Acho o termo genial para explicar o que se passa. Acho que é uma expressão desafiadora. 

De certa forma o que o Papa nos quer dizer é que esta colonização vem de fora. Quem coloniza é quem vem de fora. Aquilo que o Papa nos explica é que há ideologias diversas, inúmeras, que vêm procurar desvirtuar o conceito de família, o objectivo número um da família e aquilo que Deus planeou para as famílias, que é o sonho de Deus da construção de uma família fundada no amor. Há inúmeras ideologias que vêm deturpar isso, e deturpar a origem da família é, no limite, deturpar a construção da sociedade.

Concordo completamente com a expressão do Papa. Temos de estar atentos, porque há imensas ideologias subtis, em nome de uma felicidade enganosa.

Por exemplo?
A forma como muito facilmente, na sociedade encontramos a promoção do divórcio em vez de uma luta por um casamento feliz. Um casamento feliz não significa um casamento baseado em alegrias e gargalhadas, mas sim um casamento fundado na confiança, no amor e na capacidade de em conjunto ultrapassar dificuldades e obstáculos, isso é possível. Mas o que na maioria das vezes encontramos na sociedade é o contrário, o que é claramente enganador. Promover que uma família se destrua em vez de promover que a família lute pelo seu casamento e pela sua felicidade verdadeira é enganador. Não é encaminhar para o bem.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Porque é que o Sínodo de 2015 não fala de Contracepção?

Pe. Mark Pilon
Talvez a coisa mais surpreendente sobre as novas Perguntas para o acolhimento e o aprofundamento da Relatio Synodi – o pedido de opiniões em preparação para o sínodo de Outubro 2015 – não seja o que contêm mas a ausência de questões sobre um assunto que se poderia esperar de um documento deste género. Entre as 46 questões, nem uma toca directamente a questão da contracepção.

É incrível. Como é que um sínodo que lida com o tratamento pastoral do casamento e da família nos dias de hoje consegue excluir completamente qualquer pergunta que tenha a ver especificamente com um assunto que tem sido central para essas mesmas questões ao longo dos últimos cinquenta anos?

Não acredito que seja coincidência. A contracepção tem tido um impacto inegável e grave sobre a instituição do casamento. Pode-se argumentar que o impacto tem sido positivo, mas ninguém pode dizer que se trata de uma preocupação marginal. E, todavia, aqui temos um documento que nem sequer menciona a questão directamente. Há uns pontos gerais sobre o encorajamento da generosidade no acolhimento da vida e a relação essencial entre o casamento e a abertura à vida; e bem. Mas nunca se toca na relação evidente entre a contracepção e o facto de muitos casamentos estarem fechados a ambos.

O documento menciona as “mudanças” demográficas e perguntas se as pessoas têm “consciência das graves consequências” que daí advêm, sem nunca explicitar de que mudança se fala realmente e evitando assim usar descrições mais sérias como “suicídio demográfico” ou “inverno demográfico”, a formulação usada por São João Paulo II.

No Humanae Vitae, esta “mudança” era entendida como sendo uma explosão demográfica, mas hoje não é o caso. Quão importante pode ser esta questão, se não merece mais do que uma frase na pergunta 43? Os países europeus estão em queda-livre demográfica e o documento contém uma referência vaga e nenhuma referência a contracepção nem aqui nem em parte alguma?

Mas não é só a crise demográfica que pede alguma referência de contracepção e da mentalidade contraceptiva. Um dos discernimentos centrais do Beato Paulo VI e, sobretudo, de São João Paulo II era de que o uso de contraceptivos num casamento é destrutivo não só do sentido procriativo mas também da sua dimensão unitiva.

Mas a aparente falta de preocupação com a questão da contracepção parece trair uma convicção de que a instabilidade marital e a crise das famílias tem pouca ou nenhuma relação com o facto de a vasta maioria dos casais católicos usarem contracepção.

Mais, existe uma miopia notável em não compreender os falhanços da catequese e das preparações para o matrimónio por todo o mundo no que diz respeito ao mal moral que é a contracepção. E porém, enquanto o documento inclui questões sobre a catequese e a preparação dos matrimónios no que diz respeito à indissolubilidade do casamento, por exemplo, não existe qualquer questão relacionada com uma correcta catequese e preparação para o casamento no que diz respeito à contracepção -  a não ser que se acredite que a referência à “abertura à vida” cobre o assunto, o que seria absurdo.

Então o que é que se passa aqui? Durante meio século, segmentos inteiros da hierarquia da Igreja, tanto padres como bispos, têm-se mantido em silêncio, para não usar um termo pior, no que diz respeito à contracepção e à preparação para o casamento. O mesmo em relação ao confessionário. Tem sido uma revolução silenciosa. Não podiam mudar a doutrina, por isso ignoravam os ensinamentos.


Será que isto explica o silêncio do documento sinodal? Este ensinamento não pode ser alterado, como o Papa Francisco já disse claramente. E porém, parece claro que muitos líderes na Igreja continuam a manter-se cegos à verdade dos ensinamentos de dois grandes papas, de que a contracepção é um veneno para o casamento e para a sociedade em geral.

Então qual é a solução? Faz-se o mesmo que se tem feito ao longo das décadas, enterra-se a questão com silêncio. Fala-se vagamente da “abertura à vida” da “generosidade” no casamento, mas não se especifica que a contracepção leva as pessoas a estarem fechadas à vida ou egoístas em relação a ter filhos. É como uma comissão médica a falar de SIDA sem referir que ter relações promiscuas tem muito a ver com a sua transmissão.

A velha “Aliança Europeia”, que teve tanta influência nas primeiras fases do Concílio Vaticano II, poderá ter voltado ao poder neste sínodo. Os principais defensores da contracepção no Vaticano II eram principalmente teólogos e bispos europeus que faziam parte desta Aliança Europeia, tão bem retratada no livro “The Rhine Flows into the Tiber”.

Os nomes podem ter mudado, mas a rejeição básica do ensinamento da Igreja sobre contracepção mantém-se. A “sensibilidade” pastoral exige que se as pessoas querem contraceptivos, então devem tê-los. Esse não é certamente o objectivo do sínodo, mas é uma questão que não vai desaparecer. Se o sínodo se mantiver silencioso sobre o assunto, isso será entendido quase de certeza como um abandono da Igreja em relação a este assunto, ao nível “pastoral”.

A tragédia é que este sínodo poderia ter tido um impacto positivo, não só para a renovação do casamento, mas para salvar um continente Europeu apostado em autodestruir-se. Se não lidarmos directamente com a questão da contracepção de forma frontal e positiva, então o Sínodo terá pouco impacto na renovação e estabilidade do casamento, e a Europa, bem como a América e grande parte do resto do mundo, continuará a trilhar o caminho do suicídio demográfico, não por meio de armas de destruição maciça, mas através de pílulas minúsculas, mas poderosas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 24 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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