quarta-feira, 25 de julho de 2018

Tocando lira enquanto a América – e Roma – ardem?

O conhecido filósofo político Leo Strauss terá dito certa vez que os teoristas políticos modernos são piores que o imperador Nero, de Roma. Porque ao contrário deste, eles não sabem que estão a tocar lira, nem que Roma está a arder.

Há poucas semanas, em Junho, os bispos americanos tiveram a sua reunião anual em Fort Lauderdale e, segundo os relatos, passaram grande parte do tempo a discutir política contemporânea e as alterações a fazer ao guia para as eleições do Outono.

Entretanto em Roma, na semana passada, o padre Antonio Spadaro, S.J., editor da revista semi-oficial do Vaticano, La Civiltá Cattolica, publicou em conjunto com Marcelo Figueroa, o presbiteriano escolhido pessoalmente pelo Papa Francisco para ser editor da edição argentina do L’Osservatore Romano, um longo ensaio que ataca um fenómeno religioso americano: “O Evangelho da Prosperidade: Perigoso e Diferente”.

Ao contrário do seu anterior esforço conjunto, que argumentava que a colaboração entre evangélicos e católicos conservadores era uma forma de “ecumenismo de ódio”, este artigo atraiu pouca atenção. O que não é surpreendente.

Embora os promotores do Evangelho da Prosperidade tenham ligações ao Presidente Trump – que parece ser o verdadeiro alvo deste ensaio – poucos dos que conhecem a religião nos Estados Unidos diriam que este fenómeno é de alguma forma importante. Na verdade, a maioria dos religiosos, tanto à Esquerda como à Direita, encaram-nos como uma excêntrica seita cristã.

Entretanto, em simultâneo em vários países, está a emergir uma nova ameaça à Igreja, uma crise de confiança na liderança católica e na Igreja em si, que poderá fazer com que estas outras preocupações, que são todas bastante periféricas à vida e missão da Igreja, pareçam mera música.

Na América são muitos os que se têm sentido chocados com revelações de que o Cardeal Theodore McCarrick, um dos prelados mais importantes da Igreja Católica americana ao longo das últimas décadas e a face pública da Igreja depois da revelação, em 2002, da crise de abusos sexuais por parte de padres, era ele próprio um abusador.

Inicialmente surgiram histórias da sua relação com homens adultos, dois dos quais receberam indemnizações das dioceses de Metuchen e de Newark, onde McCarrick tinha servido enquanto bispo e arcebispo. Essas histórias confirmavam o que se dizia em rumores há muitos anos, que o “Tio Ted” tinha o hábito de pressionar jovens seminaristas e outros para encontros sexuais.

Mas agora surgiu um homem com histórias de abusos praticados por McCarrick quando aquele tinha apenas 11 anos. E, tendo em conta o que já sabemos, não há dúvidas que mais escândalos estão para vir.

Tudo isto tem levado a mais revelações por parte de pessoas que foram abusadas por padres e bispos, alguns de forma chocante, bem como o facto doentio de praticamente ninguém em posição de autoridade ter agido, sobretudo quando havia bispos envolvidos. Se aguentar os detalhes, alguns dos quais são blasfemos e verdadeiramente diabólicos, poderá ficar com uma ideia da natureza do problema aqui, aqui, aqui e, sobretudo, aqui.

Perante isto, não admira que estejamos a assistir a uma onda de revolta na América, mesmo entre católicos fiéis. A julgar pelas muitas pessoas com quem estou em contacto regularmente e que conhecem bem esta matéria, poderemos estar à beira de mais uma profunda interrogação na Igreja, desta feita não devido a queixas sobre padres, mas sim sobre bispos que deveriam ter feito algo sobre outros bispos e pessoas em posição de autoridade.

Já vimos como este assunto azedou a viagem do Papa ao Chile no início deste ano. Dois cardeais chilenos, incluindo um dos que pertence ao grupo de nove conselheiros do Papa Francisco, estão implicados em encobrimento e possivelmente no envio de desinformação ao Papa Francisco. Ainda ontem as autoridades chilenas anunciaram que estão a investigar 158 membros da Igreja que são suspeitos de ter abusado, ou de ter encoberto abusos.

Outro dos principais conselheiros do Papa, o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, das Honduras, foi acusado de corrupção financeira. Mas potencialmente mais sério é o caso do seu subordinado, o bispo Juan José Pineda Fasquelle, que gere a arquidiocese durante as longas ausências de Maradiaga, que teve de resignar depois de várias revelações de abuso sexual de seminaristas, numa situação em tudo semelhante à de McCarrick.

Mas o que é pouco usual no caso de McCarrick é que se trata de um cardeal em exercício que agora foi julgado pelas autoridades competentes por ter cometido ofensas ao longo de muitos anos, mas que continua a ser cardeal. O Papa Francisco tem de fazer algo sobre isto, bem como sobre aqueles que permitiram que a situação se mantivesse.

Porque apesar de o negarem, muitos bispos americanos receberam queixas sobre McCarrick e nada fizeram para o impedir. Mesmo Roma teve de ser informada sobre as indemnizações devido a abusos cometidos mais cedo e sabemos que uma delegação de leigos esteve em Roma para tentar impedir a nomeação de McCarrick para Washington, precisamente por causa das suas inclinações sexuais.

Mesmo o “The Washington Post”, que anteriormente não tinha mostrado qualquer interesse nos boatos sobre McCarrick, observou: “Muitos comentadores na Igreja acham que este é um momento crucial para o pontificado de Francisco, devido à estatura de McCarrick e o facto de estarem a rebentar escândalos de abusos sexuais no Chile e nas Honduras.”

O nosso amigo Phil Lawler escreveu um ensaio de leitura obrigatória, que foi publicado ontem no site da First Things. Saber como é que McCarrick conseguiu abusar de crianças e adultos durante tanto tempo, diz ele, é uma questão importante para a protecção de futuras vítimas, mas: “é menos importante do que saber como é que a sua ascensão pela hierarquia eclesial continuou, apesar de já existirem rumores sobre as suas actividades homossexuais. Porque é que McCarrick foi nomeado arcebispo de Washington e feito cardeal? Porque é que o deixaram promover os seus protegidos, que depois desempenharam missões diplomáticas para o Vaticano? Como é que pôde influenciar a nomeação de bispos e até de um Papa, depois das suas aventuras na casa da praia se terem tornado conhecimento comum?

Descobrir a resposta a estas perguntas exige um autoexame muito doloroso, tanto nos Estados Unidos como em Roma. Mas a alternativa é continuar como se nada fosse, e isso está a tornar-se impossível.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 25 de Julho de 2018)

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