quarta-feira, 18 de julho de 2018

Noli impedire musicam

Lenine – que deu ao mundo a máquina de extermínio socialista conhecida por União Soviética – era um amante de música enquanto esteve no exílio. Quando regressou à Rússia, para dar início à Revolução Bolchevique, disse que já não era capaz de ouvir música. “Afecta-nos os nervos, faz-nos querer dizer coisas parvas e simpáticas e fazer festinhas na cabeça de pessoas capazes de criar tanta beleza enquanto vivem neste vil inferno”.

Sempre houve, e sempre haverá, aquele tipo de amante radical da humanidade que está disposto a sacrificar “dizer coisas parvas”, ou mesmo sacrificar pessoas, em nome de algum esquema marado que acabará por tornar o nosso mundo decaído ainda mais vil. Mas há aqui uma lição para nós, sobretudo os que vivem em sociedades ricas e ultra-tolerantes, que podem sucumbir à tentação de pensar que todas as suas vidas devem ser consumidas por guerras culturais, políticas ou espirituais.

Esta tentação é particularmente forte para pessoas em posições como a minha, pelo que é necessário sempre tomar medidas activas, de outra natureza. Da minha parte, tento tocar piano todas as manhãs pelo menos meia-hora, pois isso recorda-me – ainda que não tenha esse efeito sobre quem me ouve – de que a Criação de Deus é harmonia, uma harmonia discordante, por certo, mas definitivamente uma concórdia de criaturas e não um estado de guerra perpétua.

Muitas pessoas enviam-me livros, livros bons, sobre o estado de confusão actual em que vivemos. Agradeço, mas como estou sempre envolvido em leituras pesadas para vários projectos de escrita, muitas vezes não consigo chegar a estes livros, nem agradecer as ofertas. Esta semana, contudo, recebi um livro de um generoso mecenas do The Catholic Thing que me chamou a atenção: Spiritual Lives of the Great Composers [A Vida Espiritual dos Grandes Compositore] de Patrick Kavanaugh, um compositor que é também director do Christian Perfoming Arts Fellowship.

Trata-se de um relato claro e sucinto das crenças religiosas de vinte compositores clássicos de renome, desde Bach a Messiaen, passando por muitos outros grandes nomes. É um registo maravilhoso de como o espírito e a música andaram tão próximos na cultura ocidental, até há bem pouco tempo.

O grande Johann Sebastian Bach, por exemplo, não teve qualquer dificuldade em ver uma interligação entre Deus e a música, tendo dito: “O único propósito da Música deve ser para a glória de Deus e a recreação do espírito humano”. Músico humilde, embora prodigioso (chegou a caminhar 200 milhas para ouvir o então famoso organista Dieterich Buxtehude), costumava assinalar as suas folhas com J.J. (Jesus Juva – “Jesus ajuda”), antes de compor.

Há exemplos semelhantes do mesmo período. Certa vez um criado interrompeu Georg Friedrich Handel enquanto terminava o refrão do Aleluia, para o Messias, e encontrou-o em lágrimas: “Acredito que vi todo o Céu à minha frente, e o próprio Senhor”. (Incrivelmente, se descontarmos a inspiração divina, Handel produziu toda esta obra de evangelização sonora em apenas 24 dias).

Georg Friedrich Handel
Estes músicos viviam em paz e confiantes na sua fé cristã. Kavanaugh não elabora muito sobre a época em que viveram, mas é significativo que eles podiam atribuir a sua obra aos dons de Deus, apesar do facto de muitos deles terem vivido ao mesmo tempo que grandes figuras anticristãs do Iluminismo, como Diderot, Hume e Voltaire. É o género de coisa que não encontramos na maioria dos textos sobre as nossas raízes no Iluminismo do século dezoito.

Claro que Bach e Handel eram protestantes, mas é interessante, e pouco conhecido, que muitos dos maiores compositores clássicos ao longo dos séculos tenham sido católicos (em diferentes graus): Haydn (o mais firme e ortodoxo de todos), mas também Mozart, Beethoven, Schubert, Liszt, Chopin, Bruckner, Gounod, Dvorak, Elgar e Messiaen. Stravinsky, talvez o melhor compositor do Século XX, era ortodoxo russo, mas compôs uma missa e outras músicas sacras. Apesar das suas diferenças, estavam praticamente todos unidos na crença de que a inspiração derivava de, e regressava a, o próprio Criador.

O poeta católico moderno Paul Claudel gostava de usar a frase noli impedire musicam (“Não interrompas a música”), uma referência a Eclesiástico 32,3 sobre a importância de não falar durante um festim, enquanto se toca música.  Ele sugeria que o sentido era mais lato: que frequentemente estragamos a música natural do mundo com as nossas arrogantes preocupações.

Fala-se muito, nestes dias, daquela misteriosa frase de Dostoyevsky, “A beleza salvará o mundo”. São João Paulo II e Alexander Solzhenitsyn já forneceram umas importantes reflexões sobre este tema. E de Bento XVI temos isto:

O encontro com a beleza pode tornar-se a ferida da seta que nos atinge no coração e, dessa forma, nos abre os olhos, de modo a que depois, com base nesta experiência, adoptamos os critérios para ajuizar e conseguimos avaliar correctamente os argumentos. Lembro-me de um concerto de música de Johann Sebastian Bach, em Munique, dirigido por Leonard Bernstein, depois da morte inesperada de Karl Rahner. Ao meu lado estava o bispo luterano Hanselmann. Enquanto se dissipava, triunfantemente, a última nota de uma das grandes Cantatas-Thomas-Kantor, olhámos um para o outro e dissemos espontaneamente: "Quem tenha ouvido isto sabe que a fé é verdadeira”.

Não estou inteiramente convencido. Bernstein e muitos outros músicos modernos parecem transformar a própria da música num ídolo, e duvidam do próprio Deus por detrás da música em quem tantos dos grandes compositores acreditavam.

Mas numa coisa Bento XVI tem razão, nomeadamente na importância da “ferida” que a beleza inflige ao coração e a importância que estas feridas têm em abrir-nos a realidades com as quais os nossos argumentos e a nossa lógica frequentemente lidam mal, ou ignoram.

Sempre que eu escrevo sobre este tipo de assunto, normalmente durante o Verão, ou noutras alturas em que conseguimos respirar um pouco mais fundo e pôr os olhos em reinos mais alargados, há alguém que me escreve a dizer que devia deixar-me destas mariquices, porque o que precisamos mesmo é de um partido político militante. De certa forma é verdade, precisamos de facto de uma Igreja Militante.

Mas também me lembro de Lenine, e da importância de dizer “coisas parvas e simpáticas” e do perigo de deixar que os bolcheviques interrompam a música e ditem toda a agenda para as nossas vidas.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 16 de Julho de 2018)

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