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Wednesday, 10 August 2022

Pessoas vs. Seres Humanos

Randall Smith

Uma das defesas mais comuns do aborto é de que o feto em desenvolvimento no útero da sua mãe, embora seja claramente um “ser humano” – e não um peixe, ou um reptil, como o ADN e os cromossomas claramente demonstram – ainda não é uma “pessoa”. Neste contexto o termo “pessoa” identifica uma certa classe de seres humanos que julgámos merecedores da nossa protecção e preocupação moral, por oposição àqueles outros que decidimos que não o são.

Neste contexto o termo “pessoa” delimita uma fronteira crucial – a fronteira entre “nós” (aqueles com a dignidade e o estatuto que o termo implica e concede) e “eles” (aqueles a quem esse estatuto deve ser negado).

Se o pensamento pós-moderno nos ensinou alguma coisa, foi a encarar estes jogos linguísticos com desconfiança. Esta dicotomia entre “pessoa” e “ser humano” não é precisamente o tipo de coisa que o pós-modernismo se orgulha em desconstruir, uma vez que as dicotomias, como “negro” e “branco”, “homem” e “mulher”, “cidadão” e “estrangeiro” são usados para fragilizar e marginalizar certos grupos?

Não aprendemos com a teoria pós-moderna que todas as dicotomias são expressões de poder do forte sobre o fraco, do rico sobre o pobre, das classes altas sobre todos aqueles que elas querem manter sem poder e invisíveis?

Considere, por exemplo, esta descrição do filósofo Peter Singer, de Princeton, sobre porque é que pais que descobrem que o seu filho por nascer tem trissomia 21 poderão querer abortá-lo:

Ter um filho com trissomia 21 é uma experiência muito diferente de ter um filho normal [sic]… Não podemos esperar que uma criança com trissomia toque viola, que desenvolva uma apreciação por ficção científica, aprenda uma língua estrangeira, converse connosco sobre o mais recente filme do Woody Allen ou que seja um atleta respeitável de basquete ou de ténis.

O que é isto se não a descrição de um aluno rico e talentoso, de uma universidade de elite? Porque é que o Singer não diz simplesmente que não levaríamos uma criança trissómica para o clube de campo? Talvez não, mas há uns anos seria igualmente embaraçoso aparecer no clube de campo com um judeu ou um negro.

O filósofo John O’Callaghan, pai de uma criança com trissomia 21, comentou as palavras de Singer:

De facto, Singer está enganado sobre as capacidades de seres humanos com Trissomia 21, pois muitos conseguem desempenhar essas actividades. Só quem vive na ignorância geral sobre as vidas de pessoas com trissomia 21 é que pensaria o contrário. E podemos perguntar porque razão tantas pessoas na nossa sociedade são tão ignorantes sobre estas vidas que não fazem mais do que acenar em concordância quando ouvem tais afirmações. Porque é que os feitos de pessoas com trissomia 21 são dignos de notícia? Francamente, é porque já os excluímos da comunidade de preocupação moral com quem nos relacionamos nas nossas vidas.

Quando as pessoas dizem de um bebé abortado: “Bem, sabes, ele tinha trissomia”, não é exactamente o mesmo que dizer de um assassinado: “Bom, sabes, ele era um imigrante ilegal”? O que pensaria de alguém que respondesse à questão “Ouviste que o Presidente Roosevelt recusou um navio cheio de pessoas que fugiam da tirania nazi?” com a afirmação “Sim, mas as pessoas têm de perceber que os passageiros eram judeus”?

Ser humano e pessoa, como todos nós
Será assim tão diferente de responder à pergunta: “Já sabes que a Sally perdeu o bebé?” com, “Sim, mas era só um feto”. Pergunte a mulheres que sofreram a dor de um desmancho quão pouca empatia sentiram por causa da maliciosa distinção que se faz entre o seu filho por nascer e um bebé “verdadeiro”.

Como é que se explica que turbas de polícias linguísticos, sensíveis a cada “micro-agressão” oral não compreendem que afirmar que um bebé no útero “não é uma pessoa”, ou que um bebé indesejado “não é uma pessoa”, ou que uma idosa com demência “não é aquela pessoa que eu conhecia e amava” é igual a apontar a um homem hispânico e perguntar “será que ele é legal?”. Ou então comentar uma candidata a professora universitária perguntando, “É uma mulher? Será que pensa engravidar?”. 

Quem é que a distinção entre “pessoa” e “ser humano” favorece? A criança indefesa e invisível? Ou os poderosos capitalistas que querem que as mulheres dêem prioridade ao trabalho e que sintam que é do trabalho numa economia de mercado, e não da parentalidade, que derivam o valor e o sentido das suas vidas? (Uma inversão de valores que foi alcançada há décadas, juntamente com os homens, em lamentável detrimento da família).

Como é que se explica que académicos que se orgulham da sua sensibilidade em tais questões não conseguem reconhecer que esta utilização do termo “pessoa” é precisamente o tipo de agressão linguística a que se oporiam em qualquer outra área? Talvez seja porque este termo, ao contrário de outros, serve para valorizar a sua própria classe, de pessoas como elas, pessoas que valorizam e apreciam coisas como a ficção científica, aprender uma língua estrangeira, conversar sobre filmes do Woody Allen e jogar ténis para se manter em forma?

Não é verdade que todos os que são beneficiados pela linguagem negam que é isso que está a acontecer? “São apenas palavras comuns”, dizem. A questão é que essas “palavras comuns” expressam a fragilização em curso de uma parte da sociedade.

Então, pergunto, “pessoa” vs. “ser humano”: não é exactamente o tipo de categoria socialmente construída de “nós” (aqueles que importam) contra “eles” (os que não interessam) que deve ser desconstruída e eliminada? Enquanto existir qualquer tipo de obstáculo que simples “seres humanos” têm de ultrapassar para serem incluídos na comunidade de “pessoas”, haverá sempre seres humanos vivos que ficam aquém.

Ao longo da história, sempre que distinguimos entre o que podemos chamar “seres humanos plenos” (“pessoas”) de outros que supostamente não são bem humanos (como judeus, africanos negros e bárbaros, por exemplo), cometemos mais do que um erro. Cometemos um dos piores erros que nós, enquanto pessoas supostamente sensíveis, razoáveis e “civilizadas”, podíamos cometer. Talvez seja hora de parar de o fazer.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 9 de Agosto de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 14 April 2021

Foi Maputo que ameaçou Lisboa, que se mudou para o Brasil

Um tribunal decidiu ontem que o Estado de Ohio pode, sim, proibir abortos por motivo de o bebé ter sido diagnosticado com Trissomia 21.

O ex-bispo de Palma, em Moçambique, admitiu em entrevista que as ameaças de morte de que foi alvo, e que o obrigaram a abandonar o país, partiram do Governo, em Maputo, e não dos terroristas.

Começou ontem o Ramadão. Este ano será novamente diferente, por causa da pandemia. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa enviou saudações à comunidade.

Na Índia também se vivem dias de festa. O Kumbh Mela é a grande peregrinação dos hindus, mas está a provocar aglomerações de dezenas de milhares de pessoas sem cuidados numa altura em que a pandemia está em alta.

Sete religiosos – dois padres e duas freiras – foram raptados no Haiti e os raptores pedem perto de 900 mil euros de resgate.

Temos hoje novo artigo do The Catholic Thing. Randall Smith diz o seguinte sobre a ressurreição dos mortos. “Uma das maiores tragédias, quando as pessoas perdem a fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia, é de que rapidamente perdem a sua esperança na comunhão dos santos – de que mesmo na morte continuamos presentes para os nossos amados e eles connosco. Se Cristo não ressuscitou e está presente para nós, então o mesmo se aplica a todos aqueles que amamos. E isso é algo demasiado triste para contemplar.” A ler! 

Friday, 22 January 2021

Biden bem, Biden mal, nacional-vacinismo nunca mais!

Duas notícias hoje sobre a nova administração Biden, uma positiva (a meu ver) outra negativa (idem). A suspensão das ordens radicais de deportação de imigrantes ilegais – independentemente do seu percurso no país ou do facto de terem mulher e filhos – está a permitir a dezenas de pessoas saírem de igrejas onde procuraram asilo há mais de três anos.

Por outro lado, a redefinição de todas as leis de discriminação sexual abre as portas a uma enxurrada de abusos e de violações da liberdade religiosa, entre outros. O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre algumas das dificuldades de relação entre Biden e os bispos católicos.

O Papa quer que o mundo evite o “nacional vacinismo”.

Com a suspensão das missas públicas, a Renascença voltará a transmitir missa diariamente na Rádio. Também o Santuário de Fátima transmite cinco celebrações por dia.

O médico que descobriu a forma de diagnosticar a Síndrome de Down durante a gravidez e que compreendeu o perigo disso mesmo, está a caminho dos altares. Dizem que faltam milagres, mas eu digo que cada bebé com trissomia que consegue nascer, sobrevivendo ao genocídio em curso, é um milagre! Aqui podem ler sobre outro homem admirável que também está a caminho dos altares!

Eu queria evitar escrever este texto, mesmo, mas em consciência não posso. Tenho assistido com desalento a várias pessoas que partilham da minha visão do mundo e dos meus valores a ir no que considero ser o canto da sereia. Estou a falar do “fenómeno” André Ventura… Leiam aqui para compreender melhor.

Wednesday, 21 March 2018

É mesmo #melhorcontigo

Demitiu-se o responsável pela comunicação da Santa Sé. Monsenhor Dario Viganò não resistiu à polémica da carta de Bento XVI. Tudo explicado aqui.

A Europa está cada vez mais secularizada. Em alguns países mais de 90% dos jovens não se identificam com qualquer religião. Até aqui, nada de grandes surpresas, mas parece que Portugal está a resistir a esta tendência e os nossos jovens são substancialmente mais religiosos que nuestros hermanos do outro lado da fronteira, por isso nem tudo é mau!

O Papa Francisco vai a Dublin em Agosto para o encontro mundial das famílias.

E hoje é dia Mundial de Trissomia da Síndrome de Down. Foi com o maior gosto que pude dar notícia desta belíssima iniciativa, porque verdadeiramente, o mundo é #melhorcontigo. Com todos eles.

Hoje há artigo novo do The Catholic Thing em que o grande David Warren explica como é que apesar das suas más experiências numa escola católica no Paquistão – onde foi obrigado a ir à missa por ser branco, depois espancado pelos religiosos por ter ido à missa quando descobriram que afinal ele era protestante – ficaram as sementes que levariam à sua conversão, décadas mais tarde. É sempre um prazer ler este senhor, não percam!

Friday, 25 November 2016

Crianças com trissomia na TV? Non, merci...

Longe da TV francesa! Longe...
O Papa voltou a criticar duramente o clericalismo. Foi numa conversa informal com jesuítas que foi agora publicada na íntegra numa revista daquela ordem.

Foi detido em França o homem que ontem tomou de assalto uma casa de missionários reformados, matando uma funcionária. Ao que parece o caso nada tem a ver com terrorismo islâmico.

O que tem a ver com terrorismo islâmico é o caso do marroquino detido em França e que tinha autorização de residência em Portugal. Ao que parece ele e a sua “trupe” tinham ordens do Estado Islâmico para fazer um atentado no dia 1 de Dezembro.

Ainda de França chega a notícia incrível da proibição de um anúncio que pretende encorajar as mulheres grávidas de crianças com trissomia 21. As autoridades francesas consideram que pode perturbar a consciência de quem abortou. Actualmente, nos países em que existem estatísticas, sabe-se que cerca de 9 em cada 10 bebés diagnosticados com trissomia são abortados. Há uma palavra para isto: Genocídio.

Arranca no domingo o programa do centenário das aparições de Fátima, mas esta sexta-feira já abriu a exposição Mater Dei, com 25 representações de Maria na Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, em Lisboa, que foi toda restaurada recentemente.

Wednesday, 20 January 2016

Duas Caras na Multidão

Randall Smith
Tinha acabado de tirar os olhos de uma das caras quando vislumbrei a outra. A primeira era a cara de um pobre senhor camponês (“Estudo para o Retrato de um Velho”) pintado pelo grande artista norueguês Edvard Munch quase duas décadas antes do seu trabalho mais famoso, “O Grito”.

Tive o privilégio de estar a visitar a fantástica exposição sobre Munch e Van Gogh no Museu Van Gogh em Amesterdão com a minha mulher e um grande amigo. Uma das coisas que ressalta logo sobre os primeiros trabalhos de ambos estes grandes artistas é o seu interesse pelas vidas e caras de simples camponeses, como aquele que tinha acabado de ver.

Estudo para o retrato de um velho
Mas quando me voltei do quadro do pobre camponês os meus olhos não repousaram sobre a famosa cara angustiada de “O Grito” – isso ficaria para mais tarde. Em vez disso vi uma cara ainda mais espantosa, tendo em conta onde me encontrava. Era a cara pura e simples de um adolescente com trissomia XXI, a observar aquelas pinturas com admiração e espanto, tal como nós, num país onde muitas pessoas teriam partido do princípio que ele simplesmente não tinha suficiente “qualidade de vida” para existir.

Diante de mim, a poucos quilómetros da casa onde Anne Frank se escondeu dos seus algozes por ser considerada “geneticamente impura”, estava um jovem cuja alegada “impureza genética” tem levado ao extermínio daqueles que partilham da sua condição.

Todos sabemos que as crianças com trissomia XXI têm aquela cara distintiva. É mais fácil de identificar do que o judaísmo. Quantas das pessoas artisticamente sensíveis que passeavam por aquele museu holandês, agiriam com base no desejo de não ter olhar para aquela cara ou outras como ela? Cerca de 92% das crianças com trissomia XXI são actualmente abortadas. Há quem diga que, ao ritmo actual, a Dinamarca, por exemplo, poderá ver a sua última criança com trissomia XXI até ao ano 2030.

O que é que estes estetas holandeses estariam a pensar quando viam esta simples cara entre eles? O que é que os terá preparado para esta visão numa nação que há muito perdeu a sua ligação a uma cultura que interessa – uma cultura que costumava valorizar de forma especial, na sua maior arte, as vidas dos pobres e desapossados?

"genéticamente impura?"
Mas aquilo que mais me interessava naquele momento era o que estaria a passar pela cabeça do meu amigo, uma vez que ambos vimos o rapaz ao mesmo tempo. É que o meu amigo tem um filho com trissomia XXI e, como qualquer pai, eu sabia que ele seria ainda mais sensível a tudo isto e protectivo desta criança. Ele teria reparado naqueles olhares desconfortáveis e condenatórios milhares de vezes e sabia que naquele instante só queria gritar.

O Munch descreveu da seguinte forma a inspiração para “O Grito”:
Estava a caminhar na rua com dois amigos – o sol estava a pôr-se – de repente o céu ficou cor de sangue. Parei, sentindo-me exausto, e encostei-me à cerca. Havia sangue e línguas de fogo por cima do fjord azul e preto e da cidade. Os meus amigos continuaram a andar e eu fiquei ali a tremer de ansiedade – e senti um grito infinito a passar pela natureza.

O desenho original e as subsequentes pinturas que Munch produziu com base nele são geralmente interpretados como representações da angústia e da ansiedade do mundo moderno, despido de todas as suas amarras à fé e à tradição.

Houve uma altura em que as pessoas pensavam que podiam substituir a “religião” com a espiritualidade das artes. Pensar-se-ia que o holocausto tinha acabado com essa tolice. Havia grandes obras de arte expostas no Rijksmuseum em Amesterdão, a uns meros 15 minutos a pé de onde a Anne Frank e a sua família estavam escondidos num anexo secreto durante os anos escuros da Segunda Guerra Mundial. E agora damos por nós novamente a defender as vidas dos “geneticamente impuros” contra as selvajarias da elite bárbara que se apresenta como grande guardiã da cultura.

Quem não conhece a história está condenado a repeti-la. E demasiadas vezes até aqueles que conhecem a história recusam-se a deixar que ela sirva de aviso ou de juízo. “Afinal de contas, não somos nazis”, dizem as pessoas, como se não fosse expectável que as nossas aspirações fossem um bocadinho mais altas que isso.

Quando começarmos a ver “grandes artistas” a procurar novamente a face de Cristo nas caras dos pobres e nas caras das crianças com trissomia XXI em vez de gastar toda a energia na sua libido sexual, teremos uma cultura a que vale a pena prestar novamente atenção. Até lá será mais da mesma masturbação artística auto-indulgente.

O Grito, de Edvard Munch
leiloado por 120 milhões
Uma cultura deve ser julgada com base no valor que dá aos membros mais fracos da sua sociedade e da forma como cuida deles, e não no valor que gasta nas suas pinturas e nos seus museus. A nossa é uma cultura em que a versão de pastel sobre madeira de 1895 deste quadro foi vendido no Sotheby’s de Londres no dia 2 de Maio de 2012 por um recorde de 120 milhões de dólares. Mas é também aquela em que 92% das crianças com trissomia XXI são abortadas. Não, não somos nazis. Mas daqui a 100 anos nenhuma pessoa decente olhará para o nosso tempo com um sentido de orgulho.

Se o Papa Francisco está a pensar montar um “hospital de campanha” no meio de uma batalha furiosa, então não precisa de ir mais longe do que os campos da morte da Europa e da América. É tão inútil perguntar a uma cultura seriamente ferida se tem as compensações de carbono em ordem como é perguntar a um ferido grave no campo de batalha se tem problemas de colesterol. Protejam primeiro as nossas crianças. Depois podemos falar de tudo o resto.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 6 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 28 March 2012

Che e Bento, frente-a-frente

El Che e El Papa, frente-a-frente
Bento XVI pediu hoje mais liberdade religiosa em Cuba. O Papa falou ainda de dois dos seus temas de eleição, o relativismo e a razão na fé. Tudo aqui.

Já ontem o Papa esteve com Raul Castro e tudo indica que hoje ainda se encontre com Fidel, antes de partir. Logo à noite, por volta das 22h30, o Papa falará pela última vez. A Renascença transmitirá o discurso em directo, se puderem ouçam-no.

Depois, se puderem, aproveitem para ouvir o debate que, esta semana, é quase exclusivamente sobre a visita do Papa a Cuba. A partir das 23h30.

O Patriarca de Lisboa fará no Domingo a sua última catequese quaresmal de 2012. Para esta estão convidados os jovens.


Porque hoje é Quarta-feira publiquei no blogue mais um artigo de The Catholic Thing. Já aqui falámos muitas vezes de minorias que enfrentam dificuldades, mas Randall Smith fala daquela que será talvez a mais fortemente perseguida. 90% são mortos. Saiba de quem falamos e o que isso diz sobre a nossa sociedade.

Fraqueza que nos fortalece

Randall Smith
Teorias recentes da evolução sugerem que a antiga ideia social-darwinista da “sobrevivência dos mais fortes” não podia estar mais enganada. O que fez do homo sapiens a espécie dominante, segundo muitos biólogos actuais, é precisamente a nossa capacidade de cooperar, agir de forma altruísta e de proteger os membros mais fracos da tribo.

Esta teoria torna ainda mais incompreensíveis os actuais esforços da comunidade médica no sentido de purificar a “piscina” genética através da eugenia. Actualmente, por exemplo, 90% dos bebés por nascer diagnosticados com Síndrome de Down são abortados. De facto, há forças poderosas que já anunciaram repetidamente a sua intenção de erradicar as crianças com Síndrome de Down nos próximos anos. Não se referem ao tratamento da condição, querem erradicar as crianças, abortando-as depois de as diagnosticarem.

As mulheres perguntam-me frequentemente se é verdade que a lei as obriga a fazer uma amniocentese, porque os médicos disseram que sim. A resposta a esta pergunta é, (por ora), não. Mas as pessoas insistem que sim por duas razões: primeiro porque se querem defender – isto é, não querem ser processadas se vier ao mundo uma criança que a mãe preferia ter abortado (o termo para isto é “vida injustificada”). Em segundo lugar, talvez queiram juntar-se ao movimento eugenista que está actualmente a tentar erradicar aqueles que considera terem “vidas indignas de serem vividas”.

Este termo, “vidas indignas de serem vividas” (Lebensunwertes Leben), era usado pelos médicos alemães para descrever crianças com atrasos mentais nos anos 30, enquanto desenvolviam métodos de “eutanásia” que seriam o primeiro passo na erradicação de todos estes “indesejáveis”, a caminho da “Solução Final”.

O que é que torna estas crianças tão ameaçadoras que alguns querem que sejam totalmente erradicadas? Porque é que nos incomodam tanto? Permitam-me um pequeno impulso freudiano: Eu acho que é porque nos revemos neles. Isto é, revemos os momentos mais embaraços das nossas vidas: Quando deixámos cair o tabuleiro na cantina e toda a gente se riu e bateu palmas, quando não sabíamos a resposta que toda a gente sabia, quando nos comportámos da mesma maneira de sempre, acabando por descobrir que era muito “pouco fixe” e todos os miúdos fixes reviraram os olhos em desprezo.

Estas crianças somos nós no nosso estado mais fraco, mais vulnerável, mais envergonhado. E ninguém quer parecer ou sentir-se assim. De facto, o medo de passar vergonhas é talvez uma das razões pelas quais, em estudo após estudo, o medo de falar em público ultrapassa em muito o medo da morte nas prioridades dos inquiridos. “Aqueles a quem os deuses pretendem destruir, primeiro envergonham”. Estas crianças ferem-nos no nosso ponto mais fraco e preferimos não olhar para essa parte do nosso ser.

É precisamente por isso que elas são dos maiores dons de Deus para a humanidade. Recordemos Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte.” Assim é connosco também. Quando conseguimos olhar aquela parte de nós que é fraca, vulnerável e socialmente desajustada e dizer: “Sim, também isto é amado por Deus, também isto é santificado por Deus”, então estaremos finalmente no caminho da saúde e do desabrochar da nossa humanidade.

Eu temo uma cultura que queira erradicar as crianças com Síndrome de Down e os deficientes mentais, e todos os que não são fortes, activos e produtivos. Temo-a porque os promotores de uma tal cultura estão a tentar matar aquilo que é mais humano em nós. Cuidar e viver com crianças com Síndrome de Down humaniza-nos: ensina-nos a amar desinteressadamente, como Cristo nos amou. Ensina-nos a amar-nos a nós mesmos, mesmo aquelas parte de nós que preferíamos que os outros não vissem, que nós mesmos preferimos não ver.


Precisamos destas crianças entre nós. Precisamos delas mais do que precisamos do mais recente iPad ou “smart” phone. Daqui a cem anos ninguém vai querer saber da nossa tecnologia, como os meus alunos se estão a marimbar para a tecnologia francesa do século XVIII ou alemã do século XIX. O que vai mesmo fazer diferença é a forma como tratámos os mais fracos e vulneráveis de entre os nossos.

Se cumprirmos fielmente esse chamamento, então a nossa será uma cultura que merece ser recordada. Se valorizarmos a nossa capacidade tecnológica acima de tudo o resto, e tivermos tal sucesso nesse campo que não deixamos espaço nas nossas vidas para os mais desfavorecidos, seremos recordados da forma como recordamos a Alemanha dos anos 30: puseram os comboios a andar a horas – depois usaram-nos para transportar seis milhões de judeus e outros “indesejáveis” para os campos de concentração.

No fim de contas Deus é o nosso único verdadeiro espectador e comparado com ele, o Criador do Universo, temos a capacidade intelectual de uma minhoca. Mas Ele consegue amar-nos apesar disso. Nunca estamos mais próximos dele, do que quando abraçamos aquela parte de nós que podemos ver nas crianças com Síndrome de Down: Simples, cheio de alegria, vulnerável.

Estas crianças precisam da nossa ajuda, mas nós precisamos mais delas. Elas tornam-nos humanos. O maior presente que Deus dá àqueles que estão cheios de presunção é o dom da humildade. Como disse, e bem, o poeta T.S. Elliot: “A única sabedoria que podemos esperar alcançar é a humildade: a humildade é infinita.”

Hoje [dia 21 de Março] é o Dia Mundial de Síndrome de Down. Perca cinco minutos e veja o vídeo feito pela Coligação Internacional de Síndrome de Down pela Vida [abaixo]. Serão os melhores cinco minutos da sua semana.

Veja o vídeo e dê graças a Deus por estas crianças. Depois reze por uma cultura que é suficientemente humana para as acolher e não insensata ao ponto de as erradicar – juntamente com a sua própria alma – no seu esforço de alcançar a “força” física e a “pureza” genética perfeitas. Esse caminho não traz senão loucura.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 21 de Março 2012 em www.thecatholicthing.org)


© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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