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segunda-feira, 6 de maio de 2019

A alegria do Perdão e o Deus das surpresas

O Papa Francisco na Bulgária
O Papa Francisco está na Bulgária, onde hoje visitou um campo de refugiados, deu primeira comunhão a um grupo de perto de 250 crianças e participou numa vigília de oração pela paz.

Ontem foi recebido pelo Patriarca da Igreja Ortodoxa local, pedindo que a “alegria do perdão” ajuda os cristãos a alcançar a unidade e celebrou missa, falando do “Deus das surpresas” como alternativa a um regresso ao passado.

O Sri Lanka vai recuperando lentamente dos terríveis ataques de Domingo de Páscoa. As igrejas continuam fechadas enquanto os cristãos rezam pela paz.

Os bispos portugueses decidiram de forma unânime criar estruturas de proteção de menores nas suas dioceses.

No mundo de hoje “censura” é quase um palavrão. Mas a verdade é que a sociedade censura uma variedade de ideias e conceitos que não considera admissíveis. Neste artigo do The Catholic Thing em português, David Warren defende o regresso a um tempo em que ideias como eutanásia e infanticídio não eram sequer discutidos, quanto mais praticados.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sobre a Censura

David Warren
De vez em quando dizem-me que há coisas que devemos fazer, porque “toda a gente” o faz.

Ainda era novo quando fui exposto a este tipo de argumentação pela primeira vez, bem como ao seu contrário, que há coisas que não devemos fazer porque “ninguém” as faz. Na altura pareceu-me um argumento fraco e fiz uma nota mental para nunca o usar.
Mas na verdade é mais forte do que parece. Se a esmagadora maioria em qualquer sociedade fizesse exactamente como quer o resultado seria a anarquia. Anarquia mesmo, não aquela que nos é vendida por Hollywood. A vida valeria muito pouco e quem quisesse sobreviver até ao final do dia teria de andar fortemente armado.

Talvez seja por isso que Deus nos fez na maioria conformistas, por isso que o mundo está visivelmente ordenado e o homem seja capaz de discernir, mesmo que vagamente, o bem do mal, o belo do feio, etc.. Deus também nos dotou de liberdade e deu-nos as consequências das nossas escolhas.

O leitor poderá suspeitar que estou a preparar um argumento a favor da censura. Estou mesmo.

Faz parte da natureza de qualquer cultura, sociedade ou civilização (como preferir) introduzir sinais. Se focarmos a vista encontramo-los em todo o lado, mesmo nas estradas. Também temos leis, nem sempre em forma de sinais visíveis, mas disponíveis para inspeção pública. E temos ainda as leis não escritas.

Consideremos a lei “não cometerás homicídio”. Tem sido detalhada, com excepções, e os actos de homicídio podem ser julgados nos nossos tribunais, mas não inventámos propriamente a lei. Foi inscrita nos nossos corações; foi inscrita numa tábua e entregue a Moisés, muito antes de nascermos.

O código criminal existe apenas para aperfeiçoar esta “lei natural”; usamos advogados e legisladores para lhe dar a volta, caso se torne inconveniente. O aborto e a eutanásia, e tudo o que possa vir a seguir, estão agora entre as excpções permitidas.

A liberdade tornou-se a nossa palavra de ordem. Sermos livres das crianças, livres dos avós – sempre no pressuposto de que são indesejados – são agora os novos “bens” que o homem construiu. Sermos livres de outros constrangimentos, como ser homem ou mulher, rico ou pobre ou qualquer outra circunstância acidental do nosso ser, já fazem parte da lista de espera.

É verdade que há alguns “tradicionalistas” como eu que lamentam a destruição da ordem moral e por vezes mesmo os seus apoiantes têm golpes de consciência que precisam de ser suprimidos. Mas no geral a sociedade é “progressista”. Não gostamos de criar ondas.

Antigamente – refiro-me à história antiga, ou seja o tempo da minha infância – alinhávamos com as ideias herdadas e guardávamos os nossos pequenos homicídios para nós mesmos. Hoje colocamo-los no Facebook.

“E porque não?”

Uma família infeliz, ou Suicídio
de Octave Tassaert
Recentemente uma conhecida minha decidiu deixar-se matar. Tinha cancro; as perspetivas não eram boas. O seu caso chocou-me por duas razões em especial. Por um lado, era uma mulher corajosa, que estava a enfrentar a adversidade de forma brilhante. E segundo, ela era aquilo a que chamamos “conservadora” e já tinha sofrido na pele por ter várias opiniões “politicamente incorretas”. Até tinha tendências cristãs.

Mas de repente optou por um plano de fuga e rapidamente encontrou “apoio” entre os seus “amigos” que se tinham reunido à volta da cama de execução com sorrisos de encorajamento. Quando lhe perguntei em privado sobre esta “escolha” de vida e de morte o seu argumento foi, para todos os efeitos, “toda a gente o faz”.

O estigma deixou de existir. Os defensores de se matar os velhos e os doentes, até os jovens e depressivos, conseguiram derrubá-lo. Depois disso, derrubar a lei tornou-se fácil. E quando a lei foi alterada a menorização da vida humana já se tinha tornado um passo importante “em frente” e a maioria da sociedade já estava alinhada.

Em certo sentido “toda a gente o faz”. É conveniente. Claro que nem todos se deixam executar, alguns instintos humanos sobrevivem, mas este “toda a gente” gostaria de ter a “opção” caso se venha a encontrar numa posição de o desejar.

A dor não tem piada alguma. Admito isso. A ideia de que possa ter não só um sentido físico mas também um propósito moral, foi extinta. A ideia de que o suicídio é “auto-homocídio” é hoje vista como ridícula. As antigas leis que o proibiam não podiam ser cumpridas (a pessoa que se mata conseguiu escapar impune, desse ponto de vista). Só se podia punir quem “assistia”.

Muitas coisas que em tempos eram “impensáveis” afinal sempre foram pensáveis. O homicídio é um bom exemplo. O infanticídio é algo que já deve ter ocorrido a muitas mães, em certas fases da maternidade. Mas em vez disso tem-se um ataque de nervos, ou parte-se alguma coisa, ou brinca-se com a situação. Ninguém faria mesmo o que é “impensável”.

Era impensável, basicamente, porque as leis de Deus eram reforçadas pelas leis do Estado e da cultura. Não se ia por aí porque “ninguém vai por aí”. Excepto os que o fazem e em consequência se tornam infames.

Entre as travestias da Direita (deixemos a Esquerda em paz por momentos) está a ideia de que a censura é inimiga da liberdade. Os que se encontram deste lado argumentarão que todos têm direito à sua opinião, excepto os que gritam “Fogo!” numa sala de cinema. Quem discorda com alguma coisa que apresente argumentos, depois votamos.

Devíamos ter aprendido, nesta louca viagem desde os anos sessenta (ou desde o Jardim do Éden, se quisermos recuar até aí), que esta é uma perspetiva ingénua. Há coisas que devem permanecer tão “impensáveis” como sempre foram naqueles tempos opressivamente cristãos em que a dissensão era “censurada”.

A censura não tem nada de mal. A esquerda orgulha-se imenso daquilo que censura: racismo, sexismo, transfobia, seja o que for. Infelizmente, com as suas definições perversas, dão mau nome à censura.

A verdadeira questão não é saber se a censura é boa, é saber o que devemos censurar.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 26 de Abril de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Uma Carta ao Povo: Resposta a David Warren

Daniel Gallagher
Nota: Num artigo recente do The Catholic Thing, o autor David Warren propôs a criação de um jornal inteiramente redigido em latim. Fê-lo na esperança que um jornal desses fosse lido apenas por uma elite esclarecida, podendo assim passar ao lado das polémicas e do politicamente correcto. No artigo de hoje, o latinista Daniel Gallagher responde com humor, mas também com dados muito interessantes, contrariando essa ideia de Warren.


Tendo redigido centenas de “cartas aos príncipes” no gabinete de tradução para latim do Vaticano, sinto-me na obrigação de responder à recente proposta de David Warren de se criar um jornal diário em latim. Se alguém estiver disposto a financiar o projeto, mando a primeira edição para a gráfica já amanhã.

Mas a minha motivação seria muito diferente da sua. Em vez de oferecer “uma pequena ilha elitista de sanidade e tranquilidade espiritual”, eu gostaria que o jornal gerasse as mais vivas discussões e debate, como sempre aconteceu, e sempre acontecerá, em torno e através do latim. Eu gostaria que o jornal fosse dirigido ao populus e não apenas aos príncipes.

Mas mesmo que eu partilhasse o desejo de Warren por um público limitado, ele engana-se se pensa que “um jornal em latim passaria por baixo do radar progressista”. Qualquer pessoa envolvida no mundo dos clássicos sabe até que ponto o progressismo penetrou este ramo.

Mary Beard, uma classicista brilhante de Cambridge, está constantemente a levantar a voz progressista em relação a assuntos que variam entre a imigração, o feminismo e o terrorismo. Donna Zuckerberg acaba de publicar um livro fascinante, chamado “Not All Dead White Men: Classics and Misogyny in the Digital Age”. São mulheres por quem tenho grande admiração, por mais que discorde fundamentalmente delas em várias frentes.

Seja como for, elas – e outras como elas – seriam capazes de devorar um jornal em latim mais rapidamente do que muitos conservadores.

Na verdade, a atitude de Warren em relação ao latim representa um dos fatores que contribuiu para a sua queda. A ideia de que é apenas para os inteligentes, os sofisticados, os esclarecidos. Que é algum tipo de código secreto que separa os certos dos errados.

Mas o latim nunca foi nada disso, nem deve ser. Eu já tive o prazer de ensinar latim a alunos de muitas escolas diferentes, e em várias universidades, públicas, privadas e algumas católicas.

Os que têm fundações sólidas em latim costumam vir de famílias muito secularizadas e progressistas. Claro que também há católicos, e estes costumam pertencer a dois grupos: os que adoram falar da importância do latim, mas mal conseguem localizar um sujeito, quanto mais um objecto, e os que têm grande fluência por terem aprendido bem em casa.

Infelizmente este grupo é significativamente mais pequeno que aquele. Foi depois de termos recebido uma quantidade imensa de cartas – em italiano, espanhol, inglês, francês, alemão e polaco – a perguntar “porque é que o Papa não faz tweets na língua oficial da Igreja”, que eu e os meus colegas do Gabinete de Latim do Vaticano, propusemos que o passasse a fazer. Os autores das cartas diziam que não o fazer era uma mostra de desprezo pela civilização ocidental – se me é permitido usar esse termo. E têm razão.

E então começámos a fazer tweets em latim, e rapidamente descobrimos que o latim era algo que – ao contrário das expectativas de Warren – podia ser lido por praticamente qualquer pessoa. É verdade que algumas das pessoas que seguem o Papa no Twitter o fazem apenas por ser uma coisa nova, mas a nossa pesquisa mostrou que pelo menos uma maioria conhecia algum latim.

Professor e três alunos
Talvez a melhor prova seja o facto de que os comentários e os retweets da conta em latim são muito mais civilizados, pensados e humanos do que os das contas em vernáculo. E talvez seja isso que representa um modelo alternativo à terrível polarização que existe em quase todo o resto das redes sociais.

No seu artigo, Warren cita o meu incomparável professor e antecessor no Gabinete de Latim, o padre Reginald Foster: “Se não sabes as horas, nem o teu nome, nem onde estás, não tentes aprender latim, porque ele borra-te na parede como se fosses uma mancha de óleo”.

Mas acontece que não há falta de pessoas que queiram ser borradas na parede. São pessoa que anseiam pela “ordem mental” e a “consistência intelectual” que Warren tão correctamente louva.

É verdade que o latim privilegia a razão e a consistência intelectual, e é por isso que se devem empreender todos os esforços não só para divulgar o conhecimento do latim, mas para que as pessoas sejam fluentes. Deve promover a discussão, e não abafar ou escondê-la. Pode e deve ser lida por quase toda a gente porque é uma forma civilizada e focada de abordar tópicos “perigosos”.

O padre Foster sempre insistiu que os seus cursos não são sobre religião, teologia, filosofia e muito menos sobre “teoria literária”. Mas qualquer pessoa que tenha frequentado os seus cursos terá sido obrigada a pensar e a aprender sobre estes tópicos e muitos outros. Sim, mesmo a teoria literária.

Pode-se fazer qualquer uma dessas coisas, insiste Foster, mas primeiro é preciso saber latim. O Instituto Paideia, edificado sob o legado do padre Foster, foi fundado “para fornecer oportunidades para o estudo rigoroso e intensivo do latim e do grego de todos os períodos históricos, para inspirar os estudantes a formar relações pessoais próximas com os clássicos através de experiências de aprendizagem extraordinárias e para aumentar o acesso a, e interacção com, as humanidades clássicas através de todos os sectores da sociedade.”

Os instrutores e os alunos são uma misturada de ateus seculares, agnósticos curiosos, católicos radicais e reaccionários e muita coisa pelo meio. As discussões nos eventos da Paideia, que frequentemente se fazem em latim, invariavelmente abordam as questões mais profundas da vida, mas fazem-no porque, em primeiro lugar, têm por objectivo o domínio do texto em latim.

Sim, é verdade. Precisamos de um jornal em latim porque, como Warren sugere, isso facilitaria “o diálogo entre pessoas de diversas tradições linguísticas” e restaurava o “verdadeiro cosmopolitismo”. Mas atenção: se quer juntar-se ao “latinosfério” encontrará tudo menos um grupo elitista de conservadores. Pelo contrário, encontrará todas as raças, classes sociais, orientações e opiniões que existem à face da terra.

A diferença é que estas pessoas estão dispostas a entrar num diálogo educado e humano, baseado no conhecimento histórico, prático e teórico que se alcança através da leitura de excelentes livros na sua língua original.

Assim, um jornal em latim seria um catalisador magnífico para essa sanidade, mas uma sanidade que acolhe a diversidade e adora uma boa discussão.


Daniel Gallagher é professor de latim na Universidade Cornell. Trabalhou durante dez anos na Secção de Latim do Secretariado do Estado do Vaticano.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 27 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 21 de março de 2018

É mesmo #melhorcontigo

Demitiu-se o responsável pela comunicação da Santa Sé. Monsenhor Dario Viganò não resistiu à polémica da carta de Bento XVI. Tudo explicado aqui.

A Europa está cada vez mais secularizada. Em alguns países mais de 90% dos jovens não se identificam com qualquer religião. Até aqui, nada de grandes surpresas, mas parece que Portugal está a resistir a esta tendência e os nossos jovens são substancialmente mais religiosos que nuestros hermanos do outro lado da fronteira, por isso nem tudo é mau!

O Papa Francisco vai a Dublin em Agosto para o encontro mundial das famílias.

E hoje é dia Mundial de Trissomia da Síndrome de Down. Foi com o maior gosto que pude dar notícia desta belíssima iniciativa, porque verdadeiramente, o mundo é #melhorcontigo. Com todos eles.

Hoje há artigo novo do The Catholic Thing em que o grande David Warren explica como é que apesar das suas más experiências numa escola católica no Paquistão – onde foi obrigado a ir à missa por ser branco, depois espancado pelos religiosos por ter ido à missa quando descobriram que afinal ele era protestante – ficaram as sementes que levariam à sua conversão, décadas mais tarde. É sempre um prazer ler este senhor, não percam!

A Missa & Nada Mais

David Warren
A história da minha conversão ao Catolicismo foi longa e complexa. Fui-me apercebendo disto ao longo dos quinze anos desde que fui recebido, tinha eu já 50 anos. É normal olhar para trás, e não devemos deter-nos, mas na tentativa de nos compreendermos não somos apenas uma bolha no presente. Para além disso, julgo eu, aprendemos coisas em retrospectiva que de outra forma nos escapariam.

Tudo começou quando tinha seis anos. O meu pai pós-protestante, do Canadá mas a leccionar na Escola de Artes de Lahore, no Paquistão, matriculou-me na escola de St. Anthony. É fácil explicar porque é que um homem com as suas opiniões me colocaria à mercê de maristas e jesuítas irlandeses. Julgava que eles tinham os mais altos padrões académicos, nada mais.

Certamente levavam muito a sério o conhecimento. “Scientia cum Virtute”, não vá eu esquecer-me.

Mas também constituíam uma paródia, nem sempre humorística, de tudo o que mais tarde viria a ser condenado na polémica dos colégios internos no Canadá. Levei a minha dose de tareias no recreio, e mais do que a minha dose dos próprios irmãos. Não aceitavam desculpas, não adiantava alegar inocência. No mínimo, aprendi muito sobre injustiça, sobretudo de um director que me parecia ser psicopata (e que mais tarde abandonou a Igreja para se juntar a uma comuna budista na Califórnia).

Mas também aprendi outras coisas, de professores sinceros; incluindo da Catedral do Sagrado Coração, junto à escola. Sendo branco, era obrigado a ir. Até que descobriram que eu era protestante e levei tareia por ter ido.

E o que é que aprendi lá, pergunta o querido leitor? Algo ainda rudimentar, mas que ficaria comigo ao longo dos anos.

Nessa altura eu acreditava no que a minha mãe ateia me tinha contado, que a Missa era um rito mágico primitivo, deslocado, pela sua própria natureza, do nosso mundo moderno, científico e racional. A um certo nível os católicos eram como os bárbaros selvagens. Segundo os seus antepassados presbiterianos, eles eram supersticiosos. Faziam coisas estranhas e inexplicáveis, como falar com os mortos e comer pequenos pedaços de pão, julgando tratar-se de carne humana.

Ainda assim, devíamos ser simpáticos com eles.

E aquilo que eu aprendi no Sagrado Coração foi que tudo isso era verdade, acrescentado de incenso e sinos. (Isto era no tempo da Missa em Latim; quando lá voltei, décadas mais tarde, era urdu e batuques.)

E havia mais uma coisa, mas levou-me anos a desvendar o que significava. Aprendi que tinha uma sensibilidade católica. E mais, que não tinha uma sensibilidade protestante. Que sempre que existia um conflito entre as sensibilidades, encontrava-me espontaneamente no lado católico. Como explicar isto?

A algum nível intuitivo, parecia-me que o catolicismo era fértil, e que a alternativa era estéril. São João Paulo II viria a colocar a coisa de forma chocantemente precisa mais tarde quando falou da distinção entre a Cultura da Vida e a Cultura da Morte, embora não lhe desse qualquer carga sectária. Estava a referir-se à mesma diferença fundamental de mundivisão que distingue os verdadeiros católicos de tudo o que os rodeia no mundo moderno.

Mas concentremo-nos na Missa. Tornei-me católico no início da minha vida adulta, mais precisamente um anglicano “high church” (por causa do incenso e dos sinos, mais uma vez), até que finalmente troquei Cantuária por Roma. Aliás, passei um quarto de século sempre à beira de transitar, cada vez que os anglicanos faziam mais alguma coisa não-católica. Entretanto, por boa educação, frequentei muitos casamentos, funerais e até baptizados em locais mais protestante e observei os seus costumes, de fora.

A primeira, e talvez a última coisa a saber sobre as nossas diferenças é que do lado de lá têm “serviços”. Para eles, a Missa não é “instrumental”. É um mero memorial, porque Cristo disse “fazei isto”. E eles fazem, da melhor forma que conseguem, tal como lhes foi dito, mas sem a magia.

Já os católicos também fazem como lhes foi instruído, mas para nós os sacramentos têm um efeito. Não são um memorial, mas um acto que alcança algo. É o “Sacrifício da Missa”, e os nossos crucifixos tendem a ter “o homenzinho”, como disse certa vez um funcionário descerebrado de uma loja de bugigangas. E parece que vai jorrar sangue por cima dos nossos sapatos.

Estou aqui a distinguir entre aquilo a que chamo o “instrumental” e o “simbólico”. Os símbolos são, neste sentido, coisas intelectuais. São exangues. Um académico pode escrever tudo sobre símbolos, sem compreender um único. Pode produzir um longo dicionário de símbolos e manuais de etnografia, com referências cruzadas e índices. E mesmo assim não entenderá nada. 

O mesmo se aplica a uma enciclopédia de anjos e demónios, santos, mártires, duendes e fadas, sem a menor crença de que alguma dessas coisas é real.

E uso aqui o termo “real” de forma propositada. Estou a aludir aos conflitos medievais entre realistas e nominalistas – que, muito plausivelmente, se encontra na raiz de cada uma das nossas reformas modernas (do Século XVI, XVIII e agora do XXI).

No cerne de cada um está a rejeição do realismo – a ideia de que existem coisas reais fora de nós mesmos, que são reais independentemente de as aceitarmos ou não. Por exemplo: verdade, beleza, bondade. Em contrapartida, dá-se um avanço do nominalismo que crê que o homem cria a realidade quando lhe dá nome. Tudo é, no fim de contas, uma “construção social”, incluindo os conceitos de homem e de mulher, de cima e baixo. 

E dessa perspectiva, desde novo que eu era susceptível ao Catolicismo, pois sempre acreditei na realidade, e que havia mais coisas no Céu e na Terra do que poderíamos imaginar. Nunca ultrapassei esta sensação, e espero que isso não aconteça.

Sou um realista. Creio que até o selvagem mais primitivo é inteiramente homem, por isso é igual a mim. Porque os homens são reais, e continuarão a sê-lo, independentemente do que lhos chamarmos.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 16 de Março de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Buda, São Francisco de Assis e Donald Trump

Católicos de diferentes regiões na missa com o Papa Francisco
O Papa Francisco continua a sua viagem pela Birmânia e esta manhã teve o primeiro verdadeiro encontro com o povo católico, vendo uma Igreja viva que nos últimos anos tem multiplicado o número de padres, freiras e até dioceses.

Depois o Papa encontrou-se com líderes budistas, traçando uma comparação entre Buda e São Francisco de Assis. No respectivo artigo pode encontrar ainda alguma contextualização sobre a politização do budismo naquele país.

Em Portugal, a diocese de Bragança-Miranda quer despertar a consciência das pessoas para a deficiência.

Nos EUA Donald Trump achou que seria boa ideia publicar vídeos partilhados por elementos da extrema direita inglesa que mostram actos de violência alegadamente praticados por muçulmanos.

E já que falamos de Trump, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português David Warren pega no famoso slogan do Presidente americano, adapta-o e pergunta se não seria preferível “Make America Christian Again”?

Make America Christian Again

David Warren
O erro é um grande dissipador de tempo e de energia. Quem o disse foi Goethe, numa carta que escreveu a alguém, mas poderia ter sido outra pessoa qualquer, em qualquer outro lado. Sim, Goethe diz que num mundo em que o erro se repete de forma incessante, a verdade deve ser repetida frequentemente.

Recordei-me desta máxima devido ao meu péssimo hábito de ler as notícias – outra actividade que dissipa tempo e energia. As notícias confundem-nos. Certamente não é preciso dar exemplos.

Há tolos santos, embora actualmente sejam difíceis de encontrar; há tolos triviais; e depois há tolos maliciosos. Estes útimos são grandes dissipadores, não só deles mesmos. Faríamos bem em ignorá-los totalmente, mas o problema é que tendem a ser ambiciosos. É preciso tempo e energia para os travar.

Na América de hoje (enquanto Canadiano incluo-me neste continente), parece que o erro está consagrado na Constituiçao. Está expresso como separação entre Igreja e Estado. Isso significa uma coisa para os seus autores, que eram cristãos, e outra para os seus descendentes pagãos.

Ao excluir da vida pública os próprios princípios sobre os quais se fundou a sociedade americana, o erro fica com uma espécie de monopólio, para ser imposto por um sem número de departamentos de Estado.

Aqui neste “espaço seguro” somos maioritariamente católicos, e os pais fundadores (pré e pós-revolução) eram maioritariamente protestantes, mas as verdades fundamentais a que se referiam atravessavam fronteiras confessionais.

A Virgínia, o Massachusetts e o Québec eram regiões bem distintas, tanto em termos eclesiais como gerais, mas para um observador da China seriam bastante semelhantes. A noção do homem num mundo decaído, nascido escravo do pecado e a precisar de redenção, era comum a todas as facções. Daqui seguiam muitas particularidades.

Entre os poucos filmes que já vi inclui-se “Nashville”, realizado pelo falecido Robert Altman, para o bicentenário dos Estados Unidos. Entre os seus enredos inclui-se a odisseia de uma jornalista pretensiosa da BBC (desempenhada por Geraldine Chaplin), em busca da “verdadeira América”, mas constantemente a enganar-se.

Num certo domingo de manhã ela encontra-se num gigantesco parque de estacionamento, cheio de autocarros escolares amarelos. Encontra nestes monstros metálicos um grande simbolismo.

Mas depois a câmara mostra-nos várias igrejas – baptistas, metodistas, episcopalianas, etc. – em que se encontram os vários protagonistas cómicos do filme. Todos estão a cantar, a rezar e a ouvir homilias. Aí vemos a “verdadeira América” que a menina bem de Inglaterra não tinha conseguido ver.

Refiro o filme apenas porque é tão recente; afinal de contas, 1976 não foi assim há tanto tempo. Eu lembro-me da data e estou na casa dos 60. Lembro-me que quando estava a crescer em Ontário o que era normal era ir à Igreja. Eu não fui criado por cristãos praticantes, mas percebia que isso é que era fora do comum.

De certa forma os meus pais eram liberais à moda antiga, anticlericais por disposição e a minha mãe, na verdade, era conscientemente ateia, mas penso que nunca lhes passou pela cabeça sugerir que a cultura religiosa do continente inteiro tinha de ser destruída. Até dizia que “os crentes são mais bem-comportados”.

Isso porque dão por adquiridas coisas sobre as quais os outros precisam de reflectir – com todos os erros que se seguem naturalmente quando alguém precisa de reinventar a moralidade a partir do zero. Os crentes tinham noções básicas do bem e do mal, implantadas desde pouco depois do nascimento. Até as crianças de lares sem fé absorviam estes valores da sociedade em geral.

Sim, a maioria dos crentes era hipócrita; e também eram ateus, na prática, naqueles momentos em que se esqueciam que Deus nos observa. Esta não é uma particularidade dos cristãos, mas da condição humana: encontramo-nos frequentemente no erro.

E é por isso que Goethe – também ele um liberal à antiga – diz que devemos regressar à verdade, como quem desperta do sono, sentindo-se refrescado. Domingo, “todo o santo Domingo”, era o nosso toque de despertar.

Não sou um daqueles parvos ingénuos que pensa que a América simplesmente pensou duas vezes e concluiu, de forma democrática, que a religião era inconveniente e dispensável. Deu muito trabalho minar a religião, resultado de uma “longa marcha pelas instituições” dos progressistas. Foi preciso muita capitulação das nossas figuras de autoridade.

E como todos sabem – e como todos os progressistas gostam de proclamar – a história não anda para trás. Não há nada na antiga América que se vá reedificar espontaneamente. Não foi sozinha que se edificou, foi resultado do trabalho e da aspiração humana, com raízes muito anteriores à sua própria descoberta e povoação.

Muita coisa foi destruída no espaço de duas gerações. Não estamos perante uma transição geracional, mas civilizacional. Quando abandonamos o Cristianismo, o nosso passado cristão torna-se incompreensível para nós. Os nossos antepassados tornam-se impossivelmente estranhos. A sua prática religiosa torna-se um factor de alienação. Os cristãos sobreviventes tornam-se uma seita exótica minoritária que precisa de ser cuidadosamente regulada e vigiada pelo Governo.

O slogan “Make America Great Again” pode ter resultado durante a última eleição presidencial, mas são palavras vazias. Partem do princípio que houve uma América que em tempos foi grande. Talvez tenha havido, mas esta já não é a América. “Já não estamos no Kansas”

Mesmo o conceito de grandiosidade é vazio se não puder ser especificado. Estamos a falar de grandeza geográfica? Mas isso já somos. Económica? Mas já produzimos bens de gosto duvidoso em quantidades sem precedentes. Ou estaremos a falar de um conceito de virtude e de nobreza?

Claro que é isso, apesar da confusão. Mas sem um conceito claro do que é nobre e virtuoso continuamos desorientados. E estas coisas não virão do nada.

E é por isso que proponho um slogan alternativo, “Make America Christian Again”. E já que a história não anda para trás, concentremo-nos em fazê-la católica, desta vez. Caso contrário estaremos a dissipar tempo e energia. 


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 24 de Novembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

E você, já rezou pelos políticos hoje?

Como tinha avisado, estive fora na semana passada e por isso não pude partilhar nenhuma das muitas notícias que foram publicadas por causa da morte inesperada de D. António Francisco, do Porto. Aqui podem recuperar algumas das mais importantes notícias e homenagens a um homem que era unanimemente considerado um cristão exemplar com um grande coração.

Esta segunda-feira o Papa alertou para a necessidade de se rezar pelos políticos, acrescentando que quem não o faz deve admiti-lo no confessionário. Ontem Francisco falou da necessidade de se perdoar e na incoerência de quem se recusa a fazê-lo.

Entretanto foi libertado o padre indiano que tinha sido raptado no Iémen há um ano e meio e um funcionário da nunciatura do Vaticano, em Washington, está a ser investigado por suspeita de pornografia infantil.

Durante a semana também publiquei um artigo novo do The Catholic Thing. David Warren recorda o autor Hillaire Belloc que previu, num livro escrito em 1938, que o Islão iria recuperar a sua força e continuar a ameaçar o Ocidente. Não perca!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Regresso às Aulas

David Warren
É preciso descrever o choque que senti ao ver que o livro “As Grandes Heresias”, de Hillaire Belloc, tinha sido reeditado. Há anos que procurava um exemplar em papel deste livro em todos os lugares do costume, como alfarrabistas e feiras de antiguidades. Reparei que, apesar de ainda constar do catálogo, tinha sido retirado fisicamente de pelo menos uma biblioteca e despachado de várias outras.

Não que isso me surpreendesse. Quanto mais importante é um livro para a nossa civilização, mais rapidamente desaparece das prateleiras. Recentemente, por exemplo, descobri que toda a secção de clássicos romanos e gregos foi eliminada da Biblioteca de Referência Central de Toronto, por falta de “interesse público”. E depois que as secções de clássicos de muitas bibliotecas universitárias tinha encolhido ao ponto de, agora, eu ter mais textos no meu pequeno apartamento.

Não é nada que nos preocupe porque sabemos que “tudo” foi preservado no éter electrónico e pode ser baixado por qualquer pesquisador insistente, normalmente de borla. Mas pouca gente se preocupa com os clássicos, menos ainda com os padres da Igreja e os acervos digitais são, pela sua própria natureza, precários. Mais fundamentalmente, como os “estudos” continuam a demonstrar, a retenção por parte de utilizadores de material lido em ecrãs de computador é praticamente zero.

Enfim, como dizem... E não me espanta que tenhamos multidões ignorantes a atacar as relíquias do passado, como as estátuas públicas. Torna-se muito mais fácil alimentar estas turbas porque, na ausência de materiais que não lêem nem respeitam, acreditarão em tudo o que se lhes contarem sobre o passado.

Voltando a Belloc, ele não era grego nem romano, mas a sua obra enquanto historiador é assinalável. Era um historiador popular, e não académico, mas não deixava de ter uma educação formidável e abrangente, não só por leitura mas também por ser viajado e abria caminhos por cada lado para que se voltava. E, como Belloc sabia perfeitamente, o leitor inteligente não se tem de restringir a Belloc. Somos livres de o contradizer mas, claro, isso requer paciência e esforço.

Sei bem qual foi o dia em que comecei a procurar um exemplar de “As Grandes Heresias”, porque foi no dia 12 de Setembro de 2001. Poderia ter sido na véspera, não fosse eu, então, um praticante de jornalismo diário e, por isso, tenha sido distraído dos interesses bibliográficos por “notícias de última hora”.

Parece que entre os meus compatriotas – pelo menos os que trabalhavam para os media – pensava-se que eu sabia alguma coisa sobre o Islão. Eu não me considerava um especialista, mas tendo em conta as circunstâncias, qualquer coisa servia e por isso, de repente, dei por mim com a liberdade de preencher as colunas que quisesse no jornal.

As pessoas queriam saber o que era esta coisa do “Islão” e o que é que se tinha passado enquanto dormiam. Fiz os possíveis para os informar – ter os factos correctos e essas coisas – e os editores que anteriormente me tinham desclassificado por ser “algum tipo de conservador”, até me estavam a agradecer.

Esta situação simpática manteve-se durante umas semanas, até que se descobriu que algumas das coisas que eu tinha escrito não eram, por assim dizer, “politicamente correctas”. A invasão americana do Afeganistão foi bem aceite, inicialmente, mas quando chegou ao Natal desse ano os “progressistas” tinham recuperado a sua garra e os apologistas liberais do Islão estavam em crescendo.

Hillaire Belloc
Desencorajaram-me especialmente de escrever sobre os 14 séculos de história por detrás deste incidente particular, que de tantas formas fazia lembrar o século VII. Mesmo a minha explicação inicial do significado da data 11 de Setembro – 1683 – se tinha perdido debaixo do burburinho dos “peritos” alternativos, que nunca tinham ouvido falar de tais coisas.
 
A vitória do exército cristão sob o comando do Rei João III Sobieski, da Polónia, que derrotou os otomanos às portas de Viena, tinha sido das datas mais famosas da história. Caso essa batalha tivesse sido vencida pelo “infiel turco”, como era conhecido em tempos na Europa, este ficaria em posição de se lançar Danúbio acima e atingir o coração da Europa Ocidental. Foram parados em Lepanto, tal como os antecessores tinham sido parados por Carlos Martel no meio de França. Grandes batalhas como estas mudam o rumo da história.

Para a Al Qaeda, abertamente dedicada à restauração de um califado mundial, este revés decisivo em Viena era a fonte de grande angústia. Ainda por cima não tinha sido a primeira tentativa. Há mais de um século que a cidade era um alvo, como antes tinha sido Constantinopla (hoje Istambul), com ataques anuais até à eventual queda em 1453.

Este longo “choque de civilizações” era de conhecimento geral, tanto no oriente islâmico como no ocidente cristão até há pouco tempo. Escrevendo em 1938, Belloc apanhou os seus leitores de surpresa ao sugerir que o choque não tinha chegado ao fim. Ele previa, corajosamente, que o Islão ia recuperar e que os ataques recomeçariam.

Para um leitor há 80 anos o Islão tinha sido inteiramente derrotado, às mãos da organização e da tecnologia ocidental. Mas foi precisamente porque o analisou enquanto fé – aliás, considerando-o uma heresia cristã – que Belloc pôde apreciar as suas forças. Mais, foi através da análise das outras grandes heresias que tinham dividido e viciado a Cristandade (ariana, albigense, protestante e modernista) que pôde antecipar o revivalismo islâmico.

A sua análise, não obstante ser extremamente “politicamente incorrecta”, é muito mais subtil que a caricatura habitual; cada uma das cinco grandes heresias que Belloc analisa era única à sua maneira, e a sua análise das suas interacções é de um extraordinário nível intelectual. Não podemos deixar que a sua prosa arrebatadora e acessível nos distraia da precisão do seu raciocínio.

Na verdade o livro é de tal forma pertinente que fiquei chocado de o ver novamente em circulação. O meu primeiro pensamento foi: “Como é que isto foi permitido?”. Porque o livro não envelheceu. Quem envelheceu fomos nós.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 1 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Opção dominicana e capacidade de escuta

A tarde de ontem foi marcada pela tragédia da explosão na fábrica de pirotecnia em Avões, Lamego. São seis mortos confirmados, mas tudo indica que serão oito. O bispo de Lamego (na imagem) não se quer ficar pelas meras condolências

Outra tragédia aconteceu na Síria, como ontem partilhei. Hoje o Papa classificou-a como “inaceitável”.

O Papa recebeu esta quarta-feira em Roma uma delegação de líderes muçulmanos do Reino Unido a quem falou da importância de se dialogar com base na escuta, e não nos gritos.


Porque hoje é quarta-feira temos um artigo do The Catholic Thing em que David Warren argumenta que tanto ou mais que uma “opção beneditina”, como tem sido proposta pelo americano Rod Dreher, o mundo cristão precisa da inspiração de São Domingos.

A Opção Dominicana

David Warren
Nota prévia: Recentemente o autor americano Rod Dreher lançou um livro chamado “The Benedict Option” [A opção beneditina] que está a causar alguma discussão no meio cristão conservador nos EUA. Dreher argumenta que tal como São Bento contrariou a cultura da sua época, formando comunidades cristãs sólidas e de certa forma isoladas que depois desempenharam um papel crucial no renascimento da civilização cristã na Europa, hoje os cristãos têm o dever de fazer o mesmo. O livro explora e analisa essa possibilidade. É no contexto dessa discussão que surge este texto de David Warren. Espero que gostem.


Eram conhecidos como “cães de Deus” – por causa do trocadilho Domini canes, em latim – os monges de preto que começarem a deambular pela Europa há oito séculos. Eram mendicantes da Ordem dos Pregadores, fundada por Domingos de Caleruega, em Espanha, dedicados a uma vida de pobreza, oração, estudo e ensino; uma guerra contra a ignorância e a heterodoxia. Propunham-se retomar a tarefa dos Apóstolos.

Na maior parte eram um fenómeno urbano. Embora viessem dos lugares mais obscuros, o principal enfoque eram as vilas que iam crescendo à volta das catedrais e a reocupação de lugares antigos que no início do século XIII estavam abandonados.

Ao longo dos séculos anteriores a Europa ocidental tinha-se tornado uma paisagem desolada, totalmente descentralizada e sob governo de mosteiros e castelos, seus abades e senhores, unidos de forma imperfeita pela religião cristã. Havia pequenas cidades, ou protocidades, em Itália, mas para lá dos Alpes talvez a maior aglomeração urbana fosse Paris, com uma população de poucos milhares. Mas tudo isso estava a mudar.

Eram tempos revolucionários, na Igreja e à sua volta. Através dos tempos ainda reconhecemos os dominicanos e os franciscanos que surgiram nesse período, rompendo com a tradição monástica do afastamento, mas foram fundadas muitas outras ordens que hoje não existem.

Até então os monges e as freiras tinham sido contemplativos, mas também trabalhavam em explorações agrícolas, cujas inovações ultrapassavam os muros dos conventos e cujos bens viajavam. Mas não faziam parte de uma economia integrada.

Existiam grandes cidades nos reinos muçulmanos, e mais longe, que apareciam e desapareciam como cogumelos. Mas a Europa Ocidental tinha sido um local de silêncio extraordinário, que perdurava. A segurança alimentar, perante a ameaça dos invasores selvagens, tinha moldado o sistema feudal clássico, pelo qual os nossos ambientalistas ainda anseiam. Uma vida dura, ditada pelas estações; pessoas para quem a mudança era sinónimo de destruição. As artes e as tecnologias tinham de servir um propósito e não eram “sofisticados” – excepto nos mosteiros, onde a herança dos tempos passados eram zelosamente guardada.

O próprio São Domingos, nascido numa boa família na região de Velha Castela, perto da fronteira da Reconquista Cristã, foi treinado na tradição ermítica agostiniana, que remontava ao Norte de África mas com os olhos postos numa transformação do século XIII.

Dois livros antigos da minha colecção – “Saint Dominic and His Work”, de Pierre Mandonnet (1944) e “Saint Dominic and His Times”, de M.-H. Vicaire (1964) – fornecem relatos apaixonantes do seu tempo e da sua missão, que vão para além dos meros factos. Estes autores apresentam uma amplitude, profundidade e carácter que faltam aos académicos actuais.

Ao narrar a vida do fundador da sua ordem, estes autores sentem-se obrigados a descrever a era de transformação que Domingos veio servir. A famosa batalha contra os hereges albigenses cobre a nossa visão histórica como um véu. Os esforços heróicos de Domingos e dos seus primeiros seguidores – que debatiam os hereges no seu próprio terreno, arriscando a própria vida – é um bom prelúdio para essa história. Mas desde o início que as intenções eram mais fundamentais.

São Domingos
À medida que os jovens migravam para as novas universidades das vilas – que estavam para além do controlo dos seminários das antigas catedrais (Chartres atraía pessoas antes de Paris) – estava a emergir um uma nova ordem intelectual profana. Quando lemos sobre a vida estudantil de Paris no Século XIII damos conta de muitos aspectos que nunca mudaram: Arrogância juvenil e rebelião, bebedeiras e os pedidos constantes de empréstimos estudantis, o quanto os trabalhadores honestos das vilas detestavam e temiam estes jovens estudantes, que viam como delinquentes perigosamente inteligentes.

Os dominicanos elevaram a fasquia para a seriedade e o verdadeiro zelo intelectual. Eram obrigados a viver vidas exemplares sob clara disciplina. Também eram obrigados à busca da verdade e encontramos nos legados de Alberto Magno, Tomás de Aquino – Margarida da Hungria e Catarina de Sena – uma paciência destemida que dá corpo ao ideal da ordem. A luz da Fé estava, em todo o lugar, misturada com a luz da Razão, contra forças que eram potencialmente muito escuras.

Vemos o mesmo nas nossas universidades actuais, com a diferença de que agora prevalecem as forças da escuridão. A fé é desprezada e, como acontecia frequentemente com os primeiros dominicanos, abafada com palavras de ordem. Os dominicanos persistiram. Em vez de se retirarem quando confrontados com hostilidade, ouviam e refutavam. Os homens podem ser animais, sobretudo os mais novos, mas também podem ser chamados à conversão e um dos dados mais impressionantes do século XIII é a velocidade e a dimensão da expansão dominicana.

Veio responder a uma fome espiritual. Confrontou a dúvida apresentada de forma nova e potente, à medida que a Europa começava a recuperar o ensino pagão através de filósofos árabes e refugiados bizantinos. Tudo o que havia de bom em Aristóteles e nas ideias antigas era assimilado e cristianizado pelos dominicanos e outros que vieram inspirar. Eles perceberam que a “filosofia perene” era, pela sua natureza, compatível com os ensinamentos cristãos e ajudava-nos a compreendê-los melhor.

A abordagem dominicana era de se porem ao trabalho, uma força positiva de confronto intelectual. Cristo enviou os seus Apóstolos para a estrada aberta; não lhes disse que deviam esconder-se e esperar. Tornou-os professores, até à morte. O mundo precisa de conhecer a boa nova do nosso Salvador. Precisa de ser salvo, do demónio e de si mesmo. Precisa de saber quem é o seu Criador. Precisa de testar todas as coisas.

São Domingos era ele mesmo um homem de grande aprendizagem. O seu caminho não era estreito. Os métodos escolásticos de que os dominicanos foram pioneiros pegavam nas questões por inteiro e encontravam as respostas de forma metódica.

Longe de mim rejeitar os Padres do Deserto, ou tudo o que se seguiu à tradição beneditina; tudo o que alcançaram e preservaram. Uma vez que, devido ao Rod Dreher, a “Opção Beneditina” voltou a tornar-se uma ideia a debater, deixem-me acrescentar que aplaudo-a e aceito-a.

Mas eu acrescentaria, em contraste resplandecente, uma “Opção Dominicana”. Jamais podemos, como cristãos, virar as costas aos nossos vizinhos nas suas necessidades. E a Verdade é uma coisa necessária. Haverá sempre obstáculos ao seu ensino; devemos analisá-los e passar adiante.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 31 de Março de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O Silêncio dos Leões

David Warren
Para que servem os bispos? É uma pergunta que muitos fiéis católicos fazem, pelo que fui percebendo através de conversas durante a minha vida adulta. Muitas vezes a pergunta é feita de forma sarcástica, sobre um qualquer bispo que tenha falhado de forma significativa na defesa dos ensinamentos católicos aquando de um acontecimento que teria exigido resposta. O galo canta três vezes e depois… a oportunidade esvanece.

O que este silêncio – ou muitas vezes murmúrio incoerente – diz aos fiéis é que quando toca a testemunhar Cristo e os seus ensinamentos, eles estão por sua conta. Podem ter o Catecismo para lhes recordar do que consiste a fé, mas se tomarem posição sobre o assunto não podem esperar o apoio dos seus líderes. 

O mais provável, até, é que sejam discretamente desacreditados como “fanáticos” e abandonados à sua sorte. Porque agora são vistos como falando unicamente em nome próprio, numa altura em que tudo o que é dito com clareza e precisão pode ser descartado como sendo o mero expelir de “sentimentos” que depois são classificados como “incitamento ao ódio”.

Vivemos em tempos difíceis, em que regulamentos de expressão avançam em todas as frentes: Académica, jurídica, social e política, e a ditadura do relativismo se vai consolidando. Tudo o que se diz pode, potencialmente, ser alvo de acção judicial pelo facto de poder, eventualmente, ferir os sentimentos de membros desconhecidos de algum grupo politicamente favorecido mas vagamente definido. O dissidente perde o seu ganha-pão, ou se espera mantê-lo deve submeter-se à humilhação pública e a um qualquer curso de “aconselhamento” ou de “treino de sensibilidade”, ou “reeducação”.

Eis que o maoismo está vivo e de boa saúde nas universidades, e a espalhar-se. Ou, se o leitor preferir, o Estalinismo, ou o Hitlerismo. Ou até o McCarthyismo, na medida em que também envolvia julgamentos de fachada.

O McCarthyismo foi derrotado bastante depressa – no espaço de três meses – depois de várias figuras proeminentes do aparelho de Estado terem confrontado o senador de Wisconsin, dizendo que estavam fartos. O próprio McCarthy foi apelidado de parasita e o seu caso tornou-se um aviso para quem o quisesse imitar.

Na verdade, um McCarthyismo mais formidável, de esquerda, ganhou raízes no cadáver do político, cujo nome se tornou um slogan de propaganda. Mas penso que no início houve genuína revolta para com a irresponsabilidade das audições de McCarthy no Senado e foi preciso genuína coragem por parte dos primeiros a tomar posição contra ele.

A mesma coragem que é necessária para todos aqueles – em todos os tempos, de qualquer nação – que se opõem à injustiça.

Temos já, nesta altura, um legado de bispos corajosos e dignos inscritos nos anais dos santos e dos mártires da Igreja Católica. Na prática correspondem a um terceiro testamento, uma crónica exemplar de vinte séculos em que, através das vidas de grandes homens e de grandes mulheres, a vida de Cristo persistiu neste mundo.

O Leão de Münster
De forma alguma devemos dizer que os bispos nos falham sempre, nem que sempre que se quedam calados nos encontramos apenas por nossa conta. Deus encontra outros que se chegam à frente para dar o exemplo. Também se deve dizer que nós temos o direito, pela graça do nosso baptismo, de dar um passo em frente, para defender o bem e a verdade e para condenar os seus opostos. Mas estes gestos são pouco frequentes.

Que são pouco frequentes deve-se ao facto de sermos pecadores. Estamos de tal forma ligados aos nossos confortos mundanos, às nossas imaginações mundanas, que mesmo diante da mais flagrante diferença entre o bem e o mal acabamos por optar pela vida tranquila. E como se torna evidente para quem lê os Evangelhos, o homem bem alimentado e com boa casa, com muitos amigos e honras (tal como um bispo), tem mais a perder do que a maioria. Porquê arriscar tudo em troca de perseguição pública e o risco de abandono por parte dos seus próprios apoiantes? Por recompensas que não são deste mundo, invisíveis salvo aos olhos da fé?

Ontem à noite fui ao lançamento de um excelente livro no Oratório de Toronto. É escrito pelo padre Daniel Utrecht e é a melhor biografia que temos actualmente em inglês do “Leão de Münster: O Bispo que Rugiu Contra os Nazis”. O seu nome era Clemens August Conde von Galen e ainda há pouco tempo escreveu-se sobre ele uma crónica no The Catholic Thing. [E outra há ainda mais tempo, que pode ser lida aqui].

Ele fustigou o regime Nazi, especialmente as suas políticas de extermínio (“eutanásia”), da forma como o deveriam ter feito todos os bispos alemães entre 1933-45, embora a maioria tenha optado por um silêncio discreto, ou na melhor das hipóteses uns murmúrios discretos.

Von Galen não esperou por autorização para falar, porque ele tinha a autoridade. E isso era tão evidente para os seus fiéis na diocese de Münster, e para católicos em toda a Alemanha, que os Nazis não se atreveram a matá-lo, guardando esse acto delicioso até para depois de ganhar a guerra, como confidenciou Hitler ao seu círculo mais próximo. Que esta não tenha sido ganha deve-se, ao menos em parte, à coragem do bispo.

Gosto de imaginar como é que a história poderia ter sido diferente. E se? E se todos os bispos se tivessem oposto ao regime da mesma forma que von Galen? Então talvez o regime tivesse perseguido os católicos por toda a Alemanha, repetindo o que fez a Kulturkampf de Bismarck, ou pior. Assim teriam absorvido aquilo que os aliados fizeram quando finalmente derrubaram os nazis e pelo caminho talvez tivessem resgatado para a Alemanha a sua herança cristã esquecida.

Ou outro cenário. E se em vez de apenas um (São João Fisher), todos os bispos britânicos se tivessem oposto a Henrique VIII? E se todos estivessem dispostos a serem mártires, com todo o clero a seguir-lhes o exemplo, levando os católicos a erguer-se por todo o país e não apenas em pequenas revoltas isoladas? Não em violência, mas num acto de santa teimosia para dizer “Isto não passará!”


No fundo, estas coisas são imponderáveis, mas gosto de pensar nelas porque dão alguma ideia sobre o extraordinário poder que a Igreja teria, fosse governada por leões.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 26 de Novembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Santos Suecos com cérebros microcósmicos

Holy Swedish Girl
Chegou ao fim ontem a viagem do Papa à Suécia. Francisco citou o exemplo de santos suecos – um termo que até soa estranho ao ouvido, mas existem! – isto precisamente na solenidade de Todos os Santos.

No avião de regresso a Roma, o Papa referiu-se novamente à questão da ordenação de mulheres, dizendo que essa porta está definitivamente fechada.

O Porto recebe, durante os próximos dias, o Fórum para o Futuro. O Cardeal Ravasi abriu o evento dizendo que “o cérebro é um microcosmo com uma arquitectura admirável”.

Hoje é quarta-feira e a dias das eleições americanas publico um artigo de David Warren que, apesar de ser um inglês a viver no Canadá, opina sobre os candidatos. Warren argumenta que a forma como alguns conservadores estão a colocar de lado os seus princípios para justificar o apoio a Donald Trump é uma ameaça às almas dos cristãos.

Deixo-vos com um desafio. Decorre no dia 5 o primeiro congresso das associações de profissionais católicos. Mesmo que não pertença a nenhuma, pode comparecer na Universidade Católica nesse dia. Mas nada como ver o convite na primeira pessoa, feita por D. Manuel Clemente, aqui.

Não Interessa Quem Ganha

David Warren
“Não se deve julgar os homens pelas suas opiniões, mas por aquilo que as suas opiniões fizeram deles.”

Esta, segundo Georg Christoph Lichtenberg, é uma regra de ouro. Tal como todas as regras de ouro, tem a habilidade misteriosa de ser instantaneamente esquecida. É mais fácil julgar os homens pelas suas opiniões, e elencá-los com base na semelhança com as nossas próprias. Tudo o resto requer alguma capacidade de discernimento espiritual.

O culto católico (e ortodoxo) dos santos desafia esta tendência para esquecer. Não respeitamos os santos pelas suas opiniões cristãs, damos essas por adquiridas e há muitos que partilham delas sem serem santos. Antes, apreciamos a forma como os santos dão vida a estas coisas inertes, porque o amor, sem aquilo que representa, não passa de uma opinião.

Não pretendo, com isto, menosprezar o Catecismo. É um manual de instruções daquilo em que acreditamos e explica como é que estas crenças se interligam. Sem ele facilmente nos perdemos, como se vê ao olhar para as pobres almas que se persuadiram de que podem fazer o seu próprio Cristianismo, improvisando. A sua sinceridade, partindo do princípio que é genuína, é rapidamente ultrapassada pela sua confusão.

“Eu sinto isto” e “eu penso aquilo” são expressões comuns na religião contemporânea, tanto dentro como fora da Igreja. Raramente ouço sequer uma referência decorativa à autoridade do magistério. Na verdade, o orador está a assumir o estatuto de profeta, com linha directa para Deus. Só que não fala em línguas, mas em clichés.

Mas o Catecismo, os Evangelhos (não modernizados), a Escritura como um todo, são o ponto de partida para a compreensão de algo que, no fim de contas, os ultrapassa. Cristo não se pode reduzir a um manual de instruções, nem veio à Terra para nos dar um. Foi a Igreja que reuniu estas coisas – incluindo o cânone das escrituras – para nos colocar no Seu caminho.

Temos nestas coisas, e na teologia católica que nelas assenta, um ponto de partida sólido para um destino que é inimaginável neste mundo. Os santos e os mártires guiam-nos para além dos horizontes que conseguimos manter em vista.

Foi a dimensão humana de Jesus que o tornou acessível a todos os homens. São as qualidades sobretudo humanas que fazem dos santos os seus companheiros de serviço – pois sabemos que estão a fazer coisas que estão ao alcance da capacidade humana.

Ou pelo menos devíamos saber: Que a fé pode mover montanhas; que a fé pode, no decurso de uma vida humana “normal” erguer-nos, ou antes, levitar-nos a um ponto de onde vemos que a santidade, com a Graça de Deus, é possível. (Como me disse uma vez um padre Anglicano, “Um primeiro passo rumo à santidade é compreender que a santidade é possível”).

Erguer-nos: erguer-nos de entre os mortos. É tudo o que se nos pede, e a ajuda divina é garantida. Mas não serão as nossas opiniões a elevar-nos. Pode-se dizer que essa elevação começa por seguir instruções, como tudo o que isso implica. Começamos com o esqueleto da crença cristã, mas para nos erguermos temos de lhe dar corpo.

Russell D. Moore
Por estranho que possa parecer, o meu objectivo com tudo isto é falar de política e Cristianismo, uma área em que as nossas opiniões nos pesam. Mas fui apanhado de surpresa ao ver que um pregador evangélico se tinha antecipado a mim. Refiro-me a Russel D. Moore, orador da “palestra Erasmus” deste ano do First Things. Na minha opinião vale bem a pena lê-lo ou escutá-lo durante umas horas.

Isto porque ele elabora sobre uma ideia parecida com aquela de Lichtenberg, que citei acima. Ele afirma, na sua palestra, e em resposta a questões colocadas depois, um fantástico paradoxo, que vale a pena interiorizar: Que Hillary Clinton, vista como inimiga por grande parte da Direita Evangélica, praticamente lhes pode fazer mal. Talvez, se for eleita, possa nomear o Anticristo para juiz do Supremo Tribunal, ou embarcar em aventuras militares no estrangeiro que apressem o Apocalipse; mas ainda assim não pode fazer mal à alma de um único evangélico, ou outro cristão qualquer.

Para isso ela não tem qualquer poder. Só poderia ter esse poder se exercesse sobre eles tamanha atracção que eles estivessem dispostos a defender os bens que ela está a vender. Só então é que ela estaria em posição de os poder corromper, e não quando eles não sonham sequer em votar nela.

Mas Moore sugere, contudo, que ao colocar a política acima da religião, para apoiar o incorrigível Donald Trump, que os campeões da Direita religiosa estão na verdade a colocar em perigo almas cristãs, pois estão dispostos a colocar de lado o seu apoio aos “valores da família” e ao que actualmente se chama “conservadorismo social” para conseguirem eleger o seu candidato. Com isso provaram ser puros “consequencialistas”, que é como quem diz, totalmente cínicos.

Embora se limite a criticar alguns anciãos da sua própria igreja – e, note-se, diante de um auditório sobretudo católico – Moore está a passar uma mensagem que atravessa as fronteiras das denominações. Para podermos ser de algum valor na política, ou para o nosso país, em primeiro lugar devemos ser cristãos. A partir do momento em que nos dispomos a fazer cedências – sobretudo cedências morais, para poder ganhar algum avanço – estamos perdidos e não servimos para ninguém.

“De nada serve ao homem trocar a sua alma pelo mundo, Ricardo. Mas por Gales?”, diz Thomas More no filme dos anos 60.

Ele é o santo padroeiro dos políticos precisamente porque apesar de estar sob tremenda pressão, pôs a fidelidade a Cristo e à sua Igreja acima não só do seu interesse pessoal, mas de qualquer objectivo político. Sejam quais tenham sido as suas opiniões, recordamos aquilo que fizeram dele: Um farol cuja luz atravessa as épocas.

Por paradoxal que possa parecer à primeira vista, esta é a única forma cristã de agir. A questão de carácter vai directamente ao tutano, ao nosso tutano. Nunca nos devemos tornar tão mundanos que sacrificamos as nossas crenças cristãs para tentar alcançar o poder.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

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