quarta-feira, 14 de abril de 2021

A Ressurreição dos Mortos

A imagem mais comum de Jesus é da crucifixão. Algumas mostram-no morto, pendurado, outros, mais icónicos, mostram-no na Cruz, sim, mas ressuscitado, de olhos abertos e braços estendidos, convidando todos a ir ter com Ele. No seu conjunto, estas imagens captam a dupla verdade de que Cristo morreu e ressuscitou. Ambas as afirmações estiveram sempre no cerne do credo cristão.

Se, como proclama São Paulo, “Cristo ressuscitou, e é primícias daqueles que adormeceram” (1 Cor. 15,20), então podemos compreender algo do que nos espera ao olhar atentamente para o que Cristo revelou com a sua morte e ressurreição. Uma coisa que deve ser imediatamente evidente é que a promessa cristã da vida eterna não é a mesma coisa que o objetivo transhumanista da imortalidade. A promessa de que os cristãos jamais morrerão não existe.

No Evangelho de João, pouco depois de Jesus ter lavado os pés dos seus discípulos, ele diz-lhes: “Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar-vos um lugar. E se eu for e vos preparar um lugar, voltarei e levar-vos-ei para junto de mim, para que estejam onde eu estiver. Vocês conhecem o caminho para onde vou” (João 14, 2-4).

Só com base nesta afirmação podemos bem imaginar que Jesus está a dizer que vai para um lugar e que mais tarde mostrará aos apóstolos como é que lá se chega. Tomé, sem compreender, diz: “Senhor, nós não sabemos para onde vais, como podemos saber o caminho?” (Jo. 14,5). Mas Tomé não captou o sentido subtil das palavras de Jesus. Ele é “o caminho”. Por isso quando diz, “vocês conhecem o caminho”, o que quer dizer é “vocês conhecem-me, e Eu sou o caminho”. De facto, é precisamente isso que ele diz a Tomé: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (João 14,5)

Perto do final do conto humorístico de Mark Twain “Os Diários de Adão e Eva”, Adão, que inicialmente tinha resistido a Eva, esta nova criatura que está a invadir o seu espaço, chora sobre a sua campa, tendo compreendido que “onde ela estava, aí estava o Éden”. O “Diário” de Twain é uma comédia romântica, e não uma obra de teologia complexa, mas levanta questões importantes: O paraíso é um lugar, ou uma pessoa? Enquanto cristãos não somos também chamados a reconhecer que o Paraíso não é apenas um lugar, mas sim a união a uma Pessoa (ou Pessoas) – Cristo, que envia o Espírito Santo para “implementar a caridade em todo o mundo no meu coração” e nos introduz numa união com o Pai?

Na Última Ceia Cristo diz aos seus discípulos que Ele deve partir, mas que depois enviará o Espírito Santo para os ajudar e guiar. E, eventualmente, Ele “parte” mesmo. Mas depois da sua morte na cruz faz uma pausa antes de regressar ao Pai (por assim dizer) e passa mais algum tempo com os discípulos.

Porquê? Não lhes tinha dito já tudo o que precisavam de saber? Não lhes mostrou “o Caminho?” Têm a prova da sua ressurreição dos mortos no túmulo vazio.

Talvez fossem necessárias uma ou duas aparições do ressuscitado para convencer os apóstolos de que ainda vive. Mas Ele permanece com eles durante 40 dias e aparece várias vezes. Porquê?


Se, como São Paulo afirma, Cristo é as “primícias” daquilo que os fiéis defuntos vão poder gozar na ressurreição geral, o que é que as suas aparências nos revelam sobre a vida ressuscitada?

Sugiro duas coisas.

Primeiro, a sua morta não o desligou, como se poderia pensar, do Pai; pelo contrário, Ele partilha inteiramente a glória do Pai, que é revelada mais plenamente agora que Ele ressuscitou dos mortos. Mas, em segundo lugar, a pessoa diante deles ainda é o Jesus que conheciam e amavam. Dizemos às vezes que a presença de Cristo entre os onze na sala onde estavam escondidos, era uma presença glorificada, mas isso não significa que Ele estava menos presente para eles do que durante a sua vida. Ainda podiam sentar-se, conversar e comer com Ele.

O que nos é prometido, então, pelo Cristo ressuscitado, que é as “primícias” daquilo que também nós vamos gozar, é de que poderemos, depois da morte, obter a união plena com Deus e partilhar da comunhão eterna de amor partilhada entre o Pai, Filho e Espírito Santo. E porém, nesta união com o Deus Trino, não nos vamos perder como um pingo de água no oceano.

Aquilo que muitos temem na morte, seja a deles ou a dos outros, é a perda da ligação com as pessoas que amam. Se pensamos que ir para o Céu é como ir para Cleveland (só que melhor), então ficamos tristes porque eles, ou nós, “vamos embora”, ainda que esperemos que seja para “um sítio melhor”. Mas se o Céu é uma união com o Pai em Cristo através do Espírito, e se Cristo vive e está em cada um de nós, então também nós nos mantemos em comunhão com os nossos entes queridos – mais intimamente e plenamente, até – no Corpo de Cristo e na comunhão dos santos.

Uma das maiores tragédias, quando as pessoas perdem a fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia, é de que rapidamente perdem a sua esperança na comunhão dos santos – de que mesmo na morte continuamos presentes para os nossos amados e eles connosco. Se Cristo não ressuscitou e está presente para nós, então o mesmo se aplica a todos aqueles que amamos. E isso é algo demasiado triste para contemplar.

Por isso regozijemos na Boa Nova. Cristo ressuscitou, o amor não foi derrotado, as portas da morte foram escancaradas e os santos correm ao nosso encontro em alegria.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 7 de Abril de 2021)

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