quarta-feira, 28 de março de 2012

Fraqueza que nos fortalece

Randall Smith
Teorias recentes da evolução sugerem que a antiga ideia social-darwinista da “sobrevivência dos mais fortes” não podia estar mais enganada. O que fez do homo sapiens a espécie dominante, segundo muitos biólogos actuais, é precisamente a nossa capacidade de cooperar, agir de forma altruísta e de proteger os membros mais fracos da tribo.

Esta teoria torna ainda mais incompreensíveis os actuais esforços da comunidade médica no sentido de purificar a “piscina” genética através da eugenia. Actualmente, por exemplo, 90% dos bebés por nascer diagnosticados com Síndrome de Down são abortados. De facto, há forças poderosas que já anunciaram repetidamente a sua intenção de erradicar as crianças com Síndrome de Down nos próximos anos. Não se referem ao tratamento da condição, querem erradicar as crianças, abortando-as depois de as diagnosticarem.

As mulheres perguntam-me frequentemente se é verdade que a lei as obriga a fazer uma amniocentese, porque os médicos disseram que sim. A resposta a esta pergunta é, (por ora), não. Mas as pessoas insistem que sim por duas razões: primeiro porque se querem defender – isto é, não querem ser processadas se vier ao mundo uma criança que a mãe preferia ter abortado (o termo para isto é “vida injustificada”). Em segundo lugar, talvez queiram juntar-se ao movimento eugenista que está actualmente a tentar erradicar aqueles que considera terem “vidas indignas de serem vividas”.

Este termo, “vidas indignas de serem vividas” (Lebensunwertes Leben), era usado pelos médicos alemães para descrever crianças com atrasos mentais nos anos 30, enquanto desenvolviam métodos de “eutanásia” que seriam o primeiro passo na erradicação de todos estes “indesejáveis”, a caminho da “Solução Final”.

O que é que torna estas crianças tão ameaçadoras que alguns querem que sejam totalmente erradicadas? Porque é que nos incomodam tanto? Permitam-me um pequeno impulso freudiano: Eu acho que é porque nos revemos neles. Isto é, revemos os momentos mais embaraços das nossas vidas: Quando deixámos cair o tabuleiro na cantina e toda a gente se riu e bateu palmas, quando não sabíamos a resposta que toda a gente sabia, quando nos comportámos da mesma maneira de sempre, acabando por descobrir que era muito “pouco fixe” e todos os miúdos fixes reviraram os olhos em desprezo.

Estas crianças somos nós no nosso estado mais fraco, mais vulnerável, mais envergonhado. E ninguém quer parecer ou sentir-se assim. De facto, o medo de passar vergonhas é talvez uma das razões pelas quais, em estudo após estudo, o medo de falar em público ultrapassa em muito o medo da morte nas prioridades dos inquiridos. “Aqueles a quem os deuses pretendem destruir, primeiro envergonham”. Estas crianças ferem-nos no nosso ponto mais fraco e preferimos não olhar para essa parte do nosso ser.

É precisamente por isso que elas são dos maiores dons de Deus para a humanidade. Recordemos Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte.” Assim é connosco também. Quando conseguimos olhar aquela parte de nós que é fraca, vulnerável e socialmente desajustada e dizer: “Sim, também isto é amado por Deus, também isto é santificado por Deus”, então estaremos finalmente no caminho da saúde e do desabrochar da nossa humanidade.

Eu temo uma cultura que queira erradicar as crianças com Síndrome de Down e os deficientes mentais, e todos os que não são fortes, activos e produtivos. Temo-a porque os promotores de uma tal cultura estão a tentar matar aquilo que é mais humano em nós. Cuidar e viver com crianças com Síndrome de Down humaniza-nos: ensina-nos a amar desinteressadamente, como Cristo nos amou. Ensina-nos a amar-nos a nós mesmos, mesmo aquelas parte de nós que preferíamos que os outros não vissem, que nós mesmos preferimos não ver.


Precisamos destas crianças entre nós. Precisamos delas mais do que precisamos do mais recente iPad ou “smart” phone. Daqui a cem anos ninguém vai querer saber da nossa tecnologia, como os meus alunos se estão a marimbar para a tecnologia francesa do século XVIII ou alemã do século XIX. O que vai mesmo fazer diferença é a forma como tratámos os mais fracos e vulneráveis de entre os nossos.

Se cumprirmos fielmente esse chamamento, então a nossa será uma cultura que merece ser recordada. Se valorizarmos a nossa capacidade tecnológica acima de tudo o resto, e tivermos tal sucesso nesse campo que não deixamos espaço nas nossas vidas para os mais desfavorecidos, seremos recordados da forma como recordamos a Alemanha dos anos 30: puseram os comboios a andar a horas – depois usaram-nos para transportar seis milhões de judeus e outros “indesejáveis” para os campos de concentração.

No fim de contas Deus é o nosso único verdadeiro espectador e comparado com ele, o Criador do Universo, temos a capacidade intelectual de uma minhoca. Mas Ele consegue amar-nos apesar disso. Nunca estamos mais próximos dele, do que quando abraçamos aquela parte de nós que podemos ver nas crianças com Síndrome de Down: Simples, cheio de alegria, vulnerável.

Estas crianças precisam da nossa ajuda, mas nós precisamos mais delas. Elas tornam-nos humanos. O maior presente que Deus dá àqueles que estão cheios de presunção é o dom da humildade. Como disse, e bem, o poeta T.S. Elliot: “A única sabedoria que podemos esperar alcançar é a humildade: a humildade é infinita.”

Hoje [dia 21 de Março] é o Dia Mundial de Síndrome de Down. Perca cinco minutos e veja o vídeo feito pela Coligação Internacional de Síndrome de Down pela Vida [abaixo]. Serão os melhores cinco minutos da sua semana.

Veja o vídeo e dê graças a Deus por estas crianças. Depois reze por uma cultura que é suficientemente humana para as acolher e não insensata ao ponto de as erradicar – juntamente com a sua própria alma – no seu esforço de alcançar a “força” física e a “pureza” genética perfeitas. Esse caminho não traz senão loucura.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 21 de Março 2012 em www.thecatholicthing.org)


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