sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

"Holocausto foi choque espiritual e psicológico para a Igreja"

Transcrição completa da curta entrevista que fiz ao padre Peter Stilwell, reitor da Universidade de São José, em Macau e especialista em diálogo inter-religioso e ecuménico, a propósito da visita do Papa Francisco à Sinagoga de Roma. A reportagem pode ser lida aqui.

O Papa Francisco visita no domingo a sinagoga de Roma. Que significância é que pode ter este gesto?
É o terceiro Papa a visitar a Sinagoga de Roma e é preciso lembrar que a Sinagoga de Roma é simbolicamente muito significativa, porque a grande carta de São Paulo aos Romanos, que foi logo nos primeiros anos do Cristianismo, foi escrita precisamente para a comunidade judaica em Roma, da qual fazia parte também um grupo de judeus que eram cristãos, que eram discípulos de Jesus Cristo. Essa comunidade, provavelmente foi visitada pelo próprio São Paulo e depois por São Pedro e infelizmente ao longo dos séculos sabemos que a relação entre a Igreja Católica e a comunidade judaica resfriou e tornou-se distante. A certa altura os Papas obrigaram os judeus a viver num gueto e é sobre as colinas desse gueto que se construiu a actual sinagoga de Roma. 

Portanto a visita que o Papa faz, na sequência dos seus antecessores, vem na linha de uma perspectiva aberta pelo Concílio Vaticano II de diálogo com a comunidade judaica, compreendendo a comunidade judaica como nossos irmãos na fé. Temos uma grande parte da Bíblia em comum, temos uma longa tradição em comum e infelizmente ao longo dos séculos houve momentos de tensão, de incompreensão, de falta de espírito, de compreensão, por parte, nomeadamente das comunidades maioritárias cristãs, que acabaram por desaguar naquilo que foi a violência da Segunda Guerra Mundial, a chamada Shoah [termo que os judeus usam para designar aquilo a que ficou conhecido como o holocausto].

É à luz dessa experiência que o Concílio faz a sua reflexão e que vários documentos emanados posteriormente pela Santa Sé chamam a nossa atenção para a necessidade de não mais repetir esses erros do passado em que não reconhecemos a nossa fraternidade na fé. 

Considera que foi o holocausto que determinou esta mudança de paradigma?
É muito claramente isso. Basta ler documentos saídos da Igreja um pouco antes da II Guerra Mundial e outros depois da II Guerra Mundial e nota-se a diferença de tom. 

A diferença de tom é resultado de um choque espiritual e psicológico que a Igreja viveu ao dar-se conta do vírus que tinha alimentado no seu seio, que evoluiu para o Nazismo, que não tem nada a ver com Cristianismo nem com a Igreja Católica, mas que nasce neste contexto de uma cultura ocidental em que a tradição de perseguir e mal-tratar os judeus e das comunidades judaicas, desde a literatura até ao quotidiano das cidades, era o habitual. Portanto isso muda radicalmente e nos anos 60 aqueles que são incumbidos de redigir os documentos do Vaticano II, o Cardeal Bea, nomeadamente, é incumbido dessa função por um Papa, João XXIII, que foi delegado apostólico na Turquia durante a II Guerra Mundial, onde ajudou os judeus que fugiam do Nazismo e que passavam por Constantinopla, ou Istambul, a caminho de Israel, portanto é o Papa que tem muito claro na sua consciência que esta tragédia terrível que foi a Segunda Guerra Mundial para a comunidade judaica, que o Cristianismo tem de dar uma volta, tem de perceber o que se passou em termos de desafio espiritual. 

Depois, o Papa João Paulo II é o primeiro que visita Auschwitz. É preciso lembrar que João Paulo II teve contacto com judeus na Polónia, de quem era amigo, e percebeu a violência da Segunda Guerra Mundial contra a população judaica quase em primeira mão, ou pelo menos muito de perto, e portanto faz questão, quando visita a Polónia, de ir para Auschwitz rezar pelas vítimas. Portanto João Paulo II é o primeiro que visita a Sinagoga de Roma, Bento XVI visita a sinagoga e, segundo consta, mantém ainda uma correspondência directa e pessoal com o rabino da Sinagoga, e agora temos o Papa Francisco que, na Argentina, tinha amigos na comunidade judaica e que protagonizou o diálogo com a comunidade judaica na Argentina, que vai retomar esta tradição de o Papa visitar a sinagoga. 

São duas grandes comunidades em termos da tradição espiritual, que se encontram na mesma cidade, e que é bom que se encontrem, como dizia o rabino há dias, numa entrevista, é bom que numa época em que tantas vezes a religião é usada para justificação para violências que são blasfemas, como diz o Papa Francisco, é bom que estas duas comunidades que tantas vezes tiveram dificuldades no passado dêem testemunho que é possível, apesar dessa história, apesar dessa memória, ser-se possível sentar à mesa e dialogar, e encontrarem-se como amigos.

Recentemente causou bastante discussão, e mesmo alguma polémica, um novo documento da Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus. Surgiram logo órgãos de comunicação social a dizer que a Igreja estava a dizer que não é preciso converter os judeus. É assim?
Conheço o documento e essa expressão, dita dessa forma ou de outra, é correcta.

A posição é que não se deve fazer proselitismo em relação aos judeus, e que deve haver diálogo, como é evidente, mas que deve haver respeito no sentido em que eles têm uma tradição que nós usamos quotidianamente na nossa liturgia para reflectir sobre a nossa tradição religiosa e temos muito que partilhar uns com os outros. 

Mas fazer uma evangelização dos judeus no sentido do proselitismo, de tentar transformar os judeus em cristãos, de uma forma de "pesca à linha", por assim dizer, é realmente uma posição que a Igreja não considera apropriada. [Sobre este assunto, ver aqui]

Para esta reportagem também foi entrevistada Esther Mucznik, da Comunidade Israelita de Lisboa.

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