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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Proteger o Reino

Pe. Paul Scalia
“Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo”. É significativo que nosso Senhor comece as suas parábolas sobre o Reino do Céu (Mt. 13,24-50) com uma referência ao inimigo. O Reino do Senhor não é estabelecido facilmente (aliás, requer o seu próprio sacrifício). Nem se defende com facilidade. O maligno anda sempre à espreita para semear joio no Reino. Por isso a parábola do joio no trigo tem ensinamentos não só sobre o Reino, mas sobre como o proteger.

Em primeiro lugar, o inimigo aproveita o facto de estarem todos a dormir. Devemos ouvir nessa referência uma alusão não ao sono confiante de uma criança, ou o pacífico sono dos justos, mas sim o adormecimento da negligência – a sonolência espiritual que aflige os apóstolos no jardim, Dante a meio da sua vida e o nosso mundo hoje.

A sonolência conduz à trapalhice. Um guarda sonolento deixa entrar aqueles que não deve – e que não deixaria caso estivesse acordado. Um pensador sonolento não faz distinções necessárias. A sua precisão sofre, deixando passar coisas que lhe teriam chamado a atenção caso estivesse mais desperto. Na parábola de Nosso Senhor, a sonolência dá ao inimigo a oportunidade que procura. Assim também na Igreja o torpor dá uma abertura ao inimigo. O nosso pensamento embrutecido, a incapacidade de fazer distinções e a falta de clarividência são uma porta aberta para o joio do inimigo.

A parábola apela, por isso, à vigilância, uma virtude que devia caracterizar a vida espiritual de todos os fiéis. Cada um de nós deve estar desperto e atento, primeiro para ver o Senhor, mas também para se proteger contra o maligno, não vá ele semear nos nossos corações e poluir aquilo que Deus plantou em nós.

Contudo, no que diz respeito à Igreja como um todo, a tarefa da vigilância cabe aos pastores. São eles que têm o dever de vigiar o rebanho e o campo, de serem as sentinelas mencionadas pelos profetas (ver Jeremias 6,17 e Ezequiel 3,17). Infelizmente, ao longo da história temos visto esta parábola a desenrolar-se no seio da Igreja: o mal ganha entrada devido à falta de vigilância. No seu tempo, o santo John Fisher lamentou que “a fortaleza é traída até por aqueles que a deviam defender”. Essas palavras aplicam-se, infelizmente, a muitos momentos na história da Igreja.

A parábola ensina-nos também sobre uma táctica essencial do maligno: a confusão. Este é o seu cartão-de-visita. O Senhor traz luz e claridade. O maligno traz escuridão e confusão. Ele divide aquilo devia estar unido e mistura aquilo que devia ser distinto. Na parábola, o inimigo mistura a semente boa com a má. A sabotagem tinha dois objectivos, ou os consumidores da colheita sofreriam pela mistura malévola, ou os criados prejudicariam o fruto bom ao tentar arrancar o mau.

O semeador e o demónio, Albin Egger-Linz
A mesma táctica malévola aplica-se hoje. A confusão foi semeada à nossa volta. Chamamos bom ao que é mau e mau ao que é bom. Até chamamos homem à mulher e mulher ao homem. Os consumidores desta confusão sofrerão, de facto, sofrerão a tristeza e a dor que deriva da confusão actual sobre casamento, sexualidade e a pessoa. Na melhor das hipóteses sofrerão apenas a tristeza de vidas desancoradas de qualquer sentido ou propósito.

E nós, os criados, tal como aqueles da parábola, somos tentados a extirpar o mal de forma demasiado agressiva – e ao fazê-lo arriscamo-nos a prejudicar precisamente aqueles que queremos ajudar. Parece aqueles filmes de acção manhosos em que o vilão mantém os bons como reféns. Não nos atrevemos a agir, por mendo de causar mais mal. Na verdade, podemos fazer muito mal quando tentamos livrar o Reino de qualquer semblante de mal, de todo e cada joio aparente. Na história da Igreja não há falta de heresias e seitas criadas por tal zelo imprudente.

Reparem que com esta tentação o demónio procura ferir não os medíocres nem os preguiçosos, mas sim os zelosos e fiéis – isto é, precisamente os criados mais preocupados com a pureza e a integridade da fé.

O que nos leva a outra virtude essencial para os criados do Senhor: paciência – a capacidade de sofrer enquanto esperam a intervenção do Senhor. Sem paciência apressamo-nos e, tipicamente, estragamos tudo. Os criados devem esperar pela colheita – o fim dos tempos – para ver as coisas a serem postas em ordem, como o Senhor promete que acontecerá. A paciência é diferente da inacção dos desatentos e dos despreocupados. Não é um encolher dos ombros ou resignação. É o poder (virtus) de esperar pela vindicação do Senhor.

Claro que a palavra “vindicação” parece cruel aos olhos do mundo, talvez até aos olhos de muitos católicos. Faz pensar em corações empedernidos, desejosos de vingança. Mas devemos esperar pela vindicação, caso contrário Nosso Senhor não a teria prometido. A esperança tem a certeza de que Nosso Senhor virá revelar a sua justiça e a paciência espera pacificamente que o dia chegue.

Mas é pela vindicação do Senhor que os criados esperam, não pela das suas opiniões, posições ou partidos. Através da paciência centramo-nos Nele, nas suas promessas e no seu poder. São estes os criados que o Senhor deseja, aqueles que tanto vigiam o seu Reino como esperam pacientemente a sua vinda.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Julho de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Um dos Doze

Pe. Paul Scalia 
Durante a Semana Santa lemos o Evangelho da Paixão, incluindo o momento em que Jesus foi traído. Todos os evangelistas apontam para o facto de que o homem que traiu Jesus era um dos seus amigos mais próximos. No início da vida pública de Jesus, quando chama os Apóstolos, Judas já é descrito como o que o virá a trair (Lc. 6,16; Mt. 10,4; Mc. 3,19). No Evangelho de João é o próprio Senhor quem observa: “Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo.” (Jo. 6,70)

Em certo sentido a frase muitas vezes repetida “um dos 12” relata um simples facto histórico. Jesus não foi apenas entregue por um dos seus inimigos, mas traído por um dos seus eleitos. Mas num sentido mais profundo serve também de aviso para todos os que seguem Cristo – mais até para os que lhe são mais próximos. Judas esteve com Jesus durante os mesmos três anos que os outros. Tal como eles ouviu os sermões, testemunhou os milagres e foi enviado por Cristo. Porém, traiu Nosso Senhor. Nunca devemos achar que estamos aquém da maldade de Judas. A proximidade a Jesus nem sempre significa intimidade com Ele.

Faz-nos bem, por isso, reflectir sobre o exemplo negativo de Judas. Não com o objectivo de o condenar novamente nem para nos sentirmos superiores. Pelo contrário, fazemo-lo com uma certa empatia, sabendo que lutamos contra as mesmas fraquezas humanas e que também nós somos capazes de um pecado grave – traição. Então o que é que encontramos no traidor que também possa estar em nós?

Em primeiro lugar, temos a falta de Judas em perseverar na sua conversão. Nosso Senhor escolheu-o com a mesma segurança com que escolheu Pedro e João. Não o fez contrariado nem por necessidade. Quando o Senhor se dirige a Judas como “amigo”, no Jardim das Oliveiras, não o diz por ironia ou sarcasmo. A dada altura a conversão de Judas parece ter falhado. Talvez tenha sido mera preguiça. Talvez um ensinamento que não foi capaz de aceitar. João dá a entender que foi o discurso sobre o Pão da Vida que levou ao afastamento de Judas – daí Jesus se ter referido a ele como “o diabo” no final do mesmo.

Ou talvez Judas se tenha sentido traído pelo Senhor. Poderá ter tido expectativas de um Messias que Jesus não satisfazia – expectativas de glória e de poder, difíceis de conciliar com as repetidas referências ao sofrimento, rejeição e morte do Filho do Homem. Durante três anos ele seguiu este rabino, mas a glória antecipada nunca chegou. Ficou impaciente com a conversa do Senhor sobre sofrimento. Romano Guardini observa, a este respeito, que: “O facto de ele não ter saído, mas ter permanecido como um dos doze, foi o começo da sua traição. Não sabemos porque ficou. Talvez esperasse ir avançando interiormente, ou quisesse saber pelo menos como é que as coisas iam passar-se – a não ser que já sonhasse lucrar com a situação.” (O Senhor).

O que nos leva ao ponto seguinte: A ganância de Judas. Quando Judas protestou com o facto de Maria ter ungido Jesus com um óleo caro, não o fez porque se preocupava com os pobres, mas “porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava”. A ganância é uma questão de sofreguidão. Tem menos a ver com posse do que com controlo – ter os meios ao nosso dispor para não termos de depender dos outros, nem mesmo de Deus. É “prático” no pior sentido da palavra. E Judas era um homem sobretudo prático. Na verdade, uma das teorias é de que ele previu a derrota do Senhor e estava a procurar posicionar-se politica e financeiramente para lucrar com a traição. Uma consideração muitíssimo prática.

Parece ainda haver uma superficialidade sobre Judas, uma tendência de ver apenas as coisas em termos naturais e mundanos (o que não é surpreendente para um homem prático). Na Última Ceia, o Senhor disse aos Seus Apóstolos, “Verdadeiramente, eu vos digo, um de vós me vai trair”. Eles perguntam, um após o outro, “serei eu, Senhor?”. Excepto Judas. Ele pergunta: “Serei eu, rabbi?” (Mt. 26,21-25). Os outros viam Jesus como Senhor. Judas via-o apenas como um rabbi, um professor.

Jesus é traído
Claro que um professor é importante. Mas não se adora um professor. As palavras de um professor podem ser poderosas, talvez até possam mudar a vida. Mas no final de contas não passa de um homem, limitado pela sabedoria do mundo e do tempo. As palavras de Jesus perdurarão. “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mt. 24,35). Judas não parece ter compreendido a profundidade das palavras Senhor nem de se ter confiado à sua autoridade. Talvez elas tenham sido interessantes e desafiantes para ele, mas careciam de autoridade. Quantas vezes não ouvimos dizer o mesmo sobre os seus ensinamentos nos nossos dias?

Finalmente, e tristemente, Judas não se arrepende. Sente remorsos por aquilo que fez, certamente. E isso em si não é coisa pouca. No emaranhado que era o seu coração, ainda sentia algum amor por Jesus. Mas reparem: Não é a Jesus que ele torna, mas aos sumos-sacerdotes, que com ele conspiraram. Diante deles é que ele reconhece o seu pecado. Judas não sente arrependimento, mas remorso. No arrependimento voltamo-nos para o bom Deus, para o Redentor, para aquele que é Misericórdia. À sua luz, rejeitamos o pecado. Com os remorsos olhamos para nós próprios, voltamo-nos cada vez mais para o nosso interior e fechamo-nos para a reconciliação e a cura que vêm apenas de Deus.

Durante a Semana Santa gostaríamos de ser mais como João, que permaneceu fielmente aos pés da Cruz, ou como Maria Madalena, que manteve uma triste vigília no Calvário. Mas isso seria presunção da nossa parte. Esta não é a hora de pensar nas nossas forças, mas nas nossas fraquezas. Não é tempo de olhar de soslaio para Judas, mas de compreender que caminhamos à sombra da mesma fraqueza humana que ele.

Como Judas, não perseveramos na nossa conversão. Satisfaz-nos a piedade em vez da santidade. Desviamo-nos quando o caminho se torna difícil e assim não aprofundamos a nossa devoção. Talvez até nos sintamos traídos pelo Senhor – se Ele não atendeu as nossas orações como queríamos, ou não correspondeu à imagem que tínhamos dele.

Como Judas, somos sôfregos – por dinheiro, posses, poder. Numa palavra, por controlo, para mantermos à distância a nossa dependência de Deus. Como ele, tendemos para a superficialidade, tornando a nossa fé um assunto meramente de sabedoria humana, intuições interessantes, conforto psicológico em vez de um encontro com a Palavra feita carne. Adoptamos uma visão mundana da religião em vez de tentarmos pensar como Cristo.

Logo, não nos confiamos às suas palavras como devíamos; A não ser que se tornem como crianças, não entrarão no Reino do Céu… Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, vive em mim, e eu nele… Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrarás; batei se ser-vos-á aberto… Assim como fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizestes.

E mais que tudo falhamos no aprofundamento do nosso arrependimento. Sentimos remorsos por nós mesmos, porque os nossos pecados nos deixam mal vistos. Por todos estes pecados e estas falhas, o Senhor concedeu-nos agora a oportunidade para o verdadeiro arrependimento: “É este o tempo favorável, é este o dia da salvação” (2 Cor 6,2)


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 9 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

“Aqueles a quem os retiverdes…”

James V. Schall S.J.
Ultimamente tem-se falado muito de perdão e de misericórdia. A misericórdia de Deus pode, como bem sabemos, perdoar qualquer pecado, excepto aquele contra o Espírito Santo (Mt. 12,32). Este tem mais a ver com o pecador do que com a capacidade de Deus de perdoar. Se alguém verdadeiramente “desejar” não ser perdoado, então não pode ser perdoado. Ou melhor, não pode beneficiar das consequências do perdão de Deus. Se pudesse ser perdoado mas ao mesmo tempo desejar o pecado, então seria ele mesmo um Deus, todavia um deus voluntarista, que transforma o bem no mal. Tal deus não é Deus. Só porque Deus tem o poder de perdoar todos os pecados, não segue que todos os pecados serão perdoados. Tudo depende do pecador.

A misericórdia é uma questão secundária. Não é necessária a não ser que algo corra mal no mundo. Cristo veio para os pecadores, não para os justos (Lc. 5,32). Num mundo impecável, ninguém precisa de misericórdia. Mas o nosso mundo não é impecável, por mais que neguemos, em privado ou em público, que certos pecados são pecados.

Antes de haver quem precisasse de ser perdoado, São Tomás de Aquino já tinha defendido que o Universo foi criado num acto de misericórdia, não de justiça. Deus não precisava de criar nada. A criação não aconteceu porque Deus “devia” algo a alguém por uma questão de justiça. Ao criar criaturas livres, Deus compreendia bem que estas poderiam precisar de misericórdia para além de justiça. Sabendo-o, prosseguiu com o seu plano.

A misericórdia não se “opõe” à justiça, como se diluísse a justiça de Deus e do homem. Não é preciso escolher entre misericórdia e justiça, podemos ter as duas coisas. A misericórdia só entra em acção quando a justiça é vingada.

No Evangelho de São João (20,23), os discípulos recebem o Espírito Santo. Depois é-lhes dito: “Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos.” Ouvimos falar muito da primeira parte dessa frase, mas pouco da segunda. “A quem os retiverdes”.

Do ponto de vista da lógica, há coisas que são evidentes. As coisas que não são pecado não precisam de ser perdoadas. A maior parte das coisas que fazemos não são “pecados”. Mesmo para quem nega que o pecado existe (e ao que parece existem tais pessoas), a lógica parece evidente. Algumas das coisas que fazemos, ou pensamos, são pecados; outras não. É-nos possível identificar tanto o que é pecado como se decidimos agir sobre ele. Se alguém pensa que escovar os dentes de manhã é pecado então não precisa de perdão, mas sim de informação, embora mesmo uma consciência desinformada seja vinculativa.

Como vemos, o poder de perdoar pecados está ligado à retenção dos pecados. Quais devem ser perdoados? Quais retidos? Um confessor não tem a liberdade de perdoar aquilo que deve ser retido. Por outras palavras, quais são os princípios que guiam a retenção dos pecados?

Parece-me que os Evangelhos não deixam espaço para dúvida de que alguns pecados devem ser “retidos”. Com o devido respeito para com as teorias que defendem que o inferno está vazio e que todos são salvos, parece-me que, caso sejam verdade, então ninguém precisa de se preocupar com os pecados, pois serão perdoados em todo o caso. Mas isto não é possível. Se não houver qualquer acto da nossa parte que indique que sabemos o que é um pecado e que o cometemos, então não podemos estar no ramo do perdão.

O perdão exige algo que se possa perdoar e alguma indicação de que queremos ser perdoados. Reconhecemos que com o nosso pecado destruímos a ordem da bondade. No que me diz respeito, não quero nada com um Deus que se limita a “perdoar” sem fazer perguntas, sem qualquer exigência.

Que pecados são “retidos”? Só aqueles que não apresentamos, juntamente com a nossa participação na sua realização, para serem julgados. O acto de “retenção” cabe ao mesmo a quem é dado o poder de perdoar. Os fundamentos podem ser vários – negar que os pecados são pecados, negar que sabíamos o que estávamos a fazer, negar que existe o poder de perdoar ou reter os pecados.

A “retenção” é um acto tão solene quanto o perdão, talvez até mais. Se aqueles que são responsáveis pelo perdão e pela retenção esconderem ou obliterarem a diferença entre os dois, para que tudo seja perdoado, independentemente das circunstâncias, então a própria delegação de Jesus esvazia-se de sentido. A retenção dos pecados significa que não são perdoados.

Paradoxalmente, essa retenção é um acto de misericórdia. É a misericórdia da verdade que vai ao encontro do pecador. Fica a saber que não está de bem com Deus e consigo mesmo. Só sabendo a verdade sobre si mesmo é que se apercebe que precisa de reconhecer e arrepender-se.

Chamar o pecado pelo nome é simultaneamente um acto de coragem, justiça e misericórdia.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 5 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Sobre “Penitências Severas”

James V. Schall S.J.
O autor australiano Frank Sheed, fundador, juntamente com a sua mulher Maisie Ward, da famosa editora católica Sheed & Ward, adorava falar das suas experiências com a Catholic Truth Society (CTS). Ele e os amigos apresentavam e debatiam questões de fé com quem quisesse aparecer na esquina de Hyde Park, ou outros lugares famosos de debate e discussão em Londres. Tratava-se de um jogo de verdade e de perspicácia. Recentemente encontrei um ensaio de Sheed chamado “The Church and I”, no qual ele recorda estas experiências de controvérsia na via pública (Catholic Digest, Janeiro 1975).

Certo dia um dos seus colegas foi insultado e desafiado por uma mulher barulhenta e bastante pouco atraente. Era conhecida pelos seus pontos de vista sobre a Igreja, tudo menos positivos. O homem da CTS falava sobre confissão quando a senhora o interrompeu, em tom jocoso: “Oh, eu conheço-vos, católicos. Os vossos rapazes vão se confessar à Igreja que fica em frente à minha casa. A seguir vêm ter comigo para fazer amor”. Era preciso lidar com esta mulher de forma cuidadosa.

O homem da CTS esperou para que a gravidade da acusação tivesse o seu devido efeito. Depois respondeu, solenemente: “Minha senhora, não fazia ideia que os padres estavam a dar penitências tão severas hoje em dia”. Há que louvar o recurso à destreza e ao humor na teologia!

É preciso conhecer bem a prática e o ensinamento católico para apreciar o humor nesta resposta. Muitas pessoas não acreditam no pecado e disputam se, na prática, existe tal realidade. No entanto não deixam de acusar os católicos de hipocrisia porque alguns deles confessam os seus pecados, cumprem as penitências e depois, apesar das admoestações, voltam a cometê-los.

O próprio Cristo foi questionado sobre a quantidade de vezes que se deve perdoar ao pecador. “Até setenta vezes sete”, disse, em Mateus 18,22. O Senhor parece ter ficado menos surpreendido com a existência de pecadores insistentes do que nós. Ele percebeu, como Aristóteles, a dificuldade que temos em ultrapassar os nossos vícios.

Cristo disse várias vezes que os rectos não precisam de arrependimento. Ele veio salvar os pecadores, cuja existência parecia ser uma evidência. A salvação dos pecadores pressupõe logicamente: a) a existência do pecado (ou, melhor, que não fomos capazes de fazer o bem quando o podíamos ter feito); e b) a existência de algum meio pelo qual esses pecados podem ser reconhecidos e perdoados, nomeadamente uma “penitência”, seguida de reconhecimento de culpa pelo sucedido por parte do pecador. Mais, o pecado não é apenas uma rejeição humana e desordenada de um padrão objectivo do bem, carrega consigo a noção de que todos os pecados são pessoais e que tocam na verdadeira essência do pecador. Esta realidade explica porque razão nem os homens nem os anjos podem “perdoar” os pecados, mas apenas Deus.

A desordem do pecado é algo que atinge até a divindade. Jesus escandalizou os escribas e os fariseus ao afirmar que tinha o poder de perdoar os pecados. Eles bem sabiam que ele estava a reclamar para si um poder divino, que ele provou possuir implicitamente através dos milagres que fazia nestas ocasiões.


Na verdade, as “penitências severas” serviam para mostrar que o penitente estava consciente da desordem causada pelos seus pecados. Era tudo o que se podia fazer para restaurar os danos causados à ordem moral. Platão já tinha dito, e com razão, que por essa mesma razão devíamos desejar o castigo.

A ausência de penitência, severa ou outra, implica, no meu entender, um mundo em que nada do que fazemos importa realmente. Isto é precisamente o contrário do mundo que Deus criou. Neste mundo a sabedoria e o pecado podem existir lado a lado. Porque quando a Palavra foi feita carne o pecado deixou de ter a última palavra.

Será por isso que lemos nos Evangelhos que há mais alegria no Céu por um penitente do que por 99 justos que não precisam de “arrependimento?” (Lucas, 15,7)


Nota: Por decisão minha, retirei os primeiros dois parágrafos deste artigo, pois para além de complexos não encontrei neles grande ligação ao resto do texto. Contudo, para que não falte nada aos nossos leitores, aqui ficam os dois parágrafos completos.

Filipe d’Avillez

Na audiência geral de 17 de Outubro de 2012 o Papa Bento XVI disse que muitos problemas são causados pela compreensão incorrecta ou incompleta de palavras precisas e sentidos de doutrina, em particular do Credo. Pensamos que, desde que haja boas intenções, não precisamos de ser demasiado precisos sobre o que ensinamos. Não é verdade que devemos a nossa obediência a uma “Pessoa” e não a verdades abstractas? É verdade, desde que percebamos que a verdade consiste numa pessoa afirmar, cuidadosamente, aquilo que é verdade e a negar aquilo que não é.

A precisão do discurso e da definição estão na base da nossa liberdade na lei. Cristo, como explicou Peter Kreeft no seu livro “Philosophy of Jesus”, apresentou-se como um orador e pensador preciso. O termo “a Palavra fez-se carne” carrega consigo uma longa história de pensamentos confusos, que tiveram como efeito prático muitas coisas indesejáveis no nosso tempo. Dizer “Cristo, enquanto pessoa, é a Verdade”, não nos livra de ter de falar em termos precisos sobre quem e o que é que Ele é. Nem todas as palavras têm o mesmo sentido.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 25 de Junho 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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