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Monday, 23 September 2019

Abanar o capacete no Santuário

Ontem, em Fátima, houve um encontro de 130 mil motociclistas que receberam uma bênção especial do Papa Francisco.

Por falar em freiras heroicas, apresento ainda a irmã Júlia Bacelar, que trabalha no campo do tráfico humano e “vai aos sítios onde ninguém quer ir”.

Conheça o padre italiano que cobra o estacionamento no parque da Igreja… Em orações.

Publico hoje no blog um texto muito bonito, que me foi enviado por um leitor anónimo, que vos convido a ler. É uma reflexão de quem passou por dificuldades matrimoniais mas foi ajudado a tempo de evitar cometer um grande erro. Leiam e partilhem, porque pode ajudar outros a tomar a decisão certa.

A propósito, para os interessados, sobretudo quem está ligado ao direito canónico, decorre em Roma um Curso de formação sobre o matrimónio, no Tribunal Apostólico da Rota Romana, entre os dias 26 e 30 de novembro. Mais informações aqui.

A dois

O texto que publico de seguida foi-me enviado por um leitor anónimo, na esperança de que pudesse servir de ajuda e inspiração a quem esteja a passar por dificuldades matrimoniais. 

Deu-me total liberdade para o publicar, ou não, e optei por fazê-lo devido não só à beleza da escrita, mas também à utilidade do assunto. O estado actual do casamento e da família em Portugal - e não só - é de guerra civil. Os feridos e estropeados deste conflito estão por toda a parte. São nossos irmãos, primos, amigos. 

O Papa Francisco pede-nos para sermos hospital de campanha neste mundo. Este texto é uma receita médica. Peço-vos que o leiam com atenção, porque a escrita, sendo bonita, não é óbvia. Partilhem-na com quem pensem que possa precisar, ou apenas nas vossas redes sociais. Pode ser que chegue aos olhos certos, a tempo. 



A montanha, alta, ultrapassa com o seu pico a camada de nuvens que cobre o dia, tornando-o cinzento. O céu azul, que vem depois, é o de um dia que é perfeito porque supera esse cinzento. E porque o superou, não voltará mais à sua sombra.

Para eles, esse azul é meta agora invisível, mas tão real como a montanha que têm vindo a subir, a dois.

Já tinham caminhado o suficiente para se sentirem cansados. O estado de cada um, naquele ponto sinuoso do caminho, montanha acima, era fruto da caminhada dos dois.
A dois. Sem o outro, não era ali que estaria cada um.

Estar agora parada no caminho que era de ambos, era tão estranho como inevitável. Estranho, porque ele não estava ali. Inevitável, por isso mesmo. Como todos os desvios que cada um tinha já visto, também aquele invertia o sentido do cansaço que subia com a montanha. A que vinham a percorrer. A dois.

A voz dele estava já distante, quando o ouviu decidir pela dúvida desse outro caminho. O tal que aliviava a subida para a meta de ambos, descendo fácil e agradável até onde ele não sabia. Não o viu afastar-se... Há quanto tempo teriam largado as mãos? Para ele, o alívio do imediato parecia agora mais forte que o seu desejo de verdade. Turvava esse desejo.

Em nenhum dos caminhos se vê o todo do percurso que está à frente. No deles, ela espera-o, permitindo no seu coração a dor de vê-lo não estar e a paz da certeza da meta dos dois. No dele, coexistem o alívio do que já sabe ser um erro e a resistência à verdade que, no fundo, conhece. A verdade do caminho que percorriam. A dois.

- Tens água na mochila!, ouviu ela.

Foi de imediato ao seu cantil e bebeu, fitando, calada e grata, o pastor que acabava de falar-lhe. Esqueceu-se de estranhar que soubesse do cantil, que continuava cheio e com uma água tão fresca como no início. Estranhou sim, que também ele seguisse por aquele desvio, deixando para trás, sem hesitar, as suas ovelhas. Parada, apercebeu-se de que havia outros desvios. E deixou-se estar.

- Não vou beber a água de um estranho, pensou ele desviando o olhar de quem não podia ser um pastor, por faltar o rebanho. Ignorou o copo que lhe estendia e engoliu a sede que sentia.

- Onde vais?

Não sabia. Mas descia.

Entregando-se só a si, olhos postos nos seus pés, não se apercebeu do próprio desejo de que o estranho ainda ali estivesse.


O seu desvio desce agora mais íngreme; hesita confuso, perante as pedras que se vão soltando. Tropeça sem cair. Uma vez, e outra, e outra. A saudade da verdade aumenta com a distância do caminho que vinham percorrendo. A dois.

No longo instante que durou a queda, estendeu os braços, implorando com o coração aquela ajuda. A do pastor que estaria (?) ainda ali.

- Se calhar já tem pouca água...

- Podes beber. Tens sede e há muita água nesta fonte.

- Onde ia, pastor?

- Vinha pedir-te um favor. Explico-te lá em cima, se quiseres voltar. Leva esta mochila, tem mais água.

Vendo-o iniciar o regresso, ele parou. Rodou a cabeça, e olhou novamente para o desvio que antes o levava não sabia para onde. Repôs os seus olhos no pastor.

- Estou a ir!

- Estou a ir! – Ouviu-o à distância, sem o ver. Ela alegrou-se em silêncio, sabendo que o caminho de regresso que ele tinha decidido, era necessário para que se reencontrassem. Como necessário era o tempo que levaria.

Esperou.

De mão estendida, pedindo-lhe, calado, a dela, completou o regresso à verdade que nunca deixara de desejar, reconhecendo-a. Com o caminho, que reviam agora juntos, viam também, entre as velhas nuvens, algum do azul do céu. Que sempre estivera lá.

- Afinal o que querias de mim, pastor?

- Que me ajudasses a encontrar uma das minhas ovelhas.

Com ele, recomeçaram a caminhar montanha acima.

A dois.

Friday, 24 February 2017

Sinai(s) de perigo e os mercadores do Santuário

Ui... Em Fátima seria um festival!
Ontem o Papa Francisco criticou as pessoas que dizem que são católicas mas depois agem de forma desonesta no trabalho, ou metem o lucro acima da ética. Hoje soubemos que em Fátima alugam-se espaços para dormir em saco de cama por mil euros por noite. Dizias, Francisco?

O pastor adventista que ontem foi detido por abusos sexuais afinal foi destituído do seu cargo antes de terem começado a circular os boatos sobre esses mesmos abusos. Uma fonte próxima da igreja deu hoje mais alguns detalhes sobre esta triste história.

O Papa Francisco voltou hoje a falar sobre a questão do casamento e do divórcio, enfatizando que justiça e misericórdia são sinónimos aos olhos de Deus.

Do Egipto chega a notícia dramática de uma vaga de assassinatos de cristãos na difícil região do Sinai. Já morreram sete, a comunidade está a fugir.

Wednesday, 4 May 2016

O Foro Interno e os Católicos Recasados

Howard Kainz
É evidente que pelo menos alguns bispos europeus, e talvez vários americanos, consideram que o uso do “foro interno” para “reconciliar” católicos recasados é uma prática aceite. Porquê a polémica então? Estaremos a lidar com um fait accompli? Um pouco de história pode ajudar.

A distinção entre os “foros externos” (por exemplo os tribunais eclesiásticos) e o “foro interno” (i.e. o confessionário enquanto tribunal da consciência) tem sido alvo de discussões há séculos no âmbito do Direito Canónico e da teologia. Mas ao longo dos últimos 47 anos surgiram várias vicissitudes de interpretação que conduziram aos actuais desentendimentos sobre o chamado “recasamento católico”.

Esta cronologia pode ajudar a mostrar como chegámos ao actual cenário:

1969: O padre Joseph Ratzinger publica um artigo num jornal teológico em que discute a possibilidade de que “na comunidade da Igreja Primitiva, como aparece representada em Mateus 5 e Mateus 19, havia a prática de divórcio e recasamento depois de um caso de adultério”.

1972: No artigo “Sobre a Questão da Indissolubilidade do Casamento”, Ratzinger contradiz a sua afirmação anterior uma vez que “à luz da completa unanimidade da tradição ao longo dos primeiros quatro séculos em sentido contrário, esta posição é inteiramente improvável”. Mas mantem que em certos casos existe a possibilidade “não judicial, com base no testemunho do pastor e de membros da Igreja, de admitir à Comunhão aqueles que vivem num segundo casamento”. Cita como justificação para isso a falibilidade dos processos de nulidade e as eventuais novas obrigações morais decorrentes de um segundo casamento.

1973: O Cardeal croata Franjo Šeper cita “a prática aprovada do foro interno” de permitir aos católicos num segundo casamento inválido que regressem aos sacramentos após o arrependimento.

1975: O Arcebispo Jean Jérôme Hamer, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) estipula que o foro interno pode permitir aos católicos divorciados recasados receber os sacramentos caso “tentem viver de acordo com as exigências dos princípios morais cristãos”.

1981: Essa estipulação, contudo, embora formalmente aprovada pelo CDF, foi restringida pela Exortação Apostólica de João Paulo II, “Familiaris Consortio”: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio.”

1991: Numa carta publicada no jornal católico inglês “The Tablet”, o Cardeal Ratzinger clarifica a referência do Cardeal Šeper, de 1973, à “prática aprovada”, sublinhando que este uso do foro interno implicaria um “compromisso a abster-se de relações sexuais”.

2005: O Sínodo sobre a Eucaristia reafirma a decisão de João Paulo II da “Familiaris Consortio”, de 1981.

2007: O Papa Bento XVI, na exortação apostólica “Sacramentum Caritatis”, reitera a decisão do Sínodo de 2005.

2015: O Cardeal Christoph Schönborn, no seu livro “A Vocação e Missão da Família: Documentos Essenciais do Sínodo dos Bispos” dá um exemplo do uso correcto do foro interno: “Se uma mulher, por exemplo, teve um casamento falhado e um aborto, mas mais tarde ‘recasou’ civilmente e agora tem cinco filhos e deseja receber absolvição pelo seu anterior aborto… vocês [padres] não a podem deixar partir sem a libertar do fardo do seu pecado.”

2016: O Papa Francisco escolhe o Cardeal Schönborn para apresentar a exortação apostólica “Amoris Laetitia”, que aconselha os padres a acompanhar aqueles que se encontram em “situações conjugais irregulares” a evitar transformar o confessionário numa “câmara de torturas” ou a Eucaristia como um “prémio para os perfeitos”.

É natural que alguns se questionem, por isso, se não estamos perante uma regeneração da tese de Schönborn.

À luz do Direito Canónico ainda existem usos legítimos para o foro interno na absolvição de católicos divorciados recasados. Se o “foro externo” dos tribunais eclesiásticos não puder ser usado por falta de testemunhas, provas ou simplesmente por indisponibilidade, então o foro interno seria o lugar de último recurso. Também, em casos de morte iminente, um penitente pode receber o sacramento da unção dos doentes e a absolvição.

Mais importante que qualquer foro interno... 
Mas aquilo que me preocupa no que diz respeito ao cuidado pastoral de católicos recasados são as vítimas de anteriores casamentos. Nos casos que eu conheço o “recasamento” envolveu o abandono de donas de casa com muitos filhos. Como é que é suposto elas lidarem com o assunto? Como é que os filhos lidam com o facto de o pai os abandonar?

As “viúvas e os órfãos” criados pela prática actual de divórcio sem culpabilidade e as dificuldades de mulheres católicas que ainda se sentem sacramentalmente ligadas ao homem que as abandona são um problema dos nossos dias. Devem sair à procura de um novo marido? Acrescentar mais um nome à lista de “divorciados recasados”?

A Bai Macfarlane dirige uma organização chamada Mary’s Advocates que se dedica “a fortalecer o casamento, eliminar os divórcios forçados sem culpabilidade e apoiar aqueles que foram injustamente abandonados pelos seus esposos”. Um dos seus actuais projectos passa por apresentar petições online para entregar a bispos, pedindo-lhes que intervenham para evitar rupturas e ajudar o potencial abandonador a “recordar as suas promessas matrimoniais e a sua vontade inicial profunda de ser um esposo dedicado”

De certeza que este tipo de acção preventiva é tão importante e legítimo como o recurso ao “foro interno”. Neste Jubileu da Misericórdia seria bom reconhecer que não só os bispos, mas a Igreja como um todo, deve apoiar social, financeira e espiritualmente os esposos injustamente abandonados.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 27 de Abril de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 8 July 2015

Namoro na era da Pílula

George Sim Johnston 
Fala-se muito, hoje em dia, da crise do casamento. Os níveis de divórcio são altos e demasiadas crianças vivem em famílias monoparentais e frequentemente as pessoas acabam por se sentir isoladas e sós quando chegam à meia-idade. Mas fala-se pouco de namoro. Como é que se chega a um casamento? Como é que uma pessoa de 25 anos devia lidar com toda a cena do namoro?

Segundo o filósofo Leon R. Kass, a razão pela qual se fala tão pouco de namoro é porque “os próprios termos: ‘cortejar’ e ‘pretendente’ são arcaicos e se hoje as palavras mal se usam é porque o fenómeno praticamente desapareceu. Actualmente não existem normas de conduta socialmente definidas para ajudar os jovens a orientarem-se para o casamento. Para a grande maioria o caminho para o altar é território desconhecido: É cada casal por si, sem bússola, frequentemente sem um objectivo”.

Esta ausência virtual de guiões para o namoro não tem precedentes. Até há pouco tempo, a sociedade possuía normas claras para governar a “dança” entre um homem e uma mulher antes do casamento. Há razões pelas quais isso já não acontece, salvo raras excepções.

Em primeiro lugar, vivemos naquilo a que Barbara Dafoe Whitehead chama uma cultura de divórcio. Muitos jovens adultos têm os pais divorciados e por isso falta-lhes não só bons conselhos como um modelo convincente para o matrimónio. O fim doloroso dos casamentos dos seus pais deixa-os reticentes quanto à ideia de compromisso.

Em segundo lugar, tem havido uma grande mudança de prioridades em relação ao trabalho e à família. Hoje as pessoas querem ter independência financeira antes de pensar sequer em casar, enquanto os seus pais (e certamente os seus avós) costumavam casar antes de terem uma situação financeira clara. Há cinquenta anos esperava-se que os jovens casais subsistissem com pouco nos primeiros anos do casamento e isto tendia a fortalecer a relação.

“Se esperar até aos trintas”, escreve Charles Murray, “é provável que o seu casamento seja uma fusão. Se casar antes é natural que seja um start-up… Quais são as vantagens de um casamento start-up? Em primeiro lugar, ambos terão memória das suas vidas em conjunto quando tudo estava ainda por definir (…) e cada um saberá que sem o outro não seria a pessoa que é hoje”.

Em terceiro lugar, muitos solteiros tendem a viver o que Kay Hymowitz apelida de uma “adolescência pós-moderna”. Este estado de suspensão emocional tem sido retratado em séries como Seinfeld. Homens novos (e algumas mulheres) que não vêem qualquer razão convincente para se tornar adultos; podem nem saber bem o que a palavra significa.

Para os homens este atraso em aceitar as responsabilidades da vida adulta explica-se em parte pela disponibilidade de sexo sem compromissos. “Se a cultura oferece acesso sexual sem exigir compromisso pessoal em troca”, escreve James Q. Wilson, “muitos homens optarão sempre pelo sexo”.

O sexo, em tempos reservado para o casamento, é agora visto como parte essencial do namoro. Isto não clarifica o pensamento nem enriquece as emoções. O sexo casual criou um clima de cinismo entre os jovens, que entraram no hábito de tratar os membros do sexo oposto como um meio para atingir um fim. A transformação do sexo numa actividade casual faz mirrar o sentido do namoro e, portanto, do próprio casamento.

Estado de suspensão emocional
A modernidade dá muita importância à ideia de liberdade, mas diz pouco sobre como usar essa liberdade. Um caso concreto é a revolução sexual, que tem tido um impacto devastador sobre o namoro e o casamento. De forma geral é difícil, passados estes anos todos, afirmar que a revolução sexual tornou as pessoas mais felizes. Talvez seja mais fácil comprovar o contrário. Considere-se, por exemplo, o número de nascimentos fora do casamento, que agora já ultrapassa os 40% na América e no Reino Unido, ou a epidemia de doenças sexualmente transmissíveis.

A revolução sexual foi iniciada pela introdução da pílula contraceptiva para mulheres. A pílula era suposto “libertar” as mulheres, mas teve uma série de efeitos imprevistos – pelo menos pelos que a promoviam mais vigorosamente.

A pílula concedeu aos homens uma autorização em branco para ter sexo sem responsabilidades, tornou-se algo que podiam exigir sem se preocuparem com as consequências. Tornou-se fácil aos homens tratar as mulheres como objectos de prazer (e algumas mulheres adoptaram a mesma atitude). Esta transformação de prazer físico em comodidade esvaziou o acto sexual do seu sentido nupcial. Fez com que os homens e as mulheres passassem a olhar uns para os outros de formas que têm pouco a ver com a aliança de permanente doação própria que é o casamento.

A pílula também ajudou a criar uma cultura de engate que – como até escritoras feministas de tendência liberacionista como Donna Freitas admitem – tem causado muita dor e frustração, sobretudo entre mulheres. Não é difícil ver que a promiscuidade sexual tanto nos campus universitários como mais tarde tem resultado em muitos homens e mulheres a entrar para o casamento com uma atitude consumista em relação ao sexo.

A pílula também ajudou a criar uma cultura de coabitação antes do casamento. Em 1960, o ano em que a pílula foi introduzida, quase ninguém coabitava antes de casar. Agora 60% já o faz. E acontece que a coabitação não é uma boa rampa de acesso ao casamento. Para começar, ensina aos casais uma noção de compromisso “light”. Apelidos diferentes e contas bancárias separadas, a certeza de que se podem separar “a qualquer instante”. Muitos casais descobrem apenas tarde de mais que a coabitação e o casamento não são de todo a mesma coisa.

A transformação da instituição do casamento terá de passar pela restauração do namoro, embora de uma forma diferente do que era há 60 anos. Recentemente uma aluna de 23 anos contou-me que o que se faz actualmente é juntar-se a um tipo que pode ou não vir a ser seu marido e nem pensar em casar até perto dos trinta. A sua geração precisa de ouvir as razões pelas quais isto é uma fórmula para a infelicidade aos cinquenta anos.


George Sim Johnston é autor de “Did Darwin Get It Right? Catholics and the Theory of Evolution” (Our Sunday Visitor).

(Publicado pela primeira vez no sábado, 4 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 24 June 2015

Bruce Jenner, Casamento e Verdadeira Caridade

Hilary Towers
É muito tentador para os católicos sentir que não temos nada a ver com a história que envolve Bruce Jenner [ex-atleta olímpico americano que recentemente foi sujeito a uma operação de mudança de sexo]. Que um homem abandone voluntariamente a sua vocação de marido e pai de uma forma tão dramática, permanente e física, parece quase inconcebível. Gostaríamos que o Bruce conhecesse o sentido e a Fonte da sua existência. Gostaríamos que ele compreendesse, como nós compreendemos, que a felicidade autêntica não vem de alimentar a besta narcisista que habita em cada um de nós, mas da busca pela virtude; de carregar as nossas cruzes físicas e emocionais para o bem dos outros, sobretudo das nossas famílias.

Mas talvez o caso do Bruce Jenner não tenha só a ver com género, mas represente um falhanço multifacetado de compromisso e coragem: o seu compromisso para com a mulher e filhos (e deles para com ele), o compromisso da sua família alargada e dos amigos para com a sua verdadeira felicidade e bem-estar, o compromisso da nossa cultura no encorajamento e no apoio à sua vocação e a coragem de todas as partes para dar seguimento a esses compromissos.

Nestes meses entre os sínodos faríamos bem em examinar as nossas consciências: Como é que mostramos verdadeira compaixão para com aqueles que revelam dificuldades em cumprir as promessas que fizeram? O nosso entendimento católico do sentido da vida, da caridade e da felicidade é um dom, mas tem sentido apenas na medida em que é acompanhado de acção. Quando nós, que somos abençoados com o conhecimento da verdade plena, deixamos de aplicar os nossos conhecimentos teológicos aos desafios práticos de viver uma vida virtuosa, seguem-se a confusão moral e o sofrimento.

Este desnexo entre os ensinamentos morais da Igreja e a vida do dia-a-dia é sobretudo claro em relação ao casamento. De facto, desde o sínodo de 2014 que tem havido uma discussão sobre a natureza da caridade e a sua relação com uma visão autêntica da felicidade, em particular no contexto da sexualidade e dos votos matrimoniais.

A discussão parece centrar-se em dois dos principais atributos da vida de casado: Permanência e fidelidade. É impressionante como foi curta a estrada entre a aceitação social do divórcio unilateral (tanto por católicos como por não-católicos) à normalização de tantos desvios daquilo que São João Paulo descreveu como a “norma personalística”. As pessoas não devem ser um meio para alcançar um fim, são criadas para serem amadas.

As consequências desta inconsistência em relação ao casamento para as famílias católicas são claras. Há um exemplo actual perto de mim, uma tragédia que abala minha comunidade suburbana e, em grande medida, católica. Gostava de poder dizer que é uma situação fora do comum, mas a verdade é que, por causa do meu trabalho – que envolve escrever e falar sobre o compromisso das comunidades e dos esposos para com o casamento – conheço várias situações com traços comuns a esta.

Neste caso um marido católico, altamente respeitado, casado há 24 anos e pai de cinco crianças, abandonou a sua mulher por outra, mãe de dois filhos, que por sua vez abandonou o seu marido. O que este homem deixou para trás foi uma família dilacerada pela confusão, o desespero, a descrença, revolta e medo. Alguns dos filhos mais novos agarraram-se à mãe. Outros, mais velhos, abandonaram a fé e com isso mostram as repercussões do exemplo do seu pai nessa fase das suas vidas.

Como se a traição e o divórcio unilateral não fossem suficientes (podia-se escrever um livro sobre a vertente legal deste pesadelo: A justiça para as famílias nos “tribunais de família” é um mito), este homem engravidou a sua nova parceira e agora vive numa casa com ela e com o filho a pouca distância do lar que construiu com a sua mulher, com quem na verdade ainda é casado.

Bruce Jenner, antes e depois
Ele e a parceira abriram um novo negócio na cidade. Com o apoio de muitos membros, embora não todos, da comunidade católica (incluindo a escola católica local), prevê-se que venham a ter muito sucesso.

Mas sucesso para quem – e a que custo? Quais são os amigos e familiares deste homem que demonstraram a verdadeira caridade de um confronto compassivo – não só uma vez, mas várias, sem cedências? Que homem de integridade e força se comprometeu totalmente com este marido e pai católico durante esta transformação (não tão diferente da de Jenner), fornecendo-lhe o apoio e a pressão positiva necessárias para restaurar o seu casamento e a sua família?

De igual modo, haverá alguma amiga de verdade que continue a desafiar a parceira para regressar aos ensinamentos sobre o casamento da fé que diz professar? Na sua situação actual isso implicaria, como primeiro passo, viver em castidade e procurar o perdão pelo mal que já causou.

A verdadeira compaixão, no sentido de evitar, ou tentar inverter, o comportamento destrutivo nunca é fácil, mas se exercida com paciência e fortaleza pode causar um impacto profundo e positivo na vida daqueles que amamos. A nossa decisão de intervir ou de desviar o olhar baseia-se, no fundo, na nossa definição de amor autêntico. A caridade consiste em mantermos o silêncio em nome de uma falsa paz – uma táctica falhada das últimas cinco décadas que causou danos mensuráveis para incontáveis esposos, filhos e comunidades católicos? Ou consiste na disposição de darmos a nossa vida pelos nossos amigos?

Há ainda outra virtude fundamental da nossa fé católica em jogo nesta discussão: Esperança. Como Jenner, de certo modo parece que o homem que abandonou o seu casamento já passou para o outro lado – decisões fatídicas foram já tomadas, o mal está feito.

Mas os católicos são pessoas de esperança. Acreditamos na promessa do arrependimento, restauração e reconciliação (que estas sejam as palavras chave do sínodo de 2015). Nunca é tarde de mais para que o Bruce Jenner se converta – O Bruce que Deus criou e ama permanece, independentemente do quão escondido e quebrado possa estar.

E nunca é tarde de mais para que todos aqueles que abandonaram um casamento procurem o perdão, emendem as suas vidas e comecem de novo, pois Ele renova todas as coisas.


A Drª Hillary Towers é psicóloga de desenvolvimento e mãe de cinco filhos. O seu trabalho em genética comportamental aparece em vários livros e revistas académicas. Escreve para muitas publicações de grande tiragem e escreve frequentemente sobre questões de casamento e abandono esponsal, sobretudo em relação à forma como esses assuntos são tratados no interior da Igreja Católica.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 20 de Junho de 2015 no The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 20 May 2015

Menos Propaganda e Mais Ciência para os Bispos

Rick Fitzgibbons
Declarações feitas recentemente pelas conferências episcopais da Alemanha e da Suíça, em antecipação do Sínodo da Família, mostram-nos a ceder na questão das uniões homossexuais. Os alemães emitiram um comunicado para o sínodo em falam de alegadas descobertas: “nas ciências humanas (medicina e psicologia), nomeadamente que a orientação sexual é uma disposição que não é escolhida pelo indivíduo e que não é alterável. Por isso, a referência no questionário [para o sínodo] a ‘tendências homossexuais’ é confusa e consideramos que é discriminatória”.

Nas palavras do altamente respeitado vaticanista Sandro Magister: “Os bispos alemães não só aprovam que se dê absolvição e comunhão aos divorciados e recasados, como também manifestam a esperança de que os segundos casamentos civis possam ser abençoados na igreja, que a comunhão eucarística possa ser dada a esposos que não são católicos e que seja reconhecida a bondade dos relacionamentos e das uniões homossexuais.”

Os bispos explicam ainda que estas uniões deixarão de ser, salvo em casos extremos, incompatíveis com um emprego ao serviço da Igreja na Alemanha. Não é difícil detectar aqui as pressões exercidas sobre a Igreja em todo o lado, de forma mais ou menos subtil, para alinhar com a nova ética sexual.

Contudo, as afirmações dos bispos alemães não reflectem fielmente os dados médicos e psicológicos sobre as origens da atracção homossexual. Os bispos católicos não só deviam estar a resistir à pressão de ceder a estas tendências sociais, como deviam estar a promover os benefícios do tratamento e a participação na Courage, a única organização católica de acompanhamento de homossexuais que é reconhecida pelo Vaticano. Uma declaração de 2006 da Conferência Episcopal do Estados Unidos recomenda o tratamento e a orientação espiritual para quem tem atracção por pessoas do mesmo sexo. Talvez seja tempo de nos actualizarmos, a começar com os dados científicos sobre os graves riscos médicos e psiquiátricos para aqueles que vivem em uniões homossexuais e os graves perigos para o desenvolvimento psicológico dos jovens que são deliberadamente privados de um pai ou de uma mãe por terem sido criados num lar homossexual.

Um dos maiores estudos de casais homossexuais revelou que apenas sete dos 156 casais analisados vivia numa relação completamente exclusiva, e que a maioria das relações durava menos de cinco anos. Nos casais cujas relações duravam mais tempo havia alguma tolerância por actividade sexual exterior. Os autores concluíram que “o único factor mais importante que mantém os casais unidos para além de dez anos é a ausência de um sentido de posse” – isto é, uma racionalização que minimiza a dor emocional de ser vitimizado por repetidos casos de infidelidade.

Um estudo dinamarquês de 2011 revelou que o risco de suicídio, ajustado à idade, para homens em uniões de facto homossexuais era quase oito vezes maior que o risco de suicídio para homens num casamento heterossexual.

Foram feitas duas avaliações sistemáticas de 47 estudos sobre a violência nas relações íntimas (VRI) entre homens em relações homossexuais. Um concluiu: “Os dados emergentes avaliados revelam que a VRI – psicológica, física e sexual – ocorre a ritmos alarmantes em relações homossexuais masculinas”.

Dois estudos de 2015 revelaram que 512 crianças criadas por pais do mesmo sexo tinham uma prevalência de problemas emocionais duas vezes superior à norma. Outro investigador concluiu que, em comparação com lares tradicionais com pais casados, as crianças criadas por casais homossexuais tinham 35% menos probabilidade de progredir normalmente na escola.

Um estudo de 2013 do Canadá analisou dados de uma amostra em grande escala e concluiu que os filhos de casais gays e lésbicas têm apenas cerca de 65% de probabilidade de terminarem o secundário quando comparados com os filhos de casais heterossexuais casados. As raparigas sofrem mais que os rapazes. Filhas de “mães” lésbicas revelaram ter taxas de sucesso escolar dramaticamente inferiores.

Símbolo do apostolado Courage
Contrariamente à propaganda disseminada, há várias décadas que existem relatórios, tanto do ponto de vista dos terapeutas como dos clientes, de mudanças profissionalmente assistidas de atracção indesejada pelo mesmo sexo. Os profissionais usam uma variedade de protocolos de tratamento que abrangem várias escolas de psicoterapia. Ao contrário do que se pensa, não existem provas científicas de que estas terapias de mudança profissionalmente assistida de atracção indesejada pelo mesmo sexo sejam prejudiciais.

Alguns clientes que recebem estes cuidados profissionais por atracção indesejada pelo mesmo sexo admitem ter mudado “completamente”, outros revelam “nenhuma” mudança. Outros ainda dizem ter conseguido alterações sustentadas, satisfatórias e significativas tanto na direcção como na intensidade das suas atracções, fantasias e excitação sexual, bem como no seu comportamento e identidade de orientação sexual.

A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu uma carta em 1986 aos bispos católicos sobre o Cuidado Pastoral de Pessoas Homossexuais em que pede aos bispos de todo o munto para “apoiar com todos os meios à sua disposição, o desenvolvimento de formas especializadas de atendimento pastoral às pessoas homossexuais”. Tais cuidados podem “incluir a colaboração das ciências psicológicas, sociológicas e médicas, mantendo-se sempre na plena fidelidade à doutrina da Igreja.” [Ênfase do autor]

Uma investigação, no âmbito de um doutoramento, sobre os membros da Courage comprova a eficácia do programa em lidar com aqueles que têm atracção por pessoas do mesmo sexo. (Os indivíduos com atracção pelo mesmo sexo têm mais perturbações mentais do que a população geral.) Os entrevistados que viviam em castidade revelavam melhorias na sua saúde mental geral. Existe uma correlação entre uma espiritualidade autêntica e melhorias na saúde mental. Também existem correlações positivas entre a castidade, a participação religiosa e índices autorelatados de felicidade.

A minha experiência profissional de quase 40 anos a trabalhar com padres mostra que os principais obstáculos à aceitação e à pregação da verdade da Igreja sobre a sexualidade humana e a homossexualidade radica numa incapacidade de ensinar a verdade da Igreja sobre contracepção, proclamada na Humanae Vitae. Quando se ignora a ordem criada por Deus isso reflecte-se inevitavelmente noutras áreas.

Os padres sinodais e as conferências episcopais têm de ser actualizados em relação aos dados das ciências médicas e psicológicas relacionados com a homossexualidade. A Associação de Médicos Católicos dos Estados Unidos e o apostolado da Courage fornecem uma formação muito importante, juntamente com outras associações médicas católicas internacionais. 

Um recurso importante que já foi traduzido para várias línguas é a publicação da Associação de Médicos Católicos “Homossexualidade e Esperança”. Mas há muito mais – se ao menos os nossos líderes católicos quisessem realmente saber a verdade sobre estes assuntos.


Rick Fitzgibbons é um dos autores da segunda edição de “Homossexualidade e Esperança”, da Associação de Médicos Católicos dos EUA.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 17 de Maio de 2015 em The Catholic Thing)

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Tuesday, 7 October 2014

"Uma vez ou outra tive comunhões tão intensas como as espirituais"

Transcrição integral da entrevista com Joaquim Mexia Alves. Reportagem aqui.

Esteve na Guiné na Guerra, já era casado?
Não. Depois de vir da Guiné fui trabalhar para Angola, onde conheci a minha primeira mulher e onde me casei. Pouco antes da independência de Angola voltei para Portugal.

A sua mulher era portuguesa?
Sim, vivia em Angola mas era portuguesa.

Viemos para Portugal e passados dez anos separámo-nos, e cada um seguiu a sua vida. Eu fiquei por aqui, por Monte Real, ela foi para Lisboa. Temos dois filhos. Entretanto, passados cinco ou seis anos acabei por conhecer aquela que é agora a minha mulher. Depois de algum tempo, mercê desse conhecimento e de querer casar com ela, acabei por pedir à minha primeira mulher um divórcio civil.

Não tinha pedido ainda sequer um divórcio civil?
Não.

Acabei por pedir o divórcio, porque na altura nem sequer se me punha um casamento pela Igreja ou sem ser pela Igreja, porque verdadeiramente eu vivi a minha infância e a minha adolescência com uma educação religiosa, cristã. Fiz o crisma, andei em colégios católicos, mas à volta dos 19, 20 anos, afastei-me da Igreja, depois de Deus, depois da fé.

Teve a ver com a guerra?
Não. Foi antes. Uns anos antes já não me dizia nada.

Não é que tivesse deixado de acreditar em Deus como aquele que nos criou, mas não me dizia nada. Não interferia de modo nenhum na minha vida nem eu deixava que interferisse.

Isso arrastou-se até aos 40 e tal anos, já depois de conhecer a minha mulher é que, conversando com ela sobre a Igreja, Deus e variadíssimas coisas, começou a despertar em mim mais uma vez essa procura e portanto naquela altura não se me punha a questão do casamento católico ou não católico.

Em relação à sua primeira mulher ela não era católica?
Era uma católica como eu, baptizada...

Mas casaram pela Igreja?
Sim.

Porquê?
É preciso separar algumas coisas. As pessoas pensam que por se pedir a nulidade de um casamento católico isso significa que essa união não teve sentido. É lógico que teve sentido, acho que ninguém casa com uma mulher ou uma mulher com um homem, se não houver um sentido, se não se amam naquela altura pelo menos e se não querem partilhar uma vida. A diferença é esta, de saber se eles, casando pela Igreja, querem fazer aquilo que a Igreja diz.

Por isso, nem sempre as pessoas têm o conhecimento do que é verdadeiramente o sacramento do matrimónio, do que ele exige dos esposos.

Obviamente, sendo as famílias cristãs, católicas, há sempre uma tradição, um peso, e o casamento foi católico, como se diz, porque tinha de ser. Era assim. Então em famílias tradicionais como as nossas, era assim. Portanto quando conheci a minha mulher actual não se me punha esse problema porque não se me punha o problema da Igreja sequer.

Curiosamente, foi ao conhecê-la e ao desenvolver conversas com ela que começou a procura de Deus outra vez, até porque tinha vivido uma vida completamente desregrada desde o momento em que me separei, até conhecer a minha mulher, por isso mesmo esta procura de Deus que se dá depois de conhecer a minha segunda mulher tem também o sentido de perceber que alguma coisa estava mal na minha vida, que ia acabar mal de certeza.

Como é que conheceu a sua segunda mulher, foi nalgum contexto de movimento da Igreja?
Foi no contexto da minha vida de saídas à noite...

Mas ela tinha alguma relação com a Igreja?
Era baptizada, mas de maneira nenhuma praticante.

Vá-se lá saber porquê... Ainda hoje o Stephen Hawking diz que Deus não existe, tudo bem, isso é problema dele, mas a gente pergunta-se porque é que de repente se juntam estes dois seres que começam a falar dele e que acabam por O encontrar?

Resumindo, depois do divórcio civil acabámos por casar civilmente.

A sua primeira mulher não levantou qualquer obstáculo ao divórcio civil?
Não. Houve um bom entendimento, havia e graças a Deus, apesar de algumas vicissitudes, ainda há. Isso é que é importante.

Uns três anos depois de casar a nossa aproximação à Igreja é cada vez maior, passa a ser bastante intensa até, por força de ter conhecido o Padre José Lapa, que trouxe o renovamento carismático para Portugal, que eu conheci muito bem e com quem tive algumas conversas nesse período de procura e que me ajudou muitíssimo. E portanto houve um encontro muito mais intenso e começámos a praticar a religião verdadeiramente.

Íamos à missa mas obviamente, porque entendíamos na altura que não o devíamos fazer, não nos confessávamos nem comungávamos, porque tínhamos a noção que não estávamos numa situação regular.

Essa situação foi avançando, até que um dia alguém me põe a hipótese de pedir a nulidade do matrimónio. As razões não interessam, nem as vou esclarecer, mas havia razões para isso. E nessa altura, em ‘96 ou ‘97 metemos o processo para a declaração de nulidade.

O processo arrastou-se ao longo de quase nove anos, por várias razões, algumas estranhíssimas, por exemplo os documentos perderem-se entre o tribunal de Leiria e Lisboa, uma coisa fantástica... Há coisas que nos deixam espantados, parecem quase do demo... O processo arrasta-se muito. É doloroso, em certos aspectos, porque o processo no tribunal eclesiástico de nulidade, porque as partes, como eu, têm um encontro com a realidade, porque se não tiverem é escusado. Num processo civil as pessoas dizem o que querem, mas num processo como este, se as pessoas têm noção daquilo que vivemos, temos de ser verdadeiros, e a verdade às vezes magoa. Magoa-nos a nós quando nos recordamos e lembramos dela. Foi um processo doloroso, mas que culminou com a declaração de nulidade. A partir daí eu podia contrair matrimónio novamente.

A sua primeira mulher colaborou com o processo?
Não, não colaborou. Foi uma das razões porque se atrasou. Não quis colaborar. Eu respeito profundamente a decisão dela. Aliás, ela tinha razão para estar magoada, por isso compreendo perfeitamente que não o tenha feito.

Mas não colaborou porque não sentia que havia causa para nulidade?
Não sei... Julgo que uma das razões será que, não havendo aquele matrimónio não teria havido casamento mesmo e essa situação é sempre um bocado complicada, como dizia há bocado, há que separar as coisas. Um homem e uma mulher que se unem, unem-se. Se querem ou não fazer aquilo que a Igreja diz é uma coisa diferente, agora não significa que o casamento não tenha existido, que não tenha tido consentimento, que não tenha tido um objectivo, que até nem fosse naquela altura pensado para a vida toda.

As pessoas podem ter, e sobretudo quem não conhece verdadeiramente todos os meandros da doutrina da Igreja, pode de alguma maneira ter esta sensação, afinal não casei nada... Como se fosse um desprezo, que não é.

Mas é engraçado que isso parece ter afectado muito mais que o divórcio...
Sim, exactamente, porque, lá está, quer queiramos quer não, há uma tradição e um certo peso em cima de nós. Hoje em dia vemos isso, para o ano caso pelo civil, depois caso pela Igreja, quando tiver dinheiro para a festa. Parece que as pessoas não se sentirão casadas se não casarem pela Igreja. O problema é que casar pela Igreja tem condições e essas condições têm de ser observadas, porque se não forem o casamento não existe, o matrimónio não existe, o sacramento não existe. Tal como não existe confissão se eu me for confessara a um sacerdote e não confessar deliberadamente um pecado do qual tenho vergonha, o sacerdote não sabe, dá-me a absolvição, mas esta não tem qualquer valor sacramental. Portanto quando não se conhece tudo o que é a doutrina às vezes pode-se perceber isto, no fundo para ser casado tenho de casar pela Igreja. Não. Não há um timing, a não ser que acredite e seja uma pessoa de fé e queira praticar a religião.

A sua actual mulher não tinha sido casada antes?
Não. Era solteira.

Por isso, depois acabámos por casar em 2006, canonicamente.

Julgo que lhe interessa também saber mais sobre esse período de vida em que nos aproximámos da Igreja, vivemos na Igreja, vivemos com Deus, mas ainda não éramos casados canonicamente.

A partir de um certo momento sempre se me pôs, talvez por ter sido uma redescoberta de Deus e da fé, talvez por essa razão ela tenha sido mais intensa do que noutras pessoas que sempre a viveram. Por isso a vontade de fazer tudo como nós achamos que seria a vontade de Deus era fazer o que a Igreja nos diz. E portanto o não aproximar-nos da confissão e da comunhão era um problema que se nos colocava, que nos doía, mas que optámos por aceitar e viver dessa maneira, desde o início.

Até porque quando nos aproximámos da Igreja começámos logo a ter padres amigos, entre eles o padre Lapa, mas outros também, com quem nos abríamos e que nos orientavam espiritualmente, porque embora não haja confissão, pode-se ter uma direcção espiritual e podemos falar com sacerdotes e há sacerdotes completamente abertos a essa conversa. A gente também sabe que na Igreja também há aqueles que não estão abertos a isso e são radicais e às vezes até têm conversas cruéis e desumanas. Mas essa direcção espiritual e maneira de estar foi-se revelando e foi, no fundo, até uma fonte e um caminho de uma espiritualidade mais profunda, porquê? Porque a procura de uma comunhão espiritual cada vez mais perfeita, a procura de uma vivência da Eucaristia, porque a Eucaristia não é só a comunhão, é um todo, tem a consagração, tem a palavra de Deus, tem tudo e se não a vivermos inteiramente... Não vai ninguém à Igreja, ou pelo menos não devia ir, só para comungar. Se vai só para isso, está a fazer muito mal.

A falta da comunhão eucarística levou-nos a querer viver a Eucaristia de forma muito mais intensa e a viver essa comunhão espiritual ainda mais intensamente. Obviamente Deus responde sempre àqueles que o procuram com intensidade e Deus foi-nos dando as forças necessárias e suficientes para podermos viver essa maneira de estar, mas também nos foi dando as graças necessárias e os consolos para percebermos que a comunhão eucarística é importante mas não é o todo, que Deus não se confina à comunhão eucarística e vai muito além disso. Está connosco e comunga connosco e houve momentos muito importantes da nossa vida, momentos de comunhão extraordinária, às vezes sozinho, outras vezes com ela, mas momentos extraordinários de comunhão que nos davam a presença de Deus vivo e nos davam a certeza de estarmos a fazer o que era certo.

Às vezes inventava uma conversa com Jesus... Quando morresse e chegasse ao Céu e se tivesse, apesar de não ser casado pela Igreja, comungado sempre, porque a "minha consciência" me dizia que o devia fazer, ele me perguntava: "Então tu comungaste? Mas a Igreja não te dizia para não comungares?"

Eu respondia, "Mas eu cá tenho a minha consciência".

"Então achas que fizeste bem..."

Mas havia outra possível conversa:

"Então comungaste? Devias ter comungado, porque é que não comungaste?"

"Isso não sei. Foi a Igreja que me disse para não comungar, e eu obedeço à Igreja"

"Então está bem, porque obedeceste à Igreja, eu depois falo com a Igreja a seguir"...

Ao não comungar estou certamente a fazer aquilo que é certo, porque o ónus por eu não comungar cai sempre sobre a Igreja. Passo a batata quente.

Nessas conversas tiveram também padres que vos dissessem para comungarem à vontade?
Assim tão claramente não. Mas que me davam a entender que sim, porque não? A consciência... Sim senhor e tal. Muito poucos. Houve outros, pelo contrário, que foram de uma radicalidade e de uma crueldade ao dizerem coisas do tipo: "Não podes comungar, estás em pecado mortal, estás condenado, e outras coisas que tais que são terríveis e que são exactamente o oposto e os Papas há muito tempo dizem que isso é uma coisa incrível...

A verdade é que quando vivemos – esta é a minha opinião pessoal que vivi e tenho casais próximos que conheço e nos quais sinto a mesma coisa – quando nós queremos viver em obediência à Igreja, que é obediência a Deus, se nos lembrarmos de Jesus Cristo, há uma frase lindíssima que é: "Obedeceu até à morte, e morte de Cruz". Ele obedeceu. Pôs na obediência uma das maiores virtudes. Não precisava daquilo.

Não me estou a comparar com Jesus Cristo, obviamente. Mas a obediência é sempre uma fonte de graça. Se nós obedecermos e se estamos dispostos, as portas abrem-se, não só as portas do Céu, as portas de Deus, para nos acolher, mas abrem-se também as portas dos homens. Porque a própria Igreja, os sacerdotes, os bispos, os leigos, alguns deles às vezes mais renitentemente, mas depois vão começando a perceber, percebem que há uma disposição para estar e então acontece que a Igreja abre-se e começa a chamar mesmo as pessoas nessas situações para ajudarem também, para se sentirem mais em Igreja. Porque não é só a comunhão que nos faz sentir Igreja.

Eu vivia aqui em Monte Real e o prior perguntou-me se eu queria cantar no Coro e eu passei a cantar no coro. Não ia comungar, os outros iam, tudo bem. Talvez fosse mais um sacrifício, talvez mais um exercício de humildade para o meu orgulho. Depois um dia convidou-me para pertencer ao Conselho Pastoral e eu disse que não era casado pela Igreja e ele respondeu que eu ia como conselheiro pessoal e por isso não haveria qualquer problema.

A própria diocese me chamou e pediu para eu, em certas ocasiões, falar sobre o testemunho da minha vida e sobre as coisas que me tinham acontecido, porque estou disponível, porque me abro à própria Igreja e ela me recebe. Portanto eu não posso dizer de maneira nenhuma que alguma vez me senti excluído nem me senti colocado de lado. A verdade é que muitas vezes somos nós que nos excluímos e nos colocamos de lado.

É curioso que o outro dia, fruto de conhecer alguns casais já nessa situação, como nós e outros que vivem uma situação diferente – claro que é uma pequena amostragem, não é nenhuma estatística –, mas constato que os casais que vivem estas situações irregulares em comunhão com a Igreja em obediência à doutrina da Igreja, vivem normalmente uma espiritualidade bastante profunda, e percebemos isso pelas coisas que escrevem, vivem uma paz e uma harmonia entre o casal e na família que normalmente não vejo naqueles que ao viver esta situação irregular a querem viver ou contestando permanentemente, ou em desobediência à Igreja. Reparo nesses uma tensão latente, uma irritação latente, que pode advir da contestação, mas também de, no fundo, estarem divididos lá dentro, porque estão a fazer uma coisa que, embora digam que é a consciência que lhes dita, lá no fundo há algo que lhes diz que talvez não seja bem assim.

Porque esta história da consciência é muito interessante, fala-se muito no primado da consciência, a nossa consciência, para ser recta, sobretudo se estivermos a falar das coisas de Deus tem de ser uma consciência iluminada por Deus. Não pode ser uma daquelas de "Eu acho que".

Se eu não tiver acesso a documento nenhum, a nada que possa ler, então a minha consciência tem de ser aquela, e Deus olha para ela com certeza com toda a pureza, porque não tenho outro acesso. Agora, se tenho acesso à doutrina da Igreja, aos documentos da Igreja, ao que os outros dizem, eu tenho de criar a minha consciência de acordo com o que me é dado saber.

Há bocado dizia que havia alguns padres que diziam de forma cruel que estavam em pecado mortal. No seu caso havia um processo em curso e depois foi declarada a nulidade, mas há pessoas que não têm bases para nulidade e, de facto, o que a Igreja diz é que não podem comungar porque estão em pecado. Pelas suas próprias palavras isso é uma atitude que pode magoar. Como é que se navega este dilema?
Há muitas maneiras de dizer as coisas.

Eu, por exemplo, lembro-me que a minha mulher em Fátima, um dia, não sei porquê, decidiu que se queria confessar. Lembro-me de lhe ter dito: "Não faças isso. Temos os sacerdotes que nos conhecem, com quem conversamos, e sabes perfeitamente que não podemos fazer isso."

Mas ela insistiu, e foi, e teve uma péssima experiência. Porque encontrou um sacerdote do tipo que lhe disse que estava em pecado mortal e estava condenada, se não mudasse de vida e outras coisas que tais.

Primeiro, ele nem sequer a ouviu. Só quando percebeu aquilo descambou logo. Há muitas maneiras de se dizer as coisas, de se dizer a um casal ou a uma pessoa recasada, que não tem ou não pode ter um processo de nulidade, que está numa situação irregular, uma situação perante Deus e a doutrina da Igreja, que não é compatível com a confissão, mas pode acrescentar desde logo que pode ouvi-la, estar com ela, aconselhar, perceber quais são os incómodos e dar alguma direcção e algum conselho. É muito diferente uma coisa da outra.

Mas vocês, antes do resultado do processo, sentiam que estavam em pecado?
Lá está... Esse sentimento é sempre um bocado complicado. Se nós vivemos uma situação em Igreja, se sentimos que Deus está connosco apesar disso. Podemos ter essa sensação, de que é um pecado pela lei, mas sê-lo-á para a nossa consciência perante Deus? Uma coisa é a nossa consciência perante Deus, outra coisa é a nossa consciência perante nós próprios. Uma grande parte das pessoas que dizem: "Pela minha consciência", desculpem lá, mas é a sua consciência consigo próprios, não a sua consciência perante Deus, em oração.

Obviamente é pecado, segundo a doutrina da Igreja, mas é um pecado que pode não ter esse peso enorme se as pessoas vivem, ou procuram viver, essa vivência de fé inteiramente dedicada a Deus e à Igreja.

Claro que é sempre muito complicado. Também há situações daqueles que vivem "como irmãos" e que podem viver como irmãos, e aí vivem em comunhão com a Igreja. Mas essas são situações que, apesar de tudo, não são tão raras como isso tudo. Ultimamente tem havido muitos testemunhos que indicam que essas situações não são tão raras como isso tudo.

Mas isso é uma coisa que, sendo difícil, pode eventualmente pedir-se a um casal que esteja em sintonia na questão da fé. Mas no caso em que apenas uma das pessoas está próxima da Igreja é complicado...
Não! Nessa situação é muito complicado. Mas para um casal que segue o mesmo caminho isso é uma opção que se pode colocar. E acredito firmemente que Deus possa dar a graça a esse casal de viver assim.

Pode ser que eu esteja a dizer uma enormidade, mas o viver como irmãos é um compromisso que pode ser tomado entre eles e comunicado ao pároco. Como todos os compromissos e todas as fraquezas humanas, pode falhar uma vez ou outra, obviamente, e portanto desde que haja o compromisso sério e a consciência séria diante de Deus, pode acontecer uma falha, mas essa falha é confessada. Aí sim pode haver confissão. Não é dizer: "Eu ontem falhei e hoje também e amanhã tenciono falhar outra vez". Não é isso. Obviamente o compromisso pode ser falhado e pode ser confessado. Tal como qualquer solteiro também tem um compromisso de não ter relações sexuais e às vezes também pode acontecer e pode-se confessar e isso é perdoado.

O que é que lhe passava pela cabeça quando estava na missa e levantava-se tudo para ir comungar e você ficava sentado?
Ao princípio talvez seja a parte mais difícil. Sobretudo, quando se está por exemplo em situações como estive, de assembleias ou reuniões do Renovamento Carismático, em que as pessoas que lá estão estão por vontade própria, e por isso 99,9% vão comungar, é complicado. É complicado porque ficamos sós. Perguntava-me muitas vezes, a partir de certa altura: "Eu fico só e isso incomoda-me porque me sinto exposto, porque o meu orgulho fica ferido?" Mas ao longo do tempo Deus dá-nos a graça de podermos suportar e até ultrapassar essas situações.

Há igrejas no mundo em que as pessoas vão todas e aqueles que não podem comungar cruzam os braços e são abençoados pelo sacerdote. Mesmo que isso fosse prática em Portugal não sei se não faria exactamente como antes. No fundo o que acontecia era o seguinte... a partir de certa altura arranjamos maneira de nos defendermos de nós próprios e a certa altura o que fazia era que na altura da comunhão ajoelhava-me e enquanto durava a comunhão ficava ajoelhado em oração. Estava a fazer a minha comunhão espiritual. No fundo o que acontecia é que acabava por me sentir transportado pelos outros para a mesa da comunhão. Pelo que conversava com a minha mulher, com ela era a mesma coisa.

Portanto hoje em dia posso comungar eucaristicamente. Acho que uma vez ou outra tive comunhões tão intensas como as que tive espirituais. Mas tive comunhões espirituais fantásticas, espantosas, de uma presença de Deus ali fantásticas, que me transportavam. Precisamente porque há uma procura ainda maior, se é possível, claro que como humano que sou também sou fraco e às vezes também critico os outros e quer queiramos quer não, quando estamos nestas situações vemos os outros a ir comungar e dá vontade de perguntar o que é que vai fazer? Vemos pessoas que vão na fila da comunhão a conversar uns com os outros e depois vêm aos beijinhos, enfim...

O processo durou quase nove anos mas acabou por se comprovar a nulidade, como é que recebeu essa notícia?
O tribunal dá uma sentença e depois é confirmada por outro tribunal, ou não confirmada. De alguma maneira o Sim do tribunal de Leiria dava-nos a perspectiva de que o tribunal de Lisboa também daria. De qualquer das maneiras não foi... foi muito mais uma decisão recebida em paz, em sossego, do que em grande euforia. Não posso falar do que se passou como alegria. Foi uma paz, uma paz enorme, uma certeza de que Deus estava ali e tinha ajudado a cumprir aquele objectivo, aquele momento.

Já tinham filhos desse segundo casamento?
Já. Dois do primeiro e dois do segundo. O primeiro nasceu um ano depois de casarmos e o segundo quando já estava metido o processo.

Depois casaram pela Igreja?
Casámos logo a seguir, um mês ou qualquer coisa assim depois.

Como foi voltar a comungar depois de tanto tempo à espera?
Não foi nenhuma fúria, foi um confirmar de algo que nós vivíamos nas comunhões espirituais. É óbvio que foi muito bom, tanto que nós casámos numa sexta-feira e D. António Marto foi empossado como bispo de Leiria num domingo. E voltámos no domingo porque queríamos estar na missa. Logo naquela missa pudemos comungar. E na altura o padre Alcides, prior da Marinha Grande, na segunda-feira a seguir, eu estava a sair de casa para ir à missa das 19h, ele viu-me, deu-me um abraço, perguntou como tinha corrido e pediu-me para ajudar à missa, disse que queria que todas as pessoas soubessem que estava ao seu lado.

Achei fantástico, porque ele disse aquilo com uma vontade... de facto a paróquia da Marinha Grande é uma coisa extraordinária, porque fui sempre muito bem acolhido.

Num processo típico em que já existem filhos, e os filhos já estão na idade da razão, eles podem ser chamados a testemunhar e a fazer parte do processo?
Não. Que saiba não. A não ser que sejam dados como testemunhas por alguma das partes. Por regra não, são protegidos. É uma coisa que envolve o casal e os testemunhas que o casal queira arrolar.

Todos estes processos são obviamente difíceis. Se um divórcio já é difícil, traumatizante, sobretudo os que vão a tribunal, os processos de nulidade também são, porque é tudo escalpelizado, porque é preciso saber o porquê das coisas. Portanto é sempre bastante doloroso.

Existe algum cuidado por parte dos membros do tribunal, ou é um processo muito frio?
Conforme os intervenientes.

De uma maneira geral não me posso queixar. Não houve dureza, foi tudo visto, revisto e tornado a ver, mas com algum bom senso e discernimento e com dignidade. Mas ao que sei nem sempre as coisas funcionam assim. Quando estamos a falar da vida das pessoas é preciso ter algum cuidado, porque as pessoas vão recordar coisas dolorosas, difíceis. São colocadas perante os seus próprios erros. No meu caso a parte que tinha mais errado era eu, sem dúvida absolutamente nenhuma, portanto é doloroso, as pessoas têm de se enfrentar a si próprias. E sobretudo porque muitas vezes podem ter esta consciência de poderem estar a ferir, a magoar, com aquilo que estão a fazer.

Por causa do sínodo fala-se das mudanças que pode haver. Uma que parece reunir consenso é o agilizar dos processos de nulidade. Tendo passado por isso, o seu processo foi extraordinariamente longo, mas o que aconselharia?
Às vezes as pessoas são ouvidas variadíssimas vezes quando talvez fosse mais rápido determinar quais são os assuntos verdadeiramente importantes para aquele processo e ouvir especificamente sobre aqueles assuntos. Depois, não sei se já está mudado, penso que já está a mudar, é quando não se consegue encontrar a outra parte. Então as coisas arrastam-se, quase até à exaustão.

Depois quando a outra parte não quer ser ouvida. Insiste-se de tal maneira que por vezes a outra parte irrita-se mesmo. Se há uma declaração da outra parte a dizer que não quer, ninguém pode obrigar a nada. É preciso respeitar as pessoas.

Todo o processo de organização, que não sei em detalhe como é, por vezes torna-se moroso, às vezes também as dioceses têm falta de pessoas, os juízes são sacerdotes normalmente, que têm as suas paróquias. Muitas vezes dependem também de leigos, que muitas vezes se oferecem, incluindo juízes jubilados que tiram direito canónico e depois podem ajudar na formação do processo.

Há ainda certos itens da nulidade. Por exemplo, a falta de fé. A falta de fé é extremamente difícil de provar... é preciso encontrar balizas de algum tipo para conseguir com alguma agilidade e com algum bom senso, determinar se havia fé ou não.

Normalmente pensamos naqueles casos em que a pessoa mentiu, a pessoa já era casada, mas não pensamos na falta de fé. Se há coisa que é essencial para a validade de um sacramento é a fé. Hoje em dia assistimos a casamentos de certos jovens que percebemos não haver ali a mínima fé... Claro que a fé não se vê, mas percebe-se pela expressão, pelo modo de estar, pelas respostas, por tudo isso, que não há uma vivência da fé. Assim como para um adulto exige-se que faça uma catequese prolongada e que tenha consciência do que é Deus e o que é a Igreja, às vezes o matrimónio parece o sacramento mais tratado pela rama que os outros todos. Não exige, por exemplo, o estado de graça, a confissão. Verdadeiramente não exige. Os padrinhos de baptismo têm de ser baptizados e crismados etc. Para o crisma é preciso fazer uma catequese de adultos. Para o matrimónio há os CPM, mas o CPM, apesar de tudo, não é uma vivência... pode levar a isso, é bom que leve, mas pode não levar. Às vezes as pessoas estão a celebrar um sacramento, pela festa.

Acha que os padres deviam ter mais margem para recusar presidir a casamentos?
Eu acho. Vemos as estatísticas, a dizer que há cada vez menos casamentos católicos... será que isso é importante? O número? É como quando as pessoas me dizem que se a Igreja não mudar começa a ter menos pessoas. Mas a Igreja não é uma associação. Não tem sócios. Não pagam quotas. O desejo da Igreja é que todos se salvem, que todos estejam na Igreja, mas não pode mudar a doutrina só para angariar pessoas e apresentar números.

No sínodo tem-se falado sobre a admissão de pessoas em uniões irregulares aos sacramentos. Se lhe pedissem a si a sua opinião, o que diria?
Antes disso queria dizer o seguinte. Temos assistido e vamos assistindo a uma permanente discussão, mais teológicas, filosóficas, existenciais, sobre os o facto de os casados poderem ou deverem confessar-se e comungar. Isto debate-se até à exaustão. Mas eu não vejo debater o modo de como é que os recasados podem viver em Igreja efectivamente sem confessar e sem comungar. O que é que a Igreja diz de claro, e esses teólogos e filósofos que falam disso, o que dizem realmente para as pessoas viverem? É que ao pensar em mim próprio e naquilo que vivi e em tantos casais que já conheço que vivem o que eu vivi e que muitos ainda vivem e que, muitos deles ainda vivem essa situação e não podem deixar de o fazer, e no entanto são felizes, vivem em harmonia, vivem com Deus, eu pergunto onde é que estão os documentos, as reflexões e as meditações que levem essas pessoas a perceber a graça que será viver em obediência à Igreja.

Porque me parece que, de maneira geral, há uma certa atitude de contestação e as atitudes de contestação normalmente levam a tensões. Levam a que não haja paz e se a pessoa vive numa revolta permanente, em vez de tentar ajudar as pessoas a serem fiéis ao que a Igreja diz e a perceberem a graça que daí advém.

Quando leio coisas que escrevi quando vivia aquela situação, fico espantado a pensar como é que eu escrevi aquelas coisas? Como é que eu vivia aquilo? Ao ler coisas que alguns casais que agora vivem assim escrevem eu fico maravilhado e digo que é fantástico, como é que vivendo esta situação irregular há esta aproximação de Deus, este toque de Deus tão profundo no coração e na vida.

Curiosamente a senhora desse casal dizia, sabe que eu escrevo as coisas e depois leio-as e penso, como é que eu consegui escrever isto? Porque Deus nos concede aquela graça fantástica! Voltamos à mesma história! Deus obedeceu! Obedeceu até à morte, e morte de cruz! A obediência é uma coisa extremamente difícil, porque hoje em dia está conotada com fraqueza, quando obedecer não significa ser fraco e a obediência dá-nos sempre uma maneira de estar que nos ajuda a vencer muitas outras coisas. Ajuda-nos, sobretudo, a viver em paz. Quase poderia partir de uma posição comodistas... Em vez de estar sempre chateado e zangado com a Igreja e com Deus por não me deixarem comungar, assim é mais cómodo!

Se me perguntam se os recasados devem poder comungar? Acho que é uma porta que se abre que depois é muito difícil de controlar. Porque se acredito ou julgo que alguns recasados que vivem intensamente o poderiam fazer e penso que daí não veria mal ao mundo, como se costuma dizer, como é que isso se afere? E aqueles que se estão a borrifar mas aproximam-se da comunhão sem mais nem menos?

Hoje em dia há muitos que dizem que não se confessam, mesmo podendo, e depois pergunto o seguinte. Para a pessoa poder comungar tem de estar em estado de graça. Para estar em estado de graça tem de se confessar. Para se confessar tem de dizer que à luz da doutrina da Igreja está em adultério. Como é que se absolve uma pessoa que vive em adultério? Quando o Papa instituiu aquela comissão para analisar os processos de nulidade frisou lá bem: "Que não ponha em causa a indissolubilidade do matrimónio"

Se não se pode por em causa, a partir do momento em que vive fora desse matrimónio com outra, está em adultério objectivo! Penso eu, não sei, mas julgo que sim.

Agora, há uma coisa que posso dizer. O sínodo vem aí e o que a Igreja disser é o que aceito no meu coração. Não faço tenções de discutir sequer. Se a Igreja disser que a partir deste momento podem comungar, fico felicíssimo, contentíssimo. Se disser que não podem fico felicíssimo e contentíssimo na mesma. Agora espero é que, seja qual for a decisão, que não seja uma decisão tout court. Haja alguma cosa que informe tudo isso. Não podem mas a Igreja vai preparar documentos, vai preparar sacerdotes, vai dizer como é que as pessoas pode viver e paz dentro da Igreja.

Definir claramente. Não pode comungar mas podem fazer leituras, por exemplo, que as coisas estejam definidas. Já que há a lei, que se definam as coisas. Muitas vezes vemos na Igreja alguma dualidade de atitudes. Nesta paróquia podem isto, mas na outra não podem. Numa paróquia não aceitam o fulano X como padrinho, mas na paróquia do lado já aceitam. Ali não posso ler, mas na outra posso. As coisas não podem ser assim. Não devem ser assim.

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