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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Ahh... Os Bispos

Pe. Bevill Bramwell, OMI
No Rochedo de Cashel, na Irlanda, visitei as ruínas de uma fortaleza de um bispo. Alguém comentou: “Eles tomam sempre bem conta de si”. Eles eram os bispos. No tempo dos apóstolos os bispos eram pobres e viviam vidas de risco. Mas com o Édito de Milão (313) passaram a ter estatuto de funcionários imperiais, controlando terras, vilas e províncias. Ganharam honras civis e estipêndios. Eram barões e senhores.

Nada na forma como o cargo foi originalmente constituído indicaria que se deveriam comportar assim, mas em vez de darem testemunho na cultura, alinharam com ela. Nem todos os bispos o fazem, mas os que fazem são em número suficiente para que a sua taxa de consumo e ambição sejam um problema para a presença da Igreja no mundo.

Os palácios episcopais podem ser um grande problema. Claro que há bispos que vivem em casas modestas, mas quanto ao resto, as suas residências são um gigantesco contratestemunho para o trabalho oficial da Igreja. A Igreja é um corpo de testemunho. Por razões legais, está organizado numa série de corporações. Mais importante, a Igreja é fundamentalmente um testemunho de Jesus Cristo no mundo. E isso não implica ter muito dinheiro ou um estatuto social mais elevado.

O problema, do ponto de vista teológico, é que o bispo está limitado pelos parâmetros materiais da vida de Jesus Cristo e é simplesmente impossível dar testemunho credível de Jesus Cristo enquanto se vive uma vida significativamente mais rica que a de Jesus Cristo – a não ser que a mensagem da Igreja seja um mero acrescento. Viver a vida de Cristo é uma coisa pessoal, no sentido em que compromete toda a pessoa, corpo e alma. Cada aspecto da existência do indivíduo deve manifestar Cristo. Isto aplica-se igualmente aos padres, mas isso é tema para outra conversa.

Fatos Armani ou passatempos caros demonstram uma dependência de coisas materiais e não do Espírito. Também podem sugerir que a pessoa se imagina superior àquelas que a rodeiam, ou que se sente mais à vontade com as classes altas. Depois existem as outras benesses do trabalho – os convites para restaurantes caros, onde a conta é paga por outro; bilhetes grátis para grandes eventos; casas de férias emprestadas, e por aí fora, aparentemente sem limite.

Devia ser difícil, psicologicamente e espiritualmente, pregar o Evangelho aos domingos enquanto se vive este tipo de vida durante o resto da semana. Pelo menos se conhecer o Evangelho.

Uma vez perguntei sobre um caso de consumismo suspeito e responderam-me que o bispo podia fazer o que quisesse com o seu salário diocesano. Um excelente argumento – no mundo secular. O problema do testemunho mostra a falsidade da proposição. Há bispos que recebem o mesmo salário de padres com o mesmo tempo de serviço.

Os nossos valores não devem radicar no mundo secular. Se assim fosse, as conversões e a redenção seriam supérfluos. Para além disso, já existem bastantes organizações e pessoas a espalhar os valores seculares. A espalhar os valores contrários existe apenas a Igreja. Uma Igreja que é verdadeiramente contracultura. Demasiados católicos tentam viver nas margens de dois sistemas de valores contraditórios.

Residência do Arcebispo de Chicago, EUA
O dinheiro sempre foi uma matéria ruinosa para a vida dos funcionários da Igreja. Já ouvimos todas as desculpas. Que é necessário para o funcionamento da Igreja. Que o Clero precisa dele para arranjar os edifícios escolares e as igrejas e para dar conta de todas as necessidades na paróquia e na diocese.

A necessidade do dinheiro, contudo, desencadeia toda uma corrente de eventos relacionados com a angariação de fundos, como os bispos a serem tratados como ornamentos em jantares faustosos e bajulados por ricos.

E vai mais longe, estamos sempre a ouvir histórias de bispos a tratar de forma especial ricos ou poderosos e até a menosprezar a doutrina da Igreja.

Algumas devem ser verdade, uma vez que situações como católicos ricos a defenderem impunemente o aborto têm-se tornado um verdadeiro escândalo público. A afirmação de que estão a ser tratados de forma “pastoral” já não cola ao fim de todo este tempo.

Estamos perante um temor dos ricos? Ou dos poderosos? Ou será a vontade de ser aceite por eles? Será que os directores espirituais destes bispos falam com eles sobre estas questões? Afinal de contas, o trabalho de um director espiritual é ajudar o dirigido a tornar-se mais católico, ou por outras palavras, a assumir mais do ensinamento católico como verdadeiro. De tal forma, aliás, que se deve vivê-lo na prática.

Por último, devemos perguntar também em que hotéis chiques é que se encontra a Conferência Episcopal e em que restaurantes se juntam para comer durante as reuniões. Talvez se optassem por locais mais simples isso ajudaria a quebrar a ilusão de que os bispos se devem sentir magicamente em casa entre os ricos e os poderosos. Mandar vir umas pizas para uma reunião de trabalho talvez fosse simultaneamente um bom testemunho público e um acto de humildade.

Rezemos para que Deus nos conceda um corpo de bispos a viver vidas consistentes e a ensinar doutrina consistente – não movidos pela arbitrariedade, mas vivendo a vida e Cristo – o único Cristo.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 11 de Agosto, 2019 em The Catholic Thing)

Bevil Bramwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O Tempo Dirá

Stephen P. White
Na semana passada soube-se que o Papa Francisco está a trabalhar num documento que regularizará os procedimentos para lidar com alegações de abusos sexuais ou de negligência em lidar com casos de abusos, relacionados com bispos. Não é claro se, ou como, o novo documento altera o motu próprio que o Papa emitiu em Junho de 2016, que se chama “Come una madre amorevole” (Como uma mãe amorosa)

Esse documento sublinhava e clarificava as “razões graves” pelas quais um bispo poderia ser removido do seu ministério eclesiástico, sobretudo no que diz respeito a negligência em lidar com o abuso de menores. Estipula que um bispo pode ser removido por negligência, “mesmo sem falha moral grave da sua parte”. O documento pede ainda a formação de um “colégio de juristas” – uma assembleia de canonistas – para assistir o Santo Padre em determinar se, e como, se devem afirmar as conclusões do Tribunal Apostólico que julga o caso canónico.

Tomemos por exemplo o caso do Arcebispo Anthony Apuron, do Guam. Apuron foi condenado num tribunal canónico por “delitos contra o Sexto Mandamento com menores”. O seu recurso falhou e o Tribunal Apostólico da Congregação para a Doutrina da Fé, com a aprovação e a autoridade do Santo Padre, emitiu uma sentença final, que foi anunciada a semana passada: Apuron foi removido do ministério de Arcebispo, proibido de usar as insígnias do seu cargo de bispo e proibido ainda de viver na Arquidiocese de Agaña. Interessantemente – e ao contrário do que se passou no caso recente de Theodore McCarrick – Apuron não foi removido do estado clerical.

Não foi imediatamente claro porque é que a um bispo condenado de abusar de menores (Apuron) foi permitido continuar no estado clerical enquanto outro (Theodore McCarrick) foi laicizado. Nalguns pontos os casos eram semelhantes – ambos envolviam o abuso sexual de menores – mas McCarrick foi condenado também pelo crime de solicitação no confessionário, uma ofensa grave só por si. Crimes diferentes, sentenças diferentes.

Mas as diferenças não se explicam apenas por alguma espécie de orientações pontifícias. O Papa Francisco tem resistido a mecanismos universais para lidar com os problemas dos bispos, uma abordagem que, pelo menos em teoria, permite que as soluções sejam pensadas à medida da ofensa particular, mas também para o enquadramento social, cultural e política de cada caso. O Colégio de Juristas previsto em “Come una madre amorevole” ajuda-o neste sentido, e pode escolher diferentes juristas para cada caso.

De facto, o Papa Francisco descreveu o processo, e como o acha útil, numa conferência de imprensa no Verão passado, quando regressava de Dublin – uma conferência de imprensa recordada mais pela sua resposta memorável a questões sobre a carta de Viganò, então recém-publicada. O Papa Francisco usou como exemplo o caso de Apuron, que na altura estava na fase de recurso:

O caso mais recente é o de Guam, do Arcebispo de Guam, que recorreu. E eu decidi – porque é um caso muito difícil – usar o privilégio que tenho de ser eu mesmo a ouvir o recurso, em vez de o enviar para o concelho de recurso, que trabalha com todos os padres. Eu é que assumi o recurso. E formei uma comissão de canonistas que me estão a ajudar e eles disseram-me que quando eu regressar, no máximo dentro de um mês, farão uma recomendação para que eu possa emitir um juízo. É um caso complicado, por um lado, mas não por causa das provas, que são claras. Não posso fazer um pré-julgamento, devo esperar o relatório, depois julgo. Mas digo que as provas são claras porque são as provas que conduziram à condenação no primeiro julgamento.

Zanchetta
Há vantagens e desvantagens evidentes para este tipo de processo. Por um lado, pode ser adaptado às necessidades de cada caso, como já vimos. Mas há também uma grande desvantagem. Ao assumir a responsabilidade pessoal por juntar uma equipa de juristas em cuja opinião dependerá para um caso em particular, o Papa Francisco torna-se pessoalmente responsável pelo desenrolar dos casos – e por como os fiéis percepcionam a forma como se lida com cada caso.

A imparcialidade da lei não é igual ao abraço de uma mãe amorosa, e esse é um ponto que o Papa quer sublinhar. Mas não é por acaso que normalmente não deixamos as mães presidir sobre os julgamentos dos seus filhos. Posto de forma mais clara: uma das razões pelas quais a Igreja se encontra nesta crise é certamente porque muitos bispos revelaram demasiada preocupação paternal com os seus padres criminosos, e não foram suficientemente neutros em relação aos crimes terríveis em questão. Isto não foi sempre – ou até frequentemente – por malícia ou más intenções. É fácil entender como poderá ter sido precisamente o contrário.

Não é necessário pôr em questão o juízo do Papa (este, ou qualquer outro) para compreender os perigos inerentes a um processo judicial tão personalizado.

Nem se trata de uma preocupação abstrata. O Papa já cometeu um erro terrível, pelo qual pediu desculpa, ao defender o bispo Juan Barros, no Chile, mesmo ao ponto de denunciar os seus acusadores.

E depois temos o caso do bispo Gustavo Zanchetta, uma das primeiras nomeações episcopais do Papa Francisco. Zanchetta foi removido da sua diocese na Argentina depois de uma série de queixas – incluindo sobre pornografia homossexual encontrada no seu telefone – e trazido para Roma por Francisco. O Papa poderá entender isto como uma forma de trazer um filho errante para perto dele, para poder estar sobre a supervisão de um pai que o ama.

Outros, digamos assim, poderão entender de outra forma.

O Papa Francisco faz bem em estar de pé atrás em relação a “remédios” legalistas e burocráticos para aquilo que é fundamentalmente uma crise moral e espiritual. Mas dado tudo o que sabemos sobre como se tem lidado com os ilícitos dos padres nas últimas décadas, há razões para questionar se esta abordagem pastoral altamente personalizada e ad hoc do Papa Francisco para com bispos errantes é o modelo mais prudente para a Igreja hoje. O tempo dirá.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 11 de Abril de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Não Protestantizem a Igreja

Casey Chalk
O actual escândalo de abusos sexuais está a motivar muitos comentários sobre a estrutura do Catolicismo. Num artigo no “The Federalist”, Robert Tracinski afirma que um modelo baseado na ideia de certos homens estarem dotados de uma autoridade de origem divina “entra em conflito com a natureza humana” porque o Catolicismo exige que rejeitemos a possibilidade de “ajuizar por nós mesmos”. Outro artigo da Angela Bonavoglia argumenta que “aqueles que conduzem a obra de Cristo devem ser… mulheres, homens, homossexuais, heterossexuais, trans, jovens e velhos. Devem reflectir a visão dos reformadores de um ‘sacerdócio de todos os crentes’”.

Afirmações destas reflectem nada menos que uma exigência para que a Igreja Católica se protestantize, e têm as suas raízes na afirmação da Reforma de que todos os cristãos possuem a autoridade para determinar a verdade sobre Deus e sobre a Sua Igreja por si.

Martinho Lutero atacou a hierarquia da Igreja Católica com base no sacerdócio universal. No seu livro “Do Cativeiro Babilónico da Igreja”, explica-o da seguinte maneira:

Então, são forçados a admitir que somos todos igualmente sacerdotes, uma vez que muitos de nós somos baptizados, e por isso verdadeiramente o somos; enquanto a eles é confiado apenas o Ministério (ministerium) pelo nosso consentimento (nostro consensu)? Se eles reconhecessem isto saberiam que não têm direito a exercer sobre nós poder (ius imperii, fora daquele que lhes foi confiado) excepto na medida em que nós o tenhamos concedido.

De igual forma, Calvino viu no sacerdócio universal de todos os crentes uma forma de minar a hierarquia católica, apelidando o sacerdócio de “uma infâmia nefasta e blasfémia incomportável, tanto contra Cristo como contra o sacrifício que fez por nós através da sua morte na cruz”. Ele pôs em prática as ideias de Lutero, formulando uma eclesiologia em que os membros da Igreja elegem líderes leigos para governarem os seus pares.

A ideia do “sacerdócio universal de todos os crentes” tem, de facto, raízes bíblicas. É por isso que os Reformadores apelam a ela. São Pedro convida a Igreja a aceitar este chamamento. “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (…) vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” (1 Pedro 2, 5-9).

O próprio Catecismo da Igreja Católica afirma que: “Toda a comunidade dos crentes, como tal, é uma comunidade sacerdotal. Os fiéis exercem o seu sacerdócio baptismal através da participação, cada qual segundo a sua vocação própria, na missão de Cristo, sacerdote, profeta e rei. É pelos sacramentos do Baptismo e da Confirmação que os fiéis são «consagrados para serem [...] um sacerdócio santo»”. (CIC 1546)

Porém, esta ideia deve ser aceite à luz do reconhecimento de que Deus, de facto, instalou líderes para o seu povo, cuja autoridade não pode simplesmente ser negada através da referência ao sacerdócio universal. Há até uma passagem do Antigo Testamento que fornece um exemplo pertinente, impressionantemente semelhante à linguagem invocada pela teologia protestante e pelos católicos anti-episcopais:

E Coré, filho de Izar, filho de Coate, filho de Levi, tomou consigo a Datã e a Abirão, filhos de Eliabe, e a Om, filho de Pelete, filhos de Rúben. E levantaram-se perante Moisés com duzentos e cinquenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, chamados à assembleia, homens de posição.
E congregaram-se contra Moisés e contra Arão, e disseram: Basta-vos, pois que toda a congregação é santa, todos são santos, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a congregação do Senhor? (Números 16, 1-3)

Moisés, de Miguel Ângelo
Coré e a sua laia argumentam que Deus fez de todo Israel um povo santo e que por isso Moisés e Aarão não têm qualquer direito a exercer autoridade sobre eles. Trata-se de uma autêntica rebelião, não apenas contra os líderes divinamente instituídos, mas contra o próprio Senhor. Moisés diz mesmo aos rebeldes: “Assim tu e todo o teu grupo estais contra o Senhor” (Números 16, 11)

A resposta de Deus a esta traição é rápida e dramática:

E aconteceu que, acabando ele de falar todas estas palavras, a terra que estava debaixo deles se fendeu.
E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os seus bens. E eles e tudo o que era seu desceram vivos ao abismo, e a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação. (Números 16:31-33)

Eis o que acontece a quem procura destruir as instituições estabelecidas pelo próprio Deus, são consumidos, segundo as escrituras.

A liderança da Igreja Católica ocupa uma posição de autoridade divinamente ordenada, tal como a de Moisés. Jesus, aliás, fala mesmo dos líderes judeus como estando sentados “sob a cátedra de Moisés”, o que lhes confere a autoridade de governarem o Povo de Deus.

Os nossos bispos (e o nosso Papa), não obstante os erros, juízos errados e pecados que possam ter cometido, continuam firmemente sentados nessa cátedra. Em várias passagens do Novo Testamento lemos que os líderes da Igreja gozam de autoridade apostólica. São Paulo, por exemplo, fala do episcopado como sendo conferido pela imposição das mãos (1 Timóteo 1,6 e 4,14).

Reconhecer a mão de Deus na contínua liderança da Igreja não é, claro, um cheque em branco para os nossos líderes – eles serão julgados por Deus pelos seus pecados e nós temos todo o direito em exigir que assumam os seus erros e que sejam disciplinados quando esses erros forem particularmente gravosos. Por vezes há até bispos e cardeais que devem ser removidos – não por nós (lamento Lutero), mas por outros que tenham autoridade para tal.

Sejam quais forem as medidas tomadas contra os líderes eclesiais que nos falharam, talvez um bom conselho neste tempo de crise seja aquele dado por Jesus logo depois de se ter referido à “cátedra de Moisés”. Nosso Senhor ordena: “Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem” (Mateus 23,3).


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 9 de Setembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Abuso de Autoridade: A Crise Mais Profunda

Pe. Timothy Vaverek
São incontáveis as vozes que se erguem entre bispos, padres e leigos, pedindo uma investigação credível sobre o escândalo de abusos sexuais e encobrimentos espoletados pelo caso McCarrick, bem como a crise de moral sexual, sobretudo relacionada com actividade homossexual entre o clero. São assuntos que merecem uma análise pormenorizada, sobretudo à luz do Novo Paradigma moral promovida por altos clérigos, que abre as portas à contracepção, actividade homossexual e extraconjugal e recasamento.

As incríveis alegações do arcebispo Viganó, porém, apontam-nos para uma crise muito mais profunda do que pecados sexuais e falsa teologia: o abuso da autoridade pastoral, tanto por parte dos clérigos abusadores como dos bispos que não protegem o seu rebanho.

Dizer que o abuso por parte de clero tem a ver mais com autoridade do que com luxúria não exclui o papel desempenhado pela sexualidade, mas liga essa gratificação ao exercício de poder. Para o clero a autoridade está enraizada no seu ofício sacramental de pastores do rebanho de Jesus. Padres predadores e os bispos que não defenderam as vítimas são, por isso, culpados não só de falhar no seu ministério, mas de abuso de uma relação espiritual. São pais e irmãos, imagens de Cristo, que violaram a confiança que o povo de Deus, procurando apoio e protecção, depositou neles.

É importante saber se os abusadores e os padres agiram de forma pecaminosa, isto é, com inteira liberdade e conhecimento. Mas o mais importante é que as suas acções provocaram feridas graves nos membros do Corpo de Cristo. A justiça e a caridade exigem que esses danos sejam investigados e remediados, na medida do possível, e não apenas perdoados. Isto pode implicar a remoção do ministério por parte dos culpados.

Em muitos casos os abusos por parte de padres e as falhas episcopais não foram casos isolados, que se podem ultrapassar dizendo “todos pecamos e cometemos erros”. Estamos, antes, a falar de padrões de comportamento destrutivo que se tinham tornado segunda natureza para os abusadores ou para o bispo. Chamamos a isso vícios. São disposições profundamente enraizadas para contínuo mau comportamento que indicam um estado de corrupção ou disfunção.

Os abusadores repetentes ou não querem, ou não podem, alterar o comportamento de forma a abdicar do poder que usam para se gratificarem a si mesmos. Assim, até que as suas disposições corruptas mudem, não tomarão medidas para restaurar a justiça e a caridade. Poderão até vociferar actos de contrição e de emenda de vida, mas só o fazem para recuperar o seu estatuto.

É por isso que o papel do bispo é tão importante. Cabe-lhe a ele encontrar uma forma efectiva de providenciar um final justo e caritativo para a vítima e, neste contexto, também para o abusador. Foi aqui que demasiados bispos revelaram a sua própria corrupção ou disfunção, agravando as feridas já abertas pelo mau uso da sua autoridade episcopal.

Alguns dos bispos que falharam repetidamente afirmam que, há décadas, tratavam o abuso apenas como um pecado. Mas isso não é verdade. Se o tivessem tratado como um pecado teriam exigido que o culpado reconhecesse o seu erro e fizesse restituição à vítima (financeiramente e de outras formas), bem como penitência, e que emendasse a vida. Teriam então percebido que a repetição não é era um “lapso”, mas sinal de um hábito vicioso, compulsivo ou desejado. Tanto num caso como no outro, a preocupação pelo bem-estar dos fiéis e do padre teria impedido novas nomeações.

Jesus expulsa os vendilhões do Templo
Outros bispos dizem que, mais recentemente, tratavam os abusos como se fossem uma doença. Não é provável. Os planos de tratamento tendem a exigir supervisão e cuidados continuados. Em casos de abusos repetidos, frequentemente os bispos não garantiram que esses passos fossem seguidos de forma rigorosa.

Um número bem maior de bispos falhou ao não cultivar um ambiente em que o clero ou os leigos os pudessem procurar para partilhar preocupações. É verdade que isto mudou depois de 2002, de forma que as alegações de abusos sobre menores foram recebidos. Mas salvo raras excepções, como na diocese de Tyler, não existem políticas em curso que obriguem a relatar outras violações da fé e da moral cristã por parte de clero, tal como falsos ensinamentos, relações sexuais com homens ou mulheres, abusos financeiros na paróquia ou em relação a paroquianos individuais, vício de álcool ou pornografia, etc..

Deve-se reconhecer, portanto, que os bispos diocesanos ou do Vaticano que repetidamente falharam para com as vítimas das diversas formas de abusos por parte do clero, revelaram níveis de corrupção ou disfunção que, em si, constituem abuso de poder. Estes falhanços são muito mais que meros erros. É um comportamento que se tornou segunda natureza para estes bispos e para o exercício administrativo do seu cargo.

Durante as décadas desta crise de abusos, nem os bispos nem a Santa Sé têm prestado contas de forma transparente sobre bispos corruptos ou disfuncionais. Alguns dizem que falta autoridade aos bispos neste campo, mas nada os impede de apresentar orientações a Roma. Também esta passividade representa um abuso de poder que nega ao povo de Deus a justiça e a caridade. Cria uma situação tal que torna difícil até a uma investigação do Vaticano ser considerada credível.

No escândalo McCarrick, os bispos de Newark e de Metuchen conheciam as alegações e esconderam as indemnizações que já tinham sido pagas. Mas o Cardeal Wuerl insiste que ninguém o tinha avisado – o que, a ser verdade, significa que o Vaticano também se manteve no silêncio. Se assim for, o seu encobrimento impediu que se procurassem e ajudassem outros seminaristas e padres abusados pelo agora ex-cardeal. Também permitiu que McCarrick continuasse a confraternizar com seminaristas, já depois de reformado. Por isso, e de forma indirecta, a versão do cardeal Wuerl dá a entender um abuso de poder por parte dos bispos americanos e em Roma tão preocupante como as acusações feitas por Viganò.

Os abusadores como McCarrick e a crise de moral sexual associada ao Novo Paradigma, bem como os bispos que permitiram estes e outros ultrajes contra o povo de Deus, devem ser investigados de forma credível. As alegações feitas por Wuerl e por Viganò exigem que examinemos os núncios e a cúria, mas devemos ir mais longe. Para confrontar o abuso de autoridade pastoral, devemos estabelecer formas eficientes de denunciar, investigar e corrigir violações da fé e da moral por parte de funcionários da Igreja, desde voluntários a bispos. A justiça e a caridade exigem que assim seja. E Jesus também o exige, ele que é simultaneamente a maior vítima e o último juiz de todos estes abusos.


O padre Timothy V. Vaverek, STD, é sacerdote na Diocese de Austin desde 1985 e actualmente tem a seu cargo as paróquias de Gatesville e Hamilton. Os seus estudos doutorais foram na área de Dogmática, com enfoque em Eclesiologia, Ministério Apostólico, Newman e Ecumenismo.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Agosto de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Aprender com as Lições do Chile

Pe. Gerald E. Murray
A notícia surpreendente de que todos os bispos do Chile tinham apresentado a sua resignação ao Papa Francisco é um desenvolvimento impressionante. Quando o Papa Francisco visitou o Chile e o Peru, em Janeiro, eu estava a comentar em directo para a televisão da Diocese de Brooklyn e discutimos longamente a forte repreensão do Papa às pessoas que acusavam o bispo Juan Barros de ter permitido o abuso sexual de menores por parte do seu amigo e mentor, o padre Fernando Karadima.

Cinco meses mais tarde, depois de uma reunião de três dias em Roma com o Papa Francisco, a Conferência Episcopal do Chile concluiu, por inteiro, que a sua partida colectiva seria do agrado do Papa e lhe daria maior liberdade para restaurar a confiança dos católicos chilenos, nomeando novos bispos em todo o país. Como é que a coisa chegou a este ponto?

Na conferência de imprensa em que anunciou a resignação em massa, o bispo Fernando Reyes, secretário-geral da Conferência Episcopal Chilena, disse:

Neste contexto de diálogo e discernimento, foram apresentadas várias sugestões sobre como lidar com esta grande crise e desenvolveu-se a ideia de que para estar mais em linha com a vontade do Santo Padre seria apropriado declarar a nossa disponibilidade absoluta para colocar as nossas responsabilidades pastorais nas mãos do Papa. Desta forma pudemos ter um gesto colegial de solidariedade e assumir a responsabilidade – não sem pesar – pelos actos graves que ocorreram, para que o Santo Padre possa decidir livremente como quer proceder em relação a nós.

Ao que parece, os bispos chilenos pensam que o Papa queria as suas resignações. Em Janeiro este desenvolvimento seria impensável. O que é que se passou? A explosão da fúria das vítimas de abusos sexuais e dos católicos comuns, combinada com uma cobertura persistente do conflito por parte dos media.

O Papa tomou a peito as reacções fortes aos seus comentários. Mandou dois investigadores externos para o Chile para recolher provas e dar-lhe conta do que descobriam. Depois chamou a hierarquia chilena a Roma.

Apresentou aos bispos as provas recolhidas pelos seus investigadores numa carta (mais tarde mostrada à imprensa) dada aos bispos chilenos quando chegaram a Roma. Os claros erros citados pelo Papa batem certo com experiências semelhantes noutros países: destruição de provas; transferência de padres acusados, sem preocupação pelos menores que passariam a estar sob a sua influência, tácticas de adiamento e investigações superficiais ou inexistentes das queixas recebidas, bem como pressão sobre os que desenvolveram as investigações aos alegados crimes; e a colocação por parte de bispos e de superiores religiosos de padres suspeitos de serem homossexuais activos em seminários e noviciados.

Não admira que os investigadores tenham encontrado este padrão, já tão familiar, no Chile. Os relatos a Roma por parte da hierarquia chilena, nesta matéria, incorriam em deficiências graves ou eram mesmo enganosas.

A lição aqui é clara: Se a Santa Sé quer extirpar o abuso sexual de menores por parte de membros do clero, e pôr fim aos encobrimentos por parte de clero e bispos em lugares de topo, então deve usar os mesmos meios que usou aqui noutros lugares. Investigadores nomeados pelo Vaticano, sem ligações à igreja local, devem ser enviados para recolher dados quando surgem queixas de abusos sexuais e encobrimentos.

O sistema actual de deixar a vigilância e os relatos à hierarquia local provou ser completamente desadequado no caso chileno. A eficiência das provisões canónicas que governam as situações de acusação de abuso sexual de menores por parte de padres assenta numa colaboração plena e vigorosa da hierarquia local. Se isso não acontecer, a justiça não pode ser feita. Mas essa colaboração muitas vezes não existe.

A triste realidade é que a exposição do crime de abuso sexual de menores e as tentativas em larga escala de bispos e de superiores de ordens religiosas para esconder os factos do público não resultou de acções iniciadas pela Igreja, mas sim pela polícia, tribunais e os media em vários países.

No caso do Chile as vítimas de abusos sexuais só receberam uma audição justa em Roma depois de insistirem na verdade das suas afirmações, após rejeição episcopal e papal. O Papa Francisco decidiu olhar novamente para o assunto e o que descobriu foi que não lhe tinha sido contada a história completa.

Também devia aproveitar para rever os registos de vários departamentos da cúria romana que estiveram envolvidos na supervisão da situação do Chile ao longo dos últimos 30 anos. A Congregação para a Doutrina da Fé considerou o padre Karadima culpado de abuso de menores em 2011. Foi proibido de exercer o ministério sacerdotal e ordenado a viver uma vida de oração e penitência. Consta que ainda reclama a inocência. O que foi feito foi suficiente?

Ao não removê-lo do sacerdócio e reduzi-lo ao estado laical, a gravidade dos seus crimes não foi suficientemente reconhecida. Tal como no caso do padre Marcial Maciel, que também não foi despido do sacerdócio, não obstante os seus múltiplos e graves crimes, uma vida de oração e de penitência torna-se o equivalente funcional de uma reforma antecipada e não retira ao predador sexual o estado de vida que lhe permitiu ter tão fácil acesso às suas vítimas.

A remoção do sacerdócio é uma reprimenda inconfundível pela grave ofensa que deu a Cristo e aos seus mais pequeninos, e comunica de forma clara para todo o mundo que a Igreja considera que ele perdeu o direito a exercer o ofício do sacerdócio de que tanto abusou.

A acção tomada por Roma na situação do Chile era necessária e purgativa. A missão da Igreja é promover o Evangelho. Isso inclui fazer tudo o que for possível para proteger os inocentes e punir os culpados. Não se trata de vingança, mas de justiça.

Agora chegou a altura de lançar o mesmo olhar para outros países onde permanecem questões semelhantes sobre a forma como se lidou com acusações de abusos sexuais e encobrimentos.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 24 de Maio de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 13 de março de 2018

Um brinde ao Papa Francisco!

Parabéns ao Papa Francisco, que hoje cumpre cinco anos de eleição. O Vaticano aproveitou o dia para lançar o trailer de um filme sobre Francisco, de Wim Wenders.

Bento XVI escreveu uma carta em que lamentou os “preconceitos tontos” daqueles que criticam uma alegada falta de profundidade teológica do Papa Francisco.

O Santuário de Fátima fez questão de recordar o dia e os bispos portugueses sublinham a sintonia que existe com este Papa.

E nada como assinalar este dia com uma boa cerveja! Se for como eu – em podendo – optará por uma belga… Mas cuidado, não enfureça os monges!!

E não deixe de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, especialmente para os fãs daquele líquido sagrado… Água benta! (Pensavam que ia dizer cerveja, outra vez, não é…)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Novo Patriarca Melquita e Abusos Anglicanos

Joseph Absi, terceiro a contar da esquerda, novo patriarca
As autoridades egípcias anunciaram hoje a morte de sete militantes islâmicos que teriam estado envolvidos nos recentes massacres contra cristãos naquele país.

Foi ontem eleito o novo Patriarca da Igreja Melquita. A Renascença, ao que parece, foi a primeira a dar a notícia no mundo lusófono. Rezem por ele, tem um trabalho muito complicado pela frente!

Ainda pelo Médio Oriente, o Estado Islâmico está prestes a ser erradicada em Mossul, mas antes disso fizeram questão de explodir a mesquita onde tudo começou.

O arcebispo de Cantuária admite que a Igreja Anglicana ajudou a esconder abusos sexuais durante vários anos.

O Papa não desiste do Sudão do Sul e envia ajuda em três frentes: Saúde, educação e agricultura.

E ainda os incêndios, os bispos dizem que o problema tem de ser resolvido “de raiz”.

Ontem foi publicado o mais recente artigo do The Catholic Thing em português, com o Pe. Mark Pilon a arrasar o senador Bernie Sanders por cristofobia e, indirectamente, islamofobia. Leiam, porque caminhamos a passos largos para esta nova realidade.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Como é que a História nos vai Julgar?

Pe. Mark A. Pilon
Passo a apresentar um pouco de história revisionista, claramente inventada, mas que vale a pena contemplar nos dias que correm.

Suponhamos que do início da década de 30 até 1945 a Alemanha tinha-se mantido uma democracia, em vez de se transformar numa ditadura de partido único, como foi com o Terceiro Reich. Suponhamos ainda que muitos representantes democraticamente eleitos de partidos liberais e conservadores tinham juntado forças com os Nazis de Hitler no que diz respeito às políticas antissemitas. Por fim, imaginemos que mesmo alguns deputados católicos da oposição tinham votado em conjunto com o Partido Nazi para levar a cabo a chamada “solução final” para a questão judaica e que tinham apoiado publicamente a sua implementação. Suponha, por agora, que tudo isto eram factos históricos.

Vamos então um bocado mais longe. Imagine que os bispos alemães não tinham tomado qualquer acção disciplinar contra esses políticos católicos, seja de que partido fossem, quer excomungando-os, quer negando-lhes os sacramentos. (Sabendo hoje que estas medidas já foram aplicadas pelos bispos alemães nos nossos dias apenas por não se pagar o chamado imposto da Igreja ou para com católicos que não se registam como tal com o Governo). Mas imaginemos que naqueles dias negros não se tinha feito nada do género e imaginemos ainda que as sondagens mostravam cada vez mais católicos alemães confusos sobre estas questões moralmente graves ou decididamente a favor das medidas racistas e genocidas.

Como é que acha que um historiador julgaria esses bispos e esses líderes religiosos? Alguém acreditaria que os bispos alemães tinham desempenhado fielmente o seu papel de proteger a fé dos seus rebanhos – incluindo dos políticos católicos – sem pressionar os católicos no parlamento para defender as vítimas inocentes, fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir as atrocidades do Governo? Será que a Igreja local teria, mais tarde, que se arrepender e pedir perdão, mais até do que os papas têm feito nos últimos anos em reconhecimento de erros do passado?

Talvez se considerasse que os leigos católicos tinham sido apanhados pelos tempos e pela mentalidade tão sagazmente difundida pela máquina de propaganda Nazi. E poderia ser considerada uma atenuante o facto de terem ficado naturalmente confusos com o facto de verem os políticos católicos a evitar serem disciplinados pelos líderes eclesiais e a receber publicamente a comunhão e outros sacramentos, enquanto se continuavam a apelidar de católicos fiéis e alinhados com a Igreja.

Mas voltemos à nossa realidade e ao nosso mundo actual. Durante os últimos 50 anos os leigos católicos na América ouviram os seus bispos a condenar muito claramente o crime monstruoso do aborto. Mas ao mesmo tempo têm visto políticos católicos a apoiar abertamente o chamado direito ao aborto e a combater as medidas para o restringir – com alguns até a defender os horrores da Planned Parenthood, sobre a qual vários bispos já falaram, mas pouco mais. Entretanto estes políticos continuam a apelidar-se de católicos e a receber a comunhão publicamente, por vezes das mãos dos próprios bispos.  

Ao longo deste tempo mais de 55 milhões de seres humanos foram chacinados, o que supera até as terríveis monstruosidades do Terceiro Reich. Entretanto, mais de metade da população católica deste país passou a apoiar o direito ao aborto. Devemos acreditar que não existe ligação entre este distanciamento em massa da verdade e prática moral do Catolicismo e a recusa dos bispos em disciplinar os políticos católicos?

Na verdade, a maioria dos políticos pró-aborto, católicos ou não católicos, são vistos frequentemente a receber homenagens de instituições católicas. Universidades que se dizem católicas contratam professores que divergem publicamente do ensinamento moral católico e, mais uma vez, os leigos não vêem qualquer acção disciplinar. Não surpreende, por isso, que exista muita confusão, sobretudo entre jovens, acerca do ensinamento católico relativo ao aborto e ao casamento. Será que os bispos vão assumir a responsabilidade por esta perda de fé católica em questões tais como o aborto, o casamento, a eutanásia e outros temas morais que se deve à ausência de censura pública de políticos católicos ou de instituições cujos funcionários apoiam estes desvaneios morais?

Como é que a história vai julgar esta geração de líderes da Igreja quando a carnificina chegar finalmente ao fim? Como é que as gerações futuras de católicos julgarão os líderes espirituais desta geração se olharem para trás e virem que nenhum político católico foi alguma vez disciplinado por apoiar e votar favoravelmente não só o aborto como a perversão do casamento? Os mesmos políticos católicos que apoiaram o direito a acabar com vidas humanas inocentes estão agora a apoiar o direito ao casamento homossexual e até a pedir à Igreja que mude os seus ensinamentos. A seguir virá, sem dúvida, a eutanásia, disfarçada de misericórdia.

Até parece que a democracia se tornou um absoluto que supera tudo. Se o aborto é imposto democraticamente, ou legalizado por juízes que trabalham num enquadramento democrático, então os líderes da Igreja ficam como que paralisados quando toca a disciplinar os seus próprios fiéis políticos ou juízes. Se agem no contexto de uma democracia, têm carta branca, é isso? Não podemos dar a ideia de estar a minar a democracia disciplinando sequer católicos que votam pelo direito a matar os inocentes?

Um abortista católico está automaticamente excomungado, mas com o político católico que vota de forma a permitir que o abortista possa exercer o seu trabalho, não se passa nada? Se o juiz [do Supremo Tribunal] Anthony Kennedy atropelar o ensinamento católico com uma decisão bizarra no caso Obergefell [que legalizou o casamento homossexual nos EUA], com ele também não se passa nada. Os políticos e os juízes católicos não podem ser beliscados pela disciplina católica, porque agem a coberto da democracia e da separação entre a Igreja e o Estado e tudo isso. Por isso o juiz Kennedy continua a ser tratado como homem honrado e – mais ainda – pode continuar a afirmar-se um bom católico sem demais consequências.

Questiono-me se um futuro Papa terá de pedir perdão por toda esta hesitação da parte dos bispos de exercer a sua liderança através da disciplina pública, e não só por palavras, mas cobrindo-se de saco e sentando-se em cinzas, penitenciando-se pela fraca resposta dos líderes da Igreja enquanto dezenas de milhões de novos e velhos pagavam o preço dessa inacção com as suas próprias vidas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Bispos a prazo e santuário iluminado

Santuário do Senhor Jesus da Piedade
O sínodo da família e a ameaça colocada pelo Estado Islâmico são dois dos temas que foram abordados na noite de ontem pelos participantes no debate sobre religião na Renascença. Recordo que este debate, moderado por José Pedro Frazão, conta com a participação do juiz Pedro Vaz Patto, D. Nuno Brás, Aura Miguel e, agora, o jornalista António Marujo. Podem ler aqui um apanhado e ouvir o debate na íntegra.

O Papa criticou hoje os “bispos a prazo”, isto é, os bispos que estão numa diocese mas já de olhos postos noutra…

O Santuário do Senhor Jesus da Piedade, em Elvas, está iluminada por estes dias das festas locais. Vale a pena ler a reportagem e ver algumas das imagens da Igreja.

Não deixem ainda de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, onde Robert Royal levanta a questão que a Igreja tem de debater. O conflito com o Estado Islâmico pode ser considerado “guerra justa”?

terça-feira, 16 de julho de 2013

Marianne, a ucraniana revolucionária

Inna Shevchenko: Activista, Feminista,
Inspiradora de selos e carrasca de cruzes
A semana passada divulguei uma notícia que indicava que o Papa tinha escrito à Alitalia a dizer que não queria luxos nem uma cama no avião que o transporta para o Brasil. Hoje, porém, o Vaticano negou a existência da dita carta. (Mas não vai haver cama à mesma).

O Papa tem, entretanto, muito trabalho pela frente. Há pelo menos 170 dioceses, ou equivalentes, a precisar de bispo. Isto sem contar a China!

Esperamos que todos possam ter a fibra de Seán O’Malley, o arcebispo de Boston, que em Setembro volta a Portugal para participar num encontro da Pastoral Social, em Fátima.


Um novo selo francês, que mostra a famosa “Marianne” da Revolução Francesa, teve como inspiração uma ucraniana que se tornou famosa depois de derrubar um crucifixo de madeira, com vários metros, usando uma serra eléctrica e em tronco nu. Parece-me adequado.


E terminamos com uma notícia mais triste. Uma freira indiana foi raptada e repetidamente violada, ao longo de uma semana. Ao que parece as causas são um feudo familiar e não perseguição anticristã especificamente, mas tudo se passou em Orissa, onde há cinco anos houve uma grande perseguição aos cristãos.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Bispos, cardeais e idosos

Parabéns pelos quinhentos anos!
Terminou hoje a Assembleia Plenária da Conferência Episcopal. Os bispos lamentam que a Igreja não tenha sido tida nem achada pela troika e deixam um apelo: “não apertem demais, porque precisamos de respirar”.

Mudando de bispo, o auxiliar de Lisboa D. Nuno Brás falou ontem no debate na Renascença sobre o Átrio dos Gentios que “pode mostrar que Cristo não saiu de moda”. A questão demográfica também foi abordada.

Passando de bispo para cardeal, mas recuando cinco séculos… O cardeal-rei D. Henrique faria anos hoje. Évora não o esquece.

E está agora a ser lançado um livro que visa angariar dinheiro para a paróquia de São Nicolau ajudar os idosos da baixa. Conheça os detalhes aqui.

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