quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Casamento Católico: Pelo Caminho

Bevil Bramwell, OMI
Com a chegada do ano novo, pode ser útil recordar-nos daquilo com o qual estamos comprometidos. Como sabemos, Jesus denominou-se “o Caminho, a Verdade e a Vida”, e disse ainda, “Ninguém chega ao Pai senão por mim” (João 14,6). Por isso a sua pessoa é o Caminho.

Quando os primeiros cristãos eram perseguidos, os seus algozes procuravam “homens e mulheres que pertencessem ao caminho”, (Actos 9,2). O Papa emérito Bento XVI desenvolveu a questão do Catolicismo enquanto um caminho e não uma religião, no sentido de que não pode ser reduzido a uma mera listagem de coisas a cumprir.

O Catolicismo é, antes, a forma de vida completa e total, encorporada em Cristo – aquele que vive cada dia em cumprimento da vontade do Pai. Em contraste, numa religião os nossos deveres para com Deus ficam cumpridos. A religião permite ter tempo livre da religião! Ficamos com tempo para actividades seculares – como se alguma coisa fosse verdadeiramente secular.

As pessoas que se deixam envolver com “religiões” normalmente acabam por ter mais que uma. Pode passar por um recurso ao Cristianismo em situações de emergência; obsessão por compras; fascínio por sexo; fixação por um clube; dependência de um meio social; preocupação com o sucesso dos negócios. Sendo uma pessoa religiosa, neste sentido, significa passar a vida a saltitar de uma religião para outra.

Mas estar no caminho, por sua vez, significa sujeitar-se de forma humilde às situações, porque elas vêm de Deus. Daí compreendemos que: “Um samaritano, porém, que também estava a viajar por aquele mesmo caminho, teve pena do homem quando o viu. Chegou perto dele e fez curativos para as suas feridas, colocando nelas azeite e vinho. Depois disso, colocou o homem no seu jumento e levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.” Este é o dom desinteressado de si ao outro, por amor. Este é o coração do caminho.

Pela mesma lógica, um casamento pode ser “religioso” ou pode ser um casamento do caminho. Num casamento “religioso”, neste sentido de que falamos aqui, há uma série de deveres que compõem o “casamento” e quando estes estiverem cumpridos então já não há nada por fazer. Claro que se isso não me deixar satisfeito então tenho a opção do divórcio, porque da minha parte já fiz tudo o que se esperava. Repare-se como esta lógica está centrada no “eu”. Este “casamento” é uma construção minha e não uma realidade de Deus. O “casamento” é o meu projecto e está fechado ao outro e a Deus.

Tertuliano
Contudo, se o meu for um casamento no caminho, então eu e a minha mulher passaremos cada segundo a aprender a dar-nos desinteressadamente, no amor. (Entenda-se “amor” como o trabalhar para o bem do outro). Aprendemos a fazê-lo com Jesus, que nos acompanha. Descobriremos o que isto significa aos 25 anos, e depois ainda mais aos 50 e mais ainda aos 75. A base e a fonte do casamento entre mim e a minha mulher é o casamento entre Cristo e a sua Igreja.
 
A vida no caminho para Deus não tem quaisquer limites imaginados e auto-impostos. Estamos a caminho da infinidade de Deus e por isso não podemos sequer começar a imaginar o que significa amar-nos, ou o quanto eu e a minha mulher conseguiremos amar. Tentar fazê-lo é impor limites a Deus e contentar-nos com a ideologia mundana do momento.

Estando casado pelo caminho, encontro-me aberto a tornar-me mais do que alguma vez conseguiria imaginar. Enquanto marido e mulher, descobrimos o sentido da vida à medida que caminhamos. Quando o amor chega a este ponto, torna-se mesmo um amor desinteressado. É por isso que o casamento é para toda a vida. É por isso que o casamento é salvífico – ajudamo-nos um ao outro e aos nossos filhos, a caminho de Deus.

Ouçamos o que Tertuliano tem a dizer sobre este tipo de casamento:

Ambos são filhos do mesmo Pai, servos do mesmo Senhor, formando uma só carne, um só espírito. Oram juntos, adoram juntos, jejuam juntos, ensinam-se um ao outro, encorajam-se um ao outro, apoiam-se um ao outro. 
Encontramo-los juntos na igreja, juntos no banquete divino. Partilham por igual a pobreza e a abundância, as perseguições e as consolações. Não há segredos entre eles, nenhuma falsidade: confiança inviolável, solicitude recíproca, nenhum motivo de tristeza. Não têm de se esconder um do outro para visitar os doentes, para dar assistência aos indigentes; a sua esmola não é motivo de disputa, os seus sacrifícios não conhecem escrúpulos, a observância dos seus deveres quotidianos é sem entraves. 
Entre eles não há sinais da cruz furtivos, nem saudações inquietas, nem acções de graças mudas. Da sua boca, livre como o seu coração, elevam-se hinos e cânticos; a sua única rivalidade é a de ver quem celebra melhor os louvores do Senhor. Cristo alegra-Se com tal união; a tais esposos Ele envia a sua paz.

Isto é o casamento no caminho do Senhor!


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 29 de Dezembro 2013 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

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