quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Houve Erros

Stephen P. White
Para aqueles que acham que o clericalismo não desempenhou um papel muito importante na crise de abusos na Igreja Católica, o Relatório McCarrick, publicado esta semana, deve chegar para mudarem de ideias. O relatório revela uma cultura clerical insular e burocratizada que serviu as ambições de um homem como Theodore McCarrick, que soube manipular e tirar partido do sistema muito mais do que a Igreja e o Evangelho. E certamente muito melhor do que serviu as muitas vítimas do comportamento predador de McCarrick.

Quem esperava o desmascarar de uma grande conspiração também vai ficar desiludido. A banalidade das falhas institucionais a este nível não é nem emocionante nem satisfatória, mas sempre foi a explicação mais provável e plausível. E continua a ser. O relatório tem limitações, claro, e deixa muitas perguntas por responder. Mas também apresenta um relato detalhado e incriminador de falhanços institucionais que decorreram ao longo de décadas e vários pontificados.

O que se segue são apenas algumas breves reflexões que me ocorreram depois de ler o relatório inteiro:

Os imites do relatório

O relatório depende em larga medida em dois tipos de fonte: registos de arquivo e entrevistas com pessoas relevantes. O resultado é um olhar público, sem precedentes, para a correspondência entre prelados tanto nos Estados Unidos como em Roma, bem como um relato das alegações contra McCarrick tal como foram recebidos antes de 2017.

Podemos aprender muito desta correspondência oficial e dos arquivos; o que não podemos aprender são o tipo de detalhes e de informação que jamais entrariam na correspondência oficial e nos arquivos.

No que diz respeito às entrevistas, muitos dos agentes principais, sobretudo os envolvidos no início da carreira de McCarrick, já morreram. Outras entrevistas dizem respeito a eventos que já aconteceram há décadas. E a fiabilidade das entrevistas depende não só da memória dos entrevistados, mas também da sua honestidade e candor.

Um relatório deste género apresenta necessariamente um retrato incompleto. É importante reconhecer estes limites tanto para evitar a falsa impressão de que se trata de um relato totalmente abrangente da matéria, como para evitar a falsa impressão de que as suas falhas são prova de um embuste.

Quem soube o quê e quando?

Uma série de bispos, tanto nos Estados Unidos como em Roma, estavam claramente cientes dos boatos sobre McCarrick em meados dos anos 90. Alguns sabiam até de um pequeno número de alegações específicas sobre McCarrick, mas não as acharam credíveis. E foi isso que dissram a Roma. Nenhum dos prelados referidos no relatório – mesmo os que, como o cardeal O’Connor, recomendaram que McCarrick não tivesse mais promoções – estava disposto a indicar de forma firme que achava McCarrick culpado. Se algum deles teve dúvidas sérias sobre a sua inocência, ninguém o disse.

Se isso se deveu à vontade excessiva de acreditar na inocência de um amigo, uma recusa em levar a sério a insinuação de que um irmão no episcopado pudesse cometer tais actos, ou algo mais grave, é impossível saber com base no relatório.

O que é claro é que simplesmente não existiu vontade de levar a cabo o tipo de investigação que poderia de facto descobrir a verdade. O risco de escândalo era demasiado grande e a deferência para com um colega bispo era demasiado forte. As tentativas de investigação que de facto aconteceram normalmente envolverem bispos a telefonar ou a escrever a outros bispos para perguntar o que sabiam sobre estes rumores envolvendo o seu amigo comum, McCarrick. Só quando surgiram as alegações de que McCarrick tinha abusado de um menor é que o cardeal Dolan ordenou uma investigação, envolvendo investigadores leigos, em 2017.

McCarrick era um mestre do engano

McCarrick era um mentiroso nojento. A forma como tentou tirar partido de alegações anónimas e rumores realça a sua capacidade de manipulação. Insistiu que estes ataques partiam dos seus inimigos, tanto à direita como à esquerda. Como prova de transparência, encaminhou as acusações anónimas feitas contra ele para o FBI e informou o concelho presbiteral. Até admitiu a alguns bispos, incluindo em Roma, que tinha sido imprudente ao partilhar a cama com seminaristas na casa de praia, mas que não tinha passado disso.

E enquanto tudo isto acontecia McCarrick continuava a tornar-se indispensável: entrando nas boas graças dos outros bispos, da conferência episcopal, do núncio, da Curia Romana e fazendo parte de incontáveis direções e caridades, fazendo dezenas de viagens internacionais em nome da Igreja e construindo relações próximas com amigos ricos e bem colocados politicamente.

O que os Papas sabiam

Antes da nomeação de McCarrick para Washington DC, em 2000, Roma pediu a quatro bispos que tinham servido com McCarrick para comentarem se ele era apto a ser promovido, sobretudo dados os boatos persistentes em torno do seu comportamento. De acordo com o relatório: “Três dos quatro bispos americanos forneceram à Santa Sé informação incompleta e errada sobre o contudo sexual de McCarrick com jovens adultos. Parece provável que esta informação errada tenha tido impacto sobre as conclusões a tirar pelos conselheiros de João Paulo II e, por consequência, pelo próprio João Paulo II.”

McCarrick e João Paulo II

O Papa Bento XVI sai do relatório essencialmente como ineficiente – sem vontade de impor sanções concretas a McCarrick e ou sem vontade, ou incapaz, de fazer cumprir as “indicações” informais que o convidavam a manter um perfil discreto.

O Papa Francisco parece ter dado pouca atenção a McCarrick antes de 2017. As limitações que Bento XVI tinha imposto eram, de acordo com Viganò, “letra morta” antes de Francisco ter sido sequer eleito. As ordens de Roma para que o então núncio investigasse mais a fundo as alegações contra McCarrick em 2012 nunca foram cumpridas. Depois de ter sido eleito, Francisco não mostrou interesse em examinar a forma como os seus antecessores tinham lidado com o americano.

Perguntas sem resposta

O relatório levanta uma série de outras perguntas: Porque é que a CDF não foi consultada, como era protocolo, antes de ter sido aprovada a nomeação de McCarrick para Washington? Quem é que passou a McCarrick o conteúdo da carta confidencial escrita pelo cardeal O’Connor, recomendando que ele não fosse promovido de Newark para outra diocese? Haverá repercussões para altos prelados – penso especificamente nos cardeais Wuerl e Farrell – cujas afirmações de que não tinham qualquer conhecimento sobre os rumores em torno de McCarrick em 2018 são diretamente contraditas pelo relatório?

Mas a grande pergunta que persiste é esta: Que garantias temos de que este relatório não está manchado pela mesma cultura de clericalismo que descreve com tanto detalhe? E essa e uma questão que é tão difícil responder como é de evitar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Novembro de 2020)

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