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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

As Moedas da Viúva

Randall Smith
Conta-se que quando estavam a restaurar a Estátua da Liberdade, no início dos anos 80, e para o efeito estava-se a recolher fundos em todo o país, apareceu um envelope com duas moedas de dez cêntimos, e um bilhete de um rapazinho, que dizia: “Isto é o meu dinheiro para o almoço de hoje, mas estou a enviá-lo para a Estátua da Liberdade. Por favor usam-no com juízo”.

Se for verdade, então é uma versão moderna da história das moedas da viúva (Marcos, 12, 41-44 e Lucas 21, 1-4), em que uma viúva pobre doou duas moedinhas, as mais baixas em circulação, ao tesouro do Templo. “Chamando a si os discípulos”, diz Marcos, “Jesus disse-lhes. ‘Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.’”

É uma história maravilhosa, no geral toda a gente gosta dela. Às vezes preocupo-me que gostamos muito dela porque é uma daquelas parábolas em que os ricos parecem ser denunciados e os pobres (que associamos a nós mesmos, apesar de vivermos no país mais rico do mundo) são elogiados. “Sim, os pobres como eu é que vão para o Céu e aqueles arrogantes ricos idiotas vão finalmente levar com o que merecem.”

Talvez não seja essa a melhor lição a tirar desta história, uma vez que somos um povo rico, a quem muito foi dado, e de quem muito se esperará. E que, se formos honestos connosco mesmos, normalmente contribuímos do que temos a mais e não do nosso sustento. Por isso talvez seja melhor deixar de parte os nossos ressentimentos financeiros por enquanto e considerar outras duas lições que a Igreja pode aprender com a história desta viúva e do jovem que enviou o seu dinheiro do almoço com a recomendação de que fosse usado com juízo.

A primeira lição, que deve ser aprendida por certos bispos, é de que o dinheiro do “tesouro do Templo” não é vosso. O dinheiro é da viúva e ela confiou-o à Igreja e ao vosso cuidado. O vosso dever passa por usá-lo sábia e dignamente.

Com cada despesa o bispo deve perguntar: O uso deste dinheiro é digno da pobreza e do amor da pessoa que o doou? Aquela viúva deixou as duas moedas no cesto da colecta para que pudesse voar em primeira classe para Roma? Doou para que pudesse oferecer presentes caros àqueles de quem espera obter favores?  

Poucas coisas metem mais nojo do que prelados que tratam o dinheiro doado como se fosse sua propriedade, para disporem como quiserem. Talvez esta não seja a melhor altura para referir que no seu último encontro os bispos americanos votaram para aumentar as contribuições das dioceses do país em 3% para financiar as diversas atividades da conferência episcopal. Acredito que as usem com juízo.

Mas a segunda lição é para todos nós e é sem dúvida mais importante, uma vez que é menos diretamente “financeira”. Seja qual for o nosso talento, é o suficiente que o ofereçamos a Deus. Especialmente em tempos difíceis como estes, quando as grandes movimentações no mundo e na Igreja parecem estar fora do nosso alcance, é tentador dizer: “Eu? O que é que eu posso fazer? Como é que posso contribuir?” Se Deus to deu, então chega.

Lembram-se da história da multiplicação dos pães e dos peixes? (João 6, 1-14). Vendo a multidão de “cerca de cinco mil”, Jesus disse a Filipe: “Onde é que podemos comprar pão para eles comerem?” Filipe responde. “Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho”. Outro dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro, falou, dizendo: “Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes.” O resto, como dizem, é história. Jesus tomou os dois pães e os peixes e deu de comer a toda a multidão. E depois de se terem saciado, ainda sobraram 12 cestos com os restos.

Esta história também é famosa, e com razão. Mas não queremos perder de vista a importância de uma das personagens menores: o rapazito. Os cinco pães e os dois peixes eram tudo o que ele tinha para comer o dia todo. Quando os apóstolos lhos pediram, podemos imaginá-lo a responder. “Isto? Não. É tudo o que tenho. Procurem um rico com muito pão”. Mas não o fez. Deu o pouco que tinha. Não era muito, mas era o suficiente.

Imaginem ser este rapaz e virem ter consigo as pessoas que perguntam: “Foste tu que deste os cinco pães e os dois peixes que alimentaram os cinco mil?” O que diria? “Bem, sim. Mas não é como se eu tivesse alimentado aquelas pessoas todas”. “Não, mas se não tivesses sido tu não tinha acontecido nada. Foi como Maria. Fizeste a tua parte, deste o teu ‘Sim’, e isso fez toda a diferença”.

Por isso, caro amigo, só tens é que dar os teus míseros cinco pães e dois peixes, de forma altruísta, de graça, sem qualquer desejo de lucro ou de promoção, e depois confiar que Deus consiga alimentar milhares com os dons que Ele te deu. É a estranha matemática do amor, multiplica-se. O dom altruísta do amor entre duas pessoas cria uma terceira, e depois outra, e outra, até que há trinta-e-cinco netos. Um pequeno grupo de amigos pode produzir bons efeitos que se expandem de forma exponencial, sozinhos, sem os mecanismos do poder, da propaganda e do controlo social.

É uma Igreja grande, um mundo enorme, com milhares de milhões de pessoas. “Que posso eu fazer?” Dá as tuas duas moedas. Dá os teus pães e um par de peixes. Depois deixa que Deus faça a cena dele.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020)


© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Cristãos em queda nos EUA e aliviados na Síria

Inês Leitão
O Cristianismo continua a perder peso nos Estados Unidos, com o número de pessoa que se identificam com esta religião a cair 12 pontos percentuais nos últimos dez anos.

Na Síria chegámos a um ponto em que a operação “Primavera da Paz” se está a transformar na operação “Pesadelo de Erdogan”. A bola parece estar no campo dos curdos, agora, mas os cristãos contactados pela Ajuda à Igreja que Sofre dizem-se aliviados pela chegada das tropas leais ao regime de Bashar al-Assad.

No dia para a erradicação da Pobreza a Renascença falou com Inês Leitão, a realizadora que foi a Moçambique ver o que a Cáritas tem feito para ajudar as vítimas dos ciclones.

Se não conhece ainda, fique a conhecer o trabalho feito pela Irmandade da Misericórdia de São Roque, que cumpre o importantíssimo trabalho de sepultar os mortos que não têm ninguém.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é da autoria de Michael Pakaluk, que analisa o mais recente livro de R.R. Reno. Vale a pena ler.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A raiz perversa da pobreza, segundo o Papa Francisco

O Papa Francisco almoçou com cerca de três mil pobres, ontem em Roma, na segunda Jornada Mundial dos Pobres. Antes celebrou missa e criticou a injustiça, que é a “raiz perversa da pobreza”. O Papa elencou ainda diferentes classes de pobreza, incluindo os bebés que não chegam a nascer e as populações privadas dos seus recursos naturais.

Ontem houve ainda a celebração do Angelus, como é tradicional. O Papa recordou as vítimas de um terrível massacre de cristãos na República Centro Africana e também as vítimas mortais dos incêndios na Califórnia.

A Faculdade de Teologia da Universidade Católica tem nova direcção. Pela primeira vez na sua história a directora é uma mulher e leiga, embora consagrada. A Renascença deu a notícia na véspera de o Papa ter valorizado o papel das mulheres na teologia.

Os Jesuítas de Angola juntam-se aos bispos do Congo ao manifestar preocupação pela situação de centenas de milhares de congoleses deportados de Angola e que poderão ter sido vítimas de maus-tratos.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre o perigo para a alma dos bispos que encobrem casos de abusos sexuais praticados pelo clero. Pode também gostar de ler outro artigo na mesma linha, da semana anterior, sobre como a sua oração e os seus sacrifícios espirituais podem beneficiar a Igreja nesta fase difícil que atravessa.

Termino com um aviso. No dia 27 de Novembro há concerto dos Simplus, no auditório da Igreja de Santa Joana Princesa, em Lisboa. A cara mais bonita desta dupla de artistas católicos fala sobre o seu trabalho nesta entrevista a Aura Miguel. Todas as informações no cartaz anexo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Papa em África, Bebé em Manjedoura

Away in a manger...
O Papa Francisco chegou hoje a Nairobi para o começo da sua primeira viagem de sempre a África. Falou de pobreza e de terrorismo naquele que é visto como um dos países mais estáveis de África.

Na antevisão da visita, um missionário português com larga experiência de África diz que o Papa deve ver o continente com os olhos do coração.

Começou ontem o processo Vatileaks II, sob protesto dos jornalistas acusados. O Padre Saturino Gomes, que trabalha na Curia Romana, lamenta que o caso coloque os restantes funcionários do Vaticano sob suspeita.

Um bebé foi abandonado na passada segunda-feira. Onde? Na manjedoura do presépio de uma Igreja em Nova Iorque.

O artigo desta semana do The Catholic Thing foca um dos grandes problemas espirituais do mundo actual. A pornografia é um dos factores que leva à dessacralização do corpo e, por extensão, da própria humanidade. Não perca o artigo do estreante Pe. John McCloskey.

Termino com um aviso. Amanhã é o lançamento do livro do meu amigo José Luís Nunes Martins: Os Infinitos do Amor. É às 19h no Teatro Nacional São Carlos, em Lisboa. Se puderem não deixem de ir.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Edição Epidemia - Ébola & Estado Islâmico

Uma igreja assíria recentemente
ocupada pelo Estado Islâmico
O Papa Francisco disse ontem que as “nossas” necessidades não são mais urgentes que as dos pobres e convidou todos a não desviar o olhar dos necessitados.

Foi ordenado ontem um bispo na Ucrânia. Nada de espantoso, não tivesse ele apenas 37 anos, sendo o mais novo da Igreja Católica neste momento.

O surto de ébola continua a fazer vítimas. Para além das centenas de africanos que têm morrido nos seus países, vários ocidentais, sobretudo funcionários de saúde, têm sido infectados também. Destes, muitos são missionários, leigos ou religiosos. Esta segunda-feira soube-se que um padre espanhol de 75 anos, na Libéria, poderá ser a mais recente vítima.

No sábado houve uma série de manifestações em todo o mundo de solidariedade com os cristãos perseguidos no Iraque. Os manifestantes pedem ainda a criação de uma região autónoma no Iraque para poderem viver em paz. Mais sobre isto amanhã…

Entretanto para quarta-feira dia 6 de Agosto foi decretado um dia de oração pelos cristãos iraquianos. Pode saber mais neste site criado para o efeito.

A situação para os cristãos no Iraque não tem dá ares de estar a melhorar. Pelo contrário, durante o fim-de-semana os terroristas do Estado Islâmico ocuparam mais território no Norte do Iraque, incluindo aldeias e vilas historicamente cristãs e de outras minorias religiosas, que foram obrigadas a fugir. Os soldados curdos, que até agora comandavam estes territórios, prometem regressar em força e destruir o Estado Islâmico “sem piedade” dentro de 72 horas. Parece optimista, mas estou a torcer por vocês amigos…

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Homo Faber

Brad Miner
O William E. Carroll escreveu recentemente numa destas colunas que uma das “marcas do pontificado do Papa Francisco tem sido a chamada de atenção para a pobreza no mundo”.

Penso que o Papa o está a fazer por duas razões: Os pobres, que sempre teremos connosco, precisam da nossa ajuda – nalguns casos, de forma urgente. Esta ajuda está no âmago da nossa própria salvação, como o Papa deixa bem claro na história dos bodes e das ovelhas: em qualquer pessoa a quem damos comida, abrigo ou amor, servimos Jesus. E ao rejeitar os necessitados, rejeitamos o Senhor.

Mas, como digo, há ainda outra razão.

Quando São Francisco rezava nas ruínas da Igreja de São Damião, Cristo disse-lhe: “Francesco, va ripara la mia chiesa”. Francisco, vai reparar a minha Igreja. O Papa Francisco ouviu um apelo semelhante e está a abandonar muita da pompa tradicional dos papas: Vivendo na casa de Santa Marta e escolhendo um Renault com 30 anos para passear pelo Vaticano, levando os especialistas a brincar, dizendo: “Eis um homem que acredita no poder da oração”.

Diz-se que o Papa tem inspeccionado os parques de estacionamento do Vaticano, à procura de carros de luxo pertencentes a clérigos e apelando aos padres para que usem modelos mais básicos, de preferência em segunda mão.

Só estive uma vez no Vaticano, e foi das experiências mais fascinantes da minha vida. Mas existe muita opulência. Vêem-se cardeais a ir e a vir e a expressão “príncipes da Igreja” parece apropriada. Consigo entender porque é que algumas pessoas considerariam a beleza e o cerimonial extravagantes do Vaticano contraditórios com a “opção preferencial pelos pobres”.

Jesus não tinha posses. Nunca procurou riqueza. Na verdade, Ele viveu a vida mais simples, menos materialista que possamos imaginar, e alertou-nos para não “acumular tesouros na Terra”.

Não era esta a vida seguida por São Francisco e reconhecida pelo Papa Innocêncio III como essencial para reacender a verdadeira espiritualidade cristã?

Tudo isto deve recordar-nos, como diz o Prof. Carroll, do que “devia ser uma atitude saudável e espiritual para com as posses materiais”. Ainda assim, os esforços do Papa para chamar atenção para os pobres não devem reduzir-se a mera “acção social”, como se a busca do bem-estar dos outros possa preencher os requisitos da missão cristã sem um fundamento na fé propriamente dita.

Penso que há ainda outra questão a sublinhar.

O Prof. Carroll diz que a Igreja “sempre ensinou que o mundo material é bom” e é importante irmos ao fundo das implicações deste ensinamento que, no meu entender, é este: A criatividade, o esforço e a produção não devem ser restringidos pelas concepções materialistas ou anti-materialistas do Cristianismo. Homo faber, o homem criador, é feito à imagem de Deus, ao contrário de qualquer outra das criaturas. As pessoas devem trabalhar para viver e algumas pessoas elevarão o trabalho a um tipo de sacramento.

Há algum tempo escrevi um conto sobre arqueologistas a trabalhar na Galileia que encontravam a casa e a carpintaria de José, Maria e Jesus. Lá, encontram uma simples cadeira de oliveira, enterrada há dois mil anos e preservada miraculosamente. Submetem-na a testes sofisticados e concluem que a cadeira é proporcionalmente “perfeita”. Um analista israelita afirma: “Penso que só Deus poderia ter feito esta cadeira”.
A obra prima de Cecilia Giménez
Jesus deve ter feito muitos objectos. Por ventura imaginamos que algum desses objectos tenha sido devolvido por clientes insatisfeitos? “Esta cadeira é desconfortável”, ou “a nossa mesa abana”. Imaginamos que ele não tenha sido pago pelo trabalho?

Sem qualquer desrespeito pelos trabalhadores franceses que fizeram o Renault de que o Papa gosta, mas tanto quanto sei de carros, os feitos pela Mercedes, a marca admirada por Bento XVI, são melhores. (Actualmente existem uns quantos modelos de Mercedes nas garagens do Vaticano).

Júlio II podia ter escolhido de entre centenas de artistas, e qualquer um teria feito um trabalho aceitável no tecto da capela Sistina, mas ele insistiu em contratar o Michelangelo. O fresco “Ecce Homo” (1930) em Zaragoza, pintado pelo artista Garcia Martínez, pode não ser equivalente ao trabalho de Michelangelo, mas o trabalho de “restauro” pela “artista” octogenária Cecilia Giménez por sua própria iniciativa, não deixa de ser uma profanação.

Esta é a realidade da criatividade humana: transcendente, grande, boa, aceitável, má, péssima. Qualquer sugestão, mesmo deixando de lado os extremos, de que o grande e o mau devem ser valorizados de igual forma não faz qualquer sentido. O trabalho de um grande artista vale mais do que a de um mau, e é assim que deve ser. Ninguém quer sentar-se em cadeiras desconfortáveis ou mesas que abanam. A beleza, a funcionalidade e a durabilidade têm um preço.

É verdade que a boa arte não cessou de existir até na União Soviética – o “realismo socialista” também exigia técnica – apesar de os artistas serem restringidos quanto a matéria e estilo. Mas em todo o espaço abrangido pelo Pacto de Varsóvia a inovação industrial e comercial, que é tanto uma expressão de criatividade como as belas artes, foi basicamente depreciado. Luigi Barzini visitou uma fábrica de tractores num dos países do bloco soviético, onde um dos comissários da indústria lhe mostrou, orgulhoso, filas de produto acabado. Barzini, que tinha visitado fábricas americanas, reconheceu o que a empresa era de verdade: um museu de tractores.

Frequentemente, por detrás destes apelos à “justiça económica” existe um erro de fundo: a ilusão da igualdade, frequentemente acompanhados da supressão da criatividade. Claro que todos somos iguais à luz do amor de Deus e dos direitos que dele emanam. Mas um Renault não é um Merceds, tal como o trabalho da Cecilia Giménez não é comparável com a do Michelangelo.

Não pretendo julgar o seu pontificado, mas diria que o facto de o Papa ter escolhido um Renault tem um lado positive e outro negativo. Enquanto um mero apelo à simplicidade, traz uma lição importante, desde que não o confundamos com um incentivo a pensar que aquilo que é materialmente pior é espiritualmente superior.


(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 21 de Outubro 2013 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador senior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Caneta da paz.catholic

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O Papa recebeu esta manhã o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas. Francisco ofereceu uma caneta a Abbas, que disse querer assinar com ela um tratado de paz com Israel. Oxalá!

África já não é um destino de missionários, mas sim um ponto de partida. É sobre isso que se discute hoje e amanhã num colóquio no Porto. Helena Vilaça explica tudo aqui.

Esta “entrevista” que fiz à Helena Vilaça ia ser uma coisa tão curta que nem ia publicar a transcrição. Mas em apenas 10 minutos ela disse coisas tão interessantes sobre esta realidade que não resisti. Leiam, que vale bem a pena.



Hoje é dia internacional para a erradicação da pobreza. Neste dia os sem-abrigo de Lisboa vão receber mapas de serviços de apoio e na Basílica dos Mártires celebra-se missa por intenção das 94 pessoas que morreram absolutamente sozinhas ao longo deste ano.

Os paulistas fazem 70 anos amanhã. Há descontos nas livrarias e um prémio literário


Termino com um desafio. Jantar de angariação de fundos organizado pelo movimento Comunhão e Libertação, amanhã em Lisboa. Inclui noite de fados e conferência de Aura Miguel. A informação está na imagem.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Luxúria

Randall Smith
Há uma velha piada sobre um noviço que está a conhecer o mosteiro da sua ordem mendicante. Enquanto olha, pasmado, para os quartos aprumados, a mobília luxuosa e os plasmas caríssimos na parede, exclama: “Se isto é pobreza, que venha a castidade!” Segundo consta, isto passou-se na realidade, recentemente, quando um grande benfeitor fazia uma visita guiada a um mosteiro de frades mendicantes no Leste dos Estados Unidos.

Como é hábito com o humor satírico, há aqui não só um grão de verdade nos detalhes, mas também uma sabedoria mais profunda. A relação entre pisar ligeiramente a linha no que diz respeito aos votos de pobreza, e dar vários saltos no que diz respeito aos de castidade, não é acidental. Os mestres espirituais da Idade Média, com uma sabedoria que nos escapa, costumavam falar dos perigos da luxúria, de viver uma vida “morna”, rodeada de confortos. O Papa Francisco recentemente avisou para o mesmo perigo.

Da minha parte, não posso deixar de pensar que o horror da pedofilia na Igreja terá sido causado não só pela sexualização da cultura nas décadas de 60 e 70, mas também pela incapacidade de dominar os desejos próprios, a justificação mais ouvida para a violação dos votos sacerdotais, uma realidade que radica na excessiva luxuria em que viviam os clérigos nas décadas de 40 e 50: Seminários confortáveis, boas refeições, “palácios” episcopais, botões de punho chiques, camisas brancas engomadas... todos os luxos do homem de negócios de classe média-alta. Imaginem o Don Draper, dos Mad Men, como padre, e ficam com uma ideia.

Um amigo meu europeu comentou uma vez: “Os vossos padres, aqui na América, são tão... burgueses”. Vivem em casas confortáveis, conduzem carros confortáveis, dão o seu tempo a causas confortáveis. As exigências que fazem à “carne” são decididamente poucas e as acomodações ao “mundo” são muitas.

Claro que também há padres que vivem vidas modestas e santas, mas não são tantos como deviam ser.

Frequentemente ouvimos os padres a dizer nas suas homilias que devemos aprender a viver fora das nossas “zonas de conforto”. O seu sentido é “espiritual”, ou seja, “metafórico”. É uma frase feita que aprenderam durante o curso de psicologia que tiraram em vez de se prepararem para o sacerdócio, estudando os padres e os doutores da Igreja.

São Francisco teve uma atitude diferente. Quando ouviu dizer: “Vai, vende tudo o que tens e segue-me”, foi precisamente isso que fez. E quando ouviu: “Francisco, restaura a minha Igreja”, restaurou literalmente a Igreja de São Damião. Com o Papa Francisco teremos um novo modelo para o clero? Segundo este modelo, se os padres acreditam que é importante (como insistem em dizer), sair da nossa “zona de conforto”, então talvez pudessem começar por dar o exemplo, saindo das suas zonas de conforto, literalmente.

Quando ouvimos falar em monges medievais a “disciplinar a carne”, pensamos que terão estado envolvidos nalguma forma de auto-flagelação  Na maioria dos casos, não. Não é que nunca o fizessem, é simplesmente que quando o faziam era normalmente para se recordarem de maiores graus de disciplina que deviam observar, uma disciplina de mente e de espírito – de toda a vida, incluindo desejos, vontade e intelecto, orientados para Deus.

Modelo para os padres dos anos 50?

Na Bíblia, quando São Paulo fala em não sucumbir aos desejos “da carne”, não está a dizer que o corpo é mau, da mesma maneira que quando diz que não devemos sucumbir aos desejos “mundanos”, não está a dizer que o mundo é mau. O mundo que Deus criou é bom, “muito bom”, como é a carne na qual fomos criados e na qual ele encarnou. O problema surge quando “o mundo”, em vez de nos guiar em direcção ao seu criador, nos leva no sentido contrário. O problema surge quando “a carne”, em vez de servir a pessoa, se torna mestra, e nós nos tornamos escravos dos nossos apetites e desejos.

E atenção, logo que que os desejos menores se começam a tornar nossos mestres, mais ninguém o poderá fazer. Quando começam as pequenas infidelidades contra a pobreza e a castidade, não tardarão as infidelidades contra a obediência. “Não devo obediência aos meus superiores”, ouvimos dizer. “Não enho de temperar a minha teimosia”. “Afinal de contas, porque é que existem todas estas regras tontas – regras contra ‘sentimentos’ e ‘desejos’ perfeitamente normais?” Sim, são sentimentos e desejos “perfeitamente normais”. Mas isso não significa que tenham de ser saciados. Quando começamos a pensar que sim – que têm de o ser – então é porque as sementes da infidelidade mais séria já foram plantadas.

A Igreja já esteve nesta posição. Os católicos nem sempre percebem o quão “morno” e corrupto o clero se tinha tornado antes do Concílio de Trento. Padres com pouca educação e ainda menos formação espiritual, tachos confortáveis e uma amante ou duas à disposição: Lutero tinha muita matéria para trabalhar.

É precisamente por causa do Concílio de Trento, aliás, que temos seminários. A ideia era serem um tipo de pequenos mosteiros, onde as virtudes monásticas podiam ser cultivadas e os votos de pobreza, castidade e obediência aperfeiçoados. Seriam espaços para ensinar aos jovens padres aquilo que os mosteiros já sabiam há séculos, nomeadamente que “disciplinar a carne” significa, em primeiro lugar, não ceder às tentações da luxuria – da “moleza”.

Se nas próximas décadas virmos uma “nova envangelização”, então será necessário os bispos aprenderem com as lições do passado sobre a renovação sacerdotal. Aqueles padres a viver, sozinhos, em casas nos subúrbios... são um desastre à espera de acontecer. Senhores bispos, chamem-nos de volta a casa para viverem convosco em comunidade. Viver com os seus padres numa comunidade monástica foi o que fez Santo Agostinho em Hipona, e ele mudou o mundo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no quinta-feira, 25 de Abril 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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