quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Onde estão os Eleitores Católicos?


David Carlin
Nos anos 30 e 40 do Século XX a esquerda americana dividia-se em três grupos:

Primeiro, a extrema-esquerda (os vermelhos) – composta sobretudo por membros do Partido Comunista dos Estados Unidos.

Depois, a esquerda mainstream (os rosas) – composta sobretudo por socialistas, alguns dos quais anticomunistas e outros pró-comunistas (companheiros de estrada).

Em terceiro lugar, a esquerda moderada, composta por liberais, quase todos democratas, como Walter Reuther, Hubert Humphrey, Franklin e Eleanor Roosevelt.

Nessa altura a extrema-esquerda influenciava a esquerda mainstream e esta influenciava a esquerda moderada. Por outras palavras, os comunistas influenciavam os socialistas e os socialistas influenciavam os democratas liberais. Assim, indiretamente, os comunistas influenciavam os democratas.

Quando começou a Guerra Fria, logo depois da II Guerra Mundial, e as relações amigáveis que existiram durante a guerra entre os EUA e a União Soviética se dissolveram rapidamente, os democratas liberais decidiram que deviam erguer um “muro de separação” entre eles e todos os que se situavam à sua esquerda. Por isso os liberais tornaram-se ferozmente anticomunistas e antissoviéticos e expulsaram os comunistas e os seus companheiros de estrada dos sindicatos. A anterior atitude de “nenhum inimigo à esquerda” deu lugar a uma atitude de “todos à esquerda são inimigos”.

Este “muro de separação” não só permitiu aos liberais evitar qualquer influência vermelha ou cor-de-rosa, como lhes permitiu ainda formar alianças políticas e culturais com os centristas, ou seja, os americanos comuns que não se consideram nem de esquerda nem de direita, nem liberais nem conservadores.

Era esta aliança entre os liberais e os centristas que caracterizava o Partido Democrata, configurada em personalidades como Harry Truman, John Kennedy e Lyndon Johnson. Isso permitiu aos liberais (isto é, esquerda moderada) apresentarem-se como 100% americanos. Os liberais podiam apresentar-se como sendo tão patriotas como a direita e mais, convenciam-se que o seu patriotismo era mais inteligente, logo mais eficiente, que o patriotismo desmiolado da direita.

Esta era uma aliança que se adequava perfeitamente à razão e ao coração dos católicos americanos. Por razões religiosas os católicos opunham-se fortemente ao comunismo e a qualquer forma de esquerda ateia, e por causa do seu estatuto socioeconómico (eram na esmagadora maioria operários ou de classe média baixa) tendiam a apoiar políticas sociais de esquerda moderada. Um Partido Democrata liberal-centrista caía-lhes no goto, tanto que se podia dizer que o Partido Democrata era o partido católico.

O pico desta aliança liberal centrista chegou em Novembro de 1964 quando Lyndon Johnson foi eleito Presidente por esmagadora maioria. Isto aconteceu poucos meses depois da passagem da Civil Rights Act de 1964 e poucos meses antes do Voting Rights Act de 1965.

Mas depois veio a Guerra do Vietname. As secções mais radicais da esquerda americana, que tinham permanecido do lado de lá do “muro da separação” há cerca de vinte anos, começou a desmantelar esse muro. A esquerda radical foi, logo desde o início, fortemente contra o envolvimento no Vietname enquanto que a esquerda moderada (democratas liberais) apoiava o envolvimento americano.

Com o passar dos meses e dos anos o apoio liberal pela guerra foi amolecendo; cada vez mais a esquerda radical e a esquerda moderada começaram a concordar quanto à oposição à guerra. Este consenso antiguerra da esquerda tornou-se perfeitamente claro em 1968 quando dois liberais, Eugene McCarthy e Bobby Kennedy, concorreram à candidatura democrata com base numa posição antiguerra. O muro de separação estava a ruir. (Ironicamente foi Hubert Humphrey, um dos arquitectos desse muro, quem se tornou o candidato democrata nesse ano).


Entretanto a esquerda americana mudou. Em meados dos anos 60 a esquerda radical já não era composta sobretudo por membros do Partido Comunista, uma vez que o comunismo tradicional da União Soviética e dos seus satélites já não exercia grande atração para os radiais americanos, que eram sobretudo jovens imbuídos do espírito da revolução. Outras formas de comunismo já eram mais atraentes para estas pessoas, como por exemplo o de Mao, na China e o de Castro, em Cuba. Estes regimes pareciam genuinamente revolucionários, ao contrário do comunismo maçadoramente burocrático da União Soviética.

Com o passar dos anos e a chegada dos anos 70 o apoio pela guerra do Vietname desapareceu quase por completo entre os liberais e passou a existir sobretudo entre conservadores como o Presidente Nixon e Henry Kissinger. Eventualmente até eles desistiram.

O muro de separação tinha desaparecido. Entre liberais, a ideia era: “Durante anos estávamos errados sobre o Vietname, mas os radicais tinham razão. Devíamos tê-los escutado. Mais, se se eles tinham razão quanto ao Vietname, talvez tivessem razão sobre outras coisas. Devemos dar-lhes um lugar à mesa”.

Desde os anos 70, portanto, a esquerda radical e as suas ideias têm entrado aos poucos para o Partido Democrata. Cada vez mais o partido influenciado pela esquerda mainstream, que por sua vez é influenciada pela esquerda radical, abraçou crenças e valores radicais. O centro de gravidade do partido derivou muito mais para a esquerda.

E é assim que o partido veio gradual, mas enfaticamente, a abraçar ideias radicais em relação ao aborto, à homossexualidade, casamento entre pessoas do mesmo sexo e transgénero. Com a subida de influência de Bernie Sanders caminhou cada vez mais no sentido de que a América se devia tornar “socialista”, querendo com isso dizer que o Governo federal deve ter enormes poderes para dirigir a economia nacional tanto na produção como na distribuição. Agora podemos dizer que a esquerda radical não só está dentro do partido como quase o controla completamente.

E onde é que ficam os católicos, outrora tão satisfeitos com o partido de Roosevelt, Truman, Kennedy e Johnson? O católico comum tem estado a derivar – lentamente, sem grandes certezas – em direção ao Partido Republicano. Será que os católicos vão conseguir transformar o Partido Republicano naquilo que o Partido Democrata já foi, um partido quase católico? Teremos de esperar para ver.


 David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 30 de Outubro de 2020 em The Catholic Thing)

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