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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Quem Restaurará a Igreja?

Stephen P. White
A frequência dominical está em queda. As contribuições financeiras ao nível tanto da paróquia como da diocese também. Há anos que assistimos a um decréscimo dos casamentos e baptismos de crianças. A maioria destas quedas não começou com a crise dos abusos, mas os dados do ano passado indicam que a crise as acelerou.

Quem é que reedificará a Igreja? De onde virá a renovação que todos sabemos ser necessária, e que tanto desejamos ver? Dos bispos? De Roma? Já disse várias vezes: Se algum dia chegar, uma autêntica reforma da Igreja virá através de, e com, o bispo de Roma e os bispos em comunhão com ele. Mas para quem tem fé isso não passa de uma tautologia, não nos leva muito longe.

Confiar que o Senhor preservará a sua Igreja não requer que acreditemos ou esperemos que a reforma surja de Roma ou que comece por iniciativa de um dos sucessores dos apóstolos. A história revela que a maioria das reformas eclesiais não começaram com o Papa. A maioria das reformas não começaram sequer com os bispos. O padrão é sempre o mesmo, a renovação começa com a santidade, esteja ela onde estiver.

A santidade não é património do clero. Aliás, a santidade não é só para quem é ordenado. O chamamento à santidade é universal e estende-se a todos os baptizados, ou melhor, a toda a humanidade. Estive uma vez numa conferência em que alguém estava a comentar uma frase do Papa Francisco sobre a santidade. Ao meu lado estava uma conhecida activista de justiça social, que exclamou: “Eu nunca pensei em santidade, nem um dia na minha vida”. Não duvido minimamente.

E porque não? Porque há muito trabalho a fazer neste Vale de Lágrimas que não requer sequer uma gota de santidade. Ser uma pessoa decente não nos obriga a sermos perfeitos como o Pai no Céu é perfeito. Mas somos chamados a mais, muito mais do que isso.

Na sua primeira homilia como Papa, Francisco alertava todos os que o acabavam de eleger para a futilidade das boas obras que não proclamam Cristo:

“Podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor. Quando não se caminha, ficamos parados. Quando não se edifica sobre as pedras, que acontece? Acontece o mesmo que às crianças na praia quando fazem castelos de areia: tudo se desmorona, não tem consistência.”

Se nos esquecermos disto – se os nossos esforços, por mais bem-intencionados que sejam, se separarem da proclamação da Boa Nova – então os nossos esforços não só falharão, mas tornarão as coisas piores. “Quando não confessamos Jesus Cristo”, diz o Papa, “confessamos o mundanismo do diabo, o mundanismo do demónio”.

A questão é esta: o trabalho de restaurar a Igreja – de abordar as necessidades urgentes do momento, de procurar a justiça de forma sincera, de restaurar o Corpo maltratado de Cristo – não se pode substituir à proclamação do Evangelho. São uma e a mesma coisa. Agora, neste momento de crise, não é tempo de colocar a evangelização de lado para lidar com problemas aparentemente mais urgentes: “Deixem os mortos enterrar os seus mortos. Vai e proclama o Reino de Deus”.

O arcebispo Charles Chaput, da Filadélfia, disse-o de uma forma belíssima. As suas palavras são de 2012, mas adaptam-se perfeitamente aos nossos dias:

O pecado faz parte do território humano e é uma ameaça diária ao nosso discipulado. E se os nossos corações enregelarem, se as nossas mentes se fecharem, se os nossos espíritos se tornarem gordos e gananciosos, aninhados na nossa pilha de bens, então a Igreja neste país murchará. Aconteceu antes, noutros tempos e noutros lugares, e pode acontecer aqui. Não podemos mudar o mundo sozinhos. E não podemos reinventar a Igreja. Mas podemos ajudar Deus a mudar-nos a nós. Podemos viver a nossa fé com zelo e com convicção – e Deus tratará do resto.

O Senhor está a purificar a sua Igreja. Ainda bem, dizemos nós. Não era sem tempo, dizemos. Mas estamos dispostos a deixá-lo purificar-nos a nós? Podemos mesmo esperar que a Igreja seja purificada e, ao mesmo tempo, esperar que nós, que somos membros da Igreja, sejamos poupados à dor e à angústia dessa purificação?

Quem restaurará a Igreja? Ele. E se estivermos dispostos, Ele realizará grandes coisas através de nós. Só nos custará tudo – o que afinal de contas não é nada.

Tomai, Senhor, e recebei, toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo; Vós mo destes, a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso, disponde de tudo, à vossa inteira vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta. (Uma oração de Santo Inácio de Loyola)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Fake news, no Porto e em Roma

Espero que tenham todos tido um excelente Natal, melhor pelo menos do que a do Bispo do Porto, que se viu envolvido numa polémica por causa da virgindade de Nossa Senhora. Já foi tudo clarificado, graças a Deus.

Mal li a reportagem original, no dia 24 de Dezembro, publiquei isto no meu blog, em que aconselhava calma antes de se crucificar o bispo, porque conhecendo o meio jornalístico percebi que algo não estava bem naquela notícia – aprender a ler notícias e a interpretá-las é também importante – e da forma como as coisas se desenrolaram ficou claro que tinha razão, mesmo sem estar por dentro.

Já que estamos numa de saber ler e interpretar notícias, o Papa NÃO DISSE hoje, ao contrário do que informam muitos órgãos, que é melhor ser ateu do que ir à igreja e depois falar dos outros. É a segunda vez no espaço de dois anos que acontece isto. A Renascença tem aqui vídeo com a citação original e com a tradução certa.


O Papa começou o ano com uma mensagem a apelar à valorização da maternidade e, no mesmo dia, o diretor e vice-diretora de comunicação da Santa Sé demitiram-se. (Não estou a sugerir causa efeito…)

Foram também publicados dois artigos do The Catholic Thing neste espaço de tempo. No primeiro o padre Paul Scalia escreve muito bem sobre a importância teológica da linguagem e como até a nossa capacidade de falar é afetada pelo pecado e hoje o grande Anthony Esolen recorda como até meados do século XIX se castravam meninos para lhes preservar a voz, mas adverte que o que permitimos que se faça às crianças hoje é muito pior.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Discurso do Papa aos religiosos no Chile

Este discurso foi pronunciado pelo Papa na noite de segunda-feira, 16 de Janeiro, em Santiago, no Chile. Para mim, foi o discurso do dia, um dos melhores do Papa Francisco até hoje. Deixo-o aqui, na íntegra e sem qualquer edição, para que todos possam ler. É longo, mas compensa.

Queridos irmãos e irmãs, boa-tarde!

Estou feliz por participar neste encontro convosco. Gostei do modo como o Card. Ezzati vos apresentou: «Aqui estão... aqui estão as consagradas, os consagrados, os presbíteros, os diáconos permanentes, os seminaristas…» Aqui estão. Fez-me recordar o dia da nossa Ordenação ou Consagração em que, depois da apresentação, dissemos: «Aqui estou, Senhor, para fazer a vossa vontade». Neste encontro, queremos dizer ao Senhor: «Aqui estamos» para renovar o nosso «sim». 

Queremos renovar, juntos, a resposta à vocação que um dia alvoroçou o nosso coração.

E, para isso, creio que nos pode ajudar a passagem do Evangelho que escutamos, compartilhando três momentos de Pedro e da primeira comunidade: Pedro e a comunidade abatidos, Pedro e a comunidade tratados com misericórdia e Pedro e a comunidade transfigurados. Jogo com o binómio Pedro-comunidade, porque a experiência dos apóstolos tem sempre estes dois aspetos: pessoal e comunitário. Andam de mãos dadas, e não os podemos separar. É verdade que somos chamados individualmente, mas sempre para ser parte dum grupo maior. Não existe a «selfie vocacional», não existe. A vocação exige que a foto te seja tirada por outrem; que lhe havemos de fazer? As coisas estão assim.

1. Pedro abatido e a comunidade abatida
Sempre gostei do estilo dos Evangelhos que não adornam, não mitigam os acontecimentos, nem os pintam fazendo-os mais belos. Apresentam-nos a vida como é e não como deveria ser. O Evangelho não tem medo de nos mostrar os momentos difíceis, e até conflituosos, por que passaram os discípulos.

Reconstituamos a situação. Tinham morto Jesus; algumas mulheres diziam que estava vivo (cf. Lc 24, 22-24). Os discípulos, mesmo tendo visto Jesus ressuscitado, tão grande é o acontecimento que precisarão de tempo para compreender o sucedido. Diz Lucas: «Era tão grande a alegria que nem queriam acreditar». Precisavam de tempo para compreender aquilo que tinha acontecido. A compreensão chegar-lhes-á no Pentecostes, com o envio do Espírito Santo. A irrupção do Ressuscitado levará tempo a penetrar no coração dos seus.

Os discípulos voltam para a sua terra. Vão fazer o que sabiam: pescar. Não estavam todos, apenas alguns. Divididos, fragmentados? Não sabemos. O que nos diz a Escritura é que, aqueles que estavam, não pescaram nada. Têm as redes vazias.

Entretanto havia outro vazio que pesava inconscientemente sobre eles: a perplexidade e o turvamento pela morte do seu Mestre. Já não está, foi crucificado. Mas não acabou só Ele crucificado, os próprios discípulos foram joeirados, tendo a morte de Jesus posto em evidência um torvelinho de conflitos no coração dos seus amigos. Pedro renegara-O, Judas traíra-O, os restantes fugiram e esconderam-se. Ficou apenas um punhado de mulheres e o discípulo amado. O resto, foi-se. Questão de dias, e tudo ruiu. São as horas da perplexidade e do turvamento na vida do discípulo. Nos momentos «em que está levantada a poeira das perseguições, tribulações, dúvidas, etc. por causa de factos culturais e históricos, não é fácil atinar com o caminho a seguir. Há várias tentações que caraterizam estes momentos: discutir ideias, não prestar a devida atenção ao caso, fixar-se demasiado nos perseguidores... e – creio que a pior de todas as tentações – ficar a ruminar a desolação».[1] Sim, ficar a ruminar a desolação. Isto é o que sucedeu aos discípulos.

Como nos dizia o cardeal Ezzati, «a vida sacerdotal e consagrada, no Chile, atravessou e atravessa horas difíceis de turbulência e desafios sérios. Juntamente com a fidelidade da imensa maioria, cresceu também a cizânia do mal com as suas consequências de escândalo e deserção».

Momento de turbulência. Sei da dor causada pelos casos de abuso contra menores e sigo com atenção aquilo que estais a fazer para superar este grave e doloroso malefício. Dor pelo dano e sofrimento das vítimas e suas famílias, que viram traída a confiança que depunham nos ministros da Igreja. Dor pelo sofrimento das comunidades eclesiais, e dor também por vós, irmãos, que, além do desgaste pela entrega, experimentastes o dano que provoca a suspeita e a contestação, que pode ter insinuado – em alguns ou muitos – a dúvida, o medo e a difidência. Sei que, às vezes, sofrestes insultos no metropolitano ou caminhando pela rua; que, em muitos lugares, se está a «pagar caro» andar vestido de padre. Por isso, convido-vos a pedir a Deus que nos dê a lucidez de chamar a realidade pelo seu nome, a coragem de pedir perdão e a capacidade de aprender a escutar o que Ele nos está a dizer, e não ruminar a desolação.

Gostaria de acrescentar ainda outro aspeto importante. As nossas sociedades estão a mudar. O Chile de hoje é muito diferente do que conheci no tempo da minha juventude, quando me estava a formar. Estão a nascer novas e variadas formas culturais, que não se enquadram nos contornos habituais. E temos de reconhecer que, muitas vezes, não sabemos como nos inserir nestas novas situações. Frequentemente sonhamos com as «cebolas do Egito» e esquecemo-nos de que a terra prometida está à frente, e não atrás. Que a promessa é de ontem, mas diz respeito ao amanhã. E então podemos cair na tentação de nos fecharmos e isolarmos para defender as nossas posições que acabam por ser apenas bons monólogos. Podemos ser tentados a pensar que tudo está mal e, em vez de professar uma «boa nova», tudo o que professamos é apatia e deceção. Assim, fechamos os olhos perante os desafios pastorais, pensando que o Espírito não tenha nada a dizer. Deste modo esquecemo-nos de que o Evangelho é um caminho de conversão, mas não só «dos outros», também nossa.

Gostemos ou não, estamos convidados a enfrentar a realidade como ela se nos apresenta: a realidade pessoal, comunitária e social. As redes – dizem os discípulos – estão vazias, e podemos compreender os sentimentos que isso gera. Regressam a casa sem grandes aventuras para contar; regressam a casa de mãos vazias; regressam a casa, abatidos.

Que resta daqueles discípulos fortes, corajosos, vivazes, que se sentiam escolhidos tendo deixado tudo para seguir Jesus (cf. Mc 1, 16-20)? Que resta daqueles discípulos seguros de si, prontos a ir para a prisão e até dariam a vida pelo seu Mestre (cf. Lc 22, 33), que, para O defender, queriam mandar vir fogo sobre a terra (cf. Lc 9, 54); que, por Ele, desembainhariam a espada e combateriam (cf. Lc 22, 49-51)? Que resta do Pedro que repreendia o seu Mestre dizendo-Lhe como é que deveria orientar a sua vida (cf. Mc 8, 31-33), o seu programa de redenção? A desolação.

2. Pedro tratado com misericórdia e a comunidade tratada com misericórdia
É a hora da verdade, na vida da primeira comunidade. É a hora em que Pedro se confrontou com parte de si mesmo: a parte da sua verdade que muitas vezes não queria ver. Experimentou a sua limitação, a sua fragilidade, o seu ser pecador. Pedro, o instintivo, o chefe impulsivo e salvador, com uma boa dose de autossuficiência e um excesso de confiança em si mesmo e nas suas possibilidades, teve que se curvar à sua fraqueza e pecado. Era tão pecador como os outros, era tão carente como os outros, era tão frágil como os outros. Pedro dececionou Aquele a quem jurara proteção. Hora crucial na vida de Pedro.

Como discípulos, como Igreja, pode acontecer-nos o mesmo: há momentos em que somos confrontados, não com as nossas glórias, mas com a nossa fraqueza. Horas cruciais na vida dos discípulos, mas é também nessas horas que nasce o apóstolo. Deixemos o texto levar-nos pela mão.
«Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?”» (Jo 21, 15).

Depois de comer, Jesus convida Pedro a passear um pouco e a única palavra é uma pergunta, uma pergunta de amor: Amas-Me? Jesus não censura nem condena. Tudo o que Ele quer fazer é salvar Pedro. Quer salvá-lo do perigo de ficar fechado no seu pecado, de ficar «a mastigar» a desolação, fruto da sua limitação; salvá-lo do perigo de desistir, por causa das suas limitações, de todas as coisas boas que vivera com Jesus. Quer salvá-lo do fechamento e do isolamento. Quer salvá-lo daquela atitude destrutiva que é o vitimizar-se ou, ao contrário, cair num «vale tudo o mesmo», acabando por fazer malograr qualquer compromisso no mais danoso relativismo. Quer libertá-lo de considerar quem se opõe a Ele como se fosse um inimigo, ou de não aceitar com serenidade as contradições e as críticas. Quer libertá-lo da tristeza e sobretudo do mau humor. Com esta pergunta, Jesus convida Pedro a auscultar o seu coração e aprender a discernir. Uma vez que «não era de Deus defender a verdade à custa da caridade, nem a caridade à custa da verdade, nem o equilíbrio à custa de ambas. É preciso discernir. Jesus quer evitar que Pedro se torne um veraz destruidor ou um caritativo mentiroso ou um perplexo paralisado»,[2] como pode acontecer connosco em tais situações.

Jesus interpelou Pedro sobre o seu amor e insistiu nisso até ele Lhe poder dar uma resposta realista: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo» (Jo 21, 17). E, deste modo, Jesus confirma-o na missão. Assim o faz tornar-se definitivamente seu apóstolo.
O que é que fortalece Pedro como apóstolo? O que é que nos mantém a nós como apóstolos? Uma coisa só: fomos tratados com misericórdia (cf. 1 Tim 1, 12-16). Fomos tratados com misericórdia. «Não obstante os nossos pecados, os nossos limites, as nossas faltas; não obstante as nossas numerosas quedas, Jesus Cristo viu-nos, aproximou-Se, deu-nos a mão e teve misericórdia de nós. (…) Cada um de nós poderá recordar, pensando em todas as vezes que o Senhor o viu, que olhou para ele, que se aproximou dele e o tratou com misericórdia».[3] E convido-vos a fazer o mesmo. Não estamos aqui por ser melhores do que os outros. Não somos super-heróis que, do alto, descem para se encontrar com os «mortais». Antes, somos enviados com a consciência de ser homens e mulheres perdoados. E esta é a fonte da nossa alegria. Somos consagrados, pastores segundo o estilo de Jesus ferido, morto e ressuscitado. A pessoa consagrada – e, quando digo «consagrados», penso em quantos aqui estão – é alguém que encontra, nas suas feridas, os sinais da Ressurreição. É alguém que consegue ver, nas feridas do mundo, a força da Ressurreição. É alguém que, segundo o estilo de Jesus, não vai ao encontro dos seus irmãos com a censura e a condenação.

Jesus Cristo não Se apresenta, aos seus, sem chagas; foi precisamente a partir das suas chagas que Tomé pôde confessar a fé. Estamos convidados a não dissimular nem esconder as nossas chagas. Uma Igreja com as chagas é capaz de compreender as chagas do mundo atual e de assumi-las, sofrê-las, acompanhá-las e procurar saná-las. Uma Igreja com as chagas não se coloca no centro, não se considera perfeita, mas coloca no centro o único que pode sanar as feridas e que tem um nome: Jesus Cristo.

A consciência de ter chagas, liberta-nos. É verdade; liberta-nos de nos tornarmos autorreferenciais, de nos considerarmos superiores. Liberta-nos da tendência «prometeica de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado».[4]

Em Jesus, as nossas chagas ficam ressuscitadas. Tornam-nos solidários; ajudam-nos a derrubar os muros que nos encerram numa atitude elitista, incitando-nos a construir pontes e ir ao encontro de tantos sedentos do mesmo amor misericordioso que só Cristo nos pode dar. «Quantas vezes sonhamos planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados! Assim negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso, porque todo o trabalho é “suor do nosso rosto”».[5] Vejo, com certa preocupação, que há comunidades que vivem acometidas pela ânsia de constar no cartaz, ocupar espaços, aparecer e se mostrar, mais do que pela vontade de arregaçar as mangas e sair para tocar a dolorosa realidade do nosso povo fiel.
Como nos interpela a reflexão deste Santo chileno, que advertia: «Por isso, serão métodos falsos todos os que são impostos pela uniformidade; todos os que pretendem encaminhar-nos para Deus, fazendo-nos esquecer os nossos irmãos; todos os que nos levam a fechar os olhos ao universo, em vez de nos ensinar a abri-los para elevar tudo ao Criador de todas as coisas; todos os que nos fazem egoístas e nos dobram sobre nós mesmos».[6]

O povo de Deus não espera nem precisa de nós como super-heróis, espera pastores, homens e mulheres consagrados, que conheçam a compaixão, que saibam estender uma mão, que saibam parar junto de quem está caído e, como Jesus, ajudem a sair desse círculo vicioso de «mastigar» a desolação que envenena a alma.

3. Pedro transfigurado e a comunidade transfigurada
Jesus convida Pedro a discernir e, assim, começam a ganhar força muitos acontecimentos da vida de Pedro, como o gesto profético do lava-pés. Pedro, que resistira a deixar-se lavar os pés, começava a compreender que a verdadeira grandeza passa por se fazer pequenino e servidor.[7]
Como é grande a pedagogia de nosso Senhor! Do gesto profético de Jesus à Igreja profética que, lavada do seu pecado, não tem medo de sair para servir uma humanidade ferida.

Pedro experimentou, na sua carne, a ferida não só do pecado, mas também das suas próprias limitações e fraquezas. Mas descobriu em Jesus que as suas feridas podem ser caminho de Ressurreição. Conhecer Pedro abatido para conhecer Pedro transfigurado é o convite a deixar de ser uma Igreja de abatidos desolados para passar a uma Igreja servidora de tantos abatidos que convivem ao nosso lado. Uma Igreja capaz de se colocar ao serviço do seu Senhor no faminto, no preso, no sedento, no desalojado, no nu, no doente... (cf. Mt 25, 35). Um serviço que não se identifica com o assistencialismo nem o paternalismo, mas com a conversão do coração. O problema não está em dar de comer ao pobre, vestir o nu, assistir o doente, mas em considerar que o pobre, o nu, o doente, o preso, o desalojado têm a dignidade de se sentar às nossas mesas, sentir-se «em casa» entre nós, sentir-se família. Este é o sinal de que o Reino de Deus está no meio de nós. É o sinal duma Igreja que foi ferida pelo seu pecado, foi cumulada de misericórdia pelo seu Senhor, e foi tornada profética por vocação.

Renovar a profecia é renovar o nosso compromisso de não esperar por um mundo ideal, uma comunidade ideal, um discípulo ideal para viver ou para evangelizar, mas criar as condições para que cada pessoa abatida possa encontrar-se com Jesus. Não se amam as situações nem as comunidades ideais, amam-se as pessoas.

O reconhecimento sincero, contrito e orante das nossas limitações, longe de nos separar de nosso Senhor, permite-nos retornar a Jesus, sabendo que, «com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. (…) Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual».[8] Como nos faz bem a todos deixar que Jesus nos renove o coração!

Ao início deste encontro, disse-vos que vínhamos renovar o nosso «sim», com garra, com paixão. Queremos renovar o nosso «sim», mas um sim realista, porque apoiado no olhar de Jesus. Convido-vos, quando voltardes para casa, a preparar no vosso coração uma espécie de testamento espiritual, no estilo do cardeal Raúl Silva Henríquez expresso nesta linda oração que começa dizendo: «A Igreja que eu amo é a Santa Igreja de todos os dias... a tua, a minha, a Santa Igreja de todos os dias...

Jesus, o Evangelho, o pão, a Eucaristia, o Corpo de Cristo humilde em cada dia. Com os rostos dos pobres e os rostos de homens e mulheres que cantavam, que lutavam, que sofriam. A Santa Igreja de todos os dias».

Pergunto-te: Como é a Igreja que tu amas? Amas esta Igreja ferida, que encontra vida nas chagas de Jesus?

Obrigado por este encontro. Obrigado pela oportunidade de renovar o «sim» convosco. A Virgem do Carmo vos cubra com o seu manto.

Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Bombas para todos os gostos e desgostos

Calma meninas...
A visita do Papa ao Chile promete… Hoje quatro igrejas foram atacadas na capital e foram deixadas ameaças directas a Francisco.

Se no caso de Francisco são só – por enquanto – ameaças, na Síria o caso é mais sério. Hoje temos a história do arcebispo que se levantou da sesta para ir à casa de banho e segundos depois caiu-lhe um morteiro na cama. Sobreviveu por milagre.

Outra arquidiocese, outra bomba… Braga vai apresentar uma proposta de acompanhamento de pessoas em situação matrimonial irregular, incluindo a possibilidade de acederem aos sacramentos, à luz do Amoris Laetitia.

Com Donald Trump as bombas são outras. Ontem terá dito – embora ele nega – coisas pouco agradáveis sobre países em desenvolvimento. O jornal do Vaticano lamenta a linguagem “dura e agressiva”.

Nos últimos dias recebeu uma mensagem no telefone ou no mail a pedir orações por 22 missionários cristãos prestes a serem executados no Afeganistão? Então leia isto, e partilhe com quem lhe enviou. O mundo agradece.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Erros papais

Randall Smith
Em 1986 o Papa João Paulo II organizou o Dia Mundial da Paz, em Assis, para o qual convidou 160 líderes religiosos, incluindo judeus, budistas, sikhs, hindus, jains, zoroastrianos e membros religiões tradicionais africanas. Alguns católicos ficaram escandalizados. Mais tarde, João Paulo viria a publicar as encíclicas Centesimus Annus (1991), Veritatis Splendor (1993); Evangelium Vitae (1995); e Fides et Ratio (1998). Pergunto: Se um católico tivesse ficado enfurecido pelo encontro de oração de Assis, ele ou ela continua a ser obrigado a oferecer aos ensinamentos destas encíclicas a “submissão religiosa de intelecto e vontade”?

Em 1929 Pio XI assinou o Tratado de Latrão com o Governo fascista de Benito Mussolini, que reconheceu o Vaticano como Estado independente e garantiu à Igreja o apoio financeiro do seu Governo. Muitas pessoas – na altura e desde então – criticaram esta decisão, não só por ter sido um pacto celebrado com fascistas, mas também porque Pio tinha cedido a sua autoridade tradicional sobre os Estados Pontifícios. Esses católicos que acreditam que a decisão de Pio foi um erro são obrigados pelos ensinamentos do Quadragesimo anno, Quas primas, ou Divini Redemptoris?

Em 1633 o Papa Urbano VIII recusou determinantemente a decisão de membros do seu próprio tribunal da inquisição, de que Galileu devia ser perdoado pelo “erro” de publicar o seu “Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo”. Urbano, que tinha sido um patrono e defensor de Galileu, estaria ofendido pelo facto de este ter colocado um dos seus argumentos na boca da sua personagem “Simplício” (o simplório). A decisão do Papa de colocar Galileu em prisão domiciliária teve repercussões negativas para a Igreja até hoje. Esta decisão torna tudo o resto que ele ensinou, sobre fé e moral, inútil?

Há que fazer algumas distinções. A Igreja defende que os papas podem, em determinadas circunstâncias e quando o pretendem explicitamente, pronunciar-se de forma infalível sobre questões de fé e de moral. Em toda a história da Igreja há talvez oito proclamações que encaixam nesses requisitos. A maioria dos ensinamentos dos papas acarretam autoridade, mas não infalíveis, pedindo não o “assentimento da fé”, como fazem os infalíveis, mas “a submissão religiosa de intelecto e de vontade”.

Pode, então, ser lícito a um católico fiel discordar de um ensinamento com autoridade mas não infalível de um Papa? Sim, pode. Se a pessoa tiver investigado diligentemente o ensinamento em questão e se, depois de séria reflexão e oração, sentir que é necessário proceder a uma correcção fraterna, então poderá expressar publicamente o seu desacordo desde que: A) As suas razões forem sérias e bem fundamentadas; B) a discordância não impugnar ou questionar a autoridade da Igreja para ensinar e C) se a natureza da dissensão não for tal que dá origem a escândalo.

Já várias vezes pensei que estas regras servem igualmente para qualquer outra situação em que estamos em desacordo com alguém. Devemos ter boas razões por detrás da nossa posição; devemos fazer todos os esforços para não impugnar a integridade ou as boas intenções do nosso interlocutor; e devemos argumentar de forma a não criar escândalo. Raramente conquistamos os outros (incluindo os meros observadores) adoptando uma atitude agressiva. Normalmente só se consegue dar má imagem do nosso lado.

Estamos conversados, portanto, quanto a ensinamentos do Papa.

João Paulo II no encontro de Assis
E sobre as acções do Papa? Será que em conjunto com o dom da infalibilidade, os Papas têm também o dom da impecabilidade? Um carisma especial que os impede de cometer qualquer erro?

A Igreja nunca defendeu tal coisa. Muito pelo contrário, aqueles que mais acerrimamente defenderam a infalibilidade sempre fizeram questão de a distinguir de impecabilidade precisamente porque A) é claro que vários Papas cometeram pecados graves e, B) é uma questão de fé acreditar que todos os papas são pecadores, tal como qualquer um de nós, necessitados da Graça salvífica de Deus, conquistada através da morte e ressurreição de Cristo. Não adoramos o homem; respeitamos o seu cargo e temos fé nas promessas de Cristo de estar com a Sua Igreja até ao fim dos tempos e de enviar o seu Espírito Santo para a guiar e proteger.

Há anos alguém me disse que o Papa João Paulo II não dava comunhão na mão, o que provava que estava a condenar essa prática. Eu sugeri que se o Papa quisesse comunicar tal mensagem, então tinha diversos canais oficiais pelos quais o podia fazer. Existe uma espécie de idolatria papal que, a longo prazo, não é útil. Que diria hoje esse meu amigo? Se continua a confundir as acções pessoais do Papa com ensinamentos oficiais, então deve estar confuso – e zangado.

Observar cada acto do Papa para discernir o seu significado político é o tipo de tolice que levou certas pessoas a condenar Cristo por comer com prostitutas e cobradores de impostos. Dizia-se que tais actos “causavam escândalo”, “semeavam discórdia” e “revelavam apoio aos inimigos da Igreja”. Talvez, talvez não. “O tempo dirá onde se encontra a sabedoria”.

Alguns papas cometeram grandes erros. Mas todos os papas cometem alguns erros, afinal de contas, são humanos. Se anda à procura de perfeição e impecabilidade, está à procura de uma Igreja que não existe, uma promessa vazia do Pai das Mentiras, e não aquela que foi fundada por Cristo.

Ficar confuso ou desapontado com um papa é coisa que não falta na história da Igreja. Mas os católicos que imaginam que eles é que têm a autoridade para estabelecer a fasquia canónica pela qual o ensinamento deste ou de qualquer outro papado pode ser julgado estão simplesmente a demonstrar que afinal de contas sempre foram protestantes e que a sua visão da autoridade é a mesma que caracteriza em demasia a política americana, a ideia de que a função da autoridade é fazer o que eu mando e esmagar os meus opositores.

A Igreja nem sempre foi bem servida pelos seus papas. Mas por outro lado, sempre esteve bem pior nas alturas em que cedeu às vozes moralistas da multidão – especialmente quando clamam “crucifica-o”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2016 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Não é Preciso Gostar do Papa

Randall Smith
Deixem-me esclarecer uma coisa: Não é preciso gostar do Papa. Não é preciso gostar da maneira como ele fala com os jornalistas, da maneira como fala com em público ou do tipo de sapatos que usa. Nem é necessário gostar da forma como aborda diferentes assuntos. Mas é preciso respeitar a autoridade do seu cargo quando ele a exerce de forma oficial.

Ao fazer esta afirmação estou simplesmente a repetir o que o Papa João Paulo II escreveu em Ad Tuendam Fidem, um documento composto com o propósito de “proteger a fé da Igreja Católica contra os erros que se levantam da parte de alguns fiéis”, considerando ser “absolutamente necessário que, nos textos vigentes do Código de Direito Canónico (…) sejam acrescentadas normas, pelas quais expressamente se imponha o dever de observar as verdades propostas de modo definitivo pelo Magistério da Igreja”.

Daí que na Profissão de Fé da Igreja podemos encontrar esta afirmação: “Adiro com submissão da vontade e do intelecto aos ensinamentos aos ensinamentos que o Pontífice Romano ou o Colégio Episcopal enunciam no exercício do seu Magistério autêntico, mesmo que não tencionem proclamar esses ensinamentos por um acto definitivo”. Aliás, de acordo com a Lumen Gentium, “esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.”

Um católico desapontado com o Papa é um católico desapontado. É uma coisa relativamente frequente na história da Igreja. Mas um católico que imagina que participa mais inteiramente do que o Papa no carisma da autoridade magisterial dada pelo Espírito Santo ao próprio Papa, e que decide que ele ou ela é que tem autoridade para estabelecer a fasquia pela qual os ensinamentos oficiais de um pontificado podem ser julgados (e rejeitados), está a cometer o mesmo erro que Lutero. É o mesmo erro cometido por muitos teólogos liberais, que se estabeleceram como a pedra de toque, a fasquia, a autoridade, e o Papa, seja quem for, deve, insistem, pôr-se de acordo com o que eles pensam, ou então ser cuspido como se fosse uma peça de fruta estragada. Este é o caminho da loucura e da divisão.

Devemos aprender tudo o que podemos dos ensinamentos da Igreja, cada bocado de sabedoria. Devemos deixar-nos envolver e desafiar, especialmente quando estes repetem algo que foi ensinado insistentemente por Papas cuja santidade e sabedoria estão acima de qualquer suspeita.

E, francamente, se alguém estiver em desacordo com algum desses ensinamentos deve estar pronto a fornecer contra-argumentos sérios em vez de simplesmente dar aso a expressões infantis de desacordo e desapontamento. Escusado será dizer que a citação descontextualizada de documentos de papas que estavam a lidar com problemas séculos atrás para convencer os católicos contemporâneos de que fazem parte de uma Igreja corrupta é tão convincente como ver protestantes evangélicos a citar textos bíblicos fora de contexto para convencer os católicos em geral de que pertencem a uma igreja corrupta.

De facto, as semelhanças entre o protestantismo e muitas das formas contemporâneas de tradicionalismo antipapal são maiores do que se poderia esperar. É importante recordar que Lutero não tinha qualquer intenção de fundar uma igreja “protestante”, antes pensava em si mesmo como um conservador a reformar a verdadeira Igreja que se tinha perdido no caminho ao fazer acrescentos corruptos à tradição autêntica.

Da mesma maneira, muitos dos ditos “tradicionalistas” vêem-se a si mesmos como estando a preservar a tradição católica autêntica que a dada altura se perdeu – apesar de muitos destes “tradicionalistas” olharem apenas para um período da história da Igreja (normalmente até bastante recente) ou para um documento em particular como a única fasquia que define “a tradição”, tal como Lutero clamava por uma igreja cristã “pura” que imaginava que tinha existido nos primórdios da Igreja, logo a seguir à morte de Cristo (mas que de facto nunca houve) e para as epístolas de Paulo (como ele, Lutero, as entendia).

Se é um “conservador” que acha mais importante o “conservadorismo” ao estilo americano do que ser católico, isso é consigo. Mas aí não tem margem para responsabilizar o liberal que acha mais importante o “liberalismo” à americana do que ser católico. Se é católico, seja católico, e os católicos têm a tradição magisterial e apostólica. A Igreja não é um clube, uma seita ou um partido político.

Por estas razões e por outras, não pode permitir que a sua irritação com o estilo pessoal de qualquer Papa em particular, mesmo que faça coisas que eu e você possamos achar tolices, o distraia dos ensinamentos oficiais deste ou qualquer outro pontificado. Nem sempre temos o Papa que queremos. Às vezes levamos com um pescador tonto que negou três vezes que conhecia Cristo precisamente quando Jesus mais precisava dele. Não acreditamos no homem, independentemente do quão sábio ou santo ele possa ser. A nossa fé encontra-se na promessa de Cristo de estar com a Sua Igreja até ao fim dos tempos e de enviar o seu Espírito para a guiar.

Se acha que há problemas na Igreja (e há sempre, porque somos um povo peregrino), então jejue e reze. Redobre os seus esforços para viver a sua vocação em santidade. Mas se acha que vai ajudar a Igreja com especulação infindável sobre a política interna do Vaticano ou lamentos intermináveis sobre várias pessoas na cúria, então está a deixar que o espírito de divisão penetre onde deve estar apenas o espírito da união e da caridade.

Deixe o Espírito Santo guiar a Arca da Igreja através da actual tempestade. Já temos preocupações suficientes para cultivar as vinhas no nosso próprio quintal.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 28 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Sínodo, Eu, a Nena e o Peu

Eu sou do tempo em que os sínodos eram chatos...

Lembro-me de vários sínodos da Igreja ao longo da última década e a única coisa que todos tiveram em comum é que eram aparentemente inúteis e profundamente maçadores.

Claro que para os bispos que neles participavam havia de haver alguma utilidade, nem que fosse pelo facto de estarem juntos e conhecerem-se melhor, aprofundando este ou aquele tema, mas quem é que se lembra, sinceramente, de algo de novo ou de marcante que tenha saído do sínodo sobre a Eucaristia?

Mas depois veio o Papa Francisco e o sínodo para a família e algo me diz que nada vai ser igual.

De positivo, por isso, temos esta animação toda, para começar. Temos verdadeiras trocas de ideias, temos bispos “à pancada”, como acontecia antigamente nos concílios ecuménicos decisivos. Temos um modelo em que, a confiar no que o Papa tem dito, aquilo que sai do sínodo vai mesmo ser tido em linha de conta para qualquer decisão final.

Em relação à temática tivemos vários meses com a Igreja a aprofundar temas que nos tocam a todos, porque a família é verdadeiramente a célula base da sociedade e quando está mal é esta que sofre.

Mas nem tudo foi bom. É natural haver diferenças de opinião e até discussões, mas é um bocado triste ver que mesmo entre os sucessores dos apóstolos há politiquices e manhas. Eu até acredito que seja inevitável, que seja sempre assim, até certo ponto, mas quando fica exposto custa mais. A leitura do relatório intercalar, com o cardeal Peter Erdo a ter de assumir a autoria de um texto com o qual claramente estava em profundo desacordo; o facto de se ter produzido um documento que, a julgar não só pelas palavras de vários bispos mas também pela votação final, não traduzia minimamente a opinião dos padres conciliares... tudo isso custa a ver.

Porque não se podem esquecer, os nossos bispos, que muita gente ficou com esperanças de que este sínodo se traduzisse numa alteração das regras em relação a questões que são para elas feridas em aberto. Não estou agora a ajuizar se essas mudanças seriam benéficas ou não, apenas que havia muita gente a quem foi dada esperança que afinal era infundada. Isso conduz a desilusão e a revolta.

Mas talvez uma das coisas mais lamentáveis a que assistimos foi o extremar total de posições, entre liberais e conservadores. Se me parece, sinceramente, que muitas das “manobras” a que me referi acima foram levadas a cabo pelos liberais, também não foi bonito ver a reacção dos defensores do status quo. Um caso extremo foi em relação ao Cardeal Kasper, figura de proa da “mudança”, que fez umas declarações muito parvas sobre os africanos, mas que não eram muito mais do que isso, parvas, e acabou por ser acusado de tudo, incluindo “racismo e xenofobia”. O triunfalismo nesses dias dos que durante tanto tempo tinham vivido com o medo de que a sua linha vencesse no sínodo era palpável, e desagradável.

O discurso final do Papa foi, neste sentido, absolutamente brilhante e é talvez o texto com que mais me identifico em todo este processo.

A proposta do Kasper, de haver casos em que as pessoas em uniões irregulares pudessem comungar, nunca me convenceu inteiramente. Não que eu seja frontalmente contra a ideia, (como foi evidente quando escrevi este texto, que deu uma longa discussão e desembocou neste), mas porque o seu raciocínio nunca me pareceu suficientemente sólido. Havia coisas vagas que simplesmente deixava no ar e não conseguia tranquilizar quem dizia que na prática o sistema iria fragilizar a ideia da indissolubilidade do casamento.

Pior foi a campanha em que depois se lançou, dando entrevistas atrás de entrevistas, mas reagindo como que ofendido quando o “outro lado” ripostava; alegando que falava em nome do Papa (mesmo que ele saiba que o Papa concorda com ele, o Papa tem boca para falar e não precisa da sua ajuda)... foi-me desencantando cada vez mais e penso que ele acaba por ser o maior derrotado de toda esta situação, o que é pena, porque a história de um sínodo não devia ter de ser contada através de vencedores e derrotados.

Foram duas semanas muito intensas, para quem viveu este sínodo de perto. No meu caso a acompanhar conferências de imprensa na net, a seguir ao máximo o que se escrevia nas redes sociais, nos órgãos de comunicação especializados, etc. E a verdade é que ao fim destes dias todos, em que todos falavam só de rupturas, uniões irregulares, casos dramáticos e complexos, comecei, talvez tenhamos começado todos, a perder a perspectiva daquilo que estava verdadeiramente em causa.

Por isso é que tenho a agradecer à minha cunhada e ao meu cunhado terem marcado o casamento para o dia 18 de Outubro. Certamente não faziam ideia quando agendaram, mas o facto de eu ter passado o sábado a festejar o seu casamento e não a acompanhar a recta final do sínodo fez-me mais bem do que se possa imaginar.

Sentado naquela igreja, a ver uma assembleia repleta de pessoas com perfeita noção do que se estava a passar; a responder em uníssono na celebração; com música sacra variada mas sempre belíssima (apesar de me terem colocado no coro); com cinco sacerdotes à volta do altar, sinal de que estávamos a assistir ao final de uma caminhada que foi feita sempre em Igreja; com uma festa a seguir que foi divertidíssima, sem excessos, com uma diversão sempre saudável e um entrosamento perfeito entre gerações.

Olhar para aqueles dois noivos, um homem e uma mulher, como Deus quis, a jurar fidelidade e amor para toda a vida, como Deus quis, unidos não só por um amor multifacetado mas também por uma profunda fé; Sabendo que estávamos diante de duas pessoas que têm a mais perfeita noção daquilo que estão a fazer; Sabendo que embora nada esteja garantido nesta vida, ninguém hesitaria em dizer que acreditamos que sim, este casamento é até que a morte os separe; Sabendo que há desejo de ter filhos, amor à vida e generosidade para a acolher.

Enquanto dançava na pista com a minha filha de seis anos, encantada com tudo aquilo, eu pensava nas duas semanas que se passaram e dizia para mim: “Deus queira que os bispos que lá estão possam viver experiências destas. Deus queira que aqueles que estão a falar do casamento não saibam só o que são os casos perdidos, complexos, nulos ou irremediáveis. Deus queira que eles tenham sempre presente que quando se fala de casamento é disto que se fala. Porque se assim for, estamos bem. Mas se não for, então algo está mal.”

Sim, eu lembro-me de quando os sínodos eram maçadores e chatos. E ainda bem que já não são! Mas mais do que isso, obrigado, Nena e Peu, por terem salvo o sínodo para mim e por terem mostrado a todos os vossos convidados o que Deus quer para os seus filhos tão amados.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Papas (e mais papas), islamitas e divorciados

Foi um fim-de-semana em grande para assuntos papais.

Dois Papas canonizaram outros dois papas diante de mais de um milhão de pessoas. É seguro dizer que Roma nunca viu nada assim.

Mas a verdade é que, para a Igreja Católica, João Paulo II e João XXIII são agora santos.

Na sua homilia o Papa Francisco disse que são os santos que fazem crescer a Igreja. Mas no fim da homilia houve também uma referência ao sínodo para a família… leiam e tirem as vossas conclusões.

Por isto, e por causa da questão do telefonema do Papa, decidi escrever uma curta reflexão (que não pretende ser mais que isso), sobre a questão do acesso à comunhão por parte dos divorciados e recasados. Leiam e deixem a vossa opinião.

Mudando de assunto, o Tribunal no Egipto recomendou a pena de morte para cerca de 700 militantes da Irmandade Muçulmana. Recomendou? Pois… é complicado, mas o artigo explica.

Termino com três avisos.

Primeiro, para todos os ex-membros das Equipas de Jovens de Nossa Senhora, inscrevam-se no jantar de angariação de fundos para o encontro internacional, que este ano se realiza em Portugal. São 20 euros por pessoa, mas é por uma causa boa! Eu vou.

Segundo, a II Semana de Cultura e Identidade Cristã, organizada pelo Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA).

E por fim, o MSV está a organizar um jantar de angariação de fundos também, para financiar um projecto no Príncipe. É no dia 30 de Abril, em Lisboa. Os interessados devem pedir mais informação para este contacto

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - O Papa

Esta é uma das áreas mais importantes, a meu ver. O que é que Bergoglio vai fazer do Papado?

A mim, isto interessa-me sobretudo do ponto de vista ecuménico, na perspectiva em que uma reforma do papel do Papa na Igreja pode, ou não, contribuir para a unidade dos cristãos, sobretudo com as Igrejas Ortodoxas.

Mas este é um tema muito sensível. Tradicionalmente, qualquer pessoa que questione o poder e a autoridade do Papa é imediatamente classificado como perigoso fanático progressista. De facto, a única pessoa que o pode fazer sem ser acusado de odiar o Papa e a Igreja é o próprio Papa. Veremos no que isto dá.

João Paulo II já tinha levantado esta lebre, precisamente com esta intenção ecuménica, mas pouco ou nada mudou, como aliás recorda Francisco:

Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e às necessidades actuais da evangelização. O Papa João Paulo II pediu que o ajudassem a encontrar «uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova». Pouco temos avançado neste sentido. (#32)
Esta mudança teria de passar por algo que assegure os líderes ortodoxos de que a sua autonomia não será posta em perigo com uma união com Roma. Um primeiro gesto neste sentido, mais até do que proceder a grandes reformas das funções do Papa, seria dar total autonomia às Igrejas Católicas de Rito Oriental.

Actualmente estas igrejas estão limitadas de uma maneira ridícula e anacrónica. Houve oportunidade para mudar isso depois do sínodo para os bispos do Médio Oriente, em 2010, mas foi desperdiçada. Por exemplo, os católicos orientais continuam oficialmente proibidos de ordenar homens casados nas diásporas “tradicionalmente” latinas e os seus patriarcas não têm autoridade directa sobre os seus fiéis a viver fora dos seus territórios tradicionais.

É evidente que os ortodoxos olham para os seus irmãos católicos orientais e vêem-nos limitados na sua acção pastoral e até evangélica. É isso que dá a união com Roma? Então bem podem esperar sentados, pensam.

Antes, precisamente sobre a questão da descentralização, o Papa já tinha escrito:

Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar «descentralização». (#16)
Esta é uma velha discussão na Igreja. O Concílio pediu esta descentralização, mas desde então o Vaticano resistiu. Olhando para a qualidade de alguns dos bispos no mundo latino, não se pode se não compreender esta posição, mas por outro lado, o responsável essas nomeações é precisamente o Papa, por isso é uma pescadinha de rabo na boca.

Não vejo com maus olhos esta descentralização, mas ela deve ser acompanhada de uma reforma na nomeação de bispos. Precisamos de bispos mais evangélicos, mais pastorais, mais intelectuais. Bispos à imagem dos apóstolos no Pentecostes. Se os tivermos, então venha toda a descentralização que quiserem, que nada haverá a temer.

No meio disto teria de ficar assegurado, claro, o papel do Papa enquanto sucessor de Pedro com a responsabilidade de confirmar os seus irmãos na fé. Mas como digo sempre quando discuto esta questão, o Papa nem sempre teve o papel que tem agora. Este papel foi-se consolidando num contexto de separação com a esmagadora maioria das outras igrejas tradicionais e por isso não podemos esperar que eles aceitem algo com o qual nunca tiveram de conviver durante os mil anos em que a Igreja esteve unida.

Que o Espírito Santo inspire o Papa Francisco neste seu esforço de reforma do seu próprio cargo, que seja para o bem da própria Igreja.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Abraços (um bocadinho) inéditos


Morreu ontem à noite o “padre Motard”. É uma perda para a Igreja e para os aficionados das duas rodas. Que descanse em paz.

Ontem foi Domingo de Ramos. Começa a semana mais sagrada do ano litúrgico para os cristãos. O ponto alto será, claro, o Domingo de Páscoa, mas a Sexta-feira Santa também é de grande importância. A tradicional via-sacra de Roma conta, este ano, com meditações sobre os cristãos no Médio Oriente.

Durante a semana santa olhamos para grupos que traduzem a fé em acções. Hoje a jornalista Liliana Monteiro dá a conhecer os jovens do “Just a Change”. O texto está curtinho, mas vale a pena ouvir a reportagem completa.

Este fim-de-semana pudemos todos ver uma visão rara: dois papas a abraçarem-se! Raro, sim, mas será que é inédito? Mais ou menos… saiba aqui porquê.


A Capela da Senhora da Lapa, no Porto, foi restaurada e devolvida à cidade.

Dois papas juntos?

Todos terão ficado impressionados, como eu, com o encontro de "dois Papas" no passado fim-de-semana, em Castel Gandolfo.
Há muitas pessoas que contestam o título "Papa emérito", mas até surgir uma indicação diferente por parte do Vaticano é esse o título de Bento XVI e por isso, de facto, encontraram-se dois Papas.

Mas será a primeira vez? Mais ou menos!

Esta fotografia mostra o Papa João Paulo II com o Papa Shenouda III, dos Coptas-ortodoxos.

O líder dos coptas, actualmente Tawadros II, também tem o título Papa, o que não implica de modo algum uma "concorrência" com o Papa dos católicos. Neste caso é apenas o título, como Patriarca. Como se sabe, Papa vem do grego para Pai e é assim que os coptas encaram o seu patriarca. Ninguém pretende insinuar que os papéis dos dois "papas" sejam comparáveis, e a Igreja Católica não contesta a utilização do título por parte do Patriarca de Alexandria, uma antiquíssima e venerável sede apostólica.

É só uma curiosidade, claro, mas a verdade é que em bom rigor o encontro entre "dois papas" não é tão inédito como possa parecer!

Já agora, para quem quiser saber mais sobre os coptas, actualizei o texto "Quem são os Coptas?", com o nome do novo "Papa" deles.

João Paulo II com Shenouda III, no Egipto

quarta-feira, 13 de março de 2013

Surpresa!


Tinha de ser. Passámos todos os último mês a estudar todos os “candidatos” a Papa, eu fiz mais de uma dúzia de perfis de potenciais papas e a escolha foi recair sobre um homem que, honestamente, ninguém esperava. Bom, assim também é mais giro!

Que dizer então desta eleição e deste novo Papa? Em primeiro lugar destaca-se o facto de ele ser um Papa de estreias. O primeiro jesuíta, o primeiro sul-americano e o primeiro Francisco. Notável.

Confesso que fiquei muito bem impressionado com a apresentação dele. É claro que não é nem vai ser um homem muito carismático, mas a humildade que demonstrou, pedindo oração e não só incitando à oração, como rezando mesmo as orações mais básicas do Cristianismo com a multidão, foi muito tocante. Achei-o trémulo nas orações, será que não domina o italiano? Ao que parece não será um poliglota, poderá ser uma dificuldade. Por outro lado, talvez fosse só emoção.

Do que sabemos dele parece um homem que leva muito a sério os seus votos de pobreza e que, sendo jesuíta, não é da ala liberal pela qual essa ordem tem-se tornado conhecida nos últimos anos. Vive de forma humilde, cozinha para si mesmo e anda de transportes públicos. Acima de tudo parece que odeia o “carreirismo eclesiástico”, tendo evitado sempre cargos na Cúria, por exemplo.

Um conhecido vaticanista citou, no início de Março, um cardeal anónimo que teria dito que se a Igreja queria limpar a Cúria romana, então que chamassem o Bergoglio que ele tratava do assunto como ninguém. Ao que parece os outros cardeais estavam atentos e não me parece ser exagero dizer que foi mesmo para isso que o elegeram. Vejamos se isso se confirma ou não.

Este facto pode estar reflectido no nome. É preciso coragem para estrear um nome no Vaticano. Imediatamente pensámos todos em São Francisco de Assis, não só um exemplo de humildade mas o exemplo de um homem que reformou e restaurou uma Igreja a atravessar uma fase de decadência. Também já vi referências a São Francisco de Xavier, que também era jesuíta, mas pelo perfil arrisco-me a dizer que o nome é uma referência mais explícita ao primeiro.

Falemos agora da eleição propriamente dita. De facto ninguém acreditava que Bergoglio seria uma possibilidade forte, apesar de se dizer que no último Conclave ele tinha sido o segundo classificado, sobretudo por causa da sua idade, 76 anos, e tendo em conta que todos falavam de um Papa mais novo.

Não acredito que Bergoglio tenha sido um nome forte logo à entrada para o Conclave. Inclino-me mais para outra interpretação, ressalvando que isto é tudo especulação. Penso que nas primeiras votações poderá ter acontecido como no Conclave de 1978 que elegeu João Paulo II. Dois blocos aparentemente irreconciliáveis, a dividir os eleitores.

Perante este cenário, e sem soluções ao fim de um dia e meio de votações, os cardeais poderão ter optado por um candidato de compromisso, alguém que tem, sim, fama de reformador, e que não é nem demasiado liberal nem demasiado conservador. Até a idade poderá ter-se tornado, neste caso, uma vantagem, uma vez que sendo assim não é de se esperar um pontificado muito longo. Surgirão, como sempre surgem, alegados relatos do que se passou mesmo no Conclave, mas certezas nunca teremos.

O que podemos esperar de Sua Santidade Francisco para os próximos anos?

Diálogo inter-religioso: O Papa vem do país sul-americano com maior número de judeus e de muçulmanos. Os primeiros, em particular, têm-no em alta estima. A julgar pelo nome que escolheu, estará certamente disposto a estender a mão aos muçulmanos também.

Ecumenismo: Tem fama de promover diálogo e encontros ecuménicos no seu país. Ao ponto de alguns tradicionalistas o acusarem de ir longe de mais, (os tradicionalistas têm muito mais a dizer sobre ele... já lá vamos). Espero dele uma abertura ao diálogo e disposição a abordá-lo de forma “desarmada”, o que pode ser muito bom. Por outro lado, a sua própria falta de sentido de tradição poderá levantar suspeitas do lado ortodoxo.

Relação com os meios de comunicação social: É dúbio. Aparentemente, mesmo como bispo, não dava entrevistas. Não antevejo uma alteração em relação à linha latina que tem dominado o Vaticano desde... sempre. Isto é, forte desconfiança dos jornalistas, pouco à vontade, falta de sentido de oportunidade e de timing. Claro que isto não depende só dele... Será que vai dar espaço aos profissionais, como Greg Burke, contratados para gerir a comunicação do Vaticano? Espero que sim, mas não é uma esperança muito grande, sinceramente.

Papa Francisco, Sócio do San Lorenzo
Questões “fracturantes”: Pelo que tenho visto estamos perante um homem de convicções firmes mas com flexibilidade pastoral. Penso que se isso se confirmar será uma boa notícia. Li, mas não posso confirmar, que defende o uso de preservativo para evitar contágios, mas que se opõe à mentalidade contraceptiva, o que me parece sensato. A comunidade pró-vida na Argentina ficou contente com a sua eleição, o que me parece positivo e já envolveu em “conflitos” com o Governo da Argentina por ter condenado a adopção por “casais” homossexuais, pese embora reafirme a posição católica de que as pessoas com tendências homossexuais devem ser acolhidas com amor pela Igreja.

Liturgia: Aqui não prevejo novidades muito boas. Com Bento XVI estávamos a assistir a uma “reforma da reforma” que procurava recuperar a solenidade que em muitos locais se tinha perdido com a reforma litúrgica dos anos 60. A reabilitação do rito tridentino era uma parte desse esforço, mas uma das coisas de que os tradicionalistas o acusam é de ter feito tábua rasa do “Sumorum Pontificum” na sua diocese e de ter “perseguido” os padres tradicionalistas que, por exemplo, queiram andar de batina.

São críticas que devem ser lidas precisamente com um sentido crítico, mas admito que fiquei francamente chocado com o tom da reacção num dos blogues católicos tradicionalistas mais fiáveis e influentes da Igreja. Para terem ideia, o título é “O Horror” e o texto é escrito por um argentino. Dito isto, se tivesse sido eleito D. José Policarpo, consigo imaginar muito boa gente a escrever um texto idêntico sobre ele, mas nós que vivemos mais perto, sabemos que um homem é mais do que a soma das suas falhas.

Contudo, isto leva-me ao último ponto, um que terá de ser tratado pelo Papa Francisco. A questão do diálogo com a Sociedade de São Pio X... Penso que os herdeiros de Lefebvre ainda se vão arrepender de não terem agarrado com unhas e dentes o ramo que Bento XVI lhes estendeu. Não prevejo qualquer cedência do Vaticano para eles nos próximos anos. Se isso é bom ou mau, cada um que decida, mas tenho pena pela oportunidade perdida, mais que tudo.

Finalizo com duas ideias que me parecem importantes. Não terei sido o único a sentir até um picozinho de decepção quando na varanda de São Pedro surgiu um homem inesperado, por quem não tinha nenhuma em particular. A primeira reacção de muitos terá sido algo do género: “Ah?!”

Mas embora não tenha sido nascido na altura, recordo que com João Paulo II se passou exactamente a mesma coisa. Consta que todos esperavam que surgisse um africano depois de terem ouvido pronunciar o seu nome... No entanto ele foi quem foi. João Paulo o Grande.

Pelo que citarei agora o meu bom amigo padre Arsénio que, quando questionado sobre este assunto num debate televisivo recentemente, disse apenas: “Nós [os portugueses] gostamos muito do Santo Padre. Não é por ser este ou aquele, é por ser o Santo Padre”. Parece-me a atitude certa.

Não quero terminar sem agradecer a todas as pessoas que durante este último mês me enviaram mensagens de agradecimento, felicitações, conselhos e perguntas. Tem sido um tempo de muito trabalho, mas tem sido também muito recompensador. É para isto que cá estou e espero que as muitas pessoas que se juntaram a mim no blogue, mailing list e grupo do Facebook, não desapareçam agora que termina este “circo mediático”. 

P.S. uma última nota em relação às críticas que vêm da ala direita da Igreja... eu bem me lembro do que se dizia, pela outra ala, quando Ratzinger foi eleito Bento XVI. Acabou por desarmar todos os críticos e é universalmente amado e respeitado. Só posso esperar que o Papa Francisco consiga fazer o mesmo com os seus críticos agora.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Coptas e comunicações

Cardeal Józef Glemp
Antes de mais, queria ter avisado ontem mas esqueci-me, as Equipas de Nossa Senhora fazem uma reunião de divulgação do movimento esta noite no Estoril. Se está à procura de um movimento que trabalha a espiritualidade em casal, não deixe de aparecer às 21h30 no salão paroquial da Igreja de Santo António.

Passando à actualidade, o Papa publicou hoje a sua mensagem para o Dia das Comunicações Sociais. A esse propósito falei com Pedro Gil, porta-voz do Opus Dei. A transcrição completa dessa conversa pode ser lida aqui.

Ainda sobre este assunto, D. Nuno Brás considerou ontem no debate das quartas-feiras da Renascença, que os cristãos não podem deixar de estar presentes nas redes sociais.

Amanhã faz dois anos que começaram os protestos contra o regime no Egipto. E agora, qual é a situação do país e, especificamente, dos cristãos? Entrevistei um sacerdote copta sobre o assunto. A reportagem, com vídeo, está aqui. A transcrição integral, em inglês, encontra-se aqui. Reparem nas vestes dele, agora imaginem o quanto me diverti a andar com ele de Metro e a levá-lo a almoçar no Chiado…


E cinco deputados do PSD de Santarém querem saber porque é que o Governo anda a ignorar o turismo religioso

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