Elizabeth A. Mitchell |
Agosto é um mês de mártires. São Lourenço, São Bartolomeu, São João Baptista, São Sisto II e companheiros, Santos Ponciano e Hipólito, São Maximiliano Kolbe, Santa Edith Stein. O poder do martírio é sublinhado no Catecismo da Igreja Católica: “O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte.”
O padre Steven Payne, O.C.D.,
que é presidente do Instituto Carmelita da América do Norte, escreveu,
referindo-se a Edith Stein, que o testemunho do mártire é “o último capítulo que
deve ser vivido, escrito, falado com o seu sangue”.
A questão do martírio de Edith
Stein pela Fé Católica é essencial para compreender o testemunho dos que foram
mortos por regimes autoritários, a quem São João Paulo II chamou “os novos
mártires”. Apesar de a Causa de Canonização de Edith Stein ter começado por se
basear apenas nas suas virtudes heroicas de fé, esperança e caridade, surgiram
depois outras provas, nas primeiras fases do processo, que comprovam que Stein
foi morta in odium fidei, por ódio à fé. A sua causa foi então reaberta como
uma Causa de Martírio.
Porque é que Stein merece
reconhecimento especial por uma morte que sofreram tantos milhões de judeus? O
que é que faz da sua morte uma causa de santidade, comprovada num processo
canónico da Igreja Católica? A resposta está nos motivos que levaram ao
martírio de Stein.
O Positio super martyrio et
super virtutibus canonizationis servae Dei Teresiae Benedictae a Cruce, que
documenta o martírio de Stein, revela que embora a causa “informal” do martírio
de Stein se “apresente como a união fundamental do ódio dos nacional-socialistas
contra o Catolicismo e o Judaísmo”, a “causa formal e imediata da deportação e
consequente homicídio dos judeus católicos na Holanda foi a vontade de castigar
a Igreja Católica pelo seu protesto, e por isso tratou-se de odium fidei
e não de ódio racial”.
A distinção entre a causa
formal e informal de morte de Edith Stein é fundamental. Ela morreu por ódio à
fé, uma qualificação necessária para ser considerada mártire católica.
No domingo, 26 de julho de
1942, foi lida de todos os púlpitos de igrejas católicas na Holanda uma carta
pastoral a condenar a deportação dos judeus, num acto coordenado de resistência
da Igreja Católica da Holanda. A carta é um protesto claro e directo contra as
medidas antissemíticas em vigor na altura.
As comunidades eclesiais da
Holanda, abaixo assinadas, estão profundamente abaladas pelas medidas levadas a
cabo contra os judeus na Holanda, que os excluíram da participação na vida
normal da sociedade, e foi com horror que soubemos das mais recentes ordens segundo
as quais homens, mulheres, crianças e famílias inteiras devem ser deportadas
para o território do Reich Alemão.
A retaliação nazi contra este desafio
da Igreja Católica da Holanda foi rápida e letal. No dia 2 de Agosto foi foram
arrebanhados judeus, com destaque para os que se tinham convertido ao catolicismo.
Entre os que foram detidos estavam Stein e a sua irmã Rosa.
Todos os membros não-arianos
de todas as comunidades religiosas holandesas foram detidos e levados. Em Echt
ninguém sabia o que estava prestes a acontecer. Às cinco da tarde as irmãs
tinham-se reunido no coro para meditação. A irmã Benedita estava a ler o ponto
para a meditação quando se ouviu tocar duas vezes à porta. Estavam dois
oficiais a perguntar pela irmã Stein.
Em 1933 ela tinha escrito uma
carta tocante a Sua Santidade o Papa Pio XI, avisando que o silêncio perante a
perseguição dos judeus pelo Nacional Socialismo abriria caminho para futura
perseguição da fé cristã.
Depois da Noite de Cristal de
1938 Stein foi transferida de Colónia, na Alemanha, para o Carmelo
em Echt, na Holanda. Quando foi chamada à sede da Gestapo em Maastricht, para
ser interrogada, entrou na esquadra e saudou os oficiais presentes com a
corajosa proclamação: “Louvado seja Jesus Cristo”.
A biógrafa irmã Teresia Renata
Posselt O.C.D. recorda: “Admirados com esta saudação os oficiais olharam para
cima, mas não responderam. Mais tarde Stein explicou à reverenda madre que se
tinha sentido impelida a agir daquele modo – sabendo perfeitamente que era
uma imprudência, do ponto de vista humano – porque entendia claramente que esta
não era uma mera questão política, mas parte do combate eterno entre Jesus e
Lúcifer.”
Detida no dia 2 de Agosto, de
1942, durante a retaliação nazi contra os fiéis católicos na Holanda, Stein foi
transportada para uma série de campos de detenção, até chegar a Auschwitz.
Quando a carruagem em que ela viajava chegou à estação de Schifferstadt, Stein
enviou uma mensagem da plataforma para as freiras do Convento Dominicano de Santa Madalena, ali perto, em Sprayer. A sua mensagem revelou-se profética: “Grüβe
von Sr. Teresia Benedicta a Cruce.
Unterwegs ad orientem”. “Saudações da Irmã Teresa Benedita da Cruz. Rumamos
para Oriente”.
Estas corajosas palavras, “Rumamos
para Oriente”, poderiam ter sido proferidas por cada um dos augustos mártires.
São João Baptista prepara o caminho para a Ressurreição e a Vida. São Maximiliano
Kolbe dá a vida por outro, no lugar de Cristo. O Sangue dos mártires papais é a
semente da Igreja.
Por entre a escuridão do mal
aparentemente omnipresente e omnipotente, estes santo testemunhos proclamam a Verdade,
cada um no seu tempo. Com eles, também nós podemos dar a cara por Cristo no
nosso tempo, oferecendo as nossas vidas in testimonium fidei.
(Publicado pela primeira vez
no Domingo, 14 de Agosto de 2022 em The Catholic Thing)
Elizabeth A. Mitchell, é
doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da
Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de
Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na
Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist
and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith
Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith
Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de
Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St.
Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.
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