quarta-feira, 16 de maio de 2018

Ressuscitar com Cristo

Michael Pakaluk
Nota: Este tema, da cremação, é uma das minhas embirrações. Espanta-me a facilidade com que pessoas cristãs aceitam tratar os restos mortais dos seus familiares como se fosse resíduos... Mas sobre isso deixarei falar o autor. 
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Se visitar a cidade de St. Andrews, na Escócia, a um domingo, verá que o famoso campo de golfe está encerrado nesse dia para o desporto, estando disponível para quem quiser passear. Esta tradição é um legado de John Knox para o mundo. O austero reformador estava errado quando decidiu proibir jogos ao domingo. Mas por outro lado parece eminentemente justo que até o golfe deva testemunhar que existe algo maior. Seja como for, o campo transforma-se em parque público uma vez por semana.

Certo domingo eu estava lá a andar, com alguma rapidez, e a aproximar-me de um grupo algumas centenas de metros à minha frente. Chocado, reparei que um dos homens do grupo estava a despejar os restos do seu almoço na relva. Metia a mão dentro de um saco e, a intervalos regulares, lançava o que pareciam ser migalhas para o chão. Pelo menos era o que parecia àquela distância. Fiquei irritado e andei ainda mais depressa para poder dizer ao homem para não estragar, através desta inconsciência, o bem comum que é este belíssimo terreno.

Quando me aproximei, porém, vi que o que ele tirava do saco não eram migalhas mas restos humanos (“cinzas”). A minha fúria transformou-se em pena. Quando os ultrapassei cumprimentámo-nos e o homem explicou que o seu pai era um apaixonado por golfe e por isso ele e os seus irmãos tinham viajado dos Estados Unidos para St. Andrews, para cumprir o desejo do seu pai de ter as cinzas espalhadas naquela relva. Naturalmente não pude senão dizer algo de simpático e encorajador.

Dei por mim naquela posição tão comum de saber objetivamente que o meu próximo estava a fazer algo profundamente errado, mas de ter apenas a oportunidade, numa troca superficial de palavras, de abordar as suas intenções subjectivas.

E não haja dúvidas que aquilo que ele estava a fazer era, objectivamente, muito errado. Em primeiro lugar, a minha primeira impressão não tinha sido errada: o homem estava, de facto, a fazer o género de coisa que se faz com os restos do almoço. Mas estava a fazê-lo com os restos mortais do seu querido pai! Em segundo lugar, esses restos estavam a ser lançados ao chão, expostos e, tanto quanto sabia, até eu os tinha pisado!

Nas palavras da antiga Enciclopédia Católica, no seu artigo sobre “Cremação”: “[A Igreja] crê que é indigno que o corpo humano, outrora templo vivo de Deus, instrumento de virtude celeste, tantas vezes santificado pelos sacramentos, seja sujeito a um tratamento contra o qual a piedade filial e o amor conjugal e fraternal, ou até a mera amizade, se revoltam como desumano.”

Em terceiro lugar, os actos deste homem testemunhavam uma falsidade. Não sei em que é que ele acreditava pessoalmente. Mas os nossos actos têm frequentemente um significado, e testemunham, algo diferente daquilo em que acreditamos. O espalhar das cinzas testemunha, inevitavelmente, o panteísmo, o naturalismo ou o niilismo. Neste caso, era uma espécie de panteísmo – a falsa crença de que o próprio campo de golfe é sagrado e que, através do espalhar das cinzas, o falecido pai se pode unir de alguma forma a este ídolo.

No que toca a estes pontos acho que o Catecismo, tal como noutros, está correcto, mas pode levar ao engano por omissão. “A Igreja permite a cremação”, lê-se, “a não ser que esta ponha em causa a fé na ressurreição”.

Podemos admitir logo que a ressurreição dos mortos não se põe em causa pelo “modo do sepulcro” (como se costumava chamar). Os judeus nunca cremavam os seus mortos. Os romanos estavam abertos tanto à cremação como ao enterro. Neste contexto, os primeiros cristãos seguiam uniformemente e definitivamente a prática judaica. Mas também insistam que não o faziam por necessidade – “como se Deus não pudesse ressuscitar os mortos tão facilmente a partir de uma mão cheia de cinzas como do pó da terra”.

É verdade que a cremação não é excluída. Mas ao mesmo tempo, como se lê no Código de Direito Canónico, “A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos” (1176, §3). Ou, como se lê no site da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, citando um documento do Vaticano: “Embora a cremação já seja permitida pela Igreja, não goza do mesmo valor que a sepultura dos corpos” (n. 413). E mesmo quando os restos são cremados, o corpo deve estar presente no funeral e os restos devem ser preservados de forma digna e colocados num local santo, tal como um cemitério.

É conveniente reflectir sobre estes assuntos no tempo Pascal. Na verdade, o nome da instrução sobre cremação emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé a 15 de Agosto de 2016, aprovada pelo Papa Francisco, é Ressuscitar com Cristo. A linguagem que usa é muito forte. “Seguindo a antiga tradição cristã, a Igreja recomenda insistentemente que os corpos dos defuntos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado.”

E continua: “Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne, e deseja colocar em relevo a grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo condivide a história. Não pode, por isso, permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções erróneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reincarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da ‘prisão’ do corpo.”

“Nada me dá mais prazer do que ir até ao cemitério rezar o meu terço”, dizia o padre Damião de Molokai. E a instrução supracitada elogia as devoções centradas nos cemitérios, terminando com uma nota de sobriedade. “No caso de o defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das cinzas na natureza por razões contrárias à fé cristã” – elevando a questão do plano subjectivo para o objectivo – “devem ser negadas as exéquias, segundo o direito.”


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 15 de Maio de 2018)

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