Friday, 30 October 2020

Desespero em Cabo Delgado, choque em Nice

Temos mais um trágico atentado em Nice a lamentar, desta vez vitimou três pessoas que se encontravam numa igreja. O Papa manifestou a sua solidariedade e a conferência episcopal portuguesa também condenou o atentado.

Lembrem-se que aa vontade de responder a isto com atitudes de exclusão, de culpabilização coletiva e recorrendo a um “Cristianismo armado” é exatamente o que os terroristas pretendem. Não que a resposta do bispo do Porto seja, a meu ver, muito melhor.

Quem também está a sofrer às mãos de terroristas é a população de Cabo Delgado, em Moçambique. O bispo local pede ajuda há muito tempo, agora está a atingir o desespero.

Estamos em fase de restrições à circulação. Medida adequada ou ilegal? Um ataque à liberdade religiosa? As opiniões divergem.

E por falar em ataques em igrejas e ataques à Igreja, leiam o artigo desta semana do The Catholic Thing em que Ines A. Murzaku explica porque estes tempos difíceis não nos devem levar ao desespero.

Wednesday, 28 October 2020

Fogo Sagrado: Renovação depois da Destruição

Ines A. Murzaku

Recebi recentemente uma mensagem de uma ex-aluna, que agora é professora num liceu católico e que escrevia, alarmada: “Dr. Murzaku – espero que esteja bem. Ouviu falar do vandalismo na Igreja de Santa Ágata, na Sicília? É terrível.” Ela tinha viajado comigo numa visita de estudo à Sicília e estava muito aflita com a notícia.

A Igreja de St. Ágata, em Caltanissetta, na Sicília, foi sujeita a um grande ataque – assalto e profanação, a Eucaristia lançada ao chão, relíquias destruídas, o vidro da Nossa Senhora da Dormição quebrado e um dos seus braços partidos e a destruição de objetos sagrados. O que a minha aluna não sabia era que este mais recente ato de vandalismo e profanação aconteceu apenas um mês depois de um ataque à mesma igreja.

Mas aqui mais perto de casa as coisas não são melhores. Há poucas semanas soube-se que o padre Travis Clark, pároco da paróquia de São Pedro e São Paulo, em Pearl River, no Louisiana, tinha cometido um ato de profanação e sacrilégio no altar da igreja, tendo relações com duas prostitutas. O ato foi filmado por alguém que viu e informou a polícia.

O arcebispo Gregory Aymond, de Nova Orleãs, não perdeu tempo e reagiu com força. O padre foi removido permanentemente do ministério e “nunca mais servirá na Igreja Católica”. Numa mensagem de vídeo publicado pela Arquidiocese, o arcebispo Aymond condenou o ato de profanação do altar, dizendo:

“A sua profanação do altar e da igreja foi demoníaca e estou enfurecido pelas suas ações. Quando soubemos dos detalhes removemos o altar e queimámo-lo. Irei consagrar um altar novo.”

As medidas do arcebispo são para proteger a sacralidade do altar porque, na Igreja Católica, um altar não é um ornamento, uma decoração ou uma peça de mobília. Pelo contrário, segundo Catecismo da Igreja Católica:

O altar da Nova Aliança é a cruz do Senhor, de onde dimanam os sacramentos do mistério pascal. Sobre o altar, que é o centro da igreja, é tornado presente o sacrifício da Cruz sob os sinais sacramentais. Ele é também a mesa do Senhor, para a qual o povo de Deus é convidado. Em certas liturgias orientais, o altar é, ainda, o símbolo do túmulo (Cristo morreu verdadeiramente e verdadeiramente ressuscitou).

Para além disso, o Cânone 1239 §1 do Código de Direito Canónico, especifica que um altar deve ser reservado unicamente à adoração de Deus, excluindo qualquer outro uso profano ou sacrílego. Aplicando ainda o Cânone 1212, uma vez que o acto de sexo em grupo teve lugar em cima do altar, este foi violado por actos gravemente injuriosos e escandalosos para os fiéis.

As violações foram tão graves e contrárias à sacralidade do local (Cânone 1211) que o altar da Igreja de São Pedro e São Paulo perdeu a sua dedicação e bênção e deixou de poder ser usada para as funções sagradas. A exclusão absoluta e perda da dedicação explicam as ações do arcebispo, nomeadamente a remoção do altar antigo, a sua purificação pelo fogo e a dedicação de um altar novo – cumprindo assim o rito penitencial da restauração.

Obviamente a profanação é o contrário da santidade. O profeta Ezequiel usou palavras duras para avisar os seus ouvintes da natureza radical do sacrilégio cometido quando se profanavam os santuários.

Por isso, juro pela minha vida, palavra do Soberano, o Senhor, que, por terdes contaminado meu santuário com vossas imagens detestáveis e com vossas práticas repugnantes, eu retirarei a minha bênção. Não olharei com piedade para vós e não vos pouparei.

Ezequiel descrevia as consequências devastadoras para todos os envolvidos no ato de profanação: Deus iria vingar-se porque o santo tinha sido profanado e violado.

A destruição de Sodoma

O fogo simboliza destruição e juízo, mas é também uma manifestação de Deus e um sinal de renovação. O Senhor fez chover enxofre sobre Sodoma e Gomorra, fogo enviado dos céus pelo Senhor. Deus consumiu os ídolos pelo fogo: “Tomou o bezerro que eles tinham feito e destruiu-o no fogo; depois de moê-lo até virar pó, espalhou-o na água e fez com que os israelitas a bebessem”.

Mas a destruição e o juízo pelo fogo têm também um elemento construtivo. O fogo é a manifestação de Deus e um meio para a renovação do homem.

Quando João Baptista falava aos impenitentes avisou-os que aquele que vinha depois dele baptizaria de forma diferente: com o Espírito Santo e com o fogo. Este novo baptismo traria a salvação, o fogo destruiria o pecado e daria nova vida.

O “baptismo pelo fogo” é simultaneamente destrutivo e construtivo; é um fogo que consome o pecado e o mal e conduz a nova e regenerada vida que floresce.

O arcebispo Aymond reafirmou esta verdade quando queimou o altar profanado. E depois encontrou-se com os seus irmãos no sacerdócio e convidou-os a renovar as suas promessas. Vai depois celebrar uma missa de reparação.

Quanto à Igreja de Santa Ágara, em Caltanissetta, Sicília, os polícias detiveram dois indivíduos que crêem ser os autores do acto de vandalismo. Têm chovido donativos para reparar os danos e restaurar o altar.

O mal e a profanação da santidade sempre os teremos connosco. E com o aumento das correntes pós-cristãs e anticristãs na nossa cultura estes ultrajes tornar-se-ão mais frequentes e flagrantes. (Duas igrejas foram incendiadas no Chile há dias durante protestos políticos e vários locais católicos nos Estados Unidos têm sido atacados). Mas como se vê por este caso do altar que foi rapidamente purgado e restaurado, a Igreja continua pronta a renovar – precisamente porque é o verdadeiro e vivo Corpo de Cristo.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020 em The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 26 October 2020

Covid no Lar e Pizzaballa na Terra Santa

Há um surto de Covid-19 na Casa Sacerdotal de Lisboa, o lar para padres idosos e reformados do Patriarcado de Lisboa. Por enquanto só um padre idoso tem sintomas. Saiba tudo aqui.

O Papa nomeou mais 13 cardeais. Entre eles o primeiro cardeal negro dos EUA, um do Ruanda e um do Brunei, de ascendência chinesa.

Francisco nomeou também o novo Patriarca Latino de Jerusalém. Trata-se do franciscano italiano que já servia como administrador há quatro anos, pelo que não foi uma surpresa total, mas os fiéis e o clero, de vasta maioria árabe, esperavam que fosse novamente um árabe a ser escolhido.

Nos dias em que estive de folga o Parlamento chumbou o referendo à eutanásia. Os bispos não se coibiram de criticar os deputados.  

Depois de ter publicado duas notícias com base numa entrevista ao padre Peter Stilwell, a semana passada, hoje deixo-vos com a transcrição integral da conversa, para quem quiser ler mais a fundo.

Não deixem de ler o artigo do The Catholic Thing dasemana passada, sobre como a candidata a juíza no Supremo Tribunal dos Estados Unidos é “intolerável”, como nós também devíamos ser.

Peter Stilwell sobre a Universidade de São José, em Macau e o cristianismo na China

Esta é a transcrição integral da entrevista que fiz ao Pe. Peter Stilwell. A entrevista resultou em dois artigos que podem ser lidos aqui e aqui.

Foi chamado para a Universidade de São José numa missão de "bombeiro", para apagar fogos. Sente que a deixou melhor do que a encontrou?

Acho que no conjunto dos oito anos, e graças ao trabalho de todos os que estão dentro da Universidade, e aos apoios que recebemos dos que estão fora, muitos dos projetos do professor Ruben Cabral que tinham sido desenhados, do novo campus e de ter uma universidade que pudesse ter critérios internacionais, foi possível realizá-los ao longo dos meus dois mandatos. Por isso, sem dúvida que os oito anos foram de crescimento e de estabilização e hoje a universidade é vista com respeito pelas outras universidades locais. 

Quando saiu de Portugal levava uma grande experiência académica, mas sempre em Portugal e na Europa. Foi fácil adaptar-se à realidade asiática?

Macau tinha um sistema de ensino superior muito nos primórdios. A primeira universidade propriamente de Macau, a Universidade de Macau, foi criada em 1992, exatamente 20 anos antes de eu ir para lá. Tinha havido uma outra universidade antes, que era uma universidade particular, mas foi criada por gente de Hong Kong, para Hong Kong, como Universidade da Ásia Oriental porque não puderam criá-la em Hong Kong. Foi essa que foi comprada pelo Governo de Macau e foi desdobrada num politécnico, na Universidade de Macau e numa universidade aberta que mais tarde seria comprada por uma entidade particular e se tornou a Universidade Cidade de Macau. 

Portanto quando eu cheguei a Macau as universidades estavam a pensar reorganizar os seus estatutos, ter uma nova lei do ensino superior que pudesse corresponder às exigências que o ensino superior tem hoje em dia a nível mundial, todo o processo de Bolonha tinha sido introduzido na Europa e depois com impacto mundial no princípio deste milénio, por isso tudo era bastante recente. Eu tinha a vantagem de ter assistido aqui e ter sido responsável na Faculdade de Teologia pela adaptação da Universidade Católica ao sistema de Bolonha, portanto conhecia por dentro as exigências desse sistema e que nos tinha levado a repensar o que era o ensino superior e como se podia desenvolver. 

Portanto eu levava muitas vantagens e coincidiu ser num momento em que a própria região autónoma de Macau estava a desenvolver o seu ensino superior para uma nova etapa.

E a nível da relação com as autoridades chinesas?

Quando pensamos em Macau temos de pensar em duas autoridades. Temos a autoridade regional e depois temos o Governo central que está presente no território com duas grandes entidades, os Negócios Estrangeiros e Segurança, porque isso está a cargo de Beijing e a região autónoma é depois supervisionada por um gabinete de ligação e esse gabinete de ligação tem um setor responsável pela educação e que acompanhou o que nós íamos fazendo. De vez em quando a nossa equipa ia sentar-se à mesa para explicar o que é que estávamos a fazer e eles acompanharam-nos sempre com muita simpatia e muita boa-vontade, dando-nos algumas orientações. Perguntámos como é que viam a Universidade de São José e diziam que a viam como uma entidade que mantinha a ligação com a Europa, enquanto que as outras universidades locais estavam a tender, sobretudo na área do Business, para se articularem com os Estados Unidos e com o Canadá e eles achavam que a ligação com a Europa e a maneira de gerir negócios na Europa era muito importante e que não se perdesse esse ponto de vista. 

Também a ligação aos países lusófonos, achavam que nós tínhamos uma posição privilegiada pela nossa ligação com a Universidade Católica, porque um número significativo dos professores da Universidade de São José é oriundo da Universidade Católica Portuguesa, portanto havia várias possibilidades de nós enriquecermos as ligações com os países lusófonos. E gradualmente ao longo dos oito anos foi-se sentindo que a Universidade de São José era cada vez mais solicitada para fazer coisas que interessavam localmente, mesmo ao Governo central. 

Um dos seus objetivos quando foi para lá era conseguir que alunos da China continental fossem estudar para a Universidade. Não conseguiu. Foi um fracasso?

A Igreja Católica está em Macau há mais de 400 anos a tentar posicionar-se na China de maneira a tornar presente a mensagem do Evangelho e tem, ao longo desses 400 anos, tido avanços e sofrido recuos. E, portanto, não me surpreendeu que fosse uma coisa lenta conseguir a autorização para que os alunos da China viessem estudar para a Universidade de São José. 

Um pouco como o Vaticano, também a China pensa em décadas e séculos mais do que em anos e eu percebia nas entrelinhas que lhes fazia alguma confusão que a Igreja dedicasse tanto esforço à construção e implantação de uma Universidade e que isso não fosse para criar adeptos da Igreja Católica. Um dos altos funcionários do Estado perguntou-nos se obrigávamos os alunos a rezar no início da aulas, se os obrigávamos a ir à missa, se os obrigávamos a estudar catequese e nós explicámos que não, que não perguntávamos a religião das pessoas ao inscreverem-se, nem ao sair da Universidade, que os princípios cristãos eram os que estavam presentes na gestão da vida comum da Universidade e na maneira como geríamos a vida universitária, o que não é difícil, já que as universidades nasceram no seio da Igreja Católica, na Idade Média europeia. Havia esse receio, portanto acho que há um compasso de espera enquanto as autoridades esperam para ver se a Universidade é perigosa. 

Há que acrescentar aqui um elemento que se torna circunstancialmente importante, que é a questão de Hong Kong. Porque certos grupos dos jovens que animaram estas manifestações que tem havido em Hong Kong vieram dos quadros de escolas cristãs – não só católicas – portanto aos olhos das autoridades estão marcados como sendo de proveniência cristã. Não fazem imediatamente confusão, mas andam um bocadinho de pé atrás. 

Mas voltando à questão inicial, porque é que a Igreja investe tanto na educação, se não quer criar mais adeptos? E fomos explicando que é uma das obras de misericórdia, ensinar. Um dos altos funcionários dos Negócios Estrangeiros, perguntei-lhe onde tinha estado antes e disse que tinha estado na Índia, e eu perguntei se tinha visitado a casa da Madre Teresa de Calcutá, e ele disse que sim, que ficou muito sensibilizado com o trabalho delas. E eu disse que ela tinha esse princípio que acolhia pessoas indiferentemente da religião e não as procurava converter à força. E isso é porque a nossa experiência cristã, uma das vertentes da nossa experiência espiritual, é encontrar Deus nessas obras de misericórdia, seja no cuidado pelos pobres, no ensino aos ignorantes, isso faz parte da experiência tipicamente cristã. Não sei se ficou convencido, mas era a minha justificação repetida às autoridades. 

Houve protestos muito graves em Hong Kong, mas Macau também teve leis semelhantes e não houve protestos significativos. Como é que se explica esta diferença?

Quando houve os acordos para Hong Kong e depois Macau voltarem à soberania chinesa, ou à administração chinesa – porque no caso de Macau a soberania chinesa existiu sempre – foi acordado que os negócios estrangeiros e a segurança nacional pertenciam a Beijing, como acontece connosco com os Açores e a Madeira, são regiões autónomas, mas debaixo da soberania nacional. Ficou acordado também que cada uma das regiões iria elaborar a sua lei de segurança nacional. Foi uma concessão por parte de Beijing que fossem os parlamentos locais a decidir sobre uma lei que, claro, levaria o placet de Beijing. Macau avançou e fez a sua lei, que foi aprovada e a lei de Macau mantém tudo dentro de Macau. Se há casos considerados de perigo para a segurança nacional são julgados pelos tribunais de Macau e ficam dentro de Macau. No caso de Hong Kong tem havido esta longa sessão de protestos que remonta já há uns tempos e Hong Kong avançou com uma proposta de lei de segurança que foi chumbada, por assim dizer, nas ruas, pelas manifestações e a recusa da oposição no Parlamento em discutir e votar a lei.

Passados anos, e tendo aumentado os protestos em Hong Kong, o Governo central disse então fazemos nós e aplicaram uma lei de segurança nacional que é pior do que aquela que estava prevista pelas autoridades de Hong Kong, porque estabelece que conforme a gravidade dos crimes, segundo as autoridades locais e as centrais, as pessoas podem eventualmente ser extraditadas de Hong Kong para serem julgadas por um tribunal na China continental. Isso é bem pior – na perspetiva dos manifestantes de Hong Kong – do que aquilo que aconteceu em Macau e do que aquilo que eles chumbaram. 

Universidade de São José

Há uma diferença na forma como macaenses e Hong Kong vivem a relação com o Governo central da China?

Macau é muito pequeno, são 700 mil habitantes. Hong Kong são sete milhões. É quase o tamanho de Portugal, em termos demográficos. Portanto há aí uma diferença substancial. Hong Kong tem o estatuto de um grande centro financeiro mundial que ombreava com Nova Iorque, Londres e os grandes centros mundiais da Finança. Era um lugar onde as empresas que queriam negociar com a China vinham estabelecer as suas bases e, portanto, tinha um estatuto económico e cultural, sentia-se seguro de si próprio. 

Hong Kong também é composto em grande parte – se as minhas informações estão corretas – por gente que se refugiou da invasão dos japoneses, das guerras civis na China, enfim, gente que saiu da China e que eventualmente nunca esteve de acordo com o que aconteceu no final da Guerra Civil. Um pouco como aconteceu em Taiwan.

Já Macau existe há 450 anos, tem uma população luso-asiática, a comunidade macaense, que está lá há gerações, à volta da qual se constituíam mais duas comunidades ou três, uma de chineses vindos para trabalhar ou em fuga, mas que eram menos; filipinos de língua inglesa que vinham trabalhar e com portugueses que vinham agora mais recentemente por causa das crises económicas na Europa e em Portugal que iam lá trabalhar.

No centro está esta comunidade que faz a ponte entre a cultura chinesa e a ocidental há séculos e que conhece e sempre soube gerir estas relações com a China continental ao longo de mudanças de regime, de imperadores, de dinastias, sabendo que às vezes é preciso recuar, outras avançar nestas negociações, é preciso ter calma, não ser confrontacional e isso explica um pouco a diferença. Eu notei, nas pessoas com quem lidava e contactava, que havia algum receio de um "spillover" de Hong Kong para Macau. 

Houve uma ou outra pequena manifestação a certa altura, há uns anos, mas depois as pessoas viram que em Hong Kong aquilo estava a levar a uma situação que ninguém queria para Macau, de instabilidade e insegurança nas ruas, e, portanto, não notei que houvesse grande tentação. 

As autoridades estavam preocupadas com as universidades e perguntavam-nos que medidas é que tínhamos. Nós respondemos que tínhamos as medidas que eram habituais em todo o mundo, que o campus universitário não era espaço para debates politico-partidários, esse género de coisas, mas nunca sentimos que da parte dos nossos alunos houvesse movimentação que notássemos. 

Sei que houve um momento mais difícil com um docente que criticava abertamente o regime de Beijing e por isso foi afastado. Foi criticado por isso. Acha que tomou a decisão certa?

Fui o responsável. Não posso deixar de pensar que agi bem. O processo está em curso, nos tribunais, sei que haverá uma audição agora no dia 17 de novembro. Espero que seja a última e que seja possível ver como uma autoridade independente, como são os tribunais, ajuíza uma decisão sem dúvida difícil na altura.

Durante os seus mandatos celebrou-se o acordo entre o Governo da China e o Vaticano. Como é que recebeu esta notícia?

Foi com surpresa. Eu sabia que as negociações estavam em curso, mas depois na última fase não sabia que tinham chegado ao ponto de assinar o acordo. Depois ninguém o viu, portanto não sabemos exatamente o que lá está escrito. E não foi assinado pelos tops, não foi assinado pelo Papa e pelo Secretário de Estado do Vaticano e um ministro do Governo chinês, foram figuras de segunda linha que terão assinado esse documento. 

Ele terminou em setembro e estão em curso negociações para saber se se prolonga através de um novo acerto [NOTA: O acordo já foi renovado por dois anos]. Abrangia, pelo que conseguíamos perceber, a nomeação dos bispos, que é sempre uma questão delicada, e não se sabe muito bem o procedimento, mas parece que Beijing avança com dois ou três nomes e o Vaticano tem a última escolha. Pode dizer que sim ou que não. E se disser que não haverá outra seleção a seguir. Havia um acordo semelhante com Espanha no tempo de Franco, portanto não é uma coisa que seja estranha à tradição da Igreja. No Século XIX houve entendimentos desse género com vários países. O que faz mais confusão às pessoas é que seja um regime comunista, que se diz aberta e publicamente ateu, a escolher os dirigentes da Igreja Católica. Mas isso faz parte da própria visão que o regime tem de si próprio. 

A China não se entende como um Estado acima dos partidos, mas como um partido acima do Estado. É uma visão diferente. É um pouco o prolongamento da visão que tinham os imperadores, portanto havia toda a administração burocrática, que no Ocidente dizemos que são os mandarins, que eram supostamente um regime meritocrático, ou seja, as pessoas entravam na função pública através dos seus méritos, através de exames públicos. O próprio Matteo Ricci e os jesuítas entraram para a China e entraram em diálogo com as autoridades chinesas através desse processo, fazendo o exame e tornando-se funcionários públicos. Mas acima dessa função pública, semelhante à nossa ideia de Estado, havia o imperador e o imperador não era governado por nenhuma outra lei a não ser o que era considerado o mandato celeste.

Desde que ele, ou ela, contribuísse para que o Povo se desenvolvesse harmonicamente, e havia esta ideia da harmonia com a natureza e com o Céu, então o mandato do Céu ia-se prolongando. E há um pouco essa continuação, um pouco parecido com o absolutismo régio que tínhamos no ocidente, em que os reis consideravam que eram reis por direito divino, que estavam acima dos parlamentos. O partido considera-se sucedâneo disso e enquanto o partido contribuir para que o povo se desenvolva, que viva em harmonia, que possa ganhar projeção mundial – e olhando para os últimos 30 anos da China ela posicionou-se como não se tinha posicionado há mais de mil anos, é a segunda potência mundial em termos económicos, e há muitos chineses que ainda se lembram dos tempos da fome e de comer grilos porque não havia outra carne para comer. 

Portanto este desenvolvimento como que garante que o Partido tem legitimidade para governar, está acima dos tribunais, dos parlamentos, etc., e há essa perspetiva, mesmo em relação às igrejas é o partido que tem a última tutela para dizer o que contribui ou não para o desenvolvimento da sociedade e é isso que faz confusão quando vemos estas negociações. 


Aquilo que se chama a Associação Patriótica tem diversos ramos, tem um ramo para cada uma das religiões reconhecidas na China e aí cabem o Budismo, naturalmente, o Islão e dentro do Cristianismo as autoridades chinesas vêem duas religiões, o Catolicismo e o Protestantismo. E cada uma delas tem os seus responsáveis centrais, uma espécie de tutela do Partido Comunista e supostamente as autoridades dentro de cada uma delas tem de assinar, para ser reconhecido publicamente, um reconhecimento da soberania do Partido. Portanto os bispos têm de fazer isso, é o que se quer dizer quando se diz que é exigido aos bispos tornarem-se membros da Associação Patriótica, ou o padre assinar a dizer que reconhece a autoridade do partido. É uma coisa que causa algum conflito de consciência para os padres que tenham estado fora desse sistema, portanto na chamada Igreja Clandestina, ao entrarem agora para uma China em que as duas comunidades supostamente devem estar a harmonizar-se porque o Vaticano assinou com o Governo chinês, ao saírem da clandestinidade têm de assinar um acordo de reconhecimento do partido. 

Houve muitos críticos em relação ao acordo – o cardeal Zen é um dos exemplos – mas a maior parte dos críticos apontam para o facto de a perseguição aos cristãos estar a aumentar com a atual administração da China. É justo misturar as duas coisas?

Eu não isolaria a Igreja Católica disso. Um dos discursos nos primeiros anos do Xi Jinping foi para os membros do partido. É preciso lembrar que o PCC tem 100 milhões de militantes, portanto é dez vezes o tamanho de Portugal em militantes, e ele fez um discurso muito contundente, falando da questão da corrupção e recordando que o partido é ateu e não se pode ser membro de uma religião e do partido. 

O facto de ele ter identificado essa questão da religião dá-nos a entender que provavelmente havia membros do partido que se sentiam sensibilizados pelo Taoismo, ou pelo Confucionismo e eventualmente por outras religiões. Portanto o apelo ao ateísmo surgiu daquele que é hoje em dia o homem com mais poder na China desde Mao Tsé Tung, que é Xi Jinping e é compreensível que num país da dimensão da China haja quem queira avançar com os seus projetos, com a sua carreira, e se queira mostrar mais papista que o Papa e portanto quando se deitam abaixo igrejas, ou se retiram cruzes, é bem possível que haja gente a ultrapassar o que se faria em Beijing. Em Beijing não se vê isso, não se vêem igrejas a serem fechadas forçosamente, longe disso. 

Portanto é preciso matizar e perceber que talvez não seja a mesma imagem em todo o lado. É evidente que não há amizade para com as religiões, foi implementada uma lei que, segundo me dizem já existia mas que caiu em desuso, que proíbe a entrada nas Igrejas de jovens entre os seis e os 18 anos, portanto eles não se vêem nas igrejas. Isso é supostamente para que os jovens não sejam desencaminhados pelas "falsas doutrinas" das religiões.

A meu ver é uma faca de dois gumes. Atinge as comunidades, eu participei em missas em vários lugares da China e notava-se que havia bebés nos braços das mães e depois havia gente a partir dos 20 e tal anos, mas não havia ninguém de idade intermédia, nem entre os acólitos. 

Isso levou-me a pensar que às vezes o fruto proibido torna-se apetecível e portanto pode ser que isto acabe por sair o tiro pela culatra e os jovens poderão querer saber o que é isso que lhes estava proibido e quem sabe se não vai levar a que haja mais fiéis. 

Encontrei vários jovens nas minas viagens pela China, que não foram muitas, mas encontrei vários que se tinham aproximado do Cristianismo, uma do catolicismo e outra do protestantismo, outro que fez a viagem entre ambos, tornou-se católico mas depois por razões de trabalho deslocou-se para outra zona do país onde só havia comunidades protestantes e portanto ia às comunidades protestantes e depois ficou com problemas de consciência, de que talvez tivesse passado de uma religião para a outra. Mas em termos capilares o que está a surgir é uma inquietação religiosa entre as pessoas, uma procura e as pessoas estão a bater à porta das igrejas. 


Que futuro é que vê para o catolicismo na Ásia?

Como se sabe, excetuando as Filipinas e Timor-Leste, o Catolicismo e o Cristianismo em geral na Ásia é ultraminoritário, não tem nada a ver com a nossa visão na Europa, Estados Unidos, América Latina ou mesmo na África, onde o Cristianismo acaba por ser a religião marcante. Depois no Médio Oriente temos o Islão, na Indonésia temos o Islão e naquelas zonas da Ásia é o budismo ou, no caso da China, os restos de religiosidade popular que renascem. 

Quanto ao futuro da Igreja, e é essa a preocupação do Papa, estou convencido, é de que na China o crescimento do Cristianismo é muito grande. 

Diz-se que no ano 2030 a China ultrapassa o Brasil como maior país cristão do mundo. Apesar de isso continuar a ser uma minoria da população. 

Há um outro fator interessante presente, que as autoridades chinesas eventualmente têm consciência ou não, não sei, mas ao introduzirem o comunismo e o capitalismo na China como grandes fatores para o desenvolvimento económico e a articulação social do país, introduziram dois sistemas que têm raízes judaico-cristãs. e portanto que têmm uma antropologia que é estranha à antropologia confuciona e budista. Portanto está na matriz económica e do desenvolvimento económico e social, um gérmen cristão que faz com que quando as pessoas se inquietam com o sentido das suas vidas as religiões que mais correspondem ao tipo de desenvolvimento em curso são as religiões ou protestante ou católica, e portanto o crescimento dessas religiões dentro da China. 

Essa é a minha impressão neste momento. O que pode acontecer a médio prazo só Deus sabe. 

Falámos de perseguição às igrejas. Enquanto estava em Macau chegavam-lhe ecos daquilo que se passa com a comunidade muçulmana na China, que está a ser muito duramente perseguida? 

Chegavam, a maior parte delas através dos meios de comunicação ocidental. 

Tínhamos acompanhado com alguma preocupação notícias do interior da China de atentados à faca em Beijing e noutros pontos do país, que eram depois atribuídos a gente inquieta da zona de Xinjiang, portanto os uigures e muçulmanos, e agora chega-nos esta notícia de grandes campos de reeducação. Vamos ver o que é que dá. É um sinal do tipo de regime, mas também do medo que o regime tem ao criar esta dinâmica da rota da sede, de retomar a rota da seda, que todos aqueles estados que ficam a ocidente do norte da China, são todos países de maioria muçulmana e portanto há medo de que aquela luta interna que o Islão vive neste momento pelo seu coração, que tem dado origem a vários grupos extremistas, possa vir a ter influência na China, e a estabilidade social é uma coisa fundamental para o Governo. 

A identidade portuguesa de Macau está para ficar?

Acho que sim, no sentido de que estão lá essas famílias luso-asiáticas e com passaporte português, porque na altura da transição foi dada a oportunidade aos macaenses de obterem passaporte português e muitos têm. Muitos não falavam português, mas fizeram o passaporte para o que desse e viesse. E depois descobriram que isso lhes dá acesso à União Europeia, dá acesso aos seus filhos às universidades na Europa, pelo preço dos europeus, e portanto isso, acompanhado da ideia de que o Governo central abençoou a relação com países lusófonos e que tem muita preocupação com isso, porque tem consciência de que a sul do equador a língua mais falada é o português, no Brasil, Angola, Moçambique e o pequeno Timor, levou a que o prestígio de Portugal tem vindo a subir na China. 

Houve um impacto, um reflexo em Macau. O Governo central também disse a Macau que Macau devia ser a plataforma de encontro entre a China e os países lusófonos e quando Macau não tem feito o suficiente nessa área o Governo tem espicaçado e tem substituído pessoas e mostrado que isso não foi simplesmente uma coisa escrita num papel, é um interesse que se desenvolveu. Portanto neste momento estuda-se mais português, fala-se mais português em Macau, na comunidade chinesa, do que no tempo da administração portuguesa. 

O seu sucessor é um diácono galês, mas é da diocese de Southampton. Que conselhos é que lhe deixou?

Ele teve dois ou três anos na Universidade. Por sugestão minha, quando o bispo mostrou interesse em ter esta pessoa como futuro reitor sugeri que ele se adaptasse conhecendo a partir da base o que era a universidade, portanto ele foi diretor da Faculdade de Estudos Religiosos, ou seja, de Teologia, conheceu a Universidade Católica, participou em atividades da Federação Internacional de Universidades Católicas e portanto conhece a universidade por dentro. Eu pude-lhe dar alguns conselhos, mas grande parte daquilo que tinha acontecido na Universidade estava no papel, nos procedimentos instituídos. Ele teve a sorte, por assim dizer, de que para o ajudar agora nas relações com as autoridades chinesas o reitor da Universidade Cidade de Macau, que era a nossa rival, quis vir para vice-reitor dele, portanto eu sinto isso como um elogio ao trabalho feito, porque a Universidade ganhou prestígio suficiente para uma pessoa sair de reitor de uma universidade e querer vir para vice-reitor de outra. Ele é um chinês, com experiência também fora da China, nas altas esferas do ensino superior na China e espero que consiga ajudar a fazer pontes com a China. 

E agora?

Acho que o merecido descanso, para mim, para os alunos e para os colegas. Falaram-me de no próximo ano poder eventualmente dar uma cadeira a nível dos doutoramentos; estou a ajudar a Faculdade de Teologia a constituir o seu Conselho Estratégico e pediram-me para retomar o projeto Cinatti na Universidade. O Patriarca pediu-me para retomar o departamento do diálogo inter-religioso e das relações ecuménicas, e por isso já tenho coisas mais que suficientes, e estou ainda a arrumar a casa! Tenho muita coisa para arrumar. 

Wednesday, 21 October 2020

Polémica papal e intolerâncias supremas

O Papa Francisco terá dito, num documentário, que defende as leis de união civil entre homossexuais. Trata-se de uma posição contrária à da Congregação para a Doutrina da Fé. Também hoje Francisco disse que as portas das Igrejas não são barreiras, mas membranas permeáveis.

Foi assassinado um padre lusodescendente na Venezuela, baleado depois de ter resistido a um assalto.

O bispo auxiliar de Braga, D. Nuno Almeida, critica o facto de se estar a tentar legalizar a eutanásia em plena pandemia.

As monjas trapistas já estão em Palaçoulo e dizem que tencionam ficar para sempre.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Stephen P. White explica porque é que a candidata ao Supremo Tribunal, Amy Coney Barrett, é “intolerável” e porque é que todos nós devíamos tentar ser um bocado mais “intoleráveis” como ela.

Por hoje é tudo. Estou de folga nos próximos dias, mas volto na segunda-feira, se Deus quiser.

A “Intolerável” Amy Barrett

Stephen P. White
Estamos a assistir esta semana a um estranho ritual nos Estados Unidos. Os senadores estão, um por um, a transformar pontos de discussão em “sound bites” e clips de vídeo que mais tarde serão inseridos em anúncios de campanha e vídeos de angariação de fundos. A razão para este rito enfadonho é o processo de aprovação de uma candidata ao lugar vago no Supremo Tribunal: a juíza Amy Coney Barrett. Estas audições de confirmação tornaram-se hoje em dia uma farsa.

A juíza, por sua vez, tem demonstrado graça e paciência, bem como episódios de brilhantia jurídica durante os procedimentos. Se for confirmada, a juíza Barrett será a sexta católica no Supremo Tribunal. A fé católica de Barrett – e a sua pertença ao grupo carismático ecuménico “People of Praise” – tem sido tema de muita discussão desde que ela foi nomeada e confirmada como juíza federal em 2017

Durante essa audição a senadora Diane Feinstein afirmou que “o dogma vive bem alto” em Amy Coney Barrett, que é mãe de sete filhos. Barrett tem sido sujeita a uma torrente de abuso e gozo na internet e em grande parte da imprensa.

A Constituição proíbe que alguém seja sujeito a uma prova religiosa para se candidatar a um cargo. Mas a “intensidade” das crenças continua a ser importante para alguns. Os católicos são bem-vindos, dizem, desde que as suas palavras e acções não proclamem certos dogmas demasiado alto.

A fé característica de Barrett – e a preocupação que causa entre os defensores de certas piedades seculares – é refrescante, mas também sublinha a indistinção de tantos católicos que ocupam cargos políticos.

A verdade desconfortável é que “ser católico” nos Estados Unidos já não indica uma abordagem política distinta. Mais preocupante até, do ponto de vista católico, é o facto de que “ser católico” na América já não é indicativo de um conjunto característico de práticas religiosas. Aliás, o “mero” facto de alguém ser católico, hoje, diz-nos quase nada sobre o conteúdo das suas crenças religiosas.

James Joyce escreveu que “católico significa ‘cá vem toda a gente’” e isso é uma boa lembrança de que a nossa tribo sempre foi conhecida pela sua variedade, cheia de santos e de pecadores. Ainda assim, o estado da crença católica nos Estados Unidos, e por isso o estado da vivência católica na praça pública, parece estar particularmente degradada hoje em dia. É por isso que “católico” é usado tantas vezes em conjunto com outro termo: católico liberal, católico conservador, católico de João Paulo II, católico do Papa Francisco, católico na tradição jesuíta, etc., É necessário usar os outros termos para que a palavra tenha algum significado característico.

Mas isso deve fazer-nos pensar, sobretudo quando os aplicamos a nós próprios sem pensar no assunto. Recordem-se de como Paulo ralhou com os coríntios por pensarem de forma mundana: “Quando alguém diz, ‘eu sou de Paulo’ e outro ‘eu sou de Apolo’, não são apenas humanos?”


É interessante perguntar como é que chegámos a isto. Pode-se apontar para outras ideologias, de esquerda ou de direita, que aos poucos foram despindo as características próprias da vida católica neste país. (Se pensarmos, como muitos pensam, que quatro anos a justificar o mau comportamento deste Presidente corrompeu a consciência de alguns católicos, imaginem os efeitos de justificar o apoio ao aborto ao longo de 40 anos).

Pode-se apontar para os anos depois do Concílio Vaticano II, quando a disciplina sacramental colapsou por entre a confusão social e cultural. Pode-se culpar os bispos, que abdicaram da sua responsabilidade de ensinar e governar, deixando os seus rebanhos afastar-se impunemente. Pode haver um grão de verdade em cada uma destas explicações.

Mas temos de estar dispostos a reconhecer que os católicos nos Estados Unidos perderam a sua identidade característica não por causa de algo que nos aconteceu, mas porque optámos.

A Elizabeth Bruenig, que é católica também, escreveu recentemente sobre as consequências involuntárias de gerações de católicos a tentar fazer-se em casa numa América protestante que, durante muito tempo, os olhava com desconfiança. Em suma, perdemos a nossa identidade católica porque nos queríamos encaixar. “Talvez os católicos tenham merecido o direito à indistinção, o privilégio de se poderem integrar perfeitamente na paisagem social e política dos Estados Unidos, a liberdade de não terem quaisquer obrigações morais. E que liberdade tão incaracterística, vasta e estéril que é”.

Como em qualquer outro lado, os católicos americanos são moldados pelas suas circunstâncias. Para os católicos na América isto significa uma cultura que em tempos era dominada pelo protestantismo e dedicada, em larga medida a um credo político (liberalismo) em relação à qual a Igreja tem tido há muito uma relação de desconfiança. O bravado e o individualismo americano podem ter servido os primeiros imigrantes e alimentado o espírito pioneiro. Mas estas mesmas características americanas revelaram-se particularmente corrosivas para os cidadãos de uma superpotência tão rica e tecnológica como a nossa se tornou, especialmente nos anos depois da II Guerra Mundial.

E o efeito na fé católica também tem sido corrosiva. Chamem-lhe inculturação, chamem-lhe sincretismo ou chamem-lhe, como o Papa Francisco, o triunfo do “paradigma tecnocrático” que nos levou a crer que a ordem na sociedade humana depende do exercício tecnocrático do poder, quando na verdade se trata do fim próprio da existência humana, tanto natural como sobrenatural.

Se ser católico não for um sinal de contradição para as ortodoxias mundanas do nosso tempo, então certamente estamos a fazer algo de errado. Se olhamos para a Igreja como uma ONG compassiva, como já avisou o Papa Francisco, então não é Cristo que estamos a proclamar, mas uma “mundanidade demoníaca”. Se a nossa fé católica for indistinguível do espírito do tempo, então somos como sal que perdeu o seu sabor.

E isso traz-nos de volta ao teatro que são as audições de confirmação no senado. As audições não têm a ver com justiça nem com as qualificações do nomeado, são sobre poder. Poder sobre a vida, poder sobre a família, sobre a sociedade, sobre a natureza e sobre a Igreja. Os seus opositores crêem que a juíza Barrett – pelas prioridades que escolhe e, sim, pelos dogmas que proclama – é um obstáculo intolerável ao seu exercício desse poder.

Tomara que mais de nós católicos fossem assim tão intoleráveis. O nosso país ficava a ganhar.

 

Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 15 de Outubro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 20 October 2020

Líderes pela paz e gérmenes de Cristianismo na China

O Papa Francisco presidiu esta terça-feira a um encontro internacional pela paz, juntamente com outros líderes religiosos mundiais. Francisco disse que o “evangelho do salva-te a ti mesmo” não é o Evangelho da Salvação e responsabilizou os políticos do mundo pela construção da paz.

No final do encontro todos os lideres presentes assinaram uma declaração conjunta pela paz, dizendo que a guerra é um “falhanço da política e da humanidade”.

Hoje olhamos para Macau, de onde regressou recentemente o padre Peter Stilwell, que foi durante oito anos reitor da Universidade de São José. O padre Peter faz uma análise muito interessante sobre o Cristianismo na China, concluindo que o facto de o país ter apostado no comunismo e no capitalismo como motores sociais e económicos facilita a evangelização da população.

Noutra nota, o padre Peter fala da identidade portuguesa de Macau e de como esta não só não está em perigo, como está mais forte desde que o território passou para administração chinesa.

Permitam-me ainda partilhar o Postal de Quarentena de hoje. Não é um assunto religioso, mas é uma iniciativa que me dá imenso gozo fazer. Esta terça-feira recebemos um postal da Suíça, com banda sonora dos The Doors.

Partilhar