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Wednesday, 6 December 2023

Esperança numa nova geração de padres

No passado mês de Outubro o The Catholic Project, que eu dirijo na Universidade Católica da América, publicou os primeiros resultados da maior sondagem sobre padres católicos americanos em mais de 50 anos, o Estudo Nacional de Padres Católicos (ENPC). O primeiro relatório olhava para várias questões, incluindo se os padres estão ou não a ser bem-sucedidos (estão) e como é que a crise dos abusos, e a resposta da Igreja a essa crise, têm afectado os níveis de confiança entre padres e bispos (tem, sim, de forma negativa).

Em Novembro a nossa equipa publicou um segundo relatório, demonstrando algumas perspectivas adicionais da ENPC, olhando mais de perto para a polarização intergeracional entre o presbiterado.

Os padres mais velhos tendem a descrever-se mais como teologicamente “progressistas” e politicamente “liberais” enquanto os mais novos tendem a descrever-se como sendo teologicamente “ortodoxos” e politicamente “conservadores”.

O resultado em si não é especialmente surpreendente. Temos visto sinais a apontar nesta direcção há décadas, e estudos recentes sobre padres americanos têm demonstrado uma tendência conservadora semelhante entre jovens padres. É de notar que recentemente tanto o Papa Francisco como o Cardeal Christophe Pierre indicaram que Roma está inquieta com aquilo que considera ser uma tendência conservadora entre o clero americano mais novo.

Resumindo, o nosso estudo demonstra com provas concretas aquilo que já todos sabiam: os padres jovens americanos tendem a ser mais conservadores que os seus pares mais velhos. Mas há mais. Parece que a narrativa de que o presbiterado americano está a ser tomado de assalto por jovens conservadores não é tão simples como possa parecer à primeira vista.

Em primeiro lugar, mais do que um dilúvio triunfante de vocações conservadoras, o que os nossos dados demonstram é um colapso quase total de vocações sacerdotais entre homens que se consideram teologicamente progressistas ou politicamente liberais. Mais, esse colapso não é repentino ou recente, mas parece ser constante e contínuo, radicando nas coortes que foram ordenadas logo a seguir ao Concílio Vaticano II. Se eu fosse bispo, ou director vocacional, quereria muito poder compreender melhor este colapso.

Uma possível explicação pode ser encontrada numa homilia feita pelo já falecido Cardeal Francis George. Um quarto de século mais tarde, as suas palavras mantêm uma relevância surpreendente:

O Catolicismo Liberal é um projecto cansado. Essencialmente uma crítica, uma crítica até necessária em dada altura da nossa história, tornou-se agora parasítica de uma substância que já não existe. Revelou-se incapaz de passar a fé na sua integridade, e por isso desadequada para fomentar a entrega alegre que é pedida no casamento cristão, na vida consagrada e no sacerdócio ordenado. Já não vivifica.

Note-se que o Cardeal George disse “cansado” e não “morto”. Justamente, pode-se dizer que os anos recentes demonstraram que as notícias da morte do catolicismo liberal têm sido muito exageradas. Não obstante, se o cansaço do catolicismo liberal explica, pelo menos em parte, a quebra de vocações de certas alas na Igreja, o aviso que o Cardeal George faz sobre certo tipo de “Catolicismo conservador” é igualmente pertinente. “A resposta, porém, não se encontra num tupo de catolicismo conservador obcecado com práticas particulares e tão sectária na sua mundivisão que não pode servir de sinal de unidade para todos os povos em Cristo”.

Jesuítas americanos ordenados em 2023

Aqui, o nosso estudo revela um desvio significativo (e, penso eu, encorajador) da narrativa comum do colapso liberal e avanço conservador entre o clero. Enquanto que os padres mais novos têm muito mais tendência para se verem como politicamente conservadores do que os seus pares mais velhos, a coorte mais nova de padres americanos é também a que tem mais probabilidade de se descrever como politicamente moderada. Se a política fosse uma força motriz significativa por detrás das vocações sacerdotais “conservadoras”, então esperar-se-ia que os dados fossem bastante diferentes.

Junte-se a isto o facto de a coorte mais nova de padres ser também a mais diversa, étnica e racialmente, de todas as que sondámos e aquilo que emerge é um retrato de jovens padres americanos que contradiz muitos estereótipos persistentes. Os jovens padres americanos são mais teologicamente ortodoxos, politicamente moderados e etnicamente diversos do que qualquer coorte de padres desde antes do Concílio Vaticano II.

Se estivéssemos à procura de padres que pudessem evitar o “cansaço do catolicismo liberal” e ao mesmo tempo evitar formas de conservadorismo “obsessivo” e “sectário” – se estivéssemos com esperança de encontrar padres que fossem “sinal de unidade de todos os povos em Cristo” – então provavelmente procuraríamos uma geração de padres que, pelo menos no papel, fosse muito semelhante à geração de padres mais novos que temos hoje nos Estados Unidos.

Mas o sacerdócio, como todas as vocações, não se desenrola no papel. Tem de ser vivido por entre todas as armadilhas do mundo. Contudo, o Cardeal George também tinha algo a dizer sobre isso na sua homilia:

A resposta é, simplesmente, o Catolicismo, em toda a sua plenitude e profundidade, uma fé capaz de se distinguir de qualquer cultura e de se envolver com todas, transformando-as, uma fé alegre em todos os dons que Cristo nos quer dar e aberta a todo o mundo que ele morreu para salvar. A fé católica molda uma Igreja com muito espaço para diferentes abordagens pastorais, para discussão e debate, para iniciativas tão variadas como os povos que Deus ama. Mas, mais profundamente, uma Igreja capaz de distinguir entre aquilo que encaixa na tradição que a une a Cristo e o que é uma falsa partida ou uma tese distorcida, uma Igreja unida aqui e agora, porque é sempre una com a Igreja pelos séculos e com os santos no Céu.

O Cardeal Francis George viu claramente o que significa ser fiel, mas também unido em tempos de conflito e divisão. Os nossos jovens padres – bem como o resto de nós todos – devem ter em conta a sabedoria das suas palavras.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Novembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Thursday, 20 July 2023

Polarização na Igreja: Serei parte do problema?

A semana passada escrevi um texto em que referi o problema da polarização na Igreja. Era sobre a frase polémica de D. Américo Aguiar, e concluí com o seguinte parágrafo.

Todos sabemos que a Igreja está polarizada, como está a sociedade. Podemos alimentar isso, ou podemos agir como irmãos e dar ao outro o benefício da dúvida em situações que podem dar aso a incompreensões. Julgo que essa é uma obrigação que temos enquanto cristãos e pessoas civilizadas. 

O problema é que no seguimento da publicação deste artigo recebi vários comentários a sugerir que eu próprio estava a contribuir para a polarização, atribuindo a culpa da polémica aos conservadores e tradicionalistas.

Estou habituado a receber críticas pelo meu trabalho e opiniões, e acho que lido bastante bem com isso. Às vezes respondo, outras vezes ignoro – sobretudo quando os autores são anónimos – e frequentemente aprendo com elas. Mas desta vez fui apanhado de surpresa porque as críticas vieram de vários campos diferentes, desde tradicionalistas revoltados, a pessoas moderadas e até de amigos próximos cuja opinião estimo e respeito muito.

Transcrevo alguns, para terem uma ideia:

De uma grande amiga: Olá Filipe! Não pondo em questão a intenção da tua tentativa, para dares a tua opinião não me parece que seja preciso dares sempre “encostos” “aos mais conservadores”! Na verdade, nem consigo perceber a quem metes este selo, nem o que este selo significa.

De um “amigo” do Facebook, que não conheço pessoalmente mas que se dirige a mim sempre com bom-senso e cordialidade: Tomo também a liberdade de fazer um comentário ao teu comentário. Concretamente, escreveste que “Agora o meu comentário. A frase foi infeliz, sim. Mas é preciso uma certa má vontade para a interpretar da pior maneira possível, como aconteceu, sobretudo por parte de alas mais conservadoras ou tradicionalistas.”

Tal como tu, sou Católico. E certamente, tal como tu, não olho para a Igreja como para um parlamento ou um partido político. Por isso, se me permites a franqueza, creio que não ajuda a ninguém (exceptuando aos inimigos de Cristo) que se fale em “alas” dentro da Igreja. Todos conheceremos irmãos nossos a quem parece, p. ex.º, que o VI e o IX mandamentos deveriam ser abolidos ou reformados. Serão progressistas? Não creio. Hereges? Talvez também não. Certamente, tal como eu, precisam sim é de conversão. Todos conheceremos irmãos nossos a quem parece que a Missa deveria ser sempre celebrada no Rito Tridentino. São conservadores? Liturgicamente, talvez. Mas talvez também precisem, como eu de conversão.

A Igreja, independentemente da “polaridade” de opiniões dos seus membros sobre temas opináveis (já que, de um modo geral, o que é dogma não é, ou não deveria ser, matéria de discussão), é uma família. E aos filhos de um mesmo Pai penso que não se justifica dividi-los entre conservadores e progressistas. Se alguém o fizer, que seja quem não é Católico ou não entende a Igreja.

E incontáveis comentários irónicos no Facebook ao estilo de: Claro que a culpa aqui também tinha de ser dos tradicionalistas

Eu poderia aqui adoptar uma postura defensiva e dizer que o meu comentário sobre conservadores e tradicionalistas não era uma atribuição de culpa, mas apenas a constatação de um facto, que foi nesses meios e ambientes que a frase – e a pior interpretação possível da mesma – se tornou viral. Agora, a culpa da polémica, a existir, é de quem profere uma frase que depois tem de ser explicada, sobretudo quando a pessoa em causa é conhecida por ser boa comunicadora.

Mas o facto de terem sido estas as reacções ao que eu escrevi leva-me a pensar que desta vez não me posso safar à defensiva. Tenho de pensar se de facto não ando a contribuir para esta polarização que tanto lamento, e tenho de perceber que este último “incidente” não aconteceu apenas por causa de um texto meu, mas provavelmente porque já fiz o mesmo noutras alturas.

Por mais que eu compreenda a posição do meu amigo do Facebook, a verdade é que existem tendências e alas na Igreja e não me parece ser necessário fingir o contrário. Onde concordo com ele é no facto de sermos todos filhos do mesmo Pai, todos membros da mesma Igreja, e por isso não podemos nem devemos apontar o dedo aos que se encontram noutro grupo e dizer que nós somos filhos e eles enteados.

Nem é necessário que a existência de alas seja uma coisa má, na medida em que cada uma pode contribuir com os seus dons e capacidades, e na medida em que a sua coexistência seja marcada pela caridade e pela compreensão. Haverá sempre extremos que não se suportam facilmente, mas também na família isso acontece.

A questão central para mim está na relação com o sucessor de Pedro, que deve ser o centro e garante da nossa catolicidade. E é nesse sentido que eu reajo contra os ataques ao Papa e aos bispos vistos como próximos dele neste pontificado, da mesma forma como reagia contra os ataques a Bento XVI ou a João Paulo II. A questão é que nessa altura eu não tinha o “palco” que tenho hoje, e por isso poucos davam por isso.

Não se põe aqui a questão de defender sempre tudo o que o Papa diz e faz, mas sim de dar sempre o benefício da dúvida e agir com ele sempre dentro do respeito, da caridade cristã e da filial obediência. E a verdade é que fico chocado com alguns dos ataques que vejo ao Papa e à Igreja actualmente, vindos de pessoas que noutros pontificados defendiam acerrimamente o Sumo Pontífice.

Dito tudo isto, se me pedissem para me definir a mim mesmo, diria que sou um conservador em vários sentidos da palavra, embora tente manter uma mente e um coração aberto, esperando poder discernir entre o trigo e o joio, mas confiando acima de tudo que o Espírito Santo ajuda quem de direito a fazer essa discriminação para bem da Igreja e do Reino de Deus.

O que nos traz de volta à questão inicial. Com os meus sucessivos “encostos” aos conservadores e tradicionalistas, sobretudo quando sinto que eles estão a atacar o Papa directa ou indirectamente, estou a contribuir para o bem da Igreja e para o Reino de Deus? A julgar pelas reacções ao meu post sobre o D. Américo, estou a falhar. Peço por isso desculpa, a todos, mas especialmente aos que se sentiram visados.

Como disse nesse post, o combate contra a polarização começa em casa, com cada um de nós. Também eu vou tentar melhorar nesse aspecto.

Wednesday, 15 December 2021

Desconstruindo os Desconstrutores

Randall Smith
Um dos conceitos que se tornou importante nas teorias críticas da raça, feminismo de terceira vaga, pós-estruturalismo, pós-colonialismo, pós-modernismo e provavelmente uma série de outros “ismos” (que eu não sou suficientemente sofisticado para conhecer) é a noção de que devemos “desconstruir” oposições “binárias” que têm sido usados para perpetuar e legitimar estruturas de poder social que favorecem um grupo acima de outro. Binários desiguais que são frequentemente sujeitos a esta “desconstrução” incluem masculino/feminino; homem/mulher; pessoas brancas/pessoas de cor; razão/emoção e heterossexual/homossexual.

O problema, dizem, é que o primeiro elemento do par é considerado o “bom”, o “forte”, o “superior”, enquanto o segundo é o “mau”, o “fraco” ou o “inferior”. Por isso o que temos de fazer, dizem, é acabar com as oposições binárias para que o segundo grupo deixe de ser menosprezado ou oprimido neste “jogo” linguístico.

Para ser franco, não estou inteiramente convencido de que estes binários supracitados são assim tão nefastos como se diz. Pessoalmente, sempre pensei no binário homem/mulher como complementar, não como “melhor” ou “pior”. E como temos visto recentemente, a desconstrução desse binário em particular nem sempre foi para o benefício das mulheres, sobretudo no campo do desporto.

Seja como for, neste mesmo espírito de desconstrução, gostaria de propor uma série de outras oposições binárias que são regularmente usadas na sociedade contemporânea, frequentemente para menosprezar ou oprimir uma classe de pessoas. Tomemos como exemplo:

Ciência/Teologia

Razão/Fé

Progresso/Tradição

Progressista/Conservador

Modernidade/Antiguidade

Espiritual/Doutrinal

Moderno/Tradicional

Em cada caso, a oposição binária serve para menosprezar e oprimir. As pessoas dizem “Segue a ciência”. Ninguém diz “Segue a teologia”. Porquê? Porque se parte do princípio de que a categoria alargada e indefinida de “ciência” é factual, certa e indubitavelmente boa, apesar de, de tempos a tempos, repudiar todas as suas teorias mais populares. A “ciência” é associada à razão, ao progresso, às bênçãos da modernidade, enquanto a “teologia”, seja de que género for, seja por quem for, é tida como sendo mais do que um pouco duvidosa, associada a superstições antigas e dogmas fora de moda, do género que manteve os nossos antepassados na escuridão durante a “Idade das Trevas”, esse maldito tempo antes da luz pura da razão que surgiu durante o Renascimento e o Iluminismo.

Ouvimos as pessoas a dizer “temos a razão do nosso lado”. Se têm, ou não, não é bem claro. Muitas pessoas falam sobre “razão” ou “razão pura” mas não têm a menor idade do que a razão, em toda a sua complexidade e múltiplas formas de abordar a realidade, é verdadeiramente.


Por isso aquilo que as pessoas normalmente querem dizer com essa expressão é “eu tenho razão e tu não, porque não pensas como eu”.

A questão que estas pessoas estão a evitar é na verdade a mais importante de todas: “O que significa pensar? Como é que pensamos claramente sobre diversos assuntos? Faria sentido – seria razoável? – pensar sobre a pessoa com quem devo casar da mesma forma como penso sobre a razão pela qual o cobre conduz a eletricidade, ou se devo investir numa empresa e não noutra?

Ou será que existem diferentes formas de pensar, apropriadas a diferentes áreas da vida e diferentes questões? Se um treinador, ou um professor, disser a um colega céptico “eu acredito neste miúdo”, será que a resposta certa é “tens a tua fé, mas eu estou a usar a razão. Expulsa-o.”?

Quem quer ser “conservador” em oposição a “progressista”? Quem não quer “progresso”? Mas o que é o verdadeiro progresso, se não mera mudança? Se o binário fosse alterado para “conservador versus radical” ou “conservador versus anarquista”, quantas pessoas não escolheriam “conservador”?

Os católicos sabem bem como este jogo se desenrola na Igreja, quando as pessoas opõem “doutrinal” e “espiritual” como se fosse possível ser “espiritual” sem ter os pés bem assentes na doutrina. As tradições espirituais e os ensinamentos sobre justiça social da Igreja Católica baseiam-se em doutrinas muito específicas sobre justiça social e o desenvolvimento da pessoa. Leiam as obras de grandes autores “espirituais” como os santos Boaventura ou Hildegard de Bingen e encontrarão textos muito sofisticados de doutrina cristã.

Não estou a dizer que não se possam fazer distinções entre fé e razão, ou entre ciências naturais e teologia ou, para ser franco, entre Estado e Igreja. Os maiores teólogos da Igreja, como Tomás de Aquino, usavam estes termos com um correcto entendimento de ambos. A questão está em saber se devemos começar a desafiar as pessoas a deixar de usar estes binários quando recorrem a eles para preservar o seu próprio domínio cultural sobre os católicos e outras pessoas de fé, isto é, os pacóvios que não tiveram o benefício de uma educação secular numa universidade prestigiada e sofisticada, mantendo-se colados ao passado, com as suas superstições tradicionais que os impedem de participar no verdadeiro progresso.

Dado este tipo de preconceito irreflectido, talvez seja altura de aplicar uma dose séria de “desconstrução” aos binários opressivos da própria modernidade.

Quando alguém profere a frase ignorante: “Tu tens a tua fé, eu tenho a razão”, talvez os católicos devam adoptar a linguagem dos desconstrucionistas: “Isso não passa de um binário opressivo, e eu rejeito-o”.

Quando alguém diz “eu sigo a ciência e não uma qualquer teologia supersticiosa”, devemos responder: “Em primeiro lugar não sabes do que falas, porque não sabes o que é que a ‘ciência’ (do latim scientia, ou ‘conhecimento’) é; em segundo lugar, não pareces ter qualquer noção das discussões clássicas sobre a relação entre a ‘ciência’ e a ‘sabedoria’ (sophia), que remontam à antiguidade. Por isso, acabaste de dizer algo que é o equivalente linguístico a ‘as tuas emoções são muito femininas’ e não só me ofendeste como te revelaste profundamente preconceituoso”.

Se funciona para os desconstrucionistas, devia resultar para os católicos. Algumas pessoas de um “grupo tradicionalmente marginalizado”, nomeadamente os católicos, precisam de acordar, aprender a defender-se e não se deixarem ser oprimidos na linguagem e na sociedade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 14 de Dezembro de 2021)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 16 September 2020

O Estilo de Vida Liberal é Caro, muito Caro

Randall Smith

Muitas pessoas partem do princípio de que uma sociedade “progressista” na sua visão dos valores morais seria naturalmente “progressista” em termos económicos, que quem acredita na distribuição mais equitativa dos bens acreditaria também em padrões mais permissivos de comportamento.

Não nego que exista essa percepção, mas a realidade acaba muitas vezes por ser o contrário daquilo que os jovens progressistas pensam. Aqueles que gostariam de assegurar uma distribuição mais equitativa da riqueza na economia e um maior respeito pelo ambiente estão de facto a exigir uma autodisciplina considerável, do género que normalmente não exigimos a quem vive um estilo de vida de libertinagem.

Pensam que é descabido pedir a um homem para disciplinar os seus apetites sexuais, mas ao mesmo tempo esperam que ele abdique do seu apetite por dinheiro, estatuto social e poder?

É estranho dizer por um lado que “não é necessário ter a disciplina para ser fiel à sua mulher e filhos”, mas por outro insistir que alguém deva sentir-se responsável perante toda a humanidade no que diz respeito à reciclagem das embalagens de plástico. Se um homem não consegue disciplinar os seus apetites ao ponto de ser fiel aos seus próprios filhos e à mulher a quem jurou fidelidade até à morte, diante de Deus, então porque haveríamos de pensar que seria suficientemente disciplinado para ser fiel às gerações que virão depois da sua morte? Não nos deve surpreender, portanto, que à medida que as sociedades se tornam moralmente mais “progressistas” vão acumulando mais dívidas para serem pagas pelas gerações futuras.

A laxidão que os “progressistas” apoiam no campo da moral pessoal é apenas mais uma variante do individualismo autónomo que pretendem combater no campo económico. E cada vez que se enfraquecem os elos sociais da sociedade, sobretudo aqueles que são desenvolvidos dentro da realidade altruísta que é o casamento e a família, resulta numa diminuição do capital social necessário para assegurar que as pessoas continuem dispostas a partilhar abundantemente com os outros sem medo de ficarem indigentes.

Quando se fomenta maiores níveis de confiança social as pessoas ficam mais dispostas a partilhar. Quando temem que mesmo as suas relações mais próximas são baseadas em nada mais do que o prazer ou a realização do outro, esta vontade esvai-se e formam-se muros de proteção. Quando isto acontece, a única maneira de garantir mesmo as formas mínimas de colaboração passa a ser através da coação governamental. É mesmo isso que queremos?

Se não quer o Governo a intrometer-se na sua vida privada, surpreendo-o verdadeiramente que o vizinho do lado não queira o Governo a intrometer-se nas suas decisões empresariais privadas? Se quer usar o poder coercivo do Governo para obrigar os médicos a praticar abortos, então fica mesmo espantado ao saber que o seu senhorio quer usar os poderes coercivos do Governo para o despejar quando não paga a renda?

E da mesma forma, se insiste que o Governo não tem nada que lhe dizer quanto é que deve pagar aos seus trabalhadores mas ao mesmo tempo quer usar os poderes coercivos do Governo para favorecer o seu negócio, então porque é que se surpreende ao ver que os “progressistas” resistem à intrusão do Governo para umas coisas e encorajam-na para outras?

Numa cultura em que a liberdade significa sobretudo liberdade de constrangimentos, liberdade para fazer o que quero e não a liberdade para me dedicar ao bem dos outros, rapidamente se torna claro para os jovens que a liberdade que lhes está a ser “vendida” todos os dias pelas elites culturais – a liberdade de autocriação, a liberdade de criar uma identidade através dos bens de consumo, a liberdade de ir em busca do que é excitante e de viver como as celebridades nos anúncios – é cara, muito cara.

A vida “de artista” em Nova Iorque é cara. A mansão é cara e os colégios da moda são caros. Há estudos que revelam que mais de um quarto das pessoas que ganham mais de 100,000 dólares por ano dizem que “mal conseguem aguentar” e que não têm dinheiro suficiente para as suas necessidades mais básicas. A liberdade da autocriação autónoma é cara; o estilo de vida das celebridades também.


Los Angeles e Nova Iorque são viveiros de eleitores de causas socialistas, mas estão longe de ser exemplos morais de igualdade de rendimentos. As pessoas que vivem em casas e apartamentos caros e que gastam dinheiro em bares e discotecas, mas que depois exigem que o Governo faça “mais pelos pobres” têm muito pouca credibilidade.

Saia desse apartamento caro, vá viver para uma cidade modesta e um bairro simples, envie os seus filhos para as escolas públicas locais ou para uma modesta escola católica que serve de facto os pobres, e aí talvez tenha alguma credibilidade. Caso contrário é uma fraude. Não pode exigir aos outros que abdiquem das coisas reles de que gostam enquanto fica com as coisas sofisticadas que lhe dão prazer a si.

Os adeptos do estilo de vida liberal nunca conseguirão alcançar a justiça social se usarem a sua preocupação pela justiça social como os fariseus usavam os seus símbolos religiosos, como sinal da sua própria presunção. “Alargam os seus filactérios e aumentam as franjas dos seus mantos”; “tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens”; quando vão dar dinheiro aos pobres mandam tocar as trombetas para serem respeitados pelos outros.

Demasiados americanos, sejam autoproclamados “liberais” ou “conservadores”, acreditam que aquilo que torna a América grande é o facto de os indivíduos poderem escolher o seu próprio conceito de bem, desligado das exigências e das necessidades dos outros e alcançá-lo como um direito divorciado de qualquer obrigação aos outros ou ao bem comum.

Tanto os “conservadores laissez-faire” como os “progressistas” são chamados a compreender que a América apenas será “grande” quando fizermos nossas as orações os versos, demasiadas vezes ignorados, do “America the Beautiful”:

 

América! América!

Deus corrija cada uma das tuas falhas,

Confirme a tua alma na autodisciplina,

A tua liberdade na lei!

 

América! América!

Que Deus refine o teu ouro

Até que todo o sucesso seja nobreza

E todo o lucro divino!

 

América! América!

Que Deus te dê a sua graça

Até que o lucro egoísta deixe de manchar

O estandarte dos livres!

 

 

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 9 de Setembro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 28 February 2018

A Igreja é uma Realidade Política ou Espiritual?

Nicholas Senz

Quando os futuros repórteres aprendem as artes do jornalismo nas faculdades e universidades, o assunto sobre o qual costumam aperfeiçoar as suas técnicas costuma ser política. Por outras palavras, a maioria dos repórteres treinam para ser jornalistas políticos. Não é nada que não faça sentido, uma vez que a maioria dos empregos para jornalistas serão aqueles que cobrem o campo da política. Mas o factor negativo é que todas as outras áreas tendem a ser vistas pela lente da política e isso pode conduzir a uma cobertura distorcida.

Os exemplos abundam, mas existem sobretudo no campo do jornalismo religioso. E vemos esta tendência não só em órgãos de imprensa seculares, que cometem erros tão básicos como confundir um crozier [báculo] com “crow’s ear” [orelha de corvo] ou a apelidar carmelitas de freiras da Luz do Karma [Karma Light]. Claro que bastaria uma pesquisa de cinco segundos no Google para resolver isto, desde que haja noção do que não se sabe. Mas o que é mais perturbador é que tendemos a ver estes mesmos erros básicos em órgãos de informação católicos. Os jornalistas católicos importam frequentemente termos políticos para as suas reportagens sobre assuntos de Igreja e os resultados são tudo menos esclarecedores.

Uma das armadilhas mais frequentes e que mais têm formado, ou deturpado, o discurso eclesial é a divisão da Igreja entre “progressistas” e “conservadores”. Para o jornalista que vê tudo pela lente da política, isto seria uma perspectiva natural. A política tem sobretudo a ver com facções com interesses diferentes a competir pelo poder para poderem aplicar as suas agendas ou ideias. Na política americana as facções tendem de facto a caber nestes dois campos. Por isso, quando um jornalista participa num encontro da Conferência Episcopal e ouve os bispos a discutir se deviam dar prioridade a questões de vida ou de justiça social, não acha muito diferente de republicanos e democratas a debater os detalhes de um orçamento no senado.

Mas o ensinamento da Igreja não cabe tão bem nesta quadrícula da política secular e as tentativas de projectar os prelados neste ou naquele campo tendem a ser fúteis. Quem lê os textos do arcebispo Jose Gomez ou do Cardeal Sean O’Malley sobre questões de vida, classifica-os de conservadores; mas se ler as suas declarações sobre a imigração ou salários justos, parte do princípio que são progressistas. A verdade é que nem um termo nem outro se aplica a um contexto eclesial, mas demasiados jornalistas católicos insistem em usá-los. Este hábito só serve para exagerar e exacerbar as divisões entre os católicos.

A aplicação destes termos à realidade interna da Igreja é ainda menos apropriada. Tipicamente, os católicos que defendem os ensinamentos e a prática da Igreja são apelidados de “conservadores” enquanto aqueles que fazem pela mudança (normalmente por algo mais em linha com a moral secular), são apelidados de “progressistas”. Mas não deveria ser a doutrina da Igreja que serve para medir as outras coisas? Uma pessoa que simplesmente defende preservar a doutrina da Igreja devia ser considerada “moderada”. Os próprios termos são reveladores dos preconceitos daqueles que os usam.

Outro problema tem a ver com a forma como os repórteres e meios de comunicação descrevem os próprios ensinamentos da Igreja. Para os católicos estes ensinamentos são e entendidos como verdades, enraizadas nas Escrituras e passadas de mão em mão pela tradição apostólica, desenvolvida ao longo do tempo pelo Magistério. Mas demasiadas vezes vemos os jornalistas católicos a descrever estas verdades com recurso a termos políticos. Diz-se que a contracepção é “proibida” pela Igreja, que esta tem uma “política” contra a ordenação das mulheres e “regras” sobre eutanásia. Esta terminologia é inteiramente desadequada e enganadora. As proibições podem ser levantadas. As políticas podem ser alteradas. As regras podem ser mudadas. As verdades não podem.

Freiras da Luz do Karma
Todos estes termos podem ser usados correctamente numa análise política, em que as diferentes facções lutam pelo poder para poderem implementar as suas preferências, vendo-as anuladas e revertidas quando o partido da oposição as expulsar do poder. Usá-los para descrever os ensinamentos da Igreja apenas deixa o leitor com a impressão de que a doutrina e o dogma são alteráveis, sujeitos a guerrilhas de poder e acordos. Imagine-se os cardeais a fazer acordos sobre parágrafos do Catecismo como os deputados fazem acordos sobre projectos de lei.

Dito isto, claro que há elementos de verdade nesta forma de falar sobre a Igreja. Qualquer pessoa que conheça as tricas dos funcionários do Vaticano poderá dizer-lhe que muito do que se passa lá é política. Enquanto a Igreja for povoada por seres humanos – e não por anjos – continuará a haver facções e politiquices.

Mas esta não é a essência da Igreja. Não define o que a Igreja é, o que ensina nem a sua mensagem salvadora. A Igreja é composta por pessoas, mas é uma instituição fundamentalmente divina. É o corpo de Cristo, vivificado pelo Espírito de Deus, trazendo pessoas para o Pai através dos seus ensinamentos, sacramentos e vida diária.

Sem essas fundações, a Igreja ter-se-ia dissolvido há muito tempo. Esta deve ser a visão que guia a Igreja. Mas boa sorte em conseguir que as escolas de jornalismo compreendam, ou ensinem, isso.


Nicholas Senz é Director da Formação de Crianças e de Adults na Igreja Católica de St. Vincent de Paul, em Arlington, Texas, onde vive com a sua mulher e dois filhos. Tem um mestrado em Filosofia e Teologia da Dominican School of Philosophy and Theology em Berkeley, Califórnia.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 20 April 2016

A Revolução do Absurdo

David Carlin
Eu já fui politicamente liberal. Acreditem ou não, era orgulhosamente liberal – nos tempos em que o liberalismo ortodoxo acreditava em coisas como Segurança Social, sindicatos, igualdade racial, liberdade de expressão, anticomunismo e uma forte defesa nacional. Estou a falar do liberalismo de Franklin Delano Roosevelt, Harry Truman e John F. Kennedy.

Mas depois a ortodoxia liberal começou a mudar. Radicalmente. Começou por incluir o direito ao aborto. Isso não foi o suficiente para me fazer desistir do liberalismo. Em vez disso dizia que era liberal excepto no que diz respeito ao aborto. Mas o liberalismo continuou a mudar, acrescentando artigos ao seu credo. Por isso passei a dizer que era liberal – excepto no que diz respeito a todas essas coisas.

Até que um dia ocorreu-me que a minha versão do credo liberal estava tão cheio de buracos que eu era um liberal do estilo queijo suíço. Por isso decidi que afinal já não era um liberal e devia ser um conservador político e cultural.

Muitos de vocês devem estar a pensar que eu devia ter desistido do meu liberalismo mal este adoptou o aborto como artigo de fé. Concordo – hoje. Mas como muitas pessoas que começaram na minha posição (incluindo muitos católicos), eu não estava suficientemente atento ao que se passava para ter percebido, de início, o quão importante isto é. O aborto é tão claramente errado que as pessoas que acreditam na sua justiça só podem ter um defeito nas suas faculdades de juízo. Se pudessem estar errados quanto ao aborto, então era natural que estivessem errados sobre muitas outras coisas.

Dizer que eu era liberal excepto em relação ao aborto era mais ou menos como um alemão nos anos 30 dizer que era Nazi excepto no que diz respeito ao anti-semitismo. O anti-semitismo era a essência do nazismo, e se os nazis estavam equivocados sobre uma coisa tão obviamente errada como o anti-semitismo, então era natural que tivessem um defeito nas suas faculdades de juízo e que se viessem a enganar sobre muitas outras coisas. E assim foi.

Hoje, para se ser liberal, é preciso acreditar numa série de coisas absurdas. Por exemplo:

  • Que os nascituros não são bebés, que não são seres humanos;
  • Que relações sexuais entre dois homens ou duas mulheres são uma coisa perfeitamente natural;
  • E, por isso, que apenas mentes pequenas e discriminatórias se oporiam ao casamento homossexual.

Recentemente foram acrescentados a este credo liberal dois artigos:

  • Que se um homem pensa que é uma mulher então é mesmo, e que se uma mulher sente que é um homem, então é mesmo.
  • Que é discriminatório pensar que as casas de banho para homens deviam ser reservadas para homens e as de mulheres para mulheres.

Alguns liberais não são tão progressistas como outros. Eles ainda não abraçaram estes últimos dois artigos. Mas, como os extraterrestres dizem nos filmes de ficção científica: rendam-se, é inútil resistir. Têm de se render, e fá-lo-ão em breve. Até Novembro deste ano o candidato democrata à presidência (seja Bernie Sanders, seja Hillary Clinton) terá, para não perder o voto liberal, de defender o uso misto de casas de banho como um direito humano fundamental, ao nível do direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. 

Não se trata de uma mera suposição, o destino assim o dita.

Portanto, para se ser um liberal ortodoxo hoje é preciso acreditar numa lista cada vez maior de coisas que não são apenas erradas, são completamente absurdas. Não me espanta que daqui a 10 ou 20 anos seja necessário acreditar que se alguém se identifica como um coelhinho então é mesmo um coelhinho.

Chegará o dia em que um liberal será obrigado a respeitar a opinião de pessoas que dizem que 7 + 5 não é igual a 12? Talvez. Afinal de contas, se se defende que Bruce Jenner é uma mulher, porque não defender que a matemática não passa de uma opinião pessoal e subjectiva? Ou que a minha crença de que a minha resposta é a correcta é o produto de matemática imperialista ocidental, ou uma mera construção social.

Ao longo dos últimos 50 anos testemunhámos aquilo a que apelidámos de revolução sexual. Mas eu suspeito que seja mais do que isso. A questão sexual foi apenas a brecha. Os filósofos, moralistas e papas falam sobre relativismo – até sobre a ditadura do relativismo – e coisas como narcisismo, niilismo, autonomia radical, a era da vontade pura e outras noções intelectuais. Mas é ainda mais radical do que isso.

Esta é uma revolução do absurdo; uma revolução contra a razão; uma revolução contra a civilização. Contra a própria realidade.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez no sábado, 9 de Abril de 2016 em The Catholic Thing)

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Monday, 20 October 2014

O Sínodo, Eu, a Nena e o Peu

Eu sou do tempo em que os sínodos eram chatos...

Lembro-me de vários sínodos da Igreja ao longo da última década e a única coisa que todos tiveram em comum é que eram aparentemente inúteis e profundamente maçadores.

Claro que para os bispos que neles participavam havia de haver alguma utilidade, nem que fosse pelo facto de estarem juntos e conhecerem-se melhor, aprofundando este ou aquele tema, mas quem é que se lembra, sinceramente, de algo de novo ou de marcante que tenha saído do sínodo sobre a Eucaristia?

Mas depois veio o Papa Francisco e o sínodo para a família e algo me diz que nada vai ser igual.

De positivo, por isso, temos esta animação toda, para começar. Temos verdadeiras trocas de ideias, temos bispos “à pancada”, como acontecia antigamente nos concílios ecuménicos decisivos. Temos um modelo em que, a confiar no que o Papa tem dito, aquilo que sai do sínodo vai mesmo ser tido em linha de conta para qualquer decisão final.

Em relação à temática tivemos vários meses com a Igreja a aprofundar temas que nos tocam a todos, porque a família é verdadeiramente a célula base da sociedade e quando está mal é esta que sofre.

Mas nem tudo foi bom. É natural haver diferenças de opinião e até discussões, mas é um bocado triste ver que mesmo entre os sucessores dos apóstolos há politiquices e manhas. Eu até acredito que seja inevitável, que seja sempre assim, até certo ponto, mas quando fica exposto custa mais. A leitura do relatório intercalar, com o cardeal Peter Erdo a ter de assumir a autoria de um texto com o qual claramente estava em profundo desacordo; o facto de se ter produzido um documento que, a julgar não só pelas palavras de vários bispos mas também pela votação final, não traduzia minimamente a opinião dos padres conciliares... tudo isso custa a ver.

Porque não se podem esquecer, os nossos bispos, que muita gente ficou com esperanças de que este sínodo se traduzisse numa alteração das regras em relação a questões que são para elas feridas em aberto. Não estou agora a ajuizar se essas mudanças seriam benéficas ou não, apenas que havia muita gente a quem foi dada esperança que afinal era infundada. Isso conduz a desilusão e a revolta.

Mas talvez uma das coisas mais lamentáveis a que assistimos foi o extremar total de posições, entre liberais e conservadores. Se me parece, sinceramente, que muitas das “manobras” a que me referi acima foram levadas a cabo pelos liberais, também não foi bonito ver a reacção dos defensores do status quo. Um caso extremo foi em relação ao Cardeal Kasper, figura de proa da “mudança”, que fez umas declarações muito parvas sobre os africanos, mas que não eram muito mais do que isso, parvas, e acabou por ser acusado de tudo, incluindo “racismo e xenofobia”. O triunfalismo nesses dias dos que durante tanto tempo tinham vivido com o medo de que a sua linha vencesse no sínodo era palpável, e desagradável.

O discurso final do Papa foi, neste sentido, absolutamente brilhante e é talvez o texto com que mais me identifico em todo este processo.

A proposta do Kasper, de haver casos em que as pessoas em uniões irregulares pudessem comungar, nunca me convenceu inteiramente. Não que eu seja frontalmente contra a ideia, (como foi evidente quando escrevi este texto, que deu uma longa discussão e desembocou neste), mas porque o seu raciocínio nunca me pareceu suficientemente sólido. Havia coisas vagas que simplesmente deixava no ar e não conseguia tranquilizar quem dizia que na prática o sistema iria fragilizar a ideia da indissolubilidade do casamento.

Pior foi a campanha em que depois se lançou, dando entrevistas atrás de entrevistas, mas reagindo como que ofendido quando o “outro lado” ripostava; alegando que falava em nome do Papa (mesmo que ele saiba que o Papa concorda com ele, o Papa tem boca para falar e não precisa da sua ajuda)... foi-me desencantando cada vez mais e penso que ele acaba por ser o maior derrotado de toda esta situação, o que é pena, porque a história de um sínodo não devia ter de ser contada através de vencedores e derrotados.

Foram duas semanas muito intensas, para quem viveu este sínodo de perto. No meu caso a acompanhar conferências de imprensa na net, a seguir ao máximo o que se escrevia nas redes sociais, nos órgãos de comunicação especializados, etc. E a verdade é que ao fim destes dias todos, em que todos falavam só de rupturas, uniões irregulares, casos dramáticos e complexos, comecei, talvez tenhamos começado todos, a perder a perspectiva daquilo que estava verdadeiramente em causa.

Por isso é que tenho a agradecer à minha cunhada e ao meu cunhado terem marcado o casamento para o dia 18 de Outubro. Certamente não faziam ideia quando agendaram, mas o facto de eu ter passado o sábado a festejar o seu casamento e não a acompanhar a recta final do sínodo fez-me mais bem do que se possa imaginar.

Sentado naquela igreja, a ver uma assembleia repleta de pessoas com perfeita noção do que se estava a passar; a responder em uníssono na celebração; com música sacra variada mas sempre belíssima (apesar de me terem colocado no coro); com cinco sacerdotes à volta do altar, sinal de que estávamos a assistir ao final de uma caminhada que foi feita sempre em Igreja; com uma festa a seguir que foi divertidíssima, sem excessos, com uma diversão sempre saudável e um entrosamento perfeito entre gerações.

Olhar para aqueles dois noivos, um homem e uma mulher, como Deus quis, a jurar fidelidade e amor para toda a vida, como Deus quis, unidos não só por um amor multifacetado mas também por uma profunda fé; Sabendo que estávamos diante de duas pessoas que têm a mais perfeita noção daquilo que estão a fazer; Sabendo que embora nada esteja garantido nesta vida, ninguém hesitaria em dizer que acreditamos que sim, este casamento é até que a morte os separe; Sabendo que há desejo de ter filhos, amor à vida e generosidade para a acolher.

Enquanto dançava na pista com a minha filha de seis anos, encantada com tudo aquilo, eu pensava nas duas semanas que se passaram e dizia para mim: “Deus queira que os bispos que lá estão possam viver experiências destas. Deus queira que aqueles que estão a falar do casamento não saibam só o que são os casos perdidos, complexos, nulos ou irremediáveis. Deus queira que eles tenham sempre presente que quando se fala de casamento é disto que se fala. Porque se assim for, estamos bem. Mas se não for, então algo está mal.”

Sim, eu lembro-me de quando os sínodos eram maçadores e chatos. E ainda bem que já não são! Mas mais do que isso, obrigado, Nena e Peu, por terem salvo o sínodo para mim e por terem mostrado a todos os vossos convidados o que Deus quer para os seus filhos tão amados.

Wednesday, 18 December 2013

A Alegria do Evangelho - Os Conservadores

Antes sequer de começar, eu sei que estes rótulos “conservador” ou “liberal” são muito redutores. Mas por outro lado também são indicativos, desde que nos lembremos que são estereótipos, e tenhamos algumas reservas.

O problema é que conservador abarca tanto as pessoas que são ultra-tradicionalistas como outras que simplesmente estão com a Igreja em questões fracturantes como o aborto, casamento, ordenação de mulheres etc.

Dito isto, muitas pessoas têm dito que este documento, à imagem de todo o pontificado, tem posto os conservadores “nervosos”. Os conservadores, por seu lado, sobretudo os mais conservadores, fazem logo questão de desmentir e insistir que não há aqui nada de novo.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. É verdade que muitos conservadores sustêm a respiração cada vez que o Papa diz ou escreve alguma coisa. É uma questão de hábito, também… estavam habituados à total segurança de Bento XVI e com Francisco há surpresas. Mas às vezes a ginástica torna-se absurda, como quando alguns insistiram que nesta exortação não há qualquer crítica ao capitalismo, porque o Papa nunca menciona a palavra capitalismo… please!

Vejamos então algumas passagens.

“A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do Evangelho.” (#40)
A questão aqui é que, por mais que isso custe a alguns, a Igreja é de facto uma casa de variedades. Poderão dizer, sim, é certo, mas ao menos em relação à doutrina não há dúvidas. O Papa aqui não usa a palavra dúvidas, mas usa nuances… é mais neutro. Doutrina só há uma, mas como a entendemos? Como a ensinamos? A Igreja não ensina que há hierarquias de verdades? Penso que será essa a janela que o Papa está a abrir aqui.

“Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais grave.” (#41)
“O risco mais grave”… Isto não é brincadeira. E isto sim é algo que eu identifico com alguma facilidade no “campo” conservador. A rigidez da defesa da doutrina, sendo louvável em si, não pode abafar a surpresa e a frescura que deve ser a mensagem cristã. Conhecer Cristo tem de ser mais do que simplesmente ter a fórmula certa na cabeça e observar os rituais.

Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. (#43)

Nalguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história. Assim, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos. (#95)
Lamento, mas esta é uma forma querida e simpática de o Papa dizer aquilo que muitos de nós, e uso o “nós” de propósito, temíamos. Francisco está a falar precisamente das tradições de que tanto gostamos e que ao longo das últimas décadas têm sido abandonadas. Liturgias elaboradas, ritos diferentes e antigos, dos incensos aos paramentos pretos… E fala também de outras curiosidades que Bento XVI estimava mas que Francisco mostrou desde cedo não querer. Os sapatos encarnados, os mil e um apetrechos que, de facto, fazem parte da história e da cultura da Igreja.

Mas não demos um passo maior que as pernas. Francisco não tem paciência para estas coisas, mas não diz que devemos enterrá-las, como muitos andam a tentar fazer desde o Concílio, baseando-se no tal “espírito” vago, que não está na letra dos documentos.

E por isso mesmo, esta atitude do Papa e as suas palavras não deixam de ser absolutamente certeiras. Porque para muitos os paramentos, os incensos, as liturgias, a língua e a orientação do padre deixaram de ser setas a apontar no sentido de Cristo e passaram a ser o próprio objectivo e destino. O Papa não nos diz que estas coisas são más em si, só nos diz que na medida em que não contribuem para iluminar o caminho para Cristo, são dispensáveis.

E não iluminam? Nalguns casos, provavelmente não. Noutros, sim. É esse discernimento que é preciso saber fazer. Não guardar a tradição só porque é antigo e tradicional, mas sim na medida em que contribui para o conhecimento da verdade.

A todos os que sentem agora a tentação de citar estas palavras para celebrar liturgias francamente feias, e igrejas que mais parecem contentores e armazéns, não esqueçamos que o mesmo Papa, neste mesmo documento, pede liturgias belas. Para Jesus o melhor, só o melhor. O melhor tem muitas formas e feitios. Não tem de ser sempre igual e parado no tempo. Mas é sempre belo.

A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa. (#47)
Esta foi uma passagem que levou muita gente a pensar que o Papa preparava terreno para permitir que os divorciados recebam os sacramentos. Eu também a assinalei por causa disso. Contudo, na sua mais recente entrevista, publicada pelo “La Stampa”, o Papa desmente essa ideia e diz que não era isso que queria dizer, que pensava mais especificamente na situação de quem recusa baptizar filhos de mães solteiras e que, no caso dos divorciados “recasados”, o impedimento de comungar não é uma sanção.

A outra maneira é o neopelagianismo auto-referencial e prometeuco de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado. É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. (#94)
Nada a acrescentar a estas palavras, que são muito claramente direccionadas a um estilo de tradicionalistas que, infelizmente, cumpre criteriosamente cada ponto da descrição.

A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja. (#131)
Esta passagem é muito importante para os nossos dias, quando os novos meios de comunicação tornam cada vez mais fácil encontrar quem pensa como nós e assim formarmos grupinhos e grupetas, cuja legitimidade reivindicamos em nome da diversidade.

Por outro lado, não deixa de ter piada ver a ala mais liberal a exigir o fim sem tréguas de tudo o que é movimento e grupo mais conservador, contrariando precisamente essa diversidade que, supostamente, tanto prezam.

O Papa dá aqui uma resposta que desarma ambos esses excessos. A diversidade e a unidade não são incompatíveis… Desde que verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo. E essa confirmação vem-nos pela oração, antes de mais, mas vê-se também nos frutos. De resto o Espírito Santo não é monopólio nem de conservadores nem de liberais, mas serve os propósitos de Deus, sempre.

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Monday, 2 July 2012

Depois dos tradicionalistas, um gesto para os liberais?


Arcebispo Gerhard Ludwig Müller
Bento XVI nomeou hoje um novo prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé. O agora arcebispo Gerhard Ludwig Müller era bispo de Ratisbona e sucede ao cardeal William Levada num dos mais importantes postos da Igreja, ocupado pelo próprio Papa até à sua eleição em 2005.

Confesso que fiquei surpreendido com a esta troca. Levada já tinha idade para resignar, mas o Papa também o podia ter mantido no lugar. A mudança vem numa altura em que o americano tinha acabado de ver frustrada, pelo menos temporariamente, a reconciliação com os tradicionalistas da SSPX. Surge também depois da “condenação” às freiras americanas, um acto que no meu entender era perfeitamente justo, mas que poderá não ter sido tratado da forma mais delicada. Pode mesmo ter sido esse episódio que levou a que finalmente o Vaticano contratasse um especialistas para regular as relações com a imprensa.

A saída de Levada será um castigo? Foi o que pensei inicialmente, mas vozes mais entendidas que eu garantem que não, foi mesmo só por limite de idade… talvez. Talvez eu esteja a cair na tentação de procurar conspirações em todo o lado.

O que dizer de Müller? Ao que parece, ele é um daqueles casos peculiares, considerado liberal pelos tradicionalistas e conservador pelos liberais. Os sites e blogues de pendor mais tradicionalista (católicos ou não), estão a alertar para o facto de Müller ser defensor da teologia da libertação, a corrente que fez tanto furor na América Latina nas últimas décadas e que ainda tem muitos proponentes, mas que até agora o Vaticano tinha condenado de forma bastante clara. Não deixa de ser estranho ter na CDF um pessoa que vê o movimento com bons olhos e que o tem defendido publicamente diversas vezes.

Bento XVI tem sido criticado por só ter gestos de aproximação para uma certa ala da Igreja. Desde as conversações com os herdeiros de Lefebvre, passando pela criação de ordinariatos pessoais para ex-anglicanos, na vasta maioria conservadores, até à “censura” às freiras americanas. Esta nomeação pode então ser entendida como um gesto de boa vontade para com a ala liberal, dando um pequeno encorajamento a uma das suas causas preferidas, a teologia da libertação.

Aparentemente, contudo, seria um gesto destinado a rebentar completamente com qualquer possibilidade de reunificação com a SSPX. Ainda por cima, Müller e a SSPX já tiveram trocas de palavras bastante azedas no passado.

Arcebispo Di Noia
Será aí que entra outra nomeação feita a semana passada, a do Arcebispo Di Noia para vice-presidente da Ecclesia Dei, uma comissão criada precisamente para lidar com grupos tradicionalistas. Di Noia veio preencher um lugar que estava vago há anos, sendo que o presidente da Ecclesia Dei é sempre o prefeito da CDF.

Penso, portanto, que o esquema será este:
Müller na CDF para se dedicar às milhentas coisas que a CDF faz e tentar equilibrar a imagem de uma agência que muitos pensam que existe para perseguir apenas liberais, mas essencialmente fora das conversações com a SSPX, e Di Noia na Ecclesia Dei, como vice-presidente mas a agir com autonomia, para procurar selar o regresso da SSPX.

O tempo dirá se é esta a realidade ou não.

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